25 de julho de 2017

Capítulo dezesseis

OS SONHOS DE SHERLOCK FORAM recheados de fogo caindo do céu e dos gritos estridentes de criaturas magérrimas e queimadas que corriam em meio ao caos. Ele acordou depois de poucas horas de sono, ainda cansado, mas incapaz de dormir mais.
O quarto era um dos três que o gerente do hotel ainda tinha vagos na noite anterior. Sherlock havia se perguntado se o trem vazio na estação significava um hotel lotado de passageiros, mas na verdade aquela era uma viagem especial, solicitada por Amyus Crowe e por um pequeno grupo de agentes da Pinkerton, responsáveis por monitorar a situação.
Deitado na cama ele pensava no que aconteceria em algumas horas. Os homens no exército de Balthassar não eram necessariamente maus – apenas tinham uma ideia diferente de como queriam que fosse seu governo. Invadir outro país era errado, sem dúvida, mas isso significava que mereciam ser dizimados como formigas?
Mycroft teria encontrado um jeito de impedir esse desfecho. Sherlock tinha certeza disso. Mycroft era uma engrenagem na máquina do governo britânico, é claro, mas tinha crenças, moral e convicções. As mesmas crenças, moral e convicções que haviam sido incutidas em Sherlock pelo pai, o major Siger Holmes, dos King’s Dragoons. Ambos eram filhos de Siger e haviam herdado seus valores da mesma maneira que herdaram seus olhos azuis.
Tinha que fazer alguma coisa. Mas o quê? O que podia fazer para deter o Batalhão de Engenheiros do Exército?
Talvez pudesse enviar um telegrama para o irmão na Inglaterra. Não sabia quanto isso custaria, mas ainda tinha algum dinheiro. Mycroft poderia entrar em contato com o embaixador americano, ou algo assim, e impedir o ataque.
Será que poderia? Será que aceitaria? E, sendo mais objetivo, será que Mycroft teria tempo para isso? Estava a milhares de quilômetros, e seus superiores no Ministério das Relações Exteriores deviam estar mais preocupados com uma possível invasão a um território britânico do que com as vidas de homens que nem conheciam.
Sherlock sabia que precisava sair, ver o exército de Balthassar e a frota de balões do Batalhão de Engenheiros. Talvez não pudesse fazer nada, mas, com certeza, não ajudaria ninguém ficando no hotel. Lá fora, em campo aberto, talvez tivesse uma ideia.
Mas como chegaria lá?
Podia alugar um cavalo na cidade, pensou. Então, cavalgaria até o local de onde os balões decolariam. Vira a localização no mapa que Amyus Crowe estivera consultando algumas horas antes. Não memorizara a informação de forma consciente, mas, como tantas outras coisas que havia lido, os dados simplesmente se alojaram em sua memória.
Devia levar Virginia e Matty? A presença deles seria um conforto, mas sentia que essa batalha era sua. Os outros importavam-se menos com isso, e não tinha o direito de envolvê-los.
Levantou-se e vestiu as roupas novas que Amyus Crowe havia conseguido encontrar em algum lugar da cidade. Ainda não haviam sido usadas e davam coceira, mas pensar em vestir as mesmas roupas que usara nos últimos dois dias enchia-o de terror.
Crowe estava na sala de jantar, conversando com outros dois homens de terno, que portaram armas em coldres pendurados na cintura. Sherlock deduziu que eram agentes da Pinkerton. Quando eles se distraíram, Sherlock escapou pelo corredor e saiu do hotel.
As calçadas estavam lotadas de gente indo e vindo ou de pessoas que simplesmente paravam para conversar. Sherlock seguiu o fluxo até ver um galpão que parecia um estábulo. Ele entrou.
— Posso ajudar, filho? — perguntou uma voz.
Sherlock olhou em volta e viu um homem idoso saindo das sombras. Ele era careca, exceto por uma coroa de cabelos brancos na parte de trás da cabeça, e tinha um espesso bigode branco.
— Preciso de um cavalo. Só por hoje — respondeu Sherlock.
— Ah, que conveniente — respondeu o homem. — Tenho um animal aqui que não se exercita há algum tempo. Parece que foram feitos um para o outro.
— Quanto custa?
— Vamos combinar um depósito de dez dólares e devolverei nove quando você voltar.
Sherlock entregou o dinheiro e o homem o levou até uma das baias, ocupada por uma égua marrom e impaciente. Ela o olhou intrigada enquanto o dono do estábulo colocava a sela.
Sherlock deu uma olhada pelo estábulo. Além dos objetos esperados, como selas, rédeas e estribos, penduradas em ganchos havia também outras coisas que ele não reconhecia. Pareciam ser armas – arcos, flechas, machados – mas eram enfeitados com penas e tiras de couro.
— São lembranças das brigas que tivemos com os nativos ao longo dos anos — o homem explicou, notando a direção de seu olhar. — Os pamunkey e os mattaponi nos deram muito trabalho quando estávamos construindo esta cidade. Eles colecionavam nossos escalpos; meu avô e meu pai começaram a colecionar machadinhaslanças, facas e arcos.
Sherlock pensou no que pretendia fazer. Estava indo ao encontro de um exército hostil, uma força agressiva e um ambiente selvagem dominado por coiotes. Não queria levar uma pistola, e tinha certeza absoluta de que ninguém daria uma a ele, mas ter algum tipo de arma seria uma boa ideia.
— Por mais um dólar poderia me emprestar um arco, algumas flechas e uma faca?
— Não — o homem respondeu. Depois inclinou a cabeça para um lado. — Mas cinco dólares me fariam mudar de ideia.
Dez minutos depois, Sherlock saía do estábulo com uma faca na cintura, uma aljava de flechas nas costas e um arco preso à sela da égua. Pensou ter visto Matty e Virginia na frente do hotel ao passar pela rua, mas foi tudo tão rápido que não podia ter certeza, e não podia parar.
Lembrando-se do mapa de Amyus Crowe, Sherlock partiu pelos campos mantendo um ângulo determinado em relação à linha do trem. A paisagem em que penetrava tinha mais elevações do que a planície sobre a qual os trilhos haviam sido construídos. Ele seguia a meio galope pelas colinas que apareciam, subindo e descendo uma série de morros baixos.
Depois de uma hora de cavalgada por um cenário de arbustos e pequenos aglomerados de árvores atravessou um rio raso e largo que descia de uma colina como uma fita azul brilhante. Enquanto os cascos da égua venciam a resistência da água e deslocavam os pedriscos no leito do rio, ele ia pensando se em algum ponto a correnteza conseguira penetrar na rocha frágil para formar o abismo que ele, Matty e Virginia haviam cruzado na noite anterior. O solo na América era muito diferente daquele com que estava habituado na Inglaterra: era mais jovem e primitivo.
Sherlock tivera a presença de espírito de pegar um cantil no estábulo antes de partir e parou por um instante para enchê-lo e deixar a égua beber água também.
A julgar pela posição do sol, devia ser meio da tarde, e considerando o mapa que havia gravado na memória aproximava-se do local onde o Batalhão de Engenheiros do Exército montava seu acampamento. Tinha certeza de que eles posicionariam sentinelas ao redor da área, e Sherlock não queria esbarrar em nenhuma delas. Esses soldados provavelmente atirariam primeiro e fariam perguntas depois.
Em vez de continuar contornando o sopé das colinas, Sherlock puxou as rédeas da égua e começou a subir pela encosta. Se não tivesse se enganado e se sua localização era a que imaginava, teria uma boa visão do acampamento quando chegasse ao pico.
Sherlock levou mais umas duas horas subindo encostas e trilhas rochosas até chegar ao fim de uma subida mais íngreme, onde podia ver a área que procurava lá embaixo.
Deixando a égua escondida, engatinhou até a beirada do patamar rochoso, protegido por uma grande pedra, até conseguir ver toda a área lá embaixo.
O sol já estava quase no horizonte e o cenário era iluminado por seus raios vermelhos e por várias fogueiras espalhadas pela área. Sob essa luminosidade mista ele conseguia ver o acampamento dos soldados lá embaixo: várias tendas agrupadas no centro de um descampado. Devia haver uns cem homens andando de um lado para o outro, cheios de determinação e propósito. De um lado do acampamento os cavalos haviam sido cercados em um curral improvisado; do outro estavam os balões.
A imagem fez Sherlock perder o fôlego. Devia haver dez ou doze balões em uma área do tamanho de um campo de rúgbi. Alguns eram versões gigantescas e murchas de águas-vivas, criaturas que ele lembrava ter visto em passeios à praia que fizera quando era mais novo, e outros, já inflados, eram esferas brilhantes que refletiam a luz do sol ao entardecer. Cordas e tiras do mesmo material – seda encerada, lembrou-se do que ouvira durante a conversa com Graf von Zeppelin a bordo do SS Scotia – prendiam essas esferas aos cestos, e os balões eram inflados por canos vindos de cintilantes tanques de cobre que ocupavam várias carroças. Os tanques produziam hidrogênio, Sherlock lembrou, a partir de uma combinação de ácido sulfúrico e limalha de ferro.
Pensando em Graf von Zeppelin, Sherlock examinou o acampamento, tentando localizar sua silhueta ereta e germânica. Ele atravessara o oceano, para a América, para discutir aplicações militares dos balões. Estranho seria se não estivesse ali.
As pessoas movendo-se lá embaixo eram muito pequeninas para que Sherlock pudesse enxergar seus rostos, mas pensou ter visto um homem barbado em um uniforme diferente daquele envergado pelos outros que trabalhavam perto dos balões. Ele assistia a tudo fascinado enquanto os balões eram inflados.
As fogueiras eram mantidas bem longe dos balões, Sherlock notou. E era uma boa ideia, porque o hidrogênio é altamente inflamável, como ele havia aprendido na escola. Por outro lado, centenas de esferas de metal, que pareciam balas de canhão mas deviam ser explosivos, estavam empilhadas perto dos balões. E em uma ou duas horas, se o vento ainda soprasse na direção certa, os balões seriam soltos, levando um soldado cada, e sobrevoariam silenciosamente a paisagem desolada rumo ao acampamento do exército de Duke Balthassar. E, então, haveria morte e destruição em uma escala que o deixava enojado.
Precisava impedir essa catástrofe. Tinha que impedi-la. Já havia visto muitas mortes em sua vida. Se pudesse impedir que outras pessoas morressem, impediria.
Hidrogênio. Inflamável. A resposta estava ali, mas como poderia agir? Se tentasse descer e atear fogo aos balões, seria capturado e executado como espião confederado. Havia guardas em torno dos balões.
Mas não havia ninguém em volta das fogueiras do outro lado do acampamento, e de onde estava podia ver que muitas tendas tinham lamparinas a óleo na entrada, penduradas em hastes fincadas no chão de terra.
Trabalhando depressa, sua mente começou a estabelecer conexões entre coisas que antes ele havia percebido separadamente. A solução estava ali, bem à sua frente. Ele tinha algumas das coisas de que necessitava, e o restante estava lá embaixo, no acampamento.
E quanto mais cedo começasse, mais depressa terminaria.
Verificou se as rédeas da égua estavam bem presas sob uma pedra e começou a descer lentamente para a planície. Restava apenas um pequeno pedaço do sol no horizonte, e as sombras projetadas pelas pedras eram longas e escuras. Podia usá-las como cobertura, atravessando campo aberto apenas quando necessário.
Quando Sherlock chegou à planície, o sol havia desaparecido e o céu estava vermelho-arroxeado. A maioria dos balões já estava inflada, e havia ainda mais atividade ali perto.
Afastou-se daquela área, indo na direção das fogueiras. A maior parte do Batalhão de Engenheiros concentrava-se no local onde estavam os balões, do outro lado do cordão de isolamento formado pelos guardas, observando a operação e esperando a hora da decolagem. Sherlock esgueirou-se por entre as tendas até chegar ao perímetro onde estavam as fogueiras. Havia carne assando, guisados fervendo, e ninguém olhava em sua direção. Ele olhou em volta, ergueu os ombros, limpou a poeira das roupas e aproximou-se de uma tenda vazia, retirando a lamparina do gancho em que estava pendurada. Então, por via das dúvidas, pegou outra lamparina também. Não mexeu na da tenda vizinha, porque isso acabaria chamando a atenção, mas pegou a de uma barraca mais afastada. Ninguém tentou detê-lo, ninguém perguntou o que estava fazendo. Seu coração batia duas vezes mais depressa que o normal, mas ele mantinha o rosto impassível, e quando se virou para voltar, andou devagar, mantendo as lamparinas alinhadas, mas cobertas pelo paletó para que ninguém visse as luzes em movimento.
Uma vez protegido pela segurança das tendas, passou a andar mais depressa, retornando à base das colinas. Enquanto andava, olhava para os balões. Agora todos estavam completamente inflados, e aeronautas do exército estudavam mapas e cuidavam dos últimos preparativos.
Ele subiu a encosta o mais depressa que pôde, lembrando que carregava óleo quente e fogo e que, se caísse, poderia atear fogo a si mesmo. Agora o vento ganhava velocidade. Sem o calor do sol e sem o paletó, ele sentia frio.
A égua relinchou baixinho quando o viu se aproximando. Sherlock pôs as lamparinas no chão, depois foi pegar o arco e a bolsa de flechas que deixara junto ao animal.
Precisaria de alguma coisa para manter a chama acesa enquanto a flecha atravessava o ar.
Uma bucha. Precisava de algum tipo de bucha.
Olhando em volta, lamentou não ter pego algo enquanto estava no acampamento – a jaqueta de algum uniforme, por exemplo. Mas ali, no alto da colina, a única coisa que tinha eram as próprias roupas. Começou a rasgar tiras do paletó, amarrando-as nas pontas das flechas. Afinal, não era como se ele quisesse que elas ficassem presas em alguém, mesmo.
Quando tinha dez flechas com tiras de tecido nas pontas, ele foi buscar as lamparinas. Depois de pensar por um instante, apagou a chama de uma delas e abriu o recipiente de combustível para mergulhar as pontas embrulhadas em tecido no óleo, uma a uma.
Uma lamparina acesa devia ser o suficiente. Abriu-a para expor a chama, que tremulou ao vento.
Pegou o arco e levantou-se. Agora estava bem escuro para ter certeza de que não seria visto, e a chama na lamparina restante estava protegida por uma pedra.
Sherlock distendeu o arco, experimentando a tensão. O princípio era óbvio. Uma fenda na parte de trás da flecha deveria ser encaixada na corda, que ele puxaria com os dedos da mão direita até o máximo da extensão, enquanto segurava o arco com a mão esquerda. Depois, tinha que fazer a pontaria – para o alto, porque a flecha seguiria uma trajetória balística – e então soltar a corda.
Hora de tentar. Hora de entrar em ação.
Aproximou a ponta da flecha da chama da lamparina. O tecido embebido em óleo pegou fogo imediatamente. Sherlock levantou a flecha, encaixou a parte de trás na corda e a distendeu, puxando a corda com a mão direita enquanto mantinha a esquerda à frente, segurando o arco. Fez a pontaria para o balão que parecia estar cercado por menos gente, mas para o alto, de forma que a flecha atingisse a parte de cima do balão.
A corda machucava os dedos de sua mão direita. Podia sentir o arco tremendo com a tensão. O tecido brilhando criava um ponto de luz tão forte que quase obscurecia todo o resto.
Estava agindo corretamente?
Era tarde demais para esse tipo de dúvida.
Sherlock soltou a corda. A flecha descreveu um arco elevado no ar, chegando ao pico da curva e criando a impressão de parar ali por uma fração de segundo antes de cair como um pequeno meteoro exatamente sobre um dos balões.
Nada aconteceu por alguns instantes; tempo suficiente para fazer Sherlock se perguntar se o material inflamável se apagara em algum ponto da trajetória ou se a flecha não conseguira penetrar a seda encerada ou se o gás no balão não era hidrogênio, e sim alguma substância não inflamável. Mas o material em torno do topo do balão começou a se soltar como pétalas de uma flor, e a visão de Sherlock foi ofuscada por uma bola de fogo que saltou do balão para o céu.
Um grito horroroso ecoou no acampamento. Pessoas corriam em todas as direções, jogando baldes d’água para tentar apagar o fogo que caía em uma chuva de material incandescente. Mas o inferno buscava o céu, em vez ir para o chão. Afinal, o hidrogênio é mais leve que o ar.
Sherlock pegou outra flecha e acendeu-a, mirando outro balão rapidamente. A trajetória da flecha deixou uma linha cintilante na noite escura, subindo ao céu e depois caindo sobre o segundo balão.
Desta vez não conseguiu ver o material do balão se soltando, mas a bola de fogo resultante foi tão impressionante quanto a primeira.
Enquanto o caos dominava o acampamento, Sherlock ia disparando flecha após flecha em direção aos balões ainda intactos. Quando a munição acabou, o ar estava denso devido à fumaça e o chão coberto de restos de seda incandescente. E ninguém estava ferido! Era difícil de acreditar, mas não conseguiu ver nenhuma pessoa que tivesse ficado ferida. Estavam todos desesperados e assustados, sim, mas não machucados. O hidrogênio incandescente subira, e os fragmentos em chamas que caíam dos balões eram facilmente evitados.
Sherlock respirou fundo. Naquela noite não haveria nenhum balão no céu, e precisariam de dias, talvez semanas, para levar mais balões à área. E quando isso acontecesse, o exército de Balthassar já teria se dispersado ou marchado para o Canadá e sido interceptado pelo exército unionista. Ele conseguira.
Parte dele queria poder fazer alguma coisa em relação aos explosivos que vira no acampamento. As esferas não haviam sido detonadas. Preocupara-se com a possibilidade de algum fragmento incandescente atingi-las, o que teria causado uma terrível destruição, mas ou não era tão fácil incendiá-las ou estavam longe o suficiente do fogo para não serem atingidas. Talvez pudesse descer e fazer alguma coisa com todas aquelas bombas. Remover os pavios, talvez? Mas de que adiantaria? Agora que não havia como transportar e lançar os explosivos sobre o território inimigo, eles eram inúteis.
Um grito soou lá embaixo. Sherlock olhou para o acampamento. Um homem apontava em sua direção. A explosão do hidrogênio revelara sua presença.
Mais gente olhava para cima. Algumas pessoas começaram a correr para a encosta, e muitas portavam armas.
Ah! Ele estava segurando o arco.
Hora de ir embora.
Sherlock virou-se e correu para a égua. O animal estava nervoso e arisco – as rédeas ficaram esticadas quando tentara fugir – mas ainda não estava em pânico. Rapidamente, ele soltou a ponta da rédea e montou no animal.
Com um pouco de sorte conseguiria voltar à cidade e fingir que nunca saíra de lá. Ninguém precisava saber o que havia feito.
Ele virou a montaria e partiu.
Descer a encosta foi mais fácil do que subir. A égua parecia mais firme, mais confiante e estava satisfeita por poder sair de perto da fumaça e do fogo.
O animal conseguia enxergar o caminho com a luz da lua e das estrelas, agora que o sol se pusera, e Sherlock deixou-o escolher a trilha a seguir. Assim que chegassem à planície, ele decidiria o trajeto que faria para voltar à cidade.
O balanço da égua pelas encostas pedregosas foi deixando Sherlock sonolento. A tensão desaparecia, deixando-o vazio e melancólico. Não estava ansioso pelo longo caminho de volta a Perseverance.
Dúvidas começaram a surgir durante a cavalgada. E se o exército unionista não tivesse conseguido interceptar a invasão confederada, e ele tivesse facilitado a conquista?
Não, Amyus Crowe tinha dito que as forças unionistas já se preparavam para deter os confederados caso eles avançassem, mas o secretário de Guerra decidira ele mesmo que os confederados precisavam ser dizimados. A menos que algo desse muito errado, a atitude de Sherlock só salvara vidas. Não provocaria um incidente diplomático.
Em algum lugar na escuridão um animal gritou. O barulho assustou-o. Era muito parecido com o grito de uma pessoa, nada como o uivo de um coiote. Parecia mais um grande felino.
A égua tentava encontrar pontos de apoio no fundo de uma vala criada por degraus na encosta. Sherlock pensou que agora estavam perto da base da colina, quase a ponto de atravessar a planície até a cidade. As laterais da vala não passavam de sombras negras, e apenas as estrelas no céu mostravam onde as beiradas escarpadas recortavam o firmamento escuro.
Uma das beiradas moveu-se.
Sherlock despertou sobressaltado. Parte do que havia pensado ser o topo da vala movera-se bruscamente para o lado e depois recuara.
Havia alguma coisa lá em cima. Algo o perseguia.
Nervoso e amedrontado, Sherlock olhou em volta. Nada. Só a escuridão, revelada apenas pela luz que chegava, fraca, das estrelas.
Uma pedrinha rolou pela encosta, quicando no fundo da vala.
Agora era a égua de Sherlock que olhava em volta. Ela também sentia que havia algo ali. Suas orelhas estavam eretas, e Sherlock podia sentir os músculos tensos sob suas pernas.
A vala começou a se alargar diante deles, abrindo-se para uma rocha plana com uma queda acentuada e brusca do outro lado, dando para a planície. A luz da lua, ainda baixa no céu, iluminava um dos lados da colina como um farol. Sherlock reconheceu o local: apesar de parecer uma queda brusca, havia uma trilha lateral que descia suavemente até a planície. Ele e a égua haviam subido por ali na vinda.
Outra pedrinha caiu, ricocheteando na parede de rocha. A montaria de Sherlock saltou para o lado e acelerou o passo. A égua queria chegar à planície tanto quanto Sherlock.
Alguma coisa gritou no alto e saltou sobre eles da escuridão.

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