17 de julho de 2017

Capítulo quatorze

NOS SONHOS, SHERLOCK LUTAVA COM uma serpente enorme. O corpo do animal era tão largo quanto um barril de cerveja, todo músculos e costelas, pelo que ele conseguia ver, e a cabeça era um triângulo plano com dentes que lembravam serras. Eles lutavam na água, mas no sonho a água era densa e escura como melaço. A serpente enrolou-se lentamente em torno dele e apertou-o, tentando quebrar-lhe as vértebras, mas a água espessa dificultava os movimentos do bicho, e Sherlock conseguiu abrir espaço empurrando com força com os braços e as pernas. Quando tentou fugir, porém, a água reduziu de forma grotesca a velocidade com que ele nadava, e a cobra conseguiu envolvê-lo mais uma vez e apertar lentamente seu corpo. E assim continuava o sonho, no qual Sherlock lutava eternamente para escapar e a serpente eternamente se empenhava em capturá-lo.
Quando finalmente acordou, ele sentiu como se tivesse transcorrido muito tempo. A boca e a garganta estavam secas, e, quando tocou o palato com a ponta da língua, ela ficou grudada. Também estava faminto.
Depois de um tempo, sentiu-se suficientemente forte para sentar-se sem vomitar. E o que viu afastou temporariamente todas as preocupações com sede, fome e enjoo.
Estava deitado em uma cama coberta por um dossel bordado. Os travesseiros eram macios, de penas, e as paredes do quarto eram revestidas com carvalho. As tábuas do piso eram envernizadas e cobertas com tapetes ricamente estampados.
Era o mesmo quarto no qual acordara depois de ter sido nocauteado na luta na feira; o quarto da casa na periferia de Farnham.
Mas como era possível? O barão Maupertuis tinha abandonado aquela mansão, deixando-a vazia. Com certeza, ele não podia ter retornado tão depressa, certo? Por que o faria?
Sherlock saiu da cama e ficou em pé. Passou a mão pelo rosto e se surpreendeu ao sentir uma substância seca em torno da boca e do nariz. Esfregou a substância, removendo-a de sua pele, e então olhou para os dedos. Estavam cobertos por resíduos de alguma coisa preta. Esfregando os dedos um no outro, descobriu que se tratava de uma substância ligeiramente pegajosa.
Sherlock lembrou-se do pano que fora pressionado contra seu rosto. Algum produto químico? Uma droga para fazê-lo dormir? Parecia ser o caso.
E Virginia! Uma súbita onda de raiva apagou os últimos resquícios de sono e náusea de sua corrente sanguínea. O que acontecera com Virginia? Se alguém a tivesse machucado ele iria...
Ele iria o quê? Matá-los? No momento não estava exatamente em condições de fazer isso.
Precisava obter informações. Descobrir o que estava acontecendo, e por quê. Só então poderia fazer alguma coisa.
Sherlock caminhou até a janela e abriu as cortinas, esperando ver a terra seca avermelhada e as centenas de colmeias que estavam lá fora da última vez que ele estivera no quarto, mas o que viu o fez recuar um passo, com grande surpresa.
Perto da casa havia uma praia de areia cinzenta que recebia ondas cobertas de espuma de um mar que se estendia até o horizonte retíssimo. O céu era de um azul brilhante. Ao longe, Sherlock podia ver algumas velas.
Ele fechou os olhos por um momento e pensou. Estaria alucinando? Era possível, ele imaginou, mas o sonho com a cobra e a água espessa fora marcado por uma sensação bizarra e ilógica que, pensando bem, significava que de alguma forma ele sabia que estava sonhando, enquanto aquilo era consistente e racional.
Seria o cenário além da janela apenas isto: uma pintura perfeitamente executada que dava a impressão de praia, mar e céu azul, quando tudo não passava de pigmentos em uma tela? Ele abriu os olhos de novo e observou. À distância, pairando acima das ondas, havia algumas pequeninas formas brancas parecidas com um “W”. Aves brancas planando na brisa marítima. Isso não podia ser forjado em uma pintura. O que quer que houvesse lá fora, era real.
E como não havia mar perto de Farnham, a conclusão lógica era de que ele não estava mais perto de Farnham, provavelmente nem na Inglaterra. O supervisor das docas dissera que o navio iria para a França. Aquilo devia ser a França, então. E o quarto? O motivo devia ser algo prosaico, como o fato de o barão Maupertuis ser um homem apegado aos hábitos, alguém que gostasse de manter o ambiente à sua volta tão familiar quanto possível, onde quer que estivesse. Presumindo que a mansão na periferia de Farnham não fosse o lar de sua família, ele provavelmente devia tê-la reformado e decorado, para deixá-la parecida com o lugar que chamava de lar. O que bem podia ser este... chateau francês? Era esse o nome que davam?
Sentindo-se estranhamente satisfeito consigo mesmo por ter desvendado algo que, ele supunha, tivera a pretensão de confundi-lo e desestabilizá-lo, Sherlock nem se virou quando a fechadura da porta estalou e ela foi aberta. Já sabia o que veria: dois homens vestidos em calças medievais, meias, coletes e jaquetas pretas, usando máscaras pretas com aberturas na altura dos olhos. Como da última vez. Ele contou até dez em silêncio, depois se virou. Ele estava parcialmente certo – os dois sujeitos na porta estavam vestidos exatamente como ele lembrava – mas havia um terceiro homem entre eles. Na verdade, ele quase ocupava todo o espaço da entrada, de tão grande que era. Seus braços eram grossos como as pernas de um homem comum e as pernas pareciam troncos de árvore. As mãos tinham o tamanho e a forma de pás, mas era a cabeça o que mais chamava a atenção. Era careca, mas havia tantas cicatrizes escuras nela, que, à primeira vista, parecia que estava coberta de cabelo. O homem vestia um longo casaco de couro marrom sobre um terno cinza largo, e o corte do casaco sobre o corpo forte dava a impressão de que ele era ainda maior.
— O barão quer vê-lo — ele disse. A voz soava como o atrito entre duas mós.
— E se eu não quiser ver o barão? — Sherlock indagou em um tom sereno.
Os dois sujeitos de preto entreolharam-se, mas o homem das cicatrizes limitou-se a balançar a cabeça.
— O que o barão quer, o barão tem. Nenhuma outra opinião além da dele tem importância.
— E se eu me recusar a acompanhá-los?
— Então o carregaremos.
Sherlock sabia que agia de maneira infantil, mas queria demonstrar que não era apenas um prisioneiro passivo, que ele tinha opiniões próprias.
— E se eu me agarrar à porta e recusar-me a soltá-la?
— Nesse caso quebraremos seus dedos e o levaremos do mesmo jeito. — O homem sorriu, mas não havia alegria em sua expressão. Era só um exibir de dentes, como um tigre que se preparasse para atacar. — De você o barão só precisa do que for necessário para responder a algumas perguntas. Isso significa que ele só precisa de sua cabeça, para que seu cérebro pense e sua boca fale, e de seu peito, para que seus pulmões respirem e o mantenham vivo. O restante é opcional. A escolha é sua.
Sherlock ficou parado por um momento, só para provar que sabia que tinha escolha, e a exercia, e então caminhou para a porta. O homem com as cicatrizes na cabeça não se moveu até que o menino quase colidisse contra seu corpo, e então se afastou para o lado apenas o suficiente para deixá-lo passar pela porta.
— Meu nome é Sr. Surd — ele disse quando os três acompanhavam Sherlock ao longo do corredor. — Sou o servo e assistente pessoal do barão. Tudo o que ele quiser que seja feito, eu faço. Se o barão deseja um cálice de vinho madeira, é meu dever servi-lo. Se ele quer sua cabeça numa bandeja, é meu dever cortá-la e entregá-la a ele. Não é um prazer, não é um sacrifício. É só trabalho. Está entendendo?
— Sim — Sherlock respondeu. — Era você quem empunhava o chicote na última vez que encontrei o barão, não era? Nas sombras.
— Só um trabalho — repetiu o homem das cicatrizes. — Mas, de fato, sinto satisfação com um trabalho benfeito.
O corredor era idêntico ao que ele recordava da casa em Farnham, assim como a escada que descia para o saguão de entrada. Sherlock teve de controlar-se para não procurar as marcas de ferradura de quando ele e Matty fugiram. Não era a mesma casa. Era outra, que por coincidência se parecia com aquela em que ele estava agora.
Virginia estava em pé do lado de fora do aposento no qual, Sherlock supôs, o barão Maupertuis os estaria aguardando. Havia dois homens mascarados com ela, junto a um grande armário de teca.
— Você está bem? — Sherlock perguntou.
— Tive sonhos estranhos — ela disse. — Cavalgava Sandia, mas ele estava indócil, e eu não conseguia controlá-lo. Seguimos cavalgando por uma paisagem que parecia se desmanchar nos lugares para os quais eu olhava. — Ela estremeceu, como se quisesse se livrar da lembrança. — E você?
— Cobras — Sherlock resumiu.
— Que droga era aquela que usaram conosco? Minha cabeça ainda está confusa.
— Acho que era láudano: morfina dissolvida em álcool. Meus pais costumavam dar à minha irmã. Reconheci o cheiro. É feito a partir de papoulas.
— Papoulas? — Virginia riu. — Nunca gostei de papoulas. São flores muito macabras.
O Sr. Surd passou por eles e abriu a porta da sala na qual o barão os esperava. Ele fez um gesto que indicava que deveriam entrar.
O lugar estava na escuridão, como antes. Havia duas cadeiras diante de uma mesa enorme, cuja extremidade mais afastada era envolvida pelas sombras. Pesadas cortinas pretas cobriam as janelas, impedindo a entrada da luz do sol, e as poucas áreas de parede que Sherlock conseguia ver eram adornadas por espadas e escudos. Junto a uma parede havia uma armadura completa, arranjada de forma a criar a impressão de que havia nela um cavaleiro que segurava uma espada.
O Sr. Surd fez um gesto para que eles se sentassem. Sherlock pensou em se negar a fazê-lo, mas viu algo nos olhos do criado que sugeria que ele esperava, e até desejava, que o menino recusasse, para que pudesse fazer alguma coisa dolorosa e permanente, que o obrigaria a obedecer. Então Sherlock se sentou, e Virginia também, ao lado dele. O Sr. Surd e os outros quatro homens encaminharam-se para a escuridão do outro lado da sala.
O silêncio tomou conta do ambiente por algum tempo, exceto pelo ranger de cordas e madeira sob pressão, que Sherlock ouvira na última vez.
Então uma voz baixa e áspera, como folhas secas sacudidas pelo vento, disse:
— Você insiste em interferir nos meus planos, e não passa de uma criança. Fui forçado a abandonar uma de minhas casas por sua causa.
— Você parece gostar de que suas casas sejam construídas e decoradas de forma idêntica — Sherlock disse. — Por quê? Prefere que as coisas sejam sempre iguais?
Novamente, o silêncio dominou a sala por um tempo, e Sherlock esperou a qualquer momento ouvir a ponta do chicote surgir da escuridão, rasgando sua carne, mas, em vez disso, a voz respondeu:
— Quando encontro algo que me agrada, não vejo motivo para tolerar algo que seja diferente. O projeto e a mobília de uma casa, um modelo de governo... Quando descubro alguma coisa que funciona, quero reproduzi-la, de modo que todos os lugares aonde eu vá sejam iguais. Acho isso... reconfortante.
— E por isso mantém todos os criados mascarados. Porque assim pode acreditar que são sempre os mesmos, esteja você onde estiver.
— Muito perspicaz.
— E neste momento estamos... onde? Na França?
— Reconheceu a paisagem? Sim, esta casa fica na França. Vocês dois foram mantidos adormecidos no navio que os trouxe até aqui, e na carruagem que os transportou do porto até esta mansão.
— Mas e o Sr. Surd? — Sherlock perguntou. — Só há um dele.
— O Sr. Surd é insubstituível. Ele vai aonde eu vou.
— E seu nome é barão Maupertuis, não é?
— Mais uma vez você me surpreende. Não sabia que meu nome era tão conhecido.
— Eu... concluí a partir das evidências.
— Muito astuto. Realmente, muito astuto. Parabéns pela capacidade de dedução. E o que mais você concluiu?
Virginia tocou a mão de Sherlock num aviso silencioso, mas ele se orgulhava das investigações que fizera, dos fatos que descobrira, da trama que começava a alinhavar. E, ele pensou, importava que Maupertuis soubesse que seus planos não eram mais secretos.
— Sei que você tem criado abelhas, e sei que elas são de uma espécie estrangeira, mais agressiva que qualquer uma que seja europeia. Isso significa que não as está criando para produzir mel, mas por causa de suas picadas. Você quer que elas firam ou matem pessoas. — Seu cérebro estava em alta velocidade, movendo os fatos, deslocando-os, para formarem padrões dos quais antes ele quase nem suspeitava. Amyus Crowe queria ensiná-lo, treiná-lo, mas o barão Maupertuis o levava a sério. Ouvia suas deduções como se elas realmente significassem alguma coisa, como se não fossem apenas respostas teóricas a problemas fictícios, como raposas e coelhos. — Você também tem uma fábrica de roupas: uniformes militares, acho. — Sherlock parou por um segundo. Havia alguma coisa que ainda não apreendera, um destino lógico importante para o qual ele tinha todas as etapas do caminho, menos a última, o que requeria um salto intuitivo. — Seu empregado... Wint, acho que era esse o nome dele, roubou algumas dessas roupas e escondeu-as em casa. Ele foi atacado por abelhas. Outro homem que trabalhava na propriedade de meu tio como jardineiro trabalhara antes em Farnham, em uma fábrica de roupas, a sua, imagino. Ele também foi morto por abelhas. Será que ele pegara algumas roupas para uso próprio? Roubara-as de você? — A névoa que ocultava o destino lógico final dissipava-se, e Sherlock prosseguiu, triunfante: — Então existe alguma coisa nas roupas que faz com que as abelhas as ataquem. Elas não são perigosas quando estão nas caixas, nos engradados, mas quando as pessoas as vestem... as abelhas são atraídas por elas, e atacam quem as esteja usando.
A mão de Virginia apertava a dele com força, mas Sherlock a ignorou.
— Aqueles homens que estavam no galpão em Rotherhithe... Eles falavam sobre enviar as caixas para Ripon, Colchester e Aldershot. Todos esses lugares são bases militares. Então, se as roupas são enviadas para bases do Exército, provavelmente são uniformes. O que você fez? Conseguiu algum tipo de contrato com o Governo para fornecer os uniformes do Exército britânico? Os soldados usam seus novos uniformes, provavelmente quando se preparam para embarcar para a Índia, e então... — Os pensamentos corriam na frente de Sherlock, mas de repente sincronizaram, como num estalo. Seu pai. Aldershot. Índia. Uniformes. — E então você solta as abelhas, e elas atacam todos os recrutas, os soldados e os oficiais do Exército britânico — murmurou, assustado com a conclusão a que a lógica o levara.
— Milhares de mortes, todas misteriosas e inevitáveis — o barão sussurrou a partir das sombras que envolviam o outro extremo da mesa. — Um golpe desmoralizador contra o coração do Império Britânico, e desferido pela humilde abelha, provedora do mel que abastece milhares de chás da tarde. A ironia é... interessante.
— Mas por quê? — A mente de Sherlock estava dominada pela imagem do pai, com o rosto inchado e coberto de bolhas, caindo e sufocando enquanto as abelhas picavam-no repetidas vezes.
— Por quê? — A voz do barão ainda estava baixa, mas de repente vibrava com uma malignidade até então ausente. — Por quê? Porque sua naçãozinha patética tem delírios de grandeza que a levaram a conquistar meio mundo. Seria difícil encontrar um país menor que a Inglaterra. Vocês não passam de um pontinho no mapa. Em qualquer globo do mundo, os cartógrafos são incapazes de escrever a palavra “Inglaterra” dentro dos limites da ilha, de tão pequena que ela é. Mesmo assim, vocês têm a arrogância, a temeridade, a pura ilusão de acreditar que o mundo foi criado para submeter-se a seu benevolente comando. E o mundo simplesmente curvou-se e permitiu que vocês fizessem isso! Espantoso. Mas existem homens no mundo, militares, que não irão deixar que seu instinto feroz e predador siga adiante. As fronteiras do Império Britânico devem retroceder, nem que seja somente para que os demais países tenham espaço para respirar, para viver. Eu... represento... um grupo formado por esses homens. Alemães, franceses, americanos, russos, todos se uniram para conter suas ambições territoriais. Vocês não vão descansar enquanto o vermelho do Império Britânico não se espalhar pelo mapa; nós não descansaremos enquanto não o removermos de tudo o que não for sua ilha insignificante. — Ele parou. — Além das Honduras Britânicas, na América Central, talvez. Vocês podem ficar com as Honduras Britânicas.
— Então você planeja destruir o Exército britânico com um único golpe.
— Não é bem um único golpe, mas uma enfermidade progressiva, que irá acometer soldados, mais ninguém. As abelhas, como você sabe, são particularmente caracterizadas pela agressividade e territorialidade. Foram criadas para ser agressivas e, nossa, como se reproduzem rapidamente! O contaminante com que impregnamos os uniformes será absorvido pelo corpo dos soldados e exalado pelo suor. Se as abelhas sentirem o cheiro dessa substância, atacarão imediatamente. Assim que forem libertadas de seus novos lares, elas voarão pela Inglaterra por um período de vários meses, picando e matando todos os soldados que encontrarem pelo caminho. Criaremos mais abelhas em locais secretos espalhados pela Europa para o próximo estágio dos ataques. O terror, o medo, o absoluto pânico serão nossos aliados mais eficientes. Uma praga misteriosa que acomete soldados. E a Inglaterra será relegada à posição que merece: a de uma nação de terceira categoria.
— Mas... e os dois homens que morreram... seu empregado e o jardineiro de meu tio? Não faziam parte de sua trama, faziam?
Houve um farfalhar e um rangido nas sombras, como se o barão Maupertuis estivesse dando de ombros. Ou como se o fizessem dar de ombros.
— Eu sabia que alguns funcionários estavam roubando peças dos uniformes, mas não me incomodei. Esse foi meu erro. Uma das colmeias foi derrubada por um cavalo, e as abelhas escaparam. Elas ficaram muito agressivas, ferozes, e quando sentiram o cheiro do contaminante nos uniformes roubados, atacaram. O Sr. Surd teve de resgatar a rainha e atrair as abelhas sobreviventes de volta. Uma missão de grande bravura.
— Apenas uma tarefa, senhor — respondeu o Sr. Surd do fundo da sala.
Embora já tivesse deduzido sozinho a maior parte da história, a ousadia do plano deixou Sherlock sem fôlego. E, por mais aterrorizante que ele fosse, o menino não conseguia identificar nenhuma falha óbvia. Se as abelhas fossem tão agressivas quanto Maupertuis dizia, e se os uniformes fossem distribuídos com a eficiência que ele pretendia, tudo daria certo. Iria dar certo.
— Meu irmão irá detê-lo — Sherlock disse em um tom calmo. Essa era sua última esperança.
— Seu irmão?
— Sim, meu irmão.
Sherlock ouviu um sussurro na escuridão. Soava novamente como o tom grave do Sr. Surd.
— Ah — Maupertuis disse com sua voz fina —, seu nome é Sherlock Holmes. Seu irmão, portanto, deve ser Mycroft Holmes. Um homem astuto. Já o marcamos como alguém interessante para o nosso grupo. Parece que você puxou a ele.
— Já enviei um telegrama ao meu irmão e contei o que está acontecendo — Sherlock revelou com toda a calma possível.
— Não — o barão corrigiu-o. — Não enviou. Caso contrário, não teria julgado necessário investigar meu barco. Mycroft Holmes teria mandado os próprios agentes fazerem o trabalho.
Os próprios agentes? Sherlock de repente percebia a extensão do poder do irmão.
Mais cochichos no fundo da sala.
— Talvez tenhamos de cuidar de seu irmão mesmo assim — o barão Maupertuis sussurrou. — Se sua inteligência é uma indicação da dele, é bem possível que ele descubra nossos planos e tente impedi-los. Você e ele morrerão na mesma semana, talvez até no mesmo dia. Na mesma hora, se eu puder planejar, porque sou um homem que aprecia a limpeza. Além do mais, poupará seus pais dos gastos de um segundo funeral.
Todo o custo da arrogância de Sherlock atingiu-o de súbito. Ao desvendar com orgulho toda a terrível trama e demonstrar sua astúcia ao barão Maupertuis e, pior, exibir o poder e a influência do irmão, Sherlock condenara-os à morte.
— Creio que me disse tudo o que sabe — Maupertuis continuou —, e estou surpreso com quanto conseguiu decifrar. É evidente que teremos de ser mais sigilosos no futuro. Obrigado por isso, pelo menos.
— Por que Londres? — Sherlock perguntou depressa, sentindo que a situação se aproximava do desfecho e que sua vida e a de Virginia seriam encerradas em breve. — Por que, em vez de, digamos, Portsmouth ou Southampton, transferiu as colmeias para Londres, antes de trazê-las para a França?
— Sua fuga obrigou-nos a realizar a mudança antes do que pretendíamos — Maupertuis sussurrou. — Não havia ancoradouro disponível em Portsmouth nem em Southampton, e o navio aguardava em Londres nossa ordem para zarpar. Levar as colmeias para Londres não foi eficiente, mas foi inevitável. E com isso você deixa de ter utilidade para mim. Você e essa menina que está sentada a seu lado. Eu pretendia ameaçar a vida dela, como forma de forçá-lo a falar, mas não foi necessário aplicar força alguma. No máximo, o problema foi fazê-lo calar-se.
Sherlock olhou para Virginia, sentindo o rosto corar de mortificação, mas ela sorria para ele.
— Você impediu que eu fosse torturada — ela sussurrou. — Obrigada.
— De nada — Sherlock respondeu de forma automática, sem muita certeza de que deveria mesmo aceitar os créditos por isso.
— Sr. Surd — a voz do barão Maupertuis soou das sombras. Embora sussurrasse, sua voz podia ser ouvida em todos os cantos da sala. Era habituada ao comando. — Precisamos acelerar nossos planos. Dê a ordem. Solte as abelhas do forte. Quando elas encontrarem o caminho para a ilha e percorrerem o país, os uniformes já terão sido distribuídos. E então o caos irá reinar!

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Boa leitura :)