16 de julho de 2017

Capítulo nove

— VOCÊ ME DESAPONTA, GAROTO.
Sherrinford Holmes estava sentado atrás da enorme escrivaninha de carvalho em seu gabinete, e em pé atrás dele, respectivamente à esquerda e à direita, estavam Amyus Crowe e a Sra. Eglantine. As roupas pretas da governanta mesclavam-se tão bem às sombras, que apenas as mãos e o rosto eram visíveis. Com a barba branca e longa de tio Sherrinford e as várias Bíblias em hebraico, grego, latim e inglês espalhadas sobre a escrivaninha, Sherlock sentia-se como se disciplinado por Deus, com dois anjos vingadores em pé atrás de seu trono; o efeito era prejudicado apenas pelo fato de o tio usar um roupão sobre o terno.
O rosto de Sherlock queimava, de vergonha e raiva. Queria protestar, dizer que seus atos tinham sido movidos pelas melhores intenções, mas bastou um olhar para o rosto do tio e ele soube que não adiantaria argumentar.
— Sinto muito, senhor — ele disse, depois de um longo momento de silêncio, quando percebeu que o tio esperava por uma resposta. — Não farei isso de novo.
— Seu pai, meu irmão, o confiou a meus cuidados, e acertamos que eu daria continuidade à sua educação moral e o impediria de envolver-se com más companhias ou de fazer más escolhas. Estou mortificado por saber que falhei em ambas as tarefas.
Outra longa pausa. Sherlock sentiu-se pressionado a pedir desculpas de novo, mas tinha a sensação de que isso seria interpretado como um sinal de insolência.
— Sei que não deveria ter ido até Guildford sozinho — disse, enfim.
— Essa é a menor entre suas transgressões — respondeu tio Sherrinford. — Ainda hoje de manhã você saiu desta casa antes do nascer do sol, como um criminoso qualquer...
— A cama dele nem estava usada — interrompeu a Sra. Eglantine. — Ele deve ter saído antes da meia-noite.
Sherlock sentia os ombros tremerem devido ao esforço de conter a ira. Sabia que a governanta mentia: ele tinha dormido por algumas horas, e saíra logo antes do amanhecer, mas não podia desmenti-la, apesar do ardente desejo de dizer a verdade. Ela tentava piorar sua situação, e discutir seria interpretado como um ato de rebeldia e apropriadamente punido.
— Vou escrever a seu irmão — continuou Sherrinford — para dizer-lhe que a confiança que depositei em você foi traída. E você não terá permissão para deixar esta casa durante a próxima semana.
— Se me permite — Amyus Crowe manifestou-se atrás de Sherrinford —, gostaria de dizer uma ou duas palavras em favor do garoto. — Ele levou a mão ao bolso interno do paletó incrivelmente branco e retirou um envelope. — A carta que o menino trouxe do eminente professor Winchcombe tranquilizou os receios de um surto de peste bubônica na região. Levar aquela amostra de pólen para ser analisada demonstra força de vontade, pensamento independente e relutância em aceitar conclusões prontas; atributos que devem ser incentivados, eu diria.
— O senhor sugere que o menino não deve ser punido, Sr. Crowe? — a Sra. Eglantine perguntou em um tom afável.
— De maneira nenhuma — Crowe respondeu. — Sugiro que, em vez de proibi-lo completamente de sair de casa, determinem que ele possa sair apenas comigo. Assim eu poderei manter o acordo que fiz com o irmão dele.
Sherrinford Holmes refletiu por um momento, afagando a barba com a mão direita. E então:
— Muito bem — pronunciou. — Vamos firmar um compromisso. Você ficará confinado a esta casa hoje e amanhã, o dia inteiro. Depois, ficará em casa o tempo todo, exceto quando estiver estudando com o Sr. Crowe. Quando estiver em casa, deverá ficar em seu quarto, exceto à hora das refeições. — Seus lábios esboçaram um quase sorriso. — No entanto permitirei que você retire da biblioteca quaisquer livros que desejar para passar o tempo: use esse tempo com sabedoria, para aprimorar-se e para refletir sobre seus atos.
— Sim, senhor — Sherlock disse, tendo de esforçar-se para pronunciar as palavras. A tensão nos ombros diminuíra um pouco. — Obrigado, senhor.
— Agora, vá, e não volte até a hora do jantar.
Sherlock virou-se e saiu do gabinete. Sentia uma vontade desesperada de discutir, de dizer que o que fizera era certo, mas conhecia o suficiente da dinâmica do mundo dos adultos para saber que discutir só iria piorar as coisas. Certo não era importante. Obedecer às regras, sim.
Ele subiu a escada larga e acarpetada até o primeiro andar, e depois a escada estreita de madeira até o andar de seu quarto. Deitou-se na cama e ficou olhando para o teto, deixando que os pensamentos se agitassem em sua cabeça.

O tempo passou depressa no restante daquele dia e no dia seguinte. O corpo de Sherlock, cansado e castigado por suas aventuras, aproveitou a oportunidade para recuperar o máximo de sono possível, mas quando Sherlock estava acordado, seus pensamentos vagavam sem rumo, como mariposas em torno da chama de uma vela. O que estava acontecendo? O que, exatamente, planejava o barão Maupertuis, e quem o impediria?
Ele gastou algum tempo na tentativa mental de compor uma carta para o irmão, não porque esperasse que Mycroft fizesse algo, mas porque queria contar a alguém de confiança o que estava acontecendo. Depois de um tempo, quando conseguiu elaborar as palavras como queria, transferiu-as para o papel.

Querido Mycroft:
Gostaria de poder dizer que estou seguindo seu conselho e dedicando-me a uma mistura de estudos na biblioteca de tio Sherrinford com explorações dos campos da região, mas creio que me meti em uma situação problemática, e agora não sei o que fazer. A boa notícia – se é que existe alguma – é que fiz duas amizades. Uma delas chama-se Matthew Arnatt, e ele mora em um barco no canal. Creio que você pode gostar dele. A outra é Virginia Crowe. Ela é filha de Amyus Crowe, que diz ensinar-me sobre a natureza e o modo como observar o mundo à minha volta, mas acho que, na verdade, ensina-me a pensar. Eu gostaria que você não tivesse considerado necessário achar um tutor para mim durante as férias, mas, de todos os tutores que poderia ter encontrado, creio que o Sr. Crowe é o melhor.
Coisas estranhas têm acontecido aqui em Farnham... quem me dera poder conversar com você sobre elas. O corpo de um homem foi encontrado na cidade, coberto de bolhas, e outro foi descoberto aqui no terreno da mansão Holmes. Os habitantes da cidade pensaram que fosse a praga, mas um homem chamado professor Winchcombe provou que os dois homens foram mortos por centenas de picadas de abelhas. Acredito que as abelhas tenham alguma relação com um homem chamado barão Maupertuis, que é proprietário de um galpão em Farnham, mas não sei qual.
O galpão foi destruído por um incêndio, e com ele todas as evidências. Direi como isso aconteceu quando o encontrar.
Em resumo, a vida aqui é mais interessante do que eu esperava – quando posso sair da casa. No momento, estou confinado a meu quarto, por ter ido a Guildford procurar o professor Winchcombe, mas essa é outra história que lhe contarei quando nos virmos.
Tem notícias de nosso pai? Ele ainda está a caminho da Índia? E recebeu mais alguma informação sobre quando os problemas de lá podem terminar?
Diga à mamãe e à nossa irmã que as amo. Por favor, venha visitar-me em breve.
Seu irmão,
Sherlock

Depois de concluir a carta e passar o mata-borrão sobre o papel, ele a deixou sobre a mesa da entrada na hora do almoço, para ser recolhida por uma criada e levada ao posto de correio em Farnham. Quando desceu novamente para o chá, a carta tinha desaparecido. A Sra. Eglantine passava pelo saguão, com um rosto que parecia flutuar nas sombras, e sorriu para ele com frieza. Será que ela viu a carta? Será que a leu? Será que a carta ao menos chegou ao posto do correio, ou a governanta a destruiu? Sherlock disse a si mesmo que estava sendo tolo – que razões a Sra. Eglantine teria para fazer tal coisa? – mas o aviso de Mycroft ecoava em sua cabeça. Ela não é amiga da família Holmes.
Deitado em seu quarto, Sherlock tinha a mente dominada por esses pensamentos. O gongo distante anunciando a refeição seguinte o despertou de um estado sonolento, e ele desceu ao térreo. A Sra. Eglantine deixava a sala de jantar. Ela o encarou com os lábios esticados em uma expressão de desprezo e afastou-se.
Sherlock não estava com fome. Ele olhou para a porta por alguns instantes, tentando convencer-se a comer algo, só para não perder a força, mas não sentia nem um pouco de vontade. Deu meia-volta e começou a encaminhar-se para a biblioteca para procurar livros sobre abelhas ou apicultura.
Quando atravessava o saguão, notou uma carta na bandeja de prata sobre a mesinha lateral. Será que não estava ali antes, ou ele que não a percebera? Por um momento imaginou que pudesse ser outra carta de Mycroft, então a pegou. Seu nome estava escrito no envelope, seguido do endereço da mansão, mas a letra não era de seu irmão. Era mais arredondada. Mais... feminina. Como seria possível?
Sherlock olhou em volta, quase convencido de que encontraria a Sra. Eglantine observando-o das sombras, mas estava sozinho no saguão. Pegou a carta, abriu a porta da frente e sentiu no rosto o sol de fim de tarde, mas permaneceu na soleira, para não ser acusado de sair da casa.
Havia uma única folha dentro do envelope. O papel era de um lilás bastante claro. Nele, abaixo do nome e do endereço dele, estava escrito:

Sherlock:
Está acontecendo uma feira nos prados logo abaixo do castelo. Encontre-me lá amanhã às nove horas da manhã – se tiver coragem!
Venha sozinho.
Virginia

Sherlock sentiu uma vertigem momentânea e respirou fundo. Virginia queria vê-lo? Por quê? Nas duas ocasiões em que se encontraram, Sherlock tivera a impressão de que ela não gostava muito dele. Eles certamente não conversaram muito. E agora ela queria encontrá-lo – a sós?
Mas ele não podia ir! Fora proibido de deixar a casa!
Seus pensamentos afluíam à mente, rápidos, em sua tentativa de encontrar uma justificativa que lhe permitisse sair na manhã seguinte sem causar-lhe problemas. Com certeza, devia existir um argumento lógico que ele pudesse elaborar para resistir ao escrutínio de tio Sherrinford. Virginia pedira que Sherlock fosse encontrá-la. Pelo pouco que sabia dela, podia dizer que era mais independente que as meninas inglesas de sua idade. Sabia cavalgar – cavalgar de verdade, não sentando-se de lado sobre a sela – e era capaz de sair sozinha por aí. Mas, se fosse inglesa, não iria à feira sem a companhia da família. E isso significava que seria razoável interpretar a carta como um convite para encontrar Virginia e seu pai, o que queria dizer que ele poderia sair de casa sem violar as regras do acordo que fizera com o tio. Sherrinford não acreditaria que uma menina fosse arranjar um encontro com um garoto sem que sua família estivesse presente. Sherlock sabia que não era bem assim, mas, se fosse interrogado, não abriria o jogo.
Uma ideia passageira fez com que ele hesitasse: e se alguém da mansão Holmes estivesse na feira? Mas logo ele se convenceu de que seus tios não estariam lá, nem a Sra. Eglantine. E, se um dos criados domésticos ou empregados da propriedade estivesse presente, o mais provável seria que nem o reconhecesse.

Sherlock passou o restante da tarde e boa parte da noite oscilando entre a decisão de ir e a de não ir. Na manhã seguinte, ainda não tinha certeza, mas ao descer a escada para tomar o café ficou pensando no rosto de Virginia e decidiu que iria. Sem dúvida, iria.
Sherlock conferiu as horas no relógio de parede: eram pouco mais de oito horas. Se saísse agora e usasse a bicicleta, poderia chegar lá a tempo. Sabia onde ficava o castelo – no alto de uma colina sobre a cidade – e imaginava que a feira acontecia em uma parte dessa encosta.
Deveria deixar um bilhete? Depois dos eventos recentes, Sherlock pensou que isso seria sensato, então rabiscou uma explicação rápida, dizendo que saíra para encontrar Amyus Crowe, e deixou o envelope sobre a bandeja de prata. Em seguida, andou, quase correndo, até o local onde deixara a bicicleta, abaixando-se ao passar por janelas e permanecendo atrás de muros sempre que possível.
A cabeça girava cheia de pensamentos e especulações enquanto ele pedalava. Jamais tivera uma amiga antes. Havia a irmã, claro, mas ela era mais velha e interessava-se por coisas diferentes: pintura, crochê, piano. E, é claro, havia sua enfermidade, que a mantivera isolada e acamada durante boa parte da infância de Sherlock. Ele nunca fizera amizade com as crianças da região em torno da propriedade de seus pais, muito menos com as meninas, e Deepdene era uma escola exclusiva para garotos. Não sabia ao certo como se comportar com Virginia, sobre o que falar ou como agir.
Chegando a Farnham, Sherlock saiu por uma estrada secundária que subia em direção ao castelo, que ele podia ver, debruçado sobre a cidade. Pedalou com esforço até suas pernas começarem a doer, e então desmontou para caminhar, empurrando a bicicleta. Quando chegou ao terreno que cercava o castelo, estava exausto.
Estendendo-se pelo prado, sob o sol matinal, Sherlock viu um cenário representativo da vida humana. Como se fosse uma miniatura de cidade, ao longo de largas vielas gramadas tinham sido montadas barracas e cercados delimitados por cordas, entre os quais as pessoas passeavam, apreciando e comentando o que viam. Pairava sobre tudo uma camada de fumaça, e os cheiros de gente, carne assada e excremento de animais faziam coçar o nariz de Sherlock. Havia áreas para malabaristas, lutas de boxe, duelos travados com varas e brigas de cachorros. Charlatões vendiam ilegalmente remédios patenteados; engolidores de fogo levavam à boca carvões flamejantes presos em hastes de metal, e moradores da região faziam caretas grotescas para ganhar um chapéu, disputavam corridas em troca de um roupão e engoliam tortas o mais rápido que podiam para ganhar o prêmio em dinheiro reservado a quem comesse mais.
Sherlock examinou a multidão, procurando o característico cabelo avermelhado de Virginia, mas havia tanta gente ali, que ele não conseguia distinguir uma pessoa da outra. Ela não marcara um local exato para o encontro, então suas únicas opções eram esperar onde estava e torcer para ser encontrado ou misturar-se ao povo para tentar localizá-la. E Sherlock nunca foi muito bom em esperar.
Com um pouco de receio, o menino deixou sua bicicleta encostada em uma cerca em um dos lados do padoque. Não tinha certeza de que a encontraria ali ao voltar, mas a multidão compacta de gente indicava que ele não teria como levá-la consigo.
A primeira coisa que viu ao percorrer a feira foi um barril completamente cheio de água. Havia pessoas reunidas em torno dele, que riam e gritavam palavras de incentivo umas às outras. A superfície da água parecia estar fervendo, o que fez Sherlock suspeitar de que algo era cozido ali dentro, mas não havia fogo embaixo do barril. Alguém na plateia, um menino magro com um lenço de bolinhas amarrado em torno do pescoço, tentava impressionar uma menina de faces rosadas e vestido branco, que estava parada a seu lado. Ele entregou uma moeda ao homem que parecia ser o dono do barril, agarrou as bordas com as duas mãos e mergulhou subitamente a cabeça na água.
Sherlock prendeu o fôlego, ainda um tanto convencido de que a água fervia, mas o garoto não pareceu se machucar. Ele movia a cabeça de um lado para o outro na água, como se procurasse alguma coisa, mergulhando mais fundo de vez em quando e retrocedendo em seguida. Depois de um tempo, tirou toda a cabeça de dentro do barril. A água escorria por seu rosto, pelo pescoço e pelas roupas, mas isso não parecia incomodá-lo. Havia algo entre seus dentes, algo prateado, que se debatia com desespero, tentando fugir. Por um momento Sherlock não conseguiu identificar o que era, mas então percebeu. Era uma enguia, um pouco maior que o dedo de um homem. Sherlock seguiu em frente, fascinado. Já ouvira falar de gente pescando maçãs em barris, mas enguias? Era incrível.
— Vejam o mais extraordinário carneiro do mundo! — um homem gritava, em frente a uma barraca. — Um carneiro que tem quatro patas e metade de uma quinta! Vocês jamais verão nada parecido com isso! — Ele atraiu o olhar de Sherlock, que passava por ali. — Você, jovem... veja a imagem mais impressionante nesta terra verde de Deus. Jamais a esquecerá. As meninas irão absorver encantadas cada palavra sua quando você descrever para elas o incrível carneiro que tem quatro patas e metade de uma quinta.
Sherlock passou por uma barraca na qual duas marionetes eram exibidas em uma janela, movidas por uma pessoa cujo corpo ficava escondido lá dentro. A cabeça dos bonecos era esculpida em madeira, com nariz e queixo exagerados, e as roupas eram de fitas de cores vivas. Enquanto Sherlock observava, uma das marionetes apoiou a cabeça no parapeito da janela – quase se dobrando ao meio no processo – e, no mesmo instante, a outra decapitou-a com um minimachado. A cabeça caiu, e fitas de um vermelho vivo explodiram do pescoço, simulando o jorro de sangue. A multidão aplaudiu e acenou com chapéus.
Havia um lago em um dos extremos da área da feira, e um pato era jogado na água por um homem de cartola e colete de cor vibrante. As patas da ave estavam amarradas a um peso por uma corda fina, e o peso a impedia de voar. Em torno do lago, cachorros rosnavam e tentavam libertar-se de cordas e coleiras. Ao ver dinheiro na mão de todos na plateia, Sherlock imaginou horrorizado o que iria acontecer ali. O homem de colete deu um passo para trás e levantou a mão. A multidão ficou em silêncio, expectante. Os cães redobraram os esforços para libertar-se, e rosnavam com uma intensidade que parecia fazer tremer o chão. O homem abaixou a mão e os proprietários dos cães os soltaram. Todos juntos, eles mergulharam no lago, tentando capturar o pato, jogando água em todas as direções. Apavorado, o pato movia-se de um lado para outro, seus movimentos limitados pela corda e pelo peso, e tentava evitar as investidas. Enquanto isso, os cães evitavam ir para a parte mais funda do lago, excetuando um corajoso terrier que nadava freneticamente em perseguição ao pato. Sherlock desviou o olhar antes que o cachorro cravasse os dentes no pescoço da ave. Era uma conclusão inevitável. A única dúvida era a identidade do dono vencedor do prêmio.
Enojado, Sherlock afastou-se dali.
Passou por barracas que vendiam salsichas quentes e maçãs no palito, cobertas de calda doce, biscoitos sabor laranja e volumosos pedaços de torresmo. Não sabia se a sensação que vinha de seu estômago era fome ou nervosismo. Ou as duas coisas.
A multidão avolumava-se e tornava-se cada vez mais barulhenta, e Sherlock sentiu que era empurrado e imprensado por trás. As pessoas à sua volta falavam e riam. Uma voz soou mais alta, gritando:
— Quem enfrentará o campeão invicto? Quem tem coragem para encarar Nat Wilson, o Colosso Verde de Kensal? Um soberano, se você vencer; nada além de escárnio e humilhação, se perder!
Sherlock caiu sobre um joelho. Quando se levantou, foi empurrado para o lado. Algo pesado o atingira nas costas. Ele virou-se e descobriu que, de repente, estava na frente da multidão. O objeto em que tropeçara era uma estaca de madeira, uma das quatro que marcavam os cantos de um quadrado. Cordas tinham sido estendidas entre as estacas. Um homem que vestia apenas calça de couro ocupava o centro do ringue e fazia poses e gestos para a multidão. O peito e os braços eram bastante musculosos. Outro homem, esse vestido com terno empoeirado e um chapéu de aba simples, olhava diretamente para Sherlock.
— Temos um desafiante! — ele gritou. A multidão aplaudiu.
Sherlock tentou recuar, mas a multidão o empurrava para a frente. As cordas foram afastadas para abrir espaço, e Sherlock foi empurrado para dentro do ringue.
— Não! — gritou ao perceber que, de alguma forma, era ele o desafiante. — Eu não...
O sujeito de terno passou na frente de Sherlock e disse:
— Regras de Broughton: sem enchimentos nem soqueira. Vale tudo, menos bater no oponente quando ele estiver no chão. Quando o lutador estiver no chão, terá trinta segundos para descansar e mais oito segundos para voltar à risca. A luta termina quando um dos lutadores não conseguir mais se levantar. — Ele olhou para Sherlock, que desesperadamente procurava ao redor, por entre a multidão, uma brecha pela qual pudesse escapar.
— Menino — o sujeito murmurou —, não acredito que consiga resistir por mais de um minuto. Se ficar em pé por cinco minutos, dobro o prêmio. Preciso manter a plateia entretida.
— Eu não deveria estar aqui! — Sherlock protestou.
— É um pouquinho tarde demais — respondeu o locutor.
— Mas isto é um acidente!
— Não. — O homem sorriu, exibindo dentes pretos e podres. — Isto é um massacre.
O locutor dirigiu-se a uma das laterais do ringue, onde outras pessoas afastaram as cordas para deixá-lo passar. Sherlock tentou segui-lo, mas as cordas voltaram à posição normal e a plateia de homens, mulheres e crianças vaiou quando ele tentou fugir. Pedras foram arremessadas nele, obrigando-o a recuar para o centro do ringue.
O outro lutador andava pelo ringue, olhando para os espectadores e provocando aplausos. Ele era uns quinze centímetros mais alto que Sherlock, pelo menos, e tinha o peito muito mais largo. As mãos eram como duas bolsas de couro cheias de castanhas.
— À risca — ele grunhiu.
— O quê?
O lutador apontou duas linhas paralelas que tinham sido cortadas na grama, com cerca de um metro de distância uma da outra.
— Você fica atrás de uma; eu fico atrás da outra. Quando o sino soar, nós lutamos. É assim que funciona.
— Não quero lutar — protestou Sherlock.
— A escolha é sua, garoto — o homem rosnou. — De qualquer jeito, preciso fazer isso durar cinco minutos, e sua cabeça vai parecer carne moída se cê não se proteger. — Ele olhou para Sherlock com ar crítico. — E é capaz de ficar desse jeito mesmo se cê tentar — acrescentou. Empurrou Sherlock para trás da linha mais próxima. — Mãos para cima, proteja o rosto. E trate de ficar em pé. Se cair, vou chutar até cê se levantar.
— Ouvi o árbitro dizer que não pode bater no oponente quando ele estiver no chão.
O lutador deu de ombros.
— Ele não disse nada sobre chutar.
Incrédulo, Sherlock posicionou-se. Seu oponente, que calçava botas, ficou atrás da outra linha. Sherlock olhou em volta, procurando alguém que pudesse ajudá-lo, qualquer pessoa, mas os rostos voltados em sua direção eram suados, vermelhos, distorcidos pela agressividade. Não havia saída.
Um sino soou.
Sherlock recuou um passo no instante exato, e o punho do adversário passou a milímetros de seu nariz. Ergueu as mãos para defender-se, e recuou novamente enquanto o oponente avançava. A multidão rugia. Ele já vira fotografias de boxeadores em livros, tinha assistido a algumas lutas no ginásio da Deepdene e até participado de alguns treinos, então adotou a posição de que se lembrava: mãos fechadas e erguidas diante do rosto. Seu adversário, porém, obviamente não lera os mesmos livros, e avançava balançando os braços para os dois lados na altura dos ombros. Sherlock levou um golpe no ombro esquerdo, aquele que Clem machucara na noite anterior, e a dor explodiu pelo braço como metal derretido. A mão caiu inútil junto ao corpo. Como isso acontecera? Apenas um minuto antes ele era só um anônimo no meio da multidão e agora era o centro de todas as atenções! Era quase como se alguma coisa, alguém, estivesse guiando o povo, manipulando-o até este momento.
O oponente chegou mais perto, pronto para aplicar um golpe que atingiria o rosto de Sherlock de baixo para cima, então o menino recuou um passo e atacou com o punho direito. Inacreditavelmente, o soco acertou o nariz do homem. Sentiu alguma coisa partir-se sob seus dedos e viu o sangue descer como uma cachoeira pelo queixo e pelo peito do oponente. O lutador cambaleou para trás e soprou violentamente, respingando sangue na camisa de Sherlock, e depois lançou um soco direto no peito do garoto com o punho direito. O impacto jogou Sherlock para trás, e a dor espalhou-se pelas costelas. Por um momento, ele achou que seu coração tinha parado de bater. Tentou respirar, mas os pulmões não funcionavam. Sherlock dobrou o corpo, tentando fazer o ar abrir caminho pela garganta. Uma mão agarrou-o pela nuca e jogou-o na grama. O impacto do corpo contra o chão expulsou o pouco de ar que restava em seus pulmões, e de repente ele voltava a aspirar grandes quantidades de ar. Sherlock rolou para o lado a tempo de desviar-se de um pé, que esmagou a relva na qual estivera sua cabeça, e levantou-se com dificuldade.
O rosto do outro lutador era uma máscara de sangue, interrompida apenas pelos dois olhos estreitos e furiosos e pela linha feroz formada por seus dentes. Aproximou-se de Sherlock e desferiu nele dois socos: um nas costelas, com a mão esquerda; outro na lateral da cabeça, com a direita. A dor dominou o mundo de Sherlock, intensa e atroz. Tudo parecia muito distante. Ele estava caindo, mas não sentiu o impacto quando chegou ao chão.
A escuridão chamou-o, e ele entregou-se de bom grado.

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