25 de julho de 2017

Capítulo seis

SABENDO QUE NÃO TINHA ESCOLHA, Sherlock apontou o rifle para o peito do homem e puxou o gatilho, preparando-se para o coice que viria em seguida.
Nada aconteceu. O rifle não disparou.
Gilfillan sorriu triunfante.
— Areia — disse. — É preciso tratar os rifles velhos direito. Qualquer coisinha pode atrapalhar. — Ele enfiou a mão no bolso da calça e pegou um objeto pequeno e escuro. Ele sacudiu a mão e de repente havia uma lâmina nela, uma lâmina curva e afiada. — Nada como uma faca. Descobri que elas funcionam em quase todas as circunstâncias. É mais lenta que um rifle, mas muito mais divertida.
O homem deu um passo à frente e moveu a faca de um lado para o outro, tentando atingir os olhos de Sherlock. O menino pulou para trás, sentindo o ventinho frio provocado pelo movimento da faca. Os últimos raios de sol eram refletidos pela ponta da lâmina, traçando uma linha vermelha no campo de visão de Sherlock, uma linha que continuava ali mesmo depois de a lâmina passar.
Gilfillan se aproximou, movendo a faca de baixo para cima, tentando cravá-la na barriga de Sherlock, mas o garoto defendeu o golpe com o cabo do rifle. O impacto jogou-o para trás, mas Gilfillan segurou-o pelo pulso e praguejou.
— É isso — ele rosnou. — Não vou mais tratar você com igualdade. Vou cortá-lo como um boi.
Ele agarrou Sherlock pela orelha antes que o menino pudesse se esquivar, puxando-o para mais perto enquanto aproximava a faca de seu pescoço. Instintivamente, Sherlock colocou o rifle entre eles, tentando bloquear o movimento da lâmina, mas quando a arma passou diante de seu rosto ele teve uma súbita inspiração e a empurrou para a frente, acertando o olho direito de Gilfillan.
O americano gritou e cambaleou para trás, levando as mãos ao rosto. O sangue jorrava por entre seus dedos. Sherlock esperava que ele caísse, incapacitado, mas o olho intacto encontrou o de Sherlock e o homem gritou novamente, um som de ódio que ecoou pela floresta e fez as aves levantarem voo. Jogando-se para a frente, ele segurou a faca com firmeza, tentando alcançar Sherlock. Ainda com o rifle nas mãos, o garoto bateu na cabeça do americano com o cabo. O impacto foi tão violento que reverberou desde a cabeça do homem, protegida pelo curativo, até os ombros de Sherlock, de um lado a outro. O americano caiu como um saco de milho e ficou parado no chão, inconsciente.
Sherlock observou-o por alguns momentos, em parte esperando que ele se levantasse e tentasse atacá-lo mais uma vez, mas o homem continuou deitado e parado, exceto pelo peito que subia e descia com a respiração difícil. O olho direito era uma massa vermelha e sangrenta, e o sangue que escorria da cabeça manchava o curativo, sob o qual o edema crescia a olhos vistos.
O homem era como uma força sobrenatural, imune à dor e aos ferimentos que normalmente derrubariam uma pessoa comum. Sherlock sentia a respiração queimando no peito enquanto esperava Gilfillan levantar-se. Todos os americanos eram assim? Seria esse o tal espírito desbravador sobre o qual ouvira falar? Parte de Sherlock queria se aproximar e bater várias vezes com o rifle na cabeça do sujeito, porque assim teria certeza de que ele nunca mais se mexeria, mas não tinha certeza se o objetivo era realmente eliminar Gilfillan antes que ele recobrasse a consciência ou se só queria vingança pelo que ele fizera com Amyus Crowe e tentara fazer com ele. Depois de um tempo, abaixou o rifle.
Não era um assassino. Não um assassino a sangue-frio, pelo menos.
Quando teve certeza de que Gilfillan não ia se mover durante algum tempo, ele se afastou, ainda observando o homem, e continuou recuando até ouvir o cavalo de Amyus Crowe resfolegando atrás dele. Então, virou-se.
Amyus estava caído no chão de terra. À luz avermelhada do anoitecer o sangue em sua testa parecia brilhar com uma intensidade quase demoníaca.
— Ele...? — Sherlock começou, mas não tinha coragem de terminar a pergunta.
— Ainda está respirando — Virginia respondeu, sem fôlego. O sotaque se tornara mais forte.
Ela levou a mão ao bolso e tirou um pedaço de tecido – um lenço, Sherlock supôs. Quando a viu abaixar-se para limpar a testa do pai, ele tirou o lenço de sua mão.
— Vou umedecê-lo no rio — disse.
Virginia assentiu com gratidão.
Ele correu até o local onde o americano, agora desmaiado, havia rolado por entre os juncos, abrindo um caminho antes de se levantar e atirar contra Amyus Crowe. Aproximando-se do rio tanto quanto era possível sem correr o risco de cair, Sherlock molhou o lenço, depois voltou para onde estava Crowe. Virginia havia ajeitado os braços e as pernas do pai, de forma que agora ele estava deitado em uma posição mais natural, não retorcido como caíra. Quando se abaixou ao lado de Virginia, Sherlock notou que o peito de Crowe subia e descia, e suas pálpebras tremiam. Era como se uma eternidade houvesse transcorrido desde que ele caíra do cavalo, mas Sherlock sabia que não podiam ser mais do que alguns segundos, menos de um minuto, com certeza. A luta com Gilfillan não havia sido longa, mas fora intensa, e isso a fizera parecer demorada.
Virginia deslizava as mãos pelos braços e pernas do pai.
— Nenhum osso quebrado, pelo que pude perceber — ela disse. — Não sei sobre as costelas, mas vou ficar surpresa se ele não tiver fraturado algumas. E já encontrei vários cortes e hematomas.
— Seu pai teve sorte — Sherlock comentou. — Perto do rio como estamos, o solo é mais úmido e macio. Se ele tivesse caído antes, em um terreno de terra batida, provavelmente estaria morto.
Virginia pegou o lenço e passou-o pela testa do pai. O tecido ficou sujo de sangue, revelando um corte longo e superficial, que voltou a sangrar imediatamente.
— Acho que este é o ferimento da bala — ela disse.
— Mais um golpe de sorte. Alguns centímetros para a esquerda e teria perfurado a têmpora. — Sherlock respirou fundo, tentando conter o tremor das mãos. — Precisamos encontrar um médico.
Virginia balançou a cabeça.
— Temos que levá-lo de volta para casa. Eu mesma posso cuidar dele. Se não há fraturas, meu pai só precisa de repouso. — Ela suspirou. — Acho que ele já enfrentou coisas piores e sobreviveu. — Ela olhou para Sherlock, desviou os olhos e olhou novamente, notando vários edemas, arranhões, cortes e hematomas. — Você está bem?
— Já me machuquei mais jogando rúgbi.
Ela franziu o cenho, e Sherlock balançou a cabeça.
— É um jogo do qual não gosto e que não jogo direito. O que quero dizer é que vou ficar bem.
— Você o pegou? — ela perguntou furiosa.
— Eu o detive, mas acho que seu pai e meu irmão vão querer interrogá-lo, por isso não o machuquei muito. Mas podia ter feito isso.
— Talvez devesse — ela respondeu secamente.
Pensando em ferimentos na cabeça, Sherlock perguntou:
— Será que ele teve uma concussão? A bala acertou a cabeça dele, mas o tombo talvez o tenha machucado também...
Virginia encarou-o. Sua expressão sugeria raiva, mas os olhos contavam outra história. Ela estava desesperada.
— Vamos ter que observá-lo — ela disse. — Vamos ficar atentos a sinais como tontura, vômito, náusea ou confusão.
— Já tive tudo isso — Crowe anunciou com voz fraca, mas clara. — E não foi nada divertido. Mas eu mesmo causei esses sintomas todos, então... Desta vez, não foi minha culpa.
— Pai!
De olhos ainda fechados, ele estendeu um braço e a tocou no ombro com um gesto desajeitado.
— Eu rolei quando bati no chão. Aprendi a técnica com um peão de rodeio em Albuquerque. Com todos os músculos relaxados e rolando como um porco-espinho, eu poderia ter sobrevivido a quedas piores que essa. — Amyus olhou para Sherlock. — Vejo que também descobriu essa técnica. — Ele parou, fechou os olhos e respirou lentamente. — O que aconteceu com a carruagem?
— Eles escaparam — Sherlock respondeu, muito aborrecido. — E levaram Matty.
— E o homem que ficou e atirou em mim?
— Está vivo, mas inconsciente. Acho que podemos levá-lo de volta e interrogá-lo.
— Sim, imagino que sim — Crowe respondeu, sério.
Sherlock pensou por um momento.
— Posso amarrá-lo — disse — e colocá-lo no cavalo. Se estiver bem o bastante para cavalgar, Virginia poderá voltar montando Sandia, e eu vou andando.
— Temos que ser rápidos — Virginia lembrou. Por alguma razão, ela estava vermelha e não olhava para Sherlock. — Voltar andando tomaria tempo demais. Pode ir na garupa do meu cavalo.
— Tem certeza? — Sherlock perguntou.
— De cavalo dado não se olha os dentes — Crowe lembrou rindo. — As ideias são boas, mas como vai amarrar o homem?
Sherlock refletiu por um momento. Não tinham cordas. Talvez pudesse usar as rédeas do cavalo, mas como fariam para conduzi-lo no caminho de volta? Seria possível improvisar amarras com os juncos da margem do rio? Estavam molhados, e levaria muito tempo.
— Com o cinto — ele anunciou finalmente. — Posso usar meu cinto para amarrar as mãos dele atrás das costas.
Crowe assentiu.
— Acho que é uma boa ideia — disse. — Ou pode usar o barbante que tenho no bolso. — Ele olhou para Sherlock. — Existem coisas que um homem deve sempre carregar consigo: faca, fósforos e um rolo de barbante. Há pouca coisa que não se possa fazer com uma combinação dos três.
Sherlock aceitou o barbante de Crowe e voltou ao local onde havia deixado Gilfillan. Estava quase escuro, e por um momento ele não conseguiu localizar o homem na penumbra, mas passado um instante ele o viu caído exatamente no mesmo lugar. Sherlock amarrou as mãos dele, cruzando um pulso sobre o outro, depois foi buscar o cavalo que pastava tranquilamente no capim ao lado da estrada, como se aquele tipo de coisa acontecesse todos os dias. Puxando o animal pela rédea, ele o levou para perto de Gilfillan e se abaixou, tentando descobrir como levantaria o homem do chão e colocaria na sela. No final, ele conseguiu pôr o americano de joelhos, mesmo inconsciente, e se colocou na frente dele, deixando-o cair sobre suas costas. Então levantou-se, usando os joelhos e sentindo os músculos protestarem, com a cabeça inclinada para a frente e o corpo de Gilfillan equilibrado precariamente nos ombros. Por um momento, entrou em pânico, sem saber como o colocaria na montaria, mas Amyus Crowe já conseguia ficar de pé e Virginia se aproximava para ajudá-lo. Unindo forças, os dois puseram Gilfillan na sela do cavalo, que mal pareceu perceber. Para impedir que o homem escorregasse, Sherlock amarrou seus pulsos ao arreio de um lado e os tornozelos ao do outro. Quando terminou, recuou um passo para admirar o trabalho.
— Queria perguntar — Virginia falou ao lado dele — que nome deu ao cavalo?
— Nenhum — respondeu Sherlock.
Ela o encarou com surpresa.
— Por que não?
— Não achei que fosse necessário. Cavalos não sabem que têm nomes.
— Sandia sabe qual é o nome dela.
— Não, ela conhece o som da sua voz. Duvido que entenda o significado de palavras.
— Para um garoto que sabe tanto, você não sabe muita coisa — ela anunciou em tom crítico.
Os quatro formavam um grupo deprimente no trajeto de volta à casa de Amyus Crowe. Ele seguia curvado sobre o cavalo, Virginia montava Sandia com Sherlock às suas costas na garupa enquanto o cavalo dele vinha no fim da fila, com Gilfillan atravessado na sela. A viagem pareceu levar séculos. Sherlock sentia o cansaço pesar sobre os ombros como um cobertor. Os arranhões ardiam, e tudo que ele queria era se jogar na cama e dormir até não conseguir mais.
Era noite fechada quando eles chegaram, e Mycroft estava parado na porta.
— Sherlock! — ele gritou. — Eu estava... — E parou.
Sua voz soava mais aguda que de costume. Era como se lutasse contra uma forte emoção.
— Está tudo bem — Sherlock anunciou, cansado. — Estamos bem. O Sr. Crowe foi baleado, temos um prisioneiro e não conseguimos resgatar Matty, mas pelo menos ainda estamos vivos.
— Eu não tinha como saber o que estava acontecendo — Mycroft queixou-se ao ver o irmão desmontar. — Podia escolher entre várias vias de ação, mas não sabia qual seria melhor.

— Já não devia estar no trem? — perguntou Sherlock.
Mycroft deu de ombros.
— Se for necessário, posso achar um hotel confortável onde passar a noite.
— Seus chefes não vão ficar aborrecidos amanhã, quando você não aparecer para trabalhar?
Mycroft franziu o cenho, como se a ideia de ter um chefe fosse estranha.
— Sim — respondeu depois de uma longa pausa. — Acho que sim. — E sorriu. — Mas como o que está acontecendo aqui pode ter um impacto direto nas relações internacionais, não deixa de pertencer à minha área de atuação. Em último caso, se for realmente necessário voltar a Londres no meio da noite, ainda posso fretar um trem.
Sherlock encarou-o chocado.
— Você pode?
— Bem, nunca precisei, mas acredito que meus Termos de Referência permitam uma ou outra extravagância. Agora me contem tudo.
Enquanto ele e Virginia ajudavam Amyus Crowe a desmontar e os quatro entravam na casa modesta, deixando o americano inconsciente preso à sela do cavalo, Sherlock foi relatando ao irmão tudo o que acontecera naquela noite desde que deixaram o chalé. Virginia acrescentou alguns detalhes que ele esqueceu, e quando Sherlock falava sobre a luta com o americano, sentiu a mão dela em seu braço em um gesto preocupado. Mycroft também estava aflito por pensar em como o irmão havia se aproximado da morte várias vezes.
— Não está clara qual é a melhor atitude a tomar — Mycroft falou depois de um tempo, quando todos se sentaram com suas bebidas. — Até o prisioneiro acordar, não dispomos de mais nenhuma informação que possa ser útil. Tempo e recursos não estão a nosso favor.
— Posso ir acordá-lo — Crowe falou em voz baixa. — E depois trocar uma palavrinha com ele. Uma conversa civilizada.
— Interrogatório violento não é uma opção — Mycroft avisou. — O homem pode ser procurado em pelo menos dois países, mas tem o direito de ser tratado de maneira respeitosa até ser realmente condenado, e mesmo depois da condenação não pode ser tratado com brutalidade por ninguém em posição de autoridade. Como um dos mais antigos e um dos mais jovens países civilizados, a Inglaterra e os Estados Unidos têm a obrigação de dar o exemplo para o resto do mundo. Se agirmos como bárbaros, perderemos o direito de impedir quem quiser agir da mesma maneira, e o mundo vai mergulhar na anarquia.
— Mesmo que a cortesia provoque dano ou morte a alguém que deveríamos proteger? — Crowe indagou.
— Mesmo assim. Devemos manter o padrão de conduta elevado, por maior que seja a tentação de descer aos vales da iniquidade.
— Tenho uma ideia — Sherlock manifestou-se, surpreendendo até a si mesmo, pois, era verdade, algo surgira em sua mente, mas ele ainda não conseguira analisar todas as implicações do tal pensamento.
— Continue — disse Mycroft. — Se isso puder impedir o Sr. Crowe de arrancar as unhas do nosso prisioneiro com uma pinça, eu sou a favor.
— Aquele homem, o americano, ele saltou da carruagem para nos deter quando tudo indicava que a alcançaríamos e a impediríamos de chegar ao porto, por onde pretendiam sair da Inglaterra.
— Correto — Crowe resmungou.
— Pelo que me contou nosso prisioneiro, ele pretendia mandar um telegrama aos outros anunciando seu sucesso ou fracasso.
— Sim — Mycroft o incentivou.
— E se ele não mandou esse telegrama, se os outros ainda esperam por ele no fim da jornada, vão acabar deduzindo que o pegamos — Sherlock apontou. — Vão presumir que o rendemos, que o impedimos de enviar o telegrama e ainda o temos conosco, e nesse caso a melhor opção será matar Matty, porque ele deixará de ser útil como refém.
— Ah, não! — sussurrou Virginia.
— Então, para onde ele teria enviado o telegrama? — Sherlock especulou. — Quer dizer, não acredito que os outros vão se hospedar em um hotel para esperar por ele. Pelo que sabemos, estavam a caminho do porto e embarcariam imediatamente.
Crowe e Mycroft se entreolharam.
— O menino tem razão. — Crowe manifestou-se depois de alguns momentos. — Eles devem ter combinado algum jeito de trocar mensagens. Talvez um local perto do navio: um posto do correio ou algo assim, um ponto onde um telegrama possa ser retirado.
— E tiveram que fazer isso nos poucos segundos antes de ele pular da carruagem — disse Sherlock. — Seria provável que ele não se lembrasse, depois de toda aquela tensão...
— A menos que um dos comparsas anotasse o endereço... — Mycroft completou o raciocínio. — Sherlock, sua cabeça é bem razoável para um pescoço tão fino. Temos que revistar os bolsos do homem.
Crowe levantou-se da cadeira.
— Eu cuido disso — anunciou. Ao notar que Mycroft o olhava com ar de censura, acrescentou: — Não se preocupe, não vou tentar acordá-lo se estiver inconsciente, e se já estiver acordado farei apenas uma pergunta muito educada antes de examinar seus bolsos. Suponho que isso seja aceitável, considerando que um interrogatório violento não é...
— Vamos abrir uma exceção — Mycroft respondeu, calmo. — Neste caso.
Amyus saiu à procura de Gilfillan. Sherlock notou que Virginia acompanhou a saída do pai com uma expressão preocupada. Queria conversar com ela sobre isso, mas Mycroft exigia sua atenção.
— Sherlock... — Ele o chamou. — Sherlock, receio estar falhando em meu dever de cuidar de você e protegê-lo. Sinto muito.
O garoto o encarou atento, tentando decidir se o irmão falava sério.
— O que quer dizer?
— Nosso pai o deixou aos meus cuidados. Ele me pediu para garantir que sua educação não fosse interrompida, e que você ficasse feliz e em segurança. Desde que papai partiu para a Índia com seu regimento, eu o abandonei aos cuidados de parentes que você nem conhecia; depois não fiz nada enquanto você foi envolvido, primeiro, nos planos de um francês maluco com delírios de grandeza e, agora, em uma bizarra tentativa de mandar de volta para a América o homem que matou um ex-presidente. Durante os últimos meses, você passou mais tempo vendo a morte de frente do que muitos homens ao longo de toda a vida. Foi agredido, raptado, surrado, drogado, perseguido, alvejado, queimado e quase esfaqueado. Como se não bastasse, teve que sobreviver sem supervisão na perigosa metrópole de Londres, em um país desconhecido e à noite. Se eu soubesse tudo que aconteceria com você eu...
Mycroft parou, aparentemente dominado pela emoção, e quando ele virou a cabeça, Sherlock teve a impressão de ver em seus olhos o brilho das lágrimas. Comovido, tocou o ombro do irmão mais velho.
— Mycroft... Você sempre foi a coisa mais estável da minha vida. Eu sempre pedi seus conselhos, e você sempre foi muito generoso com seu tempo. Nunca fez eu me sentir como se o estivesse incomodando, mesmo quando tinha coisas mais importantes a fazer.
Mycroft tentou dizer algo, mas Sherlock continuou:
— Nunca fomos aquele tipo de irmãos que sobem juntos nas árvores do jardim de casa. Você nunca teve essa energia e eu nunca vi propósito nisso. Mas não tem importância. Foi a você que sempre fui pedir orientação, e nunca me desapontei. Duvido que isso mude algum dia. Você é o que eu quero ser quando crescer: bem-sucedido, importante e seguro. Você nunca me abandonou, nunca falhou comigo, nem nunca falhará.
Mycroft olhou para ele e sorriu.
— Quando você crescer — disse —, suspeito que abrirá um caminho no mundo que ninguém jamais abriu. Posso antever um tempo quando eu irei procurá-lo para pedir conselhos e orientação. Mas, apesar de tudo o que disse, fiquei parado enquanto você corria perigo.
Sherlock balançou a cabeça.
— Acho que sempre há perigo em todos os lugares. Você pode ignorá-lo ou enrolar-se em cobertores para não se machucar ou pode enfrentá-lo e desafiá-lo. Se escolher a primeira alternativa, o perigo o pegará de surpresa. Se escolher a segunda, vai ficar o tempo todo encolhido no escuro, deixando a vida passar. A única atitude lógica é enfrentar. Quanto mais você se acostuma ao perigo, melhor lida com ele.
Mycroft sorriu e por um momento Sherlock conseguiu enxergar, entre as camadas de gordura que agora se acumulavam no corpo do irmão, o menino que um dia ele fora.
— Eu obtenho informações e acumulo conhecimento — Mycroft disse. — Mas você... você desenvolveu sabedoria. Chegará o dia em que o mundo todo saberá seu nome.
— Além disso — Sherlock respondeu, tentando aliviar um pouco a tensão —, tenho me divertido muito recentemente. Se alguém tivesse me falado que no final das férias de verão eu saberia cavalgar, lutar boxe e duelar e que teria velejado para atravessar o Canal, eu teria rido. Aposto que a maioria dos garotos da escola não fez mais do que empinar pipa e comer em piqueniques improvisados no jardim. Uma parte de mim ainda acredita que vou acordar e descobrir que tudo foi um sonho.
Mycroft passou os olhos pela sala e parou onde Virginia estava, atenta à porta, esperando o retorno do pai.
— E suponho que existam outras compensações — ele disse.
— Como assim? — Sherlock indagou, repentinamente desconfortável.
— Estou me referindo à alegria de uma companhia. — De repente ele assumiu uma expressão pensativa. — Sou um homem... solitário — ele disse. — Não tenho paciência para pessoas tolas e prefiro passar o tempo com um livro e uma garrafa de conhaque. Mas não me tome como exemplo. Se uma amizade ou, se me atrevo a dizer, um afeto surgir em sua vida, abrace essa experiência com entusiasmo.
Sherlock sentiu um repentino desânimo, porque as palavras de Mycroft fizeram com que se lembrasse de Matthew Arnatt, que continuava em poder dos raptores.
— Não me importo de enfrentar o perigo — ele disse com ar sério. — Mas não quero pôr em risco meus amigos.
— Seus amigos fazem escolhas, como você faz as suas — Mycroft ressaltou. — Os mesmos argumentos valem para todos. Eles não são marionetes e você não pode mantê-los seguros, da mesma forma que eu aparentemente não consigo garantir sua segurança. Se essas pessoas quiserem estar com você, estarão. Elas aceitam o risco. — Ele levantou uma sobrancelha. — O jovem Matthew já deve ter percebido que conviver com você não é seguro, assim como também não é tedioso.
— Vamos trazê-lo de volta, não vamos?
— Não permito que meu coração assine um cheque que a vida pode me impedir de pagar — Mycroft respondeu em tom ameno. — Não posso prever o futuro com absoluta certeza, mas posso usar meu conhecimento e minha experiência para tentar adivinhá-lo de maneira mais ampla. Acho que existe grande probabilidade de Matty voltar para nós ileso, mas o que vai acontecer enquanto isso é algo que não temos como saber.
A porta se abriu e Amyus Crowe entrou no chalé segurando um pedaço de papel amassado.
— Encontrei isto aqui no bolso do prisioneiro — ele disse. — Parece algum tipo de código. Não sei o que significa.
— Ele estava consciente? — Mycroft perguntou.
— Ou está inconsciente ou é um ótimo ator. Mas dei uma olhada rápida em suas roupas. O corte e as etiquetas são bem americanos...
— Vamos ver esse papel. Talvez nos dê uma ideia de para onde ele enviaria o telegrama.
Crowe alisou o bilhete sobre a escrivaninha. Mycroft e Sherlock se aproximaram. Virginia manteve-se afastada, sorridente agora que o pai retornara.
O papel tinha números e letras rabiscados com uma caligrafia que só poderia ter sido feita dentro de uma carruagem em alta velocidade. Sherlock identificou dez grupos, cada um com cinco caracteres:

csne0 oopa9 ruoth rtre4 ehta5
iaost omste spser dtgrc eorna

— O que isso significa? — perguntou Sherlock.
— Parece ser um simples código de substituição — Crowe respondeu. — Foi muito usado durante a Guerra entre os Estados para impedir que as mensagens caíssem em mãos erradas. A ideia é simples: em vez de “a” você escreve outra coisa, como “z”, e em vez de “b” você pode escrever “y”. Desde que você e o destinatário da mensagem saibam que letras são usadas na substituição, ou qual é a “chave” do código, o texto pode ser codificado e decodificado com segurança.
— Mas nós não sabemos qual é a chave, sabemos? — Sherlock perguntou.
— Isso mesmo. Se tivéssemos uma mensagem mais longa, poderíamos decifrá-la por análise de frequência, mas não é o caso.
— Análise de frequência?
— Este não é o melhor momento para uma aula — Mycroft suspirou.
Mas Crowe decidiu dar a explicação mesmo assim.
— Há muitos anos um homem de grande inteligência descobriu que nas mensagens escritas em inglês certas letras aparecem com mais frequência que outras. O “e” é o mais utilizado. O “t” vem em segundo lugar, depois “a”, “o” e “n”. “Q” e “z” são as letras menos usadas, o que não é de surpreender. Se você tem um bloco de texto grande no qual certas letras foram substituídas por outras, o segredo é procurar a mais comum. Provavelmente será o “e”. A segunda mais frequente será o “t”. É um processo de eliminação. Com um pouco de sorte, é possível decodificar um trecho da mensagem suficiente para deduzir o restante. — Ele olhou para o pedaço de papel sobre a mesa. — Mas não sei se o método vale para este aqui. Não há letras bastantes para uma análise de frequência, e estou me perguntando se eles tiveram tempo para combinar as substituições e codificar uma mensagem de acordo. Imagino que a solução seja bem mais simples.
— Simples como? — Sherlock se interessou.
— Dez grupos de cinco letras cada. Isso me faz pensar em uma grade ou uma tabela.
Crowe reescreveu rapidamente as letras, mas criando um arranjo mais organizado:

csne0
oopa9
ruoth
rtre4
ehta5
iaost
omste
spser
dtgrc
eorna

— Muito bem, há duas maneiras de montar uma tabela do tipo cinco por dez — ele resmungou. — Assim ou ao contrário.
Rapidamente ele criou outra grade, agora com mais colunas e menos linhas:

c o r r e i o s d e
s o u t h a m p t o
n p o r t o s s g r
e a t e a s t e r n
0 9 h 4 5 t e r c a

— “Correios de Southampton” — Sherlock leu, quase sem respirar. — “Porto SS Great Eastern, 09h45, terça.” Esses devem ser o local para onde a mensagem seria enviada e o local e o horário de onde o navio vai partir.
— Não é um código muito elaborado — Crowe resmungou —, mas deve ter sido o melhor que eles conseguiram fazer dentro de uma carruagem em alta velocidade. — Ele olhou para Mycroft. — Acho que nós dois sabemos o que vem em seguida, não?
Mycroft assentiu.
— Vou tomar as primeiras providências.
Sherlock olhou para um e para o outro.
— O que vem em seguida? — quis saber.
Os dois homens se entreolharam. Foi Mycroft quem respondeu:
— Eles reservaram lugares em um navio que vai partir de Southampton amanhã, às 9h45. Enquanto estamos resolvendo as coisas aqui, eles estão a caminho de Southampton. Até eu conseguir acionar a polícia local, o navio já terá zarpado.
— Então eles conseguiram fugir — Sherlock resumiu.
— Não necessariamente — Mycroft discordou. — Há navios partindo para a América todos os dias. A maioria até aceita levar passageiros, mas sua principal função é transportar cartas e carga. É com isso que se ganha mais dinheiro. Se conseguirmos reservar passagens em uma embarcação com partida programada para amanhã ou depois, para o mesmo destino, chegaremos lá logo atrás deles. Talvez até antes. Podemos encontrar um navio mais leve ou mais potente. Eles não escolheram a embarcação em que viajariam pensando em uma possível perseguição, mas sim em deixar o país o mais rápido possível.
— Nós? — Sherlock perguntou.
— O Sr. Crowe vai ter que ir — respondeu Mycroft —, porque tem jurisdição em seu país natal. Ele pode pedir ajuda à polícia. E é óbvio que vai levar a filha, porque não a deixaria aqui sozinha. Eu, por outro lado, vou ficar, porque preciso garantir que o governo britânico seja informado de todos os eventos e preciso fornecer ao Sr. Crowe todo o apoio diplomático que possa ser necessário aqui.
— Ele não pode mandar um telegrama para a Pinkerton, para que os agentes interceptem o Great Eastern na chegada ao porto?
Mycroft balançou a cabeça e suas proeminentes bochechas balançaram com o movimento.
— Está esquecendo que não temos descrições claras desses homens; não o bastante para termos certeza de que serão capturados. Com exceção de John Wilkes Booth, nenhum deles pode ser identificado por outra pessoa além de você.
— Eu? — Sherlock perguntou, quase sem ar.

— Sim, você foi o único que viu os outros homens. Não posso exigir que faça isso, Sherlock. Em sã consciência, não posso nem pedir isso a você. Tudo que posso fazer é lembrar que o Sr. Crowe não poderá prender os homens se não conseguir identificá-los.
— Está dizendo que quer que eu vá para a América? — Sherlock sussurrou.
— Posso dizer a tio Sherrinford e tia Anna que será uma viagem pedagógica — Mycroft sugeriu. — Uma espécie de estágio ou intercâmbio que vai durar um mês, aproximadamente. Eles se oporão, é claro, mas creio que consigo convencê-los.
— Na verdade — Sherlock respondeu, pensando na Sra. Eglantine e no estranho poder que ela parecia exercer na casa de seus tios —, acredito que vai ser mais fácil do que imagina convencê-los a me deixar passar um tempo longe.

2 comentários:

  1. Queria saber logo a relação entre essa Sra. Eglantine, os tios de Sherlock e a confusão entre ela e o Mycroft

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  2. Eu também queria saber qual é a da Eglantine

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Boa leitura :)