25 de julho de 2017

Capítulo doze

O PRIMEIRO IMPULSO DE SHERLOCK foi correr até a porta e pular do trem. Ele agarrou o braço de Virginia e puxou-a, mas a garota resistiu.
— Temos que sair! — Sherlock sussurrou. — Não compramos passagens e deixamos seu pai...
— Podemos comprar as passagens com o guarda no trem — respondeu Virginia —, ou diremos que elas estão com nosso pai, que está em outro vagão. E podemos mandar um telegrama para o papai na primeira parada dizendo onde estamos. O mais importante é não perder de vista os homens que sequestraram Matty. Se os perdermos agora, nunca mais os encontraremos. Temos que segui-los até se instalarem em outro hotel ou em uma casa, em algum lugar.
— Mas...
— Confie em mim. Estamos em meu país, eu sei como as coisas funcionam aqui. Já viajei de trem sozinha antes. Vai dar tudo certo.
Sherlock se conformou. Acabaram ali por acidente, mas já que estavam no trem precisavam tirar proveito disso. Descer e voltar ao hotel seria desperdiçar todo o esforço que haviam feito para chegar à América.
— Muito bem — ele concordou. — Vamos ficar.
— Não temos mais escolha — Virginia respondeu enquanto apontava para a janela. Do lado de fora a plataforma havia desaparecido, e o trem ganhava velocidade sobre os trilhos assentados em estradas de terra. Ele podia sentir, além de ouvir, os estalos das rodas do vagão passando sobre as soldas dos trilhos a intervalos regulares.
Sherlock olhou para o corredor, para os homens que mantinham Matty cativo.
— Estão sentados — disse. — Vamos procurar lugares para nós e pensar no que faremos a seguir. Estamos apenas seguindo-os ou vamos tentar resgatar Matty?
— Depende do que acontecer — respondeu Virginia. — Por que acha que estavam com tanta pressa para pegar o trem?
— Por minha causa — admitiu Sherlock. — Um deles me viu na rua, mas consegui me esconder, e ele voltou para o hotel. Devem ter decidido sair de lá. Foi lá que consegui encontrar Matty, e ele tentou me dizer para onde eles o levariam. Há dois lugares vagos ali. Vamos nos sentar, pelo menos.
Os assentos eram voltados para o fundo do vagão, de costas para o grupo que levava Matty como prisioneiro. Quando se sentaram, Sherlock olhou pela janela. O trem fazia a curva e subia, e nesse momento ele conseguiu ver a máquina que puxava a composição. Talvez fosse ingenuidade, mas esperava ver algo parecido com as locomotivas que iam de Farnham a Londres passando por Guildford, mas esta era diferente. A forma básica da caldeira cilíndrica era a mesma, mas a pequena chaminé comum nas composições inglesas era substituída por uma coisa enorme com laterais inclinadas que saíam da caldeira. E havia um objeto bizarro preso à frente do trem; uma grade de metal formando um ângulo que parecia servir para remover obstáculos dos trilhos.
— Búfalos — Virginia disse simplesmente.
— O quê?
— Búfalos. E vacas. Eles andam pelos trilhos, e às vezes param na via. O trem precisa reduzir a velocidade, e aquela coisa empurra o animal para fora do caminho.
— Ah! — Ele pensou por um momento. — Por que não contamos ao coletor de passagens?
— Contar o quê?
— Que Matty está sendo sequestrado por aqueles homens.
— O que ele vai fazer? — Virginia balançou os cabelos cor de cobre. — O coletor de passagens quase sempre é um velhinho a caminho da aposentadoria. Ele não vai poder fazer nada.
O trem seguia adiante. Do lado de fora, casas e ruas davam lugar a árvores e a vastos trechos de espaço aberto. O sol brilhante fazia a vegetação parecer cintilante, como se tivesse um brilho próprio.
— Quanto tempo dura a viagem? — ele perguntou.
— Para Richmond? — Ela pensou por um instante. — Um dia, talvez. Depende do número de paradas. E também é possível que tenhamos que trocar de trem em algum lugar.
— Um dia? — O país era grande. — E onde vamos comer?
— Deve haver um vagão-restaurante no fundo do trem. Se não, sempre tem gente vendendo comida nas estações. O trem fica parado por tempo suficiente para podermos descer e comer alguma coisa. E talvez até dê tempo de mandar um telegrama para meu pai no hotel ou na Pinkerton, especialmente se deixarmos o texto pronto e apenas entregá-lo. Muitas estações têm um posto de telégrafo.
— Teremos que ser cuidadosos para que não nos vejam — Sherlock lembrou.
— Nós vamos conseguir — ela respondeu, confiante.
Sherlock olhou por cima do ombro para ter certeza de que os homens continuavam no mesmo lugar. Um deles caminhava pelo corredor, vindo em sua direção. Sherlock virou-se sem fazer barulho, esperando que o homem não houvesse notado sua presença. Era Berle, o médico careca. Ele passou direto, e Sherlock ficou olhando para suas costas, acompanhando seu progresso pelo vagão. Teria de ficar muito atento para quando ele voltasse, porque, então, estariam frente a frente, e ele certamente o reconheceria se o visse.
Sherlock percebeu que a maneira mais eficiente de esconder o rosto seria virar para o lado e beijar Virginia quando Berle voltasse. Assim, tudo que o homem veria seria a parte de trás de sua cabeça. Ele olhou para Virginia e abriu a boca, pronto para dar essa sugestão. Ela o encarou com aqueles olhos brilhantes cor de violeta.
— O que é? — perguntou.
— Eu estava pensando... — Sherlock começou, hesitante.
— Pensando o quê?
Era algo simples de dizer. “Talvez tenha que beijá-la para não ser reconhecido, por isso, não se surpreenda se isso acontecer”, mas, por alguma razão, não conseguia formar as palavras. Estavam muito próximos, tanto que podia contar as sardas no rosto de Virginia. Poderia simplesmente se inclinar e encostar os lábios nos dela.
— Nada. Não se preocupe.
Ela franziu o cenho.
— Não, diga. O que é?
— Sério, não é nada. — Sherlock virou-se, atento para o caso de Berle voltar. Se o visse entrar no vagão, olharia pela janela ou alguma coisa assim. Ainda usava a boina que havia comprado no armarinho. Podia só puxá-la sobre os olhos e fingir que estava dormindo. Isso funcionaria. Provavelmente.
Olhou pela janela mais uma vez. Postes de telégrafo passavam do lado de fora, um depois do outro, paralelos à ferrovia. Sem pensar, Sherlock contou os segundos entre os postes – um, dois, três, quatro – e de novo – um, dois, três, quatro. Os espaços entre os postes eram iguais, pelo que podia notar. Se soubesse qual era a distância entre eles, poderia usar a informação sobre o tempo entre um poste e outro para saber em que velocidade o trem viajava. Não que a informação fosse mais do que interessante, mas serviria para passar o tempo.
Uma cidadezinha passou depressa pela paisagem e desapareceu quase imediatamente. Sherlock viu apenas as construções baixas de madeira e carroças de quatro rodas. E cavalos. Muitos cavalos.
O movimento do trem o estava deixando sonolento. Havia usado muita energia correndo de volta ao hotel mais cedo, e a tensão constante começava a esgotar suas forças. Seu corpo precisava de repouso.
Devia ter cochilado por algum tempo, porque, quando percebeu, do lado de fora da janela havia uma longa descida até um rio cintilante. O trem estava sobre uma ponte, atravessando um penhasco. Pelo que podia ver, a ponte era de madeira e ligeiramente mais larga que o trem.
Virginia sentiu que ele ficara tenso de repente.
— Não se preocupe — ela disse —, é completamente seguro. Essas pontes existem há anos.
Pouco depois disso o trem começou a reduzir a marcha.
— Vamos entrar em uma estação — avisou Virginia.
— Ou tem um búfalo nos trilhos — Sherlock respondeu.
Sua mente começava a estudar possibilidades. Chegar a uma estação dava a eles uma nova série de opções, desde comer alguma coisa a enviar uma mensagem para Amyus Crowe e até tentar resgatar Matty. Se conseguissem tirá-lo do trem, poderiam esperar por Amyus Crowe na cidade ou simplesmente embarcar em um trem de volta para Nova York presumindo que houvesse mais de um por dia ou por semana. Só então percebeu que não fazia ideia dos horários dos trens neste país.
— Temos que ir para a plataforma — ele disse. — Se tivermos uma chance, precisamos tentar afastar Matty daqueles homens.
O trem reduziu ainda mais a velocidade. Passavam agora por um campo de plantas altas com topos bulbosos. A única cerca que Sherlock conseguia ver ia da linha do trem até o horizonte. O som do apito da locomotiva soou de repente do lado de fora: um silvo triste como o chamado de alguma criatura mítica. Havia agora um grupo de casas e galpões compondo a paisagem, depois mais casas, e então uma cidade inteira se materializou enquanto o trem ia parando lentamente, encaixando-se entre duas plataformas pouco acima do chão.
— Vamos descer — Sherlock decidiu ao ouvir à distância a voz do coletor de passagens.
— Perseverance, Nova Jersey! Parada de dez minutos, senhoras e senhores; parada de dez minutos em Perseverance.
Sherlock puxou Virginia do assento e foi com ela em direção à porta do vagão. Alguém do lado da fora a abriu, e os dois pularam para a plataforma.
— Vá procurar comida — ele falou. — O dinheiro está com você. Vou ficar vigiando para ver se eles desembarcam.
A plataforma estava cheia de gente em roupas empoeiradas feitas de brim, algodão ou algum tipo de tecido padronizado que lembrava um pouco um xadrez escocês. Sherlock atravessou esse mar de gente para se posicionar sob a sombra de uma parede. Alguns passageiros ficariam na cidade, outros desembarcavam só por alguns minutos, outros estavam subindo no trem nesta estação. O coletor de passagens ia de um lado para o outro distribuindo orientações.
Ives – o grandalhão de cabelos loiros e curtos – saiu do trem com Matty. Berle, o médico, devia estar cuidando de John Wilkes Booth, o maluco. Matty estava pálido, mas Ives até que o tratava bem. Não o empurrava nem o agredia, mas mantinha a mão sobre o ombro do garoto. Ele o levava para uma fileira de pequenas construções de madeira próximas dos trilhos, casinhas pouco maiores que um galpão de jardim. Banheiros, Sherlock deduziu. Deviam ser apenas buracos no chão fechados por madeira para garantir privacidade.
Ives empurrou Matty para dentro de uma daquelas cabanas e fechou a porta. Ele permaneceu ali por um momento, depois se afastou, torcendo o nariz e cobrindo o rosto com a mão. O cheiro devia ser desagradável.
Sherlock correu para a área atrás dos reservados e contou as casinhas até chegar àquela onde Matty havia entrado. A madeira era meio podre perto do chão. Ives estava certo; o cheiro era repugnante.
— Matty! — ele cochichou por entre as frestas na madeira.
— Sherlock! — o menino gritou. — Vi você e Virginia no trem!
— E eles nos viram?
— Não. Teriam comentado.
— Certo. — Sherlock testou a madeira na base do reservado. — Ajude-me a abrir um buraco.
Juntos, com Sherlock puxando e Matty empurrando, eles arrancaram alguns pedaços de madeira da parede, o suficiente para Matty passar. Sherlock segurou a mão dele e puxou. Momentos depois os dois estavam juntos do lado de fora.
— Você está bem? — Sherlock indagou, ofegante.
— Melhor agora. — Matty franziu o cenho. — Fiquei com medo no navio, mas eles me trataram bem e me alimentaram. E eu sabia que você me resgataria.
— Vamos sair daqui.
Juntos, eles se esgueiraram pela parte de trás dos reservados. Sherlock olhou com cuidado pela lateral do último galpão e viu que Ives ainda estava no mesmo lugar perto dos trilhos, esperando.
— Onde está Virginia? — indagou Matty.
— Foi buscar comida.
— E o Sr. Crowe?
— Ficou em Nova York.
— Como isso aconteceu?
Sherlock balançou a cabeça.
— Muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Não foi como nós planejamos.
Ives afastou-se mais, cobrindo o nariz. Enquanto ele estava de costas, Sherlock segurou o braço de Matty.
— Vamos!
Os dois correram pela estação até um edifício simples onde funcionava o balcão de venda de passagens e uma sala de espera. Sherlock conduziu Matty por uma das laterais, fora do campo de visão de Ives, caso ele se virasse. Virginia estava lá esperando por eles. Ela entregou a Sherlock dois cones de papel recheados de alguma coisa quente, depois envolveu Matty em um enorme abraço.
— É tão bom ver você de novo! — exclamou.
Matty abraçou-a de volta.
— É bom ver você também — ele disse, emocionado.
Sherlock olhava para fora do prédio. A multidão ia diminuindo – as pessoas que seguiriam viagem já haviam embarcado e as que ficariam na cidade não permaneceram na estação por muito tempo. Restavam apenas alguns passageiros que ainda esticavam as pernas e compravam comida. O guarda estava em pé na plataforma, ao lado da composição, consultando o relógio de bolso. Lá na frente, ao lado da locomotiva, o condutor enchia o reservatório de água usando uma mangueira saída de um tanque alto perto dos trilhos.
— Agora, só precisamos esperar até o trem partir — Sherlock falou. — Depois, embarcamos no próximo trem de volta para Nova York.
— Não vai ser tão fácil — avisou Virginia.
— Por que não?
Ela apontou na direção dos banheiros do lado de fora.
— Olhe!
Berle e Ives estavam juntos. Ives explicava alguma coisa para Berle, que parecia furioso.
— Eles perceberam que Matty desapareceu — Sherlock concluiu. — E vão começar a procurar.
Ele estava certo. Berle e Ives se separaram, seguindo em direções distintas. Berle caminhava ao longo do trem, olhando por baixo dos vagões para ver se havia alguém do outro lado, enquanto Ives ia na direção deles. Não, na verdade ele caminhava para a sede da estação. Dentro do prédio ele parou para olhar a sala de espera.
— Depressa! — disse Sherlock. — Por aqui!
Ele levou os outros dois de volta ao trem.
— Não podemos voltar para lá! — Virginia protestou.
— Não temos escolha. Ives e Berle vão olhar cada milímetro da estação e dos reservados. Se conseguirmos entrar no trem e sair pelo outro lado, podemos nos esconder e voltar quando a composição partir.
Ele subiu a escada que levava a um dos vagões. Virginia e Matty o seguiram sem esconder a relutância.
Sherlock moveu-se rapidamente para o outro lado do trem e tentou abrir a porta.
Estava trancada.
Ele fez mais força.
Nada.
Virginia estava vigiando a porta aberta.
— Estão voltando! — ela avisou.
Sherlock olhou para o final do vagão.
— Vamos para a outra porta — disse. — Venham!
Felizmente, haviam embarcado em um vagão diferente daquele em que viajaram. Ao percorrerem o corredor central, passando por pessoas que ainda estavam em pé, arrumando as bagagens ou simplesmente esticando as pernas, não viram nenhum dos homens que tentavam evitar.
No final do vagão Sherlock experimentou a porta que se abria para fora do trem, para o lado oposto da plataforma. Aquela estava destrancada, mas quando a abriu e se preparou para pular, viu que o grandalhão Ives estava daquele lado. O homem olhava para o campo aberto, na direção contrária à do trem. Sherlock fechou a porta rapidamente.
Virginia examinava a plataforma.
— O careca ainda está lá fora — disse. — Está verificando os dois lados do trem.
Do lado de fora, o guarda apitou.
— Todos a bordo! — anunciou.
Sherlock pensava depressa. Não havia saída.
— Vamos ter que tentar novamente na próxima estação — ele anunciou, decidido. — Pelo menos conseguimos resgatar Matty.
Mais um apito e segundos depois a composição começou a se mover, primeiro bem devagar, depois acelerando gradualmente. Virginia olhou pela janela.
— O careca embarcou — disse.
Sherlock olhou pela janela do outro lado.
— Ives também.
— Então, estão todos dentro do trem — Matty resumiu. — Ótimo. E eu nem consegui ir ao banheiro como precisava.
— Pelo menos temos comida — lembrou Virginia.
— Vamos encontrar lugares para sentar — Sherlock sugeriu. — De preferência, o mais longe possível daqueles homens. Do outro lado do trem, se conseguirmos. — Ele se virou para começar a andar, mas alguma coisa no silêncio atrás de si o fez voltar.
Berle e outro homem que Sherlock não reconhecia estavam atrás de Virginia e Matty, segurando facas contra a garganta dos dois. Deviam ter passado pela porta interna que unia os vagões sem que eles percebessem.
Sherlock olhou por cima do ombro.
Ives se aproximava pelo corredor, vindo da direção para a qual ele planejava seguir pouco antes. E não parecia feliz.
— Não seja idiota, garoto — avisou Berle. — Ives já está muito zangado. Não piore a situação. Ele às vezes fica... descontrolado. Coisas ruins acontecem quando ele fica assim.
Sherlock olhou de um para o outro, de Ives para Berle. A cruz e a espada.
O coração parecia pesar dentro do peito. Não tinha saída. Duas alternativas, ambas resultando em cativeiro.
Não, corrigiu-se. O que Mycroft diria? O que Amyus Crowe sempre repetia? Quando só existem duas possibilidades, e você não gosta de nenhuma delas, crie uma terceira opção.
Ele abriu a porta do vagão e deu um passo na direção do vazio. A paisagem verdejante do interior do estado de Nova York passava depressa. Ele ouviu Virginia sufocar um grito. Ives praguejou. Sherlock mantinha a mão esquerda no batente da porta e o pé esquerdo apoiado no ponto exato onde batente e piso se encontravam. O vento o empurrava para trás, mas ele deu impulso para a frente e para um lado, para a junção entre os vagões. Havia notado uma escada ali antes, degraus que levavam à parte de cima do trem, e tateou com a mão direita até encontrar a escada. Os dedos encontraram um degrau, e ele estendeu a perna direita, tentando pisar na escada. Depois do que pareceu uma eternidade, mas provavelmente não passou de dois ou três segundos, seu pé encontrou algo sólido. O degrau. Soltando o batente da porta, ele puxou o corpo para a escada.
Alguém segurou seu pé esquerdo antes que ele pudesse erguê-lo. Ele chutou a mão que o prendia, sentindo o calcanhar acertar o rosto de alguém. Os dedos soltaram seu tornozelo, deixando no lugar a dor causada pela pressão.
No instante seguinte, ele estava em cima do trem.
Tinha que ficar abaixado, agarrado à barra de ferro que acompanhava todo o comprimento do vagão.
Sherlock via a composição fazendo uma curva à sua frente. A fumaça que saía da chaminé corria para trás, dificultando a respiração e fazendo seus olhos lacrimejarem.
Ele hesitou por um momento. Em vez de ser capturado, escolhera a única alternativa existente – a fuga – mas escapar seria difícil. Ainda estava no trem – em cima dele – e não tinha um plano. Para onde quer que fosse, Ives e os outros homens o encontrariam. E com certeza o matariam. E não podia simplesmente fugir, pular do trem quando passassem por um rio ou algo assim. Tinha que resgatar Virginia e Matty.
O desespero o cercava como uma nuvem negra, mas ele o afastou com muito esforço. Teria tempo para isso mais tarde. Agora precisava pensar.
Se conseguisse percorrer os vagões até a frente do trem, talvez pudesse alertar o condutor. Talvez encontrasse um jeito de mandar uma mensagem para as autoridades ou fazer o trem voltar para levá-los a Nova York ou alguma coisa. Qualquer coisa!
Ainda abaixado, ele foi se movendo pelo teto do vagão. O vento era seu oponente, empurrando-o de volta como um punho gigante bem no meio do peito, mas ele insistia. Era preciso. Os olhos lacrimejavam por causa da fumaça da locomotiva, e o ar ficava preso no peito, mas não podia parar. Matty e Virginia dependiam dele.
O trem estremeceu sobre uma seção irregular dos trilhos, e Sherlock quase perdeu o equilíbrio. Ele balançou para a frente e para trás por um momento, tentando colar o corpo ao vagão, e permaneceu imóvel até ter certeza de que estava seguro.
Bem, um pouco mais seguro, corrigiu-se, olhando em volta e vendo a paisagem passar depressa em raios verdes e marrons.
Aproximavam-se de um rio. Podia vê-lo à frente do trem, que descrevia uma curva e corria para uma ponte que parecia ser feita de palitos de fósforo. Sentia o coração disparado dentro do peito.
E ele ameaçou explodir quando a cabeça e os ombros de Ives apareceram na junção entre aquele vagão e o da frente. Ele devia ter atravessado pela porta interna e subido a escada seguinte.
Ives subiu e ficou em pé sobre o vagão. A coluna de fumaça da locomotiva, transportada pelo vento, soprava em torno dele como um manto branco.
— Não está raciocinando, garoto — ele berrou. — Para onde vai? É mais seguro lá embaixo, com os outros.
Sherlock balançou a cabeça.
— Só precisa de um de nós para pressionar Amyus Crowe — ele gritou de volta. — E não acredito que vai querer andar por aí carregando três reféns.
— Amyus Crowe. Está falando daquele grandalhão do terno branco? Não sabia o nome dele até agora, mas o homem é persistente. E você também.
— Você nem imagina quanto — berrou Sherlock, mas estava com medo. Ele olhou para trás. Não havia ali nenhum sinal de Berle ou do outro homem, mas as chances de conseguir descer e voltar por onde havia subido eram mínimas. Deviam estar esperando por ele lá embaixo, onde os vagões se uniam, um deles segurando Virginia, o outro, Matty.
Quando ele se virou novamente, Ives empunhava uma arma.
— Você tem brios, admito — ele disse, levantando a pistola.
Uma parte do cérebro de Sherlock se perguntava o que eram “brios”, enquanto a outra constatava que o trem fazia uma curva e já começava a entrar na ponte que ele vira momentos antes. De repente, o terreno sob os trilhos desapareceu, dando lugar a um enorme vazio cortado no fundo por uma faixa azul e brilhante. Uma terceira parte do cérebro estava tentando dizer alguma coisa a ele.
Ives atirou. Sherlock encolheu-se, mas o vento e a vibração haviam prejudicado a mira de Ives, como ele sabia que aconteceria, e a bala passou longe de Sherlock.
Ives aproximou-se um pouco mais, tentando manter o equilíbrio, e Sherlock tentou capturar a ideia que insistia em se manter fora do alcance da consciência. Algo que ele tinha feito recentemente. Alguma coisa que havia comprado.
A funda! Desesperado, vasculhou os bolsos procurando a bolsa com as duas tiras de couro. Bolso direito da calça.
Não. Bolso esquerdo da calça. Não. Ives se preparava para atirar outra vez. Bolso esquerdo interno do paletó. Não, mas os dedos tocaram o pacote de bolinhas que ganhara do dono da loja. Ives apontava a pistola em sua direção, apoiando-a com a mão esquerda. Bolso esquerdo externo do paletó... Sim! Sherlock pegou a funda e encaixou a mão direita no laço, posicionando a outra ponta no centro da palma, deixando a bolsa de couro solta.
Ives atirou. A bala passou assobiando bem perto da orelha de Sherlock.
Ele enfiou a mão esquerda no bolso, pegou uma bolinha e encaixou-a na funda. Antes que Ives pudesse reagir, ele girou as alças sobre a cabeça duas vezes e soltou a ponta de couro que estava em sua mão. A bolinha voou na direção de Ives, deixando um rastro brilhante no céu, e o acertou na orelha esquerda, provocando um corte profundo. Ives gritou de surpresa e choque ao sentir o sangue pingando em seu ombro. Ele arregalou os olhos, incrédulo.
Sherlock segurou a ponta da funda e encaixou outra bolinha na bolsa.
O trem estava agora no meio da ponte, e Sherlock sentiu um movimento lateral, como se a ponte balançasse sob o peso da composição.
Ives se jogou para a frente, tentando chegar perto de Sherlock, as mãos esticadas para agarrá-lo. Era como se houvesse esquecido que tinha uma arma.
Sherlock girou a funda duas vezes e soltou a tira de couro. A distância agora era menor, e a bolinha acertou o meio da testa de Ives, onde ficou parada, na depressão provocada pelo impacto. Ives caiu para trás, com os olhos tão abertos que era possível ver o branco em torno das pupilas. As costas dele chocaram-se contra o teto de metal do vagão e ele rolou para o lado, desaparecendo no vazio. Sherlock ouviu o grito desesperado enquanto o homem caía, e então não havia nada senão o apito do trem e o lamento do vento.
Sherlock caiu de joelhos, ainda agarrado à barra de ferro. Esperou a respiração se acalmar e o coração voltar ao ritmo normal, e só então se levantou para voltar à escada por onde subira.
Um eliminado; ainda restavam muitos outros. Mas agora ele tinha uma arma.

Os trilhos estalavam sob as rodas quando o trem chegou ao fim da ponte. O apito soou novamente. Sherlock olhou para a frente, para a locomotiva, e viu que o trilho se dividia em dois. Um seguia em linha reta, enquanto o outro descrevia uma curva, contornando a beirada do precipício.
O trem seguiu pela curva, reduzindo a velocidade ao passar por uma abertura em uma cerca e se aproximando de uma estação que já estava à vista de Sherlock.
Não era uma estação, percebeu.
Uma casa. Uma casa grande e branca. Além dela havia o que parecia ser uma sequência de cercados, áreas muradas e gaiolas, como um zoológico particular.
Ele desceu a escada o mais depressa possível e voltou ao interior do vagão. O guarda percorria o corredor, lutando para passar por entre os passageiros confusos, e gritava:
— Parada imprevista. Por favor, não desembarquem. Esta é uma parada imprevista.
O trem parou com um longo sopro de vapor. Estavam parados diante de uma enorme varanda nos fundos da casa.
Havia um grupo de oito ou nove homens esperando.
Qualquer esperança que Sherlock poderia ter de que fossem policiais ou soldados desapareceu quando Berle e o outro homem desceram do trem, segurando Virginia e Matty pelos braços, e foram se juntar ao grupo.

Um comentário:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)