25 de julho de 2017

Capítulo sete

AS DOCAS DE SOUTHAMPTON ERAM uma confusão de homens, mulheres e crianças em suas melhores roupas. Algumas dessas pessoas se moviam como formigas pelas rampas de embarque até o convés de um ou outro navio, outras desciam pelo desembarque e olhavam em volta, fascinadas com a imagem de um novo país, enquanto muitas se despediam de amigos e parentes ou recebiam recém-chegados de braços abertos. E no meio de tudo isso havia homens uniformizados empurrando carrinhos carregados de malas e baús e trabalhadores das docas vestindo roupas pesadas e manobrando gigantescos paletes com cargas de todos os tipos.
No alto, guindastes de madeira içavam os produtos para os navios ou desciam para o porto o que chegava. As enormes embarcações mais pareciam montanhas de madeira e ferro, com mastros e chaminés que quase tocavam o céu compondo uma espécie de floresta matemática na paisagem.
Sherlock tinha a impressão de notar uma centena de crimes sendo cometidos em todos os lugares para onde olhava: bolsos eram furtados, jogavam-se cartas marcadas, redes que envolviam carregamentos eram cortadas de forma que os menores itens podiam ser removidos, crianças eram furtivamente afastadas dos pais por sabe-se lá que motivos, recém-chegados pagavam adiantado pelo transporte para hospedarias e hotéis que nem existiam ou que não eram exatamente como lhes fora descrito.
Ali estava a humanidade exibindo o que tinha de melhor e pior.
As últimas vinte e quatro horas talvez tivessem sido as mais frenéticas na vida de Sherlock. Depois da reunião no chalé de Amyus Crowe e da inesperada decisão de partirem para a América – uma decisão na qual Sherlock ainda mal conseguia acreditar – ele e Mycroft haviam retornado à mansão Holmes, passando antes por Farnham para enviar um telegrama cuidadoso ao correios do porto de Southampton, no qual informavam a Ives e Berle que Gilfillan conseguira deter seus perseguidores. Uma vez na mansão Holmes, Mycroft fora conversar com o tio na biblioteca, enquanto Sherlock subira até o quarto para acomodar seus poucos pertences no velho baú do pai. Ele dormira mal, perturbado em parte pelas lembranças da luta com Gilfillan e pela dor dos ferimentos, mas também pela excitação da viagem. Deixaria o país, iria à América! O café da manhã havia sido tenso, com Sherrinford e Anna sem saberem ao certo o que dizer e a Sra. Eglantine com um sorriso gélido atrás deles. Pouco depois, Sherlock embarcara na carruagem com Mycroft, observando um criado acomodar sua bagagem na parte de cima do veículo, e os irmãos partiram para a longa viagem até Southampton.
No caminho, Sherlock descobriu-se pensando na mensagem em código que Amyus Crowe encontrara no bolso de Gilfillan. Nunca parara para refletir sobre códigos, mas a maneira rigorosa como eram criados e o processo lógico que podia ser utilizado para decifrá-los agradavam sua mente analítica. Ficou imaginando todo tipo de criptogramas, desde simples reorganizações como a que haviam decodificado no dia anterior até substituições mais complicadas, nas quais símbolos tomavam o lugar de letras, e arranjos ainda mais complexos, nos quais a substituição mudava de acordo com outro código, de forma que, na primeira vez que um “a” aparecia, era substituído por uma coisa, e na aparição seguinte, por outra, e assim por diante, tudo comandado por um algoritmo subjacente. Nesse caso, uma simples análise de frequência como a que Amyus Crowe explicara seria inútil.
Como algo desse tipo poderia ser decifrado? O mundo dos códigos e das cifras exigiria mais pesquisa.
Finalmente chegaram a Southampton. Amyus e Virginia Crowe já esperavam por eles – Crowe com um curativo discreto na testa, quase escondido pela aba do chapéu. Sherlock deduziu que pai e filha haviam cavalgado até ali e providenciado para os animais estábulo e alimentação para o período em que estariam fora.
— Tenho as passagens e os documentos para a viagem — Mycroft falou, entregando os papéis a Amyus Crowe. — Vocês vão embarcar no SS Scotia. É aquele ali. É da Cunard Line e é um ótimo navio. As passagens são de primeira classe, é evidente. Não poderia submetê-lo aos rigores de uma viagem sem nenhum conforto, especialmente com sua filha e meu irmão a seus cuidados.
Sherlock olhou para a direção apontada pela mão de Mycroft e viu um enorme navio que parecia ter quase o tamanho de um campo de rúgbi. Havia uma roda de pás na metade do casco, e ele imaginava que houvesse outra parecida do outro lado. Além delas, havia dois mastros, cujas velas no momento se encontravam recolhidas. Sherlock deduziu que as rodas eram movidas por motores a vapor escondidos dentro do gigantesco casco – as duas chaminés que emergiam do convés deviam servir para isso – já que as velas seriam usadas quando houvesse vento e o motor faria girar as rodas e impulsionaria o navio em tempo de calmaria.
Sua mente lógica dedicou-se a esse pensamento. Se as rodas eram movimentadas por motores a vapor, esses motores deviam ser alimentados por carvão em brasa. Isso significava que devia haver reservas de carvão a bordo, considerando que não seria possível obtê-lo no meio do Atlântico. O navio então teria mais peso a carregar, o que significava que mais carvão seria necessário só para transportar o carvão. Mas como calcular quanto carvão era necessário para a viagem se para cada tonelada de carvão extra era necessário acrescentar um pouco mais só para transportar essa tonelada, sabendo-se que quando essa tonelada fosse utilizada precisaria de menos carvão para transportar o restante? Havia um cálculo matemático complexo nessa operação, um raciocínio que ele não conseguia acompanhar, que o fazia se lembrar do exemplo que Amyus Crowe tinha dado algumas semanas antes sobre como o número de raposas e coelhos variava com o tempo. Será que tudo no mundo era determinado e comandado por equações?
— Por maior que seja minha gratidão por toda a sua ajuda, Sr. Holmes — Amyus Crowe estava dizendo, estranhamente sem-graça —, não sou um homem rico. Não conversamos sobre a questão da recompensa financeira.
— Não é necessário — Mycroft protestou, obviamente constrangido com a discussão sobre dinheiro. — O governo britânico pagou pelas passagens. Em algum momento da próxima semana terei uma conversa com seu embaixador e vou sugerir que ele ajude a cobrir os custos, já que estamos colaborando para estabilizar a política interna de seu país. Mas, por enquanto, é suficiente saber que não ficará sem recursos ao desembarcar em Nova York. Presumo que tenha acesso a alguma verba lá.
Amyus Crowe assentiu.
— Muito grato, Sr. Holmes.
Sherlock olhou para Virginia, parada em silêncio ao lado do pai. Ela parecia nervosa, seu rosto estava pálido e abatido.
— Não se sente bem? — Sherlock perguntou, aproximando-se dela enquanto o irmão continuava conversando com o americano.
Virginia assentiu.
— Não quero falar sobre isso.
— Pensei que ficaria satisfeita por voltar para casa.
Ela o fitou com um olhar cortante.
— Que parte de “não quero falar sobre isso” você não entendeu?
Sherlock levantou as mãos em um gesto de defesa e recuou alguns passos, como se lidasse com um animal selvagem. Virginia devia ser a pessoa mais difícil que ele conhecia, e não era a primeira vez que pensava isso.
— Alguma notícia do Great Eastern? — Crowe perguntava a Mycroft.
— Conforme indicava a mensagem cifrada, o navio zarpou hoje de manhã de um píer próximo daqui, rumo a Nova York. Tive acesso à lista de passageiros, mas não encontrei nomes que significassem algo para nós. Um passageiro não se apresentou, e só posso deduzir que seja o infeliz Sr. Gilfillan, que está agora aos cuidados da polícia de Farnham. Cuidarei para que ele seja transferido para a Polícia Metropolitana ainda hoje, mais tarde. Isso vai facilitar as investigações.
— Não seja duro demais com o homem — Crowe sugeriu em tom leve. — Lembre-se de que ele ainda não foi condenado.
Mycroft ergueu uma sobrancelha, mas não respondeu. Em vez disso, olhou para Sherlock, pôs uma das mãos em seu ombro e, com a outra, apontou para o SS Scotia.
— Seis anos em atividade, construído e operado pela Cunard Line aqui na Inglaterra — ele explicou. — Tem trezentos e setenta e nove pés e pesa três mil e novecentas toneladas. O nome do capitão é Judkins, e ele é o melhor operador da Cunard. O navio acomoda trezentos passageiros mais a carga e queima cento e sessenta e quatro toneladas de carvão por dia. Pode fazer a viagem de Southampton a Nova York em oito dias e algumas horas. Imagine só, uma semana e você está na América! Nos tempos dos pioneiros, os homens que começaram a construir aquele país majestoso, a viagem teria demorado meses.
— Já esteve na América, Mycroft? — perguntou Sherlock.
Um tremor sacudiu o corpo avantajado do irmão.
— Southampton já é um território estranho para mim — ele respondeu. — A América poderia muito bem ser o Ártico.
Mycroft olhou para Crowe.
— Sua bagagem já deve estar a caminho das cabines — disse. — Pensei muito e por fim reservei três camas em duas cabines. Você e Sherlock dividirão uma delas. Na outra ficará Virginia, na companhia de outra passageira. Não consegui descobrir o nome dela, pois aparentemente essa decisão cabe ao comissário, mas é claro que uma mulher que viaja na primeira classe deve ter boa educação.
— Tenho certeza de que Virginia não terá problemas — Crowe falou, aparentemente desconfortável.
— Mais uma coisa — Mycroft prosseguiu. — Tomei a precaução de reservar assentos para vocês três no primeiro jantar a bordo. Pessoas acostumadas a esse tipo de viagem me garantiram que o local onde você se senta para o primeiro jantar determina sua posição social durante o restante da travessia. Os melhores assentos são aqueles que ficam mais perto do capitão, mais perto das portas, em caso de enjoo, e mais afastados dos motores. Sei que a viagem dura apenas oito dias, mas nada impede que vocês tenham todo o conforto possível. — Ele teve um novo tremor. — Não posso dizer que os invejo. Hoje em dia o trajeto da minha residência ao gabinete e de lá até o clube é suficiente para me deixar exausto. Não consigo imaginar nada que possa me tirar dessa rotina.
Crowe sorriu.
— Pode acabar se surpreendendo, Sr. Holmes, com as coisas capazes de nos afastar de nossas órbitas. Às vezes são as mais simples. Suspeito que o senhor ainda possa descobrir a alegria de viajar ao exterior.
— Deus não permita — Mycroft respondeu com fervor.
E então era hora de partir. Sherlock estendeu a mão. Mycroft fez o mesmo. Eles se cumprimentaram com seriedade, como cavalheiros se encontrando na rua.
— Boa viagem — desejou Mycroft —, e faça tudo que o Sr. Crowe disser. Sua presença nesse navio é importante, e talvez não seja possível saber a dimensão desta importância por algum tempo, mas não esqueça que você é o único capaz de identificar aqueles bandidos. No mínimo, esses homens são criminosos e fugitivos políticos que devem ser presos e julgados por seus crimes. Na pior das hipóteses, é possível que estejam tramando um golpe que terá que ser sufocado, sob o risco de a frágil situação política na América ser afetada e ficar ainda pior. E, por favor, divirta-se. São poucos os garotos de sua idade que têm a chance de viajar ao exterior.

Ele levou a mão ao bolso e pegou um livrinho. Entregou-o a Sherlock e disse:
— Vai precisar de alguma coisa para passar o tempo. Aqui está uma cópia de A República, do filósofo grego Platão. O livro é escrito em forma de diálogos dramatizados entre o mentor de Platão, Sócrates, e vários atenienses e estrangeiros, e nessas conversas eles discutem o significado de justiça e debatem se o homem justo é ou não mais feliz que o injusto. Platão também utiliza os diálogos para propor uma sociedade governada por reis filósofos e para discutir o papel do filósofo e o do poeta na sociedade. A República é um dos trabalhos mais influentes nos campos de filosofia e teoria política, e sugiro que aproveite para estudá-lo.
— É traduzido? — Sherlock perguntou inseguro.
— É claro que não — Mycroft se surpreendeu. — Sei que você lê muito rápido. Se fosse em inglês, terminaria em uma tarde. Traduzindo enquanto lê, você vai ter com o que se ocupar durante boa parte da viagem. Além disso, uma tradução depende sempre da competência do tradutor. Se quer ler e entender adequadamente qualquer texto escrito em língua estrangeira, precisa aprender o idioma original. — Ele hesitou. — Conhecendo seu amor pelo grotesco e pelo mórbido, quero ressaltar que, embora Platão tenha morrido de velhice, seu mentor, Sócrates, morreu quando as autoridades gregas o obrigaram a beber veneno. Não sei se essa informação o ajudará a ler o livro até o fim, mas conhecendo seu interesse pelo melodramático ofereço esse conhecimento como um presente para ser usado como achar melhor.
— Nós nos veremos logo — Sherlock falou, sentindo um estranho aperto na garganta.
Não sabia se aquilo era uma afirmação ou uma pergunta, mas Mycroft virou o rosto por um momento, com os olhos brilhando.
— Sherlock — ele disse —, nunca terei filhos. Estou habituado demais a fazer tudo do meu jeito, e intolerante demais para mudar e me adaptar a uma casa governada por padrões que não sejam os meus. Mas se algum dia viesse a ter um filho, não poderia amá-lo mais do que amo você. Seja cuidadoso. Muito cuidadoso.
Os três embarcaram rapidamente, subindo pela rampa que se estendia do porto até o convés do navio. Ao fim da subida, as passagens foram verificadas, e eles desceram uma escada de madeira e foram conduzidos para um corredor sem janelas no interior do navio, onde ficavam os quartos.
Foram primeiro à cabine de Virginia, onde a bagagem dela já estava, embora a senhora com quem dividiria o aposento ainda não houvesse chegado. Dirigiram-se então ao aposento de Sherlock e Amyus Crowe. Os cômodos eram pequenos, com aproximadamente três metros de extensão, painéis de madeira, um beliche de um lado e um sofá confortável do outro. Em cada lado da cabine havia uma pia e um espelho. Acima do sofá, uma janela redonda deixava entrar luz e ar, mas Sherlock notou com certo nervosismo que ela podia ser fechada e aparafusada. Seria uma medida de precaução para o caso de tempestades? E, se fosse, com que frequência era usada? E como teriam ventilação adequada se a tempestade durasse mais que algumas horas?
Amyus Crowe observou as camas do beliche.
— Melhor eu ficar com a de baixo e você com a de cima — ele resmungou. — Se eu cair, prefiro que seja de uma altura menor. Além do mais, sou bem mais pesado que você.
Lembrando o que havia pensado sobre a janela e possíveis tempestades, Sherlock notou que as duas camas tinham uma proteção de madeira alta ao longo do colchão, provavelmente para impedir que a pessoa caísse enquanto dormia, mas se as ondas fossem muito violentas, os ocupantes da cabine poderiam sacudir de um lado para o outro nas camas como um chocalho.
— Não gosto desses colchões — Crowe falou desanimado, testando a espessura.
Sherlock achou que eram mais densos que o colchão em que dormia na casa dos tios, mas achou melhor não dizer nada.
Sabendo que toda bagagem já estava nas cabines, eles retornaram ao convés principal para acompanhar os preparativos da partida. A rampa de embarque estava sendo removida quando chegaram, e as pessoas no porto acenavam para os passageiros. Uma parte de Sherlock queria observar a multidão em busca do rosto redondo de Mycroft, mas outra parte sabia que ele já fora embora. Seu irmão não era um homem sentimental e odiava despedidas.
Sherlock levou a mão ao bolso do casaco onde havia guardado o exemplar da República de Platão, presente de Mycroft. Um presente inesperado, e ele pretendia ler todo o livro, mesmo em grego.
Os motores do navio, nas profundezas de seu ventre, agora aumentavam a força, e Sherlock não só ouvia o ribombar como sentia a trepidação percorrendo a madeira do convés. De repente constatou, horrorizado, que aquele barulho seria uma companhia constante nos próximos oito dias. Como dormiria? Como conseguiria ouvir o que as outras pessoas diziam? O único consolo era saber que provavelmente se acostumaria, mas no momento não conseguia nem imaginar como seria possível.
As cordas que mantinham o SS Scotia preso ao porto estavam sendo desamarradas dos postes e flutuavam nas laterais do casco como fitas, apesar de serem da grossura dos pulsos de Sherlock. As enormes rodas de pás começaram a girar, movimentando a água embaixo delas e, pouco a pouco, impelindo o navio. Um apito soou, e ao ouvir o sinal as pessoas no porto aplaudiram e gritaram, como se ninguém jamais houvesse visto nada parecido. Toucas, chapéus e boinas foram jogados para o alto, e os passageiros reunidos no convés responderam da mesma maneira.
Uma repentina onda de tristeza e culpa inundou o coração de Sherlock. Queria que Matty também estivesse ali. Queria que Matty estivesse seguro. A mente continuava criando imagens do que podia estar acontecendo com seu amigo, e era preciso fazer um grande esforço para afastá-las. Ives e Berle não tinham motivos para machucar Matty. Ele era sua apólice de seguro.
A pergunta era: Ives e Berle raciocinavam com a mesma lógica que Sherlock?
Olhando em volta para tentar se distrair, ele viu um homem ali perto. Estava sozinho, segurando o que parecia ser um estojo de violino, mas, em vez de olhar para a multidão no porto, ele olhava na direção oposta, para o mar. Era magro, com cabelos negros mais longos do que o comum para homens e vestia paletó e calça que pareciam ser de veludo cotelê. Sherlock calculou que devia ter uns trinta anos. O homem levantou uma das mãos para proteger os olhos do sol, e Sherlock notou que seus dedos eram longos e finos. De repente ele olhou para o garoto com o canto do olho e sorriu, tocando a testa em uma saudação casual. Seus olhos eram verdes, e o sorriso largo deixava ver um dente de ouro quase escondido no fundo da boca.
— É o começo de uma aventura — ele disse, e a voz tinha um leve sotaque irlandês.
— Oito dias no mar, sem nada para fazer além de dar voltas por aí e ler — respondeu Sherlock, animado com a agitação da partida a ponto de falar com um completo estranho. — Não é uma grande aventura.
— Ah, mas pense nos quilômetros e quilômetros de água que estarão embaixo de nós enquanto viajamos. Pense nos destroços de outros navios no fundo do mar, nas estranhas criaturas que nadam por lá, entrando e saindo pelas escotilhas e contornando esqueletos de marinheiros afogados. A aventura está em todos os lugares, se souber onde procurar. — Ele levantou o estojo que carregava. — E se nada mais acontecer, posso aproveitar esse tempo para ensaiar minha música no convés, sob as estrelas, e fazer serenata para as sereias.
— Sereias? — Sherlock indagou com ar cético. — É mais provável que cante para os golfinhos ou qualquer outro tipo de animal marinho.
— Um homem pode sonhar — disse o desconhecido.
Ele acenou com simpatia para Sherlock, tocou o chapéu e se afastou por entre os passageiros. Sherlock seguiu com os olhos os longos cabelos negros, mas depois de um tempo o homem desapareceu entre tantos outros desconhecidos.
— Se quiser andar por aí e explorar, vá em frente — Amyus Crowe falou atrás dele. — Vamos passar mais de uma semana neste navio e não tenho intenção de ficar de olho em você durante todo esse tempo. Desde que não caia no mar, não tem muito para onde fugir. Vou até a cabine de Ginnie para me apresentar à sua companheira de viagem e ter certeza de que a mulher não é uma maluca, uma bêbada ou as duas coisas. Venha nos encontrar na cabine, e então veremos o que vai acontecer na hora do jantar.
Sherlock se dirigiu à parte da frente do navio – a proa, como os marinheiros a chamam. No caminho, passou pela ponte – a área elevada onde ficava o capitão, imaculado em seu uniforme e seu quepe, ao lado do timoneiro, responsável por manobrar a embarcação e guiá-la com o timão, uma roda bem grande, de tamanho e formato semelhantes aos de uma roda de carroça, pelo que Sherlock podia notar. Atrás deles havia uma pequena cabine protegida do vento e da chuva, mas a maior parte da ponte era aberta. De um lado havia um objeto estranho preso a um poste, uma espécie de relógio com ponteiros muito longos que podiam ser movidos pelo mostrador, mas, em vez de apontar os números que determinariam horas e minutos, eles apontavam palavras – “Frente”, “Todo Vapor”, “Parar” e “Lento”. Sherlock só precisou de alguns segundos para deduzir que aquele devia ser um equipamento de comunicação, um aparato que permitia ao capitão transmitir suas ordens à sala de máquinas, bem abaixo do convés. Os ponteiros, quando indicando palavras específicas, deviam fazer soar sinais sonoros distintos na sala de máquinas, e os trabalhadores então agiriam de acordo com a ordem recebida.
Mais adiante, pouco antes do deque, havia um compartimento coberto, como um celeiro comprido. Até o cheiro lembrava o de um celeiro. Sherlock espiou lá dentro por uma das aberturas na parede e surpreendeu-se ao ver que havia animais, todos reunidos no pequeno cercado. Eram três andares, com vacas, porcos e carneiros apertados no primeiro, patos e gansos no do meio e galinhas no do alto. Todos protestavam contra a vibração e o vento frio que soprava do mar e varria o navio. Dali deviam sair o leite, os ovos e até a carne, o que faria com que o número de animais diminuísse ao longo da jornada. Sim, no final da viagem o cercado, assim como o depósito de carvão, estaria quase vazio. Sherlock não esperava que houvesse animais vivos a bordo, mas fazia sentido. Não seria possível manter os alimentos frescos durante a travessia, especialmente se tempestades ou problemas mecânicos os atrasassem. Em algum outro lugar do navio frutas e vegetais deviam estar estocados, ou talvez houvesse até uma horta, e em outro compartimento estariam muitos tonéis de água potável e várias centenas de garrafas de vinho, vinho do porto, champanhe, conhaque e uísque para os passageiros da primeira classe.

Alguma coisa chamou sua atenção pelo canto dos olhos, e ele virou a cabeça depressa. Uma silhueta escura desapareceu na sombra de um bote salva-vidas. Sherlock deu alguns passos à frente, mas a silhueta havia desaparecido. Ele balançou a cabeça. Devia ser apenas um dos passageiros.
Mais adiante Sherlock observou por um tempo o litoral se afastando, à direita. O navio contornaria a costa, passando pela Cornuália, e depois seguiria para a costa da Irlanda. De lá faria a travessia por mar aberto, percorrendo os quase cinco mil quilômetros que os separavam do porto onde desembarcariam, em Nova York.
Sherlock estava surpreso com o quanto o navio parecia seguro. O balanço era quase imperceptível. Talvez a situação mudasse quando estivessem no meio do Atlântico, mas o tamanho e o peso da embarcação pareciam protegê-lo das ondas relativamente pequenas da costa britânica. Sherlock pensou no barquinho em que havia escapado com Matty do forte napoleônico do barão de Maupertuis até a costa perto de Portsmouth. Aquela jornada havia sido terrível, e o garoto não pretendia experimentar nada parecido de novo.
De repente se sentia sozinho. A Inglaterra e o que ela significava – seu lar, sua família, até sua escola – desapareciam lentamente, e tudo o que o esperava era desconhecido, um novo mundo, um novo grupo de pessoas e costumes. E perigo. Não sabia o que queriam os homens que mantinham John Wilkes Booth cativo, mas era evidente que tinham um plano e estavam dispostos a matar para mantê-lo em segredo. E lá estava ele, apenas um menino, envolvendo-se em intrigas que iam muito além dos limites de seu mundo.
E Matty. Como estaria Matty? Sherlock duvidava de que o amigo tivesse o mesmo conforto de que eles desfrutavam a bordo do SS Scotia. Matty devia estar amarrado ou pelo menos preso em uma cabine em algum lugar. Talvez quem o levou tivesse concordado em deixá-lo livre, já que estavam em um navio, de onde ele não poderia escapar, com a condição de que o menino não causasse problemas. Mas Matty era teimoso, e é possível houvesse recusado o acordo.
Isto é, presumindo que ele estivesse vivo. Amyus Crowe e Mycroft haviam deduzido que sim, mas Sherlock tinha plena consciência de que deduções eram apenas projeções em um mar de fantasia, baseadas em poucos fatos conhecidos. Se os fatos estivessem errados ou se a projeção não fosse feita corretamente, o resultado seria muitíssimo diferente. E Matty poderia estar morto. Os americanos talvez tivessem resolvido não se sobrecarregar com um prisioneiro vivo durante a viagem e decidido cortar a garganta do garoto, jogando seu corpo em uma estrada qualquer da Inglaterra. A mensagem podia ter sido só um truque, uma tentativa desesperada de impedir a interferência de Amyus Crowe, mas sem garantias.
Devagar, Sherlock voltou caminhando ao longo da balaustrada que delimitava o convés. Em um dado momento, teve que pedir informações a um tripulante, um homem magro com um uniforme impecável e cabelos claros bem-cortados sob o quepe. Depois de descobrir aonde tinha que ir, caminhou por entre grupos de passageiros animados, passou pelas duas chaminés e por dois mastros gigantescos, grossos como troncos, e contornou o longo salão da primeira classe, cujas janelas se abriam para o convés. E de lá voltou à proa do barco. A esteira branca deixada pela passagem do navio lembrava a cauda de um cometa. Aves marítimas os seguiam, mergulhando na espuma em busca de peixes desorientados e perturbados.
Na parte traseira do navio uma escada estreita levava ao interior do casco. Homens com roupas rústicas se aglomeravam no alto da escada, fumando e olhando para os passageiros mais elegantes. Sherlock deduziu que aqueles eram os passageiros da classe econômica, que viajavam apertados e em condições nada saudáveis no convés inferior, dormindo em redes ou em bancos, mas pagavam bem menos pelas passagens. Pessoas dispostas a começar uma nova vida na América, diferentes dos passageiros da primeira e segunda classes, que embarcavam para tratar de negócios ou para passear.
Ele sentiu uma presença a seu lado. Antes de se virar, Sherlock soube que era Virginia.
— O que achou da cabine? — ele perguntou.
— Melhor do que a da viagem para a Inglaterra — ela respondeu. — Meu pai vai dizer que a comida e as acomodações eram melhores, mas não se deixe enganar. Não estávamos na classe econômica, mas também não era a primeira, e não é porque era um navio americano, e não inglês, que a situação seria automaticamente melhor.
— E sua companheira de cabine?
— É uma viúva idosa que está viajando para encontrar o filho, que se mudou para Nova York há cinco anos. Ela trouxe uma criada, que viaja na área dos serviçais, e planeja começar a ler a Bíblia agora e terminá-la até chegarmos em Nova York. Só posso lhe desejar boa sorte.
— Quer dar uma volta no convés? — Sherlock perguntou, nervoso.
— Por que não? É melhor conhecermos o lugar. Afinal, é aqui que vamos passar os próximos oito dias.
Eles seguiram em frente, caminhando pelo lado do navio que Sherlock ainda não havia percorrido. Quando chegaram ao salão da primeira classe, ele fez um gesto de modo a deter Virginia.
— Só quero dar uma olhada lá dentro — disse.
A porta se abria para o lado de fora e as dobradiças resistiam, um arranjo que devia ser proposital para impedir que o vento empurrasse a porta a todo instante. Sherlock puxou-a com força e olhou para dentro do salão. O lugar estava vazio, exceto pelos dois tripulantes vestidos de branco que dispunham talheres de prata na única grande mesa que dominava o espaço. Havia por volta de cinquenta cadeiras em torno dela – provavelmente, o número de passageiros que viajavam na primeira classe. Os tripulantes olharam para o menino parado na porta, moveram a cabeça com um cumprimento rápido e voltaram ao trabalho.

O salão era revestido de madeira escura, com espelhos dispostos em pontos estratégicos para criar a ilusão de profundidade. Onde não havia espelhos, havia murais artísticos intercalados com os painéis de madeira. Nas paredes havia também lamparinas a óleo presas por suportes sólidos.
— Todos nós vamos comer aqui, então? — Sherlock murmurou.
Virginia assentiu.
— Todos juntos — ela respondeu. — Foi assim no barco em que viemos para a Inglaterra.
— Lordes e damas convivendo com industriais e empresários do teatro. Muito democrático. Nenhum lugar para onde o hoi oligoi possa fugir, escapar da hoi polloi.
— E sem serviço de bordo — Virginia acrescentou. — As pessoas comem aqui ou não comem.
Um dos tripulantes começou a distribuir nas mesas os cartões que determinavam o lugar de cada passageiro. Sherlock estava curioso para saber onde o suborno de Mycroft os colocara. Agora que haviam zarpado, não havia mais garantias. Mesmo com o suborno, podiam ser acomodados em uma das pontas, longe do capitão e das portas, em cima dos motores, e nada poderiam fazer além de reclamar. Sherlock compreendia que estavam à mercê do comissário – um homem que já havia demonstrado ser subornável.
O garoto recuou, fechando a porta, e viu algo se mover com sua visão periférica. Ele olhou para o lado, para onde o salão terminava, formando um pequeno corredor entre a parede e a chaminé mais próxima. Alguém se esgueirara para as sombras do corredor. Ele não conseguiu ver quem era, nem ter certeza se era um marinheiro ou um passageiro. A única coisa que viu foi o sol iluminando algo azul e brilhante no pulso da pessoa que se escondia. Uma abotoadura azul, talvez? Não podia afirmar.
Correu até o fundo do salão e olhou para o corredor, mas não havia ninguém. Uma escotilha na metade do caminho levava ao fundo do navio. Quem os observava havia sumido, mas Sherlock sabia que a história não terminava ali. Era a segunda vez que percebia alguém nas sombras, observando seus movimentos. Alguém naquele navio estava interessado neles, e isso só podia significar uma coisa.
Os americanos que haviam raptado Matty tinham um informante a bordo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)