25 de julho de 2017

Capítulo quinze

— E A ÁGUA? — Matty murmurou, como se o réptil pudesse ouvir e entender o que ele dizia. — Não podemos entrar no lago e esperar que eles desistam?
— Acho que eles são parcialmente anfíbios — disse Sherlock. — Olhe para as patas. Os dedos são unidos. Eles devem nadar melhor do que nós.
— Não sei nadar — Virginia anunciou de repente.
— Corrigindo — Sherlock falou —, eles certamente nadam melhor do que nós. — Olhou em volta desesperado, tentando encontrar alguma coisa que pudesse ajudá-los, mas não havia nada além de pedras e arbustos.
Os répteis se aproximavam, e o cheiro de carne podre era quase insuportável.
— Ah, não sei se ajuda — Matty manifestou-se —, mas peguei isto aqui no bolso do paletó do grandalhão.
Sherlock virou-se e viu que Matty segurava a pistola de dois canos.
— É uma Remington Derringer — disse Virginia. — Papai me deu uma dessas, mas eu perdi.
— Como conseguiu tirar isso dele? — perguntou Sherlock.
Matty deu de ombros.
— Vivo dos meus talentos — ele explicou. — Bater carteiras é um deles.
Sherlock olhou da pistola para os répteis, que chegavam cada vez mais perto, e de volta para a pistola.
— Duas balas, três animais — ele disse. — Os números não nos favorecem.
— Mas aumenta nossas chances — anunciou Virginia.
— Significa apenas que um de nós vai ser comido vivo, em vez de todos nós, e essa não é uma solução aceitável.
— Tem uma ideia melhor? — perguntou Matty.
— Na verdade, sim. — Sherlock observou as paredes. — Como trouxeram essas coisas para cá? Duvido que as tenham feito andar pela prancha. Eles não iam querer correr o risco de ferir os animais na queda.
— Acha que tem uma porta ou um portão em algum lugar? — perguntou Matty.
— Parece lógico. Só precisamos procurar.
Sherlock observou com mais atenção os répteis que se aproximavam.
— São mais lentos que nós — disse —, mas vão nos cansar mais cedo ou mais tarde. — Seus olhos analisaram as pedras. — Escutem, se formos rápidos, podemos escalar acima deles, depois pulamos por cima e corremos para o outro lado. Depois, vamos procurar a saída. Eles não são rápidos.
Antes que Matty ou Virginia pudessem detê-lo, Sherlock correu na direção dos répteis. Três bocas cheias de dentes afiados se abriram, e o sibilar repentino quase o ensurdeceu. Sem parar para pensar, ele saltou para uma pedra larga e plana e dela para outra maior. A pedra balançou sob seus pés, e ele soube que, se escorregasse agora, os animais estariam em cima dele em segundos. Sherlock pulou, meio desequilibrado, e viu os répteis se erguendo nas patas traseiras, enquanto ele projetava o corpo no ar, com as bocas abertas, tentando pegar seus calcanhares.
Sherlock aterrissou em segurança em um trecho vazio do terreno. Quando se virou, ele viu que Virginia o imitava. Os braços de Sherlock a sustentaram quando ela caiu em pé, e ele a puxou para o lado, abrindo espaço para a chegada de Matty. Os répteis mordiam o ar tentando pegar seus pés, e um deles usou a cauda musculosa como alavanca para tentar  impulsionar o corpo para cima, mas os dentes se fecharam um décimo de segundo depois da passagem do garoto. Ele pisou no chão e caiu, rolando algumas vezes antes de conseguir se levantar.
Sem demonstrar nenhuma emoção, os três répteis se viraram e começaram a caminhar, avançando contra eles novamente, os olhos redondos fixos em Sherlock, Matty e Virginia.
— Depressa! — Sherlock gritou, seguindo na frente e abrindo caminho até a parede que separava o cercado do mundo exterior. À direita dele o muro estava intacto, mas, à esquerda, pilhas de pedras escondiam sua base. Ele correu ao longo da parede, examinando a área atrás das pedras. Nada! Havia outro trecho de terreno aberto, e depois um grande arbusto escondendo parte do muro. Sherlock empurrou o arbusto para um lado, e seu coração disparou quando ele viu uma grade de metal erguendo-se do chão até a altura da cintura, com dobradiças do lado esquerdo e fechada por uma trava simples.
Mas essa trava era mantida no lugar por um grande cadeado.
Matty parou ao lado dele.
— Pode abri-lo com a arma? — ele perguntou, oferecendo a Derringer.
Sherlock pensou um pouco.
— É pouco provável — respondeu. — O cadeado é grande, sólido. A bala só vai ricochetear.
— E as dobradiças?
— São três. Temos duas balas. O mesmo problema.
Virginia juntou-se a eles olhando preocupada por cima do ombro.
— Não sei se temos escolha — ela falou.
Matty chutou a porta. Ela praticamente não se moveu com o impacto.
A cabeça de Sherlock era um turbilhão de pensamentos conflitantes. Duas opções: atirar nos répteis e deixar um deles ainda vivo ou atirar no cadeado e talvez desperdiçar as duas balas. O que devia escolher?
Uma voz no meio da confusão de seus pensamentos perguntou: “O que Mycroft diria? O que Amyus Crowe diria?” E, como no trem, outra voz respondeu: “Quando só há duas escolhas e nenhuma delas o agrada, crie uma terceira opção.”
Ele olhou para o lago onde os três haviam pulado e de repente lembrou-se da escada que descia, ao lado da outra que subia para a varanda. E ela não descia até a grade que dava para o terreno plano. Os degraus deviam levar a outro lugar. A piscina ficava daquele lado do cercado, e Balthassar havia falado sobre ver os répteis guardarem a comida embaixo d’água. Talvez a escada conduzisse a uma galeria subterrânea, a um observatório; uma sala com um vidro grosso pelo qual se via o fundo da piscina, de onde Balthassar e seus convidados poderiam observar os répteis nadando.
Mas como passar pelo vidro – se é que existia um vidro? Devia ser muito grosso para suportar a pressão da água.
Nesse caso, o que tinha que fazer era gerar mais pressão do que a vidraça poderia suportar.
Ele pegou a Derringer da mão de Matty. Dois gatilhos, é claro, o que fazia sentido, considerando que havia dois canos. Assim você poderia atirar com um cano de cada vez. Ele olhou para os canos.
— Você tinha uma como esta — Sherlock falou para Virginia. — Como ela é carregada?
— Você introduz um pouco de pólvora pelo cano, depois empurra a bala de chumbo para dentro — Virginia explicou. — Tem que tomar cuidado para não deixar nenhum espaço, nenhuma bolsa de ar entre a bala de chumbo e a pólvora. Depois, você encaixa uma espoleta do outro lado do cano. A pistola está carregada e pronta para ser usada.
— Uma bala de chumbo? — ele perguntou, olhando para os canos com mais interesse. — É uma daquelas balas envoltas em papel? Seladas?
— Sim, é papel impermeável. Por que isso é tão importante?
— Porque significa que é hermético — ele respondeu. — Pelo menos por algum tempo. E se não permite a entrada de ar, também é à prova d’água.
Antes que Virginia pudesse dizer alguma coisa, Sherlock virou-se e correu para o lago, ao mesmo tempo em que engatilhava a pistola. Quando chegou à margem, mergulhou, mantendo as mãos erguidas diante do corpo, a Derringer na mão direita. A água cobriu sua cabeça: era morna e cheia de partículas e vegetação em suspensão. Os sons ali eram abafados. Ele batia os pés para chegar à parede do outro lado, embaixo da varanda.
E lá, onde sabia que estaria, onde a simples dedução havia sugerido que estaria, havia uma vidraça cercada por uma moldura de metal. Antes que a água pudesse penetrar na pistola, ele a encostou no vidro.
E puxou os dois gatilhos ao mesmo tempo.
Em algum lugar no fundo de sua mente residia o conhecimento, uma informação lida em algum lugar e nunca esquecida, de que a água não pode ser comprimida. Por mais que se aperte, ela nunca se tornará mais densa. A única coisa que acontece é que a pressão aplicada se transfere para outro lugar. Como, por exemplo, para o que estiver em contato com a água.
E assim, quando o martelo na base dos canos atingiu as duas espoletas, houve uma detonação de mercúrio lá dentro. Isso fez o enxofre, o carvão e o nitrato de potássio contidos na pólvora queimarem rapidamente, produzindo um grande volume de gás quente. O gás empurrou as balas de chumbo pelos canos, queimando o papel que as envolvia. As balas pressionaram a água dentro dos canos e a água pressionada transferiu essa pressão para a vidraça.
O vidro rachou e espatifou-se.
Todo o conteúdo do lago se derramou para a sala subterrânea, arrastando Sherlock junto. Ele foi rolando às cegas até o canto da sala onde devia estar a escada, torcendo desesperadamente para que Virginia e Matty percebessem o que ele havia feito e viessem atrás dele. Devia tê-los prevenido? Não havia pensado nisso. Apenas agira de acordo com suas deduções, sem pensar que os outros dois talvez não entendessem.
Os pulmões queimavam com o esforço de prender a respiração e o coração batia acelerado no peito. Sherlock movia-se pela água turva movendo os braços com desespero. De repente, seus dedos roçaram na superfície áspera de um degrau. Ele levantou a cabeça e nadou com toda a força que ainda tinha.
Quando emergiu e se viu no mesmo nível que o piso da porta que se abria para fora, para a luz do sol, ele encheu os pulmões de ar várias vezes, esperando a pulsação voltar ao normal.
Matty emergiu ao lado dele. Virginia apareceu logo depois.
O garoto estava ofegante, falando com dificuldade.
— Você... é um gênio ou qualquer coisa assim. Não sei o que fez, mas salvou a gente.
— Ainda não — Virginia argumentou enquanto arfava.
— O que quer dizer? — perguntou Matty.
— Sherlock disse que os animais eram anfíbios.
Os três se entreolharam por um momento e depois saíram rapidamente da água.
A escada para a sala subterrânea de observação e para a varanda não podia ser vista da casa. Os três sentaram-se nos degraus para recuperar o fôlego.
— E agora? — perguntou Matty. — O que vamos fazer?
— A única coisa em que consigo pensar é seguir os trilhos do trem e voltar à última cidade por onde passamos — disse Sherlock. — Lá encontraremos um posto do telégrafo. Podemos mandar uma mensagem para o pai de Virginia. Temos que contar a ele sobre o exército de Balthassar e a invasão do Canadá.
— Ah! — disse Matty. — Andando.
— Podemos tentar roubar cavalos — Sherlock continuou —, mas provavelmente seremos presos. Desconfio que essas pessoas cuidam dos seus cavalos, especialmente se planejam uma invasão.
Matty suspirou.
— Tudo bem — disse. — Vamos. Vamos nos secar enquanto andamos.
Mantendo-se fora do alcance visual dos que estavam na varanda da casa, os três passaram pela sequência de jaulas, gaiolas e cercados onde ficava a coleção de animais de Balthassar. Muitos deles estavam vazios, mas Sherlock viu algumas coisas nos espaços ocupados que nunca mais esqueceria – animais que só havia visto em ilustrações, que ao vivo pareciam aquelas criaturas de sonhos e pesadelos. Animais com pernas compridas e pescoços longos cuja pele era recoberta por manchas marrons; uma criatura enorme com uma cabeça quadrada que pendia diante dele, dois chifres entre os olhos e a pele grossa como uma armadura; e coisas que eram como porcos, mas tinham o corpo coberto de pelos e longas presas saindo da boca. Um bestiário de animais fabulosos.
Quando chegaram ao limite da área de jaulas e cercados, Sherlock olhou em volta com cuidado. O terreno gramado à frente deles estava vazio, e lá longe, à direita, ele viu a casa de Balthassar. A localização da casa indicava por onde o trilho devia seguir, embora a grama alta o escondesse. Em algum lugar por ali havia a cerca delimitando a propriedade e, depois dela, ao longo da linha férrea, a cidade chamada Perseverance. Do outro lado de uma ponte que atravessava um enorme precipício, lembrava-se bem.
Mas não tinham escolha.
— Vamos — Sherlock falou cansado. — Vamos acabar logo com isso.
Eles começaram a andar, atravessaram o terreno gramado e só precisaram de dez minutos para encontrar os trilhos da ferrovia, apoiados sobre fileiras paralelas de dormentes de madeira. Meia hora depois o trio chegava à cerca da propriedade e ao ponto onde o trem saía de sua via principal para passar pela casa de Balthassar. Quando descobriram a linha férrea, Matty passou algum tempo andando entre os trilhos, de dormente em dormente, mas o vão era um pouco maior que o tamanho de seu passo, e logo suas pernas começaram a doer, por isso ele se juntou a Sherlock e Virginia, que caminhavam ao lado dos trilhos.
Meia hora depois de passarem pela cerca a casa havia desaparecido em meio a uma névoa de calor que fazia o horizonte tremer. Agora restava apenas a ferrovia, afastando-se deles em ambas as direções, e a relva alta e abundante. À esquerda e ao longe, Sherlock pensou poder ver as formas difusas de algumas montanhas, mas a névoa dificultava o julgamento.
Aves voavam em círculos sobre eles. Matty achava que podiam ser urubus, mas Virginia disse que eram falcões. Sherlock preferiu não se manifestar. Não sabia como era a aparência de um urubu ou de um falcão, por isso achava inútil especular.
Enquanto caminhavam, ele revia muitas vezes os planos que Duke Balthassar revelara na varanda de sua casa. Tudo soava muito arrogante – o exército confederado redivivo pretendendo invadir uma colônia britânica vizinha e lá fundar uma nova nação onde eles poderiam fazer as coisas como quisessem, não como ordenavam os vencedores unionistas. Sherlock não aprovava a escravidão, mas não sabia se aprovava um grupo de pessoas usando força bruta para decidir como outros grupos deviam viver a vida. Mas qual era a alternativa? Todos deviam poder viver de acordo com o próprio código moral? E, nesse caso, o que aconteceria se o vizinho aceitasse o roubo como algo permitido, mas você, não, e ele roubasse seus porcos, suas cabras e seus cavalos? A alternativa era permitir alguém impondo um código moral no qual nem todos acreditem, mas têm que seguir.
Estranhamente, tudo isso fez Sherlock pensar na cópia da República de Platão, o livro que Mycroft havia lhe dado no momento em que embarcara no navio para deixar Southampton. Platão antecipara todas essas questões havia mais de dois mil anos. E desde então ninguém havia conseguido criar uma sociedade com a qual todos concordassem e que funcionasse adequadamente.
Era isso que Mycroft estava tentando fazer à sua maneira discreta? Transformar a Grã-Bretanha em uma sociedade que funcionasse da melhor maneira possível?
Sherlock descobriu que, conforme ia ficando mais velho, desenvolvia um respeito cada vez maior pelo irmão.

O sol descia inexoravelmente para o horizonte, aquecendo suas costas enquanto caminhavam, projetando sombras cada vez mais longas no chão. Por um tempo Sherlock acreditou ver uma faixa escura na grama queimada de sol, mas com o sol mais baixo e mais perto de desaparecer ele percebeu que a faixa era o precipício que o trem havia atravessado a caminho dali, a caminho da casa de Balthassar. Os últimos raios iluminavam a ponte de um ângulo estranho, tornando-a mais parecida com um brinquedo de criança.
— Temos que atravessar aquilo? — Matty perguntou com um fio de voz quando os três pararam na beirada do precipício e olharam para a ponte.
Sherlock apontou para o fundo do barranco.
— Acho que não temos tempo para descer, atravessar e subir pelo outro lado.
— Acho que Matty está perguntando se temos que atravessar esta noite, e acho que concordo com ele — Virginia manifestou-se.
— Não podemos nos dar o luxo de dormir — Sherlock respondeu. — Para começar, não sabemos nem o que há por aqui. Pumas, ursos...
— Quatis — murmurou Virginia.
— Pode haver qualquer coisa — ele concordou. — E precisamos de comida. Além do suco de laranja e dos pães doces, não comi nada desde hoje cedo.
— Comida... — gemeu Matty. — Eu tou faminto. Acha que tem alguma coisa por aqui que possamos... caçar?
— O mais provável é que nós sejamos caçados — respondeu Sherlock. Ele respirou fundo e olhou para o precipício, caminhando de dormente em dormente.
— E se vier um trem? — Matty questionou.
— Eles não viajam à noite — Virginia falou. — As chances de haver búfalos, deslizamentos de terra ou alguma coisa assim são muito grandes. Eles param na cidade mais próxima e os passageiros desembarcam. Há hotéis para hospedar as pessoas até a manhã seguinte.
— Ah! — disse Matty. Era como se ele desejasse ter um bom motivo para não atravessar.
Sherlock descobriu, como já havia acontecido com Matty, que andar pisando nos dormentes era cansativo. Mesmo tendo as pernas mais longas, ainda tinha que aumentar muito a largura dos passos. Era possível enxergar entre os dormentes e ver o fundo do abismo, mas como a luz do sol incidia agora em um ângulo quase horizontal sobre a paisagem o precipício era só escuridão, e tudo que ele via entre os pés era um grande vazio. E se olhasse muito fixamente, perderia a noção de onde tinha que pisar. Em duas ocasiões ele quase tropeçou e perdeu o equilíbrio. No final, decidiu que simplesmente devia olhar para a frente e confiar no instinto para saber onde pôr os pés. A distância entre os dormentes era regular, e ele descobriu que, mesmo sem olhar, podia caminhar dando os passos do tamanho certo.
De vez em quando olhava para trás e via Virginia e Matty recortados contra o disco alaranjado do sol. Eles pareciam estar se saindo bem. Não havia nada que pudesse fazer para ajudá-los. Cada um era um universo isolado naquela longa caminhada sobre o precipício.
Sherlock ouviu um ruído. Ele parou e olhou por cima do ombro. Virginia estava deitada sobre os trilhos. Parecia exausta. Ela levantou a cabeça e olhou para ele com uma expressão esgotada.
— Desculpe — disse. — Eu tropecei.
— Não posso voltar para ajudar — Sherlock falou, desesperado. — Não posso me virar sem correr o risco de cair, e se me abaixar para ajudá-la, podemos cair os dois!
— Eu sei — ela murmurou. — Eu sei.
— Virginia, você precisa se levantar — Matty falou atrás dela.
— Ah, sim, obrigada — ela disse, irritada, enquanto se punha em pé. — Eu nunca teria pensado nisso!
Eles voltaram a andar, um atrás do outro. O tempo parecia se arrastar, segundos se fundindo em minutos, minutos desaparecendo um atrás do outro, de forma que, quando Sherlock percebeu que havia novamente terreno sólido entre os dormentes, eles já estavam algumas centenas de metros longe do precipício.
— Vamos descansar um pouco — ele disse. — Apenas dez minutos.
Matty gemeu.
— Preciso dormir.
— Meu irmão diz que um homem pode ficar sem dormir por dias e dias, se o que estiver fazendo for importante e interessante o suficiente.
— Andar até a cidade mais próxima pode ser importante, mas não tem nada de interessante — Matty argumentou.
Sherlock deixou-os descansar e calculou o tempo mentalmente, mais ou menos dez minutos, mas podia ter sido qualquer coisa, de trinta segundos a uma hora, considerando as circunstâncias e o ritmo singular do tempo por ali. Finalmente, eles se levantaram e voltaram a andar. O trio seguia em silêncio acompanhando a ferrovia. Duas vezes, ao longe, Sherlock ouviu ruídos que lembravam uivos. Em um momento de terror ele achou que Balthassar havia percebido a fuga e enviado os pumas atrás deles, mas Virginia falou:
— Coiotes.
— O que é um coiote? — Matty perguntou do fim da fila.
— É como um lobo — explicou ela.
— Ah! — Uma pausa. — Que gosto será que tem?
— Se isso é uma piada, não tem graça. Na verdade, aquele uivo que ouvimos significa que eles estão pensando a mesma coisa sobre você — disse Virginia.
A lua ergueu-se sobre o horizonte: um disco branco e leitoso, muito maior do que Sherlock lembrava quando a via na Inglaterra. A América ficava mais perto da lua? Não podia ser. O mundo era redondo, todos os pontos nesta superfície ficavam igualmente distantes da lua. A única explicação que podia encontrar era a existência de alguma coisa na atmosfera, alguma coisa a ver com o ar quente que ampliava a imagem e fazia a lua parecer maior.
Depois de um tempo ele percebeu que Matty estava falando sozinho. Havia imaginado que ele falava com Virginia, mas Matty deixava lacunas que ela não preenchia. Era como se Matty pudesse ouvir uma voz que ninguém mais escutava. Uma alucinação? Talvez o cansaço e a falta de comida o estivessem afetando mais do que aos outros. Afinal, ele havia tido semanas bem difíceis.
Embora estivesse pensando sobre as alucinações de Matty, não lhe parecia estranho que a Sra. Eglantine, governanta da casa dos tios, caminhasse a seu lado durante parte da jornada. Ela não dizia nada. Apenas o olhava com olhos cheios de desaprovação, a boca comprimida em uma linha fina, a cabeça balançando de um lado para o outro. Não sabia quando ela havia aparecido nem quando sumira. Tudo que sabia era que, pelo menos em um trecho da caminhada, ela havia estado ali, uma companhia silenciosa andando a seu lado. Estranho... De todas as pessoas que poderia imaginar caminhando em sua companhia, por que ela? Por que não Mycroft ou Amyus Crowe? Pensando bem, se estava mentalmente perturbado, por que não qualquer uma das pessoas cujas mortes foram sua responsabilidade – o Sr. Surd, Gilfillan, Ives ou Grivens? Até Platão teria sido melhor companhia do que a Sra. Eglantine.
Se Virginia via alguém que não estava ali, não disse nada. Nem naquele momento nem mais tarde.
Sob a luz da lua, Sherlock via um ou outro celeiro ou casas de fazendas recortadas contra o horizonte. Em alguns momentos pensou em sair do caminho e parar para pedir ajuda ou pelo menos comida e bebida, mas alguma coisa o mantinha andando ao longo dos trilhos. Explicações tomavam tempo, e ainda correria o risco de acabar com mais problemas. Além do mais, a única coisa de que precisavam era um posto de telégrafo, e isso era algo que só encontrariam em uma estação de trem em uma cidade.
Depois de algum tempo celeiros e casas espalhados tornaram-se pequenos aglomerados e, depois, uma comunidade. Estavam na periferia de um lugar qualquer. Se tivessem sorte, seria uma cidade. Sherlock não se lembrava de o trem ter passado por nenhum povoado de proporções consideráveis depois de terem saído de Perseverance, mas não passara o tempo todo olhando pela janela. Outras coisas haviam acontecido e desviado sua atenção. Talvez fosse outra cidade, um lugar sem estação ou posto de telégrafo, e, nesse caso, Sherlock decidira que eles parariam, nem que fosse por pouco tempo. Talvez pudessem pagar alguém para levá-los a Perseverance.
Uma luz rosada começou a tingir o horizonte diante deles. O sol estava nascendo. Haviam mesmo passado a noite inteira andando? Considerando a rigidez dos músculos e a garganta seca, Sherlock suspeitava que sim.
Ou seria só mais uma alucinação, como a Sra. Eglantine?
Após horas de linhas retas cortando a paisagem, agora os trilhos começavam a descrever curvas, levando ao centro da cidade. E finalmente ali, na frente deles, surgiam os edifícios que ele se lembrava de ter visto quando desceram do trem por alguns instantes: a estação e os galpões em torno dela. Haviam chegado. Contrariando todas as expectativas, haviam conseguido.
Um trem estava parado na área de recuo da estação. Era mais curto do que Sherlock lembrava. E também era escuro e deserto.
Não havia ninguém por ali quando pisaram na plataforma. O posto de telégrafo estava fechado. Sherlock bateu na porta, pensando que podia haver alguém dormindo lá dentro, mas ninguém respondeu. Toda a cidade parecia estar dormindo, apesar do azul que tingia rapidamente o céu.
— Vamos — ele falou com dificuldade, sentindo as palavras arranharem a garganta seca. — Vamos encontrar um hotel e comer alguma coisa. O posto do telégrafo só deve abrir mais tarde.
— Comida — Matty falou com a voz entrecortada, trêmula. — Dormir.
Virginia apenas assentiu. Seu rosto estava pálido como giz – as sardas sobressaíam como pingos de tinta – e suas forças pareciam estar chegando ao fim.
O hotel ficava do outro lado da rua, na frente da estação. A rua era de terra batida, marcada por incontáveis rodas de carroça. Era estranho, mas Sherlock sentia mais dificuldade para caminhar ali do que no mato.
As portas de vaivém não estavam trancadas, e esse parecia ser o primeiro golpe de sorte que tinham em muitas horas.
Em pé, no centro do saguão principal, olhando para um mapa aberto sobre a mesa diante dele, estava Amyus Crowe.
Ele levantou a cabeça ao ouvir o barulho de alguém entrando, e seu rosto registrou tantas emoções diferentes no espaço de um segundo que Sherlock teve a sensação de olhar para vários homens ao mesmo tempo.
Virginia correu para o pai e abraçou-o. Matty sentou-se em uma cadeira e fechou os olhos.
— Você veio atrás de nós — disse Sherlock. Sua voz não expressava nenhuma emoção. A longa caminhada o esgotara. Sentia apenas muito cansaço.
— Conversei com os jornaleiros — disse Crowe. Era evidente o esforço que fazia para manter a voz controlada. — Eles sempre sabem de tudo que acontece em uma cidade e conseguem passar despercebidos pelo restante da população. Os garotos me contaram que você foi seguido e conseguiu reverter o processo. Bom truque com a boina, o paletó e os jornais, aliás. Um deles o viu na hospedaria e outro viu vocês dois na estação. O resto da história deduzi a partir dessas informações. — Amyus Crowe respirou profundamente. — E acho que posso deduzir o que o trouxe de lá até aqui. Se acreditasse que fez isso de propósito, filho, eu o poria imediatamente em um navio para a Inglaterra e tomaria as providências para nunca mais estarmos no mesmo continente, mas imagino que o que aconteceu foi uma série de pequenos acidentes, uma sequência que os levou para longe de onde eu estava, em um lugar onde eu não podia ajudá-los.
— É mais ou menos isso — confirmou Sherlock. — Não foi intencional. De jeito nenhum.
— É verdade — interferiu Virginia, ainda abraçada ao pai. — Estávamos seguindo os homens que sequestraram Matty, e o trem partiu antes que pudéssemos desembarcar.
— Mas eles conseguiram me resgatar — acrescentou Matty, de olhos fechados.
— Sim, é verdade — admitiu Crowe, olhando para os três garotos. — Imagino que precisem de comida, bebida e descanso, mas acho que preciso saber o que aconteceu com vocês enquanto comem. — Ele virou para o fundo do saguão, na direção de uma porta. — Sra. Dimmock! Quatro cafés da manhã com todo suco de laranja e café que tiver à disposição! — Ele olhou para Sherlock e Matty. — Pensando bem, oito cafés — gritou. — Tem gente faminta aqui!

A hora seguinte foi confusa. A comida chegou enquanto os três contavam a Amyus Crowe tudo que havia acontecido e acabaram falando enquanto pilhas de presunto, batatas fritas, ovos e muitas jarras de suco desapareciam da mesa.
— Ele planeja invadir o Canadá — Sherlock disse a Crowe quando concluiu a história. — Reuniu um exército e está planejando criar um novo país no Canadá, que vai declarar como Nova Confederação.
— Isso é basicamente o que a Pinkerton já havia deduzido — Crowe respondeu, assentindo. — Eles estão de olho nesse Duke Balthassar há algum tempo. O fato de estar usando John Wilkes Booth como figura decorativa para estimular as tropas e conferir à nova nação alguma legitimidade aos olhos dos estados do Sul é novidade para eles, mas serve para explicar o que ele estava esperando.
— Então, o que eles vão fazer sobre isso? — perguntou Sherlock. — Não podem permitir que isso aconteça, não é? Isso vai arruinar as relações entre a América e a Inglaterra por gerações.
Crowe balançou a cabeça despenteada.
— Eles têm um plano — disse. — Não posso dizer que acho que seja lá essas coisas, mas Stanton, o secretário de Guerra, aprovou-o pessoalmente, então, não há muito mais o que se possa dizer.
— Eles vão atacar? — Matty perguntou, com a boca ainda cheia de batatas fritas.
— O Exército foi mobilizado e está formando um cordão de isolamento em algum lugar entre a fronteira e Perseverance — contou Crowe. — Mas há mais alguma coisa acontecendo. O governo quer resolver tudo isso sem lutas mano a mano, se possível. — Ele suspirou e desviou os olhos, fixando-os na porta da frente do hotel. — O secretário de Guerra ficou muito impressionado com o uso de balões para reconhecimento durante a Guerra entre os Estados. Ele acredita que os balões são o futuro dos aparatos de guerra e ordenou que o Batalhão de Engenheiros do Exército desenvolva o maior número possível de balões de ar quente e mantenha disponíveis todos os que já existem. Depois do anoitecer, ele pretende sobrevoar o acampamento de Balthassar com os balões e lançar explosivos sobre a região.
— Mas... — Sherlock começou e então parou, perplexo. — Mas isso seria um massacre! Sei que esses homens estão se preparando para invadir outro país, mas lançar bombas sobre eles! Não pode ao menos dar uma chance para eles se renderem?
Crowe balançou a cabeça.
— Não é assim que funciona. Stanton quer enviar uma mensagem. Ele quer que todos saibam que a guerra acabou e a União venceu, e que qualquer tentativa de reviver os exércitos confederados será reprimida com força bruta.
— Mas centenas, talvez milhares de homens morrerão! — Sherlock insistiu. — E não será em uma batalha, na qual poderiam se defender. Eles vão morrer com uma chuva de fogo que vai cair sobre eles! Isso é errado!
— Pode ser errado — Crowe concordou em voz baixa —, mas é assim que vai ser. Bem-vindo ao mundo do que os alemães chamam de Realpolitik, Sherlock.

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