25 de julho de 2017

Capítulo treze

O TREM ERA O RETRATO do caos. Todos os passageiros pareciam estar gritando com o guarda, tentando descobrir por que haviam trocado de linha, por que pararam e onde estavam. O guarda não parecia ter as respostas – ele tranquilizava as pessoas, mas havia em seu rosto uma expressão revelando profunda confusão.
— Parada imprevista! — ele gritava sem parar. — Por favor, não desembarquem aqui.
Na plataforma os dois homens continuavam parados com Virginia e Matty. Esperavam alguma coisa. Por ele, Sherlock suspeitava. John Wilkes Booth estava ali por perto, mas, apesar de estar de pé sem ajuda, balançava lentamente de um lado para o outro e seus olhos não se fixavam em nada em particular. Devia ter sido drogado para ficar quieto.
Um dos homens – outro desconhecido – tirou a mão direita de trás das costas momentaneamente. Ele segurava uma arma.
Sherlock viu que não tinha escolha, por isso saiu do trem e desceu a escada para a varanda da casa.
Os homens que esperavam na plataforma, perto do último vagão, retiravam caixas do trem. Eram caixas parecidas como as que ele vira no jardim da casa em Godalming – aquelas que pensara conter alguma coisa que se mexia. As caixas eram levadas para uma carroça que esperava junto da plataforma, mas os homens pareciam ter cuidado para não deixar os dedos muito próximos das frestas entre as tábuas. Dois deles praguejaram quando a caixa que carregavam escorregou e quase caiu no chão, mas Sherlock não conseguiu determinar o que havia desequilibrado a carga. Talvez alguma coisa se movera dentro dela.
Sherlock não ouviu nenhum sinal, mas o trem começou a se mover, afastando-se da casa com estrondo à medida que os ganchos que mantinham unidos os vagões eram puxados. No início ele se movia devagar, mas ia ganhando velocidade e se afastando mais e mais.
— Onde está Ives? — Berle perguntou a Sherlock, erguendo a voz para superar o barulho do trem. Ele apertava o braço de Virginia com a mão direita e com a esquerda segurava a alça de uma caixa do tamanho de uma bola de futebol.
— Desceu — Sherlock respondeu. Podia sentir o coração batendo forte dentro do peito, mas tentava manter a calma e demonstrar que estava tudo sob controle.
Virginia e Matty olhavam para ele, preocupados. Ele olhou para um e depois para o outro, tentando transmitir a mensagem de que tudo ficaria bem, mas não acreditava nisso e tinha certeza de que eles também não.
— Quer dizer que ele caiu — disse Berle. — Você matou Ives.
— Sinto cheiro de fumaça — Booth disse atrás deles, com os olhos fechados. Sua voz era sonhadora, distante.
— Quieto! — grunhiu o terceiro homem, o que segurava Matty. — Ou vai levar um ferro em brasa do outro lado dessa sua cara!
Ele devia estar sendo submetido à loucura de Booth desde Nova York – possivelmente, desde Southampton, até – e aproximava-se do limite de sua paciência. Sherlock observou-o por um momento; não tivera a chance de observá-lo no trem. Ele tinha o corpo de um boxeador e vestia calça e colete de brim, com uma camisa sem colarinho por baixo. Havia uma bandana vermelha amarrada em torno de seu pescoço.
— Não o incomode, Rubinek — Berle avisou. — Duke ainda precisa dele.
O homem chamado Rubinek olhou para Sherlock.
— E ele? Duke não precisa dele para nada, e o garoto admitiu que matou Ives. — Ele mostrou a mão direita, a que não segurava Matty, e apontou a arma para Sherlock.
— E Gilfillan? — perguntou Berle. — Também está morto? Ele nos mandou um telegrama.
— Ele está preso — Sherlock respondeu. Não sabia se isso era exatamente verdade, mas devia ser, a essa altura.
Berle fechou os olhos por um momento.
— As coisas só pioram — ele disse em voz baixa. — Duke não vai ficar satisfeito, e já ouvi falar sobre o que acontece quando Duke não está satisfeito.
— Não temos muitas opções — Rubinek falou, de forma prática. — O trem foi embora, e nós ficamos aqui. Vamos nos livrar das crianças, depois encontramos Duke.
— Não vamos nos livrar das crianças — Berle respondeu em voz baixa, mas com autoridade. Sem Ives, ele assumia o comando, evidentemente. — Duke vai querer interrogá-los, descobrir o quanto sabem. Depois, sim, vai querer jogá-los aos seus bichinhos de estimação.
— Ainda quero matá-los eu mesmo — Rubinek resmungou como uma criança mimada a quem havia sido negado um doce.
— Pelo menos temos Booth e esta coisa — Berle falou, levantando a caixa até a altura dos olhos para olhá-la. — Vamos torcer para que seja o bastante. — Ele suspirou. — Bem, vamos acabar com isso.
Berle seguiu na frente em direção à varanda onde, Sherlock notou, havia uma mesa redonda na frente de portas envidraçadas. Uma toalha branca fora posta sobre a mesa, e havia uma jarra de bebida, aparentemente suco de laranja, um prato com pães e sete copos no centro. Sete cadeiras de ferro pintadas de branco tinham sido dispostas em torno da mesa. Um guarda-sol branco havia sido encaixado no centro, proporcionando sombra por causa do sol escaldante.
— Guarda-sol. — A palavra se repetia na mente de Sherlock enquanto eles caminhavam pela varanda e se aproximavam da mesa. Aquilo o fazia lembrar de alguma coisa, mas ele não conseguia determinar o que era. O problema da memória, pensou, era que só conseguia reter uma determinada quantidade de informações. Se houvesse um jeito de apagar todas as lembranças desnecessárias e substituí-las pelas importantes... Talvez devesse simplesmente anotar tudo que considerasse importante em um caderno, ou em vários cadernos, organizados em ordem alfabética para encontrar os dados com facilidade quando precisasse deles.
Estava apenas tentando distanciar-se do que acontecia, pensando em outra coisa, mas a tentativa foi destruída quando Rubinek empurrou-o com o cano do revólver para uma das cadeiras.
— Sente — o homem rosnou.
Sherlock obedeceu. Matty e Virginia foram acomodados um de cada lado dele, depois Berle e John Wilkes Booth se sentaram à esquerda de Virginia, e Rubinek sentou-se à direita de Matty.
Restava uma cadeira vazia, Sherlock notou. Devia estar reservada para o misterioso Duke.
— Meu pai vai nos encontrar, se não nos soltarem — Virginia avisou.
— Seu pai é o grandalhão do terno branco? — Berle olhou para Virginia, para Matty e, depois, para Sherlock. — Ele não é pai de todos vocês, é? Não vi vocês todos juntos antes. — Ele olhou mais atentamente para Matty. — Pegamos você porque achamos que isso o faria desistir de vir atrás de nós. Isso mostra que não sabíamos nada. Devíamos ter capturado a menina.
— Ele teria vindo atrás de vocês da mesma maneira — disse Virginia. — É o que ele faz. É meio insubordinado.
Berle ia dizer alguma coisa, mas a porta da varanda que dava para a casa se abriu de repente. Dois criados em impecáveis casacas pretas mantinham a porta aberta para alguém passar.
Era um homem alto, com mais de um metro e oitenta, provavelmente quase um metro e noventa, Sherlock calculou, e muito magro. Tudo que ele usava era branco – terno, colete, camisa, botas, chapéu de aba larga e luvas – com exceção da faixa em torno da copa do chapéu e da gravata que pendia da gola da camisa e desaparecia no colete. Esses dois detalhes eram de couro preto. Por um momento Sherlock pensou que o rosto do homem era muito pálido ou estava coberto de maquiagem, mas depois de um instante percebeu que ele usava uma máscara de porcelana, uma peça feita com tanto cuidado, com tamanha riqueza de detalhes, que parecia um rosto de traços delicados. O cabelo que escapava do chapéu e emoldurava a máscara era de um louro tão claro que era quase branco.
Os olhos que espiavam pelos buracos na máscara, porém, não eram brancos. A íris era tão escura que era quase negra, e a região em torno estava vermelha e injetada. Em contraste com a brancura imaculada da máscara, os olhos pareciam brilhar, rubros.
Os pulsos que emergiam das mangas da camisa eram quase impossivelmente magros. Sherlock pensou se seria possível quebrar aqueles ossos com um simples aperto de mão. Não que o homem tivesse estendido a mão para cumprimentá-los. Os dois braços eram puxados para longe do corpo quando ele se movia, com tiras de couro negro presas aos pulsos levando ao interior da casa. E alguma coisa mantinha essas tiras bem esticadas.
Ele parou assim que cruzou a porta. Sherlock teve a impressão de ver alguma coisa se movendo ao fundo, nas extremidades das tiras de couro, mas não tinha certeza. Deviam ser cães, talvez, mas bem grandes.
— Dr. Berle — o homem falou por trás da máscara. Sua voz era fraca, aguda, quase um sussurro. — Capitão Rubinek, Sr. Booth. E nossos distintos convidados, é claro. Infelizmente, não sei seus nomes. Por favor, pelo bem de uma conversa cortês, tenham a delicadeza de se apresentarem.
— Sou Virginia Crowe.
Matty fez uma careta.
— Matthew Arnatt.
— Ah! — disse o homem. — Um amigo do outro lado do oceano. — Ele olhou para Sherlock com os olhos vermelhos. — E o senhor, quem é?
— Sherlock Scott Holmes — respondeu ele.
— Outro visitante britânico. Que... interessante.
A atenção de Sherlock foi atraída pelas mãos que seguravam as tiras. Havia algo de errado com elas, e ele levou um instante para compreender o que era. Faltavam dedos em ambas – o mínimo na esquerda e o anelar na direita – mas as luvas haviam sido feitas sem espaços para eles, por isso não havia dedos vazios ou tecido preso por alfinetes.
Havia outra coisa estranha nas mãos do homem. Eram tão magras quanto o restante do corpo, mas era possível ver saliências na pele através do tecido das luvas. Como seriam aquelas mãos nuas?
— Estamos em desvantagem — Sherlock falou, voltando a se concentrar na máscara de porcelana e tentando manter a voz calma. — Posso perguntar seu nome?
— Sou Duke Balthassar — respondeu o homem. Sua voz era seca como folhas no outono. — E Duke é meu primeiro nome, não um título de nobreza, como conde ou príncipe. Agora, por favor, sirvam-se. Temos suco de laranja e pães doces. Garanto-lhes que o suco foi feito agora e os pães acabaram de sair do forno.
Virginia estendeu a mão para a jarra.
— Deixem-me servir — ela disse.
Duke Balthassar aproximou-se mais da área iluminada pelo sol. As tiras em suas mãos distenderam-se e, relutantes, dois animais foram puxados para a varanda.
Virginia derrubou o suco de laranja sobre a toalha branca.
Por um momento Sherlock não conseguiu entender o que eram. Pareciam gatos marrons e brilhantes, mas a cabeça deles batia na cintura de Duke Balthassar. Seus olhos eram pretos e as caudas balançavam incansavelmente enquanto olhavam as pessoas, uma a uma.
Pumas? — Virginia sussurrou, sem ar.
— Exatamente — confirmou Balthassar. Ele parecia satisfeito. — Eu até poderia dizer para não ter medo deles, mas esse seria um mau conselho. Você deve ter medo deles.
— Não sabia que pumas podiam ser domesticados — Virginia respondeu, e Sherlock ouviu o tremor na voz dela.
— Não podem — disse Balthassar. — Não mesmo. Mas, como todas as criaturas, inclusive os humanos, eles respondem ao medo. E estes animais têm medo de mim. — Ele disse alguma coisa em um idioma estrangeiro e os pumas se deitaram na varanda, acomodando a cabeça sobre as patas.
Sherlock via os dentes naquelas bocas entreabertas. Eram dentes que podiam arrancar a mão de um homem, e as garras que ele via parcialmente recolhidas tinham força suficiente para arrancar um braço de sua articulação.
— Como se faz um puma sentir medo de você? — ele perguntou, temendo não gostar da resposta.
— Da mesma maneira que se faz um homem ter medo de você — Balthassar respondeu. Um dos criados vestidos de preto puxou a última cadeira vazia e ele se sentou com delicadeza, cruzando as pernas finas como as de um gafanhoto. — Com uma mistura de dor e exemplos do que vai acontecer em caso de desobediência. Eles têm memória. Lembram-se dos exemplos e comportam-se de acordo. Ou você se desfaz deles e recomeça com outro animal, e o ato de desfazer-se, se for realizado de forma adequada e se durar o tempo necessário, já serve como um exemplo do que vai acontecer caso o novo animal não obedeça. Você pode deixar o corpo à mostra por algum tempo.
Houve um momento de silêncio à mesa, com todos observando os pumas.
— Gostei de seu trem — Matty comentou depois de um tempo.
A máscara de porcelana não se moveu, mas Sherlock sentiu um sorriso por trás dela.
— Você é muito gentil. O trem é útil quando preciso ir a reuniões em Nova York ou algum outro lugar. Odeio ter que pegar uma carruagem até a estação mais próxima. As estradas são esburacadas, e há muita poeira. É bem melhor quando o trem vem até mim.
— Como conseguiu algo assim? — Sherlock perguntou.
— Garanto muitos negócios à companhia que administra a ferrovia — Balthassar explicou. — Sou um empreendedor. Tenho vários circos e exposições itinerantes que levam animais exóticos a todos os cantos deste belo país, e essas exposições e circos viajam em nossos próprios trens. Quando informei à companhia que queria uma extensão dos trilhos e um mecanismo que me permitisse desviar a composição para minha casa sempre que fosse necessário, os responsáveis concordaram. — Ele parou. — Depois de um tempo. Depois de eu dar exemplos do que aconteceria se eles não concordassem.
Sherlock tentou imaginar que tipo de exemplos Balthassar havia fornecido, mas depois mudou de ideia. As imagens eram muito nítidas.
— Então, desviou nosso trem porque seus homens estavam nele — deduziu Virginia.
— Exato. Eles haviam telegrafado informando que estariam a bordo e avisaram que trariam cargas muito preciosas. — O homem olhou para John Wilkes Booth, que observava o copo de suco de laranja como se ele contivesse os segredos do universo. — O Sr. Booth aqui é uma delas. Há algum tempo espero que ele retorne a este país antes glorioso. Tenho planos para ele. Outra carga foi descarregada mais cedo e, neste momento, está sendo apresentada a seu novo ambiente. — Ele olhou para a caixa que Berle segurava. — E acredito que tenha aí a última unidade. É isso mesmo, Dr. Berle?
Berle assentiu e lambeu os lábios secos.
— Sim, Duke. Você...
— Ainda não, doutor. Há muito tempo espero pela chegada dessa encomenda em particular. Quero saborear o momento. — Ele parou e olhou para todos em torno da mesa. — No entanto, estou sentindo falta dos estimáveis senhores Ives e Gilfillan. Onde estão eles?
Sherlock sabia que tinha duas opções: podia deixar Berle dizer a Balthassar que Gilfillan estava preso e Ives estava morto ou podia ser mais rápido, contar tudo e tomar a iniciativa. Decidiu tomar a iniciativa.
— O Sr. Gilfillan está preso na Inglaterra — disse. — E eu matei o Sr. Ives há pouco, jogando-o de cima do trem. — Sherlock olhava para as frestas na máscara de Duke Balthassar. — Ah, e também eliminei um comissário do SS Scotia que tentou me matar. Ele havia sido pago pelo Sr. Ives.
Um silêncio caiu sobre a mesa. Ouvia-se apenas a respiração ruidosa dos dois pumas, que observavam Sherlock com grande atenção. De alguma forma, os animais sabiam que havia uma batalha pelo comando entre ele e Duke Balthassar.
— Muito corajoso da sua parte — Balthassar falou depois de um instante. — Por que, exatamente, você os matou?
— Talvez quisesse dar o exemplo aos seus outros serviçais — Sherlock respondeu com tom neutro. — Fazê-los sentir medo de mim.
Balthassar riu: era um som claro, alto, agudo, um som que fez os pumas se encolherem.
— De fato, muito corajoso — ele disse. — Acho que gosto de você, Sr. Sherlock Scott Holmes. Não o suficiente para mantê-lo vivo, mas gosto.
— Não vai fazer nada com ele? — Rubinek indagou.
— Por quê? — Balthassar devolveu a pergunta. — Não. Se os homens foram idiotas a ponto de se deixarem vencer por um menino, então já foram tarde. Pouparam-me o trabalho de lidar com eles eu mesmo. Não, o jovem Sherlock aqui não verá o pôr do sol, mas não será por ter eliminado homens que trabalhavam para mim. Não. Ele e os amigos vão morrer porque não tenho utilidade para eles aqui.
O silêncio caiu sobre a varanda.
— Então — Balthassar prosseguiu depois de um momento tenso —, agora que já nos apresentamos e agora que estão confortáveis e saciaram a sede e a fome, por favor, digam-me o quanto as autoridades sabem sobre meus planos.
— Não sabemos de nada — Sherlock respondeu.
— Está errado em duas questões — Balthassar falou. — Primeira, é evidente que você sabe de alguma coisa, se conseguiu interferir nos meus planos e matar dois dos meus homens. Crianças em geral não tropeçam em algo dessa magnitude ou, se isso acontece, fogem bem rapidamente. Pelo que sei, você foi visto pela primeira vez na Inglaterra, na casa onde o Sr. Booth era... mantido em segurança. Foi lá que o Sr. Ives e o Dr. Berle o viram pela primeira vez. A pergunta é: o que estava fazendo lá? Chegou à casa por acaso, por mero acidente, ou estava procurando o Sr. Booth?
Sherlock abriu a boca para dizer alguma coisa, mas Balthassar o calou com um gesto.
— Seu segundo erro — ele prosseguiu, naquele mesmo tom neutro e agradável — é que não importa o que você sabe. Isso não me interessa nem um pouco. Tenho todos vocês aqui, e ninguém vai escapar. Nas próximas horas, todos morrerão, e junto com vocês vai morrer todo o conhecimento que tiverem sobre meus planos. E isso é uma promessa. Não, a única questão importante é o que o pai dessa garota, Amyus Crowe, e as autoridades da Inglaterra e dos Estados Unidos sabem? — Ele parou e virou a máscara de porcelana para Sherlock. — Fale, e fale agora, antes que eu perca a paciência.
Apesar do sol quente brilhando em um céu azul e sem nuvens, Sherlock sentiu uma brisa fria soprando pela varanda.
— Se vai nos matar de qualquer jeito — ele respondeu com cautela —, por que deveríamos dizer alguma coisa? Não é como se pudéssemos salvar nossas vidas com isso. Você mesmo já disse.
— Sim, tem razão — Balthassar concordou. — Este país tem por base os princípios do comércio e da negociação. Muito bem, vou fazer uma oferta.
Ele virou a máscara de porcelana para Virginia.
— Estenda a mão — disse.
Virginia olhou para Sherlock com o pânico estampado no rosto. Ele não sabia o que a menina devia fazer: obedecer ou ignorar a ordem? Sherlock não conseguia prever qual seria o desfecho de uma ação ou de outra. Apesar da atitude agradável, Balthassar parecia caminhar sobre a linha tênue que separa civilidade e loucura.
— Que coisa tediosa — ele falou. — Sr. Rubinek?
Rubinek inclinou-se por cima da mesa e agarrou o pulso de Virginia, puxando seu braço e aproximando a mão aberta de Balthassar.
— Excelente — disse o homem da máscara de porcelana. Depois, ele falou em tom gutural algumas palavras em um idioma que Sherlock não conseguiu identificar.
Um dos pumas se levantou e caminhou na direção de Virginia, a pele deslizando suavemente sobre músculos definidos e visíveis a cada movimento que ele fazia. Virginia ficou paralisada: até sua respiração parecia estar suspensa.
O puma abriu as mandíbulas e estendeu o pescoço até a mão de Virginia estar dentro de sua boca. Rubinek soltou o braço e sentou-se normalmente na cadeira. O grande felino fechou a boca até os dentes pressionarem a carne do pulso de Virginia.
— Agora, temos duas possibilidades — Balthassar falou em um tom relaxado e sereno. — Ou você me diz o que quero saber ou o puma vai arrancar a mão da menina. — A máscara de porcelana permanecia impassível, mas Sherlock podia sentir um sorriso por trás da superfície lisa. — A propósito, o nome dele é Sherman. O do outro é Grant. Uma piadinha minha.


Virginia mantinha os olhos fixos em Sherlock.
— Eu vou contar — Matty anunciou apressado.
— Não — Balthassar recusou com delicadeza. — Quero que o Sr. Sherlock me diga. Pelo que percebi, ele é o líder desse grupinho. É ele quem tem que aprender a sentir medo de mim. É ele quem precisa ser treinado. — O homem da máscara fez uma pausa breve. — Sabe, há várias maneiras de morrer. Uma bala na cabeça é um método rápido e indolor, imagino. Sangrar até a morte é lento e doloroso. Você não pode escolher se vai morrer ou não; tirei de suas mãos essa possibilidade. No entanto, pode escolher como você e seus amigos morrerão: depressa ou devagar, em agonia ou em paz.
— Muito bem — Sherlock falou com o coração disparado. — Chame o puma de volta, e eu falo o que quer saber.
— Não — Balthassar rebateu. — Você fala primeiro, eu chamo o puma depois.
A tensão no ar era quase visível. Sherlock sabia que ele e Balthassar testavam a força de vontade de ambos para saber quem dos dois era o mais determinado. O problema era que Balthassar estava em vantagem.
— As autoridades sabem sobre John Wilkes Booth — ele disse. — Sabem que ele não está morto, que foi levado do Japão para a Inglaterra e que agora está aqui, na América. O governo britânico sabe disso, e a Agência Pinkerton também. Presumo que pretendam informar o governo norte-americano. No entanto, eles não sabem o que pretende fazer com ele.
— Muito bom — Balthassar aprovou. — E o que mais?
— Não há mais nada!
— Sempre tem mais alguma coisa. Por exemplo, as autoridades sabem sobre mim?
— Não.
— Então, foi parar naquele trem por acidente? Acho que não.
— Estávamos seguindo seus homens — Sherlock revelou, apontando para Berle e Rubinek. — Queríamos resgatar Matty.
— E havia mais alguém com vocês no trem? — A voz de Balthassar era calma, mas implacável.
— Não. Estávamos sozinhos.
— São muito ardilosos, então. — Balthassar fez uma pausa, e Sherlock teve a impressão de que ele estava pensando se mandava Sherman arrancar a mão de Virginia mesmo depois de obter as informações que queria.
Sherlock nem se deu o trabalho de rezar. Nenhuma entidade externa poderia socorrê-los agora. Estavam sozinhos, à mercê dos caprichos de um louco.
Esse pensamento provocou uma ideia. Talvez pudesse reverter a situação, virá-la contra o homem da máscara de porcelana.
Balthassar deu uma ordem curta e o puma recuou relutantemente, afastando os dentes que pressionavam o pulso de Virginia. Todo o seu corpo pareceu murchar. O animal observou-a por um segundo, depois voltou para perto de Balthassar.
— Tenho uma pergunta — disse Sherlock.
Balthassar encarou-o com seus olhos vermelhos por trás da máscara.
— Não entendeu as regras? Eu faço as perguntas, você as responde, e isso garante a vocês uma morte rápida e indolor. Esse é o acordo.
— Mas temos que acreditar na sua palavra em relação a isso — ponderou o menino. — Acho que vai arrancar de nós todas as respostas que quer e depois vai nos torturar do mesmo jeito, só por prazer. Partindo dessa suposição, não temos nada a ganhar cooperando, somente vamos retardar o início da tortura.
Balthassar pensou um pouco.
— Essa é uma análise lógica — concordou. — Você só tem minha palavra e não sabe se ela é confiável ou não. Tem uma contraproposta?
— Vamos aceitar sua palavra — Sherlock respondeu —, se também responder às nossas perguntas.
— Interessante — Balthassar murmurou. — Bem, não tenho nada a perder com isso e posso obter mais informações. Por outro lado, você não perde nada, porque ainda escolho como vão morrer, mas pode conseguir algumas informações, o que parece importar para você. Então... sim, eu concordo. Pode fazer as perguntas.
— Para que precisa de John Wilkes Booth? Por que o fato de ele estar vivo e na América é tão importante a ponto de pessoas terem que morrer para mantê-lo em segredo?
— Ah, as pessoas precisam morrer pelas mais variadas razões, e poucas são importantes. Mas gosto de você, Sherlock Scott Holmes. Você tem fibra. Então, vou dizer o que quer saber. — Ele olhou para Berle e Rubinek. — Afinal, eles não vão entender. Só querem o dinheiro.
— Ei... — Berle manifestou-se, mas ficou quieto quando Balthassar lançou-lhe um olhar.
— Sei que é inglês, mas deve ter ouvido falar sobre a Guerra entre os Estados — começou o homem da máscara de porcelana.
Sherlock assentiu.
— Meu irmão disse que a questão era a escravidão. — Ele olhou para Virginia. — E o pai dela disse que era muito mais complicado do que isso.
— O pai dela está certo. No final, a questão principal era a da autodeterminação. Há oito anos tivemos uma eleição na qual o Partido Republicano, liderado por Abraham Lincoln, usou como base para sua campanha a promessa de impedir que a escravidão se expandisse para além dos estados onde já existia. Lincoln ganhou a eleição, e por isso sete estados do Sul declararam sua secessão da União antes mesmo da posse do novo presidente. Esses estados foram Carolina do Sul, Mississippi, Flórida, Alabama, Geórgia, Louisiana e Texas. Eles formaram um novo país, os Estados Confederados da América, com Jefferson Davis como presidente. Menos de dois meses depois, Virgínia, Arkansas, Carolina do Norte e Tennessee haviam se unido a eles.
— O que é secessão? — perguntou Matty.
— Secessão — Balthassar explicou — é quando um estado se retira da União de Estados e se declara uma entidade separada. Secessão é um direito que acreditamos ter sido garantido na Declaração de Independência, mas a finda administração de James Buchanan e a vindoura, de Abraham Lincoln, não concordavam com isso. Eles consideraram a secessão uma rebelião e a declararam ilegal. — Um suspiro profundo interrompeu a explicação. — No final, não é importante se você acredita que um homem pode manter escravos ou não. Nossa verdadeira luta é pelo direito de estabelecermos nossa própria nação, independente daquela que Lincoln estava liderando, e fazer as coisas à nossa maneira. Se a escravidão não fosse a causa para o início dessa guerra, outro motivo teria sido usado.
— Mas vocês perderam — Sherlock comentou. — Ulysses S. Grant e William Sherman venceram Robert E. Lee em batalha. Ele se rendeu.
— Ele não tinha o direito de render-se — Balthassar disparou, irritado. — Não tinha essa autoridade. A guerra continua, mesmo que não a reconheçam. O Governo Exilado da Confederação ainda tenta assegurar a liberdade do regime opressor da União para todos os estados que desejarem se separar.
Sherlock distraiu-se com um movimento da mão de Balthassar. Não, não da mão dele, o menino percebeu, mas na mão dele. O tecido branco da luva esquerda se movia ligeiramente, bem no local das saliências que ele havia notado antes. Diante de seus olhos um caroço parecia se mover, subindo pela mão em direção ao pulso. Que diabo era aquilo?
— Ah! — Balthassar notou que Sherlock olhava para sua mão. — Vejo que notou a presença de meus pequenos companheiros. Deixe-me fazer uma apresentação mais formal.
Ele levou a mão direita à esquerda e segurou o tecido. Com um movimento firme, mas cuidadoso, Balthassar removeu-o.
Virginia sufocou um grito, enquanto Matty deixou escapar um gemido de repugnância.
A mão, sem o dedo mínimo, e o pulso de Balthassar eram cobertos pelo que pareciam ser bolhas, mas que, depois de um segundo, Sherlock reconheceu como seres vivos parecidos com lesmas. A pele dos seres tinha um tom cinza-avermelhado e era úmida, e as coisas pareciam pulsar levemente sob seu olhar atento.
— O que é isso? — ele perguntou.
Balthassar removeu a outra luva. Sua mão direita, aquela em que faltava o anelar, também estava tomada pelas criaturas parecidas com lesmas.
— Conheça meus médicos — ele disse. — Uma equipe inteira de médicos dedicada ao meu bem-estar.
Levantando a mão direita, ele soltou um gancho atrás da orelha esquerda e removeu a máscara de porcelana com um gesto rápido.
Os pumas sibilaram e tentaram recuar pela varanda.
O rosto de Balthassar era abatido, com nariz e ossos da face proeminentes, mas seus traços eram difíceis de distinguir sob as criaturinhas invertebradas que aderiam à pele branca como gotas negras de piche.

Um comentário:

  1. Pra quem não entendeu a piada dos nomes dos pumas: é uma referência à William Sherman, um general do Exército da União (o do Abraham Lincoln) que sucedeu Ulysses Grant em 1864 numa das frentes do Exército da União. Os sobrenomes deles são os nomes dos pumas.

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Boa leitura :)