1 de julho de 2017

Diagnóstico



PERSPECTIVAS
ANTES DA CARLA CHEGAR na manhã seguinte, passo exatamente treze minutos na cama convencida de que estou ficando doente. Ela leva exatamente seis minutos para abandonar essa possibilidade. Carla tira a minha temperatura, a minha pressão e mede o intervalo dos meus batimentos cardíacos antes de declarar que eu estou simplesmente apaixonada.
— Sintomas clássicos — ela atesta.
— Eu não estou apaixonada. Não posso estar apaixonada.
— E por que não?
— Qual seria o sentido disso? — digo, jogando as mãos para o ar. — Uma pessoa como eu apaixonada seria como um crítico de comida sem papilas gustativas. Seria como um pintor que vê tudo em preto e branco. Seria como...
— Uma pessoa que nada pelada sozinha.
Tenho de rir ao ouvir essa.
— Exatamente — digo. — Não faria o menor sentido.
— Claro que faria sentido. — Ela olha para mim, séria. — Só porque você não pode experimentar tudo não quer dizer que você não possa experimentar algumas coisas. Além disso, se apaixonar faz parte da vida.
— Não estou apaixonada — insisto.
— E você também não está doente — ela retruca. — Então, não há nada com que se preocupar.
Durante o restante da manhã, me sinto muito distraída para ler ou fazer o dever de casa. Apesar da Carla garantir que eu não estou ficando doente, me flagro prestando atenção demasiada em meu corpo e em como estou me sentindo. Será que as pontas dos meus dedos estão formigando? Elas por acaso costumam ficar assim? Por que parece que não consigo controlar minha respiração? Quantas vezes um estômago é capaz de revirar antes de dar um nó de vez? Peço à Carla para checar mais uma vez os meus sinais vitais, e os resultados são todos normais.
À tarde, me dou conta de que a Carla deve estar tramando alguma coisa. Posso até não estar apaixonada, mas estou gostando de alguém. Estou gostando seriamente de alguém. Fico vagando pela casa sem rumo, vendo Olly em todos os lugares. Eu o vejo na cozinha preparando pilhas de torradas para o jantar. Eu o vejo na sala sofrendo com Orgulho e Preconceito junto comigo. Eu o vejo no meu quarto, seu corpo vestido de preto, dormindo no meu sofá branco.
E não é só o Olly que eu vejo. Minha imagem flutuando bem no alto, sobre a Terra, não sai da minha cabeça. Nas profundezas do espaço, posso ver todo o mundo de uma vez só. Meus olhos não são detidos por uma parede ou uma porta. Posso ver o início e o fim dos tempos. Dali, posso ver o infinito.
Pela primeira vez em muito tempo, desejo mais do que aquilo que tenho.



PAÍS DAS MARAVILHAS
E É ESSE DESEJO QUE me puxa de volta para a Terra com toda a força. Esse desejo me assusta. É como uma erva daninha que se espalha devagar, sem que você se dê conta. Antes que você perceba, ela já se infiltrou nas suas paredes e escureceu as janelas.
Enviei um único e-mail para o Olly. Eu disse que fiquei realmente ocupada nesse fim de semana, que eu precisava dormir. Eu disse que precisava me concentrar. Fechei o computador, tirei da tomada e o enterrei debaixo de uma pilha de livros. Carla ergueu uma única sobrancelha em minha direção.
Eu, por minha vez, baixei as duas sobrancelhas para ela, deixando bem claro que não lhe daria nenhuma explicação.
Passei a maior parte do sábado sofrendo com exercícios de cálculo. Matemática é a matéria de que eu menos gosto e aquela na qual tenho mais dificuldade. É possível que esses dois fatos tenham alguma relação. À noite, voltei a reler uma edição anotada e ilustrada de Alice no País das Maravilhas. Mal percebi quando a Carla arrumou as coisas dela para ir embora no fim do dia.
— Vocês brigaram? — perguntou ela, enquanto meneava a cabeça na direção do meu laptop.
Eu balanço a cabeça indicando que não, mas não digo mais nada.
No domingo, o desespero para checar o meu e-mail é profundo. Imagino minha caixa de entrada lotada com e-mails sem assunto do Olly. Será que ele está me perguntando mais Cinco Favoritos Sem Pensar? Será que ele quer alguma companhia, uma fuga de sua família?
— Você está bem — Carla afirma no caminho até a porta naquela noite. Ela beija a minha testa e sou uma garotinha novamente.
Levo Alice para o meu sofá branco e me acomodo. Carla está certa, é claro. Eu estou bem, mas, assim como Alice, estou apenas tentando não me perder. Continuo a pensar no verão em que completei oito anos. Passei tantos dias com a testa contra a parede de vidro que criei um galo por causa do meu desejo fútil. No início, eu só queria olhar para o lado de fora da janela. Mas, então, logo em seguida, eu queria ir para o lado de fora. E depois eu queria brincar com as crianças da vizinhança, brincar com todas as crianças em todos os lugares, ser normal por apenas uma única tarde, um dia, uma vida.
Por isso, eu não checo meu e-mail. De uma coisa eu tenho certeza: a vontade só leva a mais vontades. Não há limite para o desejo.


A VIDA É CURTA®
Resenhas com spoilers por Madeline
ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS, DE LEWIS CARROLL
Alerta de spoiler: Cuidado com a Rainha de Copas. Ela vai cortar sua cabeça.


TORNA VOCÊ MAIS FORTE
NÃO HÁ NENHUM e-mail do Olly. Nem unzinho. Chequei até a minha pasta de spam. Isso não deveria me chatear e não chateou. Não me chateou muito. Não foi nada profundo. Atualizo a página do e-mail mais três vezes em dois segundos. Talvez as mensagens estejam apenas escondidas em algum lugar, atrás de alguma outra.
Carla entra no quarto quando estou prestes a atualizar de novo.
— Assim você vai acabar quebrando o teclado.
— Bom dia para você também — digo, apertando os olhos para a tela.
Ela sorri e começa seu ritual diário de tirar coisas de sua maleta médica. Por que ela não deixa esse equipamento logo de uma vez aqui em casa é um mistério.
— Por que você está fazendo careta? Outro vídeo de gato morto? — Ela sorri mostrando todos os dentes, bem no estilo do Gato de Cheshire. A qualquer momento o corpo dela vai desaparecer, deixando apenas um sorriso flutuando pelo quarto.
— O Olly não me mandou nenhum e-mail.
Acredito que perplexa seja a palavra que melhor resume a cara dela.
— Durante todo o fim de semana — informo a título de iluminação.
— Entendo. — Ela coloca o estetoscópio nas orelhas e o termômetro sob a minha língua. — Você mandou algum e-mail para ele?
— Mantchei — respondo com o termômetro na boca.
— Não fale. Só balance a cabeça.
— Xim.
Ela revira os olhos e espera pelo bipe.
— Trinta e sete e meio — informo e passo o termômetro para ela. — Eu basicamente disse para ele não me escrever. Estou sendo ridícula?
Carla faz um gesto para que eu me vire para que ela possa auscultar meus pulmões, mas não responde.
— O quanto sou ridícula? — provoco. — Em uma escala de um a dez, com um sendo totalmente racional e razoável e dez sendo absurdo e maluco.
— Uns oito — diz ela sem hesitar.
Eu estava esperando que ela fosse falar doze, de forma que oito parece uma vitória. Digo isso para Carla e ela ri de mim.
— Então você disse a ele para não escrever e então ele não escreveu. É isso que você está me contando?
— Bem, eu não disse NÃO ESCREVA em letras garrafais ou qualquer coisa do tipo. Eu só falei que estava ocupada. — Achei que a Carla fosse rir da minha cara, mas ela não fez isso.
— Por que você não escreveu para ele?
— Por causa do que a gente conversou. Eu gosto dele, Carla. Muito. Mais do que deveria.
Ela me olha com aquela cara de é só isso?
— Você realmente quer perder o melhor amigo que já teve porque está sofrendo um pouco por amor?
Eu já li muitos, muitos livros que falavam sobre pessoas que sofriam por amor. Nenhum deles descrevia essa dor como sendo algo que pudesse ser sentido com pouca intensidade. Eles a citavam como sendo uma coisa que despedaçava sua alma e destruía o seu mundo. Não como algo que podia ser sentido de forma branda.
Ela se apoia no sofá.
— Você ainda não sabe, mas isso vai passar. Isso só acontece porque esse é um sentimento novo e você está cheia de hormônios.
Talvez Carla esteja certa. Quero que ela esteja certa, pois assim conseguirei falar com Olly de novo.
Ela se inclina para a frente e pisca para mim.
— Além disso, ele é um gatinho.
— Ele é muito gatinho, né? — Dou uma risadinha.
— Querida, eu não acho que façam mais garotos como ele hoje em dia!
Também solto uma gargalhada e imagino uma fábrica com pequenos Ollys saindo de uma linha de produção. Como será que eles conseguem fazê-lo ficar quieto o suficiente para colocá-lo dentro de uma caixa e enviar pelo correio?
— Anda! — Ela me dá um tapa no joelho. — Você já tem muitas coisas para temer. O amor não vai te matar.


NÃO SIM TALVEZ
Segunda-feira, 20:09
Madeline: Oi.
Olly: e aí?
Madeline: Como você está? Como foi o seu fim de semana?
Olly: tudo bem. bom
Olly: e o seu?
Madeline: Bom, mas movimentado. Passei praticamente o tempo todo fazendo o meu dever de casa de cálculo.
Olly: ahh, cálculo. a matemática da mudança
Madeline: Uau. Você não estava mesmo brincando quando disse que gostava de matemática?
Olly: não
Madeline: Desculpe pelo meu e-mail.
Olly: por qual parte?
Madeline: Todas. Você está chateado comigo? Não, sim, talvez?
Olly: não sim talvez
Madeline: Não acho que você deveria usar todas as respostas.
Olly: Por que você me mandou esse e-mail?
Madeline: Fiquei com medo.
Olly: de quê?
Madeline: De você.
Madeline: Você também não me escreveu.
Olly: você não queria que eu escrevesse
Madeline: 
Olly: essas reticências significam que estamos enfrentando um silêncio constrangedor ou que você está pensando?
Madeline: Os dois.
Madeline: Por que você gosta tanto de matemática?
Olly: por que você gosta tanto de livros?
Madeline: Uma coisa não tem nada a ver com a outra!
Olly: por que não?
Madeline: Você pode encontrar o sentido da vida em um livro.
Olly: a vida tem um sentido?
Madeline: Você não está falando sério.
Olly: é uma possibilidade
Olly: em que livro a gente encontra o sentido da vida?
Madeline: Tudo bem, talvez não seja possível encontrar o sentido da vida em um único livro, mas se a pessoa ler bastante, ela chega lá.
Olly: é esse o seu plano?
Madeline: Bem, eu tenho tempo suficiente.
Madeline: 
Olly: pensando?
Madeline: Sim. Tenho a solução para o nosso problema.
Olly: na escuta
Madeline: Vamos combinar que seremos apenas amigos, ok?
Olly: ok
Olly: mas aí você não vai mais poder conferir os meus músculos
Madeline: Amigos, Olly!
Olly: e os meus olhos
Madeline: E você para de falar sobre as minhas sardas.
Madeline: E o meu cabelo.
Olly: e os seus lábios
Madeline: E a sua covinha.
Olly: você gosta da minha covinha?
Madeline: Amigos!
Olly: ok

18 comentários:

  1. "Madeline: Vamos combinar que seremos apenas amigos, ok?
    Olly: ok
    Olly: mas aí você não vai mais poder conferir os meus músculos
    Madeline: Amigos, Olly!
    Olly: e os meus olhos
    Madeline: E você para de falar sobre as minhas sardas.
    Madeline: E o meu cabelo.
    Olly: e os seus lábios
    Madeline: E a sua covinha.
    Olly: você gosta da minha covinha?
    Madeline: Amigos!''

    Melhor parte do capítulo, sim ou claro?

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  2. Morrendooo aqui.. Gente que livro e esse? estou sorrindo aqui, igual uma boba.. kkkkkkkkkk

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  3. Eles são tão bonitinhos!!😍
    -Kylie Galen

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  4. Kkkkkkk parece até eu tentando entrar em um acordo comigo mesma pra comer menos chocolate. Totalmente isso não da certo kkkkk so amigos... Ta bom

    N. A.

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  5. mano, af <3 <3 <3

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  6. Alguém manda a Maddy assistir grey's anatomy, tem um episodio que conseguem curar um menino com o mesmo problema que ela 😂😂

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    1. aaaaaaaaaaaaah, foi exatamente isso que pensei assim que comecei a ler essa história, chama a Bailey pra curar a Maddy :D

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  7. estou morrendooooooo, me sinto como se estivesse lendo a culpa é das estrelas de novo

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  8. Amigos? Madeline, por favor!
    Esse bofe escândalo está tão de quatro por você, que eu deveria comprar uma casinha de cachorro e ração Pedgree pra ele!

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  9. OMG *-* nao to conseguindo parar de ler! rs

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  10. "Amiiigggoooosss" HAHAHAHA

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Boa leitura :)