16 de julho de 2017

Capítulo seis

SHERLOCK QUASE PERDEU A HORA do café, na manhã seguinte. As aventuras do dia anterior o deixaram cansado e dolorido, e sua cabeça parecia latejar no ritmo das batidas de seu coração. Sentia uma opressão no peito e um ardor na garganta que provavelmente eram consequência da fumaça que aspirara. Ele tinha perdido o jantar, mas sua tia providenciara para que uma bandeja com frios e queijo fosse deixada para ele. Deve ter sido a tia – a Sra. Eglantine certamente não se teria dado o trabalho. Passara a noite inquieto, oscilando entre o sono e a vigília, flutuando por entre sonhos e lembranças, até não poder mais distinguir uns dos outros. Só mergulhou num sono profundo e sem sonhos quando o sol já surgia no céu, e por isso, quando o gongo soou anunciando o café da manhã, Sherlock despertou sobressaltado e só teve dez minutos para preparar-se para o dia.
Felizmente, uma das criadas deixara em seu quarto uma vasilha com água, sem incomodá-lo. Ele lavou o rosto, escovou os dentes com um pó esbranquiçado e essência de canela que salpicou sobre a escova de cabo de osso e cerdas de pelo de javali, e vestiu-se com pressa. Logo teria de providenciar alguém que lavasse suas roupas – estava começando a ficar sem peças limpas para usar.
Olhou as horas no relógio de parede do corredor enquanto descia a escada correndo. Sete horas.
Sherlock entrou às pressas na sala de jantar, ignorando o olhar sombrio da Sra. Eglantine, e serviu-se do kedgeree oferecido na longa mesa repleta de pratos e vasilhas que ocupava um dos lados da sala. Era uma mistura saborosa de arroz, ovos e hadoque defumado, um prato que nunca tinha provado, até chegar à mansão Holmes, mas que começava a apreciar. Ele fez o possível para evitar contato visual com todos, enfiando a comida na boca com tanta rapidez, que mal conseguia sentir o gosto do alimento. Estava faminto: os eventos do dia anterior tinham consumido muito de sua energia, que ele precisava repor. Tio Sherrinford lia um tratado religioso enquanto comia, e tia Anna falava sozinha, como sempre. Sherlock tinha a impressão de que cada ideia que passava pela cabeça da tia era pronunciada no mesmo instante, independentemente de sua relevância.
— Sherlock — disse seu tio, dirigindo o olhar para o menino. — Soube que ontem você esteve envolvido em um incidente infeliz. — Havia traços de mingau em sua longa barba.
Por um momento, Sherlock ficou petrificado, perguntando-se como o tio sabia sobre o galpão e o incêndio, mas logo se deu conta de que Sherrinford falava sobre o corpo do homem que ele e Amyus Crowe encontraram no bosque.
— Sim, tio — o menino confirmou.
— Homem, que é nascido de uma mulher, tem pouco tempo de vida — Sherrinford entoou — e é cheio de amargura. Ele nasce e é ceifado, como uma flor; vaga como uma sombra, e nunca permanece num só lugar. — Olhando para Sherlock de maneira penetrante, continuou: — No meio da vida estamos em morte. A quem podemos pedir ajuda além de vós, ó Senhor, que por nossos pecados estais descontente?
Sem saber como responder, Sherlock apenas assentiu, como se entendesse completamente o que seu tio estava falando.
— Você teve uma vida de proteção com meu irmão e a esposa dele — continuou Sherrinford. — Os fatos da morte podem ter se esquivado de você, mas ela é parte natural do plano de Deus. Não deixe que isso o preocupe. Se precisar conversar, a porta do meu gabinete estará sempre aberta.
Sherlock sentiu-se emocionado ao perceber que, à sua maneira, o tio tentava ajudá-lo.
— Obrigado — disse. — O homem que encontramos trabalhava aqui, em sua propriedade?
— Creio que se tratava de um jardineiro — Sherrinford respondeu. — Não posso dizer que o conhecia, mas ele e a família serão lembrados em nossas preces. Seus dependentes serão amparados.
— Ele era novo — disse tia Anna. — Acabara de juntar-se a nós, acho. Antes, trabalhava em Farnham, fazendo roupas em uma fábrica que pertencia a um conde ou visconde, ou alguém da aristocracia. Suas referências eram excelentes...
— Como ele morreu? — Sherlock perguntou, mas sua tia continuou falando sozinha em voz baixa.
— Esse assunto — a Sra. Eglantine disse de seu posto ao lado da mesa de comida — não é adequado para ser discutido durante o café da manhã.
Sherlock olhou para ela, surpreso tanto com o atrevimento de sua declaração quanto com o fato de seus tios não a censurarem. Para uma criada, ela era muito ousada. Lembrou-se do aviso de Mycroft – ela não é amiga da família Holmes – e ficou imaginando se a Sra. Eglantine e sua presença naquela casa reservariam mais segredos do que ele pensara.
— O menino é curioso — disse Sherrinford, dirigindo a Sherlock um olhar profundo. — Eu incentivo a curiosidade. Ela e nossa alma imortal são o que nos distingue dos animais. — Voltando-se para Sherlock, continuou: — O corpo foi entregue ao médico da região, que enviou um telegrama ao legista de North Hampshire. Eles vão dizer o que causou a morte, mas pelo que entendi o rosto e as mãos do homem estavam cobertos de bolhas características da varíola ou da peste bubônica. — Ele balançou a cabeça e franziu a testa. — A última coisa de que precisamos por aqui é do surto de algum tipo de febre. O médico vai sofrer uma pressão terrível, se mais alguém adoecer. Parece que alguns comerciantes do mercado já começaram a levar suas mercadorias e barracas para outros lugares. Pânico pode se espalhar mais depressa que doenças. Farnham existe por causa do comércio... carneiros, cereais, lã... Se esse comércio for transferido para outra cidade, a prosperidade de Farnham irá minguar até desaparecer.
Sherlock olhou para seu prato. Ele tinha comido kedgeree suficiente para mantê-lo alimentado por um bom tempo, e queria voltar a Farnham para ver se Matty estava por lá.
— Pode me dar licença, senhor? — ele perguntou.
O tio assentiu, dizendo:
— Amyus Crowe pediu-me que lhe dissesse que estará de volta na hora do almoço para retomar seus estudos. Certifique-se de estar em casa.
Sua tia parecia ter dado algum tipo de resposta em meio a seu constante monólogo – era difícil dizer. Sherlock levantou-se e começou a andar em direção à porta, mas um pensamento repentino o fez parar.
— Tia Anna? — ele chamou. A mulher o encarou. — A senhora disse que o homem que morreu tinha trabalhado para um conde ou visconde?
— Sim, querido. Na verdade, eu me lembro...
— Pode ter sido um barão?
Ela parou por um momento, pensativa.
— Creio que você tem razão — respondeu. — Era um barão. Guardei a carta em algum lugar. Era só...
— A senhora lembra o nome dele?
— Maupertuis — disse tia Anna. — O nome era barão Maupertuis. Um nome muito engraçado, achei. Francês, obviamente. Ou belga, talvez. Ele não escreveu as referências de próprio punho, é claro; foram escritas por...
— Obrigado — disse Sherlock, deixando a sala enquanto a tia ainda falava.
Ele sentia arrepios enquanto passava pelo corredor. Não seria coincidência, certo? Dois homens mortos, aparentemente da mesma maneira, um deles que era associado a uma gangue de bandidos que trabalhava em um galpão em Farnham cujo dono era um misterioso “barão” e o outro que deixara recentemente de trabalhar para um “barão Maupertuis”. Não poderia haver dois barões ligados a toda essa história, poderia? O dono do galpão, o homem estranho que Sherlock e Matty viram saindo na carruagem, devia ser o barão Maupertuis. E se o homem cujo cadáver Sherlock e Amyus Crowe encontraram no bosque tivesse trabalhado antes para um barão Maupertuis em uma fábrica de roupas, será que essa fábrica funcionava no galpão em Farnham? E isso significaria que as coisas que o falecido Wint supostamente roubara do galpão – as coisas das quais Clem e Denny tinham falado – seriam roupas?
Sherlock sentiu como se várias peças do quebra-cabeça que estivera flutuando em sua mente de repente se conectassem. A imagem ainda não era clara, ainda faltavam algumas peças, mas, estranhamente, tudo começava a fazer sentido.
Com base nas informações que tinha agora – sobre a fábrica, as roupas, o barão e os homens mortos – Sherlock podia deduzir algumas coisas. Não era exatamente adivinhação, mas ele podia formular algumas teorias bastante prováveis. Por exemplo: dois homens ligados a uma fábrica de roupas tinham morrido, aparentemente de varíola ou peste bubônica. Isso significava que suas roupas estavam de alguma forma contaminadas? Fundamentado no que lera nos jornais do pai, Sherlock tinha a impressão de que a maioria das roupas era fabricada nas cidades industriais da Escócia, da Irlanda e do norte da Inglaterra, mas sabia que algumas eram importadas: da China, se fosse seda, e talvez da Índia, no caso de musselina ou algodão. Talvez, vindo de um país qualquer, tivesse chegado a um porto inglês um carregamento contaminado pela doença ou infestado de insetos capazes de transmiti-la, e os operários da fábrica tivessem sido infectados. Era uma explicação possível, e Sherlock sentiu uma ansiedade, uma urgência de contá-la a alguém. Sua primeira ideia foi contar ao tio, mas ele desistiu em seguida. Sherrinford Holmes podia ser um adulto, mas não era muito prático, e, provavelmente, logo descartaria a teoria de Sherlock. Sentiu um desânimo passageiro. Quem mais iria escutá-lo?
E então se lembrou de Mycroft. Sherlock poderia escrever tudo em uma carta e enviá-la ao irmão. Mycroft trabalhava para o Governo britânico. Saberia o que fazer.
O nó de preocupação afrouxou um pouco em seu peito quando pensou no confiável Mycroft, mas em seguida Sherlock tentou imaginar o que, exatamente, Mycroft faria. Abandonaria o trabalho e viria correndo a Farnham para comandar uma investigação? Mandaria o Exército? Provavelmente se limitaria a enviar um telegrama para o tio Sherrinford, o que levou Sherlock de volta à estaca zero.
Ele saiu da casa para a luz da manhã, parando um instante para apreciar o ar. Sentia cheiro de madeira queimada, de feno fresco, e o aroma sutil de bolor da cervejaria em Farnham. O sol aparecia por cima das árvores, iluminando as folhas e contornando-as com um halo dourado, projetando pelo gramado e na direção dele longas sombras que lembravam dedos estendidos.
Havia outra sombra ali; essa se movia. Ele a seguiu pelo gramado até o muro que separava o terreno da estrada. Ali, do lado de fora do muro, havia alguém montado em um cavalo. Parecia observar Sherlock. Quando o garoto ergueu a mão para proteger os olhos do sol, o cavaleiro esporeou o cavalo, que partiu trotando pela estrada e desapareceu além de uma inclinação do terreno.
Sherlock caminhou até o portão principal. Cavaleiro e montaria tinham sumido, mas, se tivesse sorte, poderia encontrar pegadas do cavalo, ou algum objeto que o cavaleiro tivesse deixado cair, algo que lhe permitisse identificá-los.
Não havia pegadas nem itens caídos, mas Sherlock encontrou Matty Arnatt sentado perto do portão. Ele tinha a seu lado duas bicicletas.
— Onde você as conseguiu? — perguntou Sherlock.
— Encontrei. Achei que você poderia querer dar uma volta. É mais fácil que andar, e podemos ir a mais lugares.
Sherlock o encarou por um momento.
— Por quê?
Matty deu de ombros.
— Não tenho mais nada que fazer. — Ele parou e desviou o olhar. — Pensei em ir embora, seguir com o barco pelo canal, mas isso seria apenas começar tudo outra vez em uma cidade nova... descobrir onde conseguir comida e outras coisas. Pelo menos aqui eu conheço algumas pessoas. Conheço você.
— Certo. Um pouco de exercício seria bom. Meus músculos estão enrijecidos, depois de ontem.
— O que aconteceu ontem?
— Eu conto no caminho. — Sherlock olhou para a estrada que saía do portão. — Viu alguém passar por aqui a cavalo e parar por um instante?
— Sim. Passou por mim e parou por ali. — Ele indicou com a cabeça o local onde Sherlock vira o cavaleiro. — Parecia estar à procura de alguma coisa, mas logo foi embora.
— Você o reconheceu?
— Não tava prestando muita atenção. Isso é importante?
Sherlock balançou a cabeça.
— Provavelmente não.
Eles partiram juntos pela estrada rumo a Farnham, na direção oposta à tomada pelo cavaleiro. Sherlock não pedalava uma bicicleta havia algum tempo, e vacilou bastante enquanto seguia Matty, mas precisou de apenas alguns minutos para recuperar a prática e alcançá-lo. Enquanto percorriam, lado a lado, estradas sombreadas por arcos de árvores e passavam por campos cobertos de flores amarelas, Sherlock contou a Matty o que acontecera no dia anterior: o homem que ele seguira desde a casa da qual Matty vira brotar a estranha nuvem; o galpão; a carroça cheia de caixas e o incêndio. Matty fazia muitas perguntas, e Sherlock precisava repetir trechos da história, distraindo-se por temas tangenciais ao explicar outras coisas e demorando a chegar a alguma conclusão. Contar histórias não era uma de suas habilidades naturais, e por um momento ele desejou ter alguém que pudesse organizar os fatos de uma forma que fizesse sentido.
— Você teve sorte de escapar com vida — Matty comentou quando Sherlock terminou o relato. — Eu trabalhei numa padaria há alguns meses. Pegou fogo. Eu tive sorte de sair vivo.
— O que aconteceu? — Sherlock perguntou.
Matty balançou a cabeça.
— O padeiro, ele era um idiota. Riscou um fósforo para acender o cachimbo enquanto eu tava abrindo os sacos de farinha.
— E qual a relação disso com o incêndio?
Matty encarou-o, perplexo.
— Achei que todo o mundo soubesse que farinha pairando no ar é como explosivo. Se um grão de farinha pega fogo, a chama espalha-se em um segundo, como uma fagulha saltando de um grão ao outro. — Ele balançou a cabeça. — A padaria inteira explodiu em pedaços. Eu tive sorte: tava atrás de uma mesa, na hora. Ainda assim, levou um mês até meu cabelo crescer direito. — Ele olhou para Sherlock. — Enfim, o que você vai fazer agora?
— Deveríamos contar ao chefe de polícia — Sherlock disse. As palavras soavam como erradas, mesmo que saídas de sua boca. Dois cadáveres, uma estranha nuvem de morte, um misterioso pó amarelo e um grupo de bandidos ateando fogo a um galpão – isso mais parecia uma fantasia de criança. Mesmo que metade da história pudesse ser verificada por fatos – dois homens tinham morrido, e os restos escuros e fumegantes do galpão estariam à vista de todos por algum tempo – o restante era como uma confusão de suposições arrojadas e conjecturas fantásticas misturadas para tentar cobrir as lacunas.
Ao olhar para o rosto de Matty, Sherlock percebeu que o garoto pensava exatamente como ele. Contorceu a boca num gesto de frustração. Não sabia de ninguém na região que pudesse ajudar, e as pessoas que ele conhecia e que poderiam ser úteis não estavam por lá. Era um paradoxo.
E então ele se lembrou da figura imponente de Amyus Crowe, e uma onda de alívio o invadiu, banindo a nuvem de incerteza que pairava sobre ele como água fria que removesse lama e poeira de uma pedra. Crowe parecia capaz de conversar com jovens como se eles fossem adultos, e sua mente trabalhava de maneira lógica: para chegar a conclusões, usava as evidências como degraus, em vez de saltar diretamente para o fim do caminho. Era a única pessoa que poderia de fato acreditar neles.
— Vamos contar para Amyus Crowe — Sherlock disse.
Matty parecia inseguro.
— O grandalhão de voz estranha e cabelo branco? Tem certeza?
Sherlock assentiu, decidido.
— Tenho. — Mas o desânimo retornou em seguida. — O problema é que não sei onde ele mora. Vamos ter de esperar até que ele apareça na casa de meu tio. Ou perguntamos ao tio Sherrinford onde ele está.
Matty balançou a cabeça.
— Ele alugou uma casa na periferia da cidade — disse. — Era o chalé de um guarda-caça. Podemos chegar lá em meia hora, provavelmente. — Ao ver a expressão de surpresa de Sherlock, acrescentou: — Que foi? Sei onde quase todo o mundo mora. É o tipo de informação útil para eu saber onde conseguir comida a qualquer hora do dia. Tenho de conhecer como funciona um lugar como esta cidade... onde as pessoas vivem, onde trabalham, onde fica o mercado, onde o cereal é estocado, onde o chefe de polícia costuma passar a manhã, a tarde e a noite e que pomares são guardados ou desprotegidos. É uma questão de sobrevivência.
Observação, Sherlock pensou, lembrando o que Amyus Crowe lhe dissera. No final, tudo se resumia a observação. Se há fatos suficientes, é possível esclarecer quase qualquer coisa.
E esse era o problema com os dois cadáveres e a nuvem da morte: simplesmente não havia fatos suficientes.
Os dois pedalaram juntos pela cidade, evitando os pontos mais centrais, nos quais havia mais movimentação de gente. A jornada foi bastante rápida, mas a mente de Sherlock ainda dava voltas com a coleção de fatos, suposições e hipóteses quando pararam diante do chalé de paredes de pedra em que Amyus aparentemente vivia.
Um movimento em um lado da casa chamou a atenção de Sherlock. Ele virou-se naquela direção e viu um garanhão que pastava. Um cavalo preto com uma mancha marrom no pescoço.
O mesmo animal que já vira duas vezes, em ambas as ocasiões, montado por um sujeito misterioso, que o observava.
Um arrepio percorreu seus braços e seu peito, eriçando os pelos. O que estava acontecendo?
Matty esperou no portão enquanto Sherlock atravessava o jardim que havia na frente da casa. Sherlock olhou para trás, intrigado. Matty estava com uma expressão apreensiva no rosto.
— Vou esperar aqui — ele disse.
— Qual é o problema?
— Não conheço esse cara. Ele pode não gostar de mim.
— Direi a ele que está tudo bem. Que você é confiável. Direi que você é meu amigo.
Quando a palavra “amigo” saiu de seus lábios, Sherlock foi invadido por uma sensação de surpresa. Ele achava que Matty era um amigo, mas a ideia o confundia. Nunca tivera amigos – não na escola, com certeza, nem onde morava com sua família, o lugar que considerava seu lar. As crianças de lá costumavam evitar a casa, que pertencia, na opinião deles, a pessoas de posição social superior, à “nobreza com terras”, e Sherlock passara a maior parte do tempo sozinho. Nem mesmo Mycroft fora mais que uma presença reconfortante a ocupar a biblioteca do pai, estudando a vasta coleção de livros que a família amealhara ao longo de muitas gerações. Às vezes Sherlock deixava o irmão mais velho na biblioteca depois do café da manhã e o encontrava ainda ali à hora do jantar, na mesma posição, sendo a única mudança visível o fato de que a pilha de livros não lidos diminuíra e a de livros lidos crescera.
— Mesmo assim — disse Matty —, vou ficar aqui fora.
Algo ocorreu a Sherlock.
— Fora — ele repetiu. — Você gosta de ficar em espaços abertos, não é? Não o vi em um local fechado desde que o conheci.
A expressão de Matty ficou ainda mais fechada, e ele desviou o olhar, evitando encarar Sherlock.
— Não gosto de paredes — ele resmungou. — Não gosto de ter apenas uma porta por onde escapar quando não sei quem está do outro lado.
Sherlock assentiu.
— Entendo — disse com suavidade. — Não sei quanto tempo vou demorar. Talvez o veja quando sair. — Ele virou-se de novo para a porta. — Presumindo que haja de fato alguém em casa. — E olhando de relance para o garanhão preto, que continuava a mastigar montes de grama, bateu com firmeza na porta.
Quando Sherlock olhou para trás, Matty tinha desaparecido com sua bicicleta.
A porta foi aberta pouco depois. Sherlock olhava para cima, esperando ver Amyus Crowe à sua frente, e por um momento ficou confuso com o espaço vazio. Baixando os olhos, sentiu o coração perder o ritmo ao deparar com o rosto de uma garota da mesma estatura que ele. Suas roupas eram escuras, e seu rosto parecia flutuar no ar contra a penumbra do interior.
— Estou... estou procurando pelo Sr. Crowe — ele disse, sentindo-se corar ao ouvir a voz hesitante. Queria muito poder soar tão confiante e desinteressado quanto Mycroft soava, aparentemente sem fazer esforço.
— Meu pai não está — a garota respondeu. Sua voz tinha o mesmo sotaque de Crowe (americano, talvez?), o que deixava as palavras diferentes. O que quer que fosse, isso lhe dava um aspecto exótico. — Posso dar o recado de que você o procurou?
Sherlock descobriu que não conseguia desviar os olhos daquele rosto. A garota devia ser da mesma idade que ele. Tinha cabelos longos e encaracolados, de um tom dourado um pouco ruivo, que pareciam uma catarata de cobre que caísse sobre rochas e rebatesse para cima. Seus olhos eram de uma tonalidade violeta que Sherlock só vira antes em flores silvestres, e a pele era amorenada e sardenta, como se ela tivesse passado muito tempo ao sol.
— Meu nome é Sherlock. Sherlock Holmes.
— Você é a criança que ele está educando.
— Não sou criança. Tenho a mesma idade que você — ele protestou com toda a firmeza que conseguiu impor à voz.
A garota saiu para a luz do sol, e Sherlock viu que ela vestia calça marrom de montaria, mais apropriada a um garoto que a uma garota, e camisa de linho que enfatizava a forma do tórax.
— Direi a meu pai que esteve aqui — ela disse, como se Sherlock nem tivesse falado. — Creio que ele tenha ido à casa de seu tio procurar por você. Ele esperava encontrá-lo hoje.
— Eu me distraí — Sherlock ouviu-se explicando. Um pensamento ocorreu-lhe, sugerido pelo traje de montaria da garota e pelo cavalo no cercado próximo. — Você esteve me observando! — ele disse sem pensar, sentindo uma súbita onda de constrangimento e vulnerabilidade.
— Não seja pretensioso — ela respondeu. — Eu o vi umas duas vezes quando estava cavalgando, mais nada.
— Para onde ia? Depois da mansão não há nada além de campo aberto.
— Então era para lá que eu ia. — Ela ergueu uma sobrancelha. — Sabe cavalgar?
Sherlock balançou a cabeça.
— Deveria aprender. É divertido.
Lembrando a silhueta que vira de longe, ele disse:
— Você cavalga como um homem.
— Que quer dizer?
— Toda vez que vejo mulheres cavalgando, elas sentam-se de lado sobre a sela, com as duas pernas colocadas para o mesmo lado do animal. Usam uma sela especial para isso. Você monta como um homem, com uma perna de cada lado do animal.
— Foi assim que me ensinaram. — Ela parecia zangada. — As pessoas aqui riem de mim por eu cavalgar desse jeito, mas, se eu cavalgasse como elas querem, cairia se escolhesse ir mais rápido que um trote. Este país é estranho. Não é como a minha terra. — Ela passou por ele, deixando a porta fechar-se atrás de si, e caminhou na direção do cavalo. Sherlock a observava enquanto ela se afastava.
— Como é seu nome? — ele perguntou.
— Por que quer saber?
— Para não ter de pensar em você como “a filha de Amyus Crowe”.
Ela parou e falou sem se virar:
— Virginia. É um lugar na América. Um estado da Costa Leste, perto de Washington D.C.
— Já ouvi falar. Fica perto de Albuquerque?
Ela virou-se, e a expressão em seu rosto mesclava desdém e diversão.
— Não mesmo! Milhares de quilômetros distante. Virginia é um lugar de florestas e montanhas, e Albuquerque fica no meio de um deserto. Mas lá também tem montanhas.
— Mas você veio de Albuquerque.
Ela assentiu.
— Por que saiu de lá?
Virginia não respondeu. Em vez disso, virou-se e continuou a andar rumo ao cercado no qual seu cavalo pastava. Sherlock a seguiu, com a estranha sensação de agir como uma marionete puxada por fios, incapaz de seguir a própria vontade. Olhou em volta, esperando que Matty não estivesse ali para testemunhar a cena, mas o menino e sua bicicleta estavam ausentes.
— Você não quer contar a alguém para onde vai? — ele perguntou enquanto Virginia encaixava o pé no estribo, agarrava a frente da sela com a mão esquerda e erguia-se para montar. Ela acariciou a crina do cavalo.
— Não há ninguém em casa — respondeu ela. — Lembre-se de que meu pai saiu.
— E sua mãe? — Sherlock perguntou. A repentina mudança no rosto da menina, para uma expressão dura, mas de certa forma frágil, fez com que ele desejasse poder arrancar de volta as palavras do ar.
— Minha mãe está morta — Virginia respondeu, com um tom seco. — Morreu no navio, quando atravessávamos o Atlântico rumo a Liverpool. É por isso que odeio este país, e odeio estar nele. Se não tivéssemos vindo, ela ainda estaria viva.
Com um puxão nas rédeas, ela girou o cavalo e partiu num trote. Sherlock observou-a enquanto se afastava, constrangido diante da dor que vira em seu rosto e irritado consigo mesmo por tê-la provocado.
Quando enfim se virou para ir embora, deparou com Amyus Crowe, que esperava pacientemente na entrada da casa, apoiado em uma bengala. Ele olhava para Sherlock com uma expressão impassível.
— Vejo que conheceu minha filha — disse o tutor finalmente, com o sotaque parecido com o de Virginia.
— Ela não me pareceu muito impressionada comigo — reconheceu Sherlock.
— Ela não se impressiona com ninguém. Passa o tempo todo cavalgando por aí, vestida como um menino. — Seus lábios distenderam-se em um sorriso distorcido. — E não posso criticá-la por isso. Ser arrastada de Albuquerque para cá teria causado mau humor em qualquer criança, sem... — Parou de repente, e Sherlock teve a impressão de que ele iria dizer mais alguma coisa, mas detivera-se a tempo. — Veio procurar-me por algum motivo específico, ou estava apenas interessado em mais uma aula?
— Na verdade — disse Sherlock —, há um assunto específico. — E então resumiu rapidamente o que acontecera em Farnham: o homem com o pó amarelo, o galpão, o incêndio. Perto do final da história, começou a perder o entusiasmo, consciente de que admitia o que poderia ser visto, sob certa perspectiva, como atividade criminosa. Além disso, não conseguia interpretar a expressão de Crowe e determinar sua reação.
No final, Crowe apenas balançou a cabeça e olhou para um ponto distante.
— Seu dia foi bastante interessante — disse ele. — Mas não sei o que tudo isso pode significar. Ainda há dois homens mortos e um possível surto de doença. Se quer minha opinião, deixe estar. Que os médicos e os administradores da cidade cuidem disso. Uma regra muito útil na vida diz que não se deve tentar enfrentar todas as batalhas que aparecerem ao longo do caminho. É preciso escolher as importantes e deixar o restante para outros sujeitos. E, nesse caso, a batalha não é sua.
Sherlock sentiu-se invadido pela frustração, mas ficou quieto. Tinha uma forte sensação de que aquela batalha era dele, nem que fosse simplesmente porque ninguém mais vira o homem na carruagem ou considerara importante o pó amarelo, mas talvez Amyus Crowe tivesse razão. Tentar convencê-lo de que alguma coisa estava acontecendo talvez não fosse mesmo uma batalha que Sherlock devesse travar. Talvez existisse uma alternativa.
— Então, que temos para hoje? — ele perguntou, em vez de persistir no assunto.
— Creio que ainda não terminamos aquele ponto sobre os cogumelos comestíveis — Crowe respondeu. — Vamos andar um pouco, ver o que conseguimos encontrar. E no caminho aproveitarei para mostrar-lhe algumas plantas que podem ser comidas cruas e cozidas, ou consumidas em infusões que são capazes de aliviar a dor.
— Ótimo — respondeu Sherlock.
Ele e Amyus Crowe passaram as horas seguintes percorrendo o campo aberto, comendo tudo o que era seguro e de fácil alcance. Sherlock acabou aprendendo muito sobre como passar o tempo na natureza, e não só para sobreviver nela, mas também para prosperar. Crowe ensinou até como fazer uma cama confortável empilhando folhas de samambaia até a altura dos ombros, e depois subindo na pilha e usando o peso do próprio corpo para amassá-la e deixá-la com a espessura e a maciez de um colchão.
Mais tarde, enquanto pedalava de volta à mansão Holmes, Sherlock tentou pensar novamente nos dois homens mortos, no galpão incendiado, no pó amarelo e na misteriosa sombra rastejante da morte, mas seus pensamentos eram interrompidos pela imagem dos cabelos ruivos de Virginia caindo sobre seus ombros e suas costas eretas e altivas, pela visão da calça apertada e da maneira como o corpo se movia sobre o cavalo enquanto ela se afastava. Lembrou-se da amostra de pó amarelo que colhera do solo da floresta e guardara no envelope. Se os bandidos que vira no galpão estivessem certos, havia alguma coisa relacionada com a morte dos dois homens que poderia ser contagiosa, ou contaminadora, ou que, no mínimo, poderia causar problemas de saúde a quem a tocasse. Presumindo que tal coisa fosse o pó amarelo, Sherlock precisava descobrir o que era, apesar do aviso sutilmente velado de Amyus Crowe. Ele não tinha conhecimento nem meios materiais, petrechos, para resolver isso sozinho. Precisava de um químico, um farmacêutico ou alguém com uma função semelhante, que analisasse o pó, e era pouco provável que pudesse encontrá-lo em Farnham.
Ele e Mycroft passaram por Guildford a caminho dali, e se essa era a cidade grande mais próxima, então era lá que Sherlock poderia encontrar alguém treinado em ciências naturais, capaz de determinar que pó era aquele. Amyus Crowe mencionara um especialista dali: o professor Winchcombe. Talvez Sherlock pudesse procurá-lo.
Ele só precisaria chegar a Guildford.

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