1 de julho de 2017

Confidencial

De: Dra. Melissa Francis
Para: madeline.whittier@gmail.com
Assunto: Resultados dos exames — CONFIDENCIAL
Enviado em: 29 de dezembro, 20:03
Srta. Whittier,
Você provavelmente não se lembra de mim. Sou a dra. Melissa Francis. Você ficou sob os meus cuidados no Hospital Memorial de Maui no Havaí por algumas horas há dois meses.
Senti que seria importante entrar em contato com você diretamente. Você precisa saber que estudei seu caso com cuidado e não acredito que você tenha, ou já tenha tido, IDCG.
Sei que isso pode ser um choque. Em anexo estão alguns resultados de exames que fizemos aqui e recomendo que você vá atrás de uma segunda (e uma terceira) opinião.
Acho que você precisa arranjar outro médico além da sua mãe para verificar minhas descobertas. Médicos nunca devem tratar seus próprios familiares.
Minha opinião médica é que mês passado no Havaí você teve um episódio de miocardite provocada por uma infecção viral. Acredito que seu sistema imunológico seja especialmente frágil de acordo com o que consegui deduzir sobre a natureza da sua criação.
Por favor, sinta-se livre para entrar em contato e fazer qualquer pergunta que você possa ter. Boa sorte.
Cordialmente,
Dra. Melissa Francis

PROTEÇÃO
LI O E-MAIL SEIS vezes até que as letras formaram palavras e as palavras formaram frases que consegui entender, mas, mesmo assim, o significado daquelas palavras unidas me escapa. Vou para o anexo que mostra os resultados dos exames. Todas as minhas taxas estão exatamente na média — nem muito altas, nem muito baixas.
É claro que houve algum erro. É claro que isso não pode estar certo. A dra. Melissa confundiu meus resultados com os de outra pessoa. Deve haver outra Madeline Whittier. Ela é uma médica inexperiente. O mundo é, no fim das contas, cruel.
Acredito que todas essas coisas sejam verdade, mas ainda assim. Imprimo o e-mail e os resultados de todos os exames. Não estou me movendo em câmera lenta. O tempo não se acelera nem passa mais devagar.
As palavras na impressão não são diferentes das que vi na tela, mas pesam mais. Mesmo assim, não podem ser verdade. Não há a menor possibilidade de aquilo ser verdade.
Passo uma hora pesquisando cada exame no Google, tentando entender o que tudo aquilo significa. É claro que a internet não é capaz de me dizer se os resultados estão corretos, a rede não pode me dizer se sou uma adolescente perfeitamente normal, com uma saúde perfeitamente normal.
E eu sei. Eu sei que há algum erro. Ainda assim, meus pés me carregam escada abaixo e me fazem atravessar a sala de jantar até o escritório da minha mãe. Ela não está lá e nem na sala de TV. Vou até a suíte e bato levemente na porta, com as mãos trêmulas. Ela não responde. Provavelmente está no banheiro se preparando para ir para a cama. Bato de novo, mais alto.
— Mãe — grito quando giro a maçaneta.
Quando entro, ela acabou de sair do banheiro e está apagando a luz.
Seu rosto exausto se abre em um imenso sorriso quando me vê. Os ossos da bochecha estão mais pontudos e proeminentes no rosto cada vez mais fino. O círculo negro sob os olhos parece ter se tornado permanente. Ela não está usando maquiagem alguma e o cabelo cai livremente por cima dos ombros. Um pijama de seda preta pende de seu corpo magro.
— Olá, docinho — ela me cumprimenta. — Vamos fazer uma festa do pijama? — O rosto dela está tão esperançoso que sinto vontade de aceitar o convite.
Dou um passo para dentro do quarto, balançando as folhas de papel.
— Isto aqui foi enviado por uma médica de Maui. Dra. Melissa Francis. Você a conhece?
Se eu não a estivesse olhando tão de perto, não teria percebido, mas ela congela.
— Conheci um monte de médicos em Maui, Madeline. — A voz dela é firme.
— Mãe, desculpe...
Ela ergue uma das mãos, me pedindo para parar.
— O que é, Madeline?
Dou outro passo à frente.
— Esta carta. Ela, a dra. Melissa, acha que eu não estou doente.
Minha mãe me encara como se eu não houvesse falado absolutamente nada. Ela permanece calada por tanto tempo que começo a me questionar se eu falei mesmo alguma coisa.
— Do que você está falando?
— Ela diz que não acha que eu tenha IDCG. Ela não acredita que eu algum dia tenha tido essa doença.
Ela desaba na beirada da cama.
— Ah, não. Foi para isso que você veio me ver? — A voz dela é suave, repleta de pena. — Ela lhe deu esperanças, não é? — Minha mãe faz um gesto para que eu me sente ao seu lado. — Desculpe, mas isso não é verdade.
Eu me aninho nos braços da minha mãe. Ela está certa. Eu alimentei minhas esperanças. A sensação de seus braços ao meu redor é tão boa. Eu me sinto aquecida, protegida e segura.
Ela afaga meu cabelo.
— Sinto muito por você ter visto essas coisas. Foi uma atitude muito irresponsável da parte dessa médica.
— Está tudo bem — digo com a cabeça enterrada em seu ombro. — Eu sabia que devia haver algum erro. Não alimentei falsas esperanças.
Ela me afasta e me olha bem nos olhos.
— É claro que esses resultados estão errados.
Os olhos da minha mãe se enchem de lágrimas quando ela me abraça novamente.
— A IDCG é tão rara e complicada, querida. Nem todo mundo a compreende. Há diversas variações da doença e cada pessoa reage de uma forma um pouco diferente da outra.
Ela me afasta mais uma vez e me encara para ter certeza de que estou escutando e entendendo suas palavras. Ela abaixa o tom de voz e seu tom se torna solidário — sua voz de médica.
— Você viu as consequências com seus próprios olhos, não é? Você ficou bem por um tempo e depois quase morreu em uma sala de emergência. O sistema imunológico do ser humano é complicado.
Ela franze a testa na direção dos papéis nas minhas mãos.
— E essa dra. Melissa não conhece todo o seu histórico médico. Ela está vendo apenas uma pequena parcela do conjunto. Ela não está o tempo todo ao seu lado.
— Mãe, está tudo bem — insisto. — De qualquer forma, eu não acreditei nos resultados desses exames.
Não acho que ela tenha me ouvido.
— Preciso protegê-la — diz minha mãe.
— Eu sei, mãe. — Na verdade, não quero mais falar sobre esse assunto. Volto para os braços dela.
— Preciso protegê-la — ela repete com o rosto enfiado no meu cabelo.
E é esse último “preciso protegê-la” que faz uma parte de mim ficar em silêncio.
Há uma incerteza na voz dela que eu não esperava e a qual eu não consigo entender. Tento me afastar para ver seu rosto, mas ela me aperta com ainda mais força.
— Mãe. — Faço ainda mais força para me soltar.
Ela me deixa ir, acariciando meu rosto com a mão livre.
Franzo a testa na direção dela.
— Posso ficar com isso? — Eu me refiro aos papéis em suas mãos.
Ela olha para baixo e parece confusa, como se tentasse entender como aquelas folhas chegaram até ali.
— Você não precisa disso — ela retruca, mas mesmo assim me devolve. — Vamos fazer uma festa do pijama? — ela pergunta novamente, dando tapinhas no colchão ao seu lado. — Eu me sentirei melhor com você aqui perto de mim.
Só que não tenho certeza se ela realmente irá se sentir assim.


DICIONÁRIO DA MADELINE
sus.pei.ta s.f. pl. -s 1. A verdade em que você não acredita, não consegue acreditar, não vai acreditar: As suspeitas dela a respeito da mãe a fizeram passar a noite em claro. / Ela tinha uma suspeita crescente de que o mundo ria da sua cara. [2015, Whittier]


IDENTIDADE
CARLA MAL ATRAVESSOU a porta e eu já corri para ela com a carta nas mãos. Ela lê e, a cada frase, seus olhos se arregalam.
Ela agarra meu antebraço.
— Onde você conseguiu isso?
— Continue a ler — peço. As tabelas e as medições farão muito mais sentido para ela do que para mim.
Examino a expressão no rosto da Carla e tento entender o que está acontecendo no meu mundo. Eu esperava que ela descartasse todo o conteúdo daquela correspondência exatamente como a minha mãe havia feito, mas a reação da Carla é... diferente.
— Você já mostrou isso para a sua mãe?
Eu faço que sim com a cabeça, sem falar nada.
— O que ela disse?
— Que está tudo errado — sussurro, tentando esconder o som da minha própria voz.
Ela observa o meu rosto por um longo tempo.
— Precisamos descobrir — conclui Carla.
— Descobrir o quê?
— Se isto aqui é ou não verdade.
— Como poderia ser verdade? Isso significaria que...
— Shh, shh. Ainda não sabemos de nada.
Não sabemos de nada? Claro que sabemos. Sabemos que estou doente. Que não tenho permissão para sair de casa, pois posso morrer se fizer isso. Esta é a pessoa que eu sou.
— O que está acontecendo? — exijo saber. — O que você está escondendo de mim?
— Nada, nada. Não estou escondendo absolutamente nada.
— Então, o que você quer dizer?
Ela solta um suspiro longo e cansado.
— Juro que não sei de nada, mas, às vezes, tenho as minhas suspeitas.
— Suspeitas sobre o quê?
— Às vezes acho que a sua mãe não está cem por cento correta. Talvez ela nunca tenha se recuperado do que aconteceu com o seu pai e o seu irmão.
O oxigênio da sala é substituído por alguma outra coisa, algo fino e impossível de ser respirado. O tempo começa a passar devagar e passo a enxergar tudo como se estivesse dentro de um túnel. As paredes estão muito próximas e a Carla se afasta de onde eu estou, uma figura minúscula no fim de um corredor muito, muito comprido. Essa visão me dá uma espécie de vertigem. Perco o equilíbrio e em seguida começo a sentir náuseas.
Corro para o banheiro e quase vomito na pia. Carla entra atrás de mim e joga um pouco d’água no meu rosto.
Ela coloca uma das mãos nas minhas costas e eu desabo com o peso dela. Eu me torno um ser imaterial. Sou novamente a garota-fantasma do Olly. Aperto a porcelana da pia com as mãos. Não consigo erguer os olhos até o espelho porque não reconheço a menina ali refletida.
— Preciso ter certeza — solto um grunhido, usando a voz de outra pessoa.
— Me dê um dia. — Carla tenta me puxar para um abraço, mas eu me esquivo. Não quero conforto, nem proteção.
Quero apenas a verdade.


PROVA DE VIDA
TUDO O QUE ME RESTA fazer é dormir. Eu aquieto a minha mente, relaxo o corpo e vou para a cama. Entretanto, não importa quanto eu tente, o sono simplesmente não vem. Meu cérebro parece estranhar o quarto e vejo alçapões em todos os lugares. A voz da Carla repete sem parar na minha mente: Talvez ela nunca tenha se recuperado do que aconteceu. O que será que isso pode significar? Olho para o relógio. Uma da manhã. Sete horas até a Carla voltar. Vamos fazer alguns exames de sangue e enviar para um especialista em IDCG que eu encontrei. Sete horas. Fecho os olhos. E abro-os novamente à uma hora e um minuto.
Não vou conseguir esperar pela resposta. Preciso ir até ela.
Tenho de me esforçar ao máximo para caminhar em vez de correr até o escritório da minha mãe. Tenho certeza de que ela está dormindo, mas não posso me arriscar e acabar acordando-a. Ponho uma das mãos na fechadura e por um momento terrível, imagino que a porta possa estar trancada, de forma que eu teria de esperar, coisa que não posso fazer. Entretanto, a maçaneta gira e a sala se abre para mim como se estivesse me aguardando, ansiando pela minha presença ali dentro.
Tudo se encontra perfeitamente normal no escritório, nem muito arrumado, nem muito bagunçado. Não há nenhum sinal óbvio de uma mente adoentada. Não há nenhuma parede coberta por inscrições malucas, confusas e caóticas.
Caminho até a grande escrivaninha que ocupa o centro do cômodo. Ela tem um arquivo embutido, de modo que começo por ali a minha busca. Minhas mãos tremem. Mais do que isso. Na verdade, minhas mãos parecem estar sofrendo um terremoto, exatamente como o resto de mim.
Minha mãe é meticulosa e extravagante com seus arquivos. Ela anota tudo e demoro uma hora em apenas um punhado de pastas. Ali há recibos de pequenas e grandes compras, contratos de aluguel, contas, garantias e manuais de instruções. Ela guarda até os ingressos do cinema.
Por fim, lá no fundo, encontro o que estou procurando: uma grossa pasta vermelha onde está escrito Madeline. Eu a tiro da gaveta com cuidado e abro espaço no chão.
O arquivo da minha vida começa com a gravidez da minha mãe. Encontro receitas de complexos vitamínicos pré-natais, sonogramas e cópias das orientações dadas a cada uma de suas visitas ao médico. Encontro uma ficha preenchida à mão com duas opções — uma para um menino e outra para uma menina. A da garota está marcada. Minha certidão de nascimento está anexada à ficha.
À medida que prossigo com a minha investigação, não levo muito tempo para perceber que fui um bebê doente. Encontro descrições das visitas do pediatra devido a erupções, alergias, eczemas, resfriados, febres e duas infecções de ouvido, tudo isso antes que eu completasse quatro meses de idade. Encontro encaminhamentos para lactação e para consultas a especialistas em sono infantil.
Quando eu tinha cerca de seis meses, exatamente trinta dias depois da morte do meu pai e do meu irmão, dei entrada em um hospital com um vírus sincicial respiratório (VSR). Não sei o que é isso e faço uma nota mental para pesquisar mais tarde no Google. Foi sério o suficiente para me manter no hospital por três dias.
E então o arquivo da minha mãe começou a se tornar menos meticuloso. Encontro uma página impressa da internet sobre VSR. Ela circulou a parte que explica que a VSR ocorre de forma mais severa em pessoas com sistemas imunológicos comprometidos. Encontro uma cópia da primeira página de um artigo sobre IDCG extraído de um periódico de medicina. Os garranchos que ela fez nos cantos da página são incompreensíveis. Depois disso há apenas um único registro de uma visita a um alergista e depois a três diferentes imunologistas. Todos eles concluíram que nenhuma doença foi encontrada.
E isso é tudo.
Reviro o arquivo novamente em busca de mais pastas. Não faz sentido que qualquer outro registro sobre mim estivesse em outro lugar. Onde estão os resultados dos exames? Deve haver um quarto imunologista, certo? Onde está o diagnóstico? Onde estão as consultas e as segundas opiniões? Deve haver outra pasta vermelha grossa. Esquadrinho os arquivos uma terceira vez. E depois uma quarta.
Espalho o conteúdo de outras pastas no chão e o reviro. Caço entre os papéis sobre a mesa. Folheio as páginas de seus periódicos de medicina procurando por passagens destacadas.
Minha respiração se acelera enquanto corro pelas prateleiras. Arranco livros, balançando-os pelas lombadas, tentando fazer com que algo caia — um resultado de exame esquecido, um diagnóstico oficial. Não encontro nada.
Contudo, nada não é uma prova.
Talvez essa prova esteja em algum outro lugar. Logo de primeira descubro a senha do computador da minha mãe — Madeline. Passo duas horas examinando todos os documentos no computador dela.
Investigo o histórico do navegador. Olho a lixeira.
Nada.
Nada.
Onde está a prova da vida que tenho vivido?
Dou uma pirueta em câmera lenta no meio do cômodo. Não acredito no que meus próprios olhos comprovam. Não acredito no que não sou capaz de ver. Como assim não há nada? É como se a minha doença houvesse sido inventada do nada, como se fosse feita do ar leve que respiro neste exato momento.
Isso não é verdade. Não pode ser.
Talvez minha mãe mantenha outro arquivo no quarto dela? Por que não pensei nisso antes? São 5:23 da manhã. Será que posso esperar até que ela acorde? Claro que não.
A porta se abre assim que me viro.
— Aí está você — minha mãe diz com a voz repleta de alívio. — Fiquei preocupada. Você não estava no seu quarto. — Ela dá mais um passo para dentro do escritório e seus olhos se arregalam ao ver o caos que nos cerca. — Sofremos um terremoto? — ela pergunta antes de se dar conta de que aquela bagunça foi ação de um ser humano. Ela se vira para mim, confusa. — Docinho, o que está acontecendo?
— Eu estou mesmo doente? — Ouço a minha própria pulsação retumbando nos meus ouvidos.
— O que você disse?
— Eu estou mesmo doente? — repito, mais alto desta vez.
Sua raiva crescente é substituída pela preocupação.
— Você se sente doente?
Ela ergue uma das mãos para me tocar, mas eu a afasto.
A dor no rosto dela me faz realmente me sentir um pouco mal, mas eu me contenho.
— Não é isso que quero dizer. Eu tenho mesmo IDCG?
Sua preocupação desaparece aos poucos, dando lugar à exasperação e um pouco de pena.
— Isso ainda tem a ver com a carta?
— Sim — respondo. — E com a Carla também. Ela comentou que você talvez não estivesse bem.
— E o que isso significa?
Do que eu a estou acusando exatamente?
— Onde estão todos os papéis? — exijo.
Ela respira fundo para se equilibrar.
— Madeline Whittier, do que você está falando?
— Você arquiva de tudo aqui, mas não há nada sobre a IDCG. Por que não consigo encontrar nada? — Pego a pasta vermelha no chão e a balanço diante da minha mãe. — Você tem tudo aqui.
— Do que você está falando? — ela insiste. — É claro que está aí dentro.
Não tenho certeza do que eu esperava que ela dissesse, mas tenho certeza de que não era aquilo. Será que ela realmente acredita que está tudo ali?
Minha mãe aperta a pasta junto ao peito como se quisesse que ela se tornasse parte dela.
— Você procurou com cuidado? Eu guardo tudo.
Ela vai até a escrivaninha e abre espaço. Eu a observo examinar os arquivos, reorganizando todos os papéis, alisando com as mãos páginas que não têm nem uma única dobra.
Depois de um tempo, ela olha para mim.
— Você os tirou daqui? Sei que eles estavam aqui em algum lugar. — A voz dela está grossa devido à confusão e, também, ao medo.
E é então que tenho certeza.
Não estou doente, nem nunca estive.


DO LADO DE FORA
SAIO CORRENDO DO escritório. O corredor se estende diante de mim e parece infinito. Estou parada na frente do filtro de ar e nenhum vento sai do aparelho. Estou do lado de fora e minha respiração é inaudível.
Meu coração para de bater.
Vomito mesmo estando de estômago vazio. A bile queima quando volta para a minha garganta.
Estou chorando e o ar gelado da manhã congela as minhas lágrimas.
Solto uma gargalhada e o frio invade meus pulmões.
Não estou doente. Jamais estive doente.
Todas as emoções que segurei nas últimas vinte e quatro horas tomam conta de mim. Esperança e desespero, antecipação e arrependimento, alegria e raiva. Como é possível sentir uma determinada emoção e seu exato oposto ao mesmo tempo? Eu luto, imersa em um oceano escuro, com um colete salva-vidas ao redor do peito e uma âncora presa a uma das pernas.
Minha mãe corre atrás de mim. Seu rosto é uma ruína de medo.
— O que você está fazendo? O que você está fazendo? Você precisa entrar.
Eu me concentro para manter apenas ela em meu campo de visão.
— Por que, mãe? Por que eu preciso entrar?
— Porque você é doente. Coisas ruins podem acontecer com você aqui fora.
Minha mãe ergue os braços para me trazer para ela, mas eu me esquivo.
— Não, não vou voltar para dentro.
— Por favor — ela implora. — Não posso perder você também. Não depois de tudo que aconteceu.
Seus olhos estão fixos em mim, mas tenho certeza de que ela não me vê.
— Eu os perdi. Perdi o seu pai e perdi o seu irmão. Eu não podia perder você também. Eu simplesmente não podia.
O rosto dela desmorona, desfazendo-se. Seja qual for a estrutura que o sustentava, desistiu de sua função de forma repentina e catastrófica.
Ela está devastada. Está devastada já faz muito tempo. Carla tinha razão. Ela jamais se recuperou da morte deles.
Digo alguma coisa, não sei exatamente o que, mas ela continua a falar.
— Logo depois que eles morreram, você ficou tão, mas tão doente. Você não respirava direito e eu a levei para a emergência, onde ficamos por três dias. E eles não sabiam o que havia de errado. Disseram que provavelmente era uma alergia. Eles me deram uma lista de coisas das quais você deveria ficar afastada, mas eu sabia que havia mais do que aquilo. — Ela balança a cabeça para cima e para baixo. — Eu sabia que havia mais do que aquilo. Eu tinha de proteger você. Qualquer coisa podia acontecer com você aqui. — Ela olha ao redor. — Qualquer coisa pode acontecer com você aqui. No mundo.
Eu deveria sentir alguma compaixão, mas não é isso que aflora em mim. A raiva cresce e toma conta de todo o resto.
— Não estou doente — grito. — Jamais estive doente. Você é a doente por aqui. — Golpeio o ar diante do rosto dela. Eu a observo se encolher até desaparecer.
— Entre — ela sussurra. — Eu vou protegê-la. Fique comigo. Você é tudo o que tenho.
A dor da minha mãe é infinita, maior que o próprio mundo.
A dor da minha mãe é um mar morto.
A dor da minha mãe é por mim, mas não posso mais suportar isso.


CONTOS DE FADAS
ERA UMA VEZ uma menina cuja vida inteira era uma mentira.


O VAZIO
UM UNIVERSO QUE pode ser criado em um piscar de olhos também pode ser destruído com o mesmo movimento.

7 comentários:

  1. Eu já suspeitava disso. Coitada gente!

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  2. Meeeeeeuuuu estou chocada- embora tenha desconfiado de que ela não tinha doença nenhuma, mas mesmo assim fiquei chocada 😲 a mãe dela ta muito paranoica, tadinha. N. A.

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  3. Não concordei uns capítulos atrás quando alguém comentou aqui que essa mãe era chata, algo assim, mas agora é fato, essa mulher é louca. Coitada da menina, 18 anos de vida praticamente perdidos, salvo os livros que leu, haha.

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  4. o filme do garoto bolha é tipo como isso eu pensei q o livro foce ser diferente!!! Mas de fato estranhei ela ter ido bb ao Havai, pelo o q mim lembro quem tem essa doença nasce com ela e não com o passar do tempo.

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  5. Genteeee, mas que mulher louca.
    Ela nunca ia perder a filha... agora sim ela corre o risco de perder.

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  6. Mano CADE A OPNIAO EU SABIA!!!!!!! ali em abaixo...

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Boa leitura :)