1 de julho de 2017

Inícios e finais

QUATRO DIAS SE PASSAM. Eu como. Faço meu dever de casa. Não leio. Minha mãe vaga ao redor como se sofresse de amnésia. Não acho que ela tenha compreensão do que aconteceu. Minha mãe parece se dar conta de que há algo que ela deve consertar, mas não tem certeza do que venha a ser. Às vezes ela tenta falar comigo, mas eu a ignoro. Mal olho para ela.
Na manhã após eu descobrir a verdade, a Carla levou amostras do meu sangue para o dr. Chase, o especialista em IDCG. Estamos no consultório dele agora, esperando que eu seja chamada. E, apesar de eu saber o que ele vai dizer, temo a confirmação médica sobre o meu estado.
Quem serei eu se não for mesmo doente?
Uma enfermeira chama meu nome e peço para que a Carla espere do lado de fora. Seja qual for o motivo, quero ouvir a notícia sozinha.
O dr. Chase se levanta quando entro na sala. Ele parece com as fotos que vi na internet — um homem branco de uma certa idade com cabelos grisalhos e olhos pretos e brilhantes.
Ele olha para mim com uma mistura de simpatia e curiosidade.
O dr. Chase faz um gesto para que eu me sente e espera que eu o faça até voltar também para sua cadeira.
— O seu caso — ele começa, então faz uma pausa.
Ele está nervoso.
— Tudo bem — incentivo. — Eu já sei.
Ele abre uma pasta sobre a mesa e balança a cabeça como se ainda estivesse confuso com os resultados.
— Repassei estes laudos várias e várias vezes. Chequei com os meus colegas para ter certeza absoluta. Você não está doente, srta. Whittier.
Ele para e espera pela minha reação.
Balanço a cabeça.
— Eu já sabia.
— Carla, a enfermeira Flores, me passou o seu histórico. — Ele folheia mais algumas páginas, compenetrado, tentando evitar o que precisa dizer a seguir. — Como médica, sua mãe deveria saber disso. Sabe-se que a IDCG é uma doença muito rara que se manifesta de diferentes formas, mas você não tem nenhum, absolutamente nenhum dos sintomas registrados da doença. Se sua mãe fez alguma pesquisa, qualquer exame que seja, ela sabe disso.
As paredes do consultório caem por terra e estou em uma paisagem vazia e branca, ponteada por portas abertas que não levam a lugar algum.
Quando finalmente volto a mim, o dr. Chase está me observando, na expectativa.
— Desculpe, o senhor falou alguma coisa? — indago.
— Sim. Deve haver algumas perguntas que você queira fazer.
— Por que fiquei doente no Havaí?
— As pessoas ficam doentes, Madeline. Pessoas normais e saudáveis ficam doentes o tempo todo.
— Mas o meu coração parou.
— Sim. Suspeito que foi uma miocardite. Conversei também com a médica que a atendeu no Havaí. Ela suspeita do mesmo diagnóstico. Basicamente, em algum momento do seu passado você teve uma infecção viral que enfraqueceu o coração. Você sentiu alguma dor no peito ou falta de ar quando esteve no Havaí?
— Sim — confirmo devagar, lembrando-me do aperto no peito que eu, teimosa, ignorei.
— Bem, a miocardite parece ser uma candidata bastante provável.
Não tenho nenhuma outra pergunta, pelo menos não para ele, de qualquer forma. Eu me levanto.
— Bem, muito obrigada, dr. Chase.
Ele também se levanta, agitado e parecendo ainda mais nervoso do que antes.
— Antes que você vá embora, há mais uma coisa.
Eu me sento novamente.
— Devido às circunstâncias em que você foi criada, não temos muita certeza a respeito das condições do seu sistema imunológico.
— O que isso significa?
— Achamos possível que ele tenha se desenvolvido de forma reduzida, como se pertencesse a uma criança.
— Uma criança?
— O seu sistema imunológico jamais foi exposto a viroses e infecções comuns na vida de qualquer pessoa. Ele não teve tempo para se tornar experiente o suficiente para lutar contra essas infecções. Ele não teve tempo para se fortalecer.
— Então, quer dizer que eu ainda estou doente?
Ele se recosta na cadeira.
— Não tenho uma resposta exata para você. Estamos pisando em um território inexplorado. Jamais ouvi falar sobre um caso como o seu antes. Isso pode significar que você vai ficar doente com mais frequência do que as pessoas com sistemas imunológicos saudáveis. Ou pode significar que, se você ficar doente, o problema será muito grave.
— Como eu poderei saber?
— Não creio que haja uma maneira de saber. Recomendo cautela.
Marcamos visitas semanais de revisão. Ele me diz que devo ir com calma quando começar a conhecer o mundo. Nada de grandes multidões, comidas que não me são familiares nem atividades físicas exaustivas.
— O mundo não vai para lugar algum — ele me diz enquanto saio do consultório.


DEPOIS DA MORTE DE
PASSO AS SEMANAS seguintes pesquisando mais qualquer informação que explique o que aconteceu comigo e o que aconteceu com a minha mãe. Quero encontrar algum diário com os pensamentos dela escritos com letra legível. Quero ver a loucura dela claramente delineada de maneira que possa traçar seu histórico por mim mesma. Quero detalhes e explicações. Quero saber por que e por que e por quê. Preciso saber o que aconteceu, mas ela não pode me dizer. Ela está muito machucada. E se ela pudesse fazer isso? Faria alguma diferença? Será que eu entenderia? Será que eu entenderia os níveis de dor e medo que a levaram a tirar a minha vida?
O dr. Chase me diz que ela precisa de um terapeuta. Ele acha que levará um longo tempo até que ela possa explicar o que aconteceu. Se é que esse dia chegará. Ele supõe que minha mãe tenha sofrido alguma espécie de colapso depois que meu pai e meu irmão morreram.
Carla tenta usar todo o seu poder de persuasão para tentar me convencer a não sair de casa. Não só pelo bem da minha mãe, mas pelo meu próprio. Minha saúde ainda é desconhecida.
Cogito a possibilidade de mandar um e-mail para o Olly, mas tanto tempo se passou. Eu menti para ele. Ele provavelmente se mudou. Provavelmente encontrou outra pessoa. Não tenho certeza se sou capaz de suportar mais um coração partido. E o que eu diria? Que quase não estou mais doente?
No fim, a Carla me convence a ficar com a minha mãe. Ela diz que sou uma pessoa melhor que isso. Não tenho tanta certeza. Fosse quem fosse a pessoa que eu era antes, ela morreu depois que descobri a verdade.


UMA SEMANA D.M.
TENHO A MINHA primeira consulta semanal com o dr. Chase. Ele pede incansavelmente para que eu tenha cautela.
Instalo uma fechadura na porta do meu quarto.


DUAS SEMANAS D.M.


TRÊS SEMANAS D.M.
MINHA MÃE TENTA ENTRAR no meu quarto, mas a porta está trancada por dentro. Ela vai embora.
Faço mais dois rascunhos de e-mails para o Olly, mas não envio.
O dr. Chase continua a clamar por cautela.


QUATRO SEMANAS D.M.
PINTO CADA PAREDE do meu quarto de uma cor diferente. A da janela está amarelo-claro, cor de manteiga. As prateleiras estão pintadas de laranja-poente contra uma parede azul-pavão. A parede onde fica a cabeceira da minha cama é cor de lavanda e a última está preta, pintada com tinta de quadro-negro.
Minha mãe bate na minha porta, mas finjo que não ouço.
Ela vai embora.


CINCO SEMANAS D.M.
ENCOMENDO PLANTAS de verdade para o solário. Desligo os filtros de ar e abro as janelas. Compro cinco peixinhos dourados, dou a todos eles o nome de Olly e solto-os na fonte.


SEIS SEMANAS D.M.
O DR. CHASE INSISTE que é muito cedo para que eu tente me matricular em uma escola de ensino médio. Há muitos adolescentes com muitas doenças por lá. Carla e eu o persuadimos a permitir que alguns dos meus tutores me visitem pessoalmente quando puderem. Ele fica relutante, mas concorda.


A MÃE DE MADELINE



FLORES PARA ALGERNON
UMA SEMANA DEPOIS, a Carla e eu observamos enquanto o sr. Waterman cruzava o gramado de carro para ir embora de vez de minha casa. Eu lhe dei um abraço antes de sua partida. Ele ficou surpreso, mas não perguntou nada. Simplesmente me abraçou também como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Fiquei do lado de fora por alguns minutos depois que ele foi embora e a Carla esperou comigo.
Ela estava tentando achar um jeito de partir com jeitinho o meu coração que já estava despedaçado.
— Então... — ela começa.
Sei o que vai dizer. Ela passou o dia inteiro juntando forças para falar aquilo.
— Por favor, não me deixe, Carla. Eu ainda preciso de você.
Os olhos dela ainda estão em mim, mas não sou capaz de olhar para ela.
Ela não rebate o que eu disse, apenas pega as minhas mãos nas suas.
— Se você realmente, de verdade, precisa que eu fique, eu ficarei. — Ela aperta os meus dedos. — Mas você não precisa de mim.
— Eu sempre vou precisar de você. — Não tento impedir as lágrimas de caírem.
— Mas não como antes — ela diz suavemente.
É claro que a Carla está certa. Eu não preciso que ela fique aqui comigo oito horas por dia. Não necessito de cuidados constantes. Mas o que vou fazer sem ela?
Minhas lágrimas se transformam em soluços profundos. Ela me envolve em seus braços e deixa que eu chore até que as lágrimas se esgotem.
— O que você vai fazer?
Ela seca o meu rosto com os lados das mãos.
— Posso voltar a trabalhar em um hospital.
— Você já contou para a minha mãe?
— Hoje de manhã.
— O que ela disse?
— Ela me agradeceu por cuidar de você.
Não tento esconder a careta que se forma em meu rosto.
Ela pega o meu queixo.
— Quando você vai abrir o seu coração e perdoá-la?
— O que ela fez é imperdoável.
— Ela estava doente, querida. Ela ainda está doente.
Faço que não com a cabeça.
— Ela me tirou toda a minha vida.
Mesmo agora, quando penso em todos os anos que perdi, eu me sinto como se estivesse à beira de um enorme abismo, como se eu pudesse cair e nunca mais voltar.
Carla me empurra de volta para o presente.
— Não foi a sua vida toda. Você ainda tem muito pela frente.
Voltamos para dentro. Eu a observo recolher suas coisas pela última vez.
— Você leu Flores para Algernon?
— Li.
— Gostou?
— Não. Não é o meu tipo de livro. Não há muita esperança naquelas páginas.
— Ele fez você chorar, não é?
Ela faz que não com a cabeça, mas logo confessa:
— Tudo bem, fez, sim. Como um bebê.
Nós duas caímos na gargalhada.

2 comentários:

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Boa leitura :)