25 de julho de 2017

Capítulo oito

A ROTINA DE VIAGEM PARA Nova York foi estabelecida nas primeiras dezoito horas, pelo que Sherlock pôde perceber.
Apesar do tamanho do navio, as áreas onde os passageiros podiam circular eram bem restritas. Depois de caminhar pelo convés, fazer a primeira refeição, conhecer a sala dos fumantes e a biblioteca e conversar com outros passageiros sobre o tempo estranhamente calmo, as opções acabavam. Entre as refeições, os viajantes pareciam, em maioria, passar o tempo no convés lendo um livro em uma cadeira confortável, reunidos em torno das mesinhas na sala dos fumantes ou no bar, jogando cartas. Quando o sol se punha, os tripulantes apareciam para acender as lamparinas, mas as regulavam na menor intensidade possível, e logo todos se recolhiam às cabines para dormir.
Sherlock passou as primeiras horas vendo seu país de origem se afastar até ser apenas uma linha escura no horizonte, mas perdeu o instante em que ele realmente desapareceu. Devia ter piscado ou virado para o lado para olhar outra coisa. Em um momento a Inglaterra estava lá e no próximo o navio estava sozinho em um oceano infinito. Navegavam rumo ao sol poente, e a única coisa indicando que continuavam em movimento era a esteira de espuma branca deixada pela embarcação.
Ele, Amyus Crowe e Virginia haviam se reunido com os outros passageiros para jantar, mas enquanto Amyus conversava tranquilamente com todos à sua volta, Sherlock descobriu que não tinha o que dizer. Comeu em silêncio e observou as outras pessoas, tentando adivinhar quem eram, de onde vinham e para onde iam. Amyus Crowe já havia lhe ensinado algumas maneiras de deduzir a ocupação de um indivíduo – as manchas nas mangas da camisa, o desgaste no paletó, os calos nas mãos – e ele já havia decidido que um dos homens à mesa era contador e outros dois eram domadores de cavalos.


O capitão Charles Henry Evans Judkins era um homem alto, com um impressionante par de costeletas brancas enfeitando seu rosto. Seu uniforme era impecável, preto, passado com perfeição e decorado com debruns dourados, e seu porte era muito ereto e militar. Ele fazia sucesso com as mulheres – todas vestiram suas melhores roupas para a ocasião – e contava estranhas histórias sobre seus anos de serviços prestados para a Cunard Line. As que mais impressionavam a plateia eram as que mencionavam criaturas fabulosas, como baleias e lulas gigantes que algumas vezes eram vistas ao longe, e também os relatos sobre as violentas tempestades que às vezes se formavam no horizonte como muralhas negras e sacudiam a embarcação com ondas tão grandes que, de vez em quando, o convés ficava na vertical, como a parede de um penhasco. Judkins contava essas histórias com o talento de um artista, envolvendo os ouvintes com suas palavras e criando a impressão de que a viagem por mar era uma aventura cheia de perigos, uma experiência à qual eles só sobreviveriam se tivessem muita sorte. Mas Sherlock sabia que ele estava interpretando um papel, oferecendo uma forma de entretenimento que determinaria o modo como os passageiros veriam o restante da jornada. Afinal, se o capitão dissesse que a travessia era tediosa como um passeio no parque, que histórias teriam para contar aos amigos quando desembarcassem?
Um relato em especial chamou a atenção de Sherlock. Judkins falava sobre as diversas tentativas de se estender um cabo sobre o Atlântico, entre a Irlanda e Newfoundland, de forma a permitir a comunicação por telégrafo. Se isso pudesse ser feito, em vez de levar mais de uma semana para ir de um país ao outro em malotes do correio a bordo de um navio, uma mensagem poderia ser transmitida quase imediatamente por meio de pulsos elétricos. A ideia da comunicação telegráfica fascinava Sherlock: já podia ver, depois do que acontecera na casa de Amyus Crowe, que as letras das mensagens teriam que ser substituídas por códigos de fácil transmissão por pulsos de eletricidade – pulsos longos e curtos, talvez, ou um simples arranjo de “ligado” e “desligado”, mas a ideia de estender um cabo por cinco mil quilômetros, de uma costa à outra, pelo fundo do oceano, sem que ele se rompesse com a pressão, o deixava estarrecido. Existia alguma coisa que a mente humana não fosse capaz de realizar, quando se predispunha à tarefa? De acordo com Judkins, o método original previa dois navios se afastando a partir de um ponto central no Atlântico, estendendo os cabos em direções opostas até ambos chegarem à costa, mas os problemas surgiram logo no início, quando as tripulações dessas duas embarcações tentaram unir os cabos no meio de uma forte tempestade. Nas tentativas seguintes, navios partiram da Irlanda rumo a Newfoundland, estendendo os cabos à medida que iam navegando, mas os cabos sempre se rompiam e tinham que ser recolhidos e emendados pela tripulação.
— Eu me lembro de uma ocasião — Judkins contou com sua voz grave e firme — em que um cabo rompido foi sugado pelas profundezas abissais do oceano, e havia uma criatura segurando a ponta! — Ele olhou em volta, com os olhos brilhando sob as sobrancelhas grossas, enquanto os passageiros fascinados mal conseguiam respirar. — Uma criatura maldita como uma lacraia do mar, se quiserem acreditar; branca, com pelo menos meio metro de comprimento e quatorze patas com garras que agarraram o cabo e não soltavam. Ela ainda estava viva quando puxaram o cabo para o convés, mas morreu logo depois, por ter sido removida de seu habitat no fundo do oceano.
Uma mulher deixou escapar um grito de pavor.
— Os homens que lá estavam me contaram — continuou Judkins — que a criatura tinha gosto de lagosta, depois de cozida.
Todos riram aliviados. Sherlock olhou para Amyus Crowe. Ele também ria.
— Ouvi histórias semelhantes — Crowe murmurou, usando um tom de voz que só Sherlock pôde ouvir. — Essas coisas são chamadas de “isópodes”. Parecem camarões, mas as condições no fundo do oceano favorecem um crescimento prodigioso.
O tripulante que servia a mesa no trecho em que Sherlock estava sentado – perto do capitão, como Mycroft havia prometido – era o mesmo homem de cabelos curtos e claros que o ajudara antes. Ele cumprimentou Sherlock com um aceno quando se inclinou para depositar um prato de sopa diante do passageiro sentado do outro lado da mesa.
Não havia lagosta, o que era ótimo.
Depois do jantar, Sherlock deixou Amyus Crowe no bar e foi para a cama. Se Amyus se recolheu à cabine em algum momento, Sherlock não viu, e quando acordou e se vestiu para o café da manhã o amigo já havia saído. Ele parecia viver bem com poucas horas de sono.
Apesar de ser preparada em alto-mar, em uma cozinha apertada e improvisada, a comida era muito boa. Cada refeição tinha alguma novidade, e esperar para ver o que seria servido no café, no almoço ou no jantar era um dos pontos altos do dia. Tudo era feito na hora, certamente; seria difícil conservar pratos prontos por tanto tempo. Mas, apesar de o número de animais no cercado a bordo ter diminuído durante a viagem, não havia nenhum sinal evidente da matança – nenhum rastro de sangue no convés, nem gritos aflitos das criaturas sacrificadas. Evidentemente a tripulação tinha sua própria rotina, que repetia havia anos.
O céu no primeiro dia estava claro e azul, e as ondas eram pequenas o suficiente, comparadas ao tamanho do navio, para bater no casco sem fazê-lo balançar. Sherlock lera histórias sobre tempestades no mar e ouvira conversas entre passageiros que apavoravam os outros com relatos de terríveis viagens anteriores, nas quais ondas gigantescas se erguiam sobre o navio e quebravam, levando consigo os animais transportados a bordo. Porém, até aquele momento, o mar estava tão calmo que havia algumas pessoas jogando uma espécie de bocha em uma área mais vazia do convés.
Os passageiros da classe econômica tinham uma área delimitada do convés para caminhar e lavar suas roupas. Ficava depois da escada que descia até o fundo da embarcação, onde eles penduravam as redes para dormir. O cheiro que vinha de lá era uma mistura repugnante de odores corporais. Lá embaixo não havia brisa, e ninguém podia ver o céu e o horizonte, por isso o enjoo era constante no grupo. Quando subiam ao convés, esses viajantes menos favorecidos olhavam de esguelha para os passageiros da primeira classe, com más intenções, ou observavam o deque com evidente desânimo. Toda vez que Sherlock passava por eles, agradecia a Deus por Mycroft ter comprado passagens na primeira classe. Não sabia se teria sobrevivido à econômica. Não entendia como alguém conseguia suportar aquilo.
As gigantescas rodas de cada lado do navio giravam constantemente, movidas pelos motores a vapor cuja vibração podia ser sentida sempre que se tocava em alguma superfície de madeira. As pás que as compunham empurravam a água, impelindo o navio para a frente. O capitão ordenara que as velas fossem içadas pouco depois de Southampton ter desaparecido no horizonte, mas, pelo modo como elas pendiam, frouxas, Sherlock concluíra que não havia vento suficiente para inflá-las e acelerar a embarcação.
Era surpreendente, mas por grande parte do primeiro dia, após o café, Sherlock não vira Amyus e Virginia. Ela parecia desanimada e se recolhera à cabine, e o pai dividia seu tempo se certificando que ela estava bem e remoendo seus pensamentos na cabine que dividia com Sherlock. Alguma coisa incomodava Virginia. Sherlock tentava se lembrar se ela havia mencionado algo sobre a viagem da América para a Inglaterra, mas a garota só relatara que não viajara na primeira classe, embora também não houvesse ficado na classe econômica. Tinha a sensação de que ela comentara alguma coisa importante quando se conheceram, mas não conseguia lembrar o quê.
Sherlock ouviu música vinda de algum lugar. Deu as costas para as ondas, tentando identificar de onde saía o som. A melodia flutuava no ar, leve como as gaivotas que pairavam atrás do navio, quase sem mover as asas. Era de um violino, notas que iam subindo até quase pararem no tom mais agudo, para então despencar.
Sherlock afastou-se da balaustrada e caminhou para a popa, procurando a origem da música. Havia pouca diversão a bordo; qualquer coisa que rompesse a monotonia merecia ser investigada e aproveitada.
Após o salão, em uma área livre do convés, um homem tocava violino. Era o mesmo que ele vira no dia anterior, quando deixavam Southampton – o de longos cabelos negros e olhos verdes. Ele ainda vestia o mesmo conjunto de paletó e calça de veludo, embora parecesse ter trocado a camisa. O violino repousava entre um ombro e o pescoço, a cabeça inclinada e o queixo mantendo o instrumento estável, enquanto a mão esquerda manejava as cordas e a direita movimentava o arco. Os olhos dele estavam fechados, e seu rosto indicava intensa concentração. Sherlock nunca ouvira uma melodia como aquela: era selvagem, romântica e turbulenta, nada ordenado e matemático, como as peças de Bach e Mozart que costumava ouvir nos ocasionais recitais na Escola Deepdene para Meninos.
Vários passageiros estavam reunidos em torno do homem, ouvindo a música com um sorriso misterioso no rosto. Sherlock observava e ouvia – o músico se aproximou do clímax, segurou uma nota e então parou. Por um momento manteve o violino no ombro, os olhos ainda fechados e um sorriso no rosto. Depois de um instante baixou os braços e abriu os olhos. Todos aplaudiram e ele fez uma mesura. O estojo do instrumento estava diante dele no convés, Sherlock percebeu, e alguns passageiros depositavam moedas dentro dele ao se afastarem.
Depois de um momento restavam apenas o violinista e Sherlock. O homem se abaixou para pegar o dinheiro, depois olhou para o garoto.
— Gostou da música, amigo?
— Sim, gostei. Se tivesse algum dinheiro, contribuiria.
— Não precisa. — Ele ergueu o corpo após deixar o arco e o violino no estojo. — O dinheiro complementa meus rendimentos, reduz as despesas e é um extra que me permite uma ou outra bebida no bar, mas não estou tentando sobreviver com minha música. Não aqui no navio, pelo menos. Porém, tenho que praticar, e meu companheiro de cabine não parece apreciar nada além de polcas alemãs.
— O que acabou de tocar? — Sherlock perguntou.
— Um concerto recente para violino em sol menor, criado por um compositor alemão chamado Max Bruch. Eu o conheci em Koblenz no ano passado, e ele me deu uma cópia da partitura. Estou tentando tocá-lo desde então. Creio que um dia ele fará parte do repertório de todo violinista clássico.
— É incrível.
— Ele usou algumas ideias do trabalho de Felix Mendelssohn, mas acrescentou o próprio estilo.
— Você é músico profissional?
O homem sorriu; um sorriso fácil, espontâneo, que revelava dentes brancos e fortes.
— Às vezes sou — respondeu. — Posso atuar em vários campos, mas acabo sempre voltando ao violino. Toquei com orquestras em salas de concerto e com quartetos de cordas em salões de chá da alta-sociedade, improvisei pelas ruas e acompanhei cantores em bares enquanto canecas de cerveja eram arremessadas no palco. A propósito, meu nome é Stone. Rufus Stone.
— Eu sou Sherlock Holmes. — Ele se aproximou e estendeu a mão. Rufus Stone apertou-a por um momento com um cumprimento firme. A mão dele era forte e inspirava confiança. — Por isso está viajando para a América? — Sherlock perguntou. — Para tocar violino?
— Há cada vez menos oportunidades na Inglaterra — respondeu Stone. — Tenho esperanças de que o Novo Mundo tenha alguma utilidade para mim, especialmente depois de terem perdido tantos homens na Guerra entre os Estados. — Ele deu uma olhada em Sherlock. — Você tem a estrutura de um bom violinista. Postura ereta e dedos longos. Sabe tocar?
Sherlock balançou a cabeça.
— Não toco nenhum instrumento.
— Devia tentar. As garotas adoram um músico. — Ele inclinou a cabeça para o lado, quase como se o violino ainda estivesse ali. — Sabe ler partituras?
— Sim, aprendi na escola. Havia um coral, e cantávamos todas as manhãs.
— Gostaria de aprender a tocar violino?
— Eu? Tocar violino? Está falando sério?
Stone assentiu.
— Temos uma semana no mar, e esse tempo vai passar muito devagar se não nos divertirmos. Quando eu chegar a Nova York, vou procurar emprego como professor de violino. Seria ótimo se eu pudesse realmente dizer que já ensinei alguém a tocar. No momento, tenho boas ideias sobre como lecionar, mas nunca as coloquei em prática. Então... o que diz? Quer me ajudar?
Sherlock pensou por um instante. Não jogava uíste nem bridge, e sua única ocupação era a laboriosa tradução da República de Platão, o livro que Mycroft havia lhe dado. A proposta pareceu bem mais interessante.
— Não posso pagar — avisou. — Não tenho dinheiro.


— Não haverá nenhuma cobrança financeira. Você vai me prestar um favor.
— O que pode me ensinar em uma semana?
Stone pensou um pouco.
— Podemos começar pela postura — sugeriu. — Como ficar de pé e como segurar o violino. Quando eu estiver satisfeito, passaremos às várias técnicas da mão direita: détaché, legato, collé, martelé, staccato, spiccato sautillé. Quando isso estiver bom, passaremos às técnicas da mão esquerda: baixar e levantar de dedo, deslizar e vibrato. Depois disso, receio que restem apenas prática, prática e mais prática; escalas e arpeggios até sentir a ponta dos dedos doer.
— Eu disse que sei ler partitura, mas não consigo produzir notas — Sherlock admitiu. — Nosso mestre de coral disse que não tenho um bom ouvido.
— Isso não existe — Stone respondeu sem hesitar. — Talvez não saiba cantar, mas garanto que vai conseguir tocar pelo menos uma canção até o final da semana, e garanto que as pessoas vão lhe dar moedas pela sua execução, mesmo que seja só uma polca alemã. O que me diz?
Sherlock sorriu. De repente, a viagem pareceu bem mais interessante do que ele havia esperado.
— Acho ótimo — disse. — Quando começamos?
— Agora — Stone anunciou decidido. — Vamos praticar até a hora do almoço. Pegue o violino. Quero ver sua postura.
Durante as três horas seguintes Sherlock aprendeu a manter a postura e a segurar um violino e um arco. Ele até tocou algumas notas, que soaram como um gato sendo estrangulado, mas Rufus (ele pediu para ser chamado assim quando Sherlock usou “Sr. Stone”, alegando que o sobrenome o fazia parecer um banqueiro) disse que não tinha importância. O propósito da primeira aula, ele explicou, não era aprender a tocar o violino, e sim a senti-lo.
— Quero que fique relaxado, mas atento. Quero que seus braços, mãos e dedos conheçam todas as formas que um violino pode ter. Quero que você sinta o violino como uma extensão de seu corpo quando terminarmos.
No final, Sherlock sentia dores em músculos cuja existência até então desconhecia; o pescoço sofria com cãibras e os dedos formigavam depois de tanto tempo apertando as cordas.
— Não saí do lugar! — ele protestou. — Por que me sinto como se tivesse participado de uma corrida?
— Fazer exercício não significa se mover — disse Rufus. — Significa contrair e relaxar os músculos. É raro ver músicos gordos, porque, embora estejam sentados ou em pé sem sair do lugar, eles estão sempre exercitando os músculos. Exceto os percussionistas. Esses engordam.
— O que vamos fazer agora?
Rufus sorriu.
— Agora vamos almoçar.
Enquanto Rufus guardava o violino no estojo e levava o instrumento para a cabine, Sherlock foi procurar Amyus Crowe. O americano grandalhão saíra de onde quer que estivesse escondido, mas não havia nenhum sinal de Virginia. Quando eles se sentaram à mesa comunitária, Sherlock apresentou Crowe a Rufus Stone.
— É um prazer conhecê-lo, senhor — disse Crowe, apertando a mão de Rufus. — É músico, pelo que vejo. Violinista.
— O senhor me ouviu tocar? — Rufus perguntou, sorridente.
— Não, mas notei que há uma poeira fina em seus ombros. De acordo com minha experiência, isso sugere três possibilidades: o homem em questão é professor, é jogador de bilhar ou toca violino. Não há mesas de bilhar a bordo, que eu saiba, e não vi crianças suficientes para justificar a criação de uma sala de aula.
Sherlock examinou os ombros da própria roupa. De fato, havia uma fina camada de pó. Ele esfregou um pouco entre o polegar e o indicador. Era uma poeira amarelada e pegajosa.
— Isto não é giz — ele disse. — O que é?
— Breu de colofônia — respondeu Rufus.
— É uma resina — explicou Crowe. — Os músicos a chamam simplesmente de breu. É extraída do pinheiro, e depois de fervida e filtrada é moldada em barras, como sabão. Os violinistas cobrem o arco com essa substância. A adesão que a resina provoca entre as cordas e o arco é o que as faz vibrar. É claro que a resina seca e produz um pó, que se deposita no ombro do músico, já que essa é a área do corpo mais próxima do instrumento. — Ele olhou para o paletó de Sherlock e franziu o cenho. — Você também esteve tocando violino. Não, esteve aprendendo a tocar violino.
— Rufus, quer dizer, o Sr. Stone esteve me ensinando.
— Espero que não se incomode, Sr. Crowe — Rufus falou. — Só ofereci de modo a nos ajudar a ocupar o tempo.
— Nunca dei muita importância à música — Crowe resmungou. — A única canção que conheço é o hino nacional, e só porque as pessoas ficam em pé quando toca. — Ele lançou a Sherlock um olhar de esguelha. — Pretendia dar prosseguimento a nossos estudos enquanto estamos a bordo, mas Virginia não está reagindo muito bem à viagem. — Ele balançou a cabeça. — Não sei se mencionei, mas minha esposa, mãe dela, faleceu na última travessia marítima que fizemos, quando viemos de Nova York para Liverpool. As recordações estão ocupando a mente de Virginia, e confesso que eu também não me sinto muito animado. — Ele suspirou. — A memória é uma coisa engraçada. A pessoa consegue deixar de lado as lembranças sobre algo até quase esquecê-las, mas um pequeno detalhe pode trazer tudo de volta. Normalmente, é algum cheiro ou som que desperta a memória. Ginnie não falava da mãe havia algum tempo, mas o cheiro do mar e do navio trouxe todas as recordações de volta com força total.
— Sinto muito — disse Sherlock.
Pareceu inadequado, mas ele não conseguiu pensar em mais nada.
— Coisas ruins acontecem — Crowe respondeu. — É uma das verdades universais da condição humana. — E suspirou. — Vou confiar que você passará algum tempo cuidando daquela tradução que seu irmão sugeriu — acrescentou. — E vou tentar passar uma ou duas horas por dia com você, discutindo o que seus olhos e ouvidos registrem aqui no navio, mas as oportunidades para uma reflexão adequada serão escassas. O restante do tempo será seu. Use-o como quiser.
O almoço transcorreu em um silêncio desconfortável. Assim que a refeição terminou, Sherlock pediu licença e saiu. Tinha a sensação de que havia decepcionado Amyus Crowe de alguma forma, e não queria piorar isso voltando imediatamente às lições de violino. A julgar pelo rápido aceno de cabeça com que Rufus se despediu, o violinista entendera.
Sherlock passou uma hora sentado no convés, lendo o difícil texto em grego da República de Platão. O processo de tradução para o inglês era tão trabalhoso que ele mal conseguia entender o que lia – compreendia o significado de cada palavra, mas, no final da frase, tinha perdido de vista onde ela começara e o que queria dizer.
Em um dado momento levantou os olhos do livro, lutando com um verbo transitivo especialmente difícil, e viu um comissário, de uniforme branco, parado a seu lado segurando uma bandeja. Era o mesmo homem que o ajudara antes e o mesmo que servira o jantar na noite anterior.
— Precisa de alguma coisa, senhor? — perguntou.
— Um dicionário de grego?
O rosto marcado e bronzeado do comissário não se alterou.
— Lamento não poder ajudá-lo, senhor. Há uma biblioteca a bordo, mas não creio que tenhamos um dicionário de grego, especialmente um dicionário de grego antigo, que é o que deve estar procurando.
— Sabe todos os livros que estão na biblioteca? — perguntou Sherlock.


— Trabalho neste navio desde a primeira viagem — respondeu o tripulante. — Conheço todos os livros da biblioteca, todos os coquetéis do cardápio, todas as tábuas do convés e todos os rebites do casco. — Ele assentiu. — Meu nome é Grivens, senhor. Se precisar de alguma coisa, é só pedir.
Sherlock olhou para a mão que segurava a bandeja. Era tatuada do pulso para cima, e o desenho desaparecia sob a manga do uniforme. O garoto teve a impressão de que a tatuagem seguia um padrão de pequenas escamas, coloridas com um delicado tom de azul e dourado que brilhava ao sol.
A mesma cor que ele havia visto no pulso da sombra que o estivera observando no dia anterior. Coincidência?
Grivens percebeu que Sherlock olhava para seu pulso.
— Algum problema, senhor?
— Desculpe. — O menino pensou rápido. Era evidente que havia notado algo de estranho, mas precisava disfarçar sua reação inadequada. — Estava apenas observando sua... tatuagem. Meu... irmão tem uma parecida. — Mentalmente, ele pediu desculpas a Mycroft, que era a última pessoa no mundo em quem Sherlock esperava ver uma tatuagem. Exceto, talvez, tia Anna.
— Fiz em Hong Kong — Grivens contou. — Antes de embarcar no Scotia, quer dizer.
— É muito bonita.
— O tatuador era um chinesinho enrugado que vivia em um beco atrás da praça do mercado em Kowloon — continuou o comissário. — Mas ele é famoso entre os marinheiros do mundo todo. Ninguém faz trabalhos como os dele, ninguém mesmo, em lugar nenhum. Ele usa cores que ninguém mais consegue produzir. Sempre que vejo uma das tatuagens que ele fez em outro marinheiro ou se um marinheiro vê a minha, trocamos um cumprimento, porque sabemos que estivemos no mesmo chinesinho. É como fazer parte de um clube, sabe?
— Por que tantos marinheiros têm tatuagens? — Sherlock indagou. — Pelo que percebi, todos os tripulantes deste navio têm algum tipo de tatuagem, e são todas diferentes.
Grivens desviou o olhar para o mar.
— Esse não é um assunto que costumamos discutir, senhor — ele disse. — Especialmente com os passageiros. A questão é que, e me perdoe se sou indelicado, se houver um naufrágio, pode levar algum tempo até os corpos serem levados à praia, isso presumindo que tal coisa aconteça. Já houve casos em que a identificação foi impossível, até mesmo para os parentes mais próximos. A ação da água salgada, o clima e os peixes... Bem, creio que já entendeu o que quero dizer. Uma tatuagem dura muito mais e pode ser reconhecida muito tempo depois de um rosto ter sido desfigurado. Então, foi assim que começou, como um meio de identificação. É reconfortante saber que depois da morte nossas famílias terão alguma chance de nos dar um enterro digno.
— Ah... Faz sentido, eu acho. Obrigado.
Grivens assentiu.
— Disponha, senhor. Vai continuar aqui por mais algum tempo?
— E aonde mais eu iria?
— Voltarei mais tarde, então. Talvez precise de alguma coisa.
Ele se afastou, abordando outros passageiros para servi-los, mas Sherlock ficou pensativo. Se aquele era o homem que o estivera observando das sombras – se é que estava mesmo sendo observado, já que a suposição se baseava apenas em uma sensação de movimento – por que ele queria saber se Sherlock permaneceria no convés? Será que queria revistar sua cabine, para procurar pistas sobre o que Sherlock sabia? Ou planejava ir atrás de Amyus Crowe e Virginia? De qualquer maneira, Sherlock decidiu que não podia mais continuar ali. Levantou-se rapidamente e atravessou o convés, rumo à escada que descia ao corredor das cabines.
A porta de sua cabine estava entreaberta. Quem estava lá dentro? O comissário ou Amyus Crowe?
Sherlock aproximou-se, tentando espiar pela fresta. Se fosse Grivens lá dentro, procuraria Amyus Crowe e contaria a ele o que estava acontecendo.
Alguém empurrou suas costas com força. Ele foi jogado para a frente, para dentro da cabine. Outro empurrão e Sherlock estava no chão – evitara se chocar com o beliche no último instante, virando a cabeça e encolhendo-se antes do impacto. O carpete fez seu rosto arder, e Sherlock virou-se no chão, erguendo os olhos.
Grivens fechou a porta da cabine. Seus olhos azuis agora eram frios e duros como pedras.
— Acha que é muito esperto, não é? — ele disparou.
Sherlock se assustou com a repentina mudança de atitude, de servidão à raiva.
— Já quebrei homens adultos ao meio. Acha que não percebi que ia me seguir até aqui para ver se eu estava revistando sua cabine? Notei quando estava olhando minha tatuagem, e li em seus olhos o momento em que a reconheceu, o instante em que soube que era eu quem observava vocês três ontem. Por isso o fiz pensar que pretendia revistar sua cabine e o atraí até aqui.
— Para quê? — Sherlock perguntou.
Era difícil respirar ali deitado e encolhido como estava.
— Para tirá-lo deste navio. Primeiro você, depois os outros dois.
— Tirar do navio? — Sua mente demorou dois ou três segundos para entender o que aquilo significava. — Quer dizer... nos jogar do navio? No Atlântico? Vão sentir nossa falta.
— O capitão pode até voltar para procurá-los, mas não vai adiantar. Não vão sobreviver por mais de meia hora nessa água.
A mente de Sherlock funcionava em alta velocidade, tentando entender como tudo aquilo acontecera.
— Você não faz parte disso. Não pode fazer. Os homens que estamos seguindo não sabiam em que navio embarcamos. Eles não sabiam nem que íamos embarcar!
— Fui pago para vigiar três passageiros, um homem grande de chapéu branco e dois adolescentes. Talvez com outro homem, um gordo, ou talvez não. Um terço do dinheiro agora e dois terços depois, se lerem nos jornais a notícia de que três ou quatro passageiros desapareceram no mar.
— Mas como eles sabiam que embarcaríamos neste navio? — perguntou Sherlock, mas logo compreendeu. — Eles pagaram alguém em todos os navios?
Grivens assentiu.
— Todos os navios saindo nos próximos dias, eu acho. E nos encontraram no mesmo lugar: um bar onde os comissários dos navios se reúnem entre uma viagem e outra.
— Mas quanto isso custou?
— Não é problema meu, desde que tenham o dinheiro necessário para me pagar quando eu chegar em Nova York. Eles não pareciam ter problemas financeiros. — O homem agarrou Sherlock pelo cabelo. — E me prometeram uma quantia extra se eu conseguisse fazer você falar tudo o que sabe sobre os planos deles. Podemos resolver isso da maneira mais fácil, sem dor, e ainda prometo deixar você inconsciente antes de jogá-lo no mar. Ou podemos ir pelo caminho mais difícil, e nesse caso serei forçado a amputar seus dedos com um cortador de charuto, um por um, até você me falar tudo, e depois jogarei você do navio ainda consciente.
— Eu vou gritar! — Sherlock respondeu. — As pessoas vão ouvir.
— Eu não comentei? — perguntou Grivens. — Antes de me tornar comissário eu fazia as velas do navio. Os dedos nunca esquecem a sensação da agulha de ferro perfurando a lona. Vou costurar sua boca com barbante, menino, só para ter o prazer de ver o pavor em seus olhos quando jogá-lo ao mar. — Ele fez uma pausa. — Agora, responda: o quanto sabe sobre os planos dos ianques?
Ele se inclinou para agarrar os cabelos de Sherlock. O azul cintilante da tatuagem em seu pulso parecia brilhar na cabine escura.
Sherlock ergueu uma das pernas e acertou a bota na virilha de Grivens. O comissário dobrou-se, grunhindo de dor.
O garoto levantou depressa e segurando os ombros de Grivens empurrou-o para a frente. O homem caiu, e Sherlock passou por ele a caminho da porta.
A mão do comissário segurou seu tornozelo e puxou com força, trazendo-o de volta. Sherlock girou o corpo e com o outro pé deu um chute na testa do homem, atingindo-o bem na sobrancelha. Grivens soltou o garoto e caiu para trás, praguejando.
Sherlock sabia que tinha que fugir e encontrar Amyus Crowe. Correu para a porta e abriu-a, deixando a luz das lamparinas no corredor invadir a cabine. Ele quase caiu ao sair, fechou a porta e correu. Às suas costas, ouviu o estrondo da porta se chocando contra a parede e o bater dos pés do comissário ao segui-lo. O corredor terminava em uma bifurcação. Sherlock foi para o lado esquerdo, em busca da escada que o levaria ao convés e à segurança, mas deve ter se enganado em algum trecho do caminho, porque não havia nem sinal de escada por ali. Em vez disso, os corredores o levavam cada vez mais para o fundo do navio.
Forçado a decidir entre uma escada que descia ainda mais ou o caminho de volta, ele escolheu a escada. Aquela área não era mais para os passageiros; ali as paredes eram de madeira simples e as lamparinas eram amareladas e fracas. Só havia a madeira sob seus pés; nada de carpetes macios.
Sherlock ouviu passos. Grivens ainda o perseguia. Ele seguiu em frente.
Agora o som dos motores era mais alto, como o pulsar de um grande coração mecânico, e a atmosfera estava bem mais quente. Sherlock suava, também por estar correndo, mas em maior parte por causa do vapor que pairava no ar.
Subitamente, ele fez uma curva e viu uma porta larga e alta adiante. Estava fechada. Olhou depressa por cima do ombro, mas sabia que não podia voltar. Tinha que seguir em frente.
Sherlock abriu a porta e entrou.
No Inferno.

Um comentário:

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Boa leitura :)