25 de julho de 2017

Capítulo três

SHERLOCK SENTIA O COURO CABELUDO queimar. Agarrado ao braço do desconhecido, deixou-se arrastar, tentando diminuir a agonia de ter o peso do corpo inteiro pendendo de alguns poucos tufos de cabelo. Já conseguia imaginar umas mechas se soltando, deixando expostas áreas ensanguentadas de carne viva.
— Só vim pegar minha bola de volta! — ele gritou.
O homem o ignorou. Estava resmungando uma sequência de palavrões e acusações contra si mesmo enquanto puxava Sherlock.
O saguão da casa era claro, o sol o invadia por uma claraboia. Havia uma estranha sensação de vazio no ambiente ainda pouco mobiliado. Os passos do homem ecoavam no piso de cerâmica.
Ele abriu uma porta com a mão esquerda e entrou, arrastando Sherlock. Era uma sala de visitas: havia confortáveis poltronas forradas de chintz e com toalhinhas protegendo o encosto, para que o cabelo oleoso de algum cavalheiro não manchasse o tecido, e mesas sem nada em cima além de toalhas de renda. Isso tudo dava ao ambiente um ar de inacabado, fazia parecer que o lugar ainda não tinha habitantes. Aquilo era uma casa, não um lar.
Ah, e havia um corpo no chão. Sherlock viu apenas um par de botas e a metade inferior de uma pessoa de barriga para baixo, enquanto era puxado e jogado sobre uma cadeira.
Ele tocou a cabeça, tentando encontrar ferimentos ou sangue, talvez até uma área de pele frouxa onde, o couro cabeludo tivesse se soltado do crânio, mas estava tudo normal. Exceto pela dor, que não era nada normal.
— Por favor! — Sherlock gritou, tentando fingir que era uma vítima inocente, alguém que apenas passava por ali. — Deixe-me ir. Meus pais vão ficar preocupados comigo! Eles moram no fim da rua!
O homem nem olhava para ele. Em vez disso, sua cabeça ia de um lado para o outro como a de um pássaro, olhando da janela para a porta, da porta para a janela, indo e vindo.
Sherlock parou para observá-lo com atenção. Tudo que conseguira ver na porta havia sido a pele destruída do lado esquerdo do rosto, mas agora podia olhar também o corpo, e tentava encontrar alguma coisa que pudesse ajudar.
O terno era de boa qualidade, disso Sherlock tinha certeza. Era preto, elegante, e o caimento do paletó e da calça indicavam que fora feito por um alfaiate que sabia o que estava fazendo. Não parecia um saco de lã com mangas, como alguns ternos que ele via nos homens de Farnham, mas havia algo estranho no corte, alguma coisa... quase estrangeira. Sherlock se perguntava se seria possível identificar o alfaiate simplesmente pelo corte e pela costura do tecido; ou, pelo menos, se o alfaiate havia seguido algum estilo em especial – alemão, inglês, americano.
O homem era magro, os ossos de seus pulsos e do pomo de adão eram salientes. O lado direito do rosto tinha uma beleza clássica, com bigode proeminente e cavanhaque, mas o lado esquerdo era um desastre. A pele era vermelha e brilhante, cheia de crateras como a superfície da Lua. A barba desse lado era rala e irregular, como os restos de vegetação em uma floresta incendiada, e a órbita ocular era só um buraco com cicatrizes avermelhadas.
— Senhor... — Sherlock começou, mas o homem o calou com um gesto brusco.
— Quieto! — ordenou. Sua voz era penetrante, mas havia nela uma nota chorosa que fez Sherlock se arrepiar. — Fique quieto, seu cachorro filho da mãe!
O sotaque não era inglês. Era um acento parecido com o de Amyus e Virginia Crowe, mas não exatamente igual. Talvez um pouco mais educado. E ele falava como se tivesse certeza de que seria ouvido. O homem projetava a voz, como se estivesse no palco de um teatro, se apresentando. Sherlock assistira a muitas peças de Shakespeare em apresentações ao ar livre na mansão dos pais em Reigate, e não fosse por um movimento espasmódico da cabeça, teria decidido que o homem era ator, porque era o que sugeria sua postura e seu jeito de falar.
— Quanto tempo temos? — o homem perguntou de repente. — Quanto tempo até eles voltarem?
— Eu não... — Sherlock começou a dizer, mas o homem se aproximou e lhe deu uma bofetada com as costas da mão.
Estrelas explodiram diante de seus olhos. Chocado, ele sentiu o gosto de sangue.
— Não minta para mim, menino. Posso farejar uma mentira no vento. Quanto tempo temos?
— Talvez uma hora... — respondeu Sherlock.
Não sabia ao certo o que o homem queria, mas tinha certeza de seu desequilíbrio mental. A melhor coisa a fazer era não discutir.
— Fumaça... — o homem disse de repente. De cabeça erguida, ele farejava o ar. — Sinto cheiro de fumaça. — De repente olhou para Sherlock. — Precisamos sair daqui. Temos que voltar para o Oriente. Lá é seguro. Aqui muita gente procura por mim. São muitos olhos. Muitos ouvidos.
— Posso verificar se a área está limpa — Sherlock propôs.
— A costa! Temos um barco! — Os olhos dele se iluminaram. — Um navio. Podemos navegar até Hong Kong. Vamos nos esconder lá até estarmos a salvo.
— Do que vamos nos esconder? — Sherlock perguntou, mas o homem apenas o encarou.
— Não finja que não faz parte disso. Vocês todos estão envolvidos. Até o último filho da mãe.
Lembrando-se da discussão na mansão Holmes, Sherlock tentou deduzir se aquele homem poderia ter assassinado alguém, quanto mais o presidente dos Estados Unidos da América. Ele era, evidentemente, desequilibrado, estava à beira de um colapso nervoso, mas era, sim, americano, e talvez a loucura fosse resultado de alguma coisa que viveu. Agora Sherlock tinha informações suficientes para transmitir a Amyus Crowe e ao irmão – o único problema era descobrir como sair dali.
De repente o homem virou a cabeça, como se estivesse presa a um fio que alguém puxara com força do lado de fora.
— Fumaça! — ele gritou e saiu correndo da sala, deixando Sherlock sozinho.
Sherlock e o corpo.
Por um momento o garoto pensou em fugir. Se corresse, talvez conseguisse passar pelo homem que o capturara e agora estava parado do lado de fora da sala. Talvez tivesse uma chance de chegar à porta da frente. Ou então podia correr na direção oposta, para a janela na recepção perto da entrada, e chegar ao jardim por ali. Matty ainda estaria esperando por ele, e fugiriam juntos a cavalo.
Mas havia um corpo naquela sala, e Sherlock precisava verificar se a pessoa estava morta ou apenas ferida. Não podia simplesmente ir embora e deixá-la ali. Isso iria assombrá-lo pelo resto da vida.
Ele se levantou da poltrona e foi examinar o corpo, atento a qualquer sinal da volta do desconhecido que o capturara. O homem tinha suíças. A cabeça estava virada para o lado e os olhos, fechados, mas Sherlock se sentiu aliviado quando ouviu-o respirando pela boca. O cabelo na nuca estava sujo de sangue, já parcialmente coagulado. Não havia dúvidas de que ele fora atingido na cabeça por trás e caíra. Tinha sorte de estar vivo.
Sherlock pensou por um momento. O homem que o arrastara para dentro daquela casa era desequilibrado, com certeza. A vítima caída no chão seria uma espécie de guarda? Um vigia? E o lunático o teria derrubado e agora procurava um jeito de fugir da casa?
Sherlock colocou o homem inconsciente em uma posição mais confortável, de um jeito que o ângulo de sua cabeça não prejudicasse a respiração. Não podia deixar de notar que suas roupas eram semelhantes às do desconhecido insano, com o mesmo corte e do mesmo tecido. Deviam ter vindo do mesmo lugar.
Um ruído o alertou. Ele conseguiu voltar à poltrona um instante antes que o desconhecido retornasse à sala. A testa do homem estava coberta por uma camada de suor que cintilava, mas a pele rubra e queimada no lado esquerdo do rosto continuava seca.
— Há um navio esperando para me levar à China! — ele declarou, e seu olho estava tão arregalado que era possível ver toda a parte branca, como o olho de um cavalo assustado.
Sherlock sabia que o estranho estava delirando, sonhando com a existência de um navio da mesma forma que havia imaginado a fumaça que o fazia farejar o ar. A fumaça do fogo que, Sherlock presumiu, havia provocado as terríveis queimaduras.
— Vá na frente — Sherlock sugeriu com toda a calma que conseguiu fingir. — Eu vou em seguida.
Esperava que seu tom de voz controlado e confiante pudesse convencer o homem a se virar e sair, mas o efeito foi exatamente o contrário. O homem levantou uma das mãos e, horrorizado, Sherlock viu uma arma de fogo, uma pistola de cano longo e cromado com tambor giratório logo acima da coronha.
— Sem deixar rastros! — ele declarou, apontando o revólver para a testa de Sherlock.
O garoto rolou para o lado na poltrona pouco antes de o tiro explodir, com fumaça e barulho, e o encosto onde um instante antes estivera sua cabeça agora tinha um buraco por onde se via o estofamento de crina de cavalo. Sherlock rolou para baixo de uma das mesas e empurrou-a na direção do homem armado, que atirou novamente, transtornado. A bala arrancou estilhaços da madeira e deslocou a mesa para o lado, para longe dos dois oponentes.
O atirador apontou para Sherlock novamente. Dessa vez a bala passou zunindo por cima de sua cabeça e acertou a janela, estilhaçando o vidro.
Sherlock correu para a porta do saguão. Um quarto tiro acertou o batente, arrancando fragmentos da madeira enquanto Sherlock passava pelo vão.
A distância do corredor até a entrada da casa era longa demais. Até que ele chegasse à porta e conseguisse abri-la, o homem já estaria no corredor, atirando novamente, e lá Sherlock ficaria encurralado. Em vez disso, virou-se e correu escada acima.
O homem apareceu no primeiro degrau quando Sherlock chegou ao segundo andar. Ele recarregava a pistola. Não era tão louco assim, Sherlock pensou enquanto corria. A cabeça empalhada de um alce girou na base de madeira presa à parede um segundo depois de um bang lá embaixo. Um buraco apareceu onde antes existira um olho de vidro. Não bastava que alguém já tivesse atirado no pobre coitado; agora o alce tinha que enfrentar a indignidade de ser alvejado novamente, e dessa vez não podia nem fugir!
O corredor terminava em duas portas. Sherlock ouvia os passos subindo a escada. Em desespero, pensou em tentar lembrar o formato da casa, já que a vira pelo lado de fora. Lembrava-se das trepadeiras subindo por uma parede, lateral. Seria a esquerda ou a direita?
Escolheu o lado direito, mais por impulso do que por qualquer outra coisa. Se esperasse um pouco mais, se demorasse tentando pensar de forma lógica e coerente sobre qual porta abrir, acabaria morrendo de um jeito ou de outro. As chances eram de cinquenta por cento.
A porta se abriu com um toque. Ele entrou e a fechou rapidamente. Se o homem com a pistola tivesse que olhar nos dois dormitórios, Sherlock talvez ganhasse alguns minutos a mais antes de ser descoberto.
Havia uma cama desarrumada, como se seu ocupante houvesse se levantado e se vestido sem se preocupar com a arrumação, mas nenhuma criada houvesse aparecido para ajeitar o dormitório. Sherlock deduziu que na casa só havia o atirador maluco e seu captor ou vigia. Se pretendiam fazer algo de ruim, escondendo-se de um perigo desconhecido, ter uma empregada seria um risco. Era melhor que permanecessem isolados, evitando a curiosidade dos moradores. E isso significava que eles provavelmente estavam cozinhando e cuidando de todas as tarefas domésticas sem ajuda.
Então, Sherlock concluiu em um estalo: devia haver um terceiro homem. Sim, mais um, pelo menos, se o atirador precisava de supervisão constante.
Atento aos ruídos do lado de fora ou a qualquer movimento da porta, Sherlock caminhou até a janela. Quando passou pela cama, notou ao lado uma bolsa preta no chão. A bolsa estava aberta, e Sherlock viu dentro dela um brilho de vidro e metal. Curioso, aproximou-se e examinou melhor o conteúdo.
Frascos contendo um fluido incolor estavam guardados em compartimentos individuais. Instrumentos médicos, bisturis e outros apetrechos estavam jogados no fundo. E, separada do restante, havia também uma caixa comprida e plana que Sherlock reconheceu. Vira outras como aquela, com os médicos que trataram sua irmã durante o período de enfermidade. Normalmente continham seringas hipodérmicas – um cilindro vazio de vidro com um êmbolo em uma ponta e uma agulha muito fina na outra – usadas para injetar medicamentos na corrente sanguínea.
Por um momento ele não estava mais no quarto, e sim em casa, espiando por uma porta entreaberta enquanto médicos e enfermeiras se moviam em torno da cama de sua irmã. Agulhas e seringas o fascinavam; o brilho suave, a funcionalidade grotesca, a maneira como superavam o limite entre o exterior e a parte interna do corpo humano. A maneira como tornavam as coisas melhores. O jeito como silenciavam os gritos.
Ele estremeceu. Não tinha tempo para lembranças. Estava sendo perseguido por um maluco armado, a segundos de alcançá-lo.
Por um momento pensou que a janela estivesse travada ou fechada com pregos. Não se movia, por mais força que ele fizesse. Mas tinha que se mover. Se naquele quarto havia equipamento médico espalhado por todos os lados, não podia ser o dormitório do maluco, e não havia motivo, então, para uma janela lacrada.
A janela do quarto do louco teria grades, disso ele tinha certeza.
Sherlock usou todo o peso do corpo para forçar a janela e, com um rangido da madeira, a vidraça subiu. O ar fresco tocou seu rosto. Ele se debruçou no parapeito e olhou em volta. Nenhum sinal de Matty no jardim ou na rua. Nenhum sinal de ninguém.
Ele olhou para baixo. As trepadeiras desciam até invadir os canteiros de flores no chão. Seria fácil descer por ali.
Mas e depois? Se o homem louco entrasse no quarto enquanto estivesse descendo, ele seria um alvo fácil. Um tiro na cabeça, e tudo estaria acabado.
Sherlock olhou para cima. A planta continuava pela parede até o telhado, até onde os olhos podiam alcançar, suas gavinhas se fixando no cimento entre os tijolos da parede. Havia uma sacada, um parapeito, talvez, contornando toda a beirada do telhado. Se – quando – o homem entrasse no quarto e notasse a janela aberta, sua primeira reação certamente seria olhar para baixo. Se Sherlock estivesse subindo, talvez conseguisse escapar. No mínimo, ganharia alguns segundos a mais de vida.
Ele subiu no parapeito e agarrou a trepadeira com a mão direita, usando a esquerda para fechar a janela com todo o cuidado. Seria impossível voltar, mas o gesto poderia garantir mais alguns momentos de segurança.
Apoiou-se na moldura da janela e tateou com o pé, procurando um ponto onde dois caules se entrelaçassem, formando uma estrutura que poderia sustentá-lo. Após o que pareceram séculos, encontrou um apoio que, apesar de ceder um pouco com seu peso, não se romperia.
Nervoso, ele se deixou sustentar pela trepadeira e moveu o pé esquerdo, procurando outro ponto de apoio. Quando encontrou, deu um impulso para cima e procurou outro caule com a mão esquerda. Em vez do caule, Sherlock tateou um vão entre dois tijolos e, encaixando os dedos com dificuldade, suspendeu um pouco mais o corpo. Pouco a pouco, centímetro a centímetro, foi subindo até deixar a janela lá embaixo e se aproximar do telhado.
A sujeira que se desprendia dos tijolos aos quais ele se agarrava caía em seu rosto, fazendo os olhos arderem. Ele os fechou e sacudiu a cabeça com força para tentar se livrar dos detritos. Mais poeira e alguns fragmentos continuavam caindo, em sua cabeça e seus ombros.
A trepadeira balançou de repente. Seu peso a estava arrancando da parede, desprendendo as gavinhas das frestas onde se fixavam a planta. Sherlock sentia que estava se afastando cada vez mais da parede, e quando olhou para baixo foi tomado pelo enjoo e pela vertigem ao ver o chão se movendo. Os caules que segurava com a mão direita se soltaram, e Sherlock tateou com rapidez os tijolos em busca de um apoio mais firme. Felizmente, agarrou outro trecho do caule, que era mais grosso e parecia ainda estar preso à fachada, e usou o pé direito para dar impulso e subir. A mão esquerda encontrou a superfície plana da beirada do telhado.
Tomado por uma mistura de gratidão e alívio, Sherlock parou por um instante para recuperar o fôlego.
Abaixo de seus pés ele ouviu o rangido da janela se abrindo.
Paralisado, colou o corpo à parede.
Sherlock sentiu, mais do que viu, uma silhueta espiando fora da janela, olhando o terreno lá embaixo. Prendeu a respiração, evitando desesperadamente fazer qualquer barulho que pudesse denunciá-lo.
Mais fragmentos de cimento e tijolos despencaram do alto. A trepadeira a que ele se segurava com a mão direita cedeu e começava a se afastar da parede. Ficara agarrado à planta por tempo demais. Já devia ter transferido o peso do corpo, mas não se atreveu.
Mais poeira caiu em seus olhos, fazendo-o piscar.
Seu nariz coçava. Ele queria espirrar, mas comprimiu as narinas franzindo o nariz.
A silhueta na janela se movia, tentando enxergar melhor o terreno lá embaixo. De onde estava, Sherlock notou vários engradados empilhados no jardim dos fundos da casa. Havia frestas entre as ripas, e ele acreditou ter visto algo se mexer atrás delas, mas nesse momento o homem na janela olhou para cima.
Para ele.
— Seu cachorro insolente e covarde! — gritou o perseguidor, e atirou novamente.
A bala passou perto da orelha de Sherlock, zunindo como uma vespa furiosa. O calor provocado pelo deslocamento de ar pareceu chamuscar as pontas do cabelo. Desesperado, se agarrou à beirada do telhado e suspendeu o corpo e as pernas, no momento em que o lunático disparava mais um tiro.
Houve silêncio por um momento, enquanto Sherlock tentava recuperar o fôlego. Aproximando-se do beiral, olhou para baixo.
Não havia ninguém na janela. O maluco estava subindo a escada para pegá-lo.
Sherlock olhou em volta desesperado. O patamar onde estava tinha pouco mais de um metro de largura. O telhado propriamente dito começava ali, subindo inclinado até o topo. Águas-furtadas entrecortavam a superfície a cada três metros, mais ou menos, provavelmente janelas dos dormitórios do segundo andar ou de quartos de quinquilharias.
Tinha que encontrar uma saída, e depressa.
Sabia que jamais conseguiria descer pela trepadeira, por isso correu pelo telhado até a janela mais próxima. Estava trancada ou emperrada. Correu para a seguinte, mas o mesmo aconteceu. A terceira janela tinha uma fresta aberta, mas a madeira estava empenada e não se movia.
Ele começou a se dirigir à quarta janela, mas percebeu que o homem armado estava de pé em um canto do telhado, que contornava a casa. Era evidente que ele havia encontrado uma saída antes de Sherlock encontrar uma entrada.
O cano da pistola estava apontado para o peito de Sherlock.
— Vá, vá para o inferno! — gritou o louco, espumando. — E avise que eu mandei você para lá!
Sherlock esperou a bala acertá-lo e mandá-lo voando por cima do telhado. Por um momento pensou se o tiro o mataria antes da queda. Seria sua última experiência em vida.
Outro homem apareceu em cima do telhado, um grandalhão com cabelos claros e varizes no pescoço e nas bochechas. Com o braço esquerdo ele deu uma gravata no louco e, com a mão direita, enfiou uma seringa em seu ombro direito. Em seguida, empurrou o êmbolo, enviando a droga contida na seringa para a corrente sanguínea do homem armado.
O louco desabou nos braços do outro homem, e a arma fez barulho ao cair nas telhas. Ele ainda tentava falar, mas sua voz se arrastava. Os olhos tremeram por um instante, e em seguida ele ficou imóvel.
O recém-chegado tirou a agulha do ombro do lunático. Um líquido claro pingou da seringa, e o maluco despencou na plataforma na beirada do telhado. O homem então olhou para Sherlock.
— O que está fazendo aqui, menino?
— Só queria pegar minha bola no jardim — Sherlock respondeu, tentando soar mais infantil e vulnerável do que realmente era —, mas esse homem me agarrou e me puxou para dentro da casa. — Sherlock não pôde deixar de reparar que, ao se levantar, o homem havia recolhido o revólver e o segurava com o cano apontado para baixo.
— E o que o cavalheiro queria fazer com você, depois de levá-lo para dentro da casa?
— Não sei. Juro que não sei.
O homem ficou em silêncio por um instante, pensando, batendo com o cano do revólver na perna.
— Entre na casa — disse, depois de um tempo. Casualmente, apontou o cano do revólver para Sherlock. — E leve-o com você — acrescentou, indicando com a cabeça o homem inconsciente. — Arraste-o até o outro lado, há uma janela aberta ali. É só empurrá-lo para dentro.
— Mas...
— Não discuta, menino. Faça o que estou mandando.
Sherlock olhou para o rosto do homem e, depois para a arma, e em seguida novamente para ele. O sujeito não estava agitado, nervoso ou alterado. Não era louco. Estava perfeitamente equilibrado, mas tão propenso a atirar quanto o outro.
Sherlock deu um passo adiante e segurou os braços do maluco. O recém-chegado recuou para abrir espaço, e Sherlock arrastou o corpo inconsciente pelo telhado, fez uma curva e o levou até a janela aberta, sempre atento à beirada da plataforma. Um passo em falso e ele cairia.
O corpo do homem era pesado e difícil de manobrar, e Sherlock sentia o suor escorrendo por todo o seu corpo devido ao esforço. Depois de algum tempo conseguiu fazer com que metade do corpo inerte entrasse pela janela. Passando por cima dele com dificuldade, foi para o outro lado e puxou o homem inconsciente para dentro.
Durante todo o tempo o outro estranho armado o observava.
Um par de braços surgiu de repente por cima dos ombros de Sherlock e segurou o homem inconsciente.
— Eu cuido dele agora — disse uma voz aguda.
Sherlock virou a cabeça, surpreso. Havia uma quarta pessoa às suas costas: um homem mais baixo, atarracado e careca. E ele não tinha um pedaço da orelha direita.
Sherlock se afastou e deixou o recém-chegado arrastar o corpo pelo corredor, para outro quarto. Havia uma chave na fechadura. Lá dentro, enquanto o corpo inconsciente era puxado para a cama, Sherlock percebeu que, de fato, o cômodo tinha janelas com grades. Aquele era o quarto do louco.
O terceiro homem – o grandalhão de cabelos claros – estava parado na porta, ainda segurando a arma.
— Como está Gilfillan? — ele perguntou.
— Machucou feio a cabeça — respondeu o baixinho careca, ainda ajeitando o maluco na cama. — Ele vai sentir uma dor de cabeça horrível quando acordar, mas acho que vai ficar bem. Cabeça dura — riu. — A pancada teria que ser bem mais forte para causar algum estrago significativo.
— Eu posso cuidar disso — ameaçou o grandalhão. — Que idiota, deixar Booth dominá-lo desse jeito. Ele podia ter arruinado todo o plano. A última coisa que precisamos é de Booth correndo solto por aí, especialmente em seu atual estado.
Booth! Sherlock tentou não esboçar nenhuma reação, mas, por dentro, sentia uma intensa satisfação. O homem era mesmo John Wilkes Booth, não John St. Helen.
O grandalhão continuava falando. Ele apontou para Sherlock com a arma.
— E agora, por causa dele, temos uma testemunha.
O careca interrompeu o que estava fazendo e olhou para Sherlock pela primeira vez.
— O que vamos fazer com ele, Ives?
O grandalhão – Ives – deu de ombros.
— Acho que não temos muitas opções — disse.
O careca ficou nervoso.
— Ei, é só um garoto. Não podemos deixá-lo ir? — E olhou para Sherlock. — Você não viu nada, viu, menino?
Sherlock tentou parecer aterrorizado. Não foi difícil.
— Honestamente — respondeu, dando à voz o tom mais sincero possível —, vou esquecer tudo o que vi aqui. Prometo que vou.
Ives o ignorou.
— Qual é o veredito com relação a Booth?
— O sedativo funcionou muito bem. Ele vai ficar fora do ar por algumas horas.
Ives assentiu.
— Isso me dá o tempo necessário, então.
— Tempo necessário para quê?
Ele levantou a arma e apontou-a diretamente para Sherlock.
— Matar o garoto e dar fim no corpo. Regra número um, lembre-se: nunca deixe para trás alguém que viu seu rosto.

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