16 de julho de 2017

Capítulo oito

SHERLOCK AINDA TREMIA QUANDO o sol surgiu completamente no horizonte, pairando no céu acima das copas escuras das árvores como uma fruta muito madura. A pressão da mão de Clem, ao agarrá-lo pelo ombro, deixara uma dor intensa que se irradiava pelas costas abaixo. Sherlock estava certo de que, se olhasse, veria hematomas: cinco marcas ovais deixadas pelos dedos do agressor.
Depois do ataque, depois que Clem desaparecera no rio e seu companheiro fugira, Matty e Sherlock simplesmente olharam-se por alguns momentos, chocados com a repentina violência e com sua interrupção igualmente súbita.
— Ele não tava querendo roubar o barco — Matty sussurrou depois de um tempo. — Queria que ele fosse destruído. Outros caras já tentaram roubar meu barco antes, mas por que alguém iria tentar pôr fogo nele? Nunca vi esses caras! O que foi que eu fiz a eles?
— Estavam atrás de mim — Sherlock disse de forma relutante. — Aquele era um dos homens que vi no galpão. Creio que fosse o chefe, ao menos dos outros que estavam lá. O barão sobre o qual eles falavam é o verdadeiro chefe. Ele deve ter me visto sair do galpão durante o incêndio e percebeu que eu os tinha escutado. Mas não sei como eles nos seguiram até o barco. — Balançou a cabeça, incrédulo. — O que é que eles faziam naquele dia, que para proteger seu segredo estavam dispostos a nos matar? O que é assim tão importante?
Matty apenas olhou para Sherlock como se tivesse sido traído; depois se virou repentinamente e balançou a corda, induzindo o cavalo a mover-se outra vez.
E agora, enquanto o sol se erguia e o ombro de Sherlock doía como um dente podre, eles aproximavam-se de Guildford, e Sherlock ainda não descobrira o segredo que ele supostamente sabia. Tudo o que ele tinha eram perguntas, e o ataque só aumentara a lista.
Uma pequena matilha de cachorros de rua seguia-os ao longo da ribanceira, atenta, na esperança de que os meninos jogassem fora alguma sobra de comida. Sherlock sorriu por um instante, pensando em como os cães eram parecidos com Matty, naquele aspecto. Ele olhou para a frente, para a nuca de Matty, e o sorriso desapareceu de seu rosto. Pusera em risco o barco do menino – o único lar que Matty possuía. Pior: pusera em risco a vida dele. E para quê?
Naquele momento as pessoas começavam a aparecer na margem do rio. Algumas estavam a caminho da cidade, ou voltando de lá, usando o rio como rota conveniente, enquanto outras estavam sentadas sobre caixotes e usavam varas de pescar improvisadas, na esperança de pegar um peixe para o café da manhã. Fumaça erguia-se para o céu diante deles, à medida que os habitantes de Guildford começavam os trabalhos de cozinha daquele dia. Edificações apareciam ao longo das margens: alguns barracos feitos apenas de tábuas presas em vários ângulos, e algumas construções mais resistentes, de tijolos. Surgiam vias calçadas com pedras, primeiro somente alguns trechos isolados, depois uma espécie de pavimento que acompanhava a beira do rio.
Após um tempo, quando alcançaram uma série de edifícios que pareciam galpões aglomerados à beira do rio, Matty começou a puxar a corda. O cavalo reduziu a velocidade dos passos e o barco estreito aproximou-se com suavidade da margem. Matty havia calculado bem toda a operação: eles pararam bem perto de um grande anel de ferro afixado em uma das pedras do pavimento. Sherlock esperava que ele amarrasse a corda no anel, mas, em vez disso, Matty puxou da proa da embarcação uma corrente que parecia estar presa a um orifício na madeira, jogou-a para a margem e desembarcou. Após enrolar a corrente no anel de ferro, Matty tirou do bolso um cadeado grande e antigo e o prendeu a vários elos da corrente.
— Não se pode confiar em ninguém por aqui — ele resmungou, ainda sem olhar para Sherlock. — Uma corda pode ser cortada, mas quebrar uma corrente e um cadeado toma bastante tempo. Mais do que vale o barco, aposto.
— E o cavalo? — perguntou Sherlock.
— Se ele encontrar quem o trate melhor que eu, pode ir — respondeu Matty. Ele pisou a grama e parou, olhando para Sherlock. Sua expressão não era muito amistosa, mas pelo menos agora ele se dispunha a fazer contato visual. — Ele está muito velho e fraco para puxar um arado ou uma carroça — explicou. — Um barco é o máximo que ele aguenta, e mesmo para isso ele é lento. Não vale a pena roubá-lo.
— Lamento pelo que aconteceu — Sherlock disse, encabulado.
— Não é culpa sua — Matty respondeu, passando a manga da camisa na boca. — Você topou com alguma coisa, e essa coisa acabou pegando você. E me pegou também. O melhor é a gente tentar se livrar disso quanto antes e seguir em frente. — Ele olhou em volta. — Estamos no cais Dapdune — disse. — Se nos separarmos, o que é bastante provável, lembre-se de voltar para cá. Não vou sair daqui sem você. — Ele olhou para Sherlock com ar sério. — E tenho certeza de que você não pode partir sem mim. Agora, como é mesmo o nome daquele cara que você tá procurando?
— Professor Winchcombe — Sherlock disse.
— Então, vamos procurá-lo. E talvez possamos arranjar alguma coisa para comer.
Juntos, os dois garotos afastaram-se do rio por um caminho que parecia levar a uma via maior. Passaram uma hora andando e pedindo informação a várias pessoas, até descobrirem que a casa do professor Winchcombe era na estrada Chaelis, que saía da High Street, e depois levaram mais meia hora para encontrar a High Street, que subia uma ladeira a partir do rio e era cercada de lojas de dois e três andares construídas com vigas de madeira escura e reboco branco. Do lado de fora das lojas havia placas de madeira com desenhos de peixes, pães, vegetais e todo tipo de produtos. A maioria das pessoas que subiam e desciam a rua, e que olhavam as vitrines do comércio, vestia-se melhor que os habitantes de Farnham. Suas roupas eram de tecido mais fino, tinham acabamentos de renda e fitas e eram mais coloridas e limpas que as que Sherlock vira recentemente.
Algumas barracas que vendiam frutas e carne cozida e fria localizavam-se na parte mais ao sul da High Street, ao longo de uma mureta baixa, que separava a cidade do rio. Matty estava prestes a esgueirar-se pela mureta, por trás das barracas, para procurar comida que tivesse caído, mas Sherlock aproximou-se e usou parte dos poucos recursos que Mycroft lhe enviara para comprar o café da manhã dos dois. Matty olhou para ele desconfiado: Sherlock teve a impressão de que o menino acreditava que a comida era mais saborosa se ele não tivesse de pagar por ela. De sua parte, Sherlock gostava mais da comida se ela não tivesse rolado na terra, ou se ele não precisasse brigar por ela com um cachorro.
A estrada Chaelis ficava na metade da High Street, e os dois garotos estavam ofegantes quando finalmente a alcançaram. A estrada continuava depois de uma curva fechada, e Sherlock começou a percorrê-la, mas parou ao perceber que Matty não o seguia. Ele se virou e olhou com curiosidade para o menino.
— Qual é o problema?
Matty balançou a cabeça.
— Não é meu tipo de lugar — disse, olhando as casas altas e os jardins bem-cuidados ao longo da via. — Vá em frente. Eu espero aqui. — Olhou em volta. — Em algum lugar por aqui, pelo menos.
Sherlock assentiu. Matty estava certo – a presença de um “mendigo árabe molambento”, como a Sra. Eglantine o descrevera, provavelmente traria problemas para eles. Limpando a poeira das roupas o melhor que pôde, Sherlock seguiu adiante.
A casa que procurava ficava logo além da curva. Sherlock abriu o portão e aproximou-se da porta, que era protegida por um pórtico em estilo grego. Uma placa de bronze fora presa a um dos pilares. Nela estavam gravadas as palavras: “Professor Arthur Albery Winchcombe. Especialista em Doenças Tropicais.”
Antes de se deixar dominar pelo nervosismo Sherlock puxou a corda da campainha.
Um homem num austero terno preto com colete cinza abriu a porta. Ele observou Sherlock através de óculos minúsculos que mal cobriam seus olhos.
— O professor Winchcombe está em casa? — Sherlock perguntou.
O homem – Sherlock supôs que ele fosse um mordomo – encarou-o por um instante.
— Quem devo anunciar? — ele perguntou enfim.
Sherlock abriu a boca, prestes a apresentar-se, mas hesitou. Talvez fosse melhor usar o nome de outra pessoa – alguém de quem o professor já tivesse ouvido falar. Mycroft, talvez? Ou Amyus Crowe? Qual deles seria melhor?
No final, ele escolheu ao acaso.
— Por favor, diga ao professor que um aluno do Sr. Amyus Crowe deseja consultá-lo.
O mordomo assentiu.
— Gostaria de esperar na sala de estar? — ele perguntou, mantendo a porta aberta. Tratando Sherlock como um integrante da realeza, e não como um menino nervoso e descomposto, ele indicou uma porta do outro lado do saguão.
O papel de parede que revestia a sala era coberto por estampas de plantas altas e finas que Sherlock não reconhecia, como se fossem enormes talos de mato. Pareciam ter anéis em torno dos caules, posicionados em intervalos regulares em toda a extensão. Sherlock ficou fascinado por elas, e ainda olhava para os desenhos quando a porta se abriu e um homem entrou na sala. Ele era pequeno – menor que Sherlock – e sua barriga era saliente como se ele tivesse enfiado uma almofada sob seu paletó. Havia sobre sua cabeça um engraçado chapeuzinho vermelho sem aba ou bicos: apenas uma torre curta e grossa feita de seda vermelha.
— Bambu — ele disse.
— Desculpe-me?
— As plantas no papel de parede. Bambu. É uma espécie de sempre-viva, uma planta perene lenhosa pertencente à família das gramíneas. Passei um bom tempo na China quando jovem, e lá conheci muito bem. O bambu é a planta lenhosa que cresce mais depressa dentre todas no mundo, sabe? As maiores podem crescer até sessenta centímetros em um dia, sob certas condições. A propósito, o próprio papel de parede é chinês. Papel de arroz.
Sherlock não sabia se havia entendido.
— Papel feito de arroz?
— Um equívoco comum — respondeu o professor. — Na verdade, o papel de arroz é feito da medula de uma pequena árvore, a Tetrapanax papyrifer. — Ele inclinou a cabeça para um lado. — Disse que é aluno de Amyus Crowe? — perguntou. Seus olhos por trás dos óculos eram brilhantes e perspicazes, repletos de curiosidade.
— Sim, senhor — respondeu Sherlock, tomado por uma estranha sensação de ter voltado à escola Deepdene.
— Recebi uma carta do Sr. Crowe hoje de manhã. Muito incomum. Muito mesmo. É por isso que você está aqui?
— A carta era sobre dois homens mortos?
O professor assentiu.
— De fato, era.
— Foi por isso que vim. Ouvi o Sr. Crowe comentar que o senhor é especialista em doenças.
— Sou especialista em doenças tropicais, mas, sim, minha área de conhecimento abrange a maioria das doenças contagiosas graves, desde a febre de Tapanuli e o cancro negro de Formosa até a cólera e a febre tifoide. Ouvi dizer que esses dois homens podem ter morrido de alguma enfermidade desconhecida.
— Não tenho tanta certeza. — Sherlock enfiou a mão no bolso do paletó e retirou o envelope que guardara a carta de Mycroft e agora continha uma amostra do pó amarelo. — Colhi isto aqui de um lugar perto de um dos corpos, mas sei que estava presente em ambos os restos mortais — ele disse, apressado. — Não sei o que é, mas imagino que esteja ligado às mortes. Pode ser venenoso.
O professor estendeu a mão para o envelope.
— Nesse caso, terei cuidado ao manuseá-lo — disse.
— Acredita em mim? — Sherlock indagou.
— Você veio até aqui para falar comigo; então, presumo que esteja levando tudo isso a sério. O mínimo que posso fazer é tratar o assunto com a mesma seriedade. Além do mais, conheço Amyus Crowe e sei que ele é um homem íntegro. Não consigo imaginá-lo aceitando um aluno que tenha o hábito de pregar peças. — Ele sorriu de repente, e seu rosto se transformou em uma imagem angelical. — Agora, vamos dar uma olhada nessa amostra que você me trouxe.
Ele indicou o caminho através do saguão de entrada até outro cômodo da casa. Esse estava cheio de livros, e havia uma escrivaninha bem grande ao lado de uma janela onde a iluminação era melhor. Junto a um bloco de mata-borrão verde na escrivaninha, entre papéis e diários espalhados e uma vela acesa, havia um microscópio.
O professor Winchcombe sentou-se em uma cadeira com estofamento de couro e convidou Sherlock a puxar outra cadeira e sentar-se a seu lado. Retirou de uma gaveta uma folha de papel amarelado e a colocou sobre o mata-borrão, e depois abriu o envelope cuidadosamente com a ponta de um abridor de cartas e despejou o conteúdo sobre o papel. Logo ele tinha diante de si um montinho de pó amarelo. Com a ponta do abridor pegou uma pequena porção do pó e a transferiu para a lâmina que já estava presa na platina sob a lente do microscópio. Ajustou um espelho sob a platina, posicionando-o de forma que refletisse a luz da vela por meio de um orifício na platina e da lâmina de vidro até as lentes. Enquanto Sherlock observava, tentando não respirar muito forte, para não espalhar o pó, o professor olhava pela lente do microscópio, girando os botões laterais a fim de ajustar o foco sobre o pó.
— Ah — ele disse. E depois: — Hum. — Tirou o chapéu vermelho, coçou a cabeça, e recolocou-o exatamente no mesmo local.
— O que foi? — Sherlock sussurrou.
— Pólen apícola — o professor respondeu. — É inconfundível.
— Pólen apícola? — Sherlock repetiu, sem saber se ouvira corretamente.
— Já estudou as abelhas? — o homem perguntou, recostando-se na cadeira. — Criaturas fascinantes. Recomendo que as investigue com seriedade. — Ele tirou os óculos e coçou os olhos. — As abelhas colhem o pólen das flores e o levam para sua colmeia.
— O que é pólen? — Sherlock perguntou, sentindo-se estranhamente desapontado. — Já ouvi a palavra antes, mas nunca soube ao certo o que significava.
— Pólen — o professor explicou — é um pó que consiste em microgametófitos, que produzem os gametas masculinos, ou células reprodutoras, das plantas que produzem sementes. O pólen é produzido pelos estames, ou órgãos reprodutores masculinos das flores, e é levado pelo vento, ou por insetos, até o pistilo, ou órgão reprodutor feminino, de outra flor de natureza semelhante. Lá eles se fundem para formar uma semente. — Ele examinou os óculos e os devolveu ao nariz.
Sherlock tentou entender o que o professor lhe dissera, mas se deu conta de que o homem estava falando novamente.
— No caso das abelhas, elas recolhem o pólen das flores e levam para suas colmeias na forma de bolinhas armazenadas nas patas traseiras. O benefício para a planta, claro, é que, à medida que a abelha vai de uma flor a outra, ela acaba derrubando um pouco do pólen do estame de uma flor em cima do pistilo de outra, ajudando assim na reprodução. Então, na parte superior das patas traseiras das abelhas há pelos minúsculos que funcionam como um cesto, onde elas misturam os grãos de pólen com o néctar para formar uma bolinha. E é isso que chamamos de “pólen apícola”.
— E é perigoso?
— Para a maioria das pessoas, não, mas alguns desafortunados têm aversão física à substância. — Recostou-se e refletiu por um momento. — Isso poderia ter causado as bolhas que o Sr. Crowe descreveu em sua carta? Hum, duvido. As reações ao pólen costumam surgir mais na forma de urticárias que na de bolhas, e seria pouco provável encontrar, supostamente por acaso, dois homens com a mesma sensibilidade exacerbada. — De repente ele bateu com a mão na escrivaninha. Sherlock deu um pulo. — É claro! Estou ignorando a resposta óbvia!
— Óbvia? — Sherlock estava quebrando a cabeça. Qual era a explicação óbvia para a formação de bolhas relacionada com as abelhas? Então, a compreensão o atingiu como um raio. — Picadas! — ele exclamou.
— Muito bem, meu rapaz. Sim, picadas de abelha. Picadas muito virulentas, por sinal. A maioria das abelhas, pelo menos neste país, causa dor e um pequeno calombo com suas picadas, mas nada parecido com as bolhas que o Sr. Crowe descreveu. — Ele olhou para Sherlock. — Você também deve ter visto as bolhas. De que tamanho eram?
Sherlock levantou a mão direita.
— Do tamanho da ponta do meu polegar, mais ou menos — ele respondeu.
— O que indica uma variação bastante virulenta de veneno, e talvez um tipo muito agressivo de abelha.
— Como o senhor sabe tanto sobre abelhas?
O professor sorriu.
— Eu disse que passei alguns anos na China. Os chineses criam abelhas há milhares de anos, e descobri que o mel é muito valorizado entre eles devido às suas propriedades medicinais. De acordo com os registros no grande trabalho médico Bencao Gangmu, ou O compêndio de matéria médica, escrito por um homem chamado Li Shizhen há trezentos anos, o mel tem a capacidade de harmonizar o baço, aliviar a dor, remover toxinas, reduzir aflição, dar brilho aos olhos e prolongar a vida. — Desviou os olhos de Sherlock, voltando-os para a parede, e o menino ficou com a impressão de que ele lembrava coisas que tinham acontecido muitos anos antes. — Aqui na Grã-Bretanha estamos acostumados à dócil abelha europeia, Apis mellifera. A abelha asiática, Apis dorsata, é consideravelmente mais agressiva e sua picada é muito mais dolorosa, mas, mesmo assim, os chineses as criam e colhem o mel de suas colmeias. Diferentes das que vemos aqui, que têm a forma de sinos, os chineses utilizam troncos cavados ou cestos cilíndricos de tecido para abrigar as abelhas. Às vezes, na China, era possível ver os camponeses carregando montanha acima suas colmeias, duas de cada vez, penduradas nas extremidades de varas de bambu equilibradas sobre os ombros. Lembro-me de vê-los subir, com as abelhas zunindo à sua volta como uma nuvem de fumaça.
Uma nuvem de fumaça. As palavras atingiram Sherlock como um soco no meio do rosto.
— Então, era isso — ele murmurou.
— O quê?
— Vi uma sombra afastar-se de um dos corpos, e meu amigo viu a mesma coisa sair por uma janela da casa na qual o outro corpo foi encontrado. Deviam ser as abelhas!
O professor assentiu.
— Deviam ser bastante pequenas, para ser confundidas com uma sombra, e provavelmente eram de cor escura, diferentes das nossas abelhas comuns, que são amarelas e pretas. Acredito que existam abelhas africanas muito pequenas e praticamente pretas. E elas também são muito agressivas.
— O senhor poderia me fazer um favor? — Sherlock perguntou.
— É claro que sim.
— Escreveria uma carta para Amyus Crowe relatando sua teoria sobre o que causou a morte daqueles dois homens? Eu levarei a carta de volta a Farnham e a entregarei a ele. — O menino desviou o olhar, sentindo o rosto corar. — Acho que vou ter problemas com meus tios quando voltar, e isso pode me salvar de uma punição.
O professor assentiu. Ele despejou o pó amarelo – o inofensivo pó amarelo, Sherlock lembrou a si mesmo – da folha de papel no mata-borrão. Estendendo a mão até um tinteiro no canto da escrivaninha, pegou uma pena e começou a escrever sobre a folha. Sua letra era bastante sinuosa, mas Sherlock conseguia identificar as palavras.

Caro Sr. Crowe:
Tive o prazer de conhecer seu aluno...

— Como é seu nome, meu jovem? — ele perguntou, olhando para Sherlock.
— Holmes, senhor. Sherlock Holmes.

... o senhor Sherlock Holmes, que me trouxe uma amostra de pó amarelo que me contou ter sido encontrada próximo aos sujeitos desafortunados cujo falecimento o senhor descreveu-me em sua carta, recebida por mim nesta manhã. Examinei o pó e identifiquei-o como simples pólen apícola, e, portanto, deduzo que os dois homens de que me falou não foram mortos pela peste bubônica nem nenhuma enfermidade semelhante, mas por picadas de abelhas. Se pedir a um médico da sua região que examine as supostas “bolhas, acredito que ele encontrará pequenos ferrões encravados em cada uma delas, ou, ao menos, as marcas deixadas por esses ferrões. Enalteço a decisão desse rapaz de ter-me trazido a amostra do pó. Caso ele não o tivesse feito, os rumores sobre uma doença fatal a assolar o país poderiam ter causado grande pânico.
Espero ansioso por nosso reencontro em oportunidade que lhe for conveniente.
Minhas sinceras lembranças,
Sr. Dr. Arthur Winchcombe

O professor dobrou a folha, colocou-a em um envelope retirado de uma gaveta da escrivaninha, o qual selou com uma gota da cera da vela usada para iluminar o microscópio, e entregou-o a Sherlock.
— Espero que isto sirva para poupá-lo de uma punição muito severa — disse. — Por favor, transmita meus respeitos a seu tutor.
— Certamente. — Sherlock fez uma pausa, e então acrescentou: — Obrigado.
O professor Winchcombe fez soar uma sineta que estava sobre o mata-borrão, ao lado do microscópio.
— Meu mordomo o acompanhará até a porta. Se quiser saber mais sobre doenças tropicais, apicultura, ou sobre a China, sinta-se à vontade para procurar-me novamente.
Quando saiu, Sherlock surpreendeu-se ao constatar que o sol não mudara sua posição no céu mais que alguns graus. Tinha a sensação de que passara horas na casa do professor Winchcombe.
Matty estava sentado sobre o muro do jardim. Comia alguma coisa de dentro de um cone de papel.
— Já fez o que veio fazer? — perguntou.
Sherlock assentiu. Depois apontou o cone de papel.
— Que é isso?
— Mariscos — o menino respondeu, inclinando a abertura do cone na direção de Sherlock. — Quer um pouco?
Dentro do cone havia um punhado de conchas.
— Foram cozidos? — Sherlock perguntou.
— Fervidos — Matty respondeu, de forma sucinta. — Encontrei uma barraca de pescador. Ele tava vendendo isso. Deve ter vindo de Portsmouth durante a noite. Eu ajudei um pouco, arrumei suas caixas, fui buscar mais gelo, essas coisas. Ele me deu uma porção disso como pagamento. — Matty pegou uma concha do cone. Deixando-o sobre o muro, ele tirou um canivete do bolso e enfiou a ponta da lâmina dentro da concha, espetando o que estava lá dentro. Em alguns segundos puxou uma coisa escura e gelatinosa, que pôs na boca. — Delicioso. — Matty tinha um sorriso largo. — Não é sempre que dá para arranjar isso, a menos que se viva perto do mar. Quando se arranja, é bom aproveitar.
— Acho que não quero, obrigado — Sherlock disse. — Vamos para casa.
Dessa vez eles desceram a High Street até o rio, depois caminharam pela margem até encontrar o barco. Conforme Matty previra, a embarcação e o cavalo ainda estavam ali. Sherlock perguntou-se como fariam para virar o barco e voltar, mas Matty levou o cavalo pela margem na direção da cidade até chegar a uma ponte e, então, atravessou-a guiando o animal, puxando a proa da embarcação, enquanto Sherlock usava o croque para impedir que o barco se chocasse contra as margens do rio. Então começou a lenta viagem de volta; dessa vez Sherlock ia na frente, conduzindo o cavalo, e Matty viajava na plataforma, manejando o leme.
Os dois meninos conversavam enquanto o barco acompanhava lentamente a correnteza. Sherlock contou a Matty a respeito do professor Winchcombe e de sua explicação sobre as abelhas e as picadas. No início Matty duvidou, mas Sherlock conseguiu convencê-lo de que não era necessária nenhuma explicação sobrenatural para a nuvem da morte. Matty parecia dividido entre o alívio pelo fato de nenhuma praga ter se precipitado sobre Farnham e a irritação causada por uma explicação tão prosaica. Sherlock não disse nada, mas, ao longo do trajeto, cada vez mais julgou-se certo de terem desvendado um mistério para encontrar outro. Por que as abelhas picaram aqueles dois homens em locais diferentes, mas não atacaram mais ninguém? Aliás, por que havia abelhas africanas na Inglaterra? E qual a relação de tudo isso com o galpão, as caixas que foram carregadas na carroça pelos bandidos e o misterioso barão?
Depois de um tempo, Sherlock percebeu que outro cavalo juntara-se ao deles na margem do rio. Era um garanhão preto de pelo brilhante, com uma mancha marrom no pescoço, e Virginia Crowe o cavalgava. Ela ainda vestia calça de montaria e camisa, com uma jaqueta por cima.
— Olá! — Sherlock cumprimentou.
Ela acenou de volta.
— Matty, essa é Virginia Crowe — ele disse por cima de um ombro. — Virginia, esse é Matthew Arnatt. Matty.
Matty acenou com a cabeça para Virginia, e ela respondeu com um gesto semelhante, mas nenhum dos dois disse nada.
Sherlock ficou em pé, equilibrando-se precariamente sobre a proa do barco por um momento, sentindo-o balançar sob seus pés, e saltou para a margem. Ele segurou a rédea do cavalo de Matty e conduziu o animal adiante, caminhando ao lado de Virginia e de seu cavalo.
— Este é Albert — Sherlock disse pouco depois.
— Este é Sandia — Virginia respondeu. — Você deveria aprender a cavalgar, sabia?
Ele balançou a cabeça.
— Nunca tive a oportunidade.
— É fácil, mas vocês, meninos, estão sempre fazendo um drama sobre como é difícil. Guie o animal com os joelhos, não com as rédeas. Use-as para reduzir a velocidade do cavalo.
Sherlock não conseguiu pensar em uma resposta adequada para isso. Eles seguiram por um tempo em um silêncio desconfortável.
— Onde você esteve? — a garota acabou por perguntar.
— Em Guildford. Queria visitar uma pessoa. — Lembrou-se então de tirar do bolso a carta escrita pelo professor Winchcombe. — Preciso entregar isto a seu pai. Você sabe onde ele está?
— Ainda procurando por você. Você deveria estar em sua aula.
Ele olhou para a menina para ver se ela estava falando sério, mas havia um sorriso sutil em seus lábios. Virginia olhou para Sherlock, e ele desviou o rosto.
— Dê-me a carta — ela disse. — Vou entregá-la a ele.
Sherlock estendeu a mão com o envelope, mas o puxou de volta.
— É importante — disse, hesitante. — É sobre os dois homens que morreram.
— Então vou entregá-la imediatamente. — Virginia pegou a carta da mão estendida de Sherlock. Os dedos não se tocaram, mas ele quase podia sentir o calor da mão da garota quando chegou perto da sua. — Os homens morreram com a praga, não é? É o que as pessoas estão comentando.
— Não foi a praga. Foram abelhas. Por isso tive de ir a Guildford. Precisava conversar com um especialista em doenças. — Percebeu que estava falando mais depressa, mas não conseguiu evitar. — Encontrei um pó amarelo perto dos corpos. Queria que alguém me dissesse o que aquilo era, então levei uma amostra a Guildford. Era pólen. Por isso concluímos que as mortes foram causadas por abelhas.
— Mas você não sabia disso quando encontrou o pó — Virginia observou.
— Não.
— Nem quando recolheu a amostra e levou-a até Guildford.
— Não.
— Até onde você sabia, isso podia ter sido alguma coisa que causava a praga. Alguma coisa contagiosa.
Sherlock sentiu que estava sendo encurralado.
— Sim — disse, soltando a palavra de um jeito mais parecido com “Si-i-i-m”.
— Então, você arriscou sua vida com base no fato de que achava que todo o mundo estivesse errado, e que você poderia provar que estavam errados.
— Acho que sim. — Sentia-se confuso e constrangido. Virginia estava certa: solucionar o mistério havia sido mais importante para ele que a própria segurança. Ele podia ter se enganado; não sabia muito sobre doenças nem como eram transmitidas. O pó amarelo podia ter sido alguma coisa produzida pelos cadáveres em decorrência de uma doença, como uma escamação de pele seca e infectada... algo que podia conter a enfermidade e transmiti-la. Estivera tão concentrado no esforço de resolver o enigma, que nem pensara naquilo.
O restante do trajeto até Farnham foi percorrido em silêncio.

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