25 de julho de 2017

Capítulo nove

O CALOR O ATINGIU COMO uma bofetada e quase o derrubou. Era como entrar em um forno aceso. Ele sentiu os cabelos perto da nuca ficando úmidos e o suor escorrendo no rosto e no pescoço. O ar era tão denso e quente que era difícil respirar.
A porta se abria para uma varanda de ferro fundido e, lá embaixo, havia um inferno cavernoso cheio de máquinas e peças: pistões, rodas, eixos, tudo se movendo em direções e velocidades variadas: de um lado para o outro, para cima e para baixo, girando e girando. Era a sala das máquinas do Scotia, o motor que fazia girar as grandes rodas dos dois lados do navio. Em algum lugar perto dali, Sherlock sabia, havia uma caldeira, e nela marinheiros que jogavam o carvão em uma imensa fornalha, onde ele queimaria e produziria calor, que por sua vez transformaria a água de uma caldeira acima dessa em vapor e o empurraria por uma rede de canos até ali, onde pistões, rodas e engrenagens convertiam a pressão do vapor no movimento giratório que ativava gigantescos eixos ligados às rodas. Se ali já era quente como o inferno, a sala da caldeira deveria ser pior do que trabalhar dentro de um vulcão. Como os homens suportavam aquilo?
O barulho era ensurdecedor: uma combinação de estampidos, assobios e estrondos que faziam a cabeça doer. Sherlock sentia a vibração no batente onde apoiava a mão e até no próprio ar. Era como receber vários socos no peito. Era praticamente impossível sustentar qualquer tipo de conversa naquelas condições. Os homens que trabalhavam ali deviam se comunicar por linguagem de sinais, e surdez devia ser um risco ocupacional.
A iluminação vinha de lamparinas sujas que pendiam das paredes em vários locais e também de grades no teto que permitiam a passagem de finos feixes de luz do mundo lá fora, mas a claridade se difundia rapidamente na atmosfera enfumaçada, úmida e poeirenta, e havia grandes áreas escuras em todos os lugares. As grades também deixavam entrar o ar, que chegava como uma brisa fresca e agradável a quem estava sob elas. Pó de carvão e vapor d’água pairavam na atmosfera; espíritos irrequietos que não sabiam para onde ir.
Sherlock olhou em volta rapidamente, tentando decidir aonde ele poderia ir. A sala das máquinas parecia ocupar vários andares do navio. Passarelas atravessavam o espaço em alturas variadas. Escadas de ferro davam acesso às passarelas. Vigas de ferro cruzavam o espaço conferindo-lhe alguma estabilidade e servindo de pontos de apoio para os canos e as rodas. Tudo parecia ter sido projetado de forma que qualquer cano, pistão, roda ou eixo pudesse ser alcançado por um homem com uma chave-inglesa, caso surgisse um problema.
Alguns canos menores terminavam em válvulas de pressão – instrumentos do tamanho dos punhos de Sherlock, com mostradores indicando a pressão do vapor canalizado. Os engenheiros podiam analisar os mostradores e calcular se o motor do navio precisava de mais carvão ou se era necessário reduzir a pressão. Outros canos tinham grandes rodas de metal que provavelmente serviam para abrir ou fechar válvulas, permitindo que o vapor passasse por canos distintos com diferentes pressões.
Sherlock olhou para cima e viu dois grandes recipientes de pressão no teto, onde parte do encanamento terminava. Os recipientes pareciam se abrir para o nível do convés. Ele só precisou de um momento para deduzir que aquilo levava às duas chaminés do Scotia, por onde saía o vapor que já havia cumprido seu papel.
Tudo era feito de um metal preto e espesso, sempre quente, e as coisas eram presas por braçadeiras da largura de um polegar. As máquinas pareciam tremular, cercadas pelas ondas de calor do carvão incandescente: o ar quente dançava, dificultando o cálculo das distâncias.
O cheiro da sala das máquinas fazia o nariz de Sherlock coçar desconfortavelmente. Era um odor sulfúrico, como o de ovos podres, mas havia também algo de óleo e carvão e mais alguma coisa que lembrava o gosto de sangue, provavelmente por causa do ferro aquecido.
Uma silhueta saiu das sombras. Sherlock encolheu-se, esperando ver Grivens, mas era outro membro da tripulação, um engenheiro. Seu peito estava nu e ele exibia músculos impressionantes. Onde a pele não estava enegrecida pelo pó de carvão havia rios de suor, formando um padrão de listras claras e escuras igual ao das gravuras de zebras que Sherlock havia visto em livros sobre a África na biblioteca do pai. O tecido macio da calça estava ensopado de suor, e ele carregava uma pá apoiada ao ombro. Toda a sua postura – o jeito como caminhava, sua expressão, tudo – sugeria um cansaço extremo. Sherlock o viu passar pelo motor ruidoso e desaparecer por outra porta sem olhar para cima, provavelmente a caminho de uma rede no fundo escuro do navio.
Sabendo que Grivens estava atrás dele, provavelmente bem perto, Sherlock correu pela varanda até que encontrou um ponto em que havia escadas subindo e descendo. Para onde ir? Subir o levaria para mais perto do convés, mas talvez não houvesse uma saída. Tinha certeza de nunca ter visto nenhum dos engenheiros ou fogueiros lá em cima. Deviam ser proibidos de subir, condenados a passar toda a viagem na escuridão. Iria para baixo, então, e precisava torcer para encontrar outras saídas da sala das máquinas.
O garoto desceu os degraus de ferro o mais depressa possível, sentindo os dedos queimarem em contato com o metal quente. A vibração das máquinas subia pelos braços a ponto de fazer seus dentes rangerem. O calor e a dificuldade para respirar no ambiente úmido e denso o enfraqueciam; suas mãos suadas escorregaram das laterais da escada duas vezes, e ele quase caiu. Por fim, Sherlock conseguiu chegar ao térreo e apoiou a testa na escada por um segundo, aliviado e grato, antes de continuar em frente.
Lá em cima, na varanda, a porta se abriu com estrondo. Sherlock a ouviu bater na parede. Houve um momento de silêncio, depois passos pesados ecoaram na passarela de metal.
Sherlock se esgueirou por um corredor entre duas grandes partes do motor, trechos irregulares de ferro preto decorados com canos variados. Seu ombro tocou em um deles, e ele deu um pulo. O ferro estava pelando.
O corredor terminava em uma superfície de metal curva e coberta de rebites; devia ser parte de algum tipo de recipiente de pressão. Era o fim. Não havia saída.
As sombras o escondiam. Sherlock tentou ficar quieto, encolhido, imóvel.
Passos na escada, depois silêncio quando o homem chegou ao térreo.
— Garoto — gritou a voz de Grivens —, vamos conversar. Começamos com o pé esquerdo, é verdade. Eu exagerei. Apareça, seja um bom menino, e vamos conversar como velhos amigos. Vamos rir disso tudo um dia, prometo que vamos.
Sherlock não confiava nas palavras do homem nem em seu tom de voz. Se saísse do esconderijo, sabia que seria morto.
— Tudo bem — Grivens falou novamente. — Tudo bem, então. — Era difícil ouvi-lo com todo o barulho das máquinas e o estalar dos canos. — Está com medo. Eu entendo. Acha que vou lhe fazer algum mal. Muito bem, vamos falar sobre dinheiro, então. Fui pago para eliminar você, e isso eu já contei, mas sou um homem prático. Um empresário, se quiser. Tenho certeza de que o ianque grandalhão pode cobrir a oferta dos homens que me contrataram. Vamos juntos procurá-lo e resolver essa situação como pessoas esclarecidas. Ele pode me dar um cheque, e eu esqueço que tinha que acabar com vocês três. O que acha?
Sherlock achava que era um truque, mas não seria tolo a ponto de dizer isso. Preferiu continuar em silêncio.
Em algum lugar perto dali uma válvula se abriu e o vapor escapou com um apito ensurdecedor.
— Garoto? Você ainda está aí? — A voz soava mais próxima dessa vez, como se Grivens tivesse se movido. Ele procurava Sherlock, em vez de apenas esperar que suas palavras o convencessem a sair do esconderijo. — Sei que começamos com o pé esquerdo, mas quero consertar a situação. Saia daí e venha conversar.
Sherlock sentiu que estava encostado em um cano ou uma parte do motor que continha vapor. O calor se espalhava por suas roupas, queimando as costas. Tentou se afastar um pouco, mas para isso teria que expor parte do corpo em uma nesga de luz. Sherlock se moveu devagar, mas o calor foi demais e ele teve que se afastar depressa, antes que sofresse queimaduras graves. Seu pé bateu em uma parte do cano e o barulho ecoou pela sala como um sino.
— Então, você está aqui — Grivens deduziu, e sua voz soava muito próxima. — Bem, já é um começo.
Uma sombra surgiu na entrada do corredor onde Sherlock se escondia. À luz acinzentada que penetrava pelas grades no alto ele conseguiu ver a silhueta da cabeça e dos ombros de Grivens e notou que ele segurava alguma coisa, uma ferramenta que mantinha acima da cabeça, pronto para atacar. Parecia uma chave-inglesa; uma chave-inglesa muito grande e pesada.
Sherlock pensou que ali, no fundo do navio, Grivens nem teria que se preocupar em arrastar seu corpo pelo convés e jogá-lo ao mar. Simplesmente o jogaria no fogo e o deixaria queimar. Tudo que ele precisava fazer era subornar os foguistas com algumas moedas para que ficassem quietos, e Sherlock seria reduzido a cinzas.
— Saia, saia, de onde quer que esteja — cantava Grivens.
Seu corpo agora bloqueava toda a luz que entrava no corredor. Era como se ele sentisse a presença, a localização de Sherlock. Em vez de seguir adiante, ele entrou no corredor.
Sherlock se abaixou, tentando continuar nas sombras. Mais alguns segundos e Grivens o veria, e então estaria tudo acabado.
Sua mão tocou no chão quente, e ele levou alguns segundos para perceber que ela havia deslizado para além do ponto onde o cano ao qual ele estivera encostado deveria se fundir com o chão. Ele moveu os dedos, explorando. Era como se o cano não descesse até o chão, mas descrevesse uma curva apoiado em uma estrutura presa ao chão por rebites. Embaixo dela havia espaço suficiente para Sherlock passar. Sua esperança era encontrar uma saída do outro lado. Caso contrário, estaria tão encurralado quanto agora, mas em uma posição ainda mais desconfortável.
Sherlock ficou de gatinhas, depois se deitou de bruços. O chão quase queimava sua pele. A camisa estava molhada de suor e grudou no piso quando ele tentou se arrastar para passar sob a estrutura da máquina. Então ele levantou a mão e agarrou uma das barras de ferro, pensando em puxar o corpo, mas o metal queimou seus dedos e ele gritou de dor.
— Ahá! — Grivens correu para o fundo do corredor, batendo com a chave-inglesa nos canos e fazendo um barulho horrível. — Onde você está, seu porcaria?
Sherlock preparou-se e estendeu a mão para a estrutura mais uma vez. O metal queimava a pele, mas ele aguentou firme e puxou com força, tomando impulso com os joelhos e os pés, arrastando-se sob a estrutura e afastando-se de Grivens. De repente, sentiu um espaço acima dos ferros e levantou-se devagar até ficar em pé. A mão latejava, mas agora ele estava em outra parte da sala das máquinas. Outro corredor estendia-se diante dele com paredes formadas por redes de canos. Ele correu por esse espaço, procurando uma escada ou uma porta.
Alguma coisa estalou lá atrás. Sherlock virou-se e viu Grivens em pé no fim do corredor de paredes metálicas. Ele acabara de bater com a chave-inglesa em um poste de metal.
— Tudo bem, garoto. Fim da linha. Já se divertiu bastante, agora é hora de acabar com isso. Deixe o velho Grivens pôr fim a seu sofrimento, está bem?
— É tarde demais para aquele acordo que propôs há pouco? — Sherlock tentou.
Grivens sorriu.
— Tarde demais — respondeu. — Lamento, mas sou um homem de palavra. Quando faço um acordo, cumpro minha parte. Não poderia romper o contrato agora, entende? Que tipo de homem eu seria?
— Então, era tudo mentira.
— Sim, apenas palavras. Havia uma chance de você acreditar nelas e sair do esconderijo por conta própria, mas eu não acreditei muito nisso.
Ele começou a andar, balançando a chave-inglesa.
Sherlock olhou em volta, procurando desesperadamente alguma coisa que pudesse servir de arma no confronto. Parecia que lutar era sua única opção agora.
Clang! A chave-inglesa bateu em um cano de ferro e o choque reverberou por toda a sala de máquinas.
— Olhe para mim — Grivens disse com voz calma e baixa. — Olhe para mim, garoto. Olhe nos meus olhos. Não procure saídas. Aceite o inevitável, está bem?
Sherlock sentia que a cadência da voz do homem, a lógica das palavras e o calor da sala das máquinas o estavam colocando em uma espécie de transe. Ele balançou a cabeça repentinamente. Não podia se deixar hipnotizar pelo comissário de bordo.
Desesperado, olhou para os lados. Alguma coisa chamou sua atenção – algo apoiado em uma escada. Uma pá! Um dos foguistas devia ter deixado a pá ali ao final do turno. O cabo estava coberto de pó de carvão e parte da lâmina havia sido derretida, como se, por acidente, alguém a houvesse mantido por tempo demais nas chamas enquanto revirava o carvão. Sherlock pegou-a, segurando-a diante do corpo com a lâmina erguida perto do rosto.
— Então, o pirralho é corajoso. — O rosto de Grivens era uma máscara sombria. — Isso só quer dizer que vou ter que me esforçar um pouco mais para ganhar meu dinheiro.
Grivens lançou-se para a frente e moveu a chave-inglesa, tentando acertar a lateral da cabeça de Sherlock. O garoto se esquivou e a chave atingiu um tubo de ferro. Fagulhas voaram pela sala. Sherlock sentiu-as queimarem seu rosto e passou uma das mãos na cabeça, caso houvesse algo em seu cabelo.
Grivens rosnou, já preparando uma nova investida. Levantou a chave acima da cabeça e abaixou-a com força, tentando atingir o crânio de Sherlock.
O menino, meio desajeitado, bloqueou o golpe com a pá. A chave-inglesa acertou o cabo de madeira, deixando uma marca e quase derrubando Sherlock. A vibração atingiu seus braços como se pudesse arrancá-los. Mesmo assim, ele conseguiu mover a pá e acertar o joelho de Grivens com a lâmina. O homem gritou e cambaleou para trás, a boca aberta em uma expressão incrédula.
— Seu miserável! — ele urrou girando a chave inglesa como um taco e atacou novamente.
Sherlock levantou a lâmina da pá para se defender. Ao atingir a chave-inglesa, houve um estrondo pavoroso. Grivens foi jogado para trás pelo impacto. A ferramenta caiu de sua mão e desapareceu na escuridão da sala das máquinas. Os dedos de Sherlock soltaram a pá como se não tivessem mais força para sustentá-la.
Grivens estava quase de joelhos, segurando o cotovelo direito com a mão. Seu rosto estava distorcido em uma expressão animalesca.
Sherlock virou-se e correu.
O corredor terminava em mais uma bifurcação, com diversas opções à esquerda e à direita. Sherlock escolheu o lado direito e correu, parando apenas ao encontrar uma escada. Ele olhou para trás, mas não havia sinal de Grivens. Sentindo a fraqueza no ombro que absorveu o choque entre a pá e a chave-inglesa, subiu desajeitadamente a escada até uma passarela.
A passarela seguia em paralelo ao eixo principal, passando pela parede da sala de máquinas e encontrando uma das rodas de pás. Sherlock havia perdido o senso de direção. Não sabia qual das rodas era movida pela eixo, talvez as duas. Não que isso fosse importante. O eixo girava lentamente ao seu lado, era volumoso como seu corpo e brilhava por causa da graxa. Seguindo para o centro da sala das máquinas havia o complexo arranjo de engrenagens, pistões e válvulas que o movimentavam.
Debruçado no corrimão que se estendia por toda a extensão da passarela, ele tentou ver onde estava Grivens. Não teve sorte – o comissário havia desaparecido.
A luta não parecia ter atraído atenção. A sala das máquinas era sempre deserta ou Grivens havia subornado a tripulação para desaparecer enquanto ele lidava com Sherlock?
Alguma coisa agarrou seu tornozelo e o puxou. Sherlock caiu na passarela, sentindo a perna ser puxada para baixo. Agarrou-se ao corrimão para não cair. O rosto de Grivens estava colado à grade de metal. Era dele a mão que agarrava o tornozelo de Sherlock.
— Vai mesmo me fazer trabalhar por esse dinheiro, não é? — ele falou entre os dentes. — Só por causa disso vou fazer o ianque e a filha sofrerem muito. Pense nisso enquanto estiver aqui, sangrando até a morte.
A única resposta de Sherlock foi esticar o outro pé, raspando a sola da bota pela perna até encontrar os dedos de Grivens. O comissário grunhiu de dor e soltou o tornozelo do garoto, que rolou para o lado e levantou-se.
O rosto do marinheiro apareceu no alto da escada enquanto ele subia. Seus dentes estavam à mostra em uma expressão de ódio.
— Isso não tem mais a ver com dinheiro — sibilou. — Agora é pessoal.
Sherlock recuou devagar. O comissário chegou ao alto da escada e continuou na direção do menino. Seus ombros estavam encurvados, e os dedos, crispados como garras. Seu uniforme branco, antes imaculado, agora estava cinzento e sujo.
Sherlock sentiu algo pressionando sua lombar. Olhou para baixo rapidamente e viu que havia chegado ao fim da passarela. Estava encostado em uma das rodas que controlavam o fluxo de vapor pelos canos. Ao lado dele o enorme eixo cilíndrico rodava incansavelmente. Chegara à área onde o mecanismo transformava o movimento linear dos pistões em rotatório, movendo o eixo. Havia várias peças, semelhantes a cabeças de cavalo engraxadas, subindo e descendo em um ritmo complicado. Por um segundo Sherlock apreciou o brilhantismo da engenharia em ação no navio. Como as pessoas podiam simplesmente saber que aquelas coisas funcionavam e não se interessar em descobrir como?
Não que ele fosse ter a chance de aprender mais alguma coisa na vida. Grivens ainda seguia na sua direção e se aproximava cada vez mais. Esticou as mãos para o pescoço de Sherlock.
— Eu devia ganhar um bônus por isso — o comissário sussurrou.
Os dedos dele apertavam o pescoço de Sherlock com força e o menino sentia os olhos saltarem. Seu peito queria puxar o ar, mas nada chegava aos pulmões. Desesperado, ele agarrou os pulsos de Grivens, tentando afastá-los, mas os músculos do comissário estavam contraídos, duros como ferro. Sherlock tentou puxar os dedos de Grivens. Talvez conseguisse tirá-los de seu pescoço. Agora enxergava tudo vermelho e sem foco, e havia pontos pretos dançando diante de seus olhos, encobrindo o rosto de Grivens. Seu peito ardia.
Desesperado, o garoto contorceu o corpo com a força que ainda tinha. Pego de surpresa, Grivens perdeu o equilíbrio e curvou-se sobre o corrimão que acompanhava a passarela, mas não soltou o pescoço de Sherlock. As válvulas ao lado subiam e desciam: peças de metal socando o ar a poucos centímetros do rosto dos dois. A expressão de Grivens era feroz, seus olhos pareciam poços de ódio.
Sherlock relaxou o corpo, como se não tivesse mais energia. Grivens, novamente pego de surpresa, deixou-o cair. Em vez de ficar de joelhos, o menino soltou as mãos e agarrou o cinto de couro do agressor, dando impulso com as pernas e erguendo os braços para levantar o homem. Os pés de Grivens levantaram da passarela quando Sherlock puxou seu cinto para cima. Já desequilibrado, Grivens não conseguiu evitar que seu próprio peso o alavancasse por cima do corrimão. Sherlock esperava que o homem o soltasse, que tentasse se agarrar à balaustrada, mas ele continuava apertando seu pescoço, puxando-o para baixo também.
Até que a manga da roupa de Grivens ficou presa em um pistão. A peça enganchou no tecido e puxou com força. Ele gritou – um grito curto e desesperado de medo e ódio – quando seu corpo foi arrancado da passarela e sugado pela máquina. Sherlock soltou o cinto do homem e levantou os braços, para tirar as mãos dele de seu pescoço. Finalmente o garoto pôde respirar de novo, enquanto o corpo do marinheiro foi puxado para baixo, girou pelo eixo e ficou preso nas peças que martelavam.
O motor nem engasgou, mas Sherlock teve que virar o rosto para não ver o que acontecia a Grivens, preso nos metais.
Sherlock curvou-se, apoiou as mãos nos joelhos e tentou levar o máximo possível do ar quente e úmido aos pulmões. Por um instante achou que sufocaria, porque o corpo exigia mais oxigênio do que ele podia inspirar, mas aos poucos sua respiração foi voltando ao normal. Quando sua visão ficou menos embaçada e os olhos recuperaram o foco, e quando conseguiu respirar novamente sem sentir o peito doer, ele se levantou e olhou em volta.
Nenhum sinal de Grivens. A graxa preta no eixo e nos pistões parecia mais vermelha e brilhante, mas era só.

Depois de um tempo Sherlock desceu a escada e atravessou a sala das máquinas, procurando uma saída. Não sabia se a porta que acabou encontrando era a mesma por onde havia entrado, mas isso não tinha importância. Do lado de fora o ar estava fresco e ameno. Foi como sair do inferno direto para o céu.
As pessoas o observaram quando por fim Sherlock chegou ao convés, mas ele não se importava. Só queria voltar à cabine, limpar a graxa e a sujeira do corpo e trocar de roupa. Colocaria as que vestia agora para lavar. Talvez a lavanderia de bordo conseguisse limpá-las, talvez não. No final, já nem se importava mais.
Amyus Crowe estava na cabine quando Sherlock abriu a porta.
— Acho que alguém esteve aqui bisbilhotando — ele disse, um segundo antes de se virar e ver o estado de Sherlock. — Meu Deus, o que aconteceu?
— As pessoas que estamos seguindo... Elas distribuíram dinheiro no porto — o menino respondeu cansado. — Em cada navio que vai zarpar esta semana deve haver um homem a quem uma boa quantia foi prometida se nos matarem.
— Pelo menos um — Crowe falou. — Mas vamos deixar para pensar nisso mais tarde. Quem era?


— Um dos comissários.
— E onde ele está agora?
— Digamos que vai haver um tripulante a menos servindo o jantar esta noite — respondeu Sherlock.
Ele contou a Crowe toda a história enquanto se lavava e mudava de roupa. Amyus ouvia em silêncio. Quando Sherlock começou a se repetir, Crowe levantou a mão.
— Acho que já entendi tudo — disse. — Como se sente?
— Cansado, desidratado e dolorido.
— Isso é compreensível, mas como se sente?
Sherlock o fitou intrigado.
— Como assim? O que quer dizer?
— Quero dizer que um homem morreu, e você foi o motivo. Vi homens mergulharem em poços profundos de culpa e tristeza depois de um evento como esse.
Sherlock pensou por um minuto. Sim, um homem havia morrido, e ele era responsável, mas não foi a primeira vez. O capanga do barão Maupertuis, Clem, muito provavelmente tinha se afogado quando caiu do barco de Matthew Arnatt, e isso aconteceu porque Matty o atingira na nuca com um gancho de metal. O braço direito de Maupertuis, Sr. Surd, fora picado por abelhas até a morte, mas isso podia até ser considerado um acidente – ele tinha caído de costas na colmeia. E as pessoas que estavam no forte napoleônico no momento em que ele explodiu podem ter morrido queimadas ou ter se afogado quando pularam no mar, mas Sherlock não achava que participara diretamente do destino delas. Crowe estava certo? Seria essa a primeira morte que ele havia causado diretamente?
— Não sou o que se pode chamar de religioso — disse por fim. — Não acredito que haja um mandamento de Deus dizendo “Não matarás”, mas acho que a sociedade é melhor quando leis e quando as pessoas não podem simplesmente andar por aí matando as outras. Isso é parte do que Platão discute no livro que meu irmão me deu quando embarcamos. Mas o comissário estava tentando me matar, e se eu não fizesse o que fiz, ele não desistiria. Não escolhi matar aquele homem. Ele provocou a briga, não eu.
Crowe assentiu.
— É justo — disse.
— Qual era a resposta certa?
— Não existe resposta certa, filho; não que eu consiga pensar, pelo menos. É um dilema: a sociedade funciona porque as pessoas seguem as regras e não saem por aí matando umas as outras, mas se elas escolherem viver fora dessas regras, o que faremos? Deixamos que se safem ou lutamos contra elas usando as mesmas armas? Se você escolhe a primeira alternativa, elas podem acabar dominando a sociedade, porque estão sempre dispostas a lutar mais sujo e mais duro do que você. E se escolhe a segunda, como vai evitar se tornar tão ruim quanto elas? — Ele balançou a cabeça. — No final, o único conselho que posso lhe dar é: se você chegou ao estágio em que a vida de um homem não tem mais importância, é porque já foi longe demais. Enquanto a morte o incomodar, e desde que entenda que ela é o último recurso, não o primeiro, é bem provável que esteja do lado certo da linha.
— Acha que Mycroft sabia que alguma coisa assim ia acontecer? — Sherlock perguntou. — Acha que foi por isso que ele me deu o livro?
— Não — respondeu Crowe —, mas seu irmão é um homem sábio. Acho que ele considerou que em algum momento você faria essas perguntas a si mesmo e quis se certificar de que você tivesse as ferramentas para encontrar as respostas.

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