16 de julho de 2017

Capítulo quatro

AMYUS CROWE TIROU UM LENÇO do bolso e entregou-o a Sherlock. De outro bolso, tirou um cantil de metal, achatado e curvo para ajustar-se ao formato de seu corpo, e envolvido por uma faixa de couro. Crowe desenroscou a tampa e despejou um líquido marrom no lenço que Sherlock segurava, encharcando-o. Um cheiro acre se desprendeu do material ensopado, irritou o nariz de Sherlock e fez seus olhos lacrimejarem.
— Conhaque — Crowe explicou, em resposta à expressão hesitante de Sherlock. — Por precaução, caso o que tenha matado esse homem seja contagioso. Não queremos pegar o que o levou deste mundo, seja o que for. — De outro bolso ele tirou mais um lenço, e repetiu o procedimento.
— O que o matou? — perguntou Sherlock, confuso. — Com certeza, foi algum tipo de doença. Olhe para o rosto dele!
Os olhos azul-claros de Crowe fixaram o rosto de Sherlock. Ele o encarou com interesse por alguns instantes, ainda segurando o lenço.
— Você acredita que as doenças sejam apenas coisas que acontecem? Que as doenças não precisam de ajuda para desenvolver-se em um corpo?
— Suponho que sim — admitiu o menino. — Nunca pensei nesse assunto de verdade.
— Mas você sabe que as doenças podem ser passadas de uma pessoa para outra, se elas se tocarem ou ficarem próximas.
— Sim... — Sherlock respondeu cauteloso, perguntando-se o que o tutor queria com aquilo.
— Então, não faz sentido que alguma coisa passe de uma pessoa doente para outra saudável, e faça esta adoecer?
Sherlock ficou em silêncio. Sabia que isso se transformaria em mais uma lição, independentemente do que dissesse.
— Estive em Viena há alguns anos — disse Crowe. — Conheci um homem chamado Ignaz Semmelweis, que era húngaro e trabalhava com mulheres que estavam prestes a dar à luz. Ignaz percebeu que as mulheres atendidas por médicos ou estudantes de medicina tinham mais probabilidade de morrer de febre puerperal que as atendidas por parteiras. Sujeito inteligente, esse Semmelweis. Muitos outros médicos encerrariam o assunto por ali, mas ele percebeu que era comum os médicos acompanharem um parto imediatamente depois de fazerem uma necropsia. Obrigou-os, então, a lavar as mãos com água e cal antes de examinarem as gestantes, e os índices de mortalidade devido à febre puerperal despencaram no hospital que ele comandava. Ficou evidente que a cal matava ou destruía algo nas mãos dos médicos que, de outra forma, teria passado dos cadáveres para as mulheres. — Ele levantou o lenço. — E por isso o conhaque. O efeito é semelhante.
— Que tipo de coisa? — perguntou Sherlock.
Crowe sorriu.
— O escritor romano Marco Terêncio Varrão disse: “... certamente existem criaturas minúsculas, invisíveis aos olhos, que flutuam no ar e penetram no corpo pela boca e pelo nariz, podendo causar graves doenças.” Não é o tipo de clássico que você estudou na escola, eu acho. Fala-se sobre essas criaturas minúsculas há séculos, mas a medicina não leva isso a sério.
— Não podemos simplesmente deixar o corpo aqui e informar alguém? — perguntou Sherlock. — Não seria mais seguro... para nós?
Crowe olhou para as árvores e os arbustos que os cercavam.
— É muito provável que uma raposa ou um texugo aproximem-se e se esbaldem de tanto comer. Não conheço este homem, mas não desejaria esse destino para ninguém, vivo ou morto. Não, mais cedo ou mais tarde, ele terá de ser removido do bosque para ser enterrado, e agora é um momento tão bom quanto qualquer outro. Não corremos nenhum risco, contanto que não o toquemos e que usemos essas máscaras.
Crowe amarrou o lenço cuidadosamente sobre o rosto. O conhaque que encharcava o tecido fez seus olhos lacrimejarem. Ele riu, e as linhas profundas em torno de seus olhos acentuaram-se.
— Eu nunca disse que esse conhaque era bom — disse ele. — Na verdade, sugiro que nem experimente. Agora, corra e vá buscar um carrinho de mão no jardim. Traga-o aqui depressa.
Deixando Crowe debruçado sobre o corpo e enfiando o lenço no bolso para usá-lo depois, Sherlock voltou apressado pelo bosque em direção à mansão. Orientando-se pelas árvores, arbustos e plantas que Amyus Crowe apontara anteriormente, Sherlock correu, sentindo a relva roçar seus tornozelos. O cheiro de samambaias secas e lavanda invadia suas narinas. Suor brotava na testa e nas costas, e Sherlock sentia-o escorrer pelo rosto e pelo corpo.
Quando saiu do bosque e irrompeu no espaço aberto que o separava da casa, parou por um instante, para recuperar o fôlego e acalmar-se. O sol vespertino o cegou e perturbou por um momento, atingindo-o tão intensamente quanto uma pancada na cabeça. Ele curvou-se, apoiou as mãos nos joelhos e encheu os pulmões com o ar morno. Sons que tinham sido abafados pelas árvores – o corte de lenha, o grunhir distante de porcos, o canto de alguém – de repente pareciam gritar pela atenção de Sherlock.
Ao endireitar o corpo e levantar os olhos, o menino observou uma imagem à distância: alguém montado em um cavalo, do outro lado da muralha, pouco depois do portão principal que levava à estrada. O cavalo estava parado, e Sherlock tinha a impressão de que a pessoa no animal olhava em sua direção. Ele ergueu a mão tentando proteger a vista contra o sol, mas no momento em que seus dedos passaram em frente aos olhos o cavalo moveu-se e a imagem desapareceu.
Parando de pensar no desconhecido, Sherlock encontrou um carrinho de mão perto do galinheiro e rapidamente o empurrou de volta pelo bosque até onde o corpo jazia. Crowe vasculhava os bolsos do morto.
— Não há nada que diga quem ele é — ele disse sem olhar em volta. Sua voz soava abafada pelo lenço. — Você o reconhece?
Sherlock olhou para o rosto inchado, sentindo um embrulho no estômago. Tentou ignorar as bolhas e a vermelhidão e enxergar os traços do rosto.
— Acho que não — ele respondeu depois de algum tempo —, mas é difícil dizer.
— Olhe as orelhas. Cada pessoa tem orelhas bastante características. Algumas não têm lóbulos, algumas são dobradas e outras são conchas perfeitas. É uma maneira simples de diferençar as pessoas, especialmente se elas tentam se disfarçar.
Sherlock conteve o impulso de dizer que o homem no chão não estava em condições de disfarçar sua identidade e concentrou-se na orelha esquerda do cadáver, que estava visível. Notou uma marca na pele, mais ou menos na metade da orelha, como se o homem tivesse sofrido um corte com faca em alguma briga ou até com um machado, ao cortar lenha. O pensamento desencadeou uma lembrança: ele já tinha visto aquele homem. Mas onde?
— Acho que ele trabalha para meu tio — disse, enfim. — Eu o vi conduzindo uma carroça.
— Quando foi isso?
— Hoje de manhã. — Sherlock franziu a testa. — Mas a aparência dele é de ter estado enfermo por dias. Quando o vi, ele estava bem.
— Interessante — murmurou Crowe. — Muito bem: vamos colocá-lo no carrinho e levá-lo de volta para a casa. A governanta de cara de vinagre pode providenciar para que ele seja enviado ao corta-ossos da região.
— Corta-ossos?
— Médico — Crowe riu. — Nunca ouviu a expressão “corta-ossos” antes?
Sherlock balançou a cabeça.
— São chamados assim porque, até não muito tempo atrás, isso era tudo o que eles podiam fazer: amputar dedos, mãos ou pés, braços ou pernas, em caso de acidente — explicou Crowe, irônico. — Felizmente, a civilização avançou um pouco desde então. — Ele debruçou-se sobre o corpo, depois se endireitou e olhou para Sherlock. — Lembre-se: não toque a pele do morto — avisou. — Só as roupas. É melhor não arriscar.
A jornada pelo bosque levou quase meia hora. Amyus Crowe empurrou o carrinho de mão, no qual o corpo estava precariamente equilibrado. Sherlock correu na frente, abaixando-se e retirando pedras e galhos que poderiam desestabilizar o carrinho ou fazer Crowe tropeçar. As mãos do morto pulavam sempre que o carrinho sofria um solavanco, e isso dava a impressão de que ele esforçava-se para ficar sentado. Sherlock tentava não olhar.
Quando avistaram a casa, o garoto respirava de modo ofegante e já sentia os músculos queimarem, como resultado da fadiga. Alguém devia tê-los visto aproximar-se, porque a Sra. Eglantine já caminhava em sua direção.
Ela os encontrou quando saíam do bosque.
— Vocês não vão — ela disse rispidamente — levar essa coisa para perto da casa.
— Esta coisa — Crowe respondeu calmamente — trabalhava para seu patrão. Sei que ele está morto, mas acho que, mesmo assim, merece um pouco de respeito.
A Sra. Eglantine cruzou os braços.
— Empregado ou não, não permitirei que o leve para perto da casa. Olhe só para ele. Não sei se é varíola ou a praga, mas o corpo precisa ser queimado.
— Concordo — disse Crowe —, mas antes quero que ele seja visto por um médico. E, é claro, a família precisa ser avisada. Seja gentil e mande chamar um médico na cidade. Enquanto isso, há algum lugar no qual possamos deixar o corpo?
A Sra. Eglantine bufou.
— Há um galpão perto de onde acumulamos o estrume — disse. — O lugar não é usado para nada. Ponha-o lá. — Ela fez uma pausa. — Depois podemos queimar o galpão — acrescentou, antes de virar-se e voltar para a casa.
— Uma dama adorável — murmurou Crowe.
Sherlock indicou o caminho, contornando a casa até o local em que era guardado o estrume que seria espalhado nas hortas e nos canteiros de flores. Apesar do lenço encharcado com conhaque, o cheiro era forte e quente, e invadiu a boca e o nariz, provocando uma ânsia no fundo da garganta.
O galpão estava em péssimo estado, e Sherlock e Crowe tiveram de remover grande quantidade de pedaços de madeira e ferramentas agrícolas enferrujadas antes que pudessem levar o corpo para dentro. A luz do sol penetrava por buracos no telhado e nas paredes, iluminando alguns pontos do corpo e tendo a misericórdia de manter o restante na escuridão. Sherlock ficou imaginando que aquilo parecia um boneco grotesco em tamanho natural que tivesse sido descartado sem nenhum cuidado, com braços e pernas pendendo para fora do carrinho.
— É inútil ficarmos aqui — disse Crowe, saindo do galpão e removendo o lenço do rosto. — Volte para a casa. Peça a uma das criadas que prepare um banho para você. Um banho quente. Esfregue-se bem com sabão carbólico. Vista roupas limpas e mande queimar as que está usando agora, se elas não forem lhe fazer falta. Se não tiver muitas mais, entregue-as a uma criada, para que sejam lavadas.

Depois do banho, quando sua pele estava vermelha e sensível de tanto ser esfregada com o sabão carbólico vermelho-escuro, Sherlock vestiu roupas limpas e saiu da casa. Ainda sentia em sua pele o cheiro forte deixado pelo sabão, e os olhos ardiam. Ao contornar a casa, ainda limpando as lágrimas persistentes, viu Amyus Crowe em pé do lado de fora do galpão decadente conversando com um homem encorpado que vestia um casaco preto. Devia ser o médico da região. Quando se aproximou um pouco mais, Sherlock ouviu a voz arrogante e aguda do médico, que dizia:
— Precisamos alertar as autoridades civis. Este é o segundo corpo que encontramos apresentando os mesmos sintomas. Se isto for a praga, temos de tomar medidas preventivas imediatamente. A feira de amanhã terá de ser cancelada, e todos os estabelecimentos públicos terão de ser fechados, como forma de impedir que a doença se espalhe. Céus, talvez tenhamos, inclusive, de isolar as estradas em torno da cidade, até que o perigo passe!
— Calminha aí — disse Amyus Crowe com sua voz profunda e serena. — Só temos dois corpos. Dois pingos não formam uma tempestade.
— Mas, se esperar o temporal desabar para abrir o guarda-chuva, acabará encharcado — o médico respondeu.
De repente Sherlock percebeu que sabia mais que eles. O corpo, as bolhas, a nuvem de fumaça – tudo aquilo era exatamente o que Matty Arnatt vira quando o homem da cidade morrera. O que era aquela fumaça?
— Vamos esperar pelo menos até que um perito possa examinar os corpos.
O médico balançou a cabeça irritado.
— Que perito? Eu posso fazer necropsias, mas ver aquelas bolhas enormes foi o suficiente para mim. Devemos presumir que estamos lidando com a peste bubônica, e precisamos tomar atitudes adequadas.
Crowe levantou a mão em um gesto tranquilizador.
— Conheço um estudioso das doenças tropicais, o professor Winchcombe. Ele mora em Guildford. Podemos mandar buscá-lo. Escreverei uma carta.
— Escreva, se quiser — o médico disse —, mas, enquanto isso, eu vou falar com o prefeito e a câmara municipal, e também com o bispo de Winchester.
— Que tem ele com isso? — perguntou Crowe.
— O castelo de Farnham é a residência oficial de Sua Graça.
Sherlock chegou mais perto, mas Amyus o viu e acenou, mandando que se afastasse. O menino sentiu uma pontada de raiva. Fora ele quem encontrara o corpo, e agora Crowe parecia querer mantê-lo fora da história. O que Crowe esperava? Que Sherlock ficasse longe até a conversa terminar e depois retomasse os estudos do ponto em que pararam? Ele tinha coisa melhor que fazer. Se Crowe quisesse reclamar, que escrevesse para Mycroft.
Irritado, Sherlock virou-se e caminhou na direção do bosque.
Embrenhou-se por entre as árvores e logo perdeu a casa de vista. A cada passo, sentia o solo macio sob os pés. À sua volta ouviam-se o estalar da vegetação que secava ao sol da tarde e um farfalhar ocasional quando uma ave ou uma raposa moviam-se por entre os arbustos. O cheiro de folhas úmidas emanava do solo, superando os resquícios do aroma acre do conhaque e o odor ainda mais pungente do sabão carbólico. Não havia trilhas nem caminhos que ele pudesse seguir, e Sherlock viu-se obrigado a andar com cuidado por cima de árvores caídas e a contornar arbustos espinhosos se quisesse fazer algum progresso.
Penetrara no bosque por um local diferente daquele pelo qual ele e Crowe tinham entrado antes, e não sabia ao certo onde estava. Tanto podia estar no meio da floresta quanto nos seus limites, e, se não prestasse atenção, continuaria andando até que de fato fosse parar no centro da mata. Não tinha como verificar em que direção seguia, e, por mais que tentasse catalogar a forma das árvores pelas quais passava, todas eram muito semelhantes.
Alguma coisa o atraía mais e mais para o interior do bosque, algo primitivo, que ele não entendia. Tinha gente que falava sobre cidades e vilarejos como se tivessem personalidade própria, e Sherlock experimentara essa sensação em Londres, nas visitas ocasionais que fizera com o pai, e em menor medida em Farnham, com Matty Arnatt, mas ali ele podia sentir um tipo diferente de personalidade. Algo sombrio e atemporal. O que quer que fosse, aquilo vira a morte do empregado da mansão Holmes e não se incomodara, assim como não se incomodara com centenas, milhares, milhões de mortes de humanos e animais testemunhados ao longo de milênios.
Afastando da mente seus receios, Sherlock encontrou por acaso as marcas deixadas pela roda do carrinho de mão e seguiu-as até o local da descoberta do corpo. A vegetação amassada pelo cadáver já voltara ao normal, e não havia nenhuma indicação de onde ele estivera. Ele só conseguiu identificar o ponto exato porque ali desapareciam as marcas da roda.
Sherlock olhou para o solo, sem saber ao certo o que procurava. Tentou visualizar como tinham sido os últimos momentos de vida do homem. Delirante, ele cambaleara até a clareira, caíra de joelhos e depois desabara completamente no chão; ou apenas caminhara, sem saber que estava doente, até de repente perder os sentidos e ficar ali caído e inconsciente enquanto as bolhas apareciam em seu rosto e em suas mãos? Devia ter um jeito de saber, por meio do estudo de suas pegadas. Se ele tivesse delirado, seus passos marcariam um caminho irregular, mas, se tivesse andado normalmente, então as marcas formariam uma linha reta. Talvez fosse útil para o médico saber a que velocidade a doença se desenvolvera, e, mesmo que a informação não servisse para nada, ao menos poderia usá-la para impressionar Amyus Crowe com sua habilidade dedutiva.
Sherlock abaixou-se e examinou atentamente o solo. As botas do homem tinham deixado uma impressão clara no solo: a sola de um pé era mais desgastada que a do outro, e Sherlock descobriu que podia distinguir com facilidade as pegadas do morto das próprias pegadas, e das de Amyus Crowe. Ele seguiu-as de volta para o meio das árvores. Eram estranhas; às vezes as marcas apontavam para uma direção; às vezes, para outra, como se o homem estivesse girando. Dançando, talvez? Não, isso era bobagem. Tonto? Sim, mais provável. Talvez a enfermidade – qualquer que fosse – tivesse afetado o equilíbrio.
O garoto acompanhou as estranhas pegadas por entre as árvores, distanciando-se da clareira, até um ponto em que elas, de súbito, tornavam-se normais. Daí em diante, seguiam numa linha reta, desviando-se aqui e ali de uma árvore ou de um tronco caído, afastando-se do que Sherlock supunha ser a mansão Holmes. Era como se o que o afetara tivesse surgido de repente: num minuto ele parecia caminhar normalmente; no outro, cambaleava e girava em círculos, como se estivesse bêbado. Então, pouco depois, ele caía. E morria.
Retornando ao local em que o estilo das pegadas mudava, Holmes ficou parado, olhando em volta, intrigado. Algo no terreno circundante o incomodava. Olhou para as árvores, os arbustos e a grama por alguns momentos, tentando entender qual era o problema, e então percebeu. A grama tinha uma tonalidade ligeiramente distinta – mais amarelada que no restante do bosque. Sherlock ajoelhou-se e tocou o chão com o dedo, manchando-se com algum tipo de poeira. Algo fora espalhado por ali; algo que não fazia parte do ambiente.
Sherlock esfregou a ponta dos dedos. Estavam engordurados. O que quer que fosse aquele pó amarelo, não se parecia com nada que ele conhecia. Sentiu um momento de pânico, o coração batendo depressa, ao pensar que o pó amarelo pudesse ser o causador da doença daquele homem, mas logo Sherlock se convenceu de que doenças não são causadas por rastros de pó, mas transmitidas de uma pessoa para a outra. Veneno também era uma possibilidade, mas que veneno poderia fazer as mãos e o rosto de um homem cobrirem-se de bolhas?
Pensando depressa, Sherlock tirou do bolso o envelope que continha a carta que recebera de Mycroft naquela manhã. Retirou a carta e a guardou de novo no bolso, depois segurou o envelope pelas beiradas para mantê-lo aberto como uma pequena boca e o arrastou na grama. Parte do pó amarelo transferiu-se para o interior do envelope. Voltou a fechá-lo rapidamente e o guardou em outro bolso. Sherlock não sabia se isso teria alguma importância, mas Amyus Crowe poderia reconhecer o pó.
Caminhando pelo bosque, acabou saindo em uma estrada, mas não sabia se era a que conduzia à mansão Holmes. Nas duas direções, a estrada desenhava uma curva, fazendo com que fosse impossível a Sherlock situar-se. Sentou-se à beira da estrada e esperou. Em algum momento, pensou, uma carroça ou uma carruagem passariam por ali, e então ele poderia pedir carona.
Era fim de tarde. Para onde queria ir, a mansão ou a cidade? Depois de alguns segundos ele decidiu que voltar para a mansão seria ir ao encontro de uma tarde de tédio. A cidade parecia muito mais interessante.
As primeiras dez ou doze carroças que passaram seguiam todas na mesma direção, e todas transportavam caixas, engradados e sacos de lona. Condutores e passageiros tinham o temor estampado no rosto. Sherlock não tinha certeza, mas imaginava que aquelas pessoas tinham escutado a notícia das duas mortes e saíam de Farnham, afastando-se da suposta praga tanto quanto possível. Ele nem se deu o trabalho de pedir carona: a expressão daquela gente sugeria que não seria bem-recebido. Depois de mais ou menos meia hora, Sherlock ouviu o barulho das rodas de uma carroça na terra batida da estrada, em sentido oposto ao percorrido pelos demais veículos. Levantou-se e ficou esperando vê-la surgir na curva.
— Com licença — disse, chamando a atenção do condutor de cabelos grisalhos e rosto magro. — Em que direção você está indo?
O homem moveu a cabeça ligeiramente para indicar a estrada à frente. Ele nem se incomodou em olhar para Sherlock, mas pelo menos puxou as rédeas para reduzir a velocidade da marcha do cavalo.
— Em que direção fica a mansão Holmes? — indagou Sherlock.
O homem inclinou a cabeça e indicou a estrada atrás de si com um gesto sutil.
— Poderia me levar até a cidade?
O condutor refletiu por um momento, depois gesticulou com a cabeça, indicando a traseira da carroça. Interpretando o gesto como um “sim”, Sherlock embarcou. A carroça acelerou em seguida, quase jogando-o para fora, mas Sherlock acabou caindo para a frente, sobre um amontoado de feno.
O carroceiro não falou nem uma palavra durante todo o trajeto, e Sherlock descobriu que também não tinha nada que dizer. Seus pensamentos alternavam-se entre o homem morto, o condutor misterioso e a figura bizarra, mas interessante, de Amyus Crowe. Para um lugar que, à primeira vista, parecera um poço de tédio, a mansão Holmes e as redondezas revelavam-se exatamente o contrário.
Sua divagação acabou levando-o à história que Matty contara sobre o cadáver que fora retirado da casa em Farnham, e à estranha nuvem que Matty dissera ter visto sair pela janela. Na ocasião, Sherlock não dera importância à história – não ao trecho que falava da nuvem, pelo menos – mas agora estava em dúvida. Se Amyus Crowe estivesse certo sobre o fato de doenças serem causadas por “criaturas minúsculas” que podiam ser transmitidas de pessoa para pessoa, então teria sido isso que ele e Matty viram? Uma nuvem dessas criaturas minúsculas causadoras de doenças?
Não fazia sentido. Ninguém jamais mencionara ter visto essas nuvens de criaturas antes. Com certeza, ele e Matty não teriam sido os únicos no mundo a vê-las, certo? Alguma outra coisa estava acontecendo.
Só quando a carroça parou com um solavanco ele percebeu que já estavam em Farnham. O condutor permaneceu imóvel como uma estátua, esperando que Sherlock desembarcasse, e depois seguiu adiante sem nem ao menos olhar para trás, enquanto o menino apalpava os bolsos à procura de moedas, certo de que teria de pagar pela carona.
Sherlock olhou em volta. Reconhecia aquela rua: era a principal, que cortava o centro de Farnham. Adiante havia um grande edifício quadrado de tijolos vermelhos cercado por arcos, um local que Matty dissera ser um armazém de grãos. Ao observar os arredores, Sherlock viu que o movimento na cidade mercantil parecia normal: pessoas andavam pelas ruas, paravam diante de vitrines ou de barracas de comida, conversavam umas com as outras ou seguiam o próprio caminho. Seria difícil encontrar contraste maior em relação à solidão sombria do bosque.
Talvez fosse imaginação de Sherlock, mas parecia que pequenos grupos formavam-se nas esquinas e na frente das lojas. As pessoas estavam com a cabeça abaixada, como se cochichassem, e olhavam desconfiadas para qualquer um que passasse pela rua. Estariam comentando a possibilidade da praga no vilarejo? Analisavam o rosto de cada indivíduo, em busca de indícios de bolhas enormes ou do rubor provocado pela febre?
Sherlock eliminou rapidamente os itens de uma lista de lugares nos quais Matty poderia ser encontrado. Ainda faltava uma hora, ou duas, para que o mercado fechasse; então, era pouco provável que ele estivesse à espreita de frutas ou vegetais descartados; e, de acordo com os horários dos trens que ele memorizara com cuidado, caso não suportasse mais ficar na mansão Holmes, não haveria mais nenhuma composição chegando ou partindo até a noite. Ele supôs que Matty pudesse estar perto de uma das tavernas da cidade, na esperança de que um ou outro cliente bêbado lhe atirasse uma moeda.
Sherlock acabou por concluir que não tinha evidências suficientes para deduzir onde Matty poderia estar. Como Mycroft dissera certa vez: “Teoria sem prova é um engano fatal, Sherlock.” Então, caminhou pelas ruas até encontrar o lugar que Matty mostrara a ele – a casa na qual o primeiro homem morrera, e da qual a nuvem da morte saíra pela janela e subira até o telhado.
O edifício parecia abandonado. Portas e janelas estavam fechadas, e alguém pregara um aviso na porta. Sherlock supôs ser uma advertência sobre alguém ter morrido de alguma febre ali dentro. Ele estava dividido por emoções conflitantes: parte queria entrar e dar uma olhada, ver se havia algum traço do pó amarelo por ali, mas outra parte, uma parte mais primitiva, sentia medo. Apesar do lenço encharcado de conhaque que ainda levava no bolso, Sherlock não desejava expor-se à possibilidade de contágio.
A porta da casa abriu-se ligeiramente, e Sherlock recuou para as sombras de uma arcada do outro lado da rua. Quem estaria ali? Alguém que se arriscava a limpar o lugar, ou alguém que se mudara para lá, um morador novo ou antigo, apesar do perigo? Por alguns instantes a porta permaneceu entreaberta, e Sherlock sentiu, embora não visse, que havia alguém na escuridão atrás dela, observando. Recuou um pouco mais nas sombras, sentindo o coração disparar sem saber por quê.
Depois de um tempo a porta se abriu um pouco mais, apenas o suficiente para deixar passar um homem. Estava vestido em vários tons de cinza e olhou para os dois lados da rua antes de sair. Carregava um saco em uma das mãos.
E a mão que segurava a boca do saco estava coberta por um fino pó amarelo.
Intrigado com o pó e com a atitude do homem, por quem não desejava ser notado ao sair da casa, Sherlock o observou seguir pela rua até outra via mais larga. Ali, o homem virou à esquerda. Sherlock esperou um momento, depois foi atrás dele. Não sabia o que estava acontecendo, mas pretendia descobrir.
Havia algo estranhamente familiar naquele homem. Sherlock sabia que o vira antes em algum lugar. Seu rosto era fino, com dentes salientes amarelados pelo uso do tabaco, e então Sherlock lembrou: vira o homem na estação Farnham quando lá estivera com Matty. Ele carregava uma carroça com engradados de gelo.
O trajeto do homem levou Sherlock de um lado a outro de Farnham. O menino o acompanhou o tempo todo, escondendo-se em arcadas ou atrás de outras pessoas sempre que achava que ele se viraria. Depois de um tempo, o homem seguiu por uma via secundária que Sherlock reconheceu. Era o mesmo lugar em que ele e Matty tinham estado mais cedo, onde quase foram atropelados pela carruagem que transportava o estranho sujeito de olhos cor-de-rosa.
O homem caminhou furtivamente junto a um muro alto pintado com cal até os portões de madeira pelos quais a carruagem saíra e bateu: uma sequência complicada de toques que escapou da mente de Sherlock, por mais que ele tentasse memorizá-la. O portão abriu-se e o homem entrou. Em seguida, o portão foi fechado de novo, antes que Sherlock tivesse chance de ver o que havia lá dentro.
Ele olhou em volta, frustrado. Queria muito dar uma olhada por cima do muro e ver o que havia lá, mas não parecia possível. Tudo estava de alguma forma relacionado – as duas mortes, as nuvens que se moviam, o pó amarelo – mas ele não conseguia encontrar os fios que faziam a conexão. As respostas que procurava podiam estar atrás daquela muralha, mas era como se estivesse na China.
O sol já estava avermelhado e baixo no céu. Faltava pouco para que Sherlock tivesse de voltar à mansão Holmes e preparar-se para o jantar. Não havia muito tempo. Desesperado, olhou em volta mais uma vez. Atrás de si, onde a parede acompanhava a esquina, boa parte do reboco havia se desprendido, castigado ao longo dos anos pelo choque de carroças e carrinhos e erodido pela chuva. O tijolo exposto podia servir de apoio, ajudando-o a subir o muro.
Valia a pena tentar.
Sem parar para pensar, Sherlock aproximou-se do local e olhou para os dois lados. Ninguém observava. Ele ergueu os braços o mais alto que conseguiu, procurando com os dedos um nicho entre dois tijolos, depois fazendo o mesmo com o pé direito. Quando se sentiu preparado, deu impulso. Os músculos das pernas protestaram contra a repentina atividade, mas Sherlock não desistiria. Levantou a mão esquerda o máximo possível e sentiu o topo do muro. Segurando-se o melhor que pôde, ergueu o pé esquerdo e deslizou-o pela parede, descendo até encontrar um apoio. Então, transferiu o peso do corpo do pé direito para o esquerdo, esperando que o tijolo não se esfarelasse com a pressão. O tijolo sustentou seu peso, e ele deu impulso, usando, ao mesmo tempo, a mão e o pé esquerdos. O corpo subiu raspando na parede, e, como por milagre, Sherlock estava deitado sobre a muralha, equilibrando-se precariamente para não cair no pátio que se descortinava abaixo dele.

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