16 de julho de 2017

Capítulo sete

NO DIA SEGUINTE, SHERLOCK encontrou Matty Arnatt no mercado. Começava a conseguir prever os movimentos de Matty. Já era quase meio-dia, e os comerciantes tinham estado ali desde as primeiras horas da madrugada. Deviam estar começando a pensar em comida, e possivelmente já se revezavam para sair e almoçar: um cuidava de duas barracas enquanto outro ia buscar pão e um pouco de carne, ou uma torta, e talvez uma caneca de cerveja. Isso significava que a essa hora Matty conseguia surrupiar alguns legumes ou frutas do canto de uma barraca cujo dono tivesse saído. Sherlock não aprovava o roubo, mas também não aprovava que houvesse quem passasse fome, ou que crianças fossem recolhidas e enviadas para trabalhar em abrigos. Portanto, considerava a questão um equilíbrio de dilemas éticos e, para ser honesto, não condenava Matty por causa de uma ou outra maçã bichada. Não seria isso que derrubaria o Império.
O mercado ocupava uma pequena área delimitada por prédios em três de seus lados. Havia barracas que vendiam cebolas e cherivias, batatas e beterrabas, e outros vegetais, numa variedade de cores que Sherlock nem reconhecia. Outras mostravam presuntos pendurados em ganchos e rodeados por moscas, e peixe disposto na palha. Pessoas vendiam tecidos variados e também roupas – droguetes e bombazinas; tecidos mais leves, de lã; tecidos para o verão e tingidos, e sarjas. Um curral improvisado em um canto abrigava um rebanho de carneiros e um casal de porcos que estava deitado e dormia, apesar da agitação. A mistura de aromas era quase opressiva, e um toque sutil de podridão pairava no ar. Sherlock imaginava que até o pôr do sol toda a área estaria fedendo a vegetais passados e peixe podre, mas até lá a maioria dos fregueses já teria ido embora, restando apenas os habitantes mais pobres, cuja esperança era de que os comerciantes reduzissem seus preços, na tentativa de livrarem-se da mercadoria.
O clima parecia tenso no mercado nesse dia. Não estava tão movimentado quanto na lembrança de Sherlock. Em vez do barulho e da agitação típicos de um mercado de cidade pequena, que os moradores tratavam tanto como ambiente de evento social quanto como oportunidade para comprar aquilo de que precisavam, os fregueses pareciam determinados a encontrar os produtos necessários, comprá-los com o mínimo de barganha e ir embora logo em seguida.
— Crowe estava em casa? — perguntou Matty quando Sherlock se aproximou. Ele estava sentado sobre um caixote virado, observando atentamente os comerciantes, à espera de um momento de distração.
— Não quando chegamos lá, mas conheci a filha dele.
— Sim, eu já a vi por aí.
— Podia ter falado a respeito dela — Sherlock queixou-se. — Ela me pegou de surpresa. Eu não esperava encontrá-la na casa. Devo ter parecido um idiota.
Matty observou-o por um instante, olhando-o de cima a baixo.
— É, com certeza — disse.
Sherlock sentiu-se constrangido e mudou de assunto.
— Tive uma ideia...
Ele parou quando Matty se levantou de repente e saiu correndo em meio às pessoas, passando por entre os fregueses como uma enguia por entre pedras. Pouco depois ele retornou, removendo terra de uma torta de carne de porco.
— Caiu de uma barraca — ele disse orgulhoso. — Estava esperando por isso. Tinha muita coisa empilhada, mais cedo ou mais tarde ia acabar caindo. — Ele abocanhou um pedaço enorme da torta, depois a ofereceu a Sherlock. — Aqui, experimente.
Sherlock mordeu uma beirada da massa. Era salgada, gordurosa e grossa. Deu outra mordida, conseguindo pegar um pouco da carne rosada e do creme transparente do recheio. A carne era saborosa, misturada com pedaços de frutas – ameixas, talvez? O que quer que fosse, a combinação era incrível.
Ele devolveu a torta.
— Já comi queijo e maçã — disse Sherlock. — Pode terminar.
— Você disse que teve uma ideia.
— Preciso ir a Guildford.
— Vai levar umas boas horas de bicicleta — Matty avisou, ainda observando a multidão.
Sherlock pensou na viagem da Escola Deepdene para Meninos até Farnham, passando por Guildford e Aldershot. Não gostava muito da solução de ir pedalando até Guildford e depois voltar: não sabia se conseguiria fazer isso em um dia, e ainda encontrar um perito com quem conversar sobre venenos e doenças.
Ele suspirou.
— Esqueça — disse. — Foi uma ideia estúpida.
— Não necessariamente — respondeu Matty. — Há outros meios de ir a Guildford.
— Não sei cavalgar e não tenho um cavalo.
— E o trem?
— Prefiro ir sem deixar rastros, sem que ninguém saiba. A Sra. Eglantine parece ser amiga do chefe da estação. Não quero que ela saiba o que faço o tempo todo.
A Sra. Eglantine não é amiga da família. As palavras da carta de Mycroft de repente cruzaram seus pensamentos, dando arrepios em Sherlock.
— Há outro meio — Matty disse, cauteloso.
— Que é?
— O Wey.
— Quem?
— Wey. O rio Wey. Ele corre daqui até Guildford.
Sherlock considerou a ideia por um momento.
— Precisaríamos de um barco. — E depois, antes que Matty conseguisse dizer qualquer coisa, exclamou: — E você tem um: bem, um bote, ao menos!
— E um cavalo para arrastá-lo.
— Quanto tempo levaríamos?
Matty pensou por um instante.
— Provavelmente tanto quanto se fôssemos de bicicleta, mas o esforço é muito menor. Não creio que seja possível irmos hoje. Podemos nos encontrar amanhã, ao nascer do sol, e passar o dia todo na água, mas você não teria muito tempo em Guildford.
— E se partirmos antes do nascer do sol? — Sherlock perguntou.
Matty olhou para ele, curioso.
— Seus tios não vão ficar preocupados?
A mente de Sherlock girava como um velho relógio prestes a soar suas badaladas.
— Posso voltar para o jantar, depois dizer a eles que vou me deitar. E posso escapar mais tarde, quando estiver escuro e todos tiverem ido dormir. Tenho certeza. Ninguém nunca vai a meu quarto ver como estou. E posso deixar um bilhete na sala de jantar avisando que me levantei antes do café da manhã e saí com Amyus Crowe. Só vão encontrar o bilhete de manhã. Vai dar certo!
— O rio passa perto da casa de seu tio — Matty disse. — Posso desenhar um mapa e encontrar você lá. Estaremos em Guildford ainda de manhã, e de volta antes do pôr do sol.
Usando uma pedra afiada que pegou do chão, Matty rabiscou rapidamente um mapa em um pedaço de madeira que arrancou do caixote sobre o qual estava sentado. Sherlock suspeitava de que o menino não soubesse ler nem escrever, mas o mapa era perfeito e quase em escala. Podia visualizar com precisão o local onde deveriam se encontrar.
— Preciso de um favor seu — Sherlock disse.
— O quê?
— Quero que faça perguntas por aí. Veja se consegue informações sobre o homem que morreu, o daquela casa que você viu. Descubra o que ele fazia.
— Como assim?
— Qual era o trabalho dele. Como ele ganhava dinheiro. Acho que isso talvez seja importante.
Matty assentiu.
— Farei o possível — disse —, mas ninguém costuma contar muitas coisas para uma criança.
Depois disso, tudo transcorreu sem contratempos. Sherlock voltou à mansão Holmes e chegou quando a família já se preparava para almoçar. Tentou analisar o plano, estudando cada etapa, para certificar-se de sua solidez em caso de eventos inesperados, verificando cada detalhe em busca de falhas, mas seus pensamentos sempre voltavam para Virginia Crowe. Não conseguia tirar da cabeça o rosto da menina, nem sua cascata de cabelos.
Amyus Crowe chegou depois do almoço e passou várias horas do lado de fora, na varanda, avaliando o processo de pensamento de Sherlock com jogos e enigmas. Um deles, em especial, ficou retido na mente do menino.
— Vamos imaginar que três sujeitos decidam dividir o custo de um quarto de hotel — disse Crowe. — O quarto custa trinta xelins por noite, incluindo jantar e café da manhã; um lugar de prestígio, é evidente. Então, os sujeitos pagam ao gerente dez xelins cada um. Tudo claro até aqui?
Sherlock assentiu.
— Muito bem. Na manhã seguinte o gerente percebe que cometeu um erro grave: o quarto terá um valor especial, devido a uma obra no hotel. Então ele envia um mensageiro com cinco xelins de troco para o quarto dos sujeitos. Eles ficam tão felizes, que decidem guardar um xelim cada um e dar os outros dois de gorjeta ao mensageiro. Assim, cada um deles acabou pagando nove xelins, não dez, e o mensageiro ganhou dois. Certo?
Sherlock assentiu de novo, mas pensava rapidamente, para acompanhar.
— Espere aí. Se cada homem pagou apenas nove xelins, são vinte e sete xelins no total. Junte a isso os dois xelins que o mensageiro ganhou, e serão vinte e nove xelins. Um xelim sumiu.
— Isso mesmo — Crowe confirmou. — E você vai me dizer onde ele está.
Sherlock passou os vinte minutos seguintes tentando resolver o problema, primeiramente na cabeça, depois no papel. No final, acabou reconhecendo a derrota.
— Não sei — disse. — O gerente devolveu cinco xelins, então não os guardou; o mensageiro recebeu dois xelins, então não está com ele, e cada um dos hóspedes recebeu um xelim de volta, então o valor também não ficou com nenhum deles.
— O problema está na descrição — explicou Crowe. — É: três vezes nove xelins resultam em vinte e sete xelins, mas a gorjeta já está incluída nisso. Não faz sentido adicionar a gorjeta ao valor para somar vinte e nove xelins. Se você reestruturar o problema, vai perceber que os homens pagaram vinte e cinco xelins pelo quarto e dois xelins de gorjeta, e receberam de troco um xelim cada um, somando trinta xelins. E a lição final é...?
Sherlock assentiu.
— Não deixe ninguém formular o problema por você, porque eles podem induzi-lo ao erro. Tome os fatos descritos e formule você mesmo o problema de maneira lógica, que permita sua solução.
Amyus Crowe foi embora antes do jantar, e Sherlock voltou a seu quarto, para pensar no que aprendera. Desceu para o jantar e comeu em silêncio, enquanto o tio lia e a tia falava sozinha. A Sra. Eglantine, na lateral da sala, olhou-o desconfiada, mas ele não a encarou de volta. A única conversa que surgiu foi quando o tio interrompeu a leitura e disse para a governanta:
— Sra. Eglantine, qual o estoque de alimentos que temos dentro dos limites da propriedade?
— Produzimos vegetais suficientes para o suprimento de nossas necessidades — ela respondeu, com uma expressão carrancuda. — Podemos dizer isso também com relação a ovos e galinhas. Com respeito a carne e peixe, é provável que possamos nos manter por algumas semanas, até que se esgote o estoque, se ele for administrado cuidadosamente.
Tio Sherrinford assentiu:
— Creio que devamos presumir o pior. Prepare-se para defumar ou preservar de qualquer outra forma o máximo possível de carne. E estoque itens essenciais. Se a praga realmente devastar Farnham, talvez fiquemos isolados por algum tempo. Sei que Amyus Crowe está sugerindo cautela, mas temos de tomar medidas preventivas. — Ele virou-se para Sherlock. — O que me lembra: o Sr. Crowe contou-me que você não tem dedicado muito tempo ao estudo do latim e do grego.
— Eu sei — respondeu o menino. — O Sr. Crowe e eu temos nos concentrado em... matemática.
— O tempo do Sr. Crowe é muito valioso — prosseguiu tio Sherrinford, com um jeito calmo, comedido. — E seu irmão investiu um bom dinheiro para contratar seus serviços de tutor. Talvez você queira refletir sobre isso.
— Sim, tio.
— O Sr. Crowe retornará amanhã à tarde. Talvez você possa fazer algumas traduções para mim.
Lembrando a estimativa de Matty de que só estariam de volta na hora do jantar, Sherlock estremeceu. Mas não podia dizer ao tio que iria a Guildford. Ele poderia proibir sua ida. Ao erguer o olhar, percebeu que a Sra. Eglantine observava-o com seus olhos pequeninos e redondos. O que ela sabia?
— Estarei aqui — ele prometeu, mesmo sabendo que não conseguiria voltar a tempo. Deixaria para preocupar-se com as explicações quando elas fossem necessárias.
Ao terminar de jantar, Sherlock pediu licença e dirigiu-se à biblioteca. O tio ainda estava sentado à mesa, comendo, e um ou dois dias antes ele dissera que Sherlock poderia ir à biblioteca se quisesse, mas o menino ainda se sentia um intruso naquele aposento silencioso, com as cortinas sempre fechadas para bloquear a luz do sol e um cheiro de couro e papéis velhos que impregnava todos os nichos e recantos. Sherlock examinou as prateleiras, procurando alguma coisa relacionada com a geografia da região. Encontrou várias enciclopédias, volumes encadernados de periódicos eclesiásticos, incontáveis livros contendo coleções de sermões que Sherlock supunha terem sido escritos por clérigos renomados do passado e muitas histórias da Igreja Cristã. Acabou encontrando diversas prateleiras de história e geografia local. Escolheu um livro sobre as vias aquáticas de Surrey e Hampshire, saiu da biblioteca e voltou para seu quarto no topo da casa.
Durante cerca de meia hora redigiu um bilhete explicando que saíra cedo e que voltaria mais tarde. As primeiras tentativas estavam muito detalhadas, especificando inúmeras inverdades sobre o que ele iria fazer e onde, mas depois de um tempo Sherlock percebeu que, quanto mais simples fosse o bilhete, e quanto menos os fatos narrados nele pudessem ser verificados, melhor. Assim que terminou, deitou-se na cama e leu o livro que tinha retirado da biblioteca.
Sherlock virava as páginas, procurando menções ao rio Wey, de preferência com um mapa que ele pudesse memorizar, mas logo descobriu mais do que esperava. O Wey, por exemplo, não era apenas um rio – era, aparentemente, algo chamado “canal de navegação”. Rios normalmente serpenteavam pela terra em direções imprevisíveis, enquanto canais – construídos para fins de comércio entre cidades – eram retos sempre que possível, e utilizavam edificações parecidas com degraus, chamadas comportas, que faziam subir e descer o nível da água de acordo com a configuração da terra. O Wey, ele descobriu, era um rio natural que fora convertido em uma espécie de canal pela construção de diques e comportas.
A cabeça de Sherlock fervilhava com detalhes dos grandiosos feitos de engenharia que tinham sido necessários para submeter o rio à vontade do homem, e dos muitos anos que isso deve ter exigido até concretizar-se. Depois de um tempo, tentou dormir, sabendo que teria pela frente um dia longo. A mente estava repleta de ideias, imagens e fatos, mas Sherlock nem percebeu quando mergulhou num sono sem sonhos. Ao acordar, ainda estava escuro, mas uma brisa fresca penetrava pela janela e aves começavam a cantar em árvores e arbustos. Eram quatro da manhã.
Deitara-se vestido, então, em um instante, já percorria furtivamente a casa escura: alcançou a saída da área do sótão, desceu pela estreita escada de madeira – certificando-se de pisar as extremidades dos degraus, para evitar rangidos – e atravessou cautelosamente o primeiro andar, passando pelo quarto do tio e da tia, então pelo closet do casal e pelo banheiro, tentando não respirar muito alto; depois desceu pela escada principal em curva, que conduzia ao saguão, no térreo, caminhando junto à parede e sentindo o peso dos quadros suspensos acima de si, cujas molduras de madeira entalhada conferiam relativa insignificância às telas propriamente ditas. O único som era o tique-taque do grande relógio que ficava no ponto em que a escada encontrava o piso de ladrilhos.
Ele parou ao chegar ao saguão. Agora teria de atravessar o amplo espaço ladrilhado até a porta de entrada. Não poderia mais esgueirar-se colado às paredes – estaria exposto, visível a quem saísse por uma das portas ou olhasse da sacada do primeiro andar para baixo. Ajoelhou-se por um momento, tentando ver se havia alguma luz sob uma das portas, mas estava tudo escuro. Sherlock reuniu coragem e percorreu o espaço aberto. Quando chegou perto da porta, seu coração batia duas vezes mais depressa que o tique-taque do relógio na parede.
A porta estava aferrolhada, mas ele removeu a tranca e a abriu lentamente. Quando amanhecesse alguém poderia notar que a porta fora destrancada, mas provavelmente concluiria que alguma outra pessoa teria passado por ali antes.
A porta estava quase fechada quando Sherlock lembrou-se do bilhete que precisava deixar explicando que tinha saído cedo. Apoiou seu peso contra a porta, abrindo-a outra vez, entrou na casa e deixou o bilhete sobre uma mesinha lateral no saguão, ao lado da chapeleira, no mesmo lugar em que a correspondência da manhã e da tarde era deixada para que alguém a recolhesse.
O ar do lado de fora era frio e refrescante em comparação com a atmosfera abafada do interior da casa, e havia sobre as árvores um ligeiro brilho que antecipava o azul do amanhecer que em breve tomaria o lugar da escuridão. Sherlock correu o mais rápido que pôde pelo caminho de cascalho, ouvindo o rangido das pedras sob os pés, até alcançar o silêncio do gramado.
Levou dez minutos para chegar à margem do rio, seguindo as orientações de Matty. Uma forma escura e comprida flutuava sobre a reluzente superfície da água, balançando suavemente. Tinha o aspecto estranho de uma cabana comprida e baixa construída sobre uma quilha estreita. O único vão ficava na parte de trás, onde a cabana terminava e havia uma plataforma com espaço para duas pessoas ficarem em pé, uma delas segurando o leme. Uma corda presa à frente do barco descia para a superfície da água, depois se erguia novamente até o local onde um cavalo pastava satisfeito a relva da margem do rio. Diferentemente do magnífico garanhão negro de Virginia Crowe, esse parecia ser uma criatura pesada, de patas grossas e crina volumosa. Ele olhou uma vez para Sherlock sem nenhuma curiosidade, e logo voltou a pastar.
Matty esperava-o na frente da embarcação, uma silhueta escura contra o céu do amanhecer, como a carranca de um navio ou uma gárgula em uma catedral. Segurava um croque, um gancho de metal posto na extremidade de uma longa vara de madeira.
— Vamos — ele disse, assim que Sherlock, desajeitado, subiu a bordo. — A propósito, aquele é Albert. — Ele estalou a língua. O cavalo olhou em sua direção com uma expressão de pesar e então começou a andar pela margem. A corda que o prendia ao barco esticou-se, e a embarcação começou a se mover, puxada por Albert. Matty usava o croque para afastá-la da margem e impedir que ficasse presa nos juncos.
— Ele sabe para onde vai? — perguntou Sherlock.
— O que há para saber? Ele caminha pela margem e puxa o barco. Se encontrar algum obstáculo, ele para e eu libero o caminho. Você vai ficar lá atrás cuidando do leme. Se começarmos a flutuar para o meio do rio, guie-nos de volta para perto da margem. Tem um cobertor na plataforma, se você sentir frio. É um cobertor de sela, para cavalo, mas aquece tanto quanto um cobertor chique.
O barco seguia. A água batia nas laterais com um ritmo regular que provocava sonolência em Sherlock, quase o hipnotizava. O rio estava deserto, exceto por um ou outro pato ou ganso que passava por eles.
— O que você descobriu sobre o homem que morreu? — Sherlock indagou em voz alta depois de um tempo. — O primeiro homem. Aquele da casa.
— Ele era alfaiate — Matty gritou de volta. — Trabalhava em uma empresa que fazia uniformes para o Exército em Aldershot. Aparentemente, era um pedido bem grande, então a empresa tava recrutando na região gente que pudesse cortar ou costurar as peças.
— Como você descobriu tudo isso?
Matty riu.
— Eu disse que era filho dele, e que mamãe queria saber se ele tava recebendo de algum empregador. Parece que ele ia embolsar uns salários atrasados, mas o senhorio dele já tomou o dinheiro como pagamento do aluguel.
— Onde fica essa empresa? — Sherlock perguntou.
— Eles têm um escritório perto do mercado, mas também têm um galpão na periferia da cidade, onde funcionava a fábrica. Deve ser o lugar que você incendiou.
Sherlock pensava, enquanto o barco era levado pelo cavalo de Matty. O homem que morrera era alfaiate, fazia uniformes. O galpão no qual ele trabalhava estivera cheio de caixas, que os bandidos transferiram para uma carroça. Caixas de uniformes? Parecia provável. Mas isso ainda não explicava por que ele morrera, nem como, e também não explicava a morte do segundo homem, o do bosque.
O céu a leste estava com um tom púrpura que lembrava um hematoma, e as árvores nas margens pareciam silhuetas escuras contra um fundo um pouco menos escuro.
Uma estrela solitária brilhava intensamente perto do horizonte. Adiante, Sherlock podia ver um arco negro que atravessava o caminho que seguiam: uma ponte, provavelmente. Talvez fosse a mesma em que estivera com Matty, apenas um ou dois dias antes, vendo os peixes no rio.
Albert relinchou como se algo o tivesse assustado. Sherlock olhou para a margem, tentando identificar a silhueta do animal contra a escuridão do matagal que acompanhava o rio. O som dos cascos sobre a terra mudou. Para Sherlock, era como se o cavalo tentasse se desviar de alguma coisa que chegava perto demais.
Matty disse alguma coisa para acalmar o animal – mais um barulho que palavras de verdade – mas Sherlock percebeu, pelo tom de voz do amigo, que ele estava preocupado. Qual seria o problema? Haveria um animal vagando por ali, assustando o cavalo? Ou será que o animal apenas farejara algo que o surpreendera?
Quando estava prestes a chamar Matty e a perguntar-lhe qual o problema, algo se moveu na ponte, atrás da silhueta escura da cabeça e dos ombros do menino. Sherlock fixou o olhar na direção da sombra que cruzava o rio diante dos dois. Algo interrompia o arco perfeito da ponte: um contorno irregular e ligeiramente descentralizado. Na verdade, duas formas irregulares, cheias de saliências, porque outra se juntou à primeira. Elas reuniram-se por um instante, inclinando-se uma em direção à outra, e depois se afastaram.
Habitantes de Farnham, que teriam começado cedo o dia? Ladrões, talvez?
Sherlock abandonou essas teorias quando a luz de um fósforo iluminou brevemente um rosto moreno, que ele reconheceu do galpão.
Era o bandido chamado Clem.
A chama transformou-se em um brilho suave que se espalhou pela ponte. Clem erguia uma lamparina, iluminando o barco que se aproximava. Quando estavam mais perto, Sherlock viu os lábios de Clem torcerem-se em um sorriso cruel. A claridade da lamparina delineava a silhueta de Matty, que viajava em pé na proa da embarcação. Ele parecia prestes a falar alguma coisa, mas Clem balançou a lamparina sobre a cabeça, espalhando sombras em todas as direções, e depois a arremessou na direção da cabeça de Matty.
Matty abaixou-se e a lamparina quicou duas vezes antes de espatifar-se na parte de trás do barco, derramando óleo flamejante por toda parte. Minúsculas chamas de fogo espalharam-se, apoderando-se da madeira, lambendo, famintas, o verniz. Sherlock olhou em volta. Por Deus! Estavam em um rio, e ele não via nenhuma maneira de pegar a água de que precisavam!
Seus olhos passaram pelo cobertor de sela que Matty indicara, embolado no canto, perto da cana do leme. Sherlock pegou-o e lançou-o sobre as chamas, mas segurando uma das pontas, de modo a impedir que caísse na água. De baixo dele levantou-se fumaça, mas não havia mais chamas.
Sherlock puxou o cobertor de volta. Extinguira metade do fogo, sufocando-o com o tecido grosso, mas pequenas chamas ainda estavam explorando fendas no casco do barco.
Matty gritou quando uma segunda lamparina atingiu a borda da embarcação perto da cabeça de Sherlock e caiu no rio, onde afundou, sibilando e estalando quando o pavio aceso entrou em contato com a água. Sherlock virou-se e mergulhou o cobertor no rio, segurando-o com firmeza. Antes que ele ficasse saturado demais, o menino puxou-o de volta e jogou sobre a madeira. Dessa vez as chamas foram extintas pelo tecido encharcado.
Sherlock olhou para a ponte quando o barco passou por baixo dela, esperando ver uma terceira lamparina arremessada contra sua cabeça, mas os atacantes pareciam não ter mais nenhuma. Em vez disso, Sherlock viu com grande choque um corpo cair em sua direção. Clem tinha pulado. O bandido atingiu o teto do barco, rachando a madeira com suas botas. Então caiu de costas sobre o deque. Levantando-se, com as mandíbulas travadas e um brilho intenso nos olhos, avançou para Sherlock. Com a mão direita sacou do cinturão uma faca de lâmina curva.
— Pensou que poderia invadir nosso galpão e escapar ileso? — ele rosnou. — Te viram fugindo do fogo como um rato que você é. — Com a mão esquerda, tentou agarrar os cabelos de Sherlock. — Se prepara para ir encontrar o seu Criador!
Sherlock recuou para o canto do minúsculo deque, sentindo o deslocamento de ar causado pela passagem da mão do agressor bem perto de seus olhos. O homem estava tão próximo, que o menino sentia o cheiro rançoso de suor que se desprendia de suas roupas grosseiras e via a sujeira incrustada sob suas unhas lascadas.
Clem investiu contra Sherlock, segurando-o pelos cabelos e puxando-o para a frente. Sherlock não conseguiu conter um grito de dor quando o homem quase arrancou seus cabelos. Por um momento bizarro, a imagem de Albert arrancando com os dentes a grama da margem do rio surgiu em sua mente.
Clem puxou Sherlock contra o peito e encarou-o. O garoto sentiu a mão direita do homem aproximar-se de seu pescoço, segurando a faca. Estava a poucos segundos de ter sua garganta cortada, e ele nem sabia por quê!
Algo chocou-se contra as costas de Clem. Seus olhos abriram-se, numa reação de choque, e Sherlock sentiu que os dedos que seguravam seus cabelos relaxaram. Ele recuou um passo, empurrando Clem com as duas mãos. O homem não resistiu, e afastou-se, cambaleando, antes de virar-se, dando passos exageradamente cautelosos.
Matty estava atrás dele. Ele segurava o croque com as duas mãos. Por um momento Sherlock não entendeu o que tinha acontecido, mas depois, quando Clem se virou para Matty, viu um corte profundo e sangrento na parte de trás da cabeça dele, que ia desde o topo até o pescoço grosso. A pele fora aberta, e Sherlock conseguia ver o branco do osso sob o sangue. Matty o acertara na cabeça em cheio com o croque.
Clem deu um passo na direção de Matty, depois outro. Levantou a mão que segurava a faca, mas parecia não saber o que fazer com ela. Olhou confuso para a lâmina, e então caiu para o lado, desabando do barco para o rio como se fosse uma árvore. A água que subiu com o impacto do corpo quase alcançou a ponte. Por um momento Sherlock ainda viu o rosto de Clem afundando, a expressão de incredulidade em seus olhos transtornados, mas logo ele desapareceu rumo à escuridão e ao lodo no fundo do rio. As mãos foram a última parte do corpo a sumir, os dedos acenando como algas levadas pela correnteza, e no instante seguinte elas também se foram.

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