16 de julho de 2017

Capítulo doze

A ESTAÇÃO WATERLOO CONSISTIA EM uma massa humana inquieta que seguia em todas as direções, carregando todo tipo de caixas, pacotes, malas e baús, tudo sob um enorme teto em arco feito de metal e vidro. O calor do sol era multiplicado pelo vidro, e isso tornava a estação um lugar mais quente que as ruas que a cercavam. Trens deslocavam-se para suas plataformas e cuspiam nuvens de vapor e mais gente ainda, o que aumentava o calor. Sherlock já sentia suor acumulado no colarinho.
Amyus Crowe imediatamente contratou um carregador e mandou que ele tirasse a bagagem do trem. O carregador, então, acompanhou-os para o lado de fora da estação, até o local onde várias carruagens de aluguel recolhiam passageiros, que formavam uma longa fila. Uma pequena gorjeta convenceu o carregador a levá-los aonde as carruagens recém-chegadas paravam para deixar os passageiros antes de juntarem-se à fila das que aguardavam. Após um breve regateio, eles acomodaram-se em um veículo: entraram por uma porta, enquanto os passageiros anteriores saíam pela outra.
O tutor de Sherlock parecia conhecer Londres, e ordenou ao condutor que os levasse ao hotel Sarbonnier. A carruagem partiu, com Sherlock debruçado em uma janela para ver os arredores, e Matty espiando pela outra.
Os edifícios ali eram imensos quando comparados aos de Farnham, Guildford e outras cidades às quais Sherlock estava habituado. Vários chegavam a ter cinco ou seis andares. Muitos tinham colunas que compunham pórticos e fileiras de esculturas sobre a linha do telhado – algumas claramente retratavam figuras humanas; outras, criaturas míticas com asas, chifres e presas.
Poucos minutos depois eles passavam por uma ponte sobre um rio muito largo.
— É o Tâmisa? — perguntou Sherlock.
— Sim — confirmou Crowe. — Um dos rios mais sujos, congestionados e terríveis que tive o desprazer de conhecer.
Ao deixarem a ponte, no outro lado do rio, a carruagem dobrou algumas esquinas até chegar a um prédio construído com pedras alaranjadas. O condutor desceu e ajudou a descarregar a bagagem. Três carregadores emergiram de uma porta giratória na frente do prédio e levaram as malas.
Após entrarem no impressionante saguão de pilares brancos com bases esculpidas, teto de mosaico e piso de mármore, Amyus Crowe dirigiu-se a um longo balcão de madeira.
— Três quartos, por duas noites — ele disse ao funcionário uniformizado atrás do balcão.
O homem assentiu.
— Certamente, senhor — disse, e pegou três chaves de um quadro atrás de si. Quando voltou a virar-se, acrescentou: — O senhor se incomodaria de assinar o livro de registro de hóspedes?
Crowe assinou o livro com um floreio, e o recepcionista entregou-lhe as chaves. Elas estavam presas a grandes bolas de bronze – provavelmente, Sherlock pensou, para que não fossem perdidas facilmente.
— Sherlock e Matthew, vocês ficarão juntos em um quarto — disse Crowe, dando-lhes uma chave. — Virginia terá um quarto para si, e eu ficarei com o terceiro. Sua bagagem será levada a seus aposentos. Matthew, sugiro que procuremos um lugar onde possamos providenciar-lhe roupas e objetos de uso pessoal. — Ele olhou para o menino com um ar crítico. — E um corte de cabelo — acrescentou. — Sherlock, Virginia, sugiro que deem uma volta lá fora. Virem à direita e sigam até o final da rua, e lá encontrarão algo que talvez julguem interessante. Estejam de volta em uma hora, para o almoço. Caso se percam, peçam informações sobre como voltar ao hotel Sarbonnier.
Acatando a sugestão, Sherlock levou Virginia para fora e virou à direita. Os dois foram imediatamente tragados pela multidão agitada que seguia na mesma direção. Preocupado com a possibilidade de serem separados um do outro, Sherlock estendeu a mão para puxar Virginia para perto. Mas foi a mão da menina, macia e morna, que segurou a sua por um momento. O coração de Sherlock parecia bater duas vezes mais rápido que de costume. Ele a fitou, surpreso. Virginia encarou-o e sorriu, estranhamente tímida.
Em poucos minutos eles chegaram ao final do quarteirão de edifícios. Ali a rua abria para uma praça larga, dominada por uma coluna muito alta que se erguia de um pedestal no centro. Por um instante, Sherlock pensou que houvesse um homem em pé sobre o pilar, e sua mente voltou como um raio à mansão Holmes, onde o tio falara certa noite, durante o jantar, sobre os eremitas ascetas religiosos que abandonavam vida e família para viver no alto de postes, a meditar sobre a natureza de Deus e a comer apenas o que transeuntes lhes jogassem. Um momento de atenção e Sherlock percebeu que a figura no topo da coluna não era uma pessoa viva, mas uma estátua que fora esculpida para dar a impressão de que usava um uniforme da Marinha.
— Quem é aquele? — Virginia perguntou, fascinada.
— Creio que seja o almirante Nelson — respondeu Sherlock. — E, nesse caso, estamos na Trafalgar Square. A estátua e a praça são uma homenagem a uma famosa vitória naval em 1805.
Na base do pilar havia duas fontes cujos jatos de água brilhavam com todas as cores do arco-íris sob o sol cintilante. Estavam no coração de Londres. Aquele era o ponto central de um Império que se estendia até o outro lado do globo.
E em algum lugar perto dali o irmão de Sherlock, Mycroft, devia estar sentado atrás de uma escrivaninha, ajudando a administrá-lo.
Eles caminharam pela praça por algum tempo, observando as pessoas e apreciando os belos edifícios que se enfileiravam pelas ruas, depois voltaram ao hotel. Chegaram bem na hora: Amyus Crowe esperava por eles no saguão. Com ele havia um menino mais ou menos da mesma idade de Matty Arnatt, mas com cabelos arrumados e roupas decentes, e uma expressão carrancuda no rosto. Sherlock levou alguns segundos para perceber que aquele era Matty.
— Não — Matty avisou. — Simplesmente... não.
Sherlock e Virginia riram.
Juntos, os quatro seguiram para o restaurante do hotel e pediram o almoço. Estavam cercados por mulheres vestidas com seda, crinolinas, penas de pavão, chapéus e luvas, e homens de bigodes brilhantes que trajavam casaca, mas ninguém olhou para eles duas vezes. Foram aceitos como uma família em visita à capital do país mais importante do planeta.
Sherlock pediu costeletas de carneiro, que estavam no ponto certo – avermelhadas no centro – acompanhadas de batatas e feijão. Matty e Amyus Crowe escolheram torta de carne e pudim de rim, enquanto Virginia, mais arrojada, aventurou-se com o frango servido com creme e molho francês e pimenta-do-reino.
Enquanto comiam, Amyus Crowe expôs rapidamente a razão de estarem em Londres.
— Antes de virmos, enviei um telegrama a um conhecido meu nesta bela cidade — ele contou entre bocados de comida. — Uma espécie de parceiro de negócios.
Sherlock perguntou-se por um instante em que tipo de “negócio” Crowe estava envolvido, pois ele nunca o mencionara antes. O americano, porém, continuou a falar:
— Contei-lhe por qual estrada o comboio de carroças dirigia-se à capital, e pedi que ele o interceptasse e descobrisse seu destino final. Disse-lhe onde estaríamos hospedados, e há pouco ele me enviou um telegrama que informava que as carroças descarregaram várias caixas e afins em um galpão num lugar chamado Rotherhithe. E me disse onde fica o galpão.
— Rotherhithe? — Sherlock perguntou.
— Sim, alguns quilômetros rio abaixo. Uma região pouco salutar, que oferece diversão a marinheiros em terra e na qual várias cargas são armazenadas antes de ser embarcadas nos navios. Não é um lugar onde alguém queira estar depois do anoitecer. — Ele balançou a cabeça, com ar insatisfeito. — Normalmente, eu não correria o risco de levá-los até lá, mas esse assunto é importante demais. O barão trama alguma coisa, e ela é muito importante, para que ele esteja disposto a matar por isso. Na verdade, ele já matou. E não irá sentir mais remorso ao eliminar vocês dois que o que sentiria ao pisar uma aranha. O problema é que temos de conferir se as caixas nas carroças são as colmeias que você viu em Farnham, e isso significa que preciso que venha comigo a Rotherhithe, para dar uma olhada, Sherlock. Mas aviso: pode ser perigoso. Muito perigoso.
Sherlock assentiu devagar.
— Eu aceito o risco. Quero descobrir o que está acontecendo, por que ele insiste em tentar me matar.
Crowe olhou para Matty, que comia ervilhas com uma colher.
— Quanto a você, meu jovem, suponho que já tenha visto muitos cais e galpões, considerando que passa a vida a viajar em seu barco. E também suponho que saiba se defender em uma briga.
— Se houver uma briga — Matty respondeu com a boca cheia de ervilhas —, eu corro. Se não puder correr, eu bato baixo e bato forte.
— Eu mesmo não teria me expressado melhor — Crowe assentiu. — Irei com vocês, é claro, mas é possível que tenhamos de nos separar para observar áreas diferentes.
— E eu? — A voz de Virginia soou com um tom agudo de indignação, e seus olhos cor de violeta cintilavam perigosamente. — O que vou fazer?
— Você fica aqui — Crowe respondeu com seriedade. — Sei que é capaz de defender-se em um aperto, mas não tem ideia do que pode acontecer com uma jovem mulher em Rotherhithe. As pessoas que vivem naquela área são piores que animais. Eu jamais me perdoaria se algo acontecesse a você; não depois de... — Ele deteve-se repentinamente. Sherlock olhou para Virginia e viu que seus olhos se encheram de lágrimas. — Fique aqui — Crowe repetiu. — Se nos separarmos, precisaremos saber que alguém aqui poderá receber nossas mensagens e retransmiti-las. Essa é sua tarefa.
Virginia assentiu com a cabeça, sem dizer nada.
Crowe olhou para os dois meninos.
— Iremos assim que estiverem prontos — disse.

Quando atravessavam o saguão do hotel, Sherlock virou-se e olhou para Virginia. Ela o encarava. A jovem tentou sorrir, mas o gesto saiu como uma careta de preocupação. Sherlock sorriu de volta, tentando tranquilizá-la, mas suspeitava de que sua expressão não tivesse sido muito mais convincente que a dela.
Em vez de alugar uma carruagem que os levasse a Rotherhithe, Crowe conduziu os garotos pela margem do Tâmisa, onde degraus de pedra esverdeados devido à presença de algas desciam até o rio malcheiroso e poluído. A margem do outro lado estava escondida por uma nuvem de fumaça e um miasma marrom que parecia erguer-se do próprio rio. Um barco balançava sobre a água. O proprietário estava sentado na proa e fumava um cachimbo.
— Rotherhithe — Crowe ordenou em um tom seco, e jogou-lhe uma moeda. O homem assentiu, pegou a moeda com agilidade e a mordeu, para garantir que fosse legítima. Crowe e os meninos acomodaram-se na popa, enquanto o condutor manejava os remos e colocava a embarcação em movimento.
Sherlock achou a viagem estranha e perturbadora. Havia água no fundo do barco, e o menino tentava não olhar para as coisas que flutuavam no rio: dejetos humanos, ratos mortos e pedaços de madeira podre recobertos de algas. O cheiro era tão ruim que Sherlock precisava respirar pela boca, e mesmo assim tinha certeza de que podia sentir a fedentina, que cobria sua língua e o fundo da garganta. Ele sentia náusea. Em certo momento outro barco surgiu da névoa e passou próximo a eles. Alguém gritou um palavrão, e o barqueiro respondeu com um gesto que Sherlock nunca vira antes, embora pudesse traduzir muito bem.
Foram necessários uns vinte minutos para chegar a Rotherhithe, e lá eles desembarcaram em uma escada quase indistinguível daquela pela qual tinham começado o percurso. Crowe subia à frente.
Uma via estreita calçada com pedras irregulares acompanhava o curso do rio e inclinava-se para a rua nas duas margens. Crowe conduziu Matty e Sherlock por ela, passando por imponentes galpões e muros de tijolos, seguindo o fétido Tâmisa e abrigando-se nas sombras sempre que possível. Depois de uns dez minutos, aproximadamente, ele parou. Do outro lado da rua, via-se uma das inúmeras tavernas que era possível encontrar por toda a metrópole. A música estridente de um piano vertical desafinado escapava pela porta e pelas janelas, misturada a uma confusão de vozes que cantavam letras diferentes para a mesma canção. Diversas mulheres abrigavam-se sob o batente de uma porta, e antes de afastarem o olhar ao notarem a presença de Sherlock e Matty observaram Amyus Crowe com interesse.
— Acredito que o galpão fique logo depois da esquina — murmurou Crowe. Sua atenção estava voltada para tudo em torno deles, à procura de ameaças. — Acho melhor pararmos um pouco e observarmos a área.
— E se formos vistos? — Sherlock perguntou.
— Eu costumava caçar em Albuquerque — Crowe disse. — Rastreava algumas das feras mais perigosas de lá. Há certas coisas que se pode fazer para reduzir as chances de ser descoberto. Para começar, não faça contato visual, porque todos os animais logo identificam olhos. Olhe para as coisas pela visão periférica – é mais eficaz que olhar diretamente para elas, embora não dê para distinguir muito bem as cores. Não se mova, se puder evitar, porque os olhos são adaptados para detectar movimento, e não coisas que estejam imóveis. Vista roupas sóbrias, com cores que são encontradas na natureza – o cinza das pedras, o verde do musgo, o marrom da terra. E não use nada de metal, porque metal não é encontrado na natureza em grandes quantidades. Sigam essas regras, e vocês poderão ficar encostados até em uma parede de tijolos, que as pessoas irão passar os olhos por vocês sem vê-los, e acabarão por voltar-se para algo mais interessante.
— Isso parece magia — Sherlock respondeu, cético.
— Tal qual a maioria das coisas, até que se descubra como são feitas. — Crowe olhou para os meninos com ar crítico. — Esses cortes no seu rosto vão ajudá-lo a misturar-se ao ambiente, Sherlock, mas vocês dois estão um pouquinho limpos demais para esta região. Terão de emporcalhar-se um pouco. — Ele olhou em volta. — Muito bem, quero que rolem pelo chão uns minutos. Sujem suas roupas.
— Isso não irá parecer suspeito? — Sherlock perguntou.
— Não se vocês tiverem um motivo — explicou Crowe. — Matty, empurre o nosso jovem Sherlock.
— O quê? — Matty reagiu.
— Faça o que eu digo. E, Sherlock, acerte o ombro de Matty.
A compreensão iluminou a mente de Sherlock.
— E vamos acabar nos atracando no chão, o que vai ajustar nossas roupas ao ambiente indicar que fazemos parte daqui. Se não fôssemos da região, não brigaríamos no meio da rua.
— Exatamente — Crowe respondeu em aprovação.
Sherlock estava prestes a perguntar por quanto tempo deveriam brigar quando Matty empurrou-o, pondo as duas mãos em seu peito.
— Eu disse a você! — ele gritou.
Sherlock conteve um impulso de revidar com um soco no queixo de Matty e acertou-o no ombro.
— Não se atreva — ele respondeu com outro grito, sentindo-se um pouco constrangido.
Matty atirou-se sobre Sherlock, jogando-o no chão. Em poucos segundos os dois rolavam atracados, levantando nuvens de poeira. Sherlock agarrou o braço de Matty, que o segurou pelos cabelos e puxou sua cabeça para trás.
Sherlock estava quase esquecendo que a briga era só uma encenação quando as enormes mãos de Amyus Crowe agarraram seus ombros e os ombros de Matty e içaram os meninos.
— Já chega, vocês dois — ele disse, empregando mais uma vez a voz “inglesa”, porém com um tom mais áspero.
Os dois garotos ficaram frente a frente, tentando conter um sorriso, apesar do perigo da situação. Sherlock olhou-se: o paletó estava rasgado na manga, e tudo nele estava coberto de poeira, pelos de cavalo e outras coisas nas quais ele preferiria nem pensar.
— Não se preocupem — disse Crowe. — Isso sairá quando lavadas. E, se não sair, compraremos roupas novas. Bens materiais sempre podem ser substituídos. Um bom caçador sabe que qualquer objeto pode ser sacrificado quando se persegue uma presa.
— Que tipo de animais você caçava? — Matty perguntou.
— Eu não disse que eram animais — respondeu Crowe.
Antes que qualquer um dos meninos pudesse pedir explicações sobre essa resposta, ele afastou-se. Os dois seguiram-no, trocando olhares apreensivos.
Crowe parou em uma esquina e olhou para o outro lado.
— O galpão fica ali do outro lado — disse em voz baixa. — Sherlock, fique aqui. Abaixe-se e brinque com algo: pedras, se conseguir encontrar algumas. Lembre-se: não faça contato visual, mas observe os arredores com o uso da visão periférica. Matty, você vem comigo. Tomará conta dos fundos do galpão, e eu ficarei em movimento entre vocês dois, indo de um a outro.
— O que estamos procurando? — Sherlock perguntou.
— Coisas que não pareçam normais. Algo que possa nos dizer o que está acontecendo aqui.
Crowe afastou-se com Matty, tendo uma das mãos apoiada no ombro do garoto; enquanto isso, Sherlock seguia suas instruções, agachando-se, pegando um pedregulho do chão e rolando-o de um lado para o outro. Era uma brincadeira tediosa, mas bastava para fazê-lo parecer parte do cenário, e ele logo descobriu que, enquanto aparentemente brincava com a pedra, conseguia acompanhar o que acontecia à sua volta com o uso da visão periférica.
O galpão era um edifício de tijolos cuja frente era constituída quase inteiramente de duas enormes portas de madeira com dobradiças, de modo que se abriam para a rua. Não havia nada de obviamente suspeito ali, e Sherlock perguntava-se se estavam vigiando o lugar certo, ou apenas um prédio escolhido aleatoriamente.
Amyus Crowe voltou após o que pareceu terem sido horas, mas, na verdade, não deviam ter sido muito mais de trinta minutos. Embora vestisse as mesmas roupas de antes, e não tivesse se emporcalhado tão ostensivamente quanto Sherlock e Matty, ele parecia desalinhado. O paletó estava abotoado errado, o que lhe dava uma aparência torta, e a camisa pendia para fora da calça. Ele cambaleava levemente e olhava para o chão à frente dos pés. Parou perto de Sherlock e caiu contra a parede.
— Tudo bem? — ele murmurou.
— Não aconteceu nada — Sherlock respondeu em um tom igualmente baixo.
— Você está bem?
— Estou entediado.
Crowe riu.
— Bem-vindo à caça. Longos períodos de tédio interrompidos por momentos de euforia e terror. — Depois de uma breve pausa, Amyus continuou: — Acho que vou dar um pulo naquela taverna ali, ver o que estão dizendo.
— Certo. Não dá para me mandar um copo d’água, não é?
— Filho, capaz de a água do Tâmisa ser melhor para beber que a de qualquer taverna daqui. Se sentir fome ou sede, apenas registre o fato e o esqueça. Não fique pensando nisso. Um ser humano pode passar três, quatro dias sem água. Repita isso para si mesmo.
— É fácil falar.
Crowe riu.
— Posso fazer-lhe uma pergunta? — Sherlock disse, querendo manter Crowe ali por mais alguns momentos.
— Claro.
— O que o senhor está fazendo na Inglaterra? O que é aquele “negócio” que o senhor mencionou hoje cedo?
Crowe sorriu sem exibir nenhum traço de humor e desviou a vista, sem olhar para Sherlock.
— Não foi para ser tutor, isso é certo — disse com um tom suave —, embora essa atividade esteja se tornando um passatempo interessante. Não, fui contratado por... Bem, para facilitar, digamos que foi pelo Governo norte-americano, para procurar homens que tenham cometido crimes, atrocidades, coisas terríveis durante a recente Guerra Civil e deixado o país sem que a mão da justiça pudesse cair sobre eles. Foi assim que conheci seu irmão: ele assinou o acordo que permite que eu esteja aqui. E é por isso que tenho desenvolvido uma rede de contatos úteis, especialmente em docas e portos. Então, quando você me contou que o barão iria acelerar o plano, seja ele qual for, só precisei enviar o pedido de que procurassem as carroças. E devo dizer que fiquei surpreso com a facilidade com que minha gente as encontrou. — Ele voltou a olhar para Sherlock. — Satisfeito?
O menino assentiu.
— Não contei essa história a muitas pessoas — Crowe acrescentou. — Ficarei grato se não a espalhar. — Ele se afastou antes que Sherlock pudesse dizer qualquer coisa.
Sherlock continuou a brincar, rolando a pedra de um lado para o outro, enquanto os minutos passavam lentamente. Ele observava as portas do galpão, mas elas estavam fechadas e nada acontecia à volta. Sherlock já começava a pensar que não havia nada a ser descoberto ali.
Um barulho repentino que soou atrás de Sherlock quase o fez se virar e olhar, mas ele conteve o impulso em tempo. Deixou o pedregulho rolar um pouco mais longe, virando-se para pegá-lo e dirigindo o olhar para conseguir enxergar a taverna. Uma das portas estava aberta e um grupo de homens saía, obviamente alterado pela bebida. Eles reclamaram por um momento, depois se viraram e caminharam na direção de Sherlock. O menino concentrou-se na pedra, escutando para ver se falavam sobre o galpão, ou sobre as colmeias, ou o barão Maupertuis, ou qualquer coisa relacionada com o mistério.
— Quando vamos partir? — perguntou um deles.
— Amanhã cedinho — outro respondeu. Havia algo de familiar na voz, mas Sherlock não conseguia determinar o que era.
— Quem tem a escalação? — perguntou uma terceira voz.
— Tá tudo na minha cabeça — respondeu o segundo homem. — Você vai para Ripon; Snagger, para Colchester; o garoto Nicholson aqui vai para Woolwich, e eu volto para Aldershot.
— Não posso ir para Ascot? — indagou uma voz com sotaque do norte do país; talvez o garoto Nicholson.
— Você vai para onde mandam, querido — respondeu o segundo homem. Enquanto falava, ele passou perto de Sherlock. Seu pé acertou a pedra, chutando-a para o outro lado do beco. Sem querer, Sherlock levantou a cabeça e encarou o desconhecido.
Era Denny, o homem que Sherlock seguira até o galpão em Farnham, o que estivera presente quando seu amigo Clem pulara no barco de Matty para atacá-los. O homem que trabalhava para o barão Maupertuis.
Era o fim da invisibilidade. O rosto de Denny no mesmo instante ficou vermelho de raiva.
Sherlock rolou para o lado quando mãos tentaram agarrá-lo. Ele se levantou de um salto e correu pelo beco. Queria fugir para a taverna, até Amyus Crowe, mas os homens estavam no caminho até a porta. Então Sherlock foi para o lado oposto, para cada vez mais longe de Crowe, de Matty e de tudo o que conhecia.
Atrás do menino, passos retumbavam e ecoavam nas paredes dos prédios. O ar arranhava sua garganta e o coração batia como se fosse algo preso dentro de sua caixa torácica, debatendo-se para sair. Duas vezes ele sentiu dedos que tocavam sua nuca e tentavam agarrar a gola de sua camisa, e duas vezes precisou desvencilhar-se com uma desesperada explosão de energia. Os perseguidores rosnavam com o esforço enquanto corriam, mas, com exceção desses ruídos, do retumbar das botas no chão e das batidas do coração de Sherlock, a perseguição acontecia em absoluto silêncio.
Quando estava no meio do beco, Sherlock percebeu que ele terminava em uma parede de tijolos. Seus olhos arregalaram-se. Estava encurralado! Virou-se, tentando desesperadamente calcular se tinha tempo suficiente para voltar correndo e achar outro caminho, mas os homens aproximavam-se. Eram cinco, ele notou com uma espécie de calma apavorada, e todos portavam facas ou porretes. Sherlock não sairia vivo dessa.
De repente, uma voz soou muito claramente em sua cabeça, e ele não conseguia saber se era a voz de seu irmão, de Amyus Crowe ou a sua, mas ela dizia: “Becos e ruas levam de um lugar a outro. Um beco que termina em uma parede de tijolos é algo ilógico. Não tem propósito, e por isso não deveria ter sido construído.”
Sherlock virou-se de novo e esquadrinhou as paredes de tijolos que cercavam o beco. Não havia portas nem janelas, nada além de uma sombra em um canto no qual a luz pálida do sol não conseguia penetrar.
Se havia uma saída, ela estaria ali.
Ele correu para as sombras. Se ali não houvesse nada, ele teria corrido diretamente para a parede, e colidido com ela, mas havia uma pequena brecha. Uma possibilidade de fuga.
A passagem estreita seguia por entre dois prédios. Ele a percorreu correndo, enquanto ouvia os gritos frustrados dos homens que tentavam encontrar a passagem na escuridão. Em fila única, eles penetraram no corredor estreito, e na parede de tijolos ecoava sua respiração arfante.
Correndo em zigue-zague pela escuridão, Sherlock saiu em uma via larga cercada de portas. Desceu-a correndo, ouvindo atrás de si as botas que batiam no calçamento, e entrou à esquerda em outro beco, ganhando alguns metros de vantagem. Um cachorro que avançara de um vão na parede enquanto ele passava rapidamente acabou fechando os dentes no ar, e então investiu contra os homens que perseguiam Sherlock. O menino ouviu latidos furiosos e palavrões irados enquanto os homens tentavam se afastar do animal e estremeceu ao ouvir o baque de uma bota que batia contra algo macio. O cachorro ganiu e fugiu.
Contornando outra esquina, ao chocar-se com um casal que caminhava ao longo do Tâmisa, Sherlock caiu de costas, derrubando também o homem.
— Seu pivete! — o homem gritou, levantando-se. — Vou lhe mostrar uma coisa! — Ele começou a arregaçar as mangas do paletó, revelando braços musculosos cobertos por tatuagens azuis que retratavam âncoras e sereias.
— Não toque nele, Bill. Foi sem querer! — A mulher agarrava o braço de seu acompanhante. Sua pele estava branca, consequência da maquiagem malfeita. Os lábios eram um risco de carmim e os olhos estavam sombreados por um pó preto. O efeito disso tudo era que seu rosto lembrava uma caveira. — Ele é só um menino.
— Pensei que fosse um ladrão — o homem grunhiu novamente, mas de um jeito menos agressivo.
— Tem uns homens correndo atrás de mim — Sherlock explicou, ofegante. — Preciso de ajuda.
— Você sabe o que fazem com garotos por aqui — disse a mulher. — Não desejo isso nem a meu pior inimigo. Bill, faça alguma coisa. Ajude o garoto.
— Fique atrás de mim — Bill disse. Com as mangas arregaçadas, era evidente que ele ansiava por uma boa briga, sem se importar com quem seria. Sherlock posicionou-se atrás do grandalhão no mesmo instante em que os homens que o perseguiam surgiam na esquina.
— Parem aí — Bill exigiu em um tom grave, cheio de promessas de violência. — Deixem o menino em paz.
— De jeito nenhum — respondeu Denny, que estava à frente dos cinco homens. Ele levantou a mão, e nela havia uma faca. A luz correu pelo fio da lâmina como um líquido brilhante. — Ele é nosso.
Bill estendeu a mão para pegar a faca, mas Denny jogou-a da mão direita para a esquerda, enfiando-a num golpe no peito de Bill. O homem caiu de joelhos, tossindo sangue, com uma expressão incrédula no rosto, como se não pudesse aceitar que aqueles momentos ali no beco seriam os últimos de sua vida.
Denny sorriu para Sherlock quando Bill caiu para a frente sobre as pedras do calçamento.
— Com você — ele prometeu — não vai ser tão rápido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)