17 de julho de 2017

Capítulo dezesseis

— AGRADEÇA AOS CÉUS A EXISTÊNCIA do barão Maupertuis — Sherlock disse em um sussurro sincero ao fechar a porta da sala de jantar atrás dos dois. Não havia fechadura, então ele usou o peso do corpo para empurrar o armário de teca que ficava ao lado da porta. As pernas do móvel rangeram com o deslocamento pelo piso de ladrilhos.
— Por quê? — Virginia perguntou com irritação, somando seu peso ao do amigo. O móvel foi empurrado para a frente da porta, de modo a impedir que fosse aberta. — O que ele fez por nós?
Os criados do barão Maupertuis deviam ter chegado à porta da sala, alcançando-a pelo lado de fora, porque ela se abriu um pouco e bateu contra o móvel. Os homens sacudiram-na algumas vezes, mas o móvel não se deslocou.
— Ele gosta de que todos os lugares nos quais mora sejam iguais. Por isso, sei onde fica o estábulo. Venha! — Ele indicou o caminho para a parte de trás da casa, até uma porta que levava ao exterior, e quando se certificou de que não havia nenhum criado de Maupertuis à vista, Sherlock e Virginia contornaram o chateau rapidamente e encontraram o estábulo. A julgar pela posição do sol, era o meio da manhã. Eles foram mantidos dopados por pelo menos uma noite, talvez mais.
Sempre prática, Virginia imediatamente começou a selar dois cavalos.
— O que iremos fazer, Sherlock? Estamos em outro país! Nem falamos o idioma local!
— Na verdade — ele corou —, eu sei.
— Você sabe o quê?
— Falar o idioma local. Um pouco, ao menos.
Ela virou-se e olhou para Sherlock de um jeito esquisito.
— Como assim?
— A família de minha mãe é de origem francesa. Ela fazia questão de que aprendêssemos a língua. Dizia que era nossa herança familiar.
Virginia estendeu a mão para tocá-lo no braço.
— Você nunca fala sobre sua mãe — disse. — Fala sobre seu pai e seu irmão, mas nunca sobre ela.
— Não — ele confirmou, sentindo um nó na garganta. Virou-se para que ela não pudesse encará-lo. — Não falo.
Virginia terminou de ajustar os arreios nos cavalos.
— Então, uma vez que você fala o idioma local, para onde vamos? Pedimos ajuda a alguém?
— Vamos para um porto — Sherlock disse. — Maupertuis deu ordens para que as abelhas fossem soltas. Se não conseguirmos impedir que isso aconteça, elas matarão pessoas. Talvez não tantas quantas Maupertuis espera, mas alguns soldados britânicos certamente morrerão. Temos de impedir que elas sejam libertadas.
— Mas...
— Uma coisa de cada vez — ele disse. — Vamos para o litoral. De lá, poderemos enviar um telegrama a meu irmão, ou algo assim. Qualquer coisa.
Virginia assentiu.
— Montando, então, mestre espadachim.
Ele sorriu.
— Você também foi bastante magnífica lá dentro.
A jovem sorriu.
— Fui mesmo, não fui?
Eles montaram e cavalgaram para longe do chateau no mesmo instante em que gritos começaram a soar e um sino estridente deu o alarme. Sherlock sabia que em pouco tempo estariam longe demais para ser capturados.
Pararam no primeiro vilarejo para perguntar onde estavam. Ambos estavam famintos, mas não tinham dinheiro francês, então só podiam limitar-se a olhar com desejo para as salsichas expostas nas vitrines dos armazéns e para as baguetes, longas como o braço de Sherlock, empilhadas em bandejas. Um fazendeiro disse a Sherlock que eles estavam a alguns quilômetros de Cherbourg. O homem apontou a estrada que eles deveriam tomar, e a dupla seguiu viagem.
Em certo momento Virginia olhou para Sherlock com um ar crítico.
— Nada mau — disse. — Você cavalga como se estivesse sobre uma bicicleta, não uma criatura viva, mas ainda assim... nada mau.
Eles pararam novamente, meia hora depois, junto a um pomar de pereiras. Então, encheram seus bolsos com as frutas e comeram-nas, com o suco a escorrer pelo queixo, enquanto retomavam a cavalgada. A paisagem passava depressa, familiar e, ao mesmo tempo, diferente de tudo o que Sherlock conhecia na Inglaterra. Sua cabeça latejava como as batidas dos cascos de seu cavalo. Ele precisava decidir o que fariam quando chegassem a Cherbourg.
Quando chegaram, ele ainda não tinha nenhuma ideia.
A cidade fora construída na encosta de uma colina que descia até as brilhantes águas azuis de um porto. Os cascos dos cavalos batiam ruidosamente contra as pedras do calçamento, e eles foram forçados a reduzir a velocidade para passos lentos, de modo que pudessem atravessar a multidão aglomerada entre as barracas e as lojas nas sinuosas ruas. Era uma cena que poderia ser vista em qualquer local da costa sul da Inglaterra, exceto pelas roupas e, também, pela preponderância de queijos nas barracas.
Ele e Virginia desmontaram e, relutantes, deixaram os cavalos presos a uma cerca. Alguém cuidaria deles. Sherlock testou seu conhecimento do idioma local perguntando se havia algum posto do telégrafo na região, e ficou arrasado ao ser informado de que o mais próximo ficava em Paris. Como mandariam notícias para Mycroft?
Tinham de achar um navio e voltar à Inglaterra. Essa era sua única esperança.
Encontraram o escritório do capitão dos portos e pediram informações sobre navios ou barcos que iriam para a Inglaterra. O homem disse que havia muitos. Atencioso, recitou todos os nomes. Quatro eram barcos locais que faziam comércio entre países, transportando produtos como queijos, carne, cebolas. Ele poderia recomendá-los aos capitães.
O quinto barco era um pesqueiro inglês que ancorara inesperadamente naquela manhã.
Chama-se Sra. Eglantine.
Ouvir aquele nome foi como ser atingido no rosto por um balde de água fria. Por um momento assombroso Sherlock teve certeza de que a Sra. Eglantine – a governanta da casa de seus tios – era a idealizadora de tudo aquilo, mas em seguida o bom-senso prevaleceu: alguém usava o nome como uma bandeira, para atrair a atenção de Sherlock. E conseguiu.
Sra. Eglantine era um barco pequeno, e estava atracado em um píer na extremidade do porto. Redes de pesca envolviam-no como teias de aranha. Amyus Crowe e Matty Arnatt aguardavam os dois ao lado da prancha de embarque.
Virginia correu para os braços do pai. Ele levantou a filha do chão, abraçando-a com força. Sherlock bateu nas costas de Matty.
— Como souberam onde nos encontrar? — perguntou. — Como souberam até mesmo em que país procurar?
— Você precisa lembrar que sou rastreador por ofício — explicou Crowe. — Quando você não voltou ao hotel e percebemos que Ginny tinha desaparecido, tentamos refazer seus passos. Ouvi comentários sobre o fogo no túnel Rotherhithe e fiz algumas perguntas até descobrir que um menino parecido com você fora visto correndo para fora de lá. Enquanto isso, nosso Matty aqui foi atrás do barco que levou Ginny para as docas. Quando chegamos lá, o navio de Maupertuis tinha zarpado, mas encontramos um supervisor que se lembrava de tê-los visto sendo levados a bordo. Arrastados, ele disse. O navio içara velas imediatamente, mas ele recordou que ouvira os marujos comentarem como era breve a viagem pelo canal da Mancha até Cherbourg. Então, alugamos um barco de pesca e viemos procurar por vocês. Chegamos pouco tempo depois do navio de Maupertuis. Ou eles vieram devagar, ou pararam em algum lugar pelo caminho. Não sei o que foi. — Sua voz era consistente e sensata como sempre, e as palavras nada revelaram sobre seu estado mental, mas Sherlock tinha a impressão de que ele parecia mais velho, mais cansado. Crowe mantinha um braço sobre os ombros da filha, puxando-a para perto. Ela não parecia querer afastar-se. — Descobri que o barão tem uma casa perto daqui, e já me preparava para contratar alguns homens da região e formar um grupo quando os vi chegar. Uma conveniente confluência de caminhos, eu diria.
— Faz sentido — disse Sherlock. — Procurávamos o porto mais próximo do chateau de Maupertuis. O navio dele atracaria ali, obviamente, e o senhor seguia esse mesmo navio. Sendo assim, todos acabaríamos nos encontrando em Cherbourg em algum momento. — Ele sorriu. — A única coisa incrível é que o senhor conseguiu um barco com o nome da governanta da casa de meus tios. Quais são as chances reais de algo assim acontecer?
— O nome do barco era Rosie Lee — Crowe respondeu, sorrindo. — Mas eu imaginei que um nome mais conhecido pudesse atrair seu interesse, se você estivesse na área tentando voltar à Inglaterra. Eu ia batizá-lo de Mycroft Holmes, mas o capitão informou-me de forma incisiva que todos os barcos recebem nomes de mulher.
— Você esperava que escapássemos do barão?
Crowe assentiu.
— Eu teria ficado decepcionado se vocês não conseguissem. Você é meu discípulo e Ginny tem meu sangue. Que tipo de professor eu seria se vocês dois ficassem parados e deixassem que os fizessem prisioneiros?
O tom era brincalhão, e seu rosto exibia um sorriso, mas Sherlock sentiu que havia em Crowe certa tensão, talvez até medo, que começara a dissipar-se com o surgimento dos dois. Ele estendeu uma grande mão e segurou Sherlock pelo ombro.
— Você a protegeu — disse em voz mais baixa. — Eu lhe agradeço.
— Sei que tudo o que o senhor fez para chegar aqui foi lógico — Sherlock respondeu em um tom igualmente baixo — e deu certo, mas e se não tivesse dado? E se não conseguíssemos fugir, ou se tivéssemos seguido em direção diferente, ou se estivéssemos em extremos diferentes do porto, se embarcássemos em outro navio? O que aconteceria?
— Então tudo teria sido diferente — disse Crowe. — Estamos onde estamos porque as coisas aconteceram como aconteceram. A lógica pode reduzir consideravelmente nossa margem de erro, mas existe sempre o acaso a ser considerado. Desta vez tivemos sorte. Da próxima... quem sabe?
— Não espero que haja uma “próxima vez” — disse Sherlock. — E ainda temos de interromper os planos do barão.
— Quais são eles? — Crowe perguntou intrigado. — Consegui sacar algumas coisas, mas não tudo.
Sherlock e Virginia contaram rapidamente sobre as abelhas, os uniformes impregnados e o plano para matar parte considerável do Exército britânico alojada em acampamentos na Inglaterra. Crowe também duvidou da eficiência do plano, como Sherlock, mas sabia que haveria algumas mortes, e que até uma única morte já seria demais. As abelhas tinham de ser contidas.
— Mas como as abelhas vão conseguir achar o caminho através do mar para a ilha, e depois localizar os alojamentos? — Crowe perguntou.
— Estive lendo sobre elas na biblioteca de meu tio — respondeu Sherlock. — As abelhas são criaturas incríveis. Elas conseguem distinguir centenas de cheiros diferentes, em concentrações muito, muito menores que as que seriam necessárias ao homem, e podem viajar quilômetros à procura da origem desses cheiros. Eu não me surpreenderia se isso fosse possível. — Ele fez uma pausa, recordando. — O barão falou sobre um forte. Ele disse a seu braço direito, o Sr. Surd, que as abelhas teriam de ser soltas de um forte. Sabe se existe alguma fortificação ao longo da costa, ou no litoral da Inglaterra, que ele possa utilizar?
— Não é esse tipo de forte — Matty Arnatt interrompeu.
— Como assim? O que quer dizer?
— Tem fortes construídos no canal da Mancha, perto de Southampton, Portsmouth e em Wight, como ilhas — ele explicou. — Foram edificados ali por precaução, caso Napoleão decidisse invadir a Inglaterra. Agora a maioria está deserta, porque a invasão nunca aconteceu.
— Como sabe disso? — estranhou Virginia.
Matty franziu a testa.
— Meu pai esteve alojado num desses fortes quando era da Marinha. Ele me contou tudo sobre eles.
— E o que o faz pensar que Maupertuis pode estar usando um deles? — Sherlock questionou.
— Você falou do ódio que ele tem pelos ingleses por causa do que aconteceu com ele. Faz sentido ele usar contra nós os fortes que construímos para nos defendermos dos franceses, né?
Crowe assentiu.
— O garoto tem razão. E, embora o navio dele tenha zarpado de Londres muito antes de Matty e eu conseguirmos uma embarcação, eles só chegaram a Cherbourg pouco antes de nós. Devem ter parado em um desses fortes para deixar as colmeias.
— Mas tem um monte — Matty comentou. — Não dá para procurarmos em todos.
— Ele não iria querer que as abelhas tivessem de voar muito — Sherlock comentou. — Procuramos pelo forte mais próximo da costa. E ele iria preferir deixá-las perto de uma base militar de tamanho considerável. Precisamos de um mapa da Inglaterra e da costa, e temos de traçar retas que liguem os fortes às bases do Exército britânico. Precisamos saber qual é a linha mais curta. — Ele encarou os olhares espantados de Amyus Crowe e Virginia. — É só geometria — acrescentou.
— E o que vamos fazer quando acharmos o forte certo? — perguntou Matty.
— Podemos voltar ao litoral britânico e enviar uma mensagem para Mycroft Holmes — sugeriu Crowe. — Ele poderia enviar um navio da Marinha Real ao forte.
— Demoraria demais — disse Sherlock, balançando a cabeça. — Nós mesmos precisamos ir até lá. Agora.

No final, eles fizeram as duas coisas. O Sra. Eglantine, em breve novamente Rosie Lee, zarpou de Cherbourg enquanto Crowe e Sherlock traçavam linhas nos mapas para identificar o forte mais provável. Quando chegavam ao local, muitas horas depois, o sol se aproximava do horizonte e a costa da Inglaterra era uma linha escura à distância.
— Este barco pesqueiro logo será visto — Crowe preveniu-os. — Mesmo com as velas arriadas, o mastro será visto, isso se presumirmos que eles estejam montando guarda, o que eu faria se estivesse no lugar deles.
— Há um barco a remo preso à lateral — Sherlock disse. — Vi quando embarcamos. Matty e eu podemos remar até o forte. Vocês seguem para a Inglaterra e dão o alerta.
— Que tal eu remar até o forte, e você, Ginny e Matthew seguirem para a Inglaterra?
— Nenhum de nós sabe velejar — comentou Sherlock. Seu coração batia acelerado no peito, diante do que acabara de se propor a fazer, mas não conseguia pensar em nenhuma alternativa. — Além do mais, o Almirantado e o Gabinete da Guerra darão mais atenção ao relato de um adulto.
— É lógico — Crowe concordou relutante.
— Quando atracarem, se estiverem perto dos portos de Portsmouth e Chatham, de Deal, Sheerness, Great Yarmouth ou Plymouth, há estações de semáforos nesses locais. Se entregar em uma delas uma mensagem, elas podem fazê-la correr o país através de uma cadeia de semáforos, até chegar ao Almirantado. É mais rápido que um telegrama, provavelmente.
Crowe assentiu, sorriu e estendeu a mão grande e calejada para apertar a de Sherlock.
— Voltaremos a nos encontrar — disse.
— Estou contando com isso — respondeu o menino.
Sherlock e Matty desceram ao bote e remaram com força, indo rapidamente para a praia em que ficava o forte. Um barco a remo podia aproximar-se sem ser visto, mas um pesqueiro, por mais que parecesse inofensivo, seria notado. Conforme tinham combinado, Crowe e Virginia seguiram viagem para a costa inglesa, de onde poderiam enviar uma mensagem de alerta ao Governo.
Virginia mantinha-se em pé junto à balaustrada do Sra. Eglantine, que se afastava do barco a remo, e olhava para Sherlock. Ele olhou para trás, perguntando-se se algum dia voltaria a vê-la.
O mar era verde-acinzentado e estava agitado, e os meninos remavam com força. O forte era uma silhueta escura no horizonte que parecia nunca se aproximar, por mais que eles remassem. Sherlock sentia nos lábios o gosto de sal. Enquanto remava, ele pensava em como tinha conseguido se envolver naquela estranha aventura.
Depois de um tempo, o menino ergueu a cabeça e viu que o forte estava a poucas dezenas de metros de distância: um amontoado de pedras molhadas, cobertas por algas, que parecia emergir das águas do canal da Mancha. De alguma forma, conseguiram aproximar-se sem ser percebidos. O lugar parecia vazio, deserto. Ele observou o parapeito fortificado, de onde poucas décadas antes forças britânicas vigiavam a área em busca de navios franceses. Sherlock não via ninguém. Ninguém mesmo.
O barco percorreu os últimos metros até o forte e parou junto de uma escada de pedra molhada e escorregadia que se elevava da água.
Rapidamente, Matty amarrou a corda do bote a uma barra de ferro enferrujado que fora cimentada entre as pedras, e os dois meninos subiram os degraus. Sherlock quase caiu, e Matty teve de agarrá-lo para impedir que ele fosse parar na água.
— Como iremos saber que não é tarde demais? — Matty perguntou.
— Já anoiteceu. As abelhas dormem à noite. O criado do barão não teve muito mais tempo que nós para chegar aqui. As abelhas serão soltas de manhã.
Quando alcançaram o topo da escada, ajoelharam-se atrás de uma mureta de pedras que contornava toda a parte externa do forte. Os vãos entre as pedras estavam cheios de musgo.
Sherlock observou o patamar superior – tecnicamente, supunha, deveria chamá-lo de deque, embora esse “navio” não fosse a lugar nenhum – mas a área estava deserta, exceto por rolos de corda, tufos de alga marinha e uma ou outra caixa quebrada de madeira.
Do outro lado do forte ele viu o brilho súbito de um fósforo iluminar um rosto barbudo marcado por uma cicatriz. Quem estava no comando do forte posicionara guardas. Ele e Matty teriam de ser cuidadosos.
O guarda afastava-se de onde estavam, e Sherlock o viu passar por uma abertura na plataforma de pedras, que era cercada em três lados por um guarda-corpo de madeira. Devia haver ali uma escada por onde seria possível entrar na fortificação. Sherlock puxou a manga da camisa de Matty e o trouxe mais para perto.
Ele estava certo. Degraus de pedra levavam para baixo, para a escuridão. O cheiro de umidade e podridão subia até onde eles estavam.
— Venha — Sherlock sussurrou —, vamos descer.
Os dois desceram rapidamente os degraus que conduziam às entranhas do forte. No início, o espaço parecia ser escuro como o fundo do inferno, mas depois de alguns momentos os olhos de Sherlock adaptaram-se e ele identificou lamparinas presas à parede a intervalos regulares. Estavam em um corredor curto que parecia levar a um cômodo mais amplo, mais escuro, ao qual o brilho alaranjado da luz das lamparinas quase não chegava.
Sherlock e Matty seguiram pelo corredor até um local em que as paredes abriam-se de repente. O espaço circular devia ocupar a maior parte do andar em que estavam. Pilares de pedra separados por poucos metros sustentavam o teto, mas o que fez Sherlock prender a respiração foram as colmeias, enfileiradas de forma a seguir um padrão regular sobre o piso. Havia centenas delas. Com centenas de milhares de abelhas em cada colmeia, significava que havia mais ou menos um milhão de abelhas agressivas a poucos metros. Sherlock sentiu a pele pinicar, uma reação inconsciente à proximidade das abelhas, como se os insetos caminhassem por seus ombros e descessem por suas costas.
Independentemente de o plano de Maupertuis funcionar ou não por toda a Inglaterra, a presença de tantas abelhas agressivas em um mesmo lugar era, definitivamente, algo muito perigoso para qualquer pessoa naquela região.
— Diga que não iremos levá-las escada acima e jogá-las por cima da mureta para o canal — Matty sussurrou.
— Não vamos levá-las escada acima e jogá-las por cima da mureta para o canal — Sherlock confirmou.
— Então, o que vamos fazer?
— Não sei bem.
— Como assim, não sabe bem?
— Ainda não pensei em nada. Tudo tem sido um tanto corrido.
Matty bufou.
— Você teve bastante tempo no pesqueiro.
— Eu estava pensando em outra coisa.
— É, eu percebi — Matty disse. Depois ficou em silêncio por um momento. — Podemos atear fogo às colmeias — sugeriu.
Sherlock balançou a cabeça.
— Olhe a distância entre elas. Conseguiríamos queimar uma ou duas colmeias, mas o fogo não se alastraria o suficiente para queimar todas elas, e as abelhas acabariam nos atacando.
Matty olhou em volta.
— O que elas comem? — perguntou.
— Do que está falando?
— Estamos no canal da Mancha. Não há flores aqui, e duvido que elas queiram comer algas marinhas. Do que as abelhas estão se alimentando?
Sherlock pensou um pouco.
— Boa pergunta. Não sei. — Ele olhou à volta. — Vamos dar uma olhada por aí, ver se encontramos algo. Nós nos separamos e nos encontramos do outro lado. Não se deixe capturar.
Matty foi pela esquerda, Sherlock seguiu pela direita. Ao olhar para trás, Sherlock notou que a escuridão já havia tragado Matty.
As fileiras de colmeias pelas quais ele passava formavam um padrão quase hipnótico. Não via nenhuma abelha – talvez a escuridão as mantivesse confinadas às colmeias – mas acreditava poder ouvi-las: um zumbido baixo, soporífico, quase como se não fosse ouvido de forma consciente. Havia armações de madeira instaladas em vários pontos do espaço cavernoso. Algumas sustentavam bandejas de madeira, outras estavam vazias. Sherlock perguntou-se onde vira bandejas como aquelas antes. Havia nelas algo familiar.
Uma figura grotesca surgiu na escuridão: um homem encoberto por um macacão de lona com a cabeça protegida por um véu de musselina sobre uma armação de bambu. Ele estava debruçado sobre uma grande caixa – uma das muitas que Sherlock agora podia ver alinhadas ao longo daquele trecho da parede curva que delimitava o espaço. Quando se levantou, ele segurava uma bandeja como as outras que Sherlock vira apoiadas nas armações parecidas com cavaletes e caminhou na direção das colmeias. Uma névoa fina parecia erguer-se da bandeja que ele carregava.
A lembrança surgiu no exato instante em que o homem vestido com um macacão de apicultor parou ao lado de uma armação e encaixou nela a bandeja. Vira apicultores com aquele mesmo traje na mansão do barão Maupertuis, na periferia de Farnham, removendo bandejas semelhantes das colmeias. De repente tudo se encaixou: as bandejas, a névoa que se desprendia delas, o gelo que ele vira o grandalhão Denny descarregar do trem em Farnham e a pergunta de Matty sobre como as abelhas se alimentavam na ausência de flores. Tudo era perfeitamente lógico! Abelhas colhiam pólen de flores, estocando-o em finos pelos de suas patas até chegarem à colmeia, e usando-o então como alimento. Ponha uma bandeja sob uma colmeia e crie algum tipo de “portal” pelo qual as abelhas tenham de passar para entrar na colmeia, e poderá colher parte do pólen de suas patas com bandejas especialmente posicionadas. Ponha as bandejas no gelo e você pode guardar o pólen para quando precisar dele – por exemplo, quando as abelhas forem mantidas em algum lugar onde não haja flores. Espalhe as bandejas, e as abelhas poderão colher o pólen nelas sem nem sequer perceber que essa é a segunda vez que recolhem o mesmo pólen.
Ao pensar em Farnham e na estação, outra lembrança chamou a atenção de Sherlock: algo que Matty dissera. Alguma coisa sobre pó. E padarias. Sherlock vasculhou o arquivo da memória, tentando lembrar as palavras.
Sim. Pó. Farinha. Matty mencionara um incêndio que ocorrera na padaria em que ele trabalhava. Ele dissera que um pó como a farinha era altamente inflamável quando ficava suspenso no ar. Se uma pitada de farinha pegasse fogo, as chamas espalhavam-se de pitada em pitada mais depressa do que um homem era capaz de correr.
E, se funcionava com farinha, talvez funcionasse também com pólen.
— Uma moeda por seus pensamentos — disse uma voz atrás dele.
Sherlock virou-se sabendo o que veria.
O Sr. Surd, fiel servidor do barão Maupertuis, estava nas sombras. A tira de couro de seu chicote tocava o chão, junto ao seu pé.
— Deixe para lá — ele disse, avançando para Sherlock. — Se o barão quer saber o que passa por sua cabeça, eu a entregarei a ele, para que tire a informação pessoalmente.

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