25 de julho de 2017

Capítulo dez

SHERLOCK DORMIU UM POUCO, EMBORA fosse meio da tarde. E foi um sono agitado, cheio de imagens de Matty amarrado e indefeso na escuridão, chorando sozinho, imaginando onde estavam seus amigos. Quando acordou, sentiu o rosto úmido com lágrimas de solidariedade e precisou de alguns momentos para lembrar onde estava e o que havia acontecido.
Os músculos doíam e os pulmões queimavam, e ele sentia os hematomas doloridos no ponto em que Grivens apertara seu pescoço. Tentou encontrar em si mesmo algum traço de horror pelo que fizera, mas não havia nada assim tão intenso. Pesar, sim. Lamentava o fato de um homem ter morrido, mas seus sentimentos paravam por aí.
Deitado na cama, pensando em Grivens para evitar pensar em Matty, Sherlock lembrou-se da tatuagem azul cintilante no pulso do homem, a que o fizera perceber que alguém o observava. Nunca pensara em tatuagens, ou talvez pensasse nelas como algo meramente decorativo, mas havia algo mais naquele desenho. Para os marinheiros, elas eram um meio de serem reconhecidos, identificados. A tatuagem o ajudou a identificar o homem que o estivera observando a mando dos fugitivos americanos. E, segundo o que dissera o comissário, é possível reconhecer um tatuador por seu estilo, como se pode reconhecer uma pintura de Vermeer ou Rubens. Ou, Sherlock pensou, lembrando-se das pinturas no salão da mansão Holmes, de Vernet. Sua mente encheu-se de ideias sobre uma enciclopédia de tatuagens, com referências aos lugares onde foram feitas e aos artistas que as criaram. Seria possível fazer algo assim?
Depois de um tempo decidiu que não conseguiria nada ficando ali deitado. Levantou-se da cama e saiu.
O sol brilhava forte no convés do SS Scotia. Para qualquer lado que se olhasse, o horizonte era uma linha plana. Era como estar no centro de uma travessa de porcelana azul. Não havia nenhum sinal de que se moviam; até as aves pareciam estar paradas no ar.
Após alguns minutos percebeu que estava ouvindo um violino, embora não tivesse notado até então. Rufus Stone? Provavelmente. As chances de existirem dois violinistas a bordo eram bem pequenas, e ele teve a impressão de identificar alguns elementos do estilo de Stone – como os floreios que ele acrescentava ao final de certas linhas e o jeito como os dedos da mão esquerda às vezes lutavam com os arpeggios mais complicados.
Sherlock foi procurar o músico e o encontrou no lugar de sempre, perto da proa do navio. Desta vez não havia plateia. Talvez estivessem todos entediados.
— Já começava a me perguntar se havia abandonado nossas aulas como um homem joga fora um lenço velho — Stone falou, sem parar de tocar.
— Eu tive... uma tarde atribulada — respondeu Sherlock. — Mas agora estou aqui.
— Então, vamos começar. — Rufus parou de tocar e baixou o violino. — Alguma pergunta antes de verificarmos se aprendeu bem a postura que estudamos de manhã?
Sherlock pensou por um momento.
— Qual é sua peça favorita? — perguntou. — O Bruch que tocava hoje cedo?
Rufus refletiu por um instante.
— Não — respondeu. — Tenho uma queda pelo trabalho de Henryk Wieniawski. Ele escreveu vários concertos para violino, dos quais prefiro o segundo, em ré menor. E também temos a infame sonata para violino em sol menor de Giuseppe Tartini. É um verdadeiro teste de habilidade para um músico.
— Infame? — Sherlock perguntou.
— Ela é conhecida como O trilo do diabo. Tartini contava que tinha sonhado com o diabo tocando violino. Quando acordou, tentou escrever a peça musical que o diabo executava, e esse foi o mais próximo que conseguiu chegar. É tão difícil que alguns críticos sugeriram que Tartini vendeu a alma ao diabo pela habilidade de executá-la.
— Que bobagem.
— É claro que é. Mas é uma história interessante, e sempre ajuda a encher uma plateia, se as pessoas acreditam que há algo de misterioso ou bizarro na música que você vai tocar. — Ele ofereceu o violino a Sherlock. — Agora, vamos ver quanto da lição de hoje você guardou.
Durante o restante da tarde Sherlock segurou o violino sob o olhar crítico de Rufus Stone e tentou, uma de cada vez, diferentes maneiras de usar o arco para tirar notas do violino, sem se preocupar com qual nota estava tocando. Por enquanto, Rufus desejava que ele dominasse a técnica. Sherlock começou movendo o arco pelas cordas com gestos longos, fluidos e suaves – détaché, como Rufus descreveu – e apenas sustentando o braço do violino com a mão esquerda, sem manipular as cordas. Horas se passaram antes de Rufus se dizer satisfeito, primeiro com uma corda e depois com cada uma das outras, enquanto Sherlock se esforçava terrivelmente para alcançar o tom da nota, sem se preocupar com quanto tempo era capaz de sustentá-la.
E o restante da viagem prosseguiu assim. Depois do café, Sherlock ia se juntar a Rufus Stone no convés e lá eles passavam duas horas, depois iam ao salão para almoçar. Faziam mais duas horas de ensaio e Sherlock voltava à cabine para um intervalo, quando lia um pouco da República de Platão. Mais duas horas com Rufus Stone e então o jantar. Depois disso, Sherlock costumava ficar um pouco com Amyus Crowe na biblioteca antes de ir para a cama, mas o dia do americano era basicamente ocupado com os cuidados com Virginia, e ele dispunha de pouco tempo para continuar a ensinar a Sherlock. Pouco tempo e pouco material de apoio ou exemplos. Sherlock já havia notado que Amyus Crowe preferia um método de ensino peculiar, levando para as aulas alguma coisa que vira ou encontrara e usando isso como base para a lição. No meio do oceano, sem nada ao redor, havia poucas oportunidades para empregar esse método.
Sherlock quase não viu Virginia durante a travessia. Ela ficava na cabine, não queria ir ao convés nem conversar com as pessoas. Sherlock a viu duas ou três vezes e notou que sua pele estava ainda mais pálida e translúcida comparada aos cabelos vermelhos, a ponto de se preocupar com a possibilidade de que Virginia talvez não sobrevivesse à viagem. Mas Amyus Crowe garantiu que ela ficaria bem. Estava apenas lembrando a primeira jornada por mar, de Nova York a Liverpool, quando a mãe havia falecido.
— É apenas um desconforto emocional — disse Crowe uma noite na biblioteca —, agravado pela monotonia da jornada e pela imensa saudade de Sandia. Ginnie é uma garota habituada à vida em espaços abertos, como você já deve ter percebido. Ela odeia ficar presa, seja onde for. Você verá que, quando desembarcarmos, ela voltará ao normal.
O clima se manteve surpreendentemente estável durante toda a travessia. Com exceção de um dia de céu encoberto e chuvas torrenciais, quando Sherlock e Rufus Stone tiveram que praticar na cabine de Sherlock, o céu permaneceu azul e o mar, calmo. Ou, pelo menos, as ondas eram pequenas comparadas ao gigantesco casco do Scotia, que conseguia passar por elas sem maiores problemas.
Uma vez, no quarto dia, houve certa agitação quando o capitão anunciou que tinham avistado outro navio. Os passageiros se revezavam ao telescópio para ver o ponto distante no horizonte. Amyus Crowe usou esse acontecimento como base para uma lição, pedindo a Sherlock para calcular a probabilidade de dois navios estarem dentro do campo de visão um do outro, considerando a vastidão do oceano e o número relativamente pequeno de embarcações, mas Sherlock já havia percebido que, embora o Atlântico fosse imenso e houvesse uma longa distância entre Southampton e Nova York, a maioria dos navios seguia pela mesma rota, e havia dezenas, talvez centenas deles navegando ao mesmo tempo. Considerando esses dados, as chances eram, na verdade, bem altas.
Sherlock e Amyus perceberam a troca de sinais luminosos entre as duas embarcações com o cair da noite. Sherlock ficou observando enquanto a tripulação do Scotia enviava sua mensagem com uma lanterna, na frente da qual havia um obturador que podia ser aberto ou fechado. Parte do garoto preocupou-se com a possibilidade de informações secretas sobre ele e seus companheiros serem trocadas entre conspiradores nos dois navios, mas isso significaria que boa parcela da tripulação estava envolvida na conspiração, o que era improvável. Além do mais, não houvera mais nenhuma tentativa de revistarem a cabine ou de fazerem qualquer coisa contra algum deles, nem antes nem depois de o outro navio ter sido avistado. Tudo indicava que Grivens era a única pessoa no Scotia recrutada pelos conspiradores.
O desaparecimento do comissário causou pouca consternação entre a tripulação e absolutamente nenhuma entre os passageiros. O capitão nem mesmo tentou reverter os motores do navio para verificar se ele havia caído no mar. Sherlock deduziu que restos das roupas de Grivens teriam sido encontrados entre as máquinas e que o capitão presumira que ele caíra no motor depois de ter bebido demais.

Com o passar do tempo Sherlock aprendeu os principais estilos de manejo do arco – legato, collé, martelé, staccato, spiccato sautillé – e havia começado a usar os dedos da mão esquerda para manipular as quatro cordas, formando notas e acordes. Ainda não havia tocado nada mais melódico que notas longas e agudas porque Rufus Stone fazia questão de aprimorar a técnica e a habilidade antes de deixar o aluno brincar com a música. Sherlock compreendia a metodologia do mestre. Era lógica. Fazia sentido.

— O que vai acontecer quando desembarcarmos? — Sherlock perguntou um dia, já perto do fim da viagem, em uma pausa das lições.
— O que vai acontecer é que vou entrar em um mundo novo e radiante, cheio de oportunidades, e tentar me estabelecer como professor de música em primeiro lugar. Depois, se tiver sorte, vou encontrar uma orquestra que me contrate. Você, por outro lado, vai se reunir ao estimado Sr. Crowe e a sua filha misteriosamente ausente para fazer o que quer que tenham planejado na cidade de Nova York.
No quinto dia de viagem, durante um intervalo no quase incessante aprendizado de violino, Sherlock passou algum tempo na proa do navio, debruçado na balaustrada e olhando para a frente, para a distante linha azul do horizonte.
Ele não estava sozinho. Havia vários outros passageiros naquela parte do navio, apreciando o vento, as ondas e as nuvens, talvez até tentando avistar a terra firme, embora fosse cedo demais para isso. As histórias do capitão sobre grandes tempestades e monstruosas criaturas do mar deviam ter atiçado a imaginação dos viajantes, que observavam atentos, esperando ver um sinal de algo incomum. Sherlock estava mais atento à possibilidade de detectar um iceberg perdido por ali.
Um homem enrolado com um sobretudo para se proteger do vento gelado atraiu a atenção de Sherlock. Sua barba negra era bem-aparada, com as pontas viradas para fora, e ele tinha um bigode encerado, que também se erguia nas pontas. Em vez de olhar para o oceano, o indivíduo estava de costas e rabiscava em um caderno com o lápis.
Sherlock olhou com mais atenção e percebeu que ele desenhava. O menino mudou de posição, tentando enxergar o que o era, mas tudo que conseguiu ver no papel foi um objeto cilíndrico com pontas estreitas, algo como um charuto grosso. Parecia ser separado em seções por paredes internas ou barreiras.
— Está interessado no meu desenho? — perguntou o homem, erguendo os olhos, e sua voz tinha um sotaque forte; alemão, Sherlock pensou.
— Desculpe — Sherlock falou, corando. — Só queria entender por que não está olhando para a frente, como todo mundo.
— Eu estou olhando para a frente — disse o homem. — Muito à frente, para um tempo em que jornadas como a nossa não serão feitas em barcos, que estão sujeitos a tempestades e ondas, mas em balões.
— Balões? — Sherlock repetiu. E olhou para o caderno. — É isso que está desenhando?
O homem o encarou com ar crítico.
— Não acredito que seja um industrial ou espião militar — ele disse. — Novo demais para isso. E seu rosto me diz que tem a mente aberta e uma inteligência aguçada, o que não é comum entre os espiões, de acordo com a minha experiência. — Ele riu, embora tenha soado mais como um ronco. — Tenho sido... criticado... em meu país pelas ideias que defendo. Espero que na América as coisas sejam diferentes.
— Sou Sherlock Holmes. — Ele estendeu a mão direita. — É um prazer conhecê-lo.
— E eu sou Ferdinand Adolf Heinrich August Graf von Zeppelin — respondeu o homem, fazendo uma mesura breve antes de estender a mão para Sherlock. — Em seu país eu seria chamado de conde Zeppelin. Pode me chamar simplesmente de “Conde”. — Ele virou o caderno para mostrar o desenho a Sherlock. — Agora, diga-me... Consegue imaginar um balão gigantesco feito de seda envernizada e sustentado por anéis, uma aeronave rígida, podemos dizer, cheio de um gás mais leve que o ar, voando sobre o oceano a uma altura tal que, abaixo, os passageiros vejam apenas nuvens, e não ondas?
— Que gás você utilizaria? — Sherlock perguntou.
O conde assentiu.
— Excelente pergunta. Os franceses têm usado ar quente para balões pequenos, mas não acredito que funcione para os maiores, e o Exército americano vem obtendo bons resultados com gás de coque, que é um derivado da queima do carvão. Eu usaria hidrogênio, se fosse possível purificá-lo na medida necessária.
— E como moveria o balão? — Sherlock estava fascinado com as ideias daquele homem estranho. — Ele com certeza flutuaria sem direção, não?
— Esta embarcação em que viajamos agora não flutua, simplesmente. Ela se move. Tem motores. Tem pás. Se pás podem mover um navio na água, também podem impelir um balão no ar.
Sherlock encarou-o em dúvida.
— Tem certeza de que isso funcionaria?
Von Zeppelin sorriu com frieza.
— Tenho conduzido um estudo exaustivo sobre o voo de aeronaves mais leves que o ar. Há quatro anos estive na América como observador do Exército Potomac do Norte durante a guerra contra os Estados Confederados. No tempo que passei lá, decolei pela primeira vez em um balão de reconhecimento, que é preso por cordas. Também conheci o professor Thaddeus Lowe, que provavelmente é o maior especialista do mundo nesse tipo de voo. — O rosto severo de Von Zeppelin parecia se iluminar quando ele falava sobre balões. Ficou óbvio para Sherlock que o assunto o entusiasmava. — O professor Lowe já havia construído um balão com o propósito de atravessar o Atlântico, como faz este navio, e deu a ele o nome de Great Western. Tinha trinta e dois metros de diâmetro e podia sustentar doze toneladas. Antes da guerra ele o utilizou em um bem-sucedido voo entre a Filadélfia e Nova Jersey, mas a primeira tentativa de atravessar o Atlântico fracassou quando um vento forte desprendeu o envelope, a parte que se enche de gás. — Ele deu de ombros. — O começo da guerra interrompeu os planos do professor Lowe. Ele formou o Batalhão de Balões do Exército da União para atender a uma solicitação explícita do presidente Lincoln. A guerra é uma coisa estranha... Por um lado, arrasta homens de intelecto para longe de suas pesquisas e conquistas, mas, por outro, também acelera o progresso. Sem a Guerra entre os Estados me pergunto se o presidente teria se interessado pelas possibilidades de um balão.
— Sherlock!
A voz era feminina e jovem. Era Virginia. Sherlock virou-se e viu-a parada a alguns passos de distância, perto de um bote salva-vidas. Ainda estava pálida, mas sorria.
— Com licença — ele disse ao conde. — Preciso ir.
Von Zeppelin curvou-se novamente.
— É claro. O sexo frágil é mais importante que tudo.
— É casado? — perguntou Sherlock.
— Sou noivo — respondeu. O rosto austero se iluminou ao abrir um grande sorriso. — O nome dela é Isabella Freiin von Wolff, da casa de Alt-Schwanenburg, e é a mulher mais maravilhosa do mundo. — Ele olhou para Virginia, depois encarou Sherlock. — Embora você certamente possa discordar da minha opinião.
Sherlock sorriu para ele. Sentiu uma simpatia imediata pelo conde alemão.
— Até mais tarde — disse.
— O navio é pequeno — comentou o conde —, e não há tanta gente assim a bordo. Com certeza vamos nos encontrar novamente em breve.
Deixando o conde para trás, Sherlock caminhou na direção de Virginia.
— Achei que você fosse passar a viagem toda na cabine — ele disse, encabulado.

— Confesso que também tive medo disso — ela respondeu. — Odeio ficar trancada em ambientes pequenos, mas acho que não tive muita escolha. — Ela corou, a vermelhidão subitamente tomando o rosto pálido, e desviou os olhos. — Creio... que meu pai já deva ter contado que esta viagem me fez lembrar a última que fizemos, quando minha mãe faleceu.
— Ele contou — Sherlock confirmou.
— E, para piorar, fiquei enjoada. Quem poderia imaginar que alguém que tem o hábito de cavalgar sentiria enjoo no mar? Pois eu senti, e muito.
Ele não conseguiu evitar um sorriso. Essa honestidade completa e absoluta era uma das coisas que mais apreciava em Virginia. Nenhuma jovem inglesa teria sonhado em discutir com tanta franqueza um desconforto estomacal.
— Como se sente agora? — ele perguntou.
— A mulher com quem divido a cabine preparou um chá de ervas. Hoje é o primeiro dia que consigo manter um pouco de chá no estômago, mas acho que está ajudando.
— Sinto muito sobre sua mãe — ele disse, meio desajeitado. — Lamento que esta viagem traga de volta lembranças tão tristes. Imagino que ficar na Inglaterra faça com que você pense nela o tempo todo.
— Faz, sim. — Ela fez uma pausa. — Não sei se minha mãe já estava doente quando embarcou ou se contraiu algo a bordo, mas ela ficou muito mal durante uma semana inteira. Foi ficando cada vez mais magra, cada vez mais pálida, até por fim partir. — Uma lágrima surgiu e começou a descer lentamente por seu rosto. — Eles a sepultaram no mar. O capitão disse que não podia manter o corpo a bordo até o final da viagem, então os tripulantes a envolveram em um pedaço de lona, fizeram algumas preces rápidas e depois a jogaram na água. Aquilo foi o pior de tudo. Eu nem tenho uma sepultura para visitar. — Ela fez um gesto, mostrando toda a vastidão do oceano Atlântico. — Só isso.
Sherlock ficou em silêncio por um momento, depois falou:
— Minha mãe está doente. — Ele nem sabia que ia falar isso; as palavras simplesmente brotaram de sua boca.
— O que ela tem? — indagou Virginia.
— Ninguém fala sobre isso. — Ele parou. — Acho que é tísica.
— Tísica?
— Tuberculose. Ela está muito pálida, magra e sempre cansada. Às vezes vejo sangue no lenço com que ela cobre a boca para tossir, mas sei que meu irmão e meu pai tentam evitar que eu perceba. — Agora que ele começara a falar, não conseguia mais parar. — Fui à biblioteca de meu pai e pesquisei em todos os livros até encontrar os sintomas. Ela tem tuberculose e vai morrer. Não existe cura. A pessoa simplesmente definha, pouco a pouco.
Virginia aproximou-se e descansou a cabeça no ombro dele por um momento antes de afastar-se.
— Minha mãe morreu rápido, pelo menos — disse, erguendo os olhos para fitá-lo. — Jamais havia pensado nisso antes, mas agora acho que foi uma bênção. Vê-la definhar durante semanas, meses, anos... Deve ser terrível.
Sherlock virou-se para não deixá-la ver o brilho das lágrimas que sentia arderem em seus olhos.
— Vamos realmente encontrá-lo? — ela sussurrou.
— Quem?
— Matty.
Sherlock ficou sem ar. Estivera repetindo a mesma pergunta para si mesmo e ainda não encontrara resposta.
— Vamos encontrá-lo — disse. — E ele vai ficar bem. Os homens que o sequestraram têm todos os motivos do mundo para mantê-lo vivo.
— Isso não é uma resposta de verdade — ela disse baixinho —, e você sabe disso.
— Já conheceu o navio? — Sherlock perguntou, mudando de assunto deliberadamente.
— Quase nada. Passei a maior parte do tempo dormindo.
— Então vou lhe mostrar.
Ele a acompanhou pelo convés e mostrou tudo, da proa à popa, incluindo o cercado onde eram mantidos os animais – agora quase vazio, após cinco dias de viagem. Na proa do barco ela tocou seu braço.
— Meu pai contou que você se meteu em uma briga — ela disse. — Está machucado?
— Estou sempre me metendo em brigas — respondeu Sherlock.
— Devia aprender a lutar melhor.
— Ei, tenho me saído bem até agora. Sobrevivi, não é?
— O que aconteceu? Quero saber!
Ele contou tudo o que havia se passado com Grivens, o comissário, e, diferentemente de quando relatara a história a Amyus Crowe, descobriu que agora se sentia emocionado, e teve que parar algumas vezes para controlar os sentimentos. Por alguma razão, contar tudo a Virginia tornava o episódio mais real. Não era mais só uma sequência de acontecimentos.
Quando ele terminou, Virginia afagou seu braço.
— Você está bem?
— Vou ficar, acho.
— É um choque, não é?
Sherlock encarou-a intrigado.
— O quê?
— Ser responsável pela morte de um ser humano. E saber que poderia ter sido você.
Ele deu de ombros com certo constrangimento.
— Acho que sim. Eu só... não sei como reagir. Não sei o que seria apropriado.
— Lembro que quando nós morávamos em Albuquerque, sempre que voltava de uma de suas viagens, papai simplesmente desmoronava em uma poltrona e queria um copo de uísque. Tentávamos conversar com ele, mas papai não respondia. Naquela época, eu não sabia o que havia acontecido, o que ele fizera ou onde estivera. Só mais tarde descobri que ele procurava assassinos e traidores, e que às vezes essas perseguições não acabavam bem. — Ela parou por um momento. — Acho que o que estou tentando dizer é que, quando isso deixa de ser importante, quando você descobre que não reage mais a algo assim, é hora de começar a se preocupar, porque é aí que você deixa de ser humano.
Ela se esticou e o beijou no rosto rapidamente: um toque de calor no ar frio.
— Vou me deitar um pouco. Acho que vejo você na hora do jantar.
Virginia se afastou. Sherlock ainda conseguia sentir o calor deixado pelos lábios em seu rosto.

Os últimos três dias da travessia foram dominados pela ansiedade, e também por uma espécie de febre de apostas, com os passageiros tentando adivinhar tudo, desde o dia, a hora e até o minuto em que veriam terra firme até o nome do piloto que subiria a bordo para guiá-los até o porto de Nova York. Sherlock ficou longe de todas essas especulações, aplicando-se com a mesma intensidade às aulas de violino com Rufus Stone. Agora praticava notas e cordas com a mão esquerda, treinando até sentir as bolhas se formarem na ponta dos dedos. Só no último dia Stone permitiu que ele juntasse o que havia aprendido sobre postura, uso do arco e como a mão esquerda devia segurar o braço do violino e, finalmente, tocasse de verdade.
A realização o encheu de orgulho.
— Vai precisar de um violino — Rufus falou. — Um instrumento bom, não um feito com madeira barata e cola comum. — Ele olhava com ar sério para Sherlock. — Você tem um talento natural, meu amigo, e seus dedos são longos, finos e flexíveis. Pode ir longe. Não estou dizendo que será um grande violinista de concerto, para isso teria que ter começado as aulas aos cinco anos de idade, mas se continuar praticando certamente poderá ganhar a vida em uma orquestra de teatro.
A conversa foi interrompida por uma comoção entre os passageiros na frente do navio. Terra à vista!
Sherlock correu para ver. A viagem havia sido longa o suficiente para ele quase se esquecer de como era andar em uma superfície que não se movesse sob seus pés.
A América era uma forma escura no horizonte que, ao longo de várias horas, foi ganhando contornos de colinas e montanhas cobertas de árvores. Estranhamente, não parecia ser muito diferente da paisagem do sul da Inglaterra, mas havia algo no ar, um cheiro indefinido que sugeria que ele realmente estavam em outro lugar.
O navio descreveu uma curva tomando a direção de Nova York, com a costa a estibordo. Apesar de ainda faltarem várias horas para a chegada ao porto, alguns passageiros correram para arrumar suas bagagens.
A última refeição antes do desembarque foi uma festa, com pratos especiais e um bolo, além de caixas de champanhe. Sherlock comeu pouco e retirou-se o mais rápido possível para dormir um pouco antes de atracarem. Tinha um pressentimento de que seria melhor estar descansado.
Finalmente chegavam ao porto de Nova York. Apesar de suas intenções, Sherlock esperou no convés com todo mundo, observando as diversas ilhotas pelas quais passavam. O navio agora progredia lentamente, com cuidado, sob o controle do piloto – um marinheiro local que chegara a bordo de um pequeno bote.
— Área complexa — Amyus Crowe disse ao lado de Sherlock. — Um dos portos mais difíceis do mundo. Há três corpos d’água distintos se encontrando aqui: o oceano Atlântico, o rio Hudson e o estreito de Long Island. Junte a isso as mais de cinquenta ilhas e trinta e poucos rios, riachos e afluentes do Hudson que desaguam aqui e o resultado é um sistema complicado de marés e correntes.
— O que fazemos agora? — o garoto perguntou.
— A primeira coisa que tenho que fazer é procurar as autoridades. Vamos precisar de ajuda nessa missão, e preciso avisá-los que estou de volta. Alguns homens nesta cidade me devem favores e pretendo cobrar cada um deles. Vamos ver se alguém se lembra de ter visto o jovem Matty e seus sequestradores, para começar. Seu irmão já deve ter mandado um telegrama avisando sobre nossa chegada, por isso espero encontrar alguém no porto. Depois, vamos descobrir quando o SS Great Eastern aportou, se é que já chegou. Se não, vamos esperar por ele. Se já estiver aqui, vamos investigar onde podem estar três homens, um deles deficiente mental, e um garoto. Tenho certeza de que podemos encontrá-los. — Havia algo de ríspido na voz de Crowe, e quando Sherlock o fitou, viu que o rosto dele parecia ter sido entalhado em pedra. — E quando os encontrarmos, eles vão se arrepender do dia em que nasceram.

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Boa leitura :)