25 de julho de 2017

Capítulo dois

SHERLOCK ENTROU NA BIBLIOTECA PELA varanda, de cabeça baixa. Sentia-se envergonhado, com o rosto quente e, estranhamente, zangado; só não sabia se estava bravo com Mycroft por tê-lo surpreendido ouvindo a conversa ou consigo mesmo, por ter sido pego.
— Como soube que eu estava ali? — ele perguntou.
— Em primeiro lugar — Mycroft respondeu sem nenhum traço de emoção —, eu esperava que estivesse. Você é um jovem de curiosidade exacerbada, e eventos recentes demonstraram que não se esforça muito para seguir as regras da sociedade. Em segundo lugar, há uma brisa leve soprando pelas janelas da varanda. Quando você estava lá fora, mesmo sem ser visto, mesmo sem fazer sombra, seu corpo bloqueou a brisa. Quando percebi que o vento tinha parado durante alguns segundos, deduzi que havia algum obstáculo. A conclusão óbvia foi que o obstáculo era você.
— Está zangado? — perguntou Sherlock.
— De jeito nenhum — Mycroft respondeu.
— Seu irmão teria ficado bravo — Crowe interferiu — se você fosse descuidado a ponto de deixar o sol projetar sua sombra na janela.
— É — Mycroft concordou —, isso teria demonstrado uma lamentável falta de conhecimento sobre geometria simples, e também a incapacidade de prever os resultados indesejados de suas atitudes.
— Está zombando de mim — Sherlock acusou-o.
— Só um pouco — admitiu Mycroft —, e apenas com as melhores intenções. — Ele parou. — Quanto conseguiu ouvir da nossa conversa?
Sherlock deu de ombros.
— Alguma coisa sobre um homem que veio da América para a Inglaterra e que você acredita ser uma ameaça. Ah, e alguma coisa sobre uma mulher chamada Pinkerton.
Mycroft olhou para Crowe e levantou uma sobrancelha. Crowe abriu um sorriso discreto.
— Não é uma mulher — ele respondeu —, embora algumas vezes pareça. A Agência Nacional de Detetives Pinkerton é uma agência de detetives e guarda-costas. Foi fundada por Allan Pinkerton em Chicago há cerca de doze anos, quando ele percebeu que o número de ferrovias crescia nos Estados Unidos mas não havia nenhuma proteção contra assaltos, sabotagem e atividades do sindicato. Allan contrata seu pessoal como se formasse uma espécie de força policial especial.
— Totalmente independente das regras e das limitações do governo — murmurou Mycroft. — Sabe, para um país que se orgulha de seus princípios básicos democráticos, vocês têm o estranho hábito de criar incontáveis atividades independentes.
— Você o chamou de “Allan” — Sherlock notou. — Conhece o tal homem?
— Al Pinkerton e eu somos velhos conhecidos — Crowe admitiu. — Estivemos juntos há sete anos, escoltando Abraham Lincoln por Baltimore a caminho de sua posse na presidência. Havia um plano dos estados do Sul para matar Lincoln naquela cidade, mas a Pinkerton foi contratada para protegê-lo e nós o entregamos vivo. Desde então, tenho prestado serviços para Al, às vezes. Nunca recebi um salário, na verdade, mas ele me paga pela consultoria quando sou acionado.
— O presidente Lincoln? — Sherlock repetiu atordoado. — Mas ele não foi...?
— Ah, sim, eles o pegaram no final. — O rosto de Crowe estava duro e impassível como se esculpido em granito. — Três anos depois da trama de Baltimore, alguém atirou nele em Washington. O cavalo que ele montava empinou, e seu chapéu voou longe. Quando encontraram o chapéu, havia um buraco de bala. Lincoln não foi atingido por centímetros. — Ele suspirou. — Um ano mais tarde, há três anos apenas, ele estava no teatro, em Washington, assistindo a uma peça chamada Our American Cousin, quando um homem chamado John Wilkes Booth atirou nele pelas costas, pulou no palco e fugiu.
— Você não estava lá — Mycroft comentou com voz mansa. — Não podia ter feito nada.
— Devia estar — Crowe respondeu no mesmo tom. — E Al Pinkerton também. Na verdade, o único guarda-costas cuidando do presidente naquela noite era um policial bêbado chamado John Frederick Parker. Ele nem estava por perto quando o presidente foi alvejado. Estava na Star Tavern, ao lado do teatro, se afogando em cerveja.
— Eu me lembro de ter lido alguma coisa no jornal do meu pai — disse Sherlock, rompendo o silêncio pesado que caiu sobre a biblioteca. — E me lembro do papai falando sobre isso, mas nunca entendi realmente por que o presidente Lincoln foi assassinado.
— Esse é o problema com as escolas de hoje — resmungou Mycroft. — Para elas, a história da Inglaterra parou cem anos atrás, e não existe história mundial. — Ele olhou para Crowe, mas o americano se manteve em silêncio. — Já ouviu falar sobre a Guerra entre os Estados? — perguntou a Sherlock.
— Só pelos artigos no The Times.
— Posto de maneira simples, onze estados na metade sul dos Estados Unidos da América declararam independência e formaram os Estados Confederados da América. — Ele bufou. — É como se Dorset, Devon e Hampshire decidissem de repente que queriam formar um país diferente e declarassem independência da Grã-Bretanha.
— Ou como se a Irlanda decidisse se libertar do governo britânico — murmurou Crowe.
— Essa situação é inteiramente diferente — disparou Mycroft. Depois olhou para Sherlock e continuou: — Por um tempo, houve dois presidentes americanos: Abraham Lincoln, no Norte, e Jefferson Davis, no Sul.
— Por que eles queriam independência? — Sherlock perguntou.
— Por que alguém quer independência? — Mycroft devolveu. — Porque não queriam acatar ordens. E nesse caso havia uma diferença de visões políticas. Os estados do Sul apoiavam a escravidão, enquanto Lincoln desenvolveu sua campanha eleitoral com base na libertação dos escravos.
— Não é tão simples — Crowe opinou.
— Nunca é — concordou Mycroft —, mas, nesse momento, é o suficiente. As hostilidades começaram em 12 de abril de 1861, e durante os quatro anos seguintes 620 mil americanos morreram lutando entre si; em alguns casos, irmão contra irmão e pai contra filho.
Ele pareceu estremecer e por um instante a biblioteca ficou mais escura, por causa de uma nuvem que passou diante do sol.
— Pouco a pouco, o Norte, conhecido como a União de Estados, destruiu o poder militar do Sul, que adotou o nome de Confederação de Estados. O mais importante general confederado, Robert Lee, rendeu-se em 9 de abril de 1865. A rendição foi uma consequência direta da notícia dos tiros que haviam atingido o presidente Lincoln. O atentado era parte de uma trama maior: seus confederados deveriam matar o secretário de Estado e o vice-presidente, mas o segundo assassino falhou, e o terceiro perdeu a coragem e fugiu. O último general confederado rendeu-se em 23 de junho de 1865, e suas últimas forças militares, a tripulação do CSS Shenandoah, renderam-se em 2 de novembro de 1865. — Ele sorriu como se lembrasse de alguma coisa engraçada. — Ironicamente, eles se renderam em Liverpool, na Inglaterra, depois de atravessar o oceano em um esforço para evitar a rendição às forças do Norte. Eu estava presente como representante do governo britânico. E aquele foi o fim da Guerra entre os Estados.
— Na verdade, não — Crowe desmentiu. — Ainda há pessoas no Sul que querem a independência. Ainda há agitadores tentando provocar uma luta por isso.
— O que nos traz de volta ao presente — Mycroft disse a Sherlock. — Os cúmplices de Booth naquela conspiração foram capturados e enforcados em julho de 1865. Booth fugiu, e soldados da União, supostamente, o capturaram e fuzilaram doze dias depois.
— Supostamente? — Sherlock questionou, captando a ênfase de Mycroft à palavra.
Mycroft olhou para Crowe.
— Durante os últimos três anos houve repetidos boatos de que John Wilkes Booth havia escapado e que outro conspirador, um homem parecido com ele, fora executado pelos soldados. Comentou-se que Booth tinha trocado de nome, para John St. Helen, e fugido do país para salvar a própria vida. Ele era ator antes de se juntar à revolução.
— E acham que agora ele está aqui? — perguntou Sherlock. — Na Inglaterra?
Mycroft assentiu:
— Recebi um telegrama da Pinkerton ontem. Os agentes foram informados de que um homem chamado John St. Helen e, com aparência compatível com a descrição de John Wilkes Booth, havia embarcado no Japão em direção à Grã-Bretanha. Pediram-me para alertar o Sr. Crowe, que, sabiam, estava no país. — Ele olhou para o americano. — Allan Pinkerton acredita que Booth tenha chegado à Inglaterra a bordo do CSS Shenandoah há três anos, ficado aqui por um tempo e depois deixado o país. Agora, acham que Booth está de volta.
— Como acredito ter mencionado há algum tempo — Crowe disse a Sherlock —, fui convidado para vir a este país procurar pessoas que tivessem fugido da América e da punição pelos crimes terríveis cometidos durante a Guerra entre os Estados. Não a morte de soldados em confrontos diretos, mas o massacre de civis, as cidades incendiadas e todo tipo de atos profanos e cruéis. Como estou aqui, faz sentido que Alan Pinkerton queira que eu me envolva na investigação desse homem chamado John St. Helen.
— Você se incomoda se eu perguntar de que lado estava na Guerra entre os Estados? — Sherlock questionou Crowe. — Acho que já me falou que é de Albuquerque. Procurei em um mapa que encontrei aqui mesmo, na biblioteca do meu tio. Albuquerque é uma cidade no Texas, um estado do Sul. Não é isso?
— Sim — confirmou Crowe. — E o Texas integrou a Confederação durante a Guerra. Mas ter nascido lá não significa que apoio automaticamente tudo que o Texas faça. Um homem tem o direito de tomar as próprias decisões com base em um código moral superior. — Ele rangeu os dentes em uma reação espontânea. — Considero a escravidão... repugnante. Não acredito que um indivíduo seja inferior a outro por causa da cor da pele. Posso achar que outras coisas tornam um indivíduo inferior, entre elas a capacidade de raciocínio, mas não algo tão arbitrário quanto a cor da pele.
— É claro, a Confederação argumentaria — Mycroft respondeu em voz baixa — que a cor da pele de um homem é uma indicação de sua capacidade de raciocínio.
— Se quer determinar a inteligência de um homem, converse com ele — Crowe rebateu. — Cor de pele não tem nada a ver com isso. Alguns dos homens mais inteligentes com quem conversei eram negros, e alguns dos mais estúpidos eram brancos.
— Então, você se juntou à União? — Sherlock perguntou, ansioso para continuar ouvindo a fascinante e inesperada história de Crowe.
Ele olhou para Mycroft, que balançou a cabeça discretamente.
— Digamos que permaneci na Confederação, mas que trabalhei para a União.
— Como espião? — Sherlock murmurou.
— Agente — Mycroft corrigiu de forma serena.

— Isso não é... antiético?
— Não vamos discutir ética agora, ou perderemos o resto do dia. É suficiente dizer que os governos de todo o mundo utilizam agentes o tempo inteiro.
Alguma coisa que Mycroft dissera finalmente foi assimilada por Sherlock, que reagiu:
— Disse que a Agência Pinkerton pediu para você informar o Sr. Crowe sobre John St. Helen. Isso significa... — Uma onda de emoção o invadiu. — ... que não veio aqui para me ver. Veio para ver Crowe.
— Vim para ver os dois — Mycroft argumentou. — Uma das coisas que define o mundo dos adultos é que raramente as decisões são tomadas com base em um único fator. Os adultos fazem as coisas por diversas razões ao mesmo tempo. Você tem que entender, Sherlock. A vida não é algo simples.
— Deveria ser — Sherlock respondeu com rebeldia. — As coisas são certas ou são erradas.
Mycroft sorriu.
— Jamais tente o serviço diplomático — disse.
Crowe estava inquieto. Sherlock teve a impressão de que ele não se sentia à vontade.
— Onde mora esse tal St. Helen? — o homem perguntou.
Mycroft tirou do bolso do paletó um pedaço de papel e o estudou.
— Tudo indica que ele se instalou em uma casa em Godalming, na Guildford Road. O nome da propriedade é — ele leu novamente as informações no papel — Shenandoah, o que pode ser uma indicação importante ou mera coincidência. O que pretende fazer?
— Investigar — respondeu Crowe. — É para isso que estou aqui. É claro que preciso ter muita cautela na escolha do método que vou utilizar. É difícil um americano grande como eu passar despercebido.
— Então seja sutil — preveniu Mycroft — e não tente fazer justiça com as próprias mãos. Existem leis neste país, e eu odiaria vê-lo enforcado por assassinato. Não gosto de ironia. Prejudica minha digestão.
— Eu poderia ajudar — Sherlock falou de repente, surpreendendo até a si mesmo.
A ideia pareceu ter passado diretamente para sua boca, sem ser analisada pela razão.
Os dois homens o olharam surpresos.
— De maneira nenhuma — Mycroft respondeu em um tom severo.
— Não, é claro que não — Crowe manifestou-se, falando ao mesmo tempo que Mycroft.
— Mas eu posso cavalgar até Godalming e fazer perguntas — insistiu Sherlock. — Ninguém vai prestar atenção em mim. E já não provei que sou capaz de fazer esse tipo de coisa com aquela questão envolvendo o barão Maupertuis?
— Aquilo foi diferente — respondeu Mycroft. — Você se envolveu no assunto por acidente, e o maior perigo a que esteve exposto foi justamente quando o Crowe aqui tentou tirá-lo da história. — Ele parou para pensar. — Nosso pai nunca me perdoaria se eu deixasse que algo ruim acontecesse a você, Sherlock.
Sherlock sentiu-se ofendido ao ouvir como o irmão descreveu sua participação no incidente com o barão de Maupertuis, porque a versão dele ignorava ou distorcia vários pontos importantes, mas ficou quieto. Era inútil começar uma discussão sobre assuntos do passado quando havia algo muito mais importante para debater.
— Eu não faria nada para chamar atenção — Sherlock insistiu. — Não sei como poderia ser perigoso.
— Se John St. Helen for John Wilkes Booth, estaremos lidando com um assassino foragido da justiça — Crowe avisou. — Esse homem será enforcado se voltar ou se for levado de volta aos Estados Unidos. É como um animal acuado. Se sentir que está sob algum tipo de ameaça, vai encobrir seus rastros e desaparecer novamente, e eu terei que ir atrás dele. Não quero que você seja um dos rastros a encobrir no caso de uma nova fuga.
— Tem mais uma coisa — Mycroft murmurou, olhando para Crowe por um instante. — Não sei que informações a Agência Pinkerton lhe repassou, mas existe uma suspeita crescente de que Booth e seus colaboradores faziam parte de algo maior.
— É claro que faziam — Crowe respondeu. — E o nome dessa coisa maior é Guerra entre os Estados.
— Eu quis dizer — Mycroft continuou pesadamente — que a ideia por trás do assassinato do presidente Lincoln não foi deles; esses homens seguiam instruções, e os comandantes, digamos assim, ainda estão livres. Se Booth está mesmo aqui na Inglaterra, é possível que esteja se preparando para voltar aos Estados Unidos e, nesse caso, deve haver um bom motivo. O que ele pretende?
Crowe sorriu.
— Se ele está de fato planejando o retorno à América, isso só facilita meu trabalho. Tudo o que preciso fazer é dar o alarme e tomar medidas para que ele seja preso assim que sair do barco.
— Mas não seria melhor, antes, verificar quais são as intenções dele? Prendê-lo não encerra a conspiração necessariamente.
— Se é que existe uma conspiração... — Crowe argumentou balançando a cabeça.
Sherlock se sentia como se estivesse no meio de uma discussão filosófica. Tudo o que sabia era que o tutor, cuja presença se tornara constante em sua vida, estava diante de um problema que podia levá-lo de volta a seu país ou obrigá-lo a perseguir aquele homem em qualquer outro lugar do mundo. Se Sherlock pudesse fazer alguma coisa para resolver a questão, não hesitaria. Só não informaria a Mycroft.
— Posso ir agora? — perguntou.
Mycroft fez um gesto com a mão, dispensando-o.
— Sim, pode ir. Vá passear pelo campo, ou seja lá o que costuma fazer. Vamos conversar mais um pouco.
— Vá me visitar amanhã de manhã — Crowe sugeriu sem sequer olhar para Sherlock. — Continuaremos o que paramos.
Sherlock saiu quando os dois homens começavam a discutir os detalhes dos tratados federais de extradição entre alguns estados americanos e o governo britânico.
Do lado de fora o sol ainda era uma presença marcante no céu. Era possível sentir o cheiro de madeira queimando e o distante odor do malte das cervejarias de Farnham.
Godalming não podia ficar tão longe, certo? Naquele lugar havia uma Guildford Road, o que indicava que devia ficar perto de Guildford, e Guildford não era longe de Farnham.
Matthew Arnatt saberia.
Matthew – ou Matty, como gostava de ser chamado – era um garoto que Sherlock conhecera e do qual se aproximara bastante nos últimos dois meses. Ele vivia sozinho em um barco, navegando pelos canais entre as cidades, roubando comida quando era necessário e evitando os abrigos para pobres. Matty estava ancorado em Farnham há mais tempo do que costumava ficar em outras cidades, mas ele e Sherlock não tinham conversado sobre os motivos dessa estadia prolongada.
Se Sherlock ia mesmo visitar Godalming e dar uma olhada na casa chamada Shenandoah e no homem que morava lá, que podia ou não ser John Wilkes Booth, queria ter Matty a seu lado. O garoto já salvara sua vida algumas vezes. Confiava nele.
Sherlock contornou a casa, passou pela cozinha e seguiu em direção ao estábulo. Os cavalos que ele e Matty haviam tirado da casa do barão de Maupertuis algumas semanas antes estavam ali, comendo feno com satisfação. Sherlock não conseguira decidir o que fazer com eles depois que o esquema colossal do barão havia desmoronado, por isso pedira aos garotos que trabalhavam no estábulo para cuidarem dos animais e lhes pagara uma moeda. Ninguém parecia ter notado a presença de dois cavalos a mais na propriedade. E, é claro, ainda havia a vantagem de agora poder cavalgar com Virginia. Ela o estava ensinando a montar, e Sherlock apreciava o fato de conseguir fazer isso corretamente.
Sherlock selou seu cavalo e, pegando as rédeas do outro animal com a mão esquerda, levou as duas montarias para fora do estábulo. Ter que se preocupar com dois cavalos, em vez de dar atenção apenas àquele que montava, tornou o percurso mais lento, mas ainda assim ele conseguiu chegar a Farnham em meia hora. De lá, seguiu até o local onde o barco de Matty estava ancorado.
Matty estava sentado no barco, olhando para o rio. Ele deu um pulo ao ver Sherlock.
— Você está com os cavalos — o menino comentou.
— Eu sei — Sherlock respondeu. — Sua capacidade de observação é espantosa.
— Seu exibido — Matty respondeu calmamente. — Eu tô observando que quer que eu leve você para algum lugar. Se é isso, não devia ser tão sarcástico.
— Tem razão. Desculpe, às vezes não consigo me controlar.
— Então, aonde vamos?
— Vim perguntar se quer ir comigo a Godalming — disse Sherlock.
Matty o olhou intrigado.
— Por que eu faria uma coisa dessas?
— Eu conto no caminho — respondeu Sherlock.

A viagem a Godalming obrigou-os a seguir por uma subida que parecia não ter fim. A inclinação era, na verdade, o início de uma trilha que seguia estreita e sinuosa, debruçada sobre um precipício. A altura era vertiginosa dos dois lados da trilha, e campos muito verdes se estendiam diante deles até se perderem em uma nuvem distante.
Matty olhou por cima do ombro para Sherlock.
— Vamos seguir por um bom trecho de Hog’s Back, depois descemos a encosta passando por Gomshall. Isso vai levar mais ou menos uma hora. Podemos continuar ou quer parar e descansar um pouco?
— Vamos apreciar a vista por um ou dois minutos — respondeu Sherlock. — Os cavalos precisam recuperar o fôlego.
— Os cavalos tão bem — Matty falou. — Você não tá ficando cansado da sela, tá?
O restante do trajeto foi mais fácil, atravessando campos e grandes áreas de vegetação rasteira onde carneiros, cabras e porcos se alimentavam lado a lado. Quando chegaram à fronteira de Godalming eles atravessaram uma ponte sobre um rio estreito ladeado por juncos tão altos quanto um homem. Uma estrada seguia à esquerda logo depois da ponte.
— Acho que essa é a Guildford Road — disse Matty. — Para que lado quer ir?
— Vamos sair da cidade — disse Sherlock. — Tenho a sensação de que o lugar que procuro fica afastado, em uma região mais isolada.
Eles continuaram cavalgando, agora mais devagar para que Sherlock pudesse examinar as casas pelas quais passavam. Matty parecia satisfeito por só apreciar a paisagem, não fazia perguntas sobre o que estavam fazendo ali.
Muitas casas não tinham nome ou eram menores do que Sherlock imaginava. Afinal, ninguém chamaria de Shenandoah um casebre, certo? Um nome, especialmente um tão grandioso, implicava algo maior, mais substancial. Havia crianças brincando fora de algumas casas, umas com bolas de couro, outras com brinquedos de madeira. Uma ou duas acenaram quando os meninos passaram a trote.
Depois de um tempo eles encontraram uma casa afastada de todas as outras, solitária depois de uma curva na estrada e protegida por um bosque. Do percurso, Sherlock conseguiu enxergar uma placa de madeira ao lado da porta. A palavra na placa era longa, e parecia começar com “S”. Ou talvez não. Trepadeiras com flores roxas subiam por uma parede lateral da casa, agarrando-se a qualquer saliência que encontravam.
— É aqui? — Matty perguntou. — Devemos bater na porta?
— Não — respondeu Sherlock. — Vamos continuar cavalgando, passar pela casa e parar depois dela.
A fachada era caiada, e havia venezianas nas janelas. O jardim era bem-cuidado, Sherlock notou ao passar. Era evidente que alguém morava ali.
Depois de passarem pela casa os garotos reduziram a velocidade do trote.
— Sabe, eu notei que você tá estudando o lugar — Matty deduziu — e não quer que os moradores percebam. O que está acontecendo?
— Eu conto mais tarde — prometeu Sherlock. — Preciso me aproximar da porta da frente. Alguma ideia?
— Ir até lá e bater?
— Engraçadinho. — Ele olhou em volta. Não havia por ali nenhuma solução imediata. — Pode voltar até onde estavam aquelas crianças jogando bola? — Sherlock enfiou a mão no bolso e pegou um punhado de moedas. — Dê algumas a eles e pergunte se podem nos emprestar a bola por um tempo. Avise que vamos devolvê-la.
Matty olhou para ele de um jeito estranho.
— Andamos um bom caminho para ficarmos jogando bola.
— Faça o que estou pedindo, por favor.
Matty suspirou e pegou as moedas, depois se afastou em um trote rápido, olhando por cima do ombro e estalando a língua.
Sherlock desmontou e esperou com paciência, amarrando o cavalo e aproximando-se das árvores para tentar enxergar melhor a casa. Ninguém se movia. Seria o nome Shenandoah ou outra coisa qualquer, como Summerisle ou Strangeways?
Matty voltou depois do que pareceu uma eternidade. Carregava a bola embaixo do braço.
— Não vai adiantar — ele disse ao chegar. — A bola tá murcha.
— Não tem importância. Vamos caminhar de volta à estrada e jogar a bola um para o outro. Quando nos aproximarmos da casa, quem estiver com a bola erra a jogada, para atirá-la o mais perto da porta que puder.
— E o outro vai ter que ir lá buscar. Entendi.
— Eu terei que ir buscá-la. Preciso ver o que está escrito naquela placa, e você não sabe ler. Quer dizer, não muito bem, pelo menos.
Eles voltaram à estrada, batendo bola. Uma ou duas vezes Matty a jogou no chão e chutou na direção de Sherlock.
Quando chegaram ao trecho mais próximo da casa, bem na frente da trilha aberta até a porta da frente, Matty colocou-se do outro lado da estrada. De lá, lançou a bola o mais alto que pôde, fazendo-a passar por cima da cabeça de Sherlock. Ela chegou ao jardim e quicou uma vez no chão, murcha, antes de rolar lentamente até a porta da frente.
Sherlock fingiu estar muito irritado, abrindo os braços e balançando a cabeça, depois virou-se e caminhou pela trilha até a entrada da casa. Disfarçando, abaixou-se para pegar a bola e olhou para a placa de madeira.
Shenandoah.
Era a casa certa. Agora ele só precisava decidir o próximo passo. Será que deveria ficar e observar o lugar por algum tempo, e assim poder descrever o ocupante para Mycroft e Amyus Crowe, ou se atreveria a entrar escondido e dar uma olhada, caso o morador não estivesse em casa?
A escolha lhe foi negada quando a porta se abriu e um homem apareceu, saído da escuridão. Era magro, com uma barba estreita e pontuda salpicada de fios brancos, mas o que fez Sherlock congelar de medo foi o lado esquerdo de seu rosto. Ele havia sofrido queimaduras graves; a pele era vermelha e enrugada, e o olho era só um buraco escuro, sem o globo ocular.
— Seu vira-lata barulhento — o homem rosnou; em seguida, agarrou Sherlock pelos cabelos e o arrastou para dentro antes que ele tivesse tempo de emitir qualquer som.

6 comentários:

  1. Não faz sentido o Robert Lee ter se rendido por causa do atentado contra o Abraham Lincoln se a morte do Abraham foi em 15 de abril de 1865. E só agora que eu percebi que a história se passa no século 19

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    1. "O mais importante general confederado, Robert Lee, rendeu-se em 9 de abril de 1865. A rendição foi uma consequência direta da notícia dos tiros que haviam atingido o presidente Lincoln." O atentado contra Lincoln foi em 15 de abril de 1865

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    2. Realmente... Dei uma pesquisada esses dias e foi isso mesmo - a rendição foi antes do atentado. Então talvez não tenha sido consequência, mas causa (?)

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    3. Gente,
      A diferença é de poucos dias. Lembrem-se que naquela época uma notícia demorava muito tempo para chegar até outra parte de país. Em 6 dias era provável que ninguém soubesse da rendição.

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Boa leitura :)