1 de julho de 2017

Geografia

ESTOU EM UM CAMPO sem fim repleto de papoulas vermelhas. As papoulas chegam até a minha cintura presas por caules verdes e são tão vermelhas que sua cor lembra sangue. Vejo um Olly, depois dois e logo em seguida vários Ollys marcham na minha direção, silenciosos e determinados. Eles usam máscaras de gás, algemas e esmagam as papoulas com suas botas negras.
O sonho não sai da minha cabeça. Passo o dia acordada, mas ao mesmo tempo eu sonho, tentando não pensar no Olly. Tento não pensar em quando o vi pela primeira vez. Como ele parecia ter vindo de outro planeta. Tento não pensar em bolos bundts nem em plantar bananeira, beijos e areia aveludada. Em como nossos segundo, terceiro e quarto beijos foram ainda mais incríveis que os outros. Tento não lembrar dele se movendo para dentro de mim e de nós dois nos mexendo juntos. Tento não pensar nele porque, se eu fizer isso, vou lembrar de como eu estava conectada àquele menino e ao mundo há apenas alguns dias.
Terei de lembrar de toda a esperança que eu tinha antes. De como me enganei ao pensar que eu era um milagre. De como o mundo do qual eu queria tão desesperadamente fazer parte não me quis.
Preciso esquecer o Olly. Aprendi minha lição. O amor pode matar e prefiro continuar sobrevivendo aqui dentro do que vivendo lá fora.
Uma vez falei para o Olly que eu conhecia meu próprio coração melhor do que qualquer outra coisa e isso ainda é verdade. Conheço todos os lugares do meu coração, só que os nomes mudaram.


MAPA DO DESESPERO


A VIDA É CURTA®
Resenhas com spoilers por Madeline
O ESTRANGEIRO, DE ALBERT CAMUS
ESPERANDO GODOT, DE SAMUEL BECKETT
A NÁUSEA, DE JEAN-PAUL SARTRE
Alerta de spoiler: Tudo é nada.


SELECIONAR TUDO, DELETAR


FINGINDO
FICO MAIS FORTE a cada dia que passa. Nada mais dói, a não ser meu coração, mas estou tentando não usá-lo. Mantenho as cortinas fechadas. Leio meus livros. Os existencialistas e os niilistas. Não tenho paciência para livros que fingem que a vida tem um sentido. Não tenho paciência para finais felizes.
Não penso no Olly. Ele me manda e-mails e eu os envio para a lixeira antes de lê-los.
Depois de duas semanas, estou forte o suficiente para assistir a algumas aulas. Depois de mais duas semanas, estou pronta para assistir a todas.
Não penso no Olly. Joguei fora mais e-mails dele.
Minha mãe ainda está tentando me pôr nos eixos. Ela ronda o meu quarto. E se preocupa, faz um alvoroço e me dá remédios. Agora que estou mais forte, ela me persuade a voltar com as noites de mãe-e-filha. Como Olly, ela quer que nossas vidas voltem a ser o que eram antes. Não curto nossas noites juntas — na verdade, eu não curto mais nada —, porém, faço isso por ela. Minha mãe perdeu ainda mais peso. Estou alarmada e não sei como colocá-la nos eixos, de forma que jogamos Palavras Cruzadas Fonéticas e Imagem & Ação em Nome do Outro, assistimos filmes e fingimos.
Os e-mails de Olly param de chegar.
— Pedi para a Carla voltar — ela diz uma noite antes do jantar.
— Pensei que você não confiasse mais nela.
— Mas eu confio em você. Você aprendeu a lição da forma mais difícil. Algumas coisas, precisamos experimentar por nós mesmos.


JUNTAS NOVAMENTE
NO DIA SEGUINTE, a Carla chega aqui em casa apressada. Ainda mais apressada que o normal, e finge que o tempo não passou.
Ela vem imediatamente falar comigo.
— Desculpe — pede a Carla. — Foi tudo minha culpa.
Tento me manter firme diante dela, pois, caso contrário, vou derreter. Se eu chorar, tudo se tornará real. E aí eu de fato terei de viver esta vida. E de fato jamais verei Olly novamente.
Faço um esforço para me segurar, mas não consigo. Ela é o travesseiro macio sobre o qual eu deveria chorar. Uma vez que eu começo, choro por uma hora sem parar. Ela está encharcada e eu não tenho mais lágrimas. Penso comigo mesma: será que é possível gastar todas as suas lágrimas?
Respondo à minha própria pergunta e choro um pouco mais.
— Como está a sua mãe? — ela pergunta quando eu finalmente paro.
— Ela não me odeia.
— As mães não sabem como odiar os seus bebês. Elas os amam demais.
— Mas ela deveria. Sou uma filha horrível. Fiz uma coisa horrorosa.
Mais lágrimas começam a escorrer, mas a Carla as seca com as mãos.
— E o seu Olly?
Balanço a cabeça. Vou contar tudo para ela, mas não sobre isso. Meu coração está muito ferido e quero manter essa dor como um lembrete e não jogar uma nova luz sobre ela. Não quero que ela se cure. Porque, se isso acontecer, posso me sentir tentada a tê-la de novo.

• • •

Nós nos adaptamos à nossa rotina normal. Cada dia é como o anterior e não será muito diferente do próximo. O galo ama o lago. Estou trabalhando no modelo de uma maquete de uma biblioteca com um interior repleto de escadas que dão em lugar nenhum no melhor estilo do Escher. Do lado de fora, ouço um ronco e depois um bipe. Desta vez eu imediatamente sei o que é.
No início, não vou para a janela. Mas a Carla vai até lá e me conta o que vê. É um caminhão de mudança — Mudanças Dois Irmãos. Os irmãos saíram do caminhão e descarregaram carrinhos, caixas vazias e fita crepe. Eles falam com a mãe do Olly. Kara e Olly também estão lá. Não há nenhum sinal do pai deles, Carla me diz.
Sou vencida pela curiosidade e vou para a janela espiar por detrás da cortina. Carla está certa. O pai do Olly não está em lugar nenhum. Olly, Kara e a mãe caminham, frenéticos, de um lado para o outro. Eles correm para dentro e para fora da casa, carregando caixas fechadas ou sacos de lixo cheios até a boca, largando-os na varanda para que o pessoal da mudança os coloque dentro do caminhão. Ninguém fala nada. Mesmo daqui, dá para perceber que a mãe dele está nervosa. Após alguns minutos, Olly para o que está fazendo e lhe dá um abraço. Ela o aperta com força e Olly lhe faz carinho. Kara não se junta a eles. Ela fuma abertamente agora, batendo as cinzas no chão da varanda.
Estou tentando não focar minha atenção no Olly, mas é impossível. Meu coração não dá a mínima para o que o meu cérebro pensa. Eu me dou conta do momento exato em que Olly percebe os meus olhos sobre ele. Nossos olhares se encontram. É diferente daquela primeira vez. A primeira vez era toda feita de possibilidades. Mesmo naquele dia, uma parte de mim já sabia que eu o amava.
Desta vez, tenho certeza. Eu já sei que eu o amo e que esse sentimento não vai desaparecer.
Ele ergue uma das mãos para acenar. Solto a cortina, dou as costas para a janela e pressiono as costas contra a parede, respirando fundo.
Desejo poder fazer desaparecer os últimos meses em que o conheci. Eu ficaria no meu quarto, ouviria o barulho do caminhão parado diante da casa ao lado e permaneceria em meu sofá branco, em meu quarto branco, lendo livros novos em folha. Eu me lembraria do meu passado e então me lembraria de não repeti-lo.


VIGÍLIA DA VIZINHANÇA #3
Rotina do pai dele
9:00 — Sai para o trabalho
20:30 — Sobe as escadas da varanda cambaleando e entra na casa. Será que ele já está bêbado?
21:00 — Volta para a varanda com um drinque na mão.
22:15 — Desmaia na cadeira azul.
Algum tempo depois: entra em casa cambaleando.

Rotina da mãe dele
Desconhecida

Rotina da Kara
Desconhecida

Rotina do Olly
Desconhecida


CINCO SÍLABAS
NO MÊS SEGUINTE, logo depois do Natal, o pai dele se muda também. Pela minha janela, eu o observo carregar apenas algumas caixas para uma caminhonete alugada. Torço para que ele não esteja indo para o mesmo lugar onde Olly, Kara e a mãe deles estão.
Durante alguns dias, fico olhando para a casa, imaginando como ela consegue continuar a mesma, parecer tão sólida e manter o formato de uma residência quando não há ninguém por ali para transformá-la em um lar.
Espero mais alguns dias antes de finalmente ler os e-mails que Olly me enviou. Eles ainda estão na lixeira, exatamente como eu sabia que estariam.

De usuariogenerico033
Para: Madeline F. Whittier <madeline.whittier@gmail.com>
Assunto: limerique #1
Enviado em: 16 de outubro, 20:07
houve uma menina chamada Madeline
que partiu meu coração, maquine
senti que morri
(eu vi minha alma partir)
existem mais palavras que rimem com Madeline?
De usuariogenerico033
Para: Madeline F. Whittier <madeline.whittier@gmail.com>
Assunto: limerique #2
Enviado em: 17 de outubro, 20:03
Tinha uma garota que vivia em uma bolha
que eu suspeitava que ia me dar uma trolha
ainda assim lhe dei meu coração
mas ela explodiu
e o meu amor tomou Doril

Eu rio até começar a chorar. Ele devia estar mesmo com muita raiva de mim para me enviar limeriques em vez de haicais.
Os outros e-mails são menos poéticos. Ele me contou sobre como estava tentando convencer a mãe a buscar ajuda e como tentava salvar a Kara de si mesma. Ele não sabia qual das conversas que teve com a mãe finalmente a convenceu. Poderia ter sido porque ele lhe disse que não poderia mais fazer parte daquela família se ela continuasse com o pai. Às vezes é preciso abandonar as pessoas que mais amamos, ele havia lhe dito. Ou, Olly me contou, poderia ter sido quando ele finalmente lhe falou sobre mim, sobre como eu estava doente e como eu desejava fazer qualquer coisa além de sobreviver. Olly me disse que ela acha que eu sou corajosa.


O ÚLTIMO E-MAIL DELE É UM HAICAI
De usuariogenerico033
Para: Madeline F. Whittier <madeline.whittier@gmail.com>
Assunto: haicai #1
Enviado em: 31 de outubro, 21:07
cinco sílabas aqui
agora mais sete
amo você maddy


AQUI E AGORA
A MATEMÁTICA DO Olly diz que a gente não pode prever o futuro. Acabei descobrindo que também não podemos predizer o passado. O tempo passa em ambas as direções — para a frente e para trás — e o que acontece aqui e agora muda o que passou e o que ainda virá.

2 comentários:

  1. NÃAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAO, mano que triste, isso não tá acontecendo. Olly e Mand vão voltar cara, os dois se ama. não dá. Carla voltou uhuuuuul. Mais ainda sinto falta do Olly com Manddy...

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  2. Depois de Apolo fiquei traumatizada com haicai (os dele são horríveis), mas o de Olly eu gostei.

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Boa leitura :)