16 de julho de 2017

Capítulo onze

AMYUS CROWE TERMINOU DE LIMPAR os cortes no rosto de Sherlock usando uma flanela e um líquido de cheiro forte que ardia onde quer que tocasse, e então andou até uma cadeira de vime e sentou-se. Ela rangeu sob seu peso. Crowe deu impulso com os pés, equilibrando a cadeira nas pernas de trás, e balançou-se suavemente. O tempo inteiro seus olhos permaneceram fixos em Sherlock.
Ao lado de Sherlock, Matty estava inquieto, como um animal que quisesse fugir, mas não soubesse a direção mais segura.
— Uma história e tanto — murmurou Crowe.
Por presumir que as palavras do tutor fossem apenas um artifício para romper o silêncio enquanto ele refletia, Sherlock não respondeu. Crowe balançou-se para a frente e para trás, sempre encarando Sherlock.
— Sim, uma história e tanto — ele repetiu depois de um tempo.
O olhar impassível de Crowe estava incomodando Sherlock, então o menino desviou a vista, observando a sala à sua volta. A casa de Amyus Crowe era um tumulto só, cheia de livros, jornais e periódicos que permaneciam exatamente onde o tutor os deixava. Sobre a lareira, uma pilha de cartas, cravada no meio por uma faca, ficava ao lado de um relógio que marcava quase duas horas. Junto a tudo isso estava o pé de um chinelo, de onde emergia um punhado de cigarros, como se fossem dedos dobrados. O conjunto deveria parecer miserável, mas não havia sujeira nem pó. O lugar era limpo, mas bagunçado. A impressão era de que Crowe tivesse um jeito diferente de guardar as coisas, apenas.
— O que você conclui de tudo isso? — Crowe perguntou.
Sherlock deu de ombros. Não gostava de ser objeto da atenção do tutor.
— Se eu soubesse, não teria precisado procurar você — disse.
— Seria muito bom se uma pessoa pudesse sempre fazer toda a diferença — Crowe respondeu, sem demonstrar nenhum sinal de irritação. — Mas, neste nosso mundo complicado, às vezes precisamos de amigos, e às vezes é preciso ter uma organização que nos dê apoio.
— Cê acha que temos de chamar a polícia? — Matty perguntou, visivelmente nervoso.
— A polícia? — Crowe balançou a cabeça. — Duvido que acreditem em vocês, e, mesmo se acreditassem, pouco poderiam fazer. As pessoas que moram nessa casa que vocês mencionaram negariam tudo. Eles têm poder e autoridade, e vocês, não. E você tem de reconhecer que a história parece absurda.
— O senhor acredita em nós? — Sherlock questionou.
O rosto de Crowe demonstrou surpresa.
— É claro que acredito em vocês — ele respondeu.
— Por quê? Como disse, a história parece absurda.
Crowe sorriu.
— As pessoas fazem certas coisas quando mentem — disse. — Mentir é estressante, porque é preciso prestar atenção a duas coisas diferentes ao mesmo tempo: a verdade que se deseja esconder e a mentira que se tenta contar. Esse estresse manifesta-se de certas maneiras. As pessoas não estabelecem contato visual normalmente, coçam o nariz, hesitam e gaguejam mais quando falam. E entram em mais detalhes que o necessário, como se lembrar a cor de um papel de parede ou descrever barbas, bigodes e afins tornasse a mentira mais crível. Vocês contaram a história de maneira objetiva, olhando em meus olhos, sem acrescentar detalhes desnecessários. Até onde posso julgar, estão dizendo verdade... ou, pelo menos, o que acreditam ser verdade.
— Então, o que fazemos agora? — Sherlock perguntou. — Alguma coisa está acontecendo por aqui. Tem relação com as roupas que estão sendo feitas para o Exército, as abelhas e aquele galpão em Farnham. E aquele homem na casa grande... o barão, eu acho... está por trás de tudo isso, mas não sei o que ele está fazendo.
— Precisamos descobrir, então. — Amyus Crowe voltou a cadeira à sua posição normal sobre as quatro pernas e levantou-se. — Se você não tem fatos suficientes para chegar a uma conclusão, precisa ir atrás de mais fatos. Vamos sair e fazer umas perguntas.
Matty mexeu-se com evidente desconforto.
— Preciso ir — ele resmungou.
— Venha conosco, garoto — Crowe disse. — Você participou dessa aventura, merece descobrir o que está acontecendo. Além do mais, o jovem Sherlock aqui parece confiar em você. — Ele fez uma pausa. — E vou providenciar comida para nós enquanto estivermos fora, caso isso o ajude a se decidir.
— Eu topo — Matty respondeu.
Crowe levou os meninos para fora. No prado que havia ao lado do chalé, Virginia Crowe escovava seu cavalo, Sandia. Ao lado dele havia uma égua alazã ainda maior. Sherlock supôs que fosse a montaria de Crowe. Os dois cavalos que ele e Matty tinham cavalgado para escapar da mansão do barão pastavam tranquilamente um pouco mais adiante.
Virginia ergueu o olhar quando eles se aproximaram. Seus olhos encontraram os de Sherlock, e ela os desviou rapidamente.
— Vamos sair a cavalo — Crowe anunciou. —Virginia, venha conosco também. Se mais gente fizer perguntas, as chances de conseguirmos respostas mais ou menos decentes irão aumentar.
— Não sei que perguntas fazer — Virginia protestou.
— Você estava ouvindo nossa conversa do outro lado da porta — Crowe disse, sorrindo. — Ouvi Sandia relinchar. E ele só relincha quando você está afastada, mas à vista. E também vi alguma coisa bloqueando a luz do sol por baixo da porta.
Virginia corou, mas continuou a encarar o pai, um tanto desafiadora.
— Você sempre me ensinou a tirar proveito das oportunidades — a menina disse.
— Exatamente. E a melhor maneira de aprender é ouvir.
Crowe montou seu animal e Virginia imitou-o. Sorrindo, ela observou Sherlock e Matty montarem também, e assentiu para Sherlock, manifestando aprovação.
— Nada mau — disse.
Juntos, os quatro seguiram pela estrada num trote rápido, voltando pelo mesmo caminho que Sherlock e Matty tinham seguido até ali. O sol brilhava, pairava no ar o cheiro de lenha queimada, e Sherlock tinha de fazer um grande esforço para convencer-se de que havia mesmo sido nocauteado, aprisionado, interrogado e bruscamente sentenciado à morte. Coisas como essas não aconteciam, certo? Não em um dia ensolarado. Até os cortes no rosto tinham parado de doer.
Virginia aproximou-se com seu cavalo.
— Você cavalga bem — disse. — Para um principiante.
— Tive boa orientação — o menino respondeu, virando-se para ela por um instante antes de desviar os olhos.
— Aquilo que você disse lá em casa... Era tudo verdade?
— Cada palavra.
— Então talvez este país não seja tão tedioso quanto eu pensava.
Quanto mais se aproximavam do casarão no qual Sherlock estivera aprisionado, mais nervoso ele se sentia. De repente, Amyus Crowe fez sua égua parar em um ponto de onde ele podia ver os portões da propriedade. Não havia ninguém à vista.
— O lugar é este? — Crowe perguntou.
Sherlock assentiu.
— Vejo marcas de rodas saindo do portão e percorrendo a estrada — Crowe continuou. — Está me parecendo que eles deram no pé.
Sherlock olhou para Virginia com expressão confusa. Ela sorriu.
— Foram embora — explicou a jovem. — Fugiram.
— Ah. Certo. — Ele arquivou a informação para uso futuro.
— Vamos seguir pela estrada para ver o que encontramos — Crowe gritou, já incitando sua égua. Virginia foi logo atrás. Sherlock e Matty entreolharam-se e foram também.
Cerca de cinco minutos depois encontraram uma taverna – uma construção de tijolos vermelhos assentados naquele estilo diagonal peculiar que Sherlock já notara antes, com reboco branco e vigas negras. Mesas e bancos tinham sido postos do lado de fora, sobre a relva. Havia fumaça saindo da chaminé, e Sherlock sentiu o aroma de carne assada. Na mesma hora sentiu-se faminto.
Crowe parou e desmontou.
— Vamos almoçar — disse. — Matty, Virginia, fiquem aqui e cuidem dos cavalos. Sherlock, você vem comigo.
Sherlock seguiu o americano alto ao interior da taverna. O teto era baixo, praticamente oculto por uma camada de fumaça gordurosa desprendida pelo carneiro que era assado em um espeto na lareira. Serragem fresca cobria o chão. Quatro homens estavam sentados em torno de uma mesa, e olharam desconfiados para os recém-chegados. Um quinto homem estava em uma banqueta perto do balcão e nem lhes deu atenção, aparentemente mais interessado em olhar para sua bebida. O proprietário, que estava atrás do balcão e limpava canecas com um pano, cumprimentou Amyus Crowe com um movimento de cabeça.
— Boa tarde, cavalheiros. O que vai ser: bebida, comida ou ambos?
— Quatro pratos de pão e carne — respondeu Crowe, e Sherlock ficou impressionado ao ouvi-lo falar sem seu sotaque americano habitual. Pelo que o menino conseguia identificar, agora sua voz soava como se ele fosse um agricultor ou trabalhador de algum lugar na periferia de Londres. — E quatro canecas de cerveja.
O dono da taverna encheu as quatro canecas e as pôs sobre uma bandeja de metal. Crowe pegou uma para si e gesticulou para Sherlock.
— Leve lá para fora, garoto — disse, mantendo sua voz “local”. Sherlock pegou a bandeja e a carregou cuidadosamente para a porta. Notou que Crowe se acomodava em uma banqueta próxima ao balcão.
Do lado de fora, Sherlock viu que Matty encontrara uma mesa e bancos perto da taverna. Virginia permanecia em pé ao lado de seu cavalo. Ele juntou-se a Matty, sentando-se em um banco de onde podia enxergar através de uma das janelas. Matty pegou uma caneca e começou a beber com avidez, segurando-a com as duas mãos.
Sherlock provou um gole da bebida marrom-escura. Era amarga e sem gás, e deixou na boca um sabor desagradável.
— Lúpulo não é comestível, é? — perguntou a Matty.
O menino deu de ombros.
— É possível comer, eu acho, mas ninguém come. Não tem gosto bom.
— Então, por que diabos as pessoas acham que dá para fazer uma bebida com ele?
— Sei lá.
Olhando pela janela para o interior da taverna, Sherlock viu Amyus Crowe conversar com o proprietário. Pelo ângulo de inclinação de sua cabeça, Amyus parecia estar fazendo perguntas, às quais o outro homem respondia, ainda lustrando suas canecas com o pano cada vez mais sujo.
Uma garota de avental saiu da taverna carregando uma bandeja com quatro pratos de carne fumegante. Ela aproximou-se, depositou os pratos e os talheres sobre a mesa sem dizer nada e foi embora.
Virginia juntou-se aos meninos, e Sherlock afastou-se para abrir espaço para ela no banco. A menina pegou um pedaço quente de carneiro com o garfo. Quando estava com o alimento diante da boca, interrompeu o movimento.
— Você sabe que não fui eu que escrevi aquele bilhete, não é? — ela perguntou.
— Agora eu sei. — Sherlock olhou para um ponto distante no meio da paisagem, incapaz de encará-la. — Quando recebi a carta, achei que fosse sua, mas imagino que foi porque eu quisesse que fosse sua. Se eu tivesse parado para pensar, teria percebido que não era.
— Como assim?
Ele deu de ombros.
— O papel era delicado e feminino, e a letra era muito precisa. Era como se alguém estivesse tentando fingir ser uma menina. — Ele corrigiu-se. — Quero dizer, uma mulher. Uma jovem mulher. Quero dizer...
— Já entendi o que quer dizer. — Virginia deu um ligeiro sorriso. — Então, o que o faz pensar que não costumo usar papel delicado, ou que minha escrita não é cuidadosa?
Dessa vez ele conseguiu encará-la, e o contato visual durou um bom tempo.
— Você não é como qualquer outra menina que conheci na Inglaterra — explicou. — É única. Ainda estou tentando entendê-la, mas acho que, se quisesse que eu fosse a algum lugar, como a uma feira, você simplesmente teria me convidado. — Ele parou por um momento e pensou. — Ou ainda, mais provavelmente, me comunicado — acrescentou.
Dessa vez foi ela quem corou.
— Acha que sou mandona demais?
— Não demais. Só o bastante.
Matty olhava de um para o outro.
— Do que vocês tão falando?
— Nada — Sherlock e Virginia responderam em coro.
Sherlock olhou pela janela mais uma vez e viu que Crowe juntara-se aos quatro homens sentados em torno de uma das mesas. Eles pareciam estar se entendendo bem. Crowe acenou para o proprietário da taverna, que começou a encher mais canecas com a cerveja de uma jarra de metal que estava sobre o balcão.
— Seu pai é um homem interessante — Sherlock comentou, virando-se para Virginia.
— Ele tem seus momentos.
— O que ele fazia lá na América?
— Era rastreador.
— Como assim? Caçava animais?
A jovem balançou a cabeça.
— Não. Caçava homens. Rastreava assassinos que tinham fugido da justiça, e índios que atacavam assentamentos remotos. Ele os perseguia durante dias em regiões selvagens, até aproximar-se o suficiente para surpreendê-los.
Sherlock não conseguia acreditar no que ouvia.
— E fazia o que com eles? Entregava-os à justiça?
— Não — ela murmurou. De repente, Virginia levantou-se e voltou para perto dos cavalos.
Sherlock e Matty ficaram em silêncio por um tempo, ocupados cada um com os próprios pensamentos.

Algum tempo depois Amyus Crowe saiu da taverna e juntou-se aos garotos, espremendo seu corpo volumoso entre o banco e a mesa.
— Interessante — ele disse, retomando o sotaque americano.
— O que aconteceu? — Sherlock perguntou. — O que eles sabiam sobre a casa?
— E como você fez com que eles respondessem às suas perguntas? — Matty acrescentou. — É um estranho por aqui, e as pessoas não costumam se abrir com desconhecidos.
— Então, o melhor é não ser mais um desconhecido — ele respondeu. — Se passar algum tempo sentado ali, conversando com o proprietário, você se torna parte do mobiliário. Depois você se aproxima, entra na conversa se vir uma abertura, e revela alguma coisa sobre si mesmo... quem é, por que está aqui. Eu disse a eles que tava pensando em comprar uma fazenda e criar porcos, porque os novos soldados em Aldershot vão precisar de muita comida. Eles queriam saber quantos soldados vão ser alojados lá, e passamos a falar sobre oportunidades de negócios. Perguntei se havia alguém por aqui que talvez estivesse interessado em investir numa oportunidade, ou que tivesse terra sobrando, e eles me falaram da propriedade nesta estrada. O proprietário é um homem chamado Maupertuis – um barão, aparentemente, e estrangeiro.
Sherlock olhou para Matty e sorriu. Crowe parecia ter esquecido que também ele era um estrangeiro neste país.
— Ninguém jamais viu esse barão Maupertuis, e todos os empregados da casa chegaram com ele, não foram contratados por aqui, o que não faz dele uma pessoa muito simpática, na visão dos moradores. Suprimentos e tudo o mais são trazidos de outro lugar, e não comprados na região. Enfim, o dono da taverna estava ouvindo nossa conversa e contou que o barão mudou-se hoje cedo. Aparentemente, um comboio de carroças passou pela estrada, todas carregadas de caixas e mobília, e no final do comboio havia uma carruagem negra. Depois de um tempo, ele viu mais carroças, essas carregadas com caixotes grandes cobertos por lençóis. Suspeito que essas eram as colmeias que você mencionou, jovem. Eles devem ter usado fumaça para acalmar as abelhas e fazê-las dormir. É assim que fazem os apicultores de verdade quando transportam suas colmeias.
— Eles levaram as colmeias embora? Por quê?
Amyus Crowe assentiu.
— Essa é uma pergunta muito boa. Se é o caso de uma fuga apressada, por que levar as colmeias junto? Isso só vai atrasar as coisas, e abelhas não são algo impossível de arranjar em outro lugar. — Ele refletiu por um momento. — Parece que a fuga de vocês afugentou-os. Eles não podiam correr o risco de que vocês os denunciassem e a polícia aparecesse ali para investigar. Por isso se mudaram para outro local, e nós precisamos descobrir para onde.
— Podemos segui-los — Sherlock sugeriu.
Crowe balançou a cabeça.
— Eles estão com uma vantagem muito grande.
— Devem estar viajando devagar — o jovem insistiu. — Estão transportando as colmeias. Uma pessoa a cavalo pode alcançá-los.
— São muitas as rotas que eles podem ter seguido — Crowe argumentou.
— Um longo comboio de carroças? As pessoas iriam ver e se lembrariam. E eles não vão seguir por estradas rurais em más condições de conservação. Vão usar as vias principais. Isso reduz o número de opções.
Crowe sorriu.
— Bem pensado, rapaz.
— O senhor já havia pensado nisso? — indagou Sherlock, franzindo a testa.
— Sim, mas não queria dar as respostas de bandeja para você. Eu queria ver se você seria capaz de pensar em quais deveriam ser os próximos passos, especialmente comigo insistindo na direção contrária. — Crowe levantou-se. — Conheço algumas pessoas perto de nossa casa que têm cavalos e gostariam de receber alguns xelins. Vou mandá-los atrás do tal comboio. Sugiro que você volte à mansão Holmes e procure apaziguar sua família. Diga-lhes que esteve comigo o tempo todo, isso deve tranquilizá-los. Darei um pulo lá amanhã para contar o que descobri.
Os quatro voltaram juntos, trotando por estradas secundárias e trilhas até se aproximarem de Farnham, e então se despediram. Matty seguiu para o local onde deixara seu barco, enquanto Crowe e Virginia prosseguiram rumo ao chalé em que moravam. Sherlock manteve sua égua parada por um instante enquanto absorvia todos os acontecimentos daquele dia, deixando-os transformarem-se em memórias, em vez de em um amontoado de impressões sensoriais. Pouco depois, guiou seu animal para a mansão Holmes.
Quando chegou, parou um momento para pensar onde deixaria a égua. Afinal, não era dele. Por outro lado, o proprietário anterior parecia ter abandonado o animal, e era muito melhor poder cavalgar que pedalar aquela bicicleta velha e desengonçada que Matty encontrara. Por fim, Sherlock deixou a égua no estábulo com um fardo de feno. Se ela ainda estivesse lá no dia seguinte, ele interpretaria como um sinal de que deveria ficar com o animal.
O jantar estava sendo servido quando ele entrou na casa. Tinha de comportar-se normalmente, como se nada houvesse acontecido, como se o mundo estivesse exatamente igual ao que era naquela manhã. Ele olhou de relance para as roupas que vestia, tirou um pouco da poeira do paletó com as mãos e dirigiu-se à sala de jantar.
A refeição foi uma experiência surreal. Sua tia tagarelava sobre nada em particular, como sempre, e seu tio lia um livro grande enquanto comia, resmungando alguma coisa de vez em quando. A Sra. Eglantine olhava para Sherlock de seu posto perto da parede. Era difícil juntar a atmosfera calma e civilizada e o fato de ele ter sido nocauteado, sequestrado, condenado à morte e escapado, tudo nas últimas poucas horas. Estava faminto, apesar da carne que comera na taverna, e encheu o prato com pedaços fumegantes de frango e vegetais, depois cobriu tudo com molho.
— Parece que você está de volta da guerra, Sherlock — a tia comentou enquanto comiam a sobremesa. Isso foi o mais próximo que ela chegou de fazer uma pergunta direta ao sobrinho.
— Eu... caí — ele disse, consciente dos cortes que ainda ardiam no rosto e nas orelhas. — Não estou habituado a andar de bicicleta.
A resposta pareceu satisfazer à senhora, que continuou a murmurar seu eterno monólogo.
Assim que foi possível, Sherlock pediu licença e foi para o quarto. Pretendia ler um pouco e depois, talvez, escrever parte dos eventos do dia em um diário, para que não os esquecesse, mas assim que se deitou teve dificuldade para manter os olhos abertos, e, momentos depois, adormeceu ainda vestido.
Sherlock acordou quando estava escuro lá fora e corujas piavam ao longe. O menino despiu-se e enfiou-se sob o lençol áspero. Depois caiu num sono profundo, como alguém que mergulha em um lago escuro e misterioso.
O dia seguinte nasceu radiante. Amyus Crowe estava no saguão de entrada quando Sherlock desceu para o café. Ele vestia um terno de linho branco e um chapéu de aba larga.
— Vamos a Londres — Crowe anunciou ao vê-lo. — Preciso resolver alguns negócios, e seu tio deu-me permissão para levá-lo comigo. Será uma aula. Visitaremos galerias de arte, e vou ensinar-lhe um pouco da história associada àquela grande cidade.
— Virginia também vai? — Sherlock perguntou sem pensar, e imediatamente desejou poder recuperar as palavras, mas Crowe apenas sorriu, e seus olhos brilhavam.
— Sim, é claro — disse. — Eu não poderia deixá-la sozinha aqui no campo, não é? Que tipo de pai eu seria?
— Por que Londres? — Sherlock indagou em voz baixa quando terminou de descer a escada.
— O comboio de carroças foi para lá — Crowe respondeu em tom igualmente baixo. — Desconfio que ele tenha outra casa lá, em algum lugar.
Com um quase inaudível farfalhar de saias, a Sra. Eglantine saiu das sombras no fundo do saguão.
— Você deveria tomar seu café antes que eu tenha de tirar a mesa, jovem senhor Sherlock — ela disse, com a voz carregada de uma antipatia suficiente para ser perceptível, mas não para que o menino se sentisse ofendido.
— Obrigado — ele disse, e então se virou para Crowe. — Vamos sair imediatamente?
— Vá forrar o estômago — ele respondeu. — Vai precisar de energia. Prepare uma maleta para passar dois dias fora. Esperarei na carruagem lá fora. — Crowe virou-se para a Sra. Eglantine e tirou o chapéu com uma mesura exagerada. — Senhora — disse, saindo em seguida.
Sherlock comeu o mais rápido que pôde, quase sem sentir o sabor dos alimentos. Londres! Ele iria para Londres! E se tivesse muita sorte, poderia ver Mycroft enquanto estivesse lá!
Amyus Crowe esperava em uma carruagem de quatro rodas do lado de fora da mansão Holmes. Virginia estava sentada ao lado dele. Parecia desconfortável, ou por estar usando um vestido cheio de babados e um gorro, ou por estar enfiada no veículo fechado, em vez de ao ar livre.
— Você está bonita — Sherlock disse ao sentar-se na frente da menina, enquanto o condutor guardava sua maleta com o restante da bagagem. A jovem encarou-o carrancuda.
O barulho das rodas sobre as pedras do calçamento quando a carruagem partiu abafou sua resposta, mas Sherlock não tinha certeza de que desejava ouvi-la.
Quando chegaram à estação de Farnham, Matty aguardava-os. Amyus Crowe sorriu para o rapaz.
— Recebeu minha mensagem, então?
— Fui acordado pelo cara que a entregou. Como soube onde meu barco tava ancorado?
— É meu trabalho saber onde está tudo. Meu trabalho e meu deleite particular, também. Quer viajar, meu jovem?
— Não tenho muda de roupas nem nada — Matty respondeu.
— Compraremos tudo de que você precisar quando chegarmos a Londres. Agora, vamos arranjar nossas passagens.
Crowe comprou quatro passagens de segunda classe para Londres, e o grupo desceu à plataforma da estação, enquanto o condutor da carruagem descarregava a bagagem de todos. Ele calculara com perfeição: o trem chegou dez minutos depois, um enorme leviatã, soprando vapor pela frente tubular, os pistões subindo e descendo como braços mecânicos, e as rodas de metal, quase tão grandes quanto Sherlock, rangendo contra os trilhos.
— Uma locomotiva da categoria “Saxão” projetada por Joseph Beattie — Amyus observou. — Chamada genericamente de 2-4-0. Sherlock, pode me dizer por quê?
— Por que “Saxão”? Ou por que “2-4-0”?
Amyus assentiu.
— Obter uma informação apropriada depende, sobretudo, da formulação adequada da pergunta — disse. — Refiro-me à designação “2-4-0”. Suspeito que a parte do “Saxão” seja só um capricho histórico concebido pelo engenheiro. Ele também projetou uma locomotiva que chamou de “Nelson”.
Sherlock deteve-se a observar a locomotiva. As rodas, ele percebeu, não eram separadas por espaços iguais, mas reunidas em grupos.
— Eu diria que é pelo arranjo das rodas — ele arriscou —, mas não deve ser isso.
— Na verdade, é isso mesmo — respondeu Crowe. — Há duas rodas em um eixo único na frente, que giram de forma independente, para permitir que a locomotiva transite nas curvas. Depois, há outras quatro rodas presas ao motor, em dois eixos. Essas são as rodas de tração.
— E quanto ao “0” — Sherlock perguntou.
— Algumas máquinas têm um conjunto de rodas na parte de trás — explicou Crowe. — O “0” indica que esta locomotiva específica não tem esse terceiro jogo.
— Então ela tem um número para indicar que não há nenhum número — Sherlock disse.
— Correto — o tutor sorriu. — Pode não ser muito sensato, mas é eminentemente lógico, se você aceitar o sistema que eles adotaram.
Eles escolheram um vagão e acomodaram-se para a jornada. Sherlock nunca estivera dentro de um trem antes, e tudo ali era novidade para ele: a vibração dos assentos, das janelas e das paredes quando estavam em movimento; a fumaça com aquele estranho odor adocicado que pairava no ar; o jeito como a paisagem passava depressa do lado de fora, efêmera mas com uma curiosa consistência. Matty estava abismado e nervoso; Sherlock suspeitava de que o menino nunca antes tivesse experimentado o modesto luxo de um compartimento de segunda classe.
Os bosques desapareceram rapidamente, dando lugar a campos cultivados não com milho, nem com trigo ou cevada; aquelas plantas eram compridas e marrons, tinham pequenas folhas verdes e enroscavam-se em torno de estacas de até uns dois metros de altura cravadas na terra. Sherlock estava prestes a perguntar a Crowe que tipo de planta era aquela quando Matty, notando seu interesse, inclinou-se para a frente para dar uma olhada.
— Lúpulo — disse de forma sucinta. — Para as cervejarias. Essa área é famosa pela qualidade da cerveja que produz. Existem trinta pubs e tavernas só em Farnham.
E assim a jornada prosseguiu, com uma mudança de trens em Guildford, até o grande terminal da estação Waterloo, na efervescente metrópole de Londres.
O lugar no qual Mycroft Holmes morava e trabalhava.

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