17 de julho de 2017

Capítulo treze

O CORPO TODO DE SHERLOCK pareceu paralisar-se de horror e incredulidade, mas logo uma raiva furiosa invadiu-o. Dando um passo para a frente, ele deu um soco forte na virilha de Denny. O bandido dobrou-se ao meio, sufocado pela dor. Quando caiu, Sherlock deu um passo para trás e chutou seu queixo. Alguma coisa estalou. O homem gritou por uma boca que parecia ter sido travada, e que pendia para um lado, torta.
A mulher – a acompanhante de Bill – também gritava, um som agudo e intenso que cortava o ar como uma lâmina.
Os outros quatro homens entreolharam-se, incrédulos, depois avançaram com as mãos sujas estendidas para Sherlock. Cada detalhe ficou gravado na mente do menino: a sujeira sob as unhas dos homens, os pelos no dorso de suas mãos, o sangue que formava uma poça no chão, o grito da mulher e o de Denny, que se fundiram em um silvo contínuo de dor. O mundo parecia rodar cada vez mais devagar, até parar completamente e estilhaçar-se em torno de Sherlock. Ele olhou para a mulher e sentiu a boca seca.
— Sinto muito — disse.
Depois voltou a correr. Dois homens seguiram-no, deixando Denny para trás, caído no chão ao lado de Bill. A mulher apenas ficou lá, parada, olhando para os dois homens, o grito gradualmente se transformando em soluços engasgados, frutos do choque.
Sherlock virou em uma esquina e viu diante de si um enorme edifício abobadado. Parecia completamente deslocado no meio de uma área cheia de arbustos e árvores. Várias ruas – essas largas, não becos – partiam daquele ponto, e havia um movimento intenso e constante de pessoas e cavalos em torno do edifício. Para além dele, Sherlock viu um muro de pedras e, mais longe, a superfície agitada e escura do Tâmisa.
Ele correu para lá. Onde havia gente provavelmente haveria também segurança.
Com rapidez, passou desviando-se por entre mulheres e homens bem-vestidos e deslizou por baixo dos varais de uma carruagem, correndo em direção ao prédio. Aproximando-se, Sherlock percebeu que o lugar era decorado com estátuas e mosaicos de ladrilhos. A entrada ampla erguia-se à sua frente, e ele alterou levemente seu curso de modo a ir diretamente a seu encontro. Atrás dele, gritos e palavrões indicavam que seus perseguidores não tinham desistido.
A entrada dava para um saguão circular, iluminado pelo sol através dos inúmeros vitrais do teto abobadado. A luz conferia ao lugar um ar quase circense, arlequíneo. No centro do edifício havia um buraco cercado por um parapeito, em torno do qual as pessoas estavam dispostas, olhando para alguma coisa lá embaixo. De um lado, uma ampla escada descia pela borda da abertura circular, mergulhando nas profundezas da terra.
Sherlock atravessou o lugar às pressas, empurrando as pessoas que se aglomeravam em seu caminho, e finalmente chegou ao topo da escada. Olhou para trás e viu os dois homens, que tentavam cruzar o mar de gente. Um deles era careca, com orelhas e nariz deformados, e a pequena parte do cérebro de Sherlock que não tentava desesperadamente bolar possibilidades de fuga pensou que ele talvez tivesse sido um boxeador. O outro era extremamente magro, tinha faces salientes e queixo pontiagudo. Ambos estavam decididos a capturá-lo, custasse o que custasse. Talvez antes eles pudessem ter desistido, se Sherlock não tivesse fraturado a mandíbula de Denny; agora, porém, estavam motivados, tinham um propósito. Um deles fora humilhado, e por isso Sherlock teria de pagar.
Ele virou-se e começou a correr escada abaixo.
Os degraus desciam numa espiral que contornava um poço imenso, e eram interrompidos de quando em quando por mais patamares planos e parapeitos para, em seguida, continuar a descida até o abismo. Um cheiro subia do poço: uma combinação de umidade, podridão e mofo, um fedor que fazia o nariz de Sherlock coçar e os olhos lacrimejarem. Seus passos tornaram-se mecânicos com a repetição: pisar os degraus que o levavam cada vez mais ao fundo do poço cilíndrico. Ele não tinha ideia do que encontraria no final da descida, mas um olhar dirigido ao alto bastou para mostrar a ele o que o aguardava escada acima. Dois homens do barão de Maupertuis corriam degraus abaixo, ao seu encontro.
Sherlock aumentou a velocidade. O que quer que estivesse no fundo do poço não poderia ser tão ruim quanto a morte certa e provavelmente lenta que o perseguia.
Ele tinha a impressão de ter passado os últimos dias praticamente em corridas e lutas, apenas, e mesmo enquanto seus pés batiam, ruidosos, nos degraus de pedra e sua mão ardia em contato com o corrimão áspero, parte de sua mente trabalhava freneticamente, perguntando-se o que afinal o barão Maupertuis acreditava que ele soubesse, e que seria tão importante, a ponto de ele ter de morrer por isso. O que exatamente o barão pretendia fazer? E por que Sherlock era um obstáculo a seus planos?
Antes que percebesse, o menino tinha chegado ao fim da descida. Estava em um salão iluminado por lâmpadas a gás. Dois túneis em arco partiam dali, e ambos seguiam na mesma direção. Os arcos, feitos de tijolos, tinham quatro ou cinco vezes a estatura de um homem adulto e estavam visivelmente úmidos, onde quer que se olhasse. Ao considerar a direção dos túneis, Sherlock entendeu por quê. Eles passavam diretamente sob o Tâmisa, e deviam terminar em um poço semelhante na margem norte.
Se conseguisse chegar ao outro lado, talvez pudesse escapar com vida.
Sherlock entrou correndo no túnel da esquerda. Pessoas vagavam por ali, como se caminhar sob o leito de um rio não fosse nada especial. Havia até cavalos ali embaixo, e eles eram conduzidos com tranquilidade. Obviamente, não tinham a menor ideia das incontáveis toneladas de água existentes logo acima de suas cabeças, sustentadas apenas por uma alvenaria já em ruínas.
Havia momentos em que ser muito lógico era uma maldição. Aquele era um deles. Sherlock sabia quanta pressão era exercida contra as paredes do túnel. Uma pequena rachadura, e a água invadiria, afogando todo o mundo.
Mas ele continuava a correr. Não tinha opção.
Ou tinha? Enquanto corria, notou que os túneis eram paralelos, ligados por pequenas passagens laterais mais ou menos a cada dez metros. Em todas as passagens, londrinos empreendedores tinham montado barracas para a venda de comida, bebida, roupas e todo tipo de bugiganga. Se conseguisse entrar sem ser visto em uma daquelas passagens, Sherlock poderia retornar pelo outro túnel até o salão, voltar ao galpão e sair à procura de Amyus Crowe.
Ele desviou para a direita, acompanhando o túnel principal, e entrou na primeira passagem que encontrou. Um homem virou-se em sua direção, iluminado por uma lamparina a óleo pendurada em um prego na lateral de sua barraca de madeira. Sua pele era de um tom cinzento pálido, e estava úmida, como a de uma criatura que morasse havia muito tempo no subterrâneo. Ele estava enrolado em um cobertor velho que endurecera com o acúmulo de sujeira ao longo do tempo, de modo que adquirira a aparência de uma armadura bizarra. Seus olhos pareciam ter apenas o preto das pupilas, e ele espiou o menino por um momento.
— Quer um relógio? — perguntou, esperançoso. — É muito bom. Está sempre certo. Sempre preciso. Relógio para corrente, relógio de parede... O que você quiser, eu tenho.
— Não, obrigado — respondeu Sherlock, passando pela barraca. Ocorreu-lhe que o tempo não tinha nenhum significado sob o Tâmisa. Ali não havia sol nem lua, não havia dia nem noite. O tempo simplesmente passava. Por que alguém precisaria de um relógio?
— Que tal um belo relógio de bolso? Quem tem um nunca precisa perguntar que horas são. Um jovem cavalheiro como você pode impressionar as moças com um relógio numa corrente. É prata de verdade. E também é gravado. Você pode guardar a foto de seu amor dentro dele.
Prata de verdade, gravado, e certamente roubado.
— Obrigado — Sherlock disse, ofegante —, mas o dinheiro está com meu pai. Ele vai passar por aqui logo. Diga a ele que quero esse relógio e não o deixe ir embora sem comprá-lo.
O vendedor sorriu, e o menino pensou em um crustáceo predador escondido sob uma pedra, aguardando a inesperada presa passar por ali.
Sherlock espiou pela borda no final da passagem, em direção ao poço por onde viera, e praguejou. Os perseguidores deviam ter se separado. Um deles o seguira pelo túnel da esquerda, mas o outro correra pelo da direita. Ele empurrava as pessoas que ficavam em seu caminho, olhando atentamente para todos os homens com menos de vinte anos, para certificar-se. Era evidente que os dois conheciam aquela área muito melhor que ele.
Ele decidiu esperar que o homem atravessasse a entrada da passagem lateral e, só então, voltaria ao salão. Porém, o plano foi apressado por uma súbita agitação às suas costas. Ao virar-se, viu o vendedor da barraca tentando forçar o bandido que seguira Sherlock pelo túnel da esquerda – o careca com orelhas de couve-flor e nariz esmagado – a ficar com um pequeno relógio de corrente. Ele empurrava o homem e gritava palavrões, mas o vendedor, em seu cobertor enrijecido, persistia, cada vez mais parecido com uma criatura de carapaça que habitasse o fundo do mar. Ele voltou a forçar a caixa para o bandido e exclamou:
— Compra para filho! Compra para filho!
O ex-boxeador empurrou-o outra vez, com mais força, e o vendedor esbarrou na lamparina, jogando-a contra a parede. O vidro quebrou-se e o óleo caiu sobre o cobertor sujo. O pavio, ainda encharcado, também caiu sobre o tecido, incendiando-o.
As chamas espalharam-se rapidamente, quando o homem ainda estava sob o cobertor. Agitando os braços, ele disparou para o túnel da esquerda. As pessoas afastavam-se, horrorizadas. O vendedor chocou-se contra um transeunte, e o fogo transferiu-se para a casaca do indivíduo, que cambaleou e bateu com as mãos nas chamas, mas tudo o que conseguiu foi atear fogo também à saia de uma mulher que estava por perto. Um cavalo que era conduzido pelo túnel fugiu ao ver o fogo, arrastando o dono consigo.
Em poucos instantes o túnel ardia em chamas. Roupas pegavam fogo em um instante, seguidas pelo tecido que cobria as barracas, e até pela madeira das armações, apesar da umidade. Fumaça e vapor encheram o túnel com uma nuvem sufocante. Horrorizado, Sherlock afastou-se do fogo e da fumaça e entrou no túnel da direita, que, felizmente, estava livre do fogo.
Contudo, ainda abrigava um de seus perseguidores.
Uma mão peluda agarrou-o pelo ombro.
— Peguei você, moleque — o homem disse. As axilas de seu paletó estavam tão manchadas de sujeira e suor, que o tecido tornara-se rígido e seboso. O cheiro que emanava de suas roupas era indescritível.
Sherlock debateu-se, mas foi inútil. Os dedos do homem estavam cravados em seu ombro.
— Denny vai querer ter uma conversinha com você — o homem sussurrou, aproximando seu rosto do de Sherlock. Seu hálito dava a impressão de que alguma coisa morrera dentro de sua boca. — E não acho que você vai gostar do que ele tem a dizer.
Sherlock estava prestes a responder quando notou que o piso do túnel lateral movia-se sob a fumaça, ondulava como se tivesse vida. E então ele percebeu que estava vivo. Cheio de ratos. Assustados com o fogo, os animais fugiram de suas tocas e corriam, todos, com o mesmo objetivo: a segurança. Um tapete vivo e imundo de pelos pretos e marrons recobria o piso do túnel. Pessoas e cavalos recuavam com terror diante da massa de pelos, dentes e caudas. Uma criança pequena que era arrastada pelos pais tropeçou e caiu. Os ratos passaram por cima dela, cobrindo seu rosto.
O homem que segurava o ombro de Sherlock afrouxou a mão quando sentiu os ratos em torno de seu tornozelo, mordendo-o com os pequenos dentes afiados. Praguejando, ele tentou espantá-los com as mãos grandes como pás. Sherlock soltou-se de suas garras e mergulhou naquela massa de criaturas vivas, procurando a criança que desaparecera sob a enxurrada voraz. Garras afiadas arranharam seus braços, suas costas, as pernas e a cabeça. Ele sentia um cheiro pungente e acre, como o de urina antiga. Seus dedos fecharam-se ao redor de um braço pequenino, e ele puxou-o com força. Uma menininha emergiu da enxurrada de ratos, com os olhos arregalados e a boca já se abrindo para gritar.
— Está tudo bem — Sherlock disse, colocando-a de volta nos braços dos pais, que chutavam e batiam nos ratos, tentando mantê-los afastados. Eles pegaram a menina e abraçaram-na com força.
E então o maremoto de roedores desapareceu, exceto por uns poucos retardatários mais fracos. Sherlock ainda os via correndo nas duas direções, afastando-se da fumaça que continuava a emanar da passagem lateral. O bandido que o havia agarrado continuava batendo, desesperado, nas próprias roupas, sob as quais era possível ver massas em movimento, formadas pelos ratos que ali se refugiaram e acabaram presos. Sherlock virou-se, pronto para correr de volta para o lado sul do rio, quando se lembrou de que ainda havia outros dois bandidos. Eles certamente esperariam no alto da escada. Não, sua melhor opção seria o outro lado. Ele correu pelo túnel, rumo à margem norte do rio. Havia pontes sobre o Tâmisa, e barqueiros. Ele encontraria um meio de voltar. Em algum momento.
Sherlock percorreu toda a extensão do túnel, afastando-se cada vez mais do fogo. Homens uniformizados passavam por ele carregando baldes com água – uma confusa brigada de incêndio encarregada da segurança do túnel. O menino ignorou-os e seguiu em frente.
Finalmente, Sherlock conseguiu chegar ao lado norte do Tâmisa. Ali, o poço com a escada em espiral era idêntico àquele no lado sul. Ele subiu os degraus de pedra com grande esforço, praticamente sem energia. Era preciso parar em cada patamar para recuperar o fôlego.
Sair da escuridão do subterrâneo para a luz da tarde foi como sair do Inferno para o Paraíso. O ar tinha um cheiro adocicado, e a brisa em sua pele era fresca. Ele parou por um momento, fechou os olhos e saboreou as sensações. Tão simples, mas ainda assim tão perfeitas.
A área em torno do lado norte do túnel era mais sofisticada que na margem sul. Os cais eram ocupados por navios de todos os tamanhos, cujas mercadorias eram carregadas para cima e para baixo nas pranchas por estivadores grandalhões. Sherlock caminhou pela margem do rio, afastando-se dos navios, procurando uma ponte pela qual pudesse atravessar para o outro lado. Sabia que havia pontes sobre o Tâmisa; só não sabia localizá-las em relação a Rotherhithe e ao túnel. Mas, logicamente, se ele andasse o suficiente, acabaria por encontrar alguma. Presumia que caminhava na direção certa, é claro – rumo à City, não o contrário – mas sabia que, se o túnel estava no leste de Londres (e estava) e ele o tinha atravessado do sul para o norte (e ele o fizera), então, se virasse à esquerda ao sair do túnel, estaria na direção certa. O hotel Sarbonnier, no qual estavam hospedados, ficava perto do Tâmisa, na margem norte; então, se continuasse andando, provavelmente o encontraria, mas o que queria mesmo era atravessar novamente o rio e encontrar Amyus Crowe e Matty Arnatt.
Aproximadamente meia hora depois ele encontrou uma ponte: um grande mercado, com duas torres de pedra cinzenta ligadas por uma passarela coberta, na qual havia muitas lojas e barracas. Ele a atravessou sentindo-se cansado, ignorando os gritos dos vendedores que tentavam oferecer qualquer coisa – de um touro inteiro a uma pistola carregada. Londres parecia ser um lugar de possibilidades quase infinitas, desde que se estivesse disposto a pagar por elas.
No final da ponte, ao sul, Sherlock virou à esquerda outra vez, e caminhou por ruas, avenidas, becos e, às vezes, por cima de muros largos, para seguir na direção do galpão em Rotherhithe, onde se perdera de Amyus Crowe e Matty. Os mastros dos navios estendiam-se para o alto ao longo da margem do rio, formando uma floresta de troncos finos. O Tâmisa exalava um odor constante de dejetos humanos. Se Mycroft trabalhava todos os dias neste lugar, merecia uma medalha simplesmente por sobreviver.
A cerca de dois quilômetros da ponte Sherlock passou por um navio que era abastecido por um grupo de estivadores. Eles suavam e reclamavam, tentando manobrar caixotes grandes pelas pranchas inclinadas sem derrubar nada no rio. Algo no tamanho e no formato daquelas caixas despertou a curiosidade de Sherlock, e ele aproximou-se, permanecendo abrigado em um edifício próximo.
Um homem encorpado que vestia um paletó azul-marinho estava parado perto da entrada e consultava papéis presos a uma prancheta. De vez em quando ele lambia a ponta de um lápis e fazia uma anotação.
As caixas eram idênticas às que Sherlock vira no jardim da mansão na qual fora aprisionado – as colmeias de ripas irregulares. E perto delas havia várias pilhas das bandejas de madeira que ele vira deslizar sob as colmeias. Elas tinham sido embrulhadas em papel encerado, mas o formato era inconfundível.
Sem querer, acabara encontrando a operação do barão de Maupertuis. Por isso Denny e sua gangue estavam ali.
Sherlock aproximou-se, observando. Algumas colmeias estavam sendo postas sobre um palete, que era erguido por cordas por estivadores suados e então depositado no porão de carga do navio. Só Deus sabia como evitavam que as abelhas atacassem os homens, como acontecera com os dois infelizes em Farnham. Talvez o barão soubesse de algum método para mantê-las sob controle.
Enquanto Sherlock observava, uma corda presa a um dos cantos de um palete que era içado rompeu-se. O palete pendeu para o lado, e quatro colmeias escorregaram. Elas caíram, tombando lentamente, e quebraram-se nas pedras que havia logo abaixo.
Homens aproximaram-se, correndo em direção ao local, todos carregando baldes de estanho dos quais saía uma espécie de mangueira. Dentro desses baldes havia alguma coisa que produzia fumaça e que parecia induzir nas abelhas um estado de torpor. Algumas escaparam, mas a maioria permaneceu perto das colmeias quebradas, voando como se estivessem bêbadas. Lonas foram jogadas sobre o que restava das colmeias, e tudo foi arrastado pelo chão e jogado na correnteza espumante do Tâmisa. Sherlock imaginava que fosse quase impossível reconstruir uma colmeia destruída.
— Sherlock?
Uma voz chamou-o em um tom bastante baixo. Ele olhou ao redor do esconderijo em que estava. Não parecia a voz de Amyus Crowe. Nem de Matty Arnatt.
Sherlock? — Dessa vez o chamado soou mais urgente. Ele passou os olhos pela área e de repente percebeu que havia mais alguém ali, também escondido atrás de uma pilha de engradados. Uma figura feminina.
— Virginia?
Ela vestia suas calças de montaria e uma jaqueta sobre a camisa simples de linho branco. Encarava Sherlock com os olhos arregalados.
— O que você está fazendo aqui? — ela sussurrou.
Sherlock rapidamente se juntou a ela.
— Demoraria muito se eu fosse explicar — ele respondeu.
Virginia o olhou de cima a baixo.
— O que esteve fazendo?
Ele refletiu por um instante.
— Nadando num mar de ratos — disse enfim. — Entre outras coisas. Qual é sua história?
Virginia desviou os olhos, inesperadamente envergonhada.
— Eu não ficaria de lado enquanto vocês, rapazes, teriam toda a diversão — ela sussurrou. — Então, vesti minha calça e segui vocês.
— Nós descemos o rio. Em um barco. Como você nos seguiu?
A jovem encarou-o de um jeito estranho.
— Em outro barco, é claro. Apenas disse ao barqueiro que os seguisse. Ele resmungou, mas eu tinha algum dinheiro que meu pai deixara comigo, e isso o acalmou. Enquanto vocês espionavam o galpão, eu espiava vocês. Depois vi que alguns homens vinham para cá, e nenhum de vocês parecia sair do lugar, então os segui até aqui.
— Eu não a vi — Sherlock disse, surpreso.
— Meu pai ensinou-me todas as técnicas de rastreamento que ele conhece — ela explicou, orgulhosa. — Se o estou seguindo, “nada” é exatamente o que você irá ver. — Virginia fez uma pausa e estendeu a mão para tocá-lo no braço por um breve instante.
— O que você fez foi terrivelmente perigoso — Sherlock disse —, mas estou feliz por vê-la.
A menina deu de ombros.
— Foi melhor que ficar no hotel esperando a volta de vocês.
— Mas por que me seguiu? Por que não foi atrás de seu pai e contou-lhe o que tinha acontecido?
— Eu estava seguindo você — ela respondeu simplesmente —, não ele. Perdi o rastro dele.
— Mas uma garota... sozinha... no extremo leste de Londres... — Sherlock parou, sem saber como concluiria a frase. — Há gente muito ruim por aqui... — tentou, e depois começou a explicar exatamente o que acontecera naquela tarde, incluindo o sujeito esfaqueado e o incêndio nos túneis. Era um alívio falar sobre essas coisas, mas ao mesmo tempo Sherlock percebia que correra perigo mortal e ainda não sabia por quê.
— Eles não podem escapar impunes — Virginia disse quando ele terminou. — Você é só um garoto. Eles podiam tê-lo matado.
— Você também é só uma garota — Sherlock protestou de maneira desastrada.
Virginia sorriu.
— Não falei nesse sentido — ela disse. — Quis dizer que não deveríamos estar envolvidos nesse tipo de coisa.
— Mas estamos — Sherlock observou. — E temos de impedir o que está acontecendo, seja o que for.
— Bem, estou pronta para isso. Estou disfarçada de menino. Achei um chapéu — disse orgulhosa, pegando-o do chão, onde o tinha deixado quando se abaixara. Era um boné de pano. Com uma das mãos, Virginia enrolou os cabelos para trás, enquanto a outra ajeitava o boné na cabeça. Com os cabelos escondidos e a jaqueta abotoada até o pescoço, Sherlock entendeu como seria possível que ela fosse confundida com um menino. E ainda havia a calça, é claro. Meninas usavam vestidos, não calças. Ninguém que não a conhecesse teria razões para suspeitar dela.
— Já que estamos aqui — ele disse —, precisamos aproveitar a oportunidade para descobrir o destino desse barco. — Olhou em volta, procurando pelo homem que vira antes, com a prancheta e as folhas de papel. — Acho que aquele homem é o supervisor das docas, o chefe, ou algo desse tipo. Podemos perguntar a ele.
— Perguntar assim, diretamente?
— Seu pai deu-me umas boas dicas sobre como fazer perguntas.
Olhando em volta e escolhendo um momento em que ninguém estivesse virado na direção dos dois, Sherlock conduziu Virginia para longe do esconderijo, atravessando o cais até um ponto do muro de pedras em que eles pudessem se sentar e observar o Tâmisa. Ele sentiu um arrepio na nuca, o que indicava a Sherlock que os dois eram observados, mas o menino suprimiu a sensação. Provavelmente naquele momento Denny estaria com um médico ou um cirurgião, presumindo que sua mandíbula estivesse mesmo quebrada, e era bem capaz que os outros homens não tivessem conseguido dar uma boa olhada em Sherlock a ponto de distingui-lo de qualquer outro menino – especialmente agora que estava coberto de terra, fuligem, pelos de rato e talvez outras coisas que ele nem queria considerar. Então eles ficaram ali, sentados no muro, por uma meia hora, ou mais, falando coisas sem propósito e tentando fazer parte do cenário. O supervisor, ou chefe, ou o que quer que fosse, finalmente concluiu seus assuntos com aquele navio e começou a caminhar na direção dos dois. Quando o viu passar, Sherlock olhou para ele e disse:
— Ei, chefe. Tá sabendo de algum trabalho aqui no porto?
O homem olhou com desdém para o menino magro.
— Talvez daqui a cinco anos, filho — ele disse, empregando um tom mais ou menos gentil. — Quando tiver músculos em cima desses ossos.
— É que preciso sair de Londres — Sherlock insistiu, com um tom de voz suplicante. — Sou capaz de trabalhar duro. De verdade. — Ele apontou para o barco ali perto. — Eles ali... parece que estão precisando de mais gente.
— Estão — o homem respondeu. — Hoje à tarde faltaram três homens. Mas não acho que você tenha como ocupar uma dessas vagas. Além do mais, aquele barco não vai levá-lo para muito longe de Londres.
— Por que não?
— Ele só vai até a França e depois retorna. Viagem rápida, sem parada para a tripulação descansar. — Ele riu. — Se quer se afastar um pouco daqui, aliste-se na Marinha. Ou fique por aqui bastante tempo, e eles vão acabar aparecendo para levá-lo.
O homem afastou-se rindo.
— França — Sherlock comentou, intrigado. — Interessante.
— Ouvi você dizer que quer fazer parte de nossa tripulação — uma voz falou da proa do navio. Sherlock fez uma careta preocupada e desviou o olhar, mas a voz continuou: — Por que não embarca com a menina? Sim, sabemos que é uma menina. Estamos observando vocês desde que apareceram por aqui. O que é, vocês acharam que fossem invisíveis?
Sherlock voltou o olhar para onde o supervisor parara e os observava. A expressão em seu rosto era solidária, mas séria. Ele não iria ajudá-los.
Segurando a mão de Virginia, Sherlock levantou-se e a puxou, para que ficasse em pé.
— Hora de ir embora — disse, mas ao virar-se percebeu que um semicírculo de marinheiros e estivadores formara-se em torno deles, surgindo do nada. Sherlock ainda tentou correr puxando Virginia, mas mãos pesadas agarraram-no e separaram os dois amigos. Ele se debateu, mas as mãos imobilizaram-no com firmeza. Viu Virginia resistir também, mas então alguém segurou um pano sobre o rosto de Sherlock. Um cheiro amargo e forte de alguma substância química desprendia-se do pano. Sherlock quase sufocou. E de repente ele sentiu que caía num poço escuro e sem fundo que tinha exatamente a cor dos olhos de Virginia, e por um tempo ele dormiu, e sonhou com coisas terríveis.

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