17 de julho de 2017

Capítulo dezessete

SHERLOCK DEU UM PASSO para o lado. Surd virou-se para acompanhá-lo, e ouviu-se o som da ponta de metal do chicote arranhar o chão.
O rosto de Surd era uma máscara de polida indiferença, mas as cicatrizes que cobriam sua cabeça estavam vermelhas e inchadas, tamanha a fúria.
— O barão brigou com você? — Sherlock provocou. — Permitir que fugíssemos daquela maneira não deve ter sido bom para sua reputação. Aposto que o barão descarta criados inúteis com a mesma facilidade com que outros homens jogam fora um palito de fósforo usado.
O rosto de Surd permaneceu impassível, mas sua mão moveu-se e o chicote estalou. Sherlock virou a cabeça para o lado uma fração de segundo antes que a ponta de metal arrancasse sua orelha.
— Esse é um bom truque de circo, mas já vi outros muito melhores por aí — o menino continuou, tentando não deixar a voz tremer e traí-lo. — Talvez Maupertuis deva contratar um atirador de facas.
O chicote avançou mais uma vez, e o estalo da ponta perto da orelha esquerda de Sherlock ensurdeceu-o por um momento. Ele pensou ter desviado, mas um fio de sangue repentino e morno no pescoço e uma dor aguda e crescente na lateral da cabeça sugeriam que a ponta metálica entrara em contato com o alvo. Sherlock cambaleou para o lado, levando a mão à orelha. A dor não era tão forte, ainda não, mas ele queria mudar a posição em que estavam, e aquele ainda não era o local desejado.
— A cada provocação vou tirar uma fatia de carne de seu rosto — Surd avisou com tranquilidade. — Você vai acabar implorando para morrer, e eu só vou rir. Vou rir.
— Ria enquanto pode — respondeu Sherlock. — Talvez eu possa persuadir o barão a contratar-me para a sua vaga. Pelo menos já provei que sou mais competente que você.
— Vou mantê-lo vivo só até que a garota veja o que fiz com você — ele continuou, como se Sherlock não tivesse falado nada. — Ela não vai querer olhar para seu rosto. Vai gritar quando o vir. Como vai ser essa sensação, garoto? Como vai ser?
— Você fala demais — respondeu o menino, dando mais um passo para o lado.
Surd também se moveu.
As caixas de madeira que continham as bandejas de pólen estavam agora diretamente atrás de Sherlock. Ele levou a mão direita para trás e cerrou os dedos em torno da beirada de uma das bandejas. Ela estava fria por causa do gelo sobre o qual repousava.
— O que está fazendo, menino? — perguntou Surd. — Acha que tem alguma coisa aí que possa salvá-lo? Está enganado. Muito enganado.
— A única coisa que irá me salvar será meu cérebro — Sherlock falou, puxando a bandeja para a frente do corpo. O pólen desprendeu-se dela, um pó amarelado que o fez tossir.
Surd brandiu o chicote outra vez, mirando no olho direito de Sherlock, mas o menino segurou a bandeja como um escudo, e o chicote enroscou-se nela. A ponta metálica afundou na madeira e ficou presa. Sherlock puxou com força e arrancou o cabo da mão de Surd, um Surd surpreso, e jogou o chicote para o lado.
Surd rugiu como um touro e atacou, os braços muito abertos. Sherlock agarrou outra bandeja da caixa e quebrou-a na cabeça de Surd. O homem cambaleou para trás, envolvido numa nuvem sufocante de pó amarelo. Se sobrevivesse, teria ainda mais cicatrizes na cabeça.
Por outro lado, se Surd sobrevivesse, Sherlock com certeza estaria morto.
Ele adiantou-se e agarrou as orelhas do homem. Erguendo um joelho, puxou a cabeça de Surd para baixo, atingindo-o no rosto. Seu nariz quebrou com um estalo tão alto quanto o do chicote. Mais uma vez cambaleou para trás, e seu sangue descia pelo queixo e pela boca.
Antes que Surd pudesse atacar novamente, Sherlock pegou o chicote do chão e puxou a ponta de metal da bandeja de madeira, soltando a tira de couro. Quando o grandalhão careca, que urrava como um louco, ergueu-se na nuvem de pólen e correu na direção de Sherlock, o menino estalou o chicote. Jamais usara esse tipo de arma antes, mas observar Surd lhe ensinara como fazer. O chicote desenrolou-se na direção do bandido careca, e a ponta metálica atingiu-o no rosto. Surd foi jogado para trás com o impacto.
Bem em cima de uma das colmeias.
Ela caiu, e Surd caiu com ela, dentro dela. A madeira partiu-se ao atingir o chão, e o grandalhão foi coberto pela substância melada e pegajosa que havia dentro da colmeia.
E por abelhas. Milhares de abelhas.
Elas cobriram seu rosto como um gorro vivo, penetrando no nariz, na boca e nas orelhas, picando todos os lugares por onde passavam. O homem gritava; um som fino, um assobio que se tornava cada vez mais alto. Ele rolava, tentando esmagar as abelhas, mas conseguiu apenas derrubar outra colmeia.
Momentos depois era impossível ver o Sr. Surd sob o cobertor de insetos que picava cada centímetro de sua pele. Seus gritos eram abafados pelas abelhas que entravam em sua boca.
Sherlock recuou, horrorizado. Jamais vira nada parecido antes. Estivera lutando por sua vida, mas o que acontecia com o Sr. Surd era tão horrível, que ele se sentia nauseado. Matara um homem.
— Não posso deixá-lo sozinho nem por um minuto, não é? — Matty disse atrás dele.
— Acha que gosto de me meter em brigas? — Sherlock disse, consciente de que sua voz tremia, à beira da histeria. — Parece que elas me perseguem.
— Bem, parece que você consegue se virar com elas — Matty reconheceu.
— Eu sei o que fazer — Sherlock respondeu, esforçando-se para manter a voz controlada. Ele apontou as nuvens de pó amarelo que flutuavam pela caverna no interior do forte. — Há bandejas de pólen empilhadas naquelas caixas. Precisamos espalhar o pólen por todo esse espaço.
— Por quê? — perguntou Matty.
— Lembra aquela história que você me contou sobre a padaria em Farnham? — Sherlock indagou.
Os olhos de Matty foram iluminados por uma súbita compreensão.
— Entendi — ele disse. Em seguida, seu rosto ficou novamente sombrio. — Mas, e nós?
— Temos de pôr um fim nisso, e tem de ser agora. Somos menos importantes que as centenas, talvez milhares de pessoas que irão morrer, se não impedirmos.
— Mesmo assim... — Matty disse. De repente ele riu da expressão chocada de Sherlock. — Estou brincando. Vamos em frente.
Juntos eles agarraram tantas bandejas quantas foram capazes, retiraram o pólen amarelo e frio das caixas de gelo e correram pelos espaços entre as colmeias, de modo a deixar o pó se espalhar em nuvens atrás deles. Em dez minutos o ar estava cheio de partículas em suspensão, e os dois meninos não conseguiam enxergar mais que três metros diante do nariz. Era difícil respirar sem engasgar. Sherlock agarrou Matty pelo ombro.
— Vamos — disse.
Cegados pelas nuvens de pólen, tentaram encontrar o caminho para o corredor e a escada, atravessando densos aglomerados amarelos e tentando não derrubar nenhuma colmeia.
Um pé de Sherlock chutou algo macio, e ele quase caiu. Quando olhou para baixo, viu uma massa inchada e vermelha que ele quase não reconheceu como o rosto do Sr. Surd. Os olhos tinham desaparecido por entre as dobras de pele inchada, e a boca estava repleta de abelhas mortas.
Apesar de tudo, o menino sentiu um forte impulso de ajudar o homem moribundo, mas era tarde demais. Tomado de forte enjoo e sentindo um estranho frio interior, seguiu em frente.
Chegou a uma parede de pedra. Direita ou esquerda? Escolheu o lado esquerdo e guiou Matty, puxando-o pela camisa.
Pareceram horas, mas provavelmente não se havia passado mais de um minuto quando os meninos encontraram o corredor. Sherlock virou-se e olhou para trás: não havia nada além de uma nuvem de pó amarelo.
Ele estendeu a mão e pegou uma lamparina do gancho na parede de pedra. Com a lâmpada na mão, pensou nas abelhas, seres inocentes de tudo, menos do fato de serem o que eram.
Ele não tinha escolha.
Jogou a lamparina. Ela descreveu um arco no ar e desapareceu ao mergulhar na nuvem de pólen. Momentos depois os meninos ouviram o barulho do vidro que se quebrava no chão.
Seguido de um impressionante vuuump! quando o pólen pegou fogo.
Um punho invisível empurrou o peito de Sherlock. Ele foi jogado para trás no corredor. O próprio ar à sua frente parecia queimar, e ele sentiu as sobrancelhas e os cílios chamuscados. Caiu no chão com violência e rolou. Matty aterrissou em cima dele.
O corredor atrás dos dois abria-se para um inferno de chamas. Cobrindo a boca com a mão, Sherlock conduziu Matty escada acima, até o alto do forte. O ar passava com velocidade por eles, alimentando o fogo lá embaixo.
Guardas corriam de um lado para o outro, gritando em meio ao pânico coletivo que reinava no alto do forte. O céu estava escuro, e havia uma linha vermelha fina no horizonte, que mostrava onde o sol estivera. Ninguém prestou atenção aos dois meninos que passaram correndo, desceram a escada para o mar e saltaram para o barco a remo.

Enquanto se afastavam remando, Sherlock virou-se para olhar. Todo o forte ardia em chamas. Os capangas de Maupertuis, do alto, jogavam-se na água. Alguns estavam pegando fogo e caíam como estrelas cadentes cortando a escuridão até o mar.
Era uma imagem que Sherlock jamais esqueceria.
A jornada para a costa inglesa foi uma mistura de braços doloridos, pele ardendo e completa exaustão. Mais tarde Sherlock tentaria entender como ele e Matty tinham conseguido chegar sem naufragar, perder-se ou ser levados pela correnteza.
De alguma maneira, Amyus Crowe previra aonde eles iriam chegar. Talvez tivesse feito um cálculo baseado nas marés e na direção do vento; talvez tivesse apenas adivinhado. Sherlock não sabia e, francamente, nem se importava em saber. Só queria envolver-se em um cobertor e subir em uma cama confortável, e dessa vez tudo aconteceu exatamente como ele desejava.

Ele acordou na manhã seguinte e as gaivotas gritavam do lado de fora da janela do quarto e o sol refletia-se na superfície do mar, lançando desenhos de ondas em movimento no teto do quarto. Ele estava faminto. Empurrando as cobertas, Sherlock vestiu roupas que não lhe pertenciam, mas eram do tamanho certo e tinham sido deixadas para ele nas costas de uma cadeira. Depois desceu a escada que não se lembrava de ter subido e chegou ao salão de uma taverna que, obviamente, alugava quartos para viajantes. E para aventureiros.
Um terreno aberto estendia-se diante da taverna e terminava em uma encosta que descia até o mar. Sherlock teve de estreitar os olhos contra a forte claridade do sol. Matty Arnatt estava sentado à mesa do lado de fora e devorava um farto café da manhã. Amyus Crowe estava a seu lado, fumando um cachimbo, sentado.
— Dia — Crowe cumprimentou-o, animado. — Fome?
— Poderia comer um cavalo.
— Melhor não deixar Ginny ouvir esse comentário. — Crowe indicou uma cadeira vazia. — Sente-se. A comida logo ficará pronta.
Sherlock sentou-se. Os músculos doíam, os ouvidos ainda zuniam por causa da explosão e os olhos estavam secos e coçavam. De alguma forma, ele se sentia diferente. Mais velho. Vira pessoas morrerem, causara a morte de outras, fora drogado com láudano e torturado com um chicote. Como poderia voltar para a Escola Deepdene para Meninos agora?
— Tudo se resolveu? — ele perguntou depois de um tempo.
— Seu irmão recebeu a mensagem que enviamos e imediatamente entrou em ação. Acredito que neste momento um navio da Marinha esteja a caminho do forte napoleônico, mas, considerando o que você balbuciou ontem à noite, creio que não irão encontrar mais que um punhado de cinzas. E, mesmo que o Governo britânico consiga convencer as autoridades francesas a revistar o chateau de Maupertuis, acho que o encontrarão vazio: ele já terá escapado com os criados. Mas o plano do barão ruiu como um castelo de cartas soprado pelo vento, graças a você e ao Matthew aqui.
— Jamais teria dado certo — Sherlock comentou, lembrando o confronto entre ele, Virginia e o barão. — Não do jeito que ele queria.
— Talvez. Talvez não. Mas creio que algumas pessoas teriam morrido, e vocês as salvaram. Podem agradecer a si mesmos por isso. E seu irmão também irá agradecer-lhes, quando chegar.
— Mycroft está vindo para cá?
— Ele já está no trem.
Uma mulher com um avental saiu da taverna carregando um prato no qual parecia haver tudo o que uma pessoa poderia desejar para o café da manhã, mais várias outras coisas que Sherlock nem mesmo conseguiu identificar. Ela sorriu e deixou o prato sobre a mesa diante do menino.
— Mande para dentro — Crowe disse. — Você merece.
Sherlock parou por um momento. Tudo à sua volta parecia ao mesmo tempo muito destacado e ligeiramente distante.
— Está se sentindo bem? — perguntou Crowe.
— Não sei — o menino respondeu.
— Você passou por muitas coisas. Foi nocauteado, foi drogado com láudano, sem falar de várias brigas e de uma remada considerável. Tudo isso afeta seu organismo.
Láudano. Ao lembrar os sonhos estranhos que tivera sob o efeito da droga enquanto era levado para a França, Sherlock sentiu uma ponta de... O quê? Melancolia, talvez. Tristeza. Não poderia ser... saudade? O que quer que fosse esse sentimento, Sherlock afastou-o. Ouvira relatos sobre pessoas que se tornaram dependentes dos efeitos do láudano, e não queria seguir por esse caminho. De jeito nenhum.
— Como está Virginia? — ele perguntou, querendo mudar de assunto.
— Aborrecida por ter perdido toda a diversão. E sentindo falta de sua égua, é claro. Ela quer sair pela cidade, mas eu disse que não poderia ir sozinha. Acho que irá gostar de saber que você acordou.
Sherlock olhou para o mar.
— Não consigo acreditar que acabou — ele disse.
— Não acabou — Crowe respondeu. — Agora tudo isso faz parte da sua vida, e sua vida continua. Não pode separar esses eventos, como se fizessem parte de uma história, com um começo e um fim. Você é uma pessoa diferente por causa deles, e isso significa que a história nunca acabará de verdade. Mas, como seu tutor, minha pergunta é: o que você aprendeu com tudo isso?
Sherlock pensou por um minuto.
— Aprendi que as abelhas são criaturas fascinantes e terrivelmente negligenciadas — respondeu, enfim. — Acho que quero saber mais sobre esses bichinhos. Talvez, até tentar mudar a opinião das pessoas sobre eles. — Ele fez uma careta. — Acho que devo isso às abelhas, depois de ter matado tantas delas. — Sherlock olhou para Matty Arnatt. — E você, Matty? O que aprendeu?
Matty ergueu os olhos do prato.
— Aprendi que você precisa de alguém que tome conta de você, ou então suas ideias lógicas acabarão por matá-lo.
— Está se oferecendo para esse posto? — Amyus Crowe perguntou, e seus olhos estavam iluminados pelo bom humor.
— Sei não — respondeu Matty. — Qual é o pagamento?
Enquanto Amyus ria e Matty protestava dizendo que falava sério, Sherlock mirava o mar inalterável, atemporal, tentando imaginar o que aconteceria em sua vida dali em diante. Sentia-se como se tivesse entrado em uma via que nem mesmo sabia que existia. O que encontraria no final dessa estrada?
Alguma coisa moveu-se na periferia de sua visão, atraindo a atenção do menino. Ele olhou para um lado, além da taverna, para onde a estrada passava, estendendo-se em duas direções. Uma carruagem aproximava-se, um veículo preto puxado por dois cavalos negros. Por um momento, pensou que Mycroft tivesse chegado, e começou a levantar-se.
Mas, em seguida, acompanhada de um arrepio gelado, veio a visão de um rosto esquelético de olhos cor-de-rosa, que o fitava intensamente através da janela, antes de uma mão enluvada puxar a persiana e a carruagem seguir seu caminho. Soube, então, que estava certo: nada voltaria a ser como antes. O barão Maupertuis e a Câmara Paradol ainda estavam à solta, e eles nunca iriam descansar.
O que significava que ele também nunca descansaria.

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Boa leitura :)