17 de julho de 2017

Capítulo quinze

AS PALAVRAS DO BARÃO ECOARAM, enervantes, pela sala. Da escuridão soaram ruídos de atividade enquanto um criado saía para transmitir as ordens. Sherlock olhou para Virginia. Ela estava pálida, mas mantinha a boca firme em uma linha que denotava determinação. Ele tocou sua mão fria, e ela devolveu-lhe um sorriso suave.
A determinação de Virginia deu a Sherlock a coragem para continuar.
— Trata-se de um plano grandioso — ele disse para a escuridão —, mas não vai dar certo.
Houve silêncio por um momento, rompido apenas pelo rangido que Sherlock lembrava da casa em Farnham, como o som do cordame molhado de um navio sendo distendido pelo movimento constante da embarcação.
— Você parece muito confiante — soou a voz do barão. — Para uma criança.
— Pense nisso: só porque dois homens morreram em consequência de seu plano, isso não quer dizer que ele seja perfeito. Há várias substâncias que podem remover os contaminantes dos uniformes, por exemplo. Lembre-se: chove na Inglaterra. Chove muito. Alguns soldados terão os uniformes lavados antes que as abelhas consigam localizá-los, especialmente os oficiais. — Agora Sherlock pegava embalo, e sua mente disparava ideias sobre como o plano colossal de Maupertuis estava fadado ao fracasso. — Alguns soldados talvez prefiram os uniformes antigos, e continuarão a usá-los, ou irão encomendar um novo a um alfaiate militar, em vez de vestir os que você produziu. Não sei como é na França, na Alemanha e na Rússia, mas os ingleses não gostam que lhes digam o que fazer e o que vestir. Eles arrumam jeitos de contornar esse tipo de ordem.
— E quanto às abelhas propriamente ditas? — Virginia acrescentou de repente. — Quantas delas realmente chegarão à ilha? De quantas abelhas você precisa para cobrir todas aquelas áreas nas quais o Exército mantém suas bases? Você tem o bastante? E se uma frente fria passar no país e matar as abelhas, ou se houver na Inglaterra alguma outra coisa que as coma, ou se elas simplesmente se estabelecerem em algum lugar, construírem uma colmeia e passarem a fazer parte da vida natural do país? É muito provável que se misturem às abelhas locais, abelhas inglesas, e percam todos os traços agressivos dos quais seu plano depende.
— Todos esses fatores foram considerados — o barão respondeu com sua voz áspera. Aos ouvidos de Sherlock, contudo, ele soava inseguro pela primeira vez. — E mesmo que alguns uniformes sejam lavados, que algumas abelhas morram, e daí? Muitos ataques serão bem-sucedidos ainda assim. Muitas mortes ocorrerão. O Exército britânico ficará paralisado pelo medo. Paralisado.
— Você não entende como o povo da Inglaterra pensa, não é? — Sherlock debochou. Sua mente revia as aulas da escola, o que lera nos jornais sentado no gabinete do pai, o que ouvira do irmão Mycroft. — Já ouviu falar na Carga da Brigada Ligeira?
De repente o som dos rangidos cessou na escuridão. Sherlock teve uma súbita sensação de que muitos ouvidos tornavam-se mais atentos ao que ele dizia.
— Ah, sim — o barão chiou. — Ouvi falar na Carga da Brigada Ligeira.
Mesmo assim, Sherlock continuou:
— Em 1854, durante a Guerra da Crimeia, os soldados do 4º e do 13º batalhões dos Dragões Ligeiros, do 17º dos Lanceiros e do 8º e do 11º dos Hussardos receberam ordens de atacar as linhas russas durante a Batalha de Balaclava. Eles marcharam por um vale no qual canhões russos estavam posicionados nas duas laterais e na frente, e continuaram a marchar. Seguiram ordens, sem entrar em pânico e sem amotinar-se. Não estou dizendo que a obediência cega às ordens seja algo bom, mas disciplina é algo de tal forma absorvido pelo soldado britânico, que o sustenta como se uma estaca de ferro estivesse cravada ao longo de suas costas. Eu sei o que digo. Meu pai é um oficial. Eles não entram em pânico. Nunca. Não, mesmo que ocorram mortes, elas serão tratadas como um surto de varíola ou cólera. Você não entende? Eles vão ignorar. É isso o que os britânicos fazem. Por isso o Império Britânico é tão vasto e tão forte. Nós simplesmente ignoramos as coisas de que não gostamos.
— Você fala bem — disse o barão —, mas não acredito em suas palavras. É óbvio que você quer acreditar que seu Império é construído sobre bases inabaláveis, mas está enganado. As bases estão podres, e o edifício irá desmoronar se receber um empurrão forte o bastante. Você quer acreditar que o dia de amanhã será igual ao de ontem, mas não será. O mundo irá mudar, e a balança do poder irá inclinar-se a favor de meus associados na Câmara Paradol.
Câmara Paradol? O que seria aquilo? Enquanto Maupertuis falava, Sherlock memorizava o que podia ter sido um importante lapso do qual Mycroft gostaria de saber.
Presumindo que o menino tivesse a chance de ver o irmão novamente.
— Você quer acreditar que seu irmão seguirá como um homem importante no Governo britânico — Maupertuis continuou —, mas ele não será. Como o restante dos colegas, ele será levado pela maré da história. Quando o seu paisinho pretensioso virar uma mera província de alguma nova superpotência europeia capaz de igualar-se à América em tamanho e força, Mycroft Holmes e sua laia não terão mais nenhuma utilidade. Sua classe não será necessária na nova ordem mundial. Todos irão acabar à mercê da guilhotina ou do garrote. Não sobreviverão.
A voz de Maupertuis tornara-se um chiado, tal era a paixão com que ele declamava seu discurso venenoso contra um país e um povo pelos quais sentia um ódio evidente. Por que odiava tanto a Grã-Bretanha? Sherlock tentou determinar o que poderia funcionar melhor: uma argumentação racional ou provocar-lhe reações mais emocionais? De um jeito ou de outro, o desfecho era incerto. O mais provável era que Sherlock e Virginia acabassem mortos.
— Ele é maluco — Virginia disse em voz baixa, mas firme. — Completamente doido. E seu plano também é pirado. O resultado que ele pretende alcançar é impossível. Goste ou não, a Inglaterra é uma potência mundial. Ele não pode mudar isso.
— Fico surpreso — disse o barão — por você defender esse país com tanta veemência, menina.
Virginia ergueu a cabeça quando ele falou, surpresa por ser incluída tão repentinamente nos pensamentos de Maupertuis.
— Por que a surpresa? — ela indagou. — Não gosto de ver inocentes serem mortos. Isso é incomum?
— Seu país esteve sob o jugo da Inglaterra por mais de dois séculos — o barão comentou. — Tudo na América era determinado por Londres. Vocês eram só mais um território, como Hampshire ou Dorset, porém mais extenso e mais distante. Vocês tiveram de rebelar-se contra o controle britânico e livrar-se da opressão de Westminster.
— E fizemos isso por meio de uma luta limpa — ela respondeu. — Não usamos truques, nem tramas, nem planos secretos. Se precisamos enfrentar guerras, então é assim que elas têm de ser: limpas, abertas e justas. Deveria haver regras na guerra, também, como no boxe.
— Ingênua — murmurou o barão. — Tão ingênua! E tão inútil! Você e o garoto morrerão antes de descobrir que sua preciosa ordem mundial terá sido superada.
— Você gosta de agir nas sombras, não é? — ela continuou, e havia um tom crítico em sua voz que fez Sherlock encará-la, imaginando o que ela pretendia fazer.
— O lutador bem-sucedido ataca das sombras e volta a esconder-se nelas, de forma que o inimigo maior e mais forte não saiba onde atacar — sussurrou o barão. — Assim será a guerra no futuro. É assim que um oponente menor pode vencer outro muito maior. Pela astúcia.
— Prefere as sombras? Então vejamos o que acha da luz do sol — ela gritou, levantando-se de um salto. Sherlock sentiu uma repentina atividade na escuridão do outro lado da sala enquanto o Sr. Surd preparava-se para atacar com seu chicote de ponta metálica. Virginia, porém, correu para um lado, e o chicote atingiu o encosto da cadeira da qual ela acabara de levantar-se. Ela agarrou as cortinas de veludo preto que cercavam a sala e puxou-as com força. Sherlock ouviu o som de tecido sendo rasgado à medida que o veludo soltava-se do trilho. Em seguida, com um barulho que lembrava uma tempestade distante, o material todo despencou no chão em uma avalanche vagarosa de tecido macio, deixando que o brilho da luz do sol invadisse a sala.
Por toda a sala, mascarados cobriram os olhos, mas os de Sherlock estavam fixos na figura do barão, sentado em uma cadeira muito grande à cabeceira da mesa. Era, de fato, o mesmo homem de olhos cor-de-rosa e cabelos brancos que ele vira na carruagem em Farnham. Ele apertava os olhos sensíveis contra a luz, protegendo o rosto com uma das mãos, enquanto a outra pegava os óculos de lentes escuras, e os colocava. Seus braços eram finos e tortos, como os galhos de um velho carvalho, e a cabeça pendia sobre os ombros. Ele vestia o que parecia ser um uniforme militar: preto, com uma faixa dourada ornamentando o peito e os pulsos. Havia alguma coisa em torno da testa, uma espécie de armação de madeira. De repente ele endireitou a cabeça, e por detrás das lentes escuras os olhos cravaram-se em Sherlock com tanta intensidade, que o menino quase podia sentir seu calor. Ele notou que havia cordas presas à armação, e que elas se esticaram no exato instante em que a cabeça de Maupertuis empertigou-se.
O Sr. Surd estava ao lado do barão, e as cicatrizes em sua cabeça, destacadas sob a luz que entrava pela janela, pareciam um ninho de vermes sobre um crânio. Ele encarava Sherlock e Virginia com a promessa de morte nos olhos, brandindo o chicote.
— Não! — o barão sussurrou. — Eles são meus.
Os olhos de Sherlock foram inexoravelmente atraídos para o corpo retorcido do barão Maupertuis. Havia mais cordas presas a armações de madeira nos pulsos e nos cotovelos do barão, e outra armação maior envolvia seu peito. Cordas mais grossas subiam a partir da armação do peito, e ao segui-las com os olhos até o teto da sala Sherlock percebeu que todas estavam presas a uma grande viga de madeira sobre o barão, como se formassem uma grua. A extremidade da viga mais próxima a Sherlock cruzava com uma outra, menor, equipada com ganchos e rodas de metal presas a pequenos eixos. As cordas passavam por esses ganchos e rodas, e Sherlock acompanhou-as de volta até o local onde criados mascarados, vestidos de preto, seguravam suas pontas. Devia haver vinte, talvez trinta cordas, todas conectadas a partes do corpo do barão. E o menino observou, incrédulo, alguns desses criados puxarem as cordas com toda a força, enquanto outros deixavam frouxas as cordas que seguravam ou simplesmente as mantinham esticadas, sem puxá-las. E ao fazerem isso o barão ergueu-se da cadeira.
Ele era uma marionete: uma marionete humana completamente operada por terceiros.
— Grotesco, não? — sussurrou o barão. A boca e os olhos pareciam ser as únicas partes do corpo que ele podia movimentar sem ajuda. A mão direita foi erguida e apontou para o corpo, mas o movimento realizou-se pela manipulação de uma série de cordas presas ao pulso, ao cotovelo e ao ombro, e de cordas menores atadas a anéis em seus dedos, e tudo se movia não pela vontade do barão, mas porque criados mascarados antecipavam o que ele faria, se pudesse. — Esse é o legado que me deixou o Império Britânico. Você mencionou a Carga da Brigada Ligeira, menino. Um acontecimento tedioso, sem propósito, baseado em ordens mal compreendidas, em uma guerra que nunca deveria ter sido travada. Eu estava lá, naquele malfadado dia, com o conde de Lucan. Eu era seu oficial de ligação com a cavalaria francesa, que estava em seu flanco esquerdo. Vi quando chegaram as ordens de lorde Raglan. Eu sabia que estavam mal formuladas, e que Lucan não as entendera corretamente.
— O que aconteceu? — perguntou Sherlock.
— Meu cavalo estava no meio da Carga e assustou-se com um tiro de canhão. Eu fui jogado da sela e caí na frente de centenas de cavalos ingleses. Eles passaram galopando por cima de mim. Duvido até que tenham me visto. Senti meus ossos partirem-se sob os cascos. As pernas, os braços, as costelas, a bacia e o crânio. Cada osso importante de meu corpo foi fraturado, e quase todos os pequenos. Eu parecia um quebra-cabeça.
— Você deveria ter morrido — Virginia sussurrou, e Sherlock não sabia se o comentário era uma demonstração de pena ou remorso.
— Fui encontrado por meus compatriotas depois de os ingleses terem sido dilacerados pelos canhões russos — continuou Maupertuis. — Eles levaram-me do campo de batalha. Cuidaram dos meus ferimentos. Emendaram meus ossos da melhor maneira possível, ajudaram na cicatrização, mas meu pescoço fora quebrado, e, embora meu coração ainda batesse, eu não podia mover as pernas. Eles não se atreveram a me levar para muito longe, então fiquei em uma tenda, suportando o calor fedorento e o frio gélido da Crimeia por um ano. Um ano inteiro. E em cada segundo, cada minuto, cada hora, cada dia, cada semana e cada mês que passei ali, amaldiçoei os ingleses e sua mania de simplesmente acatar ordens, por mais estúpidas que sejam.
— Estar lá foi escolha sua — Sherlock comentou. — Você vestia um uniforme. E sobreviveu, enquanto centenas de homens bons morreram.
— E todos os dias eu desejo ter morrido com eles. Mas eu estou vivo e tenho um objetivo: pôr de joelhos o Império Britânico. Começando por você, criança.
Enquanto cuspia as palavras, Maupertuis pareceu flutuar no ar e aterrissar sobre a mesa com suavidade. As cordas acima dele distenderam-se, puxadas pelos titereiros mascarados. Um rangido soou quando cordas e madeira sustentaram o peso do corpo do barão. De alguma forma, os criados adivinharam o que ele queria que fizessem. Sherlock imaginou que eles deviam trabalhar com o barão havia tanto tempo, que sabiam instintivamente o que ele pensava e conseguiam traduzir suas intenções para a forma de ação imediata. Quando os pés de Maupertuis tocaram a mesa, Sherlock levantou-se de um salto. Virginia fez o mesmo, a seu lado.
— Barão! — gritou o Sr. Surd. — O senhor não precisa cuidar disso pessoalmente. Deixe-me matar as crianças em seu nome!
— Não — o barão sibilou. — Não sou um aleijado! Eu mesmo eliminarei esses pirralhos intrometidos! Todos aqueles meses, tanto tempo paralisado projetando este arreio... não serão desperdiçados. Eu mesmo os matarei! Está entendendo?
— Deixe-me ao menos matar a menina — Surd insistiu. — Deixe-me fazer pelo menos isso pelo senhor.
— Muito bem — o barão aceitou. — Eu cuido do garoto, então.
Como se não tivesse peso, Maupertuis flutuou na direção de Sherlock. Seus pés moviam-se quase sem tocar a mesa. Ele estendeu as mãos para o garoto, e por um momento Sherlock pensou que o barão o estivesse convidando para subir na mesa, mas cordas e fios distenderam-se subitamente dentro da manga do uniforme militar do barão e uma lâmina brilhante escorregou para fora de uma bainha presa em seu antebraço. Os dedos esquálidos fecharam-se em torno do cabo, não tanto para controlar a lâmina, mas para dar a ela alguma direção.
Sherlock recuou até uma armadura que estava ao lado da porta. Agarrou a espada da mão metálica, derrubando todo o conjunto.
O menino percebeu que o Sr. Surd saía da escuridão, e que seu chicote pendia ameaçador de sua mão, mas então o barão saltou de cima da mesa, brandindo a lâmina em sua direção. A estrutura que o sustentava tinha uma base de rodas, e havia mais criados atrás dela, empurrando e puxando, movimentando-a pela sala. Maupertuis podia chegar a qualquer parte dela em segundos, mais depressa do que Sherlock era capaz de mover-se.
O barão atacou com seu sabre. Sherlock bloqueou a investida de maneira inábil, e o impacto das armas lançou ondas de dor pelos músculos de seu ombro. Faíscas desprenderam-se quando as lâminas entraram em contato. O barão fez uma investida, aproximando-se de Sherlock e desferindo um golpe descendente em direção à sua cabeça. O menino rolou para a esquerda e a arma rasgou o encosto da cadeira em que momentos antes ele estivera sentado, quebrando a madeira e provocando uma chuva de fragmentos por todos os lados.
Sherlock olhou desesperado para a direita. Virginia afastava-se do Sr. Surd, que desenrolava o chicote. Ele a atacou, e a ponta metálica cortou o ar como uma serpente dando o bote. Virginia se encolheu, mas era tarde demais. O golpe cortou sua bochecha. Sangue espalhou-se em forma de flor por seu rosto.
Sherlock queria muito ajudá-la, mas nesse momento o barão aterrissou com suavidade à sua frente. Investindo contra os pés do homem, o menino moveu a espada em um arco, tentando cortar alguma das cordas que o sustentavam, mas os criados mascarados puxaram seu mestre para trás, para fora do alcance de Sherlock. O rosto branco e cadavérico do barão distendeu-se num sorriso sinistro. Ele atacou: o pé direito deslizava sobre o tapete e o braço direito empunhava o sabre e esticava-se para a frente numa investida perfeita, enquanto o pé esquerdo impulsionava o corpo. Sherlock ouvia os grunhidos dos criados que, nas sombras, usavam toda a força no mecanismo que sustentava o barão. A lâmina avançou na direção da garganta de Sherlock. Ele tentou bloquear o golpe, mas tropeçou em uma dobra do tapete e caiu de costas, batendo com a cabeça no chão.
— Fui o maior espadachim de toda a França! — Maupertuis gabou-se. — E ainda sou!
Virginia gritou, e Sherlock olhou instintivamente em sua direção. O Sr. Surd encurralara-a contra a parede. Havia outro corte em seu rosto, agora na testa. O vermelho do sangue era ofuscado pelo tom cobre dos cabelos, brilhando na luz do sol que penetrava pela janela descortinada. Sherlock tentou aproximar-se dela, mas a lâmina do barão apareceu inesperadamente, rasgando a gola da camisa e abrindo uma linha de fogo em seu peito. Levantando-se de um salto, o garoto recuou rapidamente, movendo a espada diante de si, numa tentativa desesperada de bloquear as investidas do barão.
Com um ranger de cordas e da estrutura de madeira, o corpo do barão levitou e voou para a frente de um jeito que nenhum espadachim humano poderia fazer. Ele moveu o sabre no sentido horizontal, como se fosse uma foice. Apesar da alegação de que fora um grande espadachim, qualquer noção de técnica deve ter sumido de sua mente naquele momento. Ele apenas atacava aleatoriamente, e os braços de Sherlock já estavam cansados de bloquear os golpes. Os músculos queimavam e os tendões estavam tensos como cordas de um violino.
Alguma coisa passou voando perto da cabeça de Sherlock, e ele se virou para olhar. Era uma luva de metal, parte da armadura que ele derrubara. Virginia a pegara do chão e a arremessara contra o Sr. Surd, que protegia o próprio rosto. A menina apanhou uma bota de metal e a lançou. Atingiu o Sr. Surd bem em cima de um olho, e ele praguejou.
Sherlock recuou enquanto Maupertuis se aproximava, com o ranger das cordas causado pelo esforço de sustentar o homem desfeito. Como os criados mascarados conseguiam coordenar seus movimentos com tanta perfeição? Maupertuis caminhava também como qualquer outra pessoa. Havia até certa arrogância em seus passos.
O barão levantou seu sabre até perto de sua orelha esquerda e atacou no sentido diagonal e descendente, contra a cabeça de Sherlock. O menino bloqueou o golpe. O encontro das duas lâminas lançou uma chuva de fagulhas em todas as direções, como insetos cintilantes, que queimaram os ombros e o pescoço de Sherlock.
Não havia esperança: Maupertuis era um mestre espadachim, mesmo limitado como estava, com todos os movimentos controlados por criados anônimos. Ou esses empregados eram mestres espadachins também – uma possibilidade na qual Sherlock quase podia acreditar – ou haviam treinado com o barão por tanto tempo, que operavam instintivamente, como se constituíssem um único organismo, sem a necessidade de comunicação ou pensamento. Quantos milhares de horas Maupertuis teria passado treinando-os, até que fizesse deles quase uma extensão de sua vontade?
Sherlock recuou, mas seu cotovelo e seu ombro chocaram-se contra algo duro. A parede! Não tinha mais para onde fugir.
O cotovelo de Maupertuis foi puxado para trás e o sabre avançou como um raio. Desesperado, Sherlock escorregou para o lado, e a lâmina cortou a gola de sua jaqueta, encaixando-se no vão entre dois blocos de pedra. Sherlock tentou afastar-se, mas estava preso pela lâmina, espetado como uma borboleta em um quadro.
O menino preparou-se, à espera de que Maupertuis removesse a lâmina para desferir o golpe final, de modo que pudesse escorregar para baixo e escapar. Mas, em vez disso, Maupertuis levantou a mão esquerda. Cordas e fios moviam-se como tendões, e alguma coisa surgiu da manga de sua casaca. Por um momento Sherlock pensou que fosse uma faca, mas havia algo estranho na ponta. Era uma espécie de disco metálico com uma borda serrilhada.
Alguma coisa zumbiu na escuridão atrás de Maupertuis e o disco começou a girar, espalhando cintilantes raios de luz para todas as direções. Sherlock sentia o deslocamento de ar bem próximo ao rosto à medida que o barão aproximava mais e mais o disco giratório de seu olho direito.
O desespero invadiu-o. Não era páreo para aquele oponente. Não sobreviveria por muito tempo àquele tipo de punição.
Mas precisava salvar Virginia.
A ideia deu-lhe forças para um último esforço. Ele se retorceu, tirando o braço da manga da jaqueta e caindo no chão de pedras no mesmo instante em que o disco acertava a parede, abria nela uma fenda rasa e espalhava faíscas vermelhas e fragmentos de pedra. O barão praguejou e tentou retirar o sabre do buraco entre os blocos.
Se Sherlock não podia vencê-lo com sua habilidade de espadachim, ele o faria com a capacidade de seu cérebro. Tudo o que tinha de fazer era identificar uma única vulnerabilidade, algo que pudesse explorar. E precisava ser algo relacionado com os movimentos do barão. Essa era sua fraqueza. Sherlock tentou mais uma vez cortar as cordas que o sustentavam, mas o barão anteviu esse tipo de ofensiva e bloqueou a lâmina sem nenhuma dificuldade, usando a serra giratória em sua mão esquerda, enquanto a direita recuperava a lâmina presa à parede.
Ao recuar Sherlock quase tropeçou nos restos da cadeira em que estivera sentado, que fora quebrada pelo sabre do barão. O menino ouviu o som da madeira quando a chutou, e o esboço de um plano surgiu em sua mente. Sem perder tempo na consideração dos detalhes, Sherlock abaixou-se e pegou o maior pedaço da cadeira com a mão esquerda: uma parte formada pela maior porção de um braço, parte do assento e uma perna entalhada. Quando o barão investiu contra a testa desprotegida de Sherlock, o menino levantou o pedaço da cadeira. A lâmina enterrou-se profundamente na madeira. Antes que o barão pudesse puxá-la, Sherlock empurrou a madeira, levantando a espada acima da cabeça do barão. O dorso de sua mão roçou numa das cordas que sustentavam Maupertuis. Ele virou a madeira, quase arrancando a arma da mão do barão, e prendeu-a atrás de várias outras cordas, depois a virou novamente, até a posição anterior. Preso entre as cordas, o pedaço de madeira ficou suspenso no ar. Sherlock soltou-o, e em seguida segurou, primeiro, uma, e, depois, outra das cordas restantes, e usando toda a força dos músculos enroscou-as para trás da madeira.
— O que está fazendo? — o barão gritou.
Mas era tarde demais. As cordas que o mantinham em pé eram agora uma cama de gato, presas pelo pedaço de cadeira. Maupertuis balançava, impotente. Os criados no fundo escuro da sala empregavam toda a força, mas não conseguiam nenhum resultado. Não tinham êxito em remover o pedaço de madeira do meio das cordas.
Sherlock deu um passo para trás e moveu a espada contra as cordas, cortando cinco ou seis delas. Com a súbita remoção da tensão, elas ricochetearam em um canto da sala. Os braços do barão caíram, inertes, e sua cabeça pendeu para um lado.
— Você vai pagar por isso — ele sibilou.
— Mande a fatura — Sherlock respondeu em um tom calmo. Ele virou-se para onde Virginia estava, pronto para partir em socorro da amiga, quando a viu descer com força o pontudo elmo da armadura sobre a cabeça do Sr. Surd. O homem caiu no chão, inconsciente e sangrando.
— Eu ia ajudar você — Sherlock disse.
— Estranho — ela respondeu. — Eu também ia ajudá-lo.

5 comentários:

  1. Ah meu deus. Quase tive um ataque do coração uma 4 vezes

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  2. Só tenho uma coisa a dizer:
    Uau

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  3. Manda a fatura...kkkk 😂 muito bom Sherlock, melhor comentário dele até agora 😁.

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  4. Quando a viu descer com força o pontudo elmo da armadura sobre a cabeça do Sr. Surd. O homem caiu no chão, inconsciente e sangrando. VIRGÍNIA S2

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Boa leitura :)