25 de julho de 2017

Capítulo onze

O DESEMBARQUE EM NOVA YORK foi caótico. Todos tentavam chegar à rampa com suas bagagens ao mesmo tempo, e o número de passageiros parecia ter duplicado de repente, com a classe econômica subindo ao convés, movendo-se atordoada sob o sol forte. Depois de algum tempo, porém, os passageiros estavam em um edifício amplo, parecido com um galpão, onde se formaram filas e as pessoas eram chamadas a uma fileira de mesas, nas quais os oficiais da imigração, uniformizados e muito sérios, examinavam os documentos de todos. Sherlock ouvia centenas de vozes falando com os mais variados sotaques, mencionando destinos como Chicago, Pensilvânia, Boston, Virgínia e Baltimore.
Sherlock viu Rufus Stone em outra fila. O violinista levava a caixa do instrumento pendurada no ombro, mas parecia ter pouca bagagem além disso. Quando ele se virou e viu o garoto, deu uma piscadela. Sherlock sorriu de volta.
O alemão – conde Ferdinand von Zeppelin – também estava em outra fila. A postura rígida e a testa franzida sugeriam que não estava acostumado a esperar ou a se misturar com gente de classe social tão diferente. Ele não olhava em volta – seus olhos estavam fixos à frente, como se desejasse estar em qualquer outro lugar, menos ali.
O navio havia aportado ao lado de muitas outras embarcações de diferentes companhias de navegação, todas ancoradas ao longo da extensa área do porto. Muitos tinham duas grandes rodas de pás nas laterais dos cascos de ferro ou de madeira, mas Sherlock notou que diversos barcos menores ainda usavam apenas velas e que alguns, os de ferro, mais modernos, tinham um conjunto de lâminas de metal presas a um eixo na parte de trás.
O tempo estava quente e abafado. Fez Sherlock lembrar-se da sala de máquinas do SS Scotia, só que com o cheiro de esgoto para completar. Ele tentava respirar o mínimo possível, mantendo-se com Virginia atrás de Amyus Crowe, que lidava com um oficial de imigração especialmente carrancudo. Depois, seguiu Amyus para o lado de fora, para o ar livre da América.
América! Estava em outro país! Sherlock olhou em volta com grande entusiasmo, tentando catalogar as diferenças entre a Inglaterra e a América. O céu era do mesmo tom de azul, é claro, e as pessoas pareciam ser idênticas àquelas que ele deixara para trás, mas havia algo indefinivelmente diferente. Talvez fosse o corte das roupas ou o estilo arquitetônico dos prédios ou algo que ele nem conseguia imaginar, mas a América era diferente da Inglaterra.
Crowe conseguiu alugar um cabriolé – um entre centenas que esperavam em fila pelos passageiros que desembarcavam – e eles partiram pelas ruas de terra incrivelmente largas de Nova York. A maioria dos edifícios era feita de madeira ou de um tipo de pedra marrom que devia ser extraída naquela região. As construções de madeira, em geral, só tinham um ou dois andares, mas as de pedra marrom podiam ter até cinco, e muitas tinham um porão a que se podia chegar descendo alguns degraus. Alguns dos prédios mais próximos ao porto eram hotéis, hospedarias, restaurantes ou bares, mas no caminho até a cidade Sherlock viu cada vez mais lojas e escritórios, assim como grandes edifícios de apartamentos, nos quais centenas de pessoas viviam juntas, cada uma em seu conjunto de cômodos. Isso com certeza era algo que não se via na Inglaterra com frequência, exceto talvez nos perigosos guetos e cortiços de Londres.
E havia meninos em todas as esquinas vendendo jornais: quatro ou seis folhas de texto em letras pequenas que eles balançavam no alto enquanto gritavam as manchetes mais chamativas – corpos encontrados sem as mãos, roubos a mão armada, denúncias de políticos que aceitaram suborno... Toda a vida humana parecia estar ali – ou o lado mais sórdido dela, pelo menos – e cada menino parecia vender um jornal diferente – o Sun, Chronicle, o Eagle, o Star... Uma interminável parada de nomes.
O cabriolé parou na frente de um hotel que parecia ser mais salubre que os próximos ao porto. Devia acontecer algum tipo de efeito de filtragem ali, Sherlock pensou. Os passageiros da classe econômica acabariam acomodados em hospedarias baratas e sujas à beira da água, enquanto os que tinham mais dinheiro buscariam acomodações mais afastadas do porto, nas áreas mais limpas, melhores e, consequentemente, mais caras.
— Este é o Hotel Jellabee — Crowe disse enquanto descia do veículo e ajudava Virginia a desembarcar. — Já me hospedei aqui antes. É um lugar decente; ou era, pelo menos. A Agência Pinkerton costuma utilizá-lo com frequência; a sede fica bem perto daqui. Vamos entrar e ver se há quartos disponíveis, depois vamos jantar no Niblo’s Garden. É o melhor da cidade.
Enquanto Crowe ia à recepção reservar os quartos, Sherlock olhou ao redor. Dentro do hotel estava tão quente quanto na rua, ou mais. No entanto, o lugar era limpo, arrumado e tinha carpetes decentes no chão, e as pessoas no saguão estavam bem-vestidas. Muitas falavam com um sotaque parecido com o de Amyus e Virginia Crowe e com o dos homens que eles seguiram até ali, mas Sherlock notou uma variedade de idiomas – francês, alemão, russo e outros que ele não conseguia identificar.
Crowe aproximou-se deles sorrindo.
— Reservei um apartamento para nós — ele disse. — Tem uma sala de estar e três dormitórios. Quando resgatarmos Matty, ele vai ter que dividir o quarto com você, Sherlock.
— É claro. — Era impossível não notar que Crowe tinha dito “quando” e não “se” ao se referir ao resgate de Matty.
Eles subiram a escada até o terceiro andar, onde ficava o apartamento que ocupariam. Sherlock contou os andares e, intrigado, percebeu que haviam subido apenas dois.
— Ah, boa observação — Crowe disse ao ouvir o comentário. — Essa é uma das diferenças entre a Inglaterra e os Estados Unidos. Na Inglaterra temos o térreo, depois o primeiro andar, o segundo e assim por diante. Aqui na América o piso térreo é chamado de primeiro andar, e depois dele há o segundo e o terceiro. Não existe o térreo.
— O que mais preciso saber? — Sherlock perguntou.
— O que vocês chamam de pavimento, nós chamamos de calçada. De resto, creio que é tudo igual. Mas o dinheiro é diferente. Temos dólares e centavos, não libras, xelins e pences. Mais tarde darei algum dinheiro para vocês dois, mas não fiquem exibindo-o por aí.
O apartamento era bom – a sala de estar tinha dois sofás e algumas poltronas confortáveis, além de uma escrivaninha e uma janela com vista para a rua. O quarto de Sherlock era menor, mas a cama era muito mais macia do que a que ele havia deixado na mansão Holmes. O hotel não era de alto nível, de jeito nenhum, mas atendia a uma clientela que tinha dinheiro e expectativas.
— Posso sair para caminhar um pouco? — Sherlock perguntou a Amyus Crowe.
Crowe pensou por um momento.
— Você é um menino esperto. Acha que vai saber o caminho de volta?
— Tenho certeza que sim.
— A cidade tem um padrão de grade; é só seguir a lógica. — Aproximou-se da escrivaninha e pegou uma folha de papel timbrado. — Caso se perca, pergunte onde fica o Hotel Jellabee. O endereço está aqui. Não se envolva em jogos de cartas nas esquinas, não mostre seu dinheiro e não discuta com ninguém. Se for parar em um lugar chamado Five Points, saia o mais depressa que puder. Você vai saber que está lá pelo cheiro; a região é cheia de destilarias de aguarrás, fábricas de cola e matadouros. Siga essas regras e vai ficar bem. — Ele enfiou a mão no bolso e pegou algumas notas e moedas. — Isto deve ser o suficiente para comer alguma coisa, se ficar com fome, ou alugar um cabriolé para voltar.
— O que vai fazer?
— Vou descobrir quando o SS Great Eastern aportou. E se ainda não chegou, vou descobrir para quando é esperado.
Sherlock virou-se para perguntar se Virginia queria ir com ele, mas ela já se retirara para o quarto.
Crowe balançou a cabeça.
— Deixe-a — disse. — Há lembranças demais aqui. Deixe-a superar esse momento.
Do lado de fora, sob o sol, o cheiro de esgoto e comida estragada era muito mais forte. Sherlock caminhou pelo pavimento – pela calçada, corrigiu-se – apreciando a paisagem e os sons daquela nova cidade em uma nova terra.
Passou por lojas com placas dizendo “armarinho”, que pareciam ser estabelecimentos que vendiam pequenos utensílios domésticos, e por bares que serviam de tudo, de “coragem” – que ele imaginou ser uma espécie de cidra, pelo cheiro – a algo chamado “negus de vinho do porto”, uma mistura quente de vinho e especiarias. Várias travessas partiam da rua principal; eram becos estreitos entre os edifícios nos quais, surpreendentemente, havia não só cães e gatos, mas também porcos remexendo o lixo, procurando o que comer. Também havia restaurantes em todas as esquinas, oferecendo pratos de variadas nacionalidades. Sherlock ficou impressionado em especial com o número e a variedade de bares de ostras, que em geral serviam cerveja, vinho e o misterioso “coragem”, assim como as ostras, que podiam ser fritas, cozidas, refogadas, grelhadas ou simplesmente servidas sobre gelo. Ostras pareciam ser o alimento mais comum em Nova York.
Além dos bares, restaurantes e lojas, havia igrejas feitas de pedras brancas, com campanários pontiagudos e escadarias que subiam até a porta principal, e depósitos onde eram estocados todos os tipos de produtos que saíam dos navios ou seriam embarcados neles. Em poucos quarteirões Sherlock viu coisas mais diversas do que havia conhecido em todos os vilarejos e cidades da Inglaterra juntos.
E alguém o seguia.
Percebeu depois de meia hora de caminhada. O mesmo chapéu-coco marrom aparecia no meio das pessoas, atrás dele. Ele o reconheceu porque havia uma faixa verde chamativa em torno da copa. Sherlock fez questão de estudar o ambiente procurando chapéus como aquele, mas só havia um, e estava sempre atrás dele.
Entrou em uma loja qualquer e ficou olhando os utensílios domésticos – tábuas de lavar roupa, sabão, pregadores e coisas do tipo – que estavam à venda, mas quando saiu o homem do chapéu-coco marrom estava parado na esquina, lendo um jornal que devia ter comprado de um dos garotos da rua. Sherlock tentou atravessar uma viela cheia de lixo para sair na rua paralela àquela, mas, de algum jeito, o homem do chapéu marrom deduziu o truque e correu por outra transversal, de forma que, quando olhou para trás novamente, Sherlock viu que o homem ainda o seguia. Não conseguia ver o rosto do desconhecido, mas ele era grande e caminhava com um movimento característico dos ombros, como se houvesse acabado de descer de um navio e ainda não estivesse adaptado à terra firme.
Sherlock pensou depressa. Não sabia se o homem o havia visto sair do hotel ou se simplesmente o escolhera na rua aleatoriamente. Se ele o vira na rua, a última coisa que queria fazer era levá-lo ao hotel onde estava hospedado, onde Virginia e Amyus Crowe estavam agora. Precisava despistá-lo. Não, concluiu em um estalo: precisava reverter a situação; seguiria o perseguidor para descobrir onde ficava seu esconderijo. Afinal, Matty podia estar lá também.
Não ia ser nada fácil.
Ele entrou em outra loja de variedades. Esta parecia ter uma boa seleção de roupas – paletós, bonés e calças. Imaginando que o perseguidor permaneceria do lado de fora por algum tempo, Sherlock escolheu rapidamente uma boina simples e um paletó e notou aliviado que a loja tinha outra saída, que dava em uma rua secundária. Levou as compras ao balcão, onde um atendente o olhou da cabeça aos pés e disse:
— Sabe, um garoto como você devia pensar em comprar uma funda. Acabamos de receber um novo lote. Não quer dar uma olhada?
— Uma funda? — Sherlock pensou na palavra por um instante. Será que era alguma gíria local que ele devia conhecer? Então lembrou-se das aulas de estudos bíblicos na Escola Deepdene para Meninos. Davi não havia usado uma funda para matar Golias no Primeiro Livro de Samuel? Era uma espécie de arma para arremessar pedras com precisão e força.
— Todos os garotos por aqui têm uma dessas — o atendente acrescentou.
— Quanto custa? — perguntou Sherlock.
O preço não acrescentava muito à soma do valor das roupas, por isso Sherlock aceitou a oferta. Se possuir uma funda o ajudasse a ficar mais parecido com os garotos locais, melhor. Depois de vestir o paletó e colocar a boina na cabeça, ele esperou o vendedor embrulhar a jaqueta antiga – a peça de roupa pela qual o perseguidor estaria procurando – em papel pardo. A funda era uma bolsa de couro simples onde se colocava uma pedra, com tiras de couro dos dois lados. Uma delas devia ser amarrada ao pulso; a outra o atirador devia segurar enquanto girava a funda e soltar no momento do arremesso, deixando a pedra voar.
— Vai precisar de munição — disse o homem, entregando a Sherlock o pacote onde estava sua jaqueta. — Vou lhe dar um saco de bolinhas de graça.
Sherlock pagou com o dinheiro dado por Amyus Crowe. Depois, guardou a funda e as bolinhas em um bolso, e pegou o pacote feito com papel pardo e barbante. Puxando o boné sobre a testa, Sherlock deixou a loja pela porta lateral e saiu a passos rápidos, tentando colocar uma distância considerável entre ele e o homem do chapéu-coco marrom. Quando se aproximou de uma esquina, acelerou o passo ainda mais.
Ao virar, ele chamou o vendedor de jornais mais próximo.
— Quanto quer por todos os jornais?
O menino mal podia acreditar na própria sorte.
— São dez centavos cada — disse. — E ainda tenho cinquenta para vender. Então são... — Ele parou e fez a conta mentalmente. — Seis dólares, redondo.
Sherlock estimava que havia pouco mais de quarenta jornais, e mesmo que fossem cinquenta, o valor final seria de apenas cinco dólares.
— Dou cinco dólares por tudo — ofereceu.
— Feito! — o menino gritou.
Ele entregou a pilha de jornais e Sherlock lhe deu o dinheiro. Assim que o garoto saiu, correndo, mostrando o dinheiro aos companheiros e rindo, Sherlock começou a vender os jornais.
— Leiam todas as notícias! — gritava, imitando da melhor maneira possível um sotaque nova-iorquino. Sabia que o que estava reproduzindo era a maneira como Amyus Crowe e Virginia falavam, mas, desde que não soasse como um britânico, era o suficiente. — Terrível assassinato em... — ele pensou depressa — ... Five Points! Polícia intrigada! Há expectativa de outros assassinatos!
Os outros jornaleiros examinavam suas manchetes, tentando entender de onde ele tirara aquilo, mas já havia três compradores em fila para levar os exemplares de Sherlock quando o desconhecido do chapéu marrom apareceu na esquina.
Era Ives – o homem da casa em Godalming. O loiro de cabelos curtos, o que tinha uma arma.
Sherlock tentou se encolher, curvando os ombros e a coluna como se estivesse cansado e não se alimentasse bem havia um tempo. Funcionou. O olhar de Ives passou por ele, ignorando-o como teria ignorado uma lâmpada a gás ou um bebedouro para cavalos. Ele parou, olhou em volta, certamente tentando encontrar Sherlock. Quando não conseguiu localizá-lo, Ives resmungou um palavrão, ficou ali parado por um momento, sem saber o que fazer, a alguns passos do menino que procurava, depois virou-se e foi embora.
Sherlock jogou os jornais aos pés do jornaleiro mais próximo.
— Ei, venda estes também — disse.
— Mas é o Sun — respondeu o garoto. — Eu só vendo o Chronicle.
— Aumente sua oferta de produtos — Sherlock respondeu, já partindo atrás de Ives.
O homem se afastava depressa, de cabeça baixa e com as mãos nos bolsos. Parecia derrotado. Quem o havia contratado talvez ficasse zangado por ele ter perdido Sherlock de vista. Mas o fato de que ele não se dirigia ao Hotel Jellabee significava que não sabia onde estavam hospedados.
O sol descia no céu, já iluminando mal o topo dos prédios e espalhando uma claridade alaranjada sobre tudo. A luz incidia diretamente nos olhos de Sherlock, obrigando-o a semicerrá-los. Era difícil saber para onde ia Ives. Eles percorreram cinco quarteirões ou mais, até que o homem entrou em uma hospedaria.
Sherlock olhou em volta sem saber o que fazer. Não tinha ideia se ali era Five Points, mas com certeza não era tão agradável quanto a área onde ficava o Hotel Jellabee, apesar da presença de uma igreja meio malconservada no fim da rua. O cheiro era horrível, mas ele não sabia dizer se era por causa de destilarias de aguarrás e matadouros ou se era apenas o odor de esgoto e podridão que parecia pairar sobre Nova York como uma névoa invisível. O lugar aparentava ser perigoso. As pessoas paradas nas esquinas não eram mais meninos vendendo jornais, e sim homens em camisas puídas e calças sujas, olhando com hostilidade para quem passava. Em algum lugar um homem tocava uma melodia chorosa em um trompete. O instrumento estava desafinado, mas havia tantas outras coisas fora do tom por ali que as notas se encaixavam bem ao cenário.
Agora, a necessidade de passar despercebido era ainda maior do que antes. Ele entrou em um beco e esfregou a boina no chão, depois rasgou uma das mangas do paletó, deixando à mostra o forro de tecido.
Parecia mais adequado assim.
De volta à rua, mancando um pouco para andar de um jeito diferente, Sherlock se aproximou da hospedaria. A porta estava aberta, e ele olhou para dentro.
Não havia saguão, como no Jellabee. Se entrasse, só poderia subir a escada ou passar por uma das portas. E não podia bater em cada uma delas perguntando por Matty. Precisava pensar em outra coisa.
Olhando em volta, viu que o edifício da frente tinha uma escada de metal presa à parede do lado de fora – talvez uma saída de incêndio. Degraus uniam os andares, uma sequência que era interrompida por pequeninas sacadas de metal em cada pavimento. Se subisse, poderia espiar pelas janelas da hospedaria. Se as cortinas estivessem abertas. Se as vidraças estivessem limpas.
Pare de embromar!, ele se censurou. Sherlock atravessou a rua, esperou por um momento em que não houvesse ninguém passando e subiu rapidamente a escada de ferro até o primeiro andar. Ou seria o segundo? Não tinha certeza.
Ali, encolheu-se encostado à balaustrada da sacada de metal e olhou para o edifício do outro lado da rua. Quatro janelas, todas sem cortinas, o que era uma bênção. Em um dos quartos havia um homem que ele não reconhecia, andando de um lado para o outro. Em outra janela havia uma mulher olhando para fora, com o que parecia uma camisola. Ao perceber a presença de Sherlock ela sorriu com tristeza. Os outros dois quartos estavam vazios.
Ele continuou até o andar de cima. O metal estalava e balançava sob seus pés. Quando havia sido a última inspeção de segurança? Ou melhor, alguma vez aquela escada fora vistoriada?
Na sacada seguinte ele parou e olhou para o prédio da frente, para mais quatro janelas.
As duas primeiras estavam vazias.
A terceira dava para um quarto onde quatro homens bebiam e conversavam. Um deles era Ives e outro era Berle, o médico. Sherlock não conhecia os dois restantes.
O importante, porém, era que Matthew Arnatt estava ali, com os cotovelos apoiados no parapeito da janela, olhando para a rua. Seus olhos seguiam curiosos cada pessoa e movimento lá fora. Ele parecia estar bem, sem nenhum ferimento visível. E seu aspecto também sugeria que havia sido alimentado; pelo menos, não parecia estar faminto ou fraco. Só entediado e triste.
Até que viu Sherlock. Então seus olhos brilharam e seu rosto se iluminou com um sorriso largo.
Sherlock estava muito feliz por ver que Matty estava vivo e, ao que tudo indicava, com boa saúde. De repente, o medo que mantivera sufocado durante toda a viagem veio à tona, ameaçando dominá-lo. Piscou para afastar lágrimas de alívio.
Sherlock levou um dedo aos lábios, pedindo silêncio. Matty assentiu, mas ainda estava sorrindo. Sherlock sabia que, se os homens no quarto vissem aquele sorriso, saberiam que algo havia acontecido. Por isso, empurrou os cantos da boca para baixo com os indicadores, compondo uma expressão de tristeza exagerada. Matty franziu o cenho. Sherlock tentou novamente, baixando também as sobrancelhas, e então as de Matty subiram e ele arregalou os olhos ao compreender o significado da mensagem. O sorriso desapareceu de seu rosto e a boca se rearranjou na curva que Sherlock havia visto momentos antes, embora os olhos ainda brilhassem.
— Você está bem? — Sherlock perguntou com o movimento dos lábios.
Matty assentiu discretamente.
— Eles estão tratando você bem? — O menino moveu a boca mais uma vez, sem emitir som.
Dessa vez Matty franziu o cenho.
— Eles... estão... tratando... você... bem? — repetiu Sherlock, separando as palavras para facilitar a compreensão.
Matty repetiu o gesto afirmativo com a cabeça, muito levemente.
— Vamos tirar você daí! — Sherlock avisou.
Matty abriu a boca e formou as palavras:
— Eu sei.
Os homens atrás de Matty pareciam ter concluído sua conversa. Sherlock teve a sensação de que não dispunham de muito tempo.
— Para onde vão levar você?
Os lábios de Matty se moveram, mas Sherlock não conseguiu entender o que ele estava tentando dizer. Franzindo o cenho, balançou a cabeça para demonstrar que não havia compreendido a resposta. Matty tentou novamente, mas as palavras formadas eram desconhecidas para Sherlock.
Matty ergueu as mãos, tocando as têmporas com as pontas dos dedos. Estava indicando a cabeça? Ele apontou para a rua, onde um grupo de moleques revirava latas de lixo e jogava restos de comida no chão. Por fim, Matty levantou as sobrancelhas, como se perguntasse se Sherlock havia entendido. Sherlock balançou a cabeça, fazendo um não silencioso. Matty tentou novamente – apontando para a própria cabeça e apertando os olhos, depois indicando os meninos de rua. E acrescentou mais gestos – ergueu um dedo e apontou para si, depois ergueu dois dedos e apontou para Sherlock e, após erguer três dedos, deu de ombros, como se estivesse confuso.
Era uma maluquice. Fosse o que fosse que Matty tentava transmitir, Sherlock não conseguia entender.
Estava se preparando para dizer mais uma vez que não entendia o recado quando um dos homens atravessou o quarto e segurou o ombro de Matty, puxando-o para longe da janela. Ele nem olhou para fora, o que fez Sherlock deduzir que queria apenas levar o menino para algum lugar e não vira que ele estava se comunicando com alguém. Sherlock desviou os olhos e tentou desaparecer de vista. Quando olhou para a janela novamente, o quarto estava vazio. Os homens haviam partido, levando Matty.
Sherlock desceu a escada apressadamente e atravessou a rua, aproximando-se da hospedaria. Não sabia o que ia fazer, mas tinha que ser alguma coisa.
Era tarde demais. No tempo em que ele e Matty tentavam se comunicar, um dos homens devia ter descido para providenciar o transporte, enquanto outro levava a bagagem para a rua. Quando Sherlock se aproximava da porta, eles já entravam no veículo. Sherlock conseguiu ver o rosto assustado de Matty antes de o condutor pôr os cavalos em movimento.
Ele olhou em volta procurando outro carro, mas só havia pedestres na rua.
O desespero o invadiu.
Não. Não tinha tempo para isso. Correndo tanto quanto podia, Sherlock voltou ao hotel, refazendo a rota que havia memorizado inconscientemente, sabendo que tinha o papel timbrado no bolso caso se perdesse. A mente trabalhava tão depressa quanto as pernas, tentando decifrar o significado da mensagem. Uma dica, é claro. Uma resposta à sua pergunta. Mas o quê?
Charadas, talvez? Matty tentava soletrar o nome do lugar para onde ia, talvez formando sílabas? Lojas, esquinas e hotéis iam ficando para trás, e Sherlock continuava correndo, sentindo o ar passar por suas narinas e queimar-lhe a garganta. E durante todo o tempo ele tentava decifrar as pistas.
Cabeça. Cérebro? A expressão, de olhos apertados, era de concentração? Concentrar-se? Pensar?
A rua. Ele havia apontado para os garotos ou para a bagunça que faziam, sujando a rua e virando latas de lixo?
Seus pés batiam no pavimento e ele passava por pedestres que caminhavam mais devagar, tentando pensar...
Pense, Sherlock, pense.
E de repente tudo se encaixou. Pensar, pensamento, “pense”. E o que eram aqueles garotos, se não “vândalos”? Pense-vândalos. Havia um lugar na América, em algum lugar perto dali, chamado Pensilvânia. Pensilvânia. Era isso que Matty estava tentando transmitir?
Mas e quanto à outra mensagem – um dedo apontando para ele mesmo, dois dedos para Sherlock e depois os três dedos erguidos e a aparente confusão? O que aquilo significava?
Se Matty era o número um e Sherlock, o número dois, o que seria o três?
O Hotel Jellabee já podia ser visto. Os músculos de Sherlock gritavam de dor, mas ele continuava correndo.
Matty e Sherlock e uma terceira coisa, alguma coisa que faltava. Virginia! Devia ser Virginia. E o nome dela também era o nome de um lugar!
Pensilvânia Virgínia. Ainda não fazia sentido para Sherlock, mas talvez Amyus Crowe pudesse explicar.
Ele passou correndo pela entrada do hotel e subiu a escada, praticamente desabando contra a porta do apartamento. Os punhos fechados a esmurraram. A porta se abriu e ele caiu para o lado de dentro. Virginia estava em pé na sua frente, olhando assustada para ele.
— Onde está seu pai? — ele perguntou, sem fôlego.
— Ainda não voltou. Deve estar na Agência Pinkerton.
— Encontrei Matty. Mas ele está sendo levado agora. — Era preciso fazer um grande esforço para formar as palavras, ofegante como estava. — Matty me mandou uma mensagem: “Pensilvânia Virgínia”. Acho que ele tentava me dizer para onde o estavam levando, mas não entendi. Eles vão para a Pensilvânia ou para a Virgínia? Ou para os dois lugares? São lugares, não são?
Virginia balançou a cabeça.
— É mais simples que isso. A Ferrovia Pensilvânia tem trens partindo de uma estação própria em Nova York. Eles têm uma linha que segue para Virgínia. É para lá que estão levando Matty. Deve ser.
— Precisamos encontrar seu pai e contar a ele.
— Não temos tempo — ela respondeu. — Se eles estão a caminho da estação, precisamos ir para lá agora e interceptá-los, tentar resgatar Matty. Não podemos esperar por papai. Vou deixar um bilhete.
Ela foi até a escrivaninha rapidamente, abriu uma gaveta e pegou um maço de dinheiro.
— Papai deixou isto aqui para não ser roubado na rua. Não que alguém fosse tentar, mas ele sempre é cuidadoso. De qualquer forma, podemos precisar.
Ela rabiscou um bilhete para o pai em uma das folhas de papel timbrado que estavam na gaveta e eles saíram juntos. Havia um cabriolé deixando um hóspede na porta do hotel; Virginia aproveitou e entrou na carruagem, puxando Sherlock junto. Ela falou com o condutor; Sherlock não conseguiu ouvir o que ela dizia, mas a carruagem partiu em um trote acelerado.
— Prometi pagar em dobro se ele nos levar até a estação em dez minutos — Virginia explicou.
Ela e Sherlock seguraram firme enquanto a carruagem sacudia pelas ruas de Nova York. Em duas ocasiões as rodas caíram em buracos maiores, fazendo com que um caísse sobre o outro, mas eles rapidamente se afastaram.
Quando o cabriolé parou do lado de fora de uma imponente estrutura que devia ser a entrada da estação ferroviária, Sherlock sentia-se dolorido da viagem desconfortável. Enquanto Virginia pagava o condutor, ele correu para o prédio.
A cena era de um caos controlado, com pessoas caminhando em várias direções, atravessando um amplo saguão de mármore. Do outro lado, uma série de arcos se abria para o que Sherlock deduziu serem as plataformas. Placas de madeira penduradas em ganchos anunciavam o destino dos trens e as paradas ao longo do caminho. Enquanto ele observava, algumas placas eram retiradas e outras colocadas no lugar.
Sherlock correu ao longo da fileira de arcos, lendo todas as placas. Depois de alguns momentos percebeu que Virginia corria a seu lado.
Chicago, Delaware, Baltimore... De repente, Sherlock compreendeu com um sobressalto que Virgínia era um estado, mas que os destinos nas placas eram cidades. Na Inglaterra, ele saberia que Southampton, por exemplo, ficava em Hampshire, mas nos Estados Unidos não fazia ideia em que estados ficavam aquelas cidades.
— Ali! — Virginia gritou. — Richmond... é a capital da Virgínia. Plataforma 29. Linha Pensilvânia.
Ela indicou o caminho por um arco, e Sherlock a seguiu. Um guarda vestido com um impressionante uniforme azul e quepe de bico olhou com ar de censura para o paletó rasgado de Sherlock e tentou detê-los, mas Virginia passou correndo por ele. O homem tentou agarrar o braço de Sherlock, mas o menino empurrou-o e continuou em frente.
Agora corriam pela plataforma, passando pelos vagões de um trem que parecia interminável. A locomotiva no início da fila estava escondida além de uma curva. Diferentemente das estações na Inglaterra, onde as plataformas e as portas ficavam no mesmo nível do vagão, ali a plataforma era mais baixa, e degraus levavam às portas dos vagões.
Sherlock ia olhando as janelas enquanto eles corriam, procurando Matty, mas foi a face queimada e desfigurada de John Wilkes Booth que ele viu primeiro. Segurando o braço de Virginia, ele a deteve e os dois voltaram juntos.
— Não temos muito tempo — ele avisou, ofegante.
Virginia olhou de um lado para o outro. Além de um pequeno grupo de pessoas embarcando em alguns vagões adiante, não havia ninguém que pudesse ajudá-los. Até mesmo o coletor de passagens que tentara interceptá-los pouco antes tinha sumido – provavelmente fora buscar a polícia.
— Temos que encontrar um guarda no trem — Virginia sugeriu, já subindo a escada. — Ele pode impedir que o trem parta.
Sherlock não teve alternativa senão segui-la. Não sabia muito bem se ela havia pensado direito naquilo, mas, por outro lado, não tinha nenhuma ideia melhor para sugerir.
Estavam dentro do vagão. Havia um corredor central, estendendo-se entre bancos de madeira estofados.
Mais à frente, em um conjunto de assentos, estavam Ives, Berle, John Wilkes Booth e, a julgar pelo formato da cabeça, Matty. Os homens conversavam intensamente, e Sherlock se escondeu entre dois bancos antes que fosse visto.
Virginia olhava em volta tentando encontrar um guarda. O coração de Sherlock disparou quando ele ouviu o apito soar do lado de fora; um som agudo e prolongado.
E então o trem começou a se mover.

2 comentários:

  1. Sherlock é muito esperto, se fosse eu, iria me deixar levar pelo panico e correr pro hotel

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  2. Jesus!! Eita pleura! Só mais um capítulo...

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Boa leitura :)