1 de julho de 2017

O fim

ALGUÉM ME COLOCOU dentro de um forno quente e fechou a porta.
Alguém tacou querosene em mim e acendeu um fósforo.
Acordo devagar, com o corpo pegando fogo, consumido pelas chamas. Os lençóis estão gelados e úmidos. Estou empapada de suor.
O que está acontecendo comigo? Levo um momento para me dar conta de que há muitas, muitas coisas erradas.
Estou tremendo. Estou mais do que tremendo. Meu corpo balança incontrolavelmente e minha cabeça dói. Meu cérebro está sendo espremido em um torno. A dor se irradia e tromba nos nervos atrás dos meus olhos.
Meu corpo é uma ferida recém-aberta. Até a minha pele dói.
No início, acho que devo estar sonhando, porém meus sonhos jamais são tão lúcidos. Tento me sentar, aproximar o cobertor, mas não consigo. Olly ainda está dormindo e deitado em cima das cobertas.
Tento me sentar novamente, mas a dor se enterra nos meus ossos.
O torno ao redor do meu cérebro se aperta e agora um picador de gelo golpeia indiscriminadamente a pele macia.
Tento gritar, mas minha garganta está em carne viva, como se eu houvesse gritado por dias e dias.
Estou doente.
Estou mais do que doente. Estou morrendo.
Ah, meu Deus. Olly.
Esta coisa vai fazer o meu coração parar.
Ele acorda assim que esse pensamento passa pela minha cabeça.
— Mad? — Olly me chama no escuro.
Ele liga o abajur sobre uma das mesas de cabeceira e meus olhos queimam. Eu os aperto e tento virar para o outro lado. Não quero que ele me veja assim, mas já é tarde demais. Vejo o rosto dele ir da confusão, passando pelo reconhecimento, até chegar à incredulidade. E por fim o terror se instala.
Ele toca o meu rosto, meu pescoço, minha testa.
— Desculpe — eu digo, ou tento dizer, mas não creio que as palavras tenham saído dos meus lábios.
Ele toca o meu rosto, meu pescoço, minha testa.
— Jesus — ele repete sem parar. — Jesus.
Ele tira o cobertor de cima de mim e sinto mais frio do que jamais imaginei ser possível.
— Meu Deus do Céu, Maddy, você está pegando fogo.
— Frio — resmungo. E ele parece ainda mais apavorado.
Ele me cobre e afaga a minha cabeça, beija minha testa molhada, meus lábios.
— Você está bem — Olly diz. — Você vai ficar bem.
Não estou, mas é legal da parte dele falar isso. Meu corpo pulsa por causa da dor e sinto que minha garganta parece fechada. Não consigo absorver ar suficiente.
— Preciso de uma ambulância — eu o ouço pedir.
Viro a cabeça pelo quarto. Quando ele foi parar daquele lado? Onde nós estamos? Ele está ao telefone. Ele está falando a respeito de alguém. Alguém doente. Alguém está doente. Morrendo.
Emergência. Os comprimidos não estão funcionando.
Ele está falando de mim.
Ele está chorando. Não chore. A Kara vai ficar bem. A sua mãe vai ficar bem. Você vai ficar bem.
A cama afunda. Estou sobre areia movediça. Alguém está tentando me tirar do atoleiro. As mãos dele são quentes. Por que elas são tão quentes?
Algo brilha na outra mão. É o celular. Ele está falando alguma coisa, mas as palavras não saem claras. Alguma coisa. Mãe. A sua mãe.
Sim. Mãe. Preciso da minha mãe. Ela já estava a caminho. Espero que esteja perto.
Fecho os olhos e aperto os dedos dele.
Perco a noção do tempo.
Meu.
Coração.
Para.
E volta a bater.


LIBERADA, PARTE UM


RESSUSCITADA
NÃO ME LEMBRO de muita coisa, só de uma combinação confusa de imagens. A ambulância. Ter uma das pernas furadas uma vez. Depois duas. Injeções de adrenalina para reanimar o coração. Sirenes tocando lá longe e depois muito próximas. Uma TV que pisca do branco para o azul em um dos cantos do quarto. Máquinas que soltam apitos e bipes e mantêm sua vigília dia e noite. Mulheres e homens em uniformes brancos. Estetoscópios, agulhas e antissepsia.
E então o cheiro de combustível de avião, aquele cheiro que foi tão bem-vindo antes, colares de flores e um cobertor que me dá coceira enrolado duas vezes ao redor do meu corpo e que diferença faz estar sentada perto da janela se elas estão todas fechadas?
Lembro do rosto da minha mãe e de como as lágrimas poderiam formar um mar. Lembro dos olhos azuis do Olly ficando pretos. Fechei os meus graças à culpa, o alívio e o amor que sentia por vê-lo ali.
Estou a caminho de casa, onde vou ficar trancafiada para sempre.
Estou viva, mas não queria estar.


READMITIDA
MINHA MÃE transformou meu quarto em uma enfermaria. Travesseiros apoiam minhas costas na cama e estou tomando soro. Estou cercada por equipamentos de monitoramento. Não me alimento de nada além de gelatina.
Sempre que acordo, minha mãe está ao meu lado. Ela toca minha testa e fala comigo. Às vezes tento manter o foco, entender o que ela diz, mas as palavras estão simplesmente fora do meu alcance.
Acordo mais uma vez algum tempo depois (horas? dias?) para encontrá-la de pé ao meu lado, franzindo a testa enquanto olha a prancheta. Fecho os olhos e faço um inventário do meu corpo. Nada dói, ou, mais exatamente, nada dói muito. Confiro a cabeça, a garganta, as pernas. Está tudo bem.
Abro os olhos de novo e a encontro prestes a me colocar para dormir novamente.
— Não! — Eu me sento rápido demais. Fico ao mesmo tempo tonta e nauseada. Tento dizer estou bem, mas nenhum som sai da minha boca.
Limpo a garganta e tento mais uma vez:
— Por favor, não me coloque para dormir outra vez. — Preciso ficar acordada já que vou continuar viva. — Eu estou bem? — pergunto.
— Você está bem. Você vai ficar bem. — A voz dela treme até sumir.
Eu me sento e olho para ela. A pele está pálida, quase translúcida, e está esticada demais sobre os ossos do rosto. Uma veia de aparência dolorosa vai do fim do couro cabeludo até as pálpebras.
Posso ver outras veias azuis sob a pele dos antebraços e dos pulsos. Ela tem os olhos apavorados e incrédulos de alguém que presenciou algo terrível e está esperando por mais desastres.
— Como você pôde fazer isso consigo mesma? Você poderia ter morrido — minha mãe sussurra. Ela dá um passo à frente e abraça a prancheta junto ao peito. — Como você pôde fazer uma coisa dessas comigo? Depois de tudo?
Quero dizer alguma coisa. Abro a boca, mas nada sai dela.
Minha culpa é um oceano no qual me afogo.
Permaneço na cama até que ela vá embora. Não me levanto para alongar o corpo. Dou as costas para a janela. Do que eu me arrependo? Em primeiro lugar, por ter ido Lá Fora. Por ter visto e me apaixonado pelo mundo. Por ter me apaixonado pelo Olly. Como poderei viver o resto da minha vida nesta bolha agora que sei o que estou perdendo?
Fecho os olhos e tento dormir. Porém, a visão do rosto da minha mãe mais cedo, todo o amor desesperado nos olhos dela, não sai da minha cabeça. Decido então que o amor é uma coisa muito, muito horrível. Amar alguém tão profundamente quanto minha mãe me ama deve ser como viver com o coração do lado de fora do peito, sem nenhuma pele, ossos, nada para protegê-lo.
Amar é horrível e perder um amor é ainda pior.
Amar é horrível e eu não quero mais saber dessas coisas.


LIBERADA, PARTE DOIS
Quarta-feira, 18:56
Olly: jesus, onde você esteve?
Olly: você está bem?
Madeline: Sim.
Olly: o que a sua mãe diz?
Olly: você vai ficar bem?
Madeline: Estou bem, Olly.
Olly: tentei visitar você, mas a sua mãe não deixou
Madeline: Ela está me protegendo.
Olly: eu sei
Madeline: Obrigada por salvar a minha vida.
Madeline: Desculpe por colocar você no meio de toda essa situação.
Olly: você não precisa me agradecer
Madeline: Obrigada de qualquer forma.
Olly: tem certeza que você está bem?
Madeline: Por favor, não me pergunte mais isso.
Olly: desculpe
Madeline: Não precisa se desculpar.

Mais tarde, 21:33
Olly: é legal poder bater papo pela internet com você de novo
Olly: você é uma mímica terrível
Olly: diz alguma coisa
Olly: sei que você está desapontada, Mad, mas pelo menos você está viva
Olly: vamos conversar com a sua mãe assim que você estiver melhor. talvez eu possa fazer uma visita
Olly: sei que você não pode ter tudo, Mad, mas isso é melhor do que nada

Mais tarde, 0:05
Madeline: Isso não é melhor do que nada. É absolutamente pior que nada.
Olly: o quê?
Madeline: Você acha que podemos voltar a como era antes?
Madeline: Você quer voltar para a descontaminação e as visitas curtas, nada de beijar, tocar, nada de ter um futuro?
Madeline: Você está dizendo que isso é suficiente para você?
Olly: é melhor que nada
Madeline: Não, não é. Pare de dizer isso.

Mais tarde, 2:33
Olly: e os comprimidos?
Madeline: O que têm eles?
Olly: funcionaram por alguns dias. talvez no fim das contas esses comprimidos possam funcionar
Olly: maddy?
Madeline: Não tinha comprimido nenhum.
Olly: o que você quer dizer com isso?
Madeline: Nunca houve comprimido algum. Falei isso só para você ir comigo.
Olly: você mentiu para mim?
Olly: mas você podia ter morrido e seria culpa minha
Madeline: Eu não sou responsabilidade sua.

Mais tarde, 3:42
Madeline: Eu queria tudo, Olly. Queria você e o mundo inteiro. Eu queria todas as coisas.
Madeline: Não consigo mais fazer isso.
Olly: fazer o quê?
Madeline: Não consigo mais conversar com você pela internet. Nem por e-mail. É muito difícil. Não posso voltar a viver assim. Minha mãe tem razão. A vida era melhor antes.
Olly: melhor para quem?
Olly: não faça isso Maddy
Olly: minha vida é melhor com você nela
Madeline: mas a minha não é
<Madeline se desconectou>


A VIDA É CURTA®
Resenhas com spoilers por Madeline
O HOMEM INVISÍVEL, DE RALPH ELLISON
Alerta de spoiler: Você não existe se eu não posso vê-lo.

2 comentários:

  1. Eu ainda tive esperanças que ela tinha se curado do nada, affs

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  2. Gente do céu, foi triste pra ele, quase chorei.

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Boa leitura :)