25 de julho de 2017

Capítulo quatro

SHERLOCK SENTIU UM ARREPIO. Seria eliminado, seu corpo seria jogado em algum lugar como um saco de cascas de batata! Ele olhou para os dois homens tentando pensar em um jeito de escapar, mas Ives estava parado na porta e o baixinho careca bloqueava o caminho para a janela. E, mesmo que conseguisse chegar à janela, para onde iria? Eles o seguiriam, o pegariam e o jogariam de cima do telhado ou lhe dariam um tiro.
— Por favor, senhor, eu não vi nada — choramingou Sherlock, tentando ganhar tempo.
— Não banque o inocente comigo, garoto — Ives grunhiu. Depois, caminhou para o corredor e fez um gesto mandando Sherlock segui-lo. — Por aqui, e seja rápido. — Ele olhou para o baixinho careca, que Sherlock presumiu ter algum tipo de conhecimento médico, considerando que Ives ouvia e acatava seus comentários ferimentos e insanidade. — Berle, deixe Booth bem preso e depois trate de pôr Gilfillan de pé. Quero sair daqui. Muita gente já viu que há algo estranho nesta casa. Garanto que nosso amigo não veio atrás da bola perdida. Ele veio por causa de uma aposta ou porque queria ver o que estávamos fazendo.
Sherlock estava no corredor. Ele olhou para trás, para Berle, que evitava encará-lo.
— Por favor, senhor, não deixe seu amigo me machucar — choramingou, mas Berle olhou para John Wilkes Booth, ainda inconsciente em cima da cama.
— Sinto muito, garoto — Berle murmurou —, mas há muita coisa em jogo aqui. Se Ives diz que você tem que morrer, você tem que morrer. Não vou me meter nisso.
Berle hesitou por um momento, olhando para alguma coisa sobre a cômoda.
— E quanto a isso aqui? — perguntou a Ives.
— O quê?
Berle estendeu o braço e pegou um recipiente de vidro coberto com um pedaço de gaze. A tampa improvisada estava presa ao gargalo por um elástico. De onde estava, Sherlock conseguiu ver pequenos furos feitos na gaze com uma faca afiada. Era o tipo de coisa que uma criança faria para guardar uma lagarta ou um besouro vivo – cobrir o pote para não deixar a criatura fugir e furar o tecido para que o animal possa respirar – mas não conseguiu ver insetos ou qualquer outra criatura no interior do vidro. A única coisa que havia ali era uma massa vermelha e brilhante, como o pedaço de um fígado ou um grande coágulo de sangue.
Ives não parecia preocupado.
— Vamos levar com a gente — ele anunciou. — O chefe mandou. Ele quer essa coisa quase tanto quanto quer Booth.
Berle sacudiu o pote sem esconder a dúvida.
— Tem certeza de que está vivo?
— É bom que esteja. O chefe não costuma ter paciência com quem o desaponta, e essa coisa foi trazida lá de Bornéu. — O rosto de Ives assumiu uma expressão preocupada. — Uma vez ouvi dizer que um criado dele derrubou uma jarra de julpepo de menta gelado na varanda. Duke simplesmente olhou para ele, sem falar nada. O empregado começou a tremer e foi recuando pelo jardim, que terminava na margem de um rio. Tremendo e chorando, ele caminhou de costas até entrar no rio e desaparecer. Como se estivesse hipnotizado. Nunca mais foi visto. Duke uma vez comentou que há jacarés naquela água, mas não sei se é verdade.
Berle ainda parecia em dúvida.
— Acho que Duke teria usado uma daquelas coisas que ele mantém em coleiras. Não são seus matadores?
— Talvez ele só quisesse provar algo. Talvez as tais coisas não estivessem com fome. — Ives balançou a cabeça. — Não importa. Vamos levar esse pote conosco. Assunto encerrado.
Ele empurrou Sherlock pelo corredor até a escada, sempre com o cano da arma encostado em suas costas.
— O que vai fazer comigo? — Sherlock perguntou.
— Não posso atirar — resmungou Ives. — Quer dizer, a menos que você me deixe sem alternativas. Se alguém encontrar o corpo de um garoto baleado, com certeza vai haver uma investigação, e uma casa com quatro estranhos vai ser o primeiro lugar que a polícia vai revistar. Eu poderia usar uma dose de um daqueles medicamentos do Berle, mas seria desperdício. Talvez a gente precise de todos eles, considerando a velocidade com que Booth vence o efeito das drogas. Não, acho que vou sufocar você com um pedaço de pano na boca. Assim não vai haver sinais evidentes de violência. Há uma pedreira perto daqui. Vou pôr seu corpo no carrinho, cobri-lo com sacos e levá-lo até lá. Posso até escolher em que buraco vou jogar você. E se você for encontrado, as autoridades vão deduzir que caiu e bateu a cabeça.
— Isso é mesmo tão importante? — Sherlock perguntou.
— Isso o quê?
— O que estão fazendo aqui. É tão importante que precisa me matar para se certificar de que ninguém vá descobrir?
Ives riu.
— Ah, as pessoas vão descobrir, sim. Com o tempo, o mundo vai descobrir, mas isso só vai acontecer no momento em que nós quisermos.
Sherlock estava no alto da escada, e Ives fez um sinal indicando que ele devia descer, seguir para o primeiro andar.
Sherlock obedeceu relutantemente. Sabia que teria que tentar fugir em algum momento, mas se tentasse agora Ives atiraria e levaria seu corpo para algum lugar, um buraco qualquer onde ele nunca seria encontrado. Correr também não serviria para nada, seria apenas uma inconveniência passageira que Ives resolveria rapidamente. Talvez tivesse uma chance quando estivessem do lado de fora.
Enquanto descia a escada, Sherlock sentiu alguma coisa sob a sola do sapato; alguma coisa que caíra no tapete. Antes que pudesse ver o que era, Ives o empurrou para a frente. Curioso, Sherlock virou-se bem a tempo de ver um pedaço de barbante esticado na escada, do corrimão à parede. Foi nele que pisara.
Ives tropeçou no fio quando descia o degrau. O pé ficou preso e o corpo continuou, impelido pela inércia. Seus olhos se arregalaram comicamente quando ele começou a cair. As mãos tentaram agarrar o corrimão e a parede, onde o revólver bateu antes de cair. Sherlock deu um passo para o lado e Ives passou rolando por ele. O homem girou várias vezes até chegar ao primeiro andar, onde ficou estendido.
Parado na metade da descida, Sherlock olhou para baixo, pelo corrimão. Lá embaixo, à sombra da escada, viu o rosto pálido de Matty olhando para ele. O garoto segurava a ponta de um barbante. O mesmo que Sherlock vira estendido no degrau da escada. Seguindo o caminho do fio, notou que um prego havia sido enfiado sem nenhum cuidado numa fresta entre o rodapé e a parede. O barbante estava preso à cabeça do prego.
— Você teve sorte de esse prego não ter se soltado quando o peso dele puxou o barbante — Sherlock observou calmamente, embora sentisse o coração batendo com força no peito.
— Não — Matty corrigiu. — A sorte foi sua. Pra mim, não teria feito nenhuma diferença. Ele não sabia que eu tava aqui.
Sherlock terminou de descer a escada e abaixou-se para examinar Ives. Ele estava inconsciente e havia uma mancha vermelha bem feia em sua testa. Mesmo assim, Sherlock pegou a arma. Precaução nunca é demais.
Matty juntou-se a ele.
— Qual é o seu problema com a casa das outras pessoas? — ele perguntou.
— Como assim?
— Quero dizer que tô sempre tirando você de alguma confusão. — Matty olhou para o alto da escada. — O que tá acontecendo lá em cima? Vi quando o sujeito com o rosto queimado puxou você para dentro da casa e depois vi os outros dois chegando em uma carroça. E quando olhei de novo, vocês três tavam em cima do telhado. E vi armas, também, então achei que era melhor entrar e vir buscar você. — Ele balançou a cabeça. — Para alguém tão inteligente, você passa tempo demais preso. Não consegue resolver seus problemas na base da conversa?
— Acho que conversar é o que causa os problemas, às vezes. — Sherlock parou para pensar. — Onde conseguiu o barbante?
— No meu bolso, é claro — respondeu Matty. — Você nunca sabe quando vai precisar de um.
— Venha — Sherlock o chamou. — Vamos sair daqui.
— Tem outro homem lá embaixo, na sala — Matty avisou. — Mas ele tá desmaiado. Ou melhor, tava, quando eu cheguei. Pode ter acordado, então é melhor tomarmos cuidado.
Os dois desceram a escada até o primeiro andar e passaram pela sala de visitas, onde o homem que Sherlock havia encontrado inconsciente e ferido – Gilfillan, como Ives o chamara – agora roncava deitado no sofá. Eles passaram com cuidado, sem fazer barulho, e seguiram para a porta da frente, atravessaram o jardim e chegaram à rua, onde Matty deixara os cavalos amarrados.
— Descobriu o que queria saber? — Matty perguntou quando eles montaram.
— Acho que sim — Sherlock respondeu pensativo. — Há quatro homens na casa e todos são americanos. Ou pelo menos três são; o quarto, não tive a chance de ouvir falando. Um dos homens é mentalmente perturbado e outro é o médico que cuida dele. Acho que os outros dois o estão guardando, impedindo que fuja. Devem ter deixado um no local quando saíram. Talvez tenham saído para comprar comida ou coisa assim. Aí o homem perturbado, cujo nome é John Wilkes Booth, atacou o vigia. Depois, achou que eu estava envolvido em uma trama contra ele, por isso me puxou para dentro da casa.
— Mas o que eles tão fazendo aqui na Inglaterra? — Matty quis saber.
— Não sei, mas está acontecendo alguma coisa. Aquela casa não é uma clínica de repouso para assassinos desequilibrados.
— Assassinos desequilibrados?
— Eu conto tudo quando chegarmos à mansão.
A volta para Farnham levou cerca de uma hora e Sherlock se sentia mais desanimado a cada quilômetro percorrido. Como explicaria a Mycroft e a Amyus Crowe que sua rápida e discreta investigação havia feito com que os quatro ocupantes da casa soubessem que alguém os estava observando? Se tivesse pensado melhor, jamais teria se aproximado daquela casa.
A carruagem de Mycroft ainda estava parada em frente à mansão Holmes quando eles chegaram.
— Bem, boa sorte — disse Matty.
— O que quer dizer com “boa sorte”? — Sherlock questionou. — Não vai entrar comigo?
— Tá brincando? O Sr. Crowe me assusta e seu irmão me deixa apavorado. Vou voltar para o barco. Amanhã você me conta tudo. — Sem esperar resposta, Marty virou o cavalo e partiu em um trote rápido.
Sherlock respirou fundo e entrou em casa, atravessou o corredor até a biblioteca e bateu na porta.
— Entre — autorizou o irmão com sua voz retumbante.
Mycroft e Amyus Crowe estavam sentados lado a lado à mesa de leitura em um canto da biblioteca. Havia uma grande pilha de livros diante deles – história, geografia, filosofia – e três atlas abertos formando um grande mapa. As Américas, pelo que Sherlock conseguia ver.
Mycroft observou o irmão com ar crítico.
— Foi atacado — ele disse. — E não por alguém da sua idade.
— Nem deste país — Amyus Crowe acrescentou em voz baixa.
— Na verdade — Mycroft continuou, agora olhando para os sapatos de Sherlock —, foram dois agressores. Um deles tinha alguma deficiência mental.
— E ambos estavam armados com pistolas — Crowe disse.
— Como sabem essas coisas? — Sherlock perguntou espantado.
— Isso é uma questão insignificante — Mycroft reagiu com um gesto desdenhoso. — Explicar seria perda de tempo. Mais importante é saber onde você esteve e por que foi atacado.
Relutante, Sherlock contou aos dois tudo o que havia acontecido, concluindo com o anúncio de que ainda estava com a pistola de Ives nas costas, enfiada na cintura da calça. Ele a pegou e colocou sobre a mesa, diante dos dois homens.
— Uma Colt, modelo do Exército — Crowe observou sem se alterar. — Calibre .44, seis balas. Trinta e cinco centímetros do martelo à ponta do cano. Substituiu a Colt Dragoon como arma preferida do Exército dos Estados Unidos. Precisão de aproximadamente cem metros. — Ele deu um soco na mesa, fazendo a pistola pular. — O que estava pensando quando foi àquela casa? — gritou. — Agora Booth e os homens que o estão mantendo em cativeiro sabem que estamos atrás deles! Vão desaparecer num piscar de olhos.
Sherlock mordeu a parte interna do lábio, tentando engolir a resposta.
— Eu só queria olhar — acabou falando. — Achei que poderia ajudar vocês.
— Não ajudou; pelo contrário, só atrapalhou — Crowe explodiu. — Isso é assunto de adulto. Você não tem a habilidade nem o conhecimento para fazer as coisas como devem ser feitas.
Uma parte da mente de Sherlock – a parte analítica e destituída de emoção – percebeu que o sotaque de Amyus Crowe aparecia mais quando ele estava zangado, mas a maior parte ainda se encolhia por saber que havia desapontado dois dos três homens cuja opinião ele mais considerava. Sherlock tentou pedir desculpas, mas a boca seca o impedia de falar.
A expressão no rosto de Mycroft era de decepção, não de raiva.
— Vá para o quarto, Sherlock — ele disse. — Vamos chamá-lo quando... — Ele olhou para Crowe. — ... pudermos ter certeza de que a conversa será mais calma. Agora vá.
Sentindo o rosto queimar de vergonha, Sherlock se virou e saiu da biblioteca.
O corredor estava abafado com o calor da tarde. Ele parou por um momento e, de cabeça baixa, deixou os sentimentos se aquietarem, esperando até se sentir capaz de subir a longa escada até seu quarto. A cabeça doía.
— Não é mais o queridinho? — perguntou uma voz nas sombras.
Sherlock levantou a cabeça e viu a Sra. Eglantine saindo do armário embaixo da escada. Ela sorria de um jeito cruel. O vestido preto de crinolina mal se movia em seu corpo, e o som do tecido arrastando no chão era quase como um sussurro em uma sala distante.
— Como consegue sobreviver nesta casa, sendo sempre tão rude com todos? — ele perguntou sem se alterar, sabendo que não tinha nada a perder. As coisas naquele dia já tinham chegado a um ponto em que não podiam piorar. — Se eu estivesse no comando, já a teria demitido há anos.
Ela pareceu surpresa com a reação. O sorriso vacilou em seu rosto.
— Você não tem nenhum poder aqui — a governanta disse irritada. — Eu tenho o poder nesta casa.
— Só até o tio Sherrinford morrer — Sherlock lembrou. — Ele e tia Anna não têm filhos, o que significa que a propriedade será herdada pela família do meu pai. E, quando isso acontecer, vai ter que ser muito cuidadosa, Sra. Eglantine.
Antes que a mulher pudesse responder alguma coisa, ele se dirigiu à escada e subiu para o quarto. Quando chegou ao patamar do segundo andar e se virou, ele a viu parada onde estava.
Sherlock deitou-se na cama, pôs um braço sobre os olhos e deixou o turbilhão de pensamentos em sua cabeça dominá-lo. Em que estivera pensando? Mycroft e Crowe haviam dito que ele não devia tentar ajudar. O que estava tentando provar, afinal?
Depois de um tempo percebeu que cochilara, porque a luminosidade no quarto parecia ter mudado, e ele sentia o braço formigar por ter ficado muito tempo na mesma posição. Sherlock levantou-se e desceu a escada devagar, mais para ir comer alguma coisa do que por qualquer outra razão. De repente estava faminto.
As empregadas arrumavam a mesa para o jantar. Mycroft estava saindo da biblioteca. Não havia nenhum sinal de Amyus Crowe.
Mycroft acenou para Sherlock.
— Está se sentindo melhor? — perguntou.
— Na verdade, não. O que fiz foi estúpido.
— Não foi sua primeira estupidez e, provavelmente, não será a última. Trate de aprender alguma lição com tudo isso. Cometer um erro é perdoável, na primeira vez. Depois disso, começa a ficar tedioso.
Uma das criadas saiu da sala de jantar com um pequeno gongo preso a uma moldura. Sem olhar para Mycroft nem para Sherlock, ela tocou o gongo uma vez, alto, e voltou à sala de jantar.
— Vamos? — Mycroft convidou o irmão.
Momentos depois Sherrinford e Anna Holmes se juntaram a eles. Mycroft passou a maior parte do jantar discutindo a precisão da tradução latina, feita a partir da grega, dos livros em hebreu e aramaico do Antigo Testamento. Tia Anna ficou a maior parte do tempo conversando com Sherrinford e Mycroft, ignorando o fato de eles já estarem conversando um com o outro, embora Mycroft, sem dúvida nenhuma por mero cavalheirismo, às vezes olhasse para ela e respondesse a alguma pergunta lançada em seu contínuo monólogo. Sherlock passou o tempo comendo evitando o olhar penetrante da Sra. Eglantine, que o encarava parada perto da janela.
Depois do jantar, Sherrinford e Anna acompanharam Mycroft até os degraus da varanda para as despedidas.
— Seu grego é fluente e seu latim também é particularmente bom — Sherrinford disse, como se esse fosse o maior elogio que ele podia fazer a alguém. — E apreciei seu discurso. Você não tem grande conhecimento do Antigo Testamento, mas já fez algumas deduções surpreendentes baseadas no que contei. Vou precisar pensar muito no que sugeriu sobre os primeiros dias da Igreja. Por favor, venha nos visitar em breve.
Tia Anna surpreendeu a todos dando um passo à frente e tocando o braço de Mycroft.
— Saiba que é sempre bem-vindo aqui — ela disse. — Eu... lamento pela animosidade que afastou a família. Queria que fosse diferente.
— Sua bondade é uma força que pode superar todas as adversidades — Mycroft respondeu num tom gentil. — E a caridade que vocês têm demonstrando cuidando do nosso jovem Sherlock é um exemplo de dignidade para todos nós. Considere os problemas superados ou, mais que isso, erradicados. — Ele olhou para dentro, para o saguão, onde Sherlock acreditava ter visto uma silhueta escura os observando. — Porém, enquanto uma determinada pessoa ainda exercer influência nesta casa, suspeito que nunca me sentirei acolhido e aceito como espera que eu me sinta.
Anna desviou o olhar. Sherlock acreditou ter visto um brilho de lágrimas em seus olhos.
— Somos o que somos — ela respondeu de um jeito enigmático. — E fazemos o que fazemos.
Mycroft recuou um passo.
— Agora me despeço — disse. — E agradeço. Posso abusar de sua boa vontade mais uma vez e pedir permissão para que Sherlock me acompanhe até a estação? A carruagem o trará de volta em seguida.
— É claro — Sherrinford concordou, com um gesto despreocupado.
Quando pegaram a estrada que saía da propriedade, Sherlock olhou para trás. Havia agora três pessoas nos degraus: a tia, o tio e a Sra. Eglantine. E, por acaso ou deliberadamente, a governanta se colocara no degrau mais alto, acima dos patrões.
— Ainda quer falar sobre o que aconteceu hoje — Sherlock deduziu quando a carruagem ganhou as ruas de pedras e o calçamento irregular.
— É claro que sim. Vamos parar na casa do Sr. Crowe, pois ainda há muito a discutir.
A carruagem chacoalhava ao longo do caminho.
Sherlock ainda sentia dolorida a área da cabeça onde o lunático o agarrara pelos cabelos, arrastando-o para dentro da casa. Levantando a mão, ele disfarçou e puxou uma mecha de cabelo, só para ter certeza de que os fios estavam presos. A dor repentina encheu seus olhos de lágrimas, mas o cabelo continuou onde estava. Graças a Deus.
Dez minutos mais tarde, a carruagem reduziu a velocidade e Sherlock viu a forma de um telhado inclinado surgindo além de um pequeno bosque de árvores baixas.
— Venha — Mycroft o chamou quando pararam diante de um portão em uma muralha de pedras. — O Sr. Crowe espera por nós.
A porta estava aberta, então Mycroft bateu e entrou em seguida, sem esperar resposta.
Amyus Crowe estava sentado em uma cadeira ao lado do fogão à lenha, seu corpo avantajado fazia com que a estrutura de madeira parecesse pequena. Ele fumava um cigarro.
— Sr. Holmes — disse tranquilo, movendo a cabeça em um cumprimento breve.
— Sr. Crowe — Mycroft respondeu. — Obrigado por nos receber.
— Por favor, sentem-se.
Mycroft escolheu a única poltrona confortável na sala. Sherlock ficou com uma banqueta perto da lareira vazia e apagada. O chalé de Amyus Crowe continuava tão desarrumado quanto ele lembrava. Uma faca fincada no console de madeira da lareira prendia uma pilha de cartas, e um único pé de chinelo no chão, na frente da mesma lareira, servia de cinzeiro para vários cigarros que apontavam para todos os cantos. E havia um mapa da região preso à parede por alfinetes de desenho, com círculos e linhas traçados em um padrão aparentemente aleatório. Algumas linhas continuavam pelo gesso da parede.
Sherlock se perguntou onde estava a filha de Crowe, Virginia. Não havia nenhum sinal dela no chalé e, conhecendo sua atitude voluntariosa e firme, sabia que ela não aceitaria ficar trancada no quarto enquanto os adultos conversavam. Talvez estivesse cavalgando pelo campo, como parecia fazer na maior parte do tempo. Não vira Sandia, sua égua, do lado de fora.
Ele sorriu. Virginia odiava ficar em espaços fechados. Em alguns aspectos, era mais parecida com um animal do que com uma pessoa.
— Posso oferecer uma taça de xerez? — Crowe propôs. — Eu não suporto, o sabor me faz pensar que alguma coisa entrou no barril e morreu, mas sempre tenho uma garrafa para os visitantes.
— Obrigado, mas não — Mycroft respondeu. — Sherlock não bebe e eu prefiro um conhaque neste horário. — Ele olhou para o irmão. — A América ainda não conseguiu desenvolver uma bebida nacional — disse. — Os franceses têm vinho e conhaque, os italianos têm a grappa, os alemães têm a cerveja de trigo, os escoceses, o uísque, e os ingleses, a cerveja de cevada, mas nossos primos do outro lado do Atlântico ainda estão construindo sua identidade.
Sherlock teve a impressão de que Mycroft não estava falando realmente sobre bebidas, mas tentando provar alguma outra teoria mais sutil. Infelizmente, não conseguiu descobrir qual era, por mais que se esforçasse.
— Os mexicanos tomam uma bebida que destilam a partir do cacto — Crowe comentou bem-humorado. — O nome é tequila. Talvez possamos adotá-la.
— O que é um cacto? — Sherlock perguntou.
— É uma planta de polpa abundante com a casca espessa e coberta de espinhos — explicou Crowe. — Cresce no calor das terras áridas do Texas e do Novo México e também na Califórnia. A casca grossa retém a água, dificultando a evaporação, e os espinhos afugentam vacas, cavalos e outros animais que poderiam comer a planta por seu alto teor de água. O cacto é a prova de que ou um Projetista criou coisas diferentes para ambientes diferentes, para facilitar a sobrevivência de todas as espécies, ou que existe uma força que faz os organismos vivos mudarem e se desenvolverem de modo a sobreviver no ambiente em que se encontram, como defende o Sr. Charles Darwin. Cada um aposta na alternativa que considera mais provável.
— De volta ao assunto em pauta, o que conseguiu descobrir? — perguntou Mycroft.
Crowe deu de ombros.
— Achei a casa. Está vazia. Parece que os ocupantes saíram às pressas. Conversei com um agricultor da região que os viu indo embora. Ele disse que eram quatro homens. Um deles parecia estar dormindo, outro tinha um curativo na cabeça e os outros dois iam carrancudos como se previssem uma jornada desagradável.
— As aves levantaram voo — Mycroft pensou por um momento. — Há mais alguma evidência de que o homem adormecido era John Wilkes Booth?
Crowe deu de ombros novamente.
— Com exceção do que seu irmão nos disse, nenhuma. Faz sentido que ele tenha o rosto marcado por uma queimadura grave. A última notícia que se soube de John Wilkes Booth foi que esteve envolvido em um tiroteio com o Exército na Virgínia, dentro de um celeiro. Os militares o perseguiram e exigiram que se rendesse, mas Booth começou a atirar. O Exército revidou e em algum momento do confronto o celeiro pegou fogo. Deve ter sido uma lamparina a óleo derrubada pelas balas. Quando o incêndio foi controlado, os militares recolheram um corpo no meio dos escombros. As queimaduras eram tão extensas que não foi possível identificar a vítima, mas presumiram que fosse Booth. Agora tudo indica que Booth conseguiu escapar, e que algum cúmplice dele entrou no fogo mas não conseguiu sair a tempo. — Crowe parou e pensou por um instante. — Booth sempre foi nervoso. Parece que agora a enormidade do que ele fez e o incêndio do qual escapou fizeram o homem enlouquecer de vez. O que me interessa nisso tudo é que ele está evidentemente sob os cuidados e a proteção de algum tipo de organização que precisa dele por algum motivo. Booth não vai liderar mais ninguém, a julgar pelo que disse nosso rapaz aqui, então... que utilidade ele tem para aqueles homens?
— Ele é um chamariz — Mycroft continuou. — Deve ser o mais famoso confederado depois do general Lee e de Jefferson Davis. Se ainda há algum resquício de apoio aos confederados em qualquer lugar da América, e se eles têm algum interesse em depor a nova presidência e empossar outra mais favorável aos objetivos do grupo, John Wilkes Booth seria o homem ideal para ser usado como chamariz. Tudo o que têm a fazer é exibi-lo em algumas reuniões secretas e ressaltar sua coragem de tentar derrotar a União com algumas balas miradas nas pessoas certas e logo terão reunido uma multidão histérica.
Crowe balançou a cabeça ao dizer:
— Era isso o que eu temia. Não importa se ele enlouqueceu; o grupo só precisa medicá-lo na dose certa, acalmá-lo e mantê-lo de pé em um palco, e assim será possível fazer todo tipo de discurso usando-o como veículo. Qual é a posição do governo britânico em relação a tudo isso?
— Não tenho como falar pelo governo britânico — Mycroft respondeu com cautela —, mas sei que o Ministério das Relações Exteriores é favorável ao regime atual e não gostaria de ver uma insurgência da Confederação. A escravidão é uma prática repugnante que precisa ser banida. A primeira atitude de um presidente confederado seria reverter os avanços do regime do presidente Lincoln e de seu sucessor. Isso não pode acontecer.
Crowe suspirou.
— Eles vão tentar voltar aos Estados Unidos, não vão?
Mycroft assentiu.
— Então, tenho que segui-los.
— Podemos enviar um telegrama — sugeriu Mycroft. — A mensagem atravessaria o Atlântico mais depressa.
Crowe balançou a cabeça.
— Não sabemos em que navio embarcarão.
— Podemos analisar os manifestos de carga. É certo que eles vão viajar com nomes falsos, mas podemos buscar quatro homens viajando juntos, um deles evidentemente doente.
— Não vão viajar juntos — Crowe disse em um tom firme, parecendo estar muito seguro. — Comprarão as passagens separadamente, e é bem possível que contratem um enfermeiro para acompanhar Booth na travessia. Não, estaremos tentando rastrear quatro indivíduos cujas descrições são tão vagas quanto seus verdadeiros nomes. — De repente, ele bateu no braço da cadeira com o punho fechado, fazendo Sherlock pular de susto. — Sou um rastreador. Tenho que encontrá-los. É simples assim. Vou presumir que eles estão a caminho de Nova York e começar por lá.
— Eu poderia ajudar — Sherlock sugeriu, surpreendendo até a si mesmo. — Posso ir às docas e ficar atento a quem está embarcando nos navios.
— Não sabemos onde eles vão embarcar — Crowe ponderou.
— Sim, pode ser em Southampton, Liverpool ou mesmo em Queenstown — Mycroft acrescentou com tranquilidade. — Um garoto não pode vigiar três portos, por mais esperto que seja.
— Mas... — Sherlock começou a falar e parou.
O que queria dizer era que Crowe não podia deixar a Inglaterra, porque ele estava apenas começando a entender as lições que o tutor lhe ensinava, e que, se fosse mesmo partir, não poderia levar a filha, Virginia. Sherlock começava a desenvolver fortes sentimentos por ela, sentimentos que ele não entendia, que o enchiam de medo, mas que queria explorar, descobrir aonde o levariam. Porém, sabia que nenhum desses argumentos se sustentaria quando fosse contraposto a uma vaga, mas evidentemente importante, conspiração contra o governo de um país inteiro.
De um jeito ou de outro, tudo indicava que sua vida ia virar de cabeça para baixo.
De novo.

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