16 de julho de 2017

Capítulo dois

DE ONDE ESTAVA SENTADO, no bosque nos arredores de Farnham, Sherlock via um barranco que descia até uma trilha de terra que serpenteava pelo mato rasteiro, como um leito seco de rio, até sumir de vista. Do outro lado da cidade, na encosta de uma colina, um pequeno castelo erguia-se por entre as árvores. Não havia mais ninguém por perto. Havia tanto tempo que Sherlock estava ali, sentado e quieto, que os animais acabaram por habituar-se à sua presença. De vez em quando se ouvia um farfalhar na relva alta, quando algum rato passava por ali, enquanto falcões descreviam círculos no céu azul, à espera de que algum animal pequeno fosse estúpido o bastante para aparecer em área aberta.
O vento sacudia as folhas das árvores atrás de Sherlock. Ele deixava a mente divagar, tentando não pensar no passado ou no futuro, vivendo apenas o momento por tanto tempo quanto pudesse. O passado doía como um hematoma e o futuro imediato não era algo pelo qual ele ansiasse. A única maneira de prosseguir era não pensar no assunto, apenas se deixar embalar pela brisa e observar os animais que se moviam à sua volta.
Estava hospedado na mansão Holmes havia três dias, e a situação não era muito melhor que aquela que ele encontrara ao chegar. O pior de tudo era a Sra. Eglantine. A governanta era um espectro onipresente a perscrutar pelos cantos mais obscuros da casa. Sempre que se virava, ele a encontrava lá, parada na penumbra, observando-o com seus olhos enrugados. A mulher mal falara três frases com ele desde sua chegada. Sherlock tinha a impressão de que se esperava que ele comparecesse à mesa para o café da manhã, o almoço, o chá da tarde e o jantar, não dissesse nem uma palavra, comesse o mais silenciosamente possível e depois desaparecesse até a refeição seguinte; essa seria sua rotina até o final das férias, quando Mycroft voltaria para libertá-lo de sua sentença.
Sherrinford e Anna Holmes – o tio e a tia – normalmente estavam presentes no café da manhã e no jantar. Sherrinford era uma figura dominadora: tão alto quanto o irmão, porém muito mais magro; faces proeminentes, testa arredondada no centro e funda nas laterais, barba branca e espessa que descia até o peito, mas sobre a cabeça o cabelo era tão escasso, que, para Sherlock, parecia que cada fio tinha sido pintado no couro cabeludo e recoberto por uma camada de verniz. Entre as refeições, o tio desaparecia no escritório ou na biblioteca, nos quais, pelo que o menino podia deduzir de fragmentos de conversas que conseguira ouvir, escrevia panfletos religiosos e sermões para vigários de todo o país. A única ocasião em que ele disse algo concreto a Sherlock nos três dias anteriores foi quando o encarou com um olhar profundo durante um almoço e disse:
— Qual é o estado de sua alma, menino?
Sherlock piscara, parando o garfo a meio caminho da boca. Lembrando-se do Sr. Tulley, professor de latim em Deepdene, respondera:
— Extra ecclesiam nulla salus — que, ele tinha certeza, significava “Fora da Igreja não há salvação”.
E funcionara, aparentemente: Sherrinford Holmes assentira e murmurara:
— Ah, São Cipriano de Cartago, é claro! — E voltara a comer.
A Sra. Holmes – ou tia Anna – era uma mulher pequena e inquieta, que parecia estar em constante movimento. Mesmo quando sentada, suas mãos se mexiam o tempo todo, sem nunca pousarem por mais de um instante em qualquer lugar. Ela falava sem parar, mas não exatamente com alguém. Era como se gostasse de conduzir um eterno monólogo, e não parecia esperar que participassem da conversa ou respondessem a alguma de suas questões retóricas.
Ao menos a comida era razoável – melhor que as refeições em Deepdene. Normalmente, um monte de vegetais – cenouras, batatas e couve-flor, que ele acreditava serem cultivadas no terreno da mansão – mas também havia sempre algum tipo de carne, e, em vez da coisa cinzenta, gordurosa e impossível de identificar a que Sherlock se acostumara na escola, ali ela era bem-temperada e saborosa: presunto, coxas de frango, filés de algo que lhe disseram ser salmão e, em uma ocasião, grandes fatias de paleta de carneiro cobertas com um molho grudento. Se não tomasse cuidado, engordaria tanto, que acabaria parecido com Mycroft.
Seu quarto ficava no último andar da casa; não era propriamente a ala dos criados, mas também não era com a família. O teto entre a porta e a janela era inclinado, de forma a acompanhar a linha do telhado, e por isso Sherlock tinha de curvar-se para andar pelo aposento. O piso era formado por tábuas lisas e coberto por um tapete de idade duvidosa. A cama era tão dura quanto a que ele ocupava na escola. Nas duas primeiras noites, o silêncio o mantivera acordado durante horas. Acostumara-se de tal forma a ouvir outros trinta garotos roncar, falar enquanto dormiam, ou soluçar e chorar no travesseiro, que a repentina ausência de sons o perturbava, mas então abrira a janela para respirar um pouco de ar fresco e descobrira que a noite não era nada silenciosa – os ruídos só eram mais sutis. Desse dia em diante, passou a dormir embalado pelo pio das corujas, pelos gritos das raposas e pelo súbito bater de asas provocado por alguma coisa que assustava as galinhas atrás da casa.
Apesar do conselho do irmão, não conseguira ir à biblioteca para ler um livro. Sherrinford Holmes passava a maior parte de seu tempo ali, pesquisando para escrever seus textos religiosos, e Sherlock tinha medo de incomodá-lo. Então passara a percorrer perímetros cada vez maiores em torno da casa: começou pelos terrenos da frente e dos fundos, o jardim murado, o galinheiro, a horta, depois ultrapassou a muralha de pedra que cercava a casa e seguiu a estrada externa da propriedade e, finalmente, expandiu a área até o ancestral bosque que existia atrás da mansão. Estava acostumado a andar, a explorar as matas perto de casa, fosse sozinho, fosse com a irmã, mas aquele ali parecia mais antigo e misterioso que os que já conhecera.
— Para alguém da cidade, você é capaz de ficar bastante quieto e imóvel, não?
— Você também — Sherlock respondeu sem se virar para a voz atrás de si. — Está me observando há meia hora.
— Como soube?
Sherlock ouviu um baque surdo, como se alguém tivesse saltado dos galhos mais baixos de uma árvore para as samambaias que cobriam o solo.
— Há pássaros cantando em todas as árvores, menos em uma: esta em que você estava escondido. É evidente que estavam com medo de você.
— Não vou fazer mal nenhum a eles, como também não farei mal a você.
Sherlock virou a cabeça devagar. A voz pertencia a um menino mais ou menos da idade dele, porém mais baixo e mais parrudo que o magricela Sherlock. O cabelo era comprido o bastante para tocar os ombros.
— Não sei se você conseguiria — ele respondeu, tão calmo quanto era possível naquelas circunstâncias.
— Sei brigar bem — avisou o menino. — E tenho uma faca.
— Sim, mas eu tenho assistido às lutas de boxe na escola, e meus braços são longos. — Sherlock observou o menino com olhar crítico. Suas roupas eram de tecido barato, remendadas em alguns lugares, e estavam sujas, assim como seu rosto, suas mãos e suas unhas.
— Escola? — disse o garoto. — Ensinam boxe na escola?
— Na minha, sim. Dizem que nos deixa mais fortes.
O menino sentou-se ao lado de Sherlock.
— A vida é que nos deixa mais fortes — murmurou, antes de acrescentar: — Meu nome é Matty. Matty Arnatt.
— Matty de Matthew?
— É, acho que sim. Você mora naquela casa grande perto da estrada, não é?
Sherlock assentiu.
— Vim passar o verão aqui. Com meus tios. Meu nome é Sherlock. Sherlock Holmes.
Matty observou-o com ar crítico.
— Isso não é um nome de verdade.
— O quê? Sherlock? — Ele refletiu por um momento. — O que há de errado com ele?
— Conhece algum outro Sherlock?
Ele deu de ombros.
— Não.
— E qual é o nome de seu pai?
Sherlock franziu a testa e respondeu:
— Siger.
— E o de seu tio? Aquele que está hospedando você?
— Sherrinford.
— Você tem irmãos?
— Sim, um.
— Qual o nome dele?
— Mycroft.
Matty balançou a cabeça, irritado.
— Sherlock, Siger, Sherrinford e Mycroft. Que grupo! Por que não escolher algo tradicional, como Matthew, Mark, Luke e John?
— São nomes de família — Sherlock explicou. — E são tradicionais. Todos os homens de nossa família têm nomes assim. — Ele fez uma pausa. — Certa vez meu pai contou-me que parte da família veio da Escandinávia para a Inglaterra, e é de lá que são esses nomes. Ou algo parecido. “Siger” pode ser escandinavo, eu acho, mas os outros na verdade soam mais como topônimos em inglês arcaico. De qualquer maneira, a origem do nome “Sherlock” é um mistério. “Sher Lock”, ou “Sheer Lock”, quer dizer “comporta íngreme”, então talvez exista algum canal com uma comporta assim.
— Você sabe um monte de coisas — Matty disse. — Mas não sabe muito sobre canais. Nunca topei com nenhuma “Sher Lock” ou “Sheer Lock”. E irmãs, tem? Mais nomes bobos?
Sherlock retraiu-se e desviou o olhar.
— Então, você mora por aqui?
Matty olhou-o por um momento, e aparentemente aceitou o fato de Sherlock querer mudar de assunto.
— Sim — respondeu. — Por enquanto. Estou em viagem, mais ou menos isso.
Aquilo chamou a atenção de Sherlock.
— Em viagem? Quer dizer que é um cigano? Ou faz parte de um circo?
Matty torceu o nariz, zombeteiro.
— Costumo bater em quem me chama de “cigano”. E também não faço parte de circo nenhum. Sou honesto.
De repente Sherlock lembrou algo que Matty dissera alguns momentos antes.
— Disse que não conhecia nenhuma “Sher Lock” ou “Sheer Lock”. Você vive nos canais? Sua família tem um barco?
— Tenho uma pequena embarcação, mas nenhuma família. Sou só eu. E Albert.
— Seu avô? — Sherlock arriscou.
— Meu cavalo — Matty corrigiu. — Albert puxa o barco.
Sherlock esperou por um momento, mas Matty não continuou a falar. Então, perguntou:
— E sua família? O que aconteceu com ela?
— Você faz muitas perguntas, não é?
— É uma maneira de descobrir as coisas.
Matty deu de ombros.
— Meu pai era da Marinha. Partiu em um navio e nunca mais voltou. Não sei se naufragou, se ficou em um porto qualquer do mundo ou se voltou para a Inglaterra e não se deu o trabalho de percorrer os últimos quilômetros. Minha mãe morreu há alguns anos. Tuberculose.
— Sinto muito.
— Não me deixaram vê-la — Matty continuou, como se não tivesse escutado, olhando para algum ponto no horizonte. — Ela simplesmente definhou. Ficou mais magra e pálida, como se estivesse morrendo aos poucos. Tossia sangue todas as noites. Eu sabia que me levariam para o abrigo dos sem-teto quando ela morresse, então fugi. De jeito nenhum iria para um abrigo. A maioria das pessoas que vai para esses lugares nunca mais sai, ou sai doente do corpo ou da mente. Escolhi os canais, em vez de andar em terra firme, porque assim poderia chegar mais longe em menos tempo.
— Onde você conseguiu o barco? — Sherlock perguntou. — Pertencia à sua família?
— Não mesmo — o menino respondeu, em tom de desprezo. — Digamos apenas que o encontrei, e ponto final.
— Mas como você se mantém? Como arranja comida?
Matty deu de ombros, de novo.
— Trabalho nos campos durante o verão: colho frutas ou corto trigo. Todo o mundo quer mão de obra barata e não se incomoda em contratar crianças. Durante o inverno faço trabalhos variados: um pouco de jardinagem aqui, trocar as telhas de uma igreja ali... Eu me viro. Faço qualquer serviço, menos limpar chaminés e trabalhar em minas. Isso é morte lenta.
— Tem razão — Sherlock concordou. — Há quanto tempo está em Farnham?
— Umas duas semanas. É um bom lugar — Matty comentou. — As pessoas são até simpáticas, e não me perturbam muito. A cidade é segura, respeitável. — Hesitou brevemente. — Exceto...
— O quê?
— Não é nada. — Matty balançou a cabeça, recompondo-se. — Escute, já faz um tempo que o observo. Você não tem amigos por aqui, e não é estúpido. Pode perceber as coisas. Pois bem, vi algo na cidade que não sei explicar. — Ele corou ligeiramente e desviou o olhar. — Esperava que você pudesse me ajudar.
Sherlock deu de ombros, mas estava intrigado.
— Posso tentar. O que é?
— Melhor ver você mesmo. — Matty esfregou as mãos nas calças. — Quer dar uma volta pela cidade antes? Posso mostrar quais são os melhores lugares para comer, beber, ou só ficar olhando o movimento das pessoas. E também quais as melhores vielas por onde fugir e os becos que você deve evitar.
— Vai me mostrar seu barco também?
Matty olhou para Sherlock.
— Talvez. Se eu decidir que posso confiar em você.
Juntos, os dois desceram a encosta para a estrada que os levaria até a cidade. O céu estava azul, e Sherlock sentia o cheiro da fumaça que vinha de uma fogueira e ouvia à distância alguém cortar lenha com um machado em um ritmo tão regular quanto o tique-taque de um relógio. Em certo momento, enquanto atravessavam um pequeno aglomerado de árvores, Matty apontou uma ave que voava alto no céu.
— Um milhafre — disse simplesmente. — Está perseguindo alguma coisa.
A distância até a cidade era de uns bons quilômetros, e eles levaram quase uma hora andando. Sherlock sentia os músculos das pernas e da região lombar alongarem-se com a caminhada. No dia seguinte estaria dolorido, mas no momento o exercício afastava a depressão profunda que se instalara nele desde a chegada à mansão Holmes.
À medida que se aproximavam da cidade e as casas apareciam ao longo da estrada de forma cada vez mais regular, Sherlock começou a sentir um cheiro desagradável de mofo pairando no ar.
— Que cheiro é esse?
— Que cheiro? — Matty respirou fundo.
— Esse cheiro. Não é possível que você não esteja sentindo. É como um tapete molhado que não secou direito.
— São as cervejarias. Há várias delas espalhadas perto do rio. A de Barratt é a maior. Está em expansão, por causa das tropas em Aldershot. Esse cheiro é de cevada molhada. Foi a cerveja que estragou meu pai. Ele se alistou na Marinha para ficar longe dela, mas então o rum o alcançou.
Estavam nos limites da cidade, e ali havia mais casas e chalés que espaços vazios. Muitas casas eram construídas com tijolos vermelhos e telhas de um tom escuro de vermelho ou sapé amarrado de um jeito que formava volumes parecidos com massa de pão. Atrás das casas, uma ladeira suave conduzia a um castelo de pedras cinza que se debruçava sobre a cidade. A ladeira continuava a subir, para além do castelo, e seguia até uma plataforma distante. Sherlock não conseguia deixar de perguntar-se de que serviria um castelo naquela posição, se qualquer atacante poderia ficar acima dele e lançar flechas, pedras e fogo pelo tempo que quisesse.
— Há um mercado aqui todos os dias — Matty contou. — Na praça da cidade. Vendem ovelhas, vacas, porcos e tudo o mais. Bom lugar para ir quando estão limpando tudo, no final do dia. Os comerciantes estão sempre com pressa, tentando partir antes do pôr do sol, e todo tipo de coisa acaba caindo das barracas, ou sendo descartado, por estar um pouco podre ou com bichos. Dá para alimentar-se muito bem apenas com as coisas que eles deixam para trás.
— Ah, que delícia — Sherlock respondeu, e seu tom era seco. Pelo menos as refeições na mansão Holmes eram algo que ele aguardava com interesse, embora o clima reinante durante o almoço e o jantar não fossem.
Estavam agora cercados pela cidade, e havia tanta gente na rua, que os dois meninos precisavam descer o tempo todo da calçada para a pista, para não dar de cara com alguém. Sherlock passou a maior parte do percurso prestando atenção ao chão, para não meter o pé em algum monte de excremento. O padrão de vestuário melhorara, de maneira geral: os homens usavam paletós e gravatas decentes, e as mulheres, vestidos, e não havia tantos calções, coletes e calças, como tinham visto na área rural. Os cachorros estavam por toda parte: alguns, fortes e saudáveis, usavam coleiras; outros, magros e desnutridos, eram animais sem dono à procura de alimento. Os gatos permaneciam nas sombras, magros e de olhos grandes. Na via pública, cavalos puxavam carruagens e carroças nos dois sentidos, afundando o excremento cada vez mais no solo sulcado.
Quando chegaram a uma viela que saía da via principal, Matty parou.
— Que foi? — perguntou Sherlock.
Matty hesitou.
— Aquela coisa que eu vi. — Ele encolheu os ombros, titubeante. — Foi ali, alguns dias atrás. Algo que não entendo.
— Quer me mostrar o que é?
Em vez de responder, Matty correu pela viela. Sherlock disparou para alcançá-lo.
A viela fazia uma curva fechada e terminava em uma rua tão estreita, que Sherlock conseguia tocar as construções de ambos os lados. Pessoas debruçavam-se nas janelas dos andares mais altos e conversavam com facilidade, como se estivessem curvadas sobre cercas de jardim. Matty olhava para cima, para uma janela específica. Estava vazia, e a porta embaixo dela, fechada. O lugar parecia deserto.
— Estava ali em cima — ele disse. — Vi fumaça, mas ela se movia. Saiu pela janela, rastejou pela parede e desapareceu por cima do telhado.
— Fumaça não faz isso — comentou Sherlock.
— Essa fumaça fazia — insistiu Matty, falando com firmeza.
— Talvez estivesse sendo soprada pelo vento.
— Talvez. — Mas Matty não parecia convencido. Franziu o cenho enquanto lembrava o que tinha acontecido ali. — Ouvi alguém gritar dentro da casa. Corri, porque senti medo, mas voltei depois. Havia uma carroça do lado de fora, e carregavam um defunto nela. Um lençol envolvia o corpo, mas ficou enroscado na porta e caiu. Eu vi o corpo. Vi aquele rosto. — Ele se virou para Sherlock, e sua expressão era uma máscara de medo e incerteza. — Ele estava coberto de bolhas. Bolhas grandes e vermelhas, que cobriam o rosto, o pescoço e os braços. E o rosto estava todo retorcido, como se a pessoa tivesse morrido em agonia. Acha que foi a praga? Ouvi dizer que ela devastou o país no passado. Acha que está de volta?
Sherlock sentiu um arrepio nas costas.
— Suponho que possa ser o início de outro surto, mas uma única morte não faz uma praga. Pode ter sido escarlatina, ou muitas outras coisas.
— E aquela sombra que vi movendo-se sobre o telhado? Era a alma do morto? Ou algo que veio buscá-la?
— Isso — respondeu Sherlock com firmeza — foi só uma ilusão criada pelo ângulo do sol e por uma nuvem que passava sobre a casa. — Ele segurou Matty pelos ombros e o levou para longe dali. — Venha, vamos embora.
Sherlock conduziu Matty pela rua estreita. Em pouco tempo os dois garotos estavam de volta à estrada principal que passava por Farnham. Matty estava pálido e quieto.
— Você está bem? — Sherlock indagou suavemente.
Ele assentiu com a cabeça.
— Desculpe-me — disse, envergonhado. — Eu só... fiquei assustado. Não gosto de doenças, desde que...
— Eu entendo. Escute, não sei o que você viu, mas vou pensar nisso. Meu tio tem uma biblioteca; a resposta pode estar lá. Ou nos arquivos do jornal local.
Eles atravessaram uma pequena ponte e voltaram à cidade. Ao longo da rua havia uma muralha de pedra com um portão de madeira, próximo ao qual um animal estava deitado. Suas patas estavam estendidas e rígidas, imóveis. A pele, suja e sem brilho. Por um momento, Sherlock pensou que fosse um cachorro, mas, quando chegaram mais perto, ele viu o focinho pontudo, as patas curtas e a alternância das listras pretas e brancas – agora, tons claros e escuros de cinza – que desciam desde a cabeça. Era um texugo, e Sherlock notou que o ventre do animal estava quase espremido contra a estrada. Ele tinha sido atropelado, provavelmente pela roda de uma carroça.
Matty reduziu a velocidade dos passos ao aproximar-se.
— Você precisa tomar cuidado ao passar por aqui — disse, como se estivesse em total segurança e só Sherlock devesse se preocupar. — Não sei o que fazem ali, mas sei que tem guardas lá dentro. E eles têm porretes e ganchos de ferro. E são caras muito grandes.
Sherlock ia dizer alguma coisa sobre a probabilidade de os homens estarem apenas garantindo a segurança de quem trabalhava lá dentro quando o portão se abriu. Dois homens saíram para a rua; seus rostos, carrancudos, eram marcados por cicatrizes, mas as roupas eram de um veludo preto impecável. Olharam para a direita e para a esquerda, observando os garotos por um rápido instante antes de ignorá-los, e então gesticularam para alguém que estava dentro da propriedade.
Uma carruagem puxada por um único cavalo negro saiu do pátio. O condutor era um homem enorme, com mãos que lembravam pás e uma cabeça calva coberta de cicatrizes. Os homens fecharam o portão, depois pularam na parte traseira da carruagem, segurando-se enquanto ela se afastava.
— Vejamos se o camarada nos dá um tostão — Matty cochichou. Antes que Sherlock pudesse detê-lo, ele já corria em direção à carruagem.
Surpreso, o cavalo recuou contra os varais que o prendiam à carruagem. O condutor tentou controlar o animal, açoitando-o com o chicote, mas o gesto só tornou tudo ainda pior. A carruagem foi jogada de um lado para o outro enquanto o cavalo tentava afastar-se de Matty.
Sherlock ficou temporariamente chocado ao ver pela janela da carruagem um rosto pálido, quase esquelético, emoldurado por escassos cabelos brancos, encarando-o sem piscar, com olhos pequenos e rosados como os de um rato branco. O menino sentiu um impulso instintivo de repulsa, como se, ao tentar pegar uma folha de alface no prato de comida, tivesse encontrado uma lesma. Queria mover-se, afastar-se, mas aquele olhar pálido e malévolo paralisara-o, de modo que ele se sentia incapaz de sair do lugar. Mas então o motorista grandalhão conseguiu recuperar o controle, levando o cavalo, a carruagem e seus ocupantes para longe dos meninos.
— Não tive a menor chance — Matty queixou-se, limpando a poeira das roupas. — Achei que aquele cara fosse vir para cima de mim com o chicote.
— Quem era o homem que estava dentro da carruagem? — perguntou Sherlock com voz trêmula.
Matty balançou a cabeça.
— Não consegui nem olhar para ele. Parecia rico? — questionou, esperançoso.
— Parecia alguém que estivesse morto havia três dias — Sherlock respondeu.

Um comentário:

  1. Primeira a comentar!
    Tão chato ser a primeira... Cadê o pessoal lendo?

    Por que o "cadáver" encontrou o olhar de Sherlok? Tô ansiosa...

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Boa leitura :)