1 de julho de 2017

Futuro perfeito

De: Madeline F. Whittier
Para: usuariogenerico033@gmail.com
Assunto: Futuro Perfeito
Enviado em: 10 de julho, 12:30
Quando você ler esta mensagem, a gente já vai ter se conhecido. Terá sido perfeito.


OLLY
O SOLÁRIO É O MEU CÔMODO preferido na casa. É quase todo feito de vidro — telhado de vidro, janelas de vidro do chão ao teto que têm vista para o nosso gramado perfeitamente aparado.
A decoração da sala é como a de um filme ambientado na floresta tropical. O lugar é repleto de plantas falsas imitando as daquela região de aparência muito realista e exuberante. Bananeiras e coqueiros carregados com frutas de mentira e hibiscos com flores falsas estão por todos os lados. Há até mesmo um riacho que serpenteia pelo meio da sala, mas não tem peixes, pelo menos não de verdade. Os móveis são antigos, feitos de vime e passam a impressão de terem ficado muito tempo sob o sol. Já que a ideia do lugar é ser tropical, minha mãe colocou um ventilador de ar quente no teto e uma brisa levemente morna em excesso preenche o ambiente.
Na maioria dos dias eu amo esse cômodo porque posso imaginar que o vidro desapareceu e eu estou do Lado de Fora. Em outros, eu me sinto como um peixe em um aquário.
Quando entro no solário, vejo que Olly deu um jeito de escalar metade da parede de pedra dos fundos, com as mãos e os pés enfiados nas frestas. Ele está espremendo uma grande folha de bananeira entre os dedos quando caminho para dentro.
— Não é de verdade — ele me diz.
— Não é de verdade — eu digo ao mesmo tempo.
Ele larga o galho, mas permanece pendurado na parede. Escalar para ele é tão banal quanto andar para o restante de nós.
— Você vai ficar aí em cima? — pergunto, pois não sei o que dizer.
— Estou pensando nisso, Maddy. A Carla me falou para ficar o mais longe possível de você e ela não parece ser o tipo de senhora que se deva contrariar.
— Você pode descer — garanto. — A Carla não é assim tão assustadora quanto parece.
— Tudo bem. — Ele escorrega sem esforço para o chão, coloca as mãos nos bolsos, cruza os tornozelos e se apoia em uma parede. Não acho que eu já o tenha visto tão imóvel. Acho que ele tenta não me assustar.
— Talvez você deva entrar — ele sugere e só então me dou conta de que estou parada no batente da porta, segurando a maçaneta. Fecho a porta, mas não tiro os olhos do Olly. Os olhos dele também rastreiam todos os meus movimentos.
Depois de todas aquelas mensagens instantâneas, eu sentia como se o conhecesse, mas agora, com ele bem ali na minha frente, não sinto mais nada disso. Ele é mais alto do que eu pensava e tem muito mais músculos, embora não chegue a ser volumoso. Os braços são definidos, parecendo até terem sido esculpidos, e os bíceps preenchem as mangas da camiseta preta. Sua pele é bronzeada em um tom de dourado e deve ser quente ao toque.
— Você é diferente do que eu pensava — comento.
Ele abre um largo sorriso e uma covinha se forma bem debaixo do olho direito.
— Eu sei. Mais sexy, não é? Tudo bem, você pode confessar isso.
Solto uma gargalhada.
— Como você consegue carregar por aí esse ego tão grande e pesado?
— São os músculos — ele rebate, flexionando um dos bíceps e erguendo uma das sobrancelhas de forma cômica.
Parte do meu nervosismo desaparece, mas logo retorna quando ele me observa rir sem dizer nada por alguns segundos que parecem longos demais.
— O seu cabelo é mesmo bem comprido — ele observa. — E você nunca mencionou que tinha sardas.
— E eu deveria ter mencionado isso?
— Sardas podem ser um bom negócio. — Ele sorri e a covinha reaparece. Fofo.
Vou até o sofá e me sento. Ele apoia as costas na parede de pedra do outro lado da sala.
— Elas são a desgraça da minha existência — digo, referindo-me às sardas. É algo ridículo de se falar, é claro, a desgraça da minha existência é que eu sou doente e não posso sair de casa. Nós dois percebemos isso ao mesmo tempo e começamos a rir de novo.
— Você é divertida — ele diz depois que as gargalhadas cessam.
Eu sorrio. Nunca pensei em mim mesma como sendo uma garota divertida, mas estou feliz por ele achar isso.
Ficamos sem jeito por alguns momentos, sem saber o que dizer. O silêncio seria menos perceptível pelo programa de mensagens instantâneas. A gente poderia apelar para um sem-número de distrações.
Mas agora, na vida real, parece que nós dois temos balõezinhos vazios em cima das nossas cabeças. Na verdade, o meu não está nada vazio, mas realmente não posso dizer ao Olly o quanto os olhos dele são bonitos. Eles têm a cor do Oceano Atlântico, exatamente como ele disse. É estranho porque é claro que eu já sabia disso. Mas a diferença entre saber e ver pessoalmente é a diferença entre sonhar que se está voando e voar de verdade.
— Esta sala é bem maluca — diz ele, olhando ao redor.
— É. Minha mãe a construiu para que eu pudesse me sentir como se estivesse lá fora.
— E funciona?
— Na maior parte dos dias. Eu tenho uma imaginação excelente.
— Você é realmente um conto de fadas. Princesa Madeline e o castelo de vidro. — Ele fica em silêncio novamente, como se estivesse ponderando a respeito de algo.
— Tudo bem, pode me perguntar — encorajo.
Ele está usando um elástico preto ao redor de um dos pulsos e lhe dá alguns puxões antes de continuar:
— Há quanto tempo você está doente?
— A minha vida inteira.
— E o que vai acontecer se você for lá fora?
— Minha cabeça vai explodir. Ou meus pulmões. Ou meu coração.
— Como você pode brincar com...?
Dou de ombros.
— E como eu não poderia? Além disso, tento não desejar as coisas que eu não posso ter.
— Você é como um mestre Zen. Você deveria dar aulas.
— Leva muito tempo para aprender. — Eu sorrio para ele.
Ele se agacha e então se senta encostado na parede, os antebraços sobre os joelhos. Apesar do Olly estar parado, posso sentir a necessidade de movimento sair dele. Esse garoto tem uma energia cinética.
— Que lugar você mais quer visitar?
— Além do espaço sideral?
— Sim, Maddy, além do espaço sideral. — Gosto do jeito com que ele fala Maddy, como se me conhecesse a vida inteira.
— A praia. O oceano.
— Quer que eu os descreva para você?
Faço que sim com a cabeça de um jeito mais vigoroso do que eu esperava. Meu coração acelera como se eu estivesse fazendo algo ilícito.
— Eu já vi fotos e vídeos, mas como é na verdade estar dentro d’água? É como tomar banho em uma banheira gigante?
— Tipo isso — ele fala devagar, como se estivesse pensando no assunto. — Não. Retiro o que disse. Tomar banho é relaxante. Estar no oceano é assustador. É molhado, gelado, salgado e mortal.
Isso é o que eu esperava.
— Você odeia o oceano?
Ele está sorrindo agora, aquecendo o assunto.
— Eu não odeio o mar. Eu o respeito. — Ele ergue um dos dedos indicadores. — Respeito. Trata-se da Mãe Natureza em seu estado mais refinado: impressionante, linda, impessoal, mortífera. Pense: toda aquela água e mesmo assim você pode morrer de sede. E o ponto é que as ondas sugam os seus pés lá para baixo, por isso é que nos afogamos tão depressa. O oceano pode engolir você inteira e depois arrotá-la sem deixar o menor sinal de que um dia você esteve por ali.
— Ah, meu Deus, você está me deixando assustada!
— E olha que nem chegamos na parte dos grandes tubarões-brancos, ou dos crocodilos de água salgada, dos peixes-agulha da Indonésia ou...
— Tudo bem, tudo bem — digo, começo a rir e ergo as mãos para que ele pare.
— Não estou brincando — ele diz com uma seriedade fingida. — O oceano vai matar você. — Ele pisca para mim. — No fim das contas, a Mãe Natureza é uma mãe bem má.
Estou muito ocupada rindo para falar o que quer que seja.
— E então, o que mais você quer saber?
— Depois disso? Nada!
— Qual é! Eu sou uma fonte de conhecimento.
Ele se põe de pé em um piscar de olhos e começa a avaliar a sala com ar crítico.
— Tem espaço suficiente. Vamos sair... — Ele se detém no meio da frase. — Droga, Maddy, desculpe.
— Pare. — Eu me levanto e estendo uma das mãos. — Não se sinta culpado por minha causa. — Eu digo isso de forma rude, mas é um ponto importante. Não suportaria perceber que ele sente pena de mim.
Ele puxa o elástico, balança a cabeça uma vez e lá vamos nós.
— Eu consigo fazer uma parada de mão com apenas um dos braços.
Ele dá um passo à frente da parede e simplesmente cai para trás até que fique de cabeça para baixo se apoiando sobre as mãos. É um movimento tão gracioso e fácil que por um momento me sinto tomada pela raiva. Como deve ser ter total confiança em seu corpo, e o que seria possível fazer?
— Isso é incrível — eu sussurro.
— Você não está na igreja — Olly retruca em um tom que fica no meio do caminho entre um sussurro e um grito, levemente arfante devido ao fato de ele estar de cabeça para baixo.
— Eu não sei. Tive a impressão de que eu deveria ficar em silêncio.
Ele não responde. Em vez disso, fecha os olhos, lentamente remove a mão esquerda do chão e fica com ela erguida ao lado do corpo. A camiseta dele fica pendurada e posso ver os músculos rígidos do abdômen. A pele tem a mesma cor bronzeada. Desvio os olhos.
— Ok — digo. — Você pode parar agora.
Ele fica novamente de pé antes que eu possa piscar.
— O que mais você sabe fazer?
Ele esfrega uma mão na outra e sorri de volta para mim.
Olly dá uma pirueta para trás e se senta novamente com as costas apoiadas na parede. Ele fecha os olhos.
— E então, por que o espaço sideral? — ele pergunta.
Dou de ombros.
— Quero ver o mundo, eu acho.
— Acho que quando a maioria das pessoas fala em “ver o mundo”, não é bem isso o que elas querem dizer — ele comenta, sorrindo.
Faço que sim com a cabeça e também fecho os olhos.
— Você já sentiu... — eu começo, mas a porta se abre e Carla entra correndo.
— Vocês não se tocaram, certo? — ela pergunta com as mãos nos quadris.
Nós dois abrimos os olhos e encaramos um ao outro. Logo de imediato, me torno consciente do corpo dele e do meu.
— Não houve nenhum toque — Olly confirma, seus olhos ainda fixos em meu rosto. Algo em seu tom de voz me deixa corada de vergonha e uma onda de calor atravessa devagar a minha cara e o meu peito.
Combustão espontânea é uma coisa totalmente possível. Tenho certeza disso.

4 comentários:

  1. Kkkkkkkk e já começou a sentir o fogo da juventude, né menina? 😏😉 aiai
    N. A.

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  2. ..."mas realmente não posso dizer ao Olly o quanto os olhos dele são bonitos. Eles têm a cor do Oceano Atlântico"
    Pelas barbas de Tolking!😱 Olha essa escrita sem coerência nenhuma. A menina nunca viu o oceano, mas sabe que os olhos do menino é da cor do Atlântico..😒 perco até a vontade de continuar a leitura😪

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    Respostas
    1. Bem, também nunca vi neve, mas sei qual é a cor... Ou pelo menos imagino. Ela lê bastante, tem Internet, foi poética!

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Boa leitura :)