16 de julho de 2017

Capítulo três

NUVENS DE FUMAÇA DA CHAMINÉ do trem subiam por entre as ripas da ponte, escaldando as pernas dos meninos. Sherlock correu para um lado, Matty foi para o outro, ambos risonhos e molhados. O trem passava por baixo deles, majestoso, a caminho da estação de Farnham, e reduzia a velocidade ao aproximar-se; então os garotos voltaram para o meio da ponte de madeira que ligava as duas plataformas, e viram o comboio parar completamente com um estalar de correntes e o apito desafinado de quando o maquinista libera o vapor restante.
Era a manhã do dia seguinte. A plataforma estivera deserta antes da chegada do trem, mas em instantes, como se fosse magia, transformara-se numa massa efervescente de pessoas que se dirigiam à saída. Homens usando longos casacos pretos e cartolas emergiam dos compartimentos da primeira classe como insetos que saíssem de casulos, espremendo-se na plataforma junto aos ocupantes da segunda classe – homens barrigudos com paletós de lã e boinas, e mulheres em vestidos modestos – e aos diversos trabalhadores musculosos e endurecidos, em suas camisas puídas e calças remendadas, que saíam da apinhada terceira classe. Homens uniformizados abriram uma porta deslizante em um dos vagões e começaram a descarregar caixotes de madeira e malotes que Sherlock imaginou que contivessem cartas. Carregadores da estação surgiram das salas em que costumavam ficar escondidos e começaram a empilhar as caixas e os malotes em carrinhos e a levá-los para longe do trem. Logo a plataforma estava quase vazia outra vez, exceto por um punhado de moradores locais que conversavam, colocando em dia os assuntos da semana. Um guarda, altivo em seu dólmã e chapéu azuis, aproximou-se do trem, observou-o de uma ponta à outra, levou à boca um apito e soprou um silvo curto e agudo. O trem pareceu estremecer, e em seguida entrou em movimento, deixando a estação – a princípio, bastante devagar, mas acelerando continuamente. Os vagões emitiam um som metálico à medida que suas conexões distendiam-se, uma após a outra, e eles eram puxados pela locomotiva.
— Esse trem vai para Londres ou vem de Londres? — Sherlock perguntou.
Matty olhou para um lado da linha, depois para o outro.
— Para Londres — respondeu finalmente. — Daqui o trem segue para Tongham, Ash, Ash Wharf, e de lá para Brookwood e Guildford, de onde é possível pegar outro trem direto para Londres.
Londres. Sherlock olhou para os trilhos, seguindo o caminho do trem, que já começava a desaparecer além da curva. No final da viagem a composição estaria a dois ou três quilômetros de seu irmão Mycroft, sentado em seu escritório lendo documentos ou estudando um mapa do mundo pintado de vermelho nas áreas em que o Império Britânico deixara sua marca. Por um momento a vontade de correr atrás do trem e pular para dentro dele foi quase incontrolável. Sherlock sentia saudade do irmão. Sentia saudade do pai, da mãe e da irmã. Sentia saudade até da Escola Deepdene para Meninos, mas não tanto.
— O que há em Brookwood? — ele perguntou, mais para tentar distrair os próprios pensamentos que para qualquer outra coisa.
Matty pareceu estremecer.
— Nem me pergunte — disse.
— Não, é sério. — Sherlock agora estava realmente curioso. — Tem algo lá que justifique uma visita?
Matty balançou a cabeça.
— Não há nada lá que você queira ver à luz do dia — respondeu com determinação. — E você não vai querer ficar lá à noite, acredite em mim.
— Eu pensei que pudéssemos conseguir umas bicicletas — sugeriu Sherlock. — Para dar uma volta por aí, ver os vilarejos e as cidades da região.
Matty o encarou com um olhar de reprovação.
— E por que faríamos isso?
— Por curiosidade? — Sherlock perguntou. — Você nunca imagina como são as coisas, antes de vê-las?
— Cidades são cidades e vilarejos são vilarejos, e todas as pessoas são parecidas — Matty declarou. — A vida é assim. Venha, vamos embora.
Ele conduziu Sherlock pela ponte, desceram pela escada de ferro e chegaram à plataforma na qual os passageiros tinham desembarcado. De lá eles caminharam para a rua.
Uma carroça estava parada próximo à calçada, e três homens a carregavam com engradados de gelo com palha que tinham sido retirados do trem.
Um dos homens tinha rosto fino e dentes amarelos, e, enquanto os meninos passavam por ele, dirigiu-lhes um olhar aborrecido.
— Jovem Sr. Sherlock — uma voz cortante soou atrás dele. — Que decepção vê-lo relacionando-se com mendigos árabes molambentos. Seu irmão ficaria mortificado.
Sherlock virou-se, corando imediatamente, mesmo antes de saber quem se dirigia a ele, e viu a governanta, a Sra. Eglantine, a alguns passos de distância. Dois homens que Sherlock reconheceu da mansão Holmes carregavam várias caixas de compras em uma carroça acoplada a um cavalo grande e aparentemente manso. As caixas certamente tinham chegado no trem.
— Mendigos árabes? — Sherlock olhou em volta. A única outra pessoa ali era Matty, que observava a Sra. Eglantine com um olhar cauteloso, como se estivesse pronto para correr caso a situação complicasse. — Se acha que ele é um mendigo árabe, precisa sair mais de casa, Sra. Eglantine — respondeu o menino com ousadia, irritado com a atitude da governanta.
Os lábios da mulher comprimiram-se.
— O Sr. Holmes deseja vê-lo quando você voltar para casa — ela anunciou, enquanto os homens acomodavam a última caixa na carroça. — Por favor, não o faça esperar. — Ela virou-se e ocupou um dos bancos da frente do veículo. — O almoço será servido com ou sem sua presença — acrescentou, enquanto um dos carregadores sentava-se a seu lado e o outro subia na traseira. — Seu amigo não está convidado.
O cavalo afastou-se trotando, puxando a carroça. A Sra. Eglantine continuou a olhar para a frente, sem se virar para Sherlock. O homem sentado na parte de trás da carroça olhou para o menino e acenou com simpatia, tocando a frente do boné. Faltavam-lhe vários dentes, e havia um corte em sua orelha que parecia ter sido feito com uma faca, um machado, ou algo desse tipo.
— Quem era ela? — perguntou Matty, parando ao lado de Sherlock.
— A Sra. Eglantine, governanta da casa em que estou hospedado. — O menino fez uma pausa. — Ela não gosta de mim.
— Acho que ela não gosta de ninguém — respondeu Matty.
— É melhor eu ir embora — disse Sherlock. — Vou levar meia hora para voltar, se for rápido, e aquilo sobre a comida era sério. Se perder o almoço, ficarei com fome até a hora do jantar. — Ele olhou para Matty. — Eu o verei amanhã?
O garoto assentiu.
— Aqui, às dez horas?


Sherlock levou quase quarenta e cinco minutos para caminhar de volta até a mansão Holmes, e chegou bem na hora em que o gongo soava, anunciando o almoço. Removeu com as mãos o grosso da poeira das roupas e entrou na sala de jantar. Sherrinford Holmes estava sentado à cabeceira da mesa, o que não era comum, e lia um panfleto. Sua esposa, Anna, andava de um lado para o outro, verificando os talheres e falando sozinha. A Sra. Eglantine estava em pé atrás do tio Sherrinford. Ela não reagiu ao ver Sherlock entrar, mas a maneira como evidentemente evitava olhar para o menino sugeria que notara sua presença.
— Boa tarde, tio Sherrinford, tia Anna — Sherlock disse educadamente enquanto se sentava.
Sherrinford respondeu movendo a cabeça, sem desviar os olhos do panfleto. Anna conseguiu incluir em seu interminável monólogo algo parecido com um cumprimento.
Uma criada entrou com uma terrina de sopa e distribuiu porções nos pratos, sob a supervisão da Sra. Eglantine. Sherlock observava sem muito interesse, até que Sherrinford deixou de lado o panfleto, inclinou-se sobre a mesa e disse:
— Rapaz, espero visitas depois do almoço, e ficaria satisfeito se você pudesse estar presente. Seu irmão pediu-me que prosseguisse com sua educação durante as férias escolares, e também deixou claro que o quer longe de confusões. Para isso contratei os serviços de um tutor. Ele passará três horas diárias com você, todos os dias da semana, exceto aos domingos, quando você deverá ir à igreja com o restante da família. O nome dele é Amyus Crowe. — Ele fungou. — O Sr. Crowe é visitante em nosso país, veio das Colônias, creio, mas mesmo assim demonstrou ser homem de conhecimentos e distinção. Ele tem excelente domínio do latim e do grego. Espero que você siga suas orientações.
Sherlock sentiu o rosto queimar com uma raiva súbita. Quando chegara à mansão Holmes, vira dias intermináveis e vazios à sua espera, e não soubera o que fazer para preencher esse tempo, mas conhecer Matty Arnatt abrira toda uma nova gama de possibilidades. Agora, tudo indicava que essas possibilidades deixariam de existir.
— Obrigado, tio Sherrinford — ele murmurou. Tentou parecer satisfeito, mas seu rosto não obedeceu. A Sra. Eglantine sorria ligeiramente, sem encará-lo.
Depois da sopa, veio uma torta de carne com muito recheio e molho, e em seguida foi servido um pudim de frutas. Sherlock comeu, mas mal sentiu o sabor da refeição. Seus pensamentos giravam em torno do fato de que suas férias estavam se tornando um inferno pessoal, e ele mal podia esperar para voltar à estabilidade e à previsibilidade da escola.
Depois do almoço, Sherlock pediu licença para deixar a mesa.
— Não vá muito longe — preveniu-o Sherrinford. — Lembre-se do visitante.
Sherlock ficou pelo saguão, enquanto a família seguia para seus interesses distintos – Sherrinford para a biblioteca, tia Anna para a estufa. Ele passou algum tempo olhando os quadros e tentando decidir qual deles tinha sido pintado de forma mais amadora. Então, uma criada abordou-o. Ela trazia uma bandeja de prata, na qual havia um envelope.
— Sr. Holmes — ela chamou-o em voz baixa. — Esta carta chegou para o senhor hoje cedo.
Sherlock pegou o envelope da bandeja.
— Para mim? Obrigado!
Ela sorriu e afastou-se. Sherlock olhou em volta, quase esperando ver a Sra. Eglantine materializar-se e arrancá-lo de sua mão, mas estava sozinho. O envelope de fato fora endereçado a “Sr. Sherlock Holmes, mansão Holmes, Farnham”. O carimbo postal era de Whitehall. Mycroft! A carta era de Mycroft! Ansioso, passou a unha sob o lacre de cera e abriu-o.
Dentro dele havia uma única folha de papel. O endereço de Mycroft em Londres estava impresso no alto da página, e embaixo, escrita com a letra tipicamente cuidadosa de seu irmão, a mensagem dizia:

Meu caro Sherlock:
Espero que esta carta o encontre gozando de boa saúde. Sem dúvida, deve estar se sentindo solitário e abandonado a esta altura, e isso o deixa zangado. Por favor, entenda que compreendo seus sentimentos, e adoraria se houvesse algo que eu pudesse fazer para ajudá-lo.

Há algo, sim!, Sherlock pensou. Você poderia me deixar passar as férias com você! Afastou o pensamento na mesma hora. Mycroft tinha os próprios problemas: um trabalho que exigia muito dele, e agora a obrigação de ocupar o posto de chefe da família, na ausência do pai, e de cuidar da mãe, cuja saúde física era frágil, e da irmã, que também tinha suas questões a resolver. Não, Mycroft fizera o melhor para ambos. Às vezes, Sherlock pensou, as únicas alternativas disponíveis são injustas, e é necessário escolher a que minimize as consequências ruins, não a que maximize as boas. Isso parecia um pensamento particularmente adulto, e Sherlock não gostava de inferir dele que a vida adulta era daquele jeito.

Toda carta que você enviar para o endereço acima chegará a mim em um dia, e prometo responder imediatamente a qualquer solicitação que você venha a fazer – exceto, obviamente, a de vir para Londres ficar comigo.

Ah, um passo à minha frente, como sempre, Sherlock pensou. Seu irmão sempre demonstrara uma habilidade misteriosa de prever o que Sherlock pretendia dizer. Ele continuou lendo:

Sugeri que tio Sherrinford contratasse um tutor com a finalidade de dar impulso a seus estudos. Recebi boas referências de um homem chamado Amyus Crowe, e indiquei o nome dele a Sherrinford. Acredito que você possa confiar no Sr. Crowe. Pelo que eu soube, ele também tem uma filha. Por intermédio dela você pode fazer alguns amigos de sua idade na região.

Isso mostra que você não sabe tanto quanto imagina, Sherlock refletiu. Já comecei a fazer minhas amizades.

Para concluir, peço que lembre que esta é apenas uma situação temporária. As coisas vão mudar, como sempre mudam. Tire proveito da situação em que se encontra. Como escreveu o poeta persa Omar Khayyam: “Com um pedaço de pão à sombra da ramada, uma jarra de vinho, um livro de poesia, e tu, a cantares junto a mim diante do deserto, ó deserto, serás agora um paraíso!

Sherlock leu as palavras e tentou compreender o que significavam. Conhecia superficialmente os Rubaiyat de Omar Khayyam, graças a uma cópia que fora doada pelo tradutor da obra, Richard Burton, para a biblioteca da escola Deepdene. O sentido geral das várias quadras parecia ser que a roda do destino seguia girando e ninguém conseguiria detê-la, mas que a humanidade poderia encontrar algum prazer ao longo desse caminho. A quadra citada por Mycroft sugeria que Sherlock deveria procurar o próprio “pedaço de pão” – algo simples que pudesse ajudá-lo a enfrentar o período. Mycroft tinha algo específico em mente, ou tratava-se apenas de um conselho vago? Sherlock sentia-se tentado a escrever de volta imediatamente, pedindo mais detalhes ao irmão, mas sabia o suficiente sobre Mycroft para entender que, depois de dizer alguma coisa, o irmão raramente fornecia mais detalhes.
Sherlock leu as linhas finais da carta.

Um último conselho: tome cuidado com a Sra. Eglantine. Apesar de ocupar um posto de confiança, ela não é amiga da família Holmes.
Sei que você não deixará esta carta em qualquer lugar, de forma desleixada, mas a guardará em local seguro.
Seu amoroso irmão,
Mycroft

Sherlock sentiu um arrepio percorrer seu corpo quando leu as últimas linhas. O alerta direto sobre a Sra. Eglantine não era uma atitude típica de Mycroft, o que levava à questão: por que ele estava sendo tão explícito? Será que queria que Sherlock entendesse sem sombra de dúvida sua opinião sobre a Sra. Eglantine? Sua sugestão final – não, sua instrução final – de que ele não deixasse a carta em qualquer lugar, era o código de seu irmão para dizer que ela deveria ser destruída. Isso, sim, era mais típico de Mycroft.
Sherlock guardou novamente a carta no envelope, mas havia algo mais dentro dele: outra folha de papel. Ele a pegou e topou com uma Ordem de Pagamento Postal no valor de cinco xelins. Cinco xelins! Sentira receio de abordar com os tios a questão de dinheiro para pequenas despesas, mas aparentemente Mycroft se encarregaria disso.
A carta deixou Sherlock em conflito. De um lado, sentia-se mais seguro e feliz agora que Mycroft fizera contato e sabia que o irmão aprovava Amyus Crowe; por outro lado, estava preocupado de verdade com algo que antes não passara de um desconforto persistente: a Sra. Eglantine e sua evidente antipatia por ele.
— Carta interessante?
A voz era profunda e calorosa, e tinha um sotaque que Sherlock não conseguia identificar. Ele se virou, dobrou a carta e a guardou no bolso.
O homem parado do outro lado da porta aberta era alto, de peito largo. Os cabelos encaracolados e rebeldes eram completamente brancos, e a pele do pescoço era enrugada, mas sua postura desmentia a idade evidente. Sua pele era marrom e envelhecida, como se ele tivesse passado muito tempo exposto a um sol mais quente que aquele que a Inglaterra podia oferecer. Vestia um terno bege de corte e tecido que Sherlock não conhecia, e segurava entre as mãos um chapéu de aba larga.
— É de meu irmão, Mycroft — respondeu Sherlock, sem saber ao certo como proceder. Devia chamar uma criada ou convidar o visitante a entrar?
— Ah, Mycroft Holmes! — disse o homem. — Acredito que temos conhecidos em comum. E como me recuso a crer que você seja velho o bastante para ser o Sr. Sherrinford Holmes, suponho que seja o jovem Sherlock, então.
— Sherlock Scott Holmes, a seu dispor — ele confirmou, erguendo os ombros e olhando em volta. — Ah, gostaria de entrar, Sr...?
— Sr. Amyus Crowe — o homem respondeu. — Venho de Albuquerque, no estado do Novo México, parte dos Estados Unidos da América. E você é muito gentil. — Ele entrou. — Mas, provavelmente, já tinha deduzido minha identidade. Estou aqui por recomendação de seu irmão, e ele não teria escrito para você sem mencionar esse fato, correto?
— Devo chamar uma criada, ou...
Antes que ele pudesse concluir a frase a Sra. Eglantine surgiu das sombras ao lado da escada principal. Há quanto tempo ela estava ali? Teria visto Sherlock lendo a carta?
— Sr. Crowe? — perguntou a governanta. — O Sr. Sherrinford o espera. Por favor, venha comigo. — Ela indicou a porta do gabinete.
Sherlock sentiu um arrepio involuntário. Ela não podia saber o que estava escrito na carta, a menos que a tivesse aberto e depois voltado a fechá-la, e o menino recusava-se a acreditar que a mulher pudesse fazer tal coisa. Mesmo assim, sentia-se como se houvesse sido surpreendido fazendo algo errado.
Amyus Crowe entrou no saguão, deixou o chapéu e a bengala junto do cabide para casacos e aproximou-se de Sherlock.
— Conversaremos mais tarde — disse, pousando a mão sobre o ombro do menino. Sherlock era alto para a idade, mas Amyus Crowe era muito maior, fazendo-o sentir-se como se tivesse dez anos. — Fique por perto, filho. — Ele olhou pelo saguão. — Enquanto espera, tente descobrir quantas dessas telas são cópias.
A Sra. Eglantine reagiu.
— Nenhuma dessas pinturas é falsificada! O Sr. Sherrinford nunca admitiria tal coisa!
— “Nenhuma delas” é uma resposta aceitável — disse Crowe, passando por Sherlock e piscando para ele. Ele entregou um cartão a Eglantine. — Agradeço se puder anunciar minha presença.
A Sra. Eglantine conduziu Amyus Crowe até a biblioteca. Momentos depois, voltou e seguiu seu caminho sem nem sequer olhar para Sherlock. Ele a viu desaparecer nas sombras ao lado da escada e perguntou-se se ela teria parado ali, dado meia-volta e se posto a observá-lo.
Sherlock ouvia vozes dentro da biblioteca, mas não conseguia entender o que diziam. Caminhou pelo saguão, observando os detalhes de cada uma das telas. Nenhuma estava identificada. Apreciação da arte não fazia parte do currículo em Deepdene, e ele descobriu que não conseguia se interessar muito pelas diversas paisagens e cenas de caça. Para ele, todas pareciam falsas, com suas árvores perfeitas, seus mares revoltos e seus cavalos de patas longas e ágeis.
Albuquerque. América. Tudo soava muito romântico. Sherlock sabia pouco sobre o país, exceto que fora colonizado pela Inglaterra havia mais de duzentos anos, rebelara-se contra o domínio inglês cerca de um século depois e tinha um povo independente e arrojado. Ah, e acontecera uma guerra civil alguns anos antes, alguma coisa relacionada com a escravidão. Mas o menino gostara instantaneamente de Amyus Crowe, e, se Crowe servisse minimamente de referência a respeito de seus conterrâneos, então Sherlock gostaria de ir à América um dia.
Deve ter sido meia hora mais tarde que a porta do gabinete se abriu e Amyus Crowe apareceu. Ele sorria e apertava a mão de Sherrinford Holmes. Atrás deles, fileiras de livros com capas de couro verde fundiam-se como se fossem a paisagem de um gramado.
— Ah, Sherlock! — disse Sherrinford. — Sr. Crowe, permita-me apresentar meu sobrinho, Sherlock.
— Já nos conhecemos — Crowe respondeu, assentindo para Sherlock.
— Muito bem. Obrigado por ter vindo. Vou pedir a uma criada que o acompanhe até a porta.
— Não se preocupe, Sr. Holmes. Se for possível, gostaria de dar um passeio pelo jardim com o jovem Sr. Sherlock.
— É claro, é claro. — Sherrinford voltou para o gabinete como uma tartaruga que se encolhesse no casco, e Crowe caminhou até Sherlock.
— E então, qual delas? — ele perguntou. — Se é que há alguma.
Sherlock esquadrinhou as telas. Apesar da cuidadosa observação, ainda não tinha certeza. Apontou para uma pintura especialmente estranha: um cavaleiro sobre um cavalo de patas tão finas, que elas não teriam suportado o peso.
— Aquela não é boa — ele arriscou. — A perspectiva é toda distorcida e a anatomia está errada. É a tela falsa?
— O peculiar sobre os falsificadores — comentou Crowe enquanto examinava a obra — é que os menos talentosos são os primeiros a ser desmascarados. É comum que uma falsificação seja mais convincente que a obra genuína. Você tem razão sobre a qualidade da execução da pintura, mas ela é autêntica. — Ele parou diante de uma cena litorânea dramática, com ondas que se quebravam em uma praia e um navio adernando ao fundo. — Esta é falsa.
Sherlock olhou para a tela.
— Como você sabe?
— Como diversas obras de seu tio, é atribuída a Claude Joseph Vernet. Seu tio também tem algumas telas do filho de Vernet, Horace. O Vernet mais velho é muito conhecido por suas paisagens litorâneas. Esta que vemos aqui retrata o porto de Dover, mas Vernet nunca visitou a Inglaterra. Os detalhes são muito realistas: está claro que ela foi pintada com base na realidade; portanto, por definição, não é um Vernet autêntico. É uma falsificação com o estilo dele.
— Eu não poderia saber — protestou Sherlock. — Jamais aprendi nada sobre Vernet, ou sobre qualquer outro pintor.
— E o que isso lhe diz? — perguntou Crowe, olhando para Sherlock com os olhos azuis quase sumidos entre as rugas da pele.
Sherlock pensou por um momento.
— Não sei.
— Que você pode deduzir quanto quiser, mas dedução é inútil sem conhecimento. Sua mente é como uma roca a girar eterna e inutilmente, até que sejam introduzidas as fibras e ela passe a produzir os fios. A informação é a base de todo pensamento racional. Busque-a. Procure-a com assiduidade. Encha o depósito de sua mente com tantos fatos quantos couberem nele. Não tente distinguir entre fatos importantes e triviais: todos são potencialmente importantes.
Sherlock pensou por um momento. Estava preparado para sentir-se constrangido e magoado, mas Crowe não tinha nenhum indício de crítica no tom de sua voz, e o que falava fazia sentido.
— Entendo — o menino disse, assentindo com a cabeça.
— Eu sei que sim — respondeu Crowe. — Vamos caminhar e ver o que encontramos por aí.
Crowe pegou o chapéu e a bengala ao passar pela porta, e juntos eles saíram para o radiante sol de verão. Crowe andava pelo gramado e passava por entre as árvores, falando sobre as diferentes formações de nuvens no céu e sobre o modo como elas estavam relacionadas com o clima.
— Você já parou para pensar em raposas e coelhos? — ele perguntou depois de um tempo.
— Não muito — Sherlock respondeu, tentando imaginar aonde a mudança de assunto os levaria.
— Digamos que haja cem raposas e cem coelhos em um bosque, e que exista uma cerca em torno dele, impedindo-os de sair. O que aconteceria?
Sherlock pensou por um momento.
— Os coelhos teriam filhotes, as raposas teriam filhotes e as raposas comeriam os coelhos.
— Todos eles?
— A maioria. Seria difícil encontrar os restantes, e eles provavelmente começariam a esconder-se.
— E o que aconteceria então?
Sherlock deu de ombros, sem saber o sentido daquilo tudo.
— As raposas começariam a morrer de fome, acho.
— E os coelhos?
— Permaneceriam escondidos, comendo relva e reproduzindo-se, e assim sua população aumentaria. — Uma luz brilhante, de compreensão, pareceu explodir em sua cabeça. — E então o número de raposas também aumentaria, porque elas pegariam mais coelhos e iriam alimentar-se melhor, e procriariam. Com o tempo, o número de raposas aumentaria tanto, que elas passariam a comer cada vez mais coelhos, e o número de coelhos voltaria a cair.
— E o processo seguiria repetindo-se, como duas ondas a subir e a descer, uma após a outra. Em algum lugar por trás de tudo isso existe um conceito da matemática chamado cálculo diferencial, que você deveria procurar conhecer. É estranhamente útil. É possível aplicar essas mesmas equações a criminosos e policiais de determinada cidade, se quiser. — De repente ele riu. — Os policiais não costumam comer os criminosos, mas o fundamento é o mesmo. Isaac Newton e Gottfried Leibniz desenvolveram o conceito de maneira independente, mas ele foi aprofundado recentemente por Augustin Cauchy e Bernhard Riemann. Riemann morreu há alguns meses – uma grande perda para o mundo, creio, embora não tenha certeza de que o mundo já a tenha percebido.
Sherlock duvidava de que a matemática pudesse algum dia ser importante, e a deixara de lado. Ele adoraria “encher o depósito de sua mente” com coisas como arte e música, que considerava interessantes, mas equações eram algo que podia dispensar.
Depois de um tempo eles chegaram ao muro de pedras que marcava o limite da propriedade dos Holmes. Crowe apontou para a direita.
— Siga naquela direção. Colha tantos cogumelos quantos seja capaz de carregar. Eu seguirei pelo outro lado. Voltaremos a nos encontrar aqui em meia hora, e eu mostrarei como se pode distinguir os venenosos dos inofensivos. Não prove nenhum antes disso, veja bem. Tentativa e erro certamente é uma técnica analítica válida, mas pode ser fatal.
Crowe saiu para a esquerda, afastando os arbustos e a vegetação mais rasteira com o auxílio da bengala e olhando embaixo deles. Sherlock seguiu na direção contrária, explorando o solo em busca dos discos brancos e carnudos que anunciavam o fungo crescendo entre as plantas.
Em pouco tempo Sherlock perdeu Amyus Crowe de vista. O menino continuava caminhando, mas, com exceção de algumas protuberâncias marrons achatadas que cresciam no tronco de uma árvore, e que ele não sabia ao certo se deveria colher, não encontrava nada.
Um lampejo de cor em meio às árvores chamou sua atenção: manchas vermelhas sobre um fundo branco. Sherlock chegou mais perto, pensando que se tratasse de um cogumelo gigante no chão, mas havia algo no formato que o incomodava. Parecia...
Uma nuvem de fumaça começou a desprender-se do objeto justamente quando Sherlock o reconheceu: o corpo retorcido de um homem caído no chão. A fumaça dissipou-se, levada pela brisa, mas não havia nenhum sinal de fogo. Por um momento Sherlock pensou que o homem estivesse deitado ali fumando um cachimbo, por algum motivo com o rosto envolto em um lenço branco de estampas vermelhas. Ao aproximar-se, contudo, percebeu que as manchas vermelhas não eram marcas em um cogumelo nem estampas em um lenço branco.
Eram bolhas de sangue no rosto de um cadáver.

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Boa leitura :)