1 de julho de 2017

Numerologia

NÚMERO DE:
minutos que o pai do Olly levou para começar a gritar depois de chegar em casa na noite passada:
8
reclamações sobre a porcaria do rosbife que cozinhou demais de novo:
4
vezes que a mãe do Olly pediu desculpas:
6
vezes que o pai do Olly chamou a Kara de droga de aberração por usar esmalte preto:
2
minutos que a mãe do Olly levou para remover o esmalte da unha de Kara:
3
vezes que o pai do Olly mencionou que ele sabia que alguém bebeu a porcaria do uísque dele:
5
que ele é o cara mais esperto naquela casa:
2
que ninguém deve esquecer que é ele quem ganha todo o dinheiro:
2
trocadilhos engraçados que tive de fazer para que o Olly se sentisse levemente melhor quando conversamos pela internet às 3 da manhã:
5
vezes que ele escreveu “isso não importa” durante nossa conversa:
7
horas de sono na noite passada:
0
cigarros que a Kara enterrou no jardim essa manhã:
4
roxos visíveis na mãe do Olly:
0
roxos invisíveis:
incertos
hora até eu ver o Olly de novo:
0,5


OLLY DIZ
ELE NÃO ESTÁ NA parede quando o vejo de novo no dia seguinte. Em vez disso, está no que começo a achar que é sua posição de descanso: balançando levemente o corpo, equilibrado sobre os calcanhares com as mãos enfiadas nos bolsos.
— Oi — eu o cumprimento da porta, esperando que o meu estômago comece a fazer a dança maluca do Olly.
— E aí? — A voz dele é baixa e um tanto rouca devido à falta de sono. — Obrigada pelo papo ontem. — Os olhos dele me acompanham durante todo o meu caminho até o sofá.
— Disponha. — Minha própria voz também está sussurrada e áspera. Ele parece mais pálido do que o normal e os ombros desmoronam um pouco para a frente, mas mesmo assim ele não para quieto.
— Às vezes eu só queria desaparecer e deixá-los para trás — ele confessa, envergonhado.
Quero dizer algo, não apenas isso, mas sim dizer a coisa perfeita para confortá-lo, para fazê-lo esquecer da família por alguns minutos, mas não consigo pensar em nada. É por isso que as pessoas tocam as outras. Em certas ocasiões, as palavras simplesmente não são suficientes.
Nossos olhos se encontram e, já que não posso abraçá-lo, envolvo bem apertado os braços ao redor da minha própria cintura.
Os olhos do Olly se erguem até o meu rosto como se ele tentasse se lembrar de algo.
— Por que eu sinto como se conhecesse você desde sempre?
Eu não sei, mas também sinto o mesmo. Ele para de se mover, chegando à conclusão de que precisava.
Ele diz que nosso mundo pode mudar em um único momento.
Ele diz que ninguém é inocente, a não ser talvez você, Madeline Whittier.
Ele diz que o pai dele não foi sempre desse jeito.


TEORIA DO CAOS
UM OLLY DE DEZ anos e o pai dele estão à mesa no café da manhã na velha cobertura deles em Nova York. É época de Natal e está nevando lá fora, ou talvez tenha acabado de parar. Essa é uma memória, de modo que os detalhes são um pouco incertos.
O pai dele fez chocolate quente. Ele é um especialista e se orgulha de prepará-lo com lascas de chocolate. Ele derrete barras de chocolate raladas e usa leite integral, “com cem por cento de gordura”. Ele pega a caneca favorita do Olly, coloca uma camada de chocolate e acrescenta 200 ml de leite quente, aquecido quase a ponto de ferver no fogão — nunca no micro-ondas. Olly mistura o leite e o chocolate enquanto o pai pega o creme, também recém-preparado, na geladeira. O creme é apenas levemente adoçado, o tipo de doce que faz você querer mais. Ele coloca uma colherada, talvez duas, na caneca do Olly.
Olly ergue a caneca e sopra o creme já derretido, que desliza pela superfície como um iceberg em miniatura. Ele olha para o pai por sobre a caneca, tentando avaliar qual seria o seu humor naquele dia.
Nos últimos tempos, o pai andava de mau humor, pior que o normal.
— Newton estava errado — o pai dele diz. — O universo não é determinista.
Olly bate com os pés no chão repetidas vezes. Ele ama quando o pai fala com ele desse jeito, “mano a mano”, como se ele fosse um adulto, apesar de nem sempre entender o que o pai diz. Eles passaram a ter mais esse tipo de conversa depois que o pai foi suspenso do trabalho.
— O que isso significa? — Olly pergunta.
O pai sempre espera que ele pergunte antes de explicar o que quer que seja.
— Significa que uma coisa não leva sempre à outra. — Ele toma um gole de chocolate quente. Por algum motivo, o pai nunca sopra algo quente antes de beber. Ele simplesmente manda o líquido direto para dentro. — Significa que você pode fazer qualquer porcaria certa e mesmo assim sua vida pode se transformar numa merda.
Olly segura o gole de chocolate quente na boca e encara a caneca.
Há algumas semanas a mãe do Olly explicou que o pai deles ia ficar em casa por um tempo até que as coisas melhorassem no trabalho. Ela não contou o que havia de errado, mas Olly entreouviu palavras como “fraude” e “investigação”. Ele não tem muita certeza do que qualquer uma delas significa, apenas que o pai parece amar Olly, Kara e a mãe deles um pouco menos que antes. E quanto menos ele parece amá-los, mais eles se esforçam para serem amados.
O telefone toca e o pai dele corre para atendê-lo.
Olly dá um grande gole no chocolate quente e escuta.
No início, o pai faz a mesma voz que utiliza no trabalho, que é raivosa e relaxada ao mesmo tempo. Entretanto, por fim, a voz se torna apenas irada.
— Você está me demitindo? Você acabou de me dizer que aqueles babacas estavam limpando a minha barra.
Ele coloca a caneca sobre a mesa e escorrega no banco.
O pai caminha de um lado para o outro na cozinha. Seu rosto é uma tempestade.
— Eu não ligo para a porcaria do seu dinheiro. Não faça isso, Phil. Se você me demitir, todo mundo vai pensar que...
Ele para de andar e segura o telefone afastado da orelha. Não fala nada por um longo minuto. Olly também fica parado, torcendo para que o que quer que o Phil diga em seguida, isso resolva tudo.
— Meu Deus do céu. Vocês não podem fazer isso comigo. Todos vão se afastar de mim depois disso.
Olly quer ir até o pai e dizer que tudo ficará bem, mas não pode fazer isso. Ele escapole da cozinha, levando seu chocolate.
A primeira vez que o pai do Olly ficou bêbado durante a tarde, violentamente bêbado, bêbado-a-ponto-de-gritar-com-toda-a-força-de-seus-pulmões, bêbado-a-ponto-de-no-dia-seguinte-não-lembrar-do-que-aconteceu foi só alguns meses depois. Ele ficou em casa o dia todo, discutindo com programas sobre finanças na televisão. Um dos âncoras mencionou o nome de sua antiga empresa e ele teve um acesso de raiva. Colocou uísque em um copo alto e depois acrescentou vodca e gim. Misturou tudo com uma colher comprida até que a mistura deixasse de apresentar a cor de âmbar pálida do uísque e em vez disso se parecesse mais com água.
Olly observou a cor desbotar no copo e lembrou do dia em que o pai fora demitido e como sentiu medo de confortá-lo. Se ele tivesse agido de outra forma, será que as coisas seriam diferentes naquele momento? E se fossem?
Ele lembrou como o pai havia dito que uma coisa nem sempre leva à outra. Olly se lembrou de estar sentado à mesa do café da manhã e misturar o leite e o chocolate. De como o chocolate ficou branco, o leite se tornou marrom e de como às vezes não dá para separar as coisas, não importa o quanto você queira fazer isso.


4 comentários:

  1. Não gosto do pai do olly,sinto muito

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  2. O pai do Olly foi fraco,com toda essa situação. No mundo em que vivemos infelismente isso é bem comum, pessoas sendo fraca e se entregando ao fracasso no momento em que deveria ser forte. E o pior e a maneira como agem, como se tudo e todos fossem culpados dos fatos! A vida é nossas amiga, só precisamos pensar antes de agir! Muita pena de familias como essa.

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Boa leitura :)