16 de julho de 2017

Capítulo dez

QUANDO SHERLOCK ACORDOU, sua cabeça doía. A dor parecia localizada na têmpora direita e pulsava terrivelmente, acompanhando as batidas do coração. Era como se no centro de sua cabeça houvesse uma massa enorme, macia e latejante, que ele não conseguia ver nem transpor. Ficou deitado no escuro um pouco, sem pensar em nada, apenas embalando a dor, esperando que ela diminuísse. Depois de um tempo, ela arrefeceu.
A última coisa de que se lembrava era de ter sido nocauteado pelo lutador da feira de diversões na campina ao pé do castelo de Farnham. E agora estava em uma cama confortável, com a cabeça apoiada em travesseiros de penas. Isso significava que não estava mais na feira – nem caído na grama lamacenta, nem metido em uma tenda, para recuperar-se. A menos, é claro, que estivesse delirando, o que era bastante possível, considerando-se que ele fora ferido na cabeça.
Não, Sherlock disse a si mesmo com firmeza: precisava trabalhar com a ideia de que o que sentia, via e ouvia era real, não uma criação do cérebro lesionado.
A luz difusa que penetrava pelas cortinas da janela indicava que ainda era de manhã. Sherlock não estava na própria cama, disso tinha certeza. A sua era mais dura, seus travesseiros eram mais irregulares e cheios de caroços. Deve ter sido encontrado por alguém da mansão Holmes e trazido de volta, mas posto em uma cama mais confortável: uma à qual médico e criados pudessem ter acesso mais fácil, talvez. Fez um esforço para ouvir movimentação do lado de fora da janela, mas não havia nada além de algo que parecia o canto distante de pássaros.
Quão encrencado ele estava? Sherlock deixou escapar um gemido. Havia desobedecido às instruções claras de seu tio, e suspeitava de que qualquer tentativa de explicar que pensara estar indo ao encontro de Amyus Crowe seria recebida com severidade. Pior: envolvera-se em uma briga. Pior ainda: tinha perdido. Talvez isso não importasse para Sherrinford e Anna Holmes, mas se o pai de Sherlock algum dia viesse a saber disso, ficaria furioso. Um de seus ditados favoritos era: “Um cavalheiro nunca começa uma briga, mas sempre a termina.”
Se o menino tivesse sorte, seu tio o confinaria ao quarto durante o mês seguinte e limitaria suas refeições a pão e água. Se tivesse sorte. Se não... bem, não sabia ao certo, mas desconfiava de que a punição seria severa. Uma coça, talvez? Uma surra com a bengala ou um cinto de couro? O tio provavelmente o castigaria com pesar, em vez de raiva, mas não havia uma citação bíblica que dizia algo sobre “quem poupa a vara prejudica a criança”?
Isso não seria bom.
Sherlock tocou a cabeça com a mão. Os dedos encontraram um inchaço, e quando ele o pressionou uma dor aguda assaltou-o.
Sentou-se com cuidado. Nem a cabeça nem a barriga gostaram do movimento, mas não reclamaram muito.
O quarto em que estava era revestido com painéis de madeira, e a cama era coberta por um dossel bordado. Sherlock não o reconhecia, e a decoração era diferente da que ele recordava da mansão Holmes. Olhou para o próprio corpo. Ainda estava vestido, embora alguém tivesse tirado seu paletó. Olhando em volta, Sherlock viu que ele estava pendurado em um gancho atrás da porta.
Afastou o lençol que o cobria e aos poucos se sentou. O mundo pareceu balançar por alguns momentos – como água em um balde, antes de estabilizar. Seus sapatos tinham sido removidos, mas viu que estavam junto ao pé da cama. Devagar, Sherlock inclinou-se e tentou calçá-los sem se abaixar, porque se abaixar seria uma péssima ideia, ele imaginava.
Cruzou o quarto em direção à janela e afastou a cortina, mas a vista que o recebeu era muito diferente da paisagem em torno da mansão Holmes.
O terreno lá fora era plano e deserto, destituído de grama ou plantas. A terra era seca, de um marrom-avermelhado, e, até onde a vista alcançava, coberta por caixas de madeira sobre quatro estacas firmes, que se assemelhavam um pouco com galinheiros, porém menores, e cada uma delas tinha um pequeno buraco na parte de baixo, logo acima do ponto no qual uma base de madeira separava as caixas das estacas que as sustentavam. Sua disposição obedecia a intervalos regulares, como numa grade. Sherlock fez um cálculo mental rápido e estimou que olhava para aproximadamente quinhentas caixas.
Parecia haver fumaça flutuando sobre algumas delas, mas o vento devia estar soprando de forma estranha, porque a fumaça de caixas diferentes movia-se em diversas direções. Algumas, como colunas, subiam; outras inclinavam-se para a esquerda; outras, ainda, para a direita, e algumas apenas pairavam em torno da entrada das caixas, como se quisessem sair ou entrar.
Uma silhueta surgiu de trás de uma das caixas. Vestia um macacão largo que parecia feito de lona, e sua cabeça estava coberta por uma máscara de musselina fina o bastante para permitir a visão e mantida longe do rosto por aros de madeira. A figura dirigiu-se para outra caixa e ergueu a tampa cuidadosamente. Mais fumaça desprendeu-se do interior e envolveu a cabeça da pessoa. Ela não parecia incomodar-se. Inclinou-se, olhou dentro da caixa, depois voltou a fechar a tampa e removeu da base o que parecia ser uma bandeja de madeira. Então analisou a bandeja por alguns segundos; em seguida, deu alguns passos e a deixou sobre uma pilha de outras bandejas semelhantes.
Finalmente, o cérebro de Sherlock despertou, e ele compreendeu o que via. A nuvem que observara abandonando o corpo do homem no bosque próximo à mansão Holmes, a fumaça que Matty testemunhara, o pólen que ele levara ao professor Winchcombe... finalmente tudo fazia sentido. Aquilo não era fumaça, mas abelhas. Pequenas abelhas negras. E isso significava que as caixas eram colmeias, e o homem de máscara, um apicultor.
Mas que tipo de abelhas eram aquelas, e para que serviam? Produzir mel? Defesa? Ou outra coisa?
Mais importante: onde raios ele estava?
Atrás de Sherlock a porta do quarto foi aberta. Ele virou-se depressa. Dois homens estavam parados na soleira. Vestiam roupas de imaculado veludo negro e corte antiquado – calças medievais, meias longas, coletes e jaquetas curta – e tinham o rosto coberto por uma máscara de veludo negro com aberturas estreitas na altura dos olhos.
Um deles fez um gesto por cima do ombro. O significado era claro: Sherlock deveria acompanhá-los. Por um momento, ele rebelou-se – nunca tivera aptidão para seguir ordens que não fossem acompanhadas de uma explicação – mas uma breve reflexão o fez concluir que, se não fizesse o que os homens mandavam, iriam levá-lo dali carregado. E provavelmente não seriam cuidadosos.
Também ocorreu a Sherlock que acompanhá-los talvez fosse a única maneira de descobrir o que estava acontecendo.
Com o coração disparado, embora mantivesse no rosto uma expressão calma, até entediada, Sherlock caminhou até a porta. Os dois homens afastaram-se para deixá-lo passar.
O corredor do lado de fora do quarto era decorado de forma opulenta em tons vivos de roxo e vermelho, com um brasão de armas distintamente gravado no papel de parede e bordado nas cortinas de veludo. Um dos homens conduziu Sherlock escada abaixo por degraus largos de mármore branco, enquanto o outro os seguia. Os passos de Sherlock eram o único barulho: os sapatos dos dois sujeitos eram acolchoados e produziam pouco mais que um sussurro ao tocarem o chão.
Quando terminaram de descer a escada, o primeiro homem conduziu o menino para uma porta fechada ao lado de um pesado armário feito de teca. Então puxou a porta e fez um gesto que indicava que Sherlock deveria entrar. Após um breve instante de hesitação, o menino obedeceu.
A porta fechou-se atrás de Sherlock com um baque abafado, mas definitivo.
O aposento além da porta era grande, sombrio e frio. Todas as janelas estavam cobertas por grossas cortinas. Somente alguns raios de luz venciam a penumbra, e Sherlock conseguiu identificar apenas a ponta de uma mesa de madeira maciça, na frente da qual havia uma cadeira pesada. Tudo o mais era escuridão, exceto pelo brilho do que talvez fossem objetos de metal pendurados nas paredes de pedra.
Parecia óbvio o que se esperava que ele fizesse. Nervoso e sentindo gotas de suor frio escorrendo pelas costas, Sherlock deu uns passos à frente e sentou-se na cadeira.
Houve silêncio por um longo tempo, interrompido apenas pelas batidas rápidas do coração do menino. Sherlock forçou os olhos na escuridão, mas não conseguiu discernir nada além da parte da superfície da mesa imediatamente à sua frente. Então, pouco a pouco, começou a identificar um ruído fraco: um rangido cadenciado, como o cordame de um navio enfrentando as ondas de um oceano imaginário. O som parecia ir e vir, quase como se uma brisa suave soprasse intermitentemente a lona de velas içadas, distendendo as cordas molhadas e deixando-as frouxas de novo. Sherlock não conseguia determinar o que era. Certamente não podia estar em um navio, não é? Vira o terreno do lado de fora da janela do quarto, e o piso não oscilava. Então, que barulho era aquele?
— Você estava no galpão. — Uma voz masculina, pouco mais que um sussurro, soou na escuridão, vinda da outra extremidade da mesa. Parecia haver nela um leve sotaque, que fazia “galpão” soar “galpom”, mas Sherlock não conseguia distinguir o país de origem do dono daquela voz. — Por que você estava no galpão?
— Quem é você? — Sherlock indagou com tom firme, a voz sustentada por uma coragem que não sentia.
— Por que você estava no galpão? — a voz persistiu.
Em meio aos rangidos, Sherlock teve de esforçar-se para entender as palavras.
— Meu tio vai ficar preocupado comigo — ele ameaçou. — Grupos de busca sairão atrás de mim. — Não sabia se isso era verdade ou não, mas achou que seria algo apropriado a dizer. Talvez perturbasse o misterioso interrogador.
— Vou perguntar só mais uma vez, e depois você irá arcar com as consequências. Por que você estava no galpão?
— Não sei do que você está falando.
Algo cortou a escuridão; era fino e negro, e esticava-se como uma serpente dando o bote. O objeto atingiu a bochecha direita de Sherlock antes de recuar para a escuridão. Ele encolheu-se, sentindo o sangue escorrer por sua pele um momento antes de a dor aflorar.
— Por que você estava no galpão? — a voz insistiu.
Sherlock tocou a face, que parecia queimar, depois olhou para a mão. As linhas de sua palma estavam sujas de sangue.
— Você me machucou — ele disse, um tanto incrédulo.
O chicote estalou mais uma vez na escuridão. Dessa vez ele viu a ponta, no exato instante em que ela passava bem perto de seu rosto. Havia um nó na fina trama de couro. O estalo do chicote ao atingir o limite do comprimento e recuar coincidiu com a agonia provocada pelo contato do nó com a cartilagem de sua orelha direita. Sherlock gritou, levando a mão à lateral da cabeça. E então sentiu o sangue que se acumulava em sua palma e escorria pelo pulso.
— Por quê...
— Segui um homem que vira sair de uma casa em Farnham! — Sherlock gritou. — Ele foi para o galpão!
A voz ficou em silêncio por um momento, pensativa. Depois:
— Por que você seguiu esse homem que saiu da casa?
O sangue quente e úmido que escorria de sua orelha alcançava agora o pescoço. Todo o lado direito do rosto de Sherlock latejava.
— Alguém morreu naquela casa. Eu queria descobrir como.
— Certamente eles morreram vítimas da praga, não foi? — a voz sussurrou. — É o que as pessoas estão dizendo.
Sherlock mordeu a língua para não falar nada sobre as picadas de abelhas, mas o chicote estalou mais uma vez na escuridão e atingiu sua testa acima do olho esquerdo. A cabeça foi jogada para trás e bateu no encosto da cadeira, gerando ondas de agonia pelo crânio. Quando tentou abrir o olho, o menino percebeu que estava fechado pelo sangue que escorria do corte na testa.
Se continuasse assim, sua cabeça acabaria dilacerada.
— Ele morreu por causa de picadas de abelhas — Sherlock berrou. — Centenas de picadas.
Silêncio. A dor de cada uma das três chicotadas na sua pele fluía como uma única corrente de sofrimento que parecia latejar no ritmo das batidas aceleradas de seu coração.
— Quem mais sabe sobre as abelhas?
— Só eu! — Sherlock mentiu.
Outra vez, o chicote estalou na penumbra como uma serpente agressiva, e atingiu seu rosto bem ao lado do olho esquerdo, a um triz da porção sensível e macia do globo ocular. O sangue acumulava-se em seus cílios: eram como glóbulos negros pendurados em seu campo visual.
— Da próxima vez que meu lacaio aplicar o chicote, ele o deixará cego do olho esquerdo — a voz avisou. — E na ocasião seguinte, arrancará sua orelha direita. Responda às minhas questões de forma completa, e não minta para mim.
Meu lacaio?, Sherlock pensou. Isso significava que quem formulava as perguntas e o homem que o atacava com o chicote eram duas pessoas diferentes. Quantas mais estavam escondidas ali, na escuridão, observando e ouvindo?
— Já tenho algumas das respostas às perguntas que estou fazendo — continuou a voz sussurrante. — E se suas respostas forem diferentes, você irá sofrer, não só agora, mas pelo resto de sua vida. Quem mais sabe sobre as abelhas?
— O professor Winchcombe, em Guildford, e Amyus Crowe, em Farnham. — A voz de Sherlock tremia, devido ao esforço de manter a dor sob controle. — Meu tio Sherrinford. Amyus Crowe contou ao médico da cidade. Não sei se mais alguém sabe. — Deliberadamente, deixara o nome de Matthew Arnatt fora da lista, na esperança de que o homem na penumbra não soubesse do amigo, ou não o considerasse importante.
— Gente demais — disse a voz. Sherlock teve a impressão de que o homem falava sozinho, não com ele. Ou com outra pessoa, talvez, alguém que permanecesse em silêncio. — Temos de acelerar a operação. — Uma pausa, como se o homem por trás da voz estivesse pensando, e então: — Leve o menino daqui e mate-o. Faça parecer um acidente. Atropele-o com uma carroça. Certifique-se de que as rodas quebrem seu pescoço.
Sherlock teve uma súbita e horrível visão do texugo morto que encontrara do lado de fora do galpão – aquele cuja parte central do corpo fora esmagada por uma carroça. E agora a mesma coisa iria acontecer com ele.
Mãos agarraram seus ombros e o puxaram da cadeira. Ele saiu pela porta aos tropeços, empurrado pelos dois sujeitos que permaneceram atrás dele em silêncio o tempo todo. Sua mente explorou um caleidoscópio de ideias de fuga, mas todas dependiam do primeiro passo: escapar daquelas mãos que o prendiam e empurravam. Os três foram envolvidos por uma luminosidade repentina quando uma porta foi aberta, empurrada por um dos sujeitos que por um instante soltara o ombro de Sherlock. O menino virou-se, dando um chute, na esperança de ferir o outro homem o bastante para que ele soltasse seu ombro, mas seu sapato encontrou apenas a lateral de uma bota de couro e foi rebatido. Um punho surgiu e acertou um lado de sua cabeça. Inúmeras constelações luminosas dominaram sua visão.
A porta da sala escura fechou-se atrás dos três, revelando Matty Arnatt, que estivera escondido e segurava um porrete de metal. Parecia algo que um cavaleiro medieval teria usado no campo de batalha.
Ele bateu com o porrete na cabeça do homem que estava mais próximo. O sujeito caiu com a graça de um saco de carvão arremessado para dentro de um porão. O outro soltou Sherlock e deu um passo na direção de Matty. Seu rosto estava contorcido numa máscara de fúria e sua mão enorme projetou-se rumo à cabeça do menino. Sherlock contornou-o e deu-lhe um soco forte entre as pernas. O homem dobrou-se ao meio, lutando para respirar.
— Por aqui — Matty cochichou, indicando que Sherlock devia segui-lo.
Os dois correram pelos corredores daquela casa desconhecida, com paredes de carvalho escuro, cortinas de veludo negro e estátuas de alabastro incrivelmente branco que retratavam ninfas gregas nuas.
— Onde conseguiu essa clava? — Sherlock gritou enquanto corriam. Ele podia ouvir atrás deles os sons da perseguição.
— Tem armaduras completas e armas medievais espalhadas pela casa toda — Matty gritou de volta por cima do ombro. — Eu só peguei.
— E o que você está fazendo aqui?
— Eu tava na feira. Vi como você foi encurralado naquele ringue. Corri para tentar ajudar, mas dois grandalhões saíram carregando você. Eles o jogaram na traseira de uma carroça e o trouxeram para cá. Eu me pendurei na parte de trás da carroça, onde não me vissem, e saltei quando chegamos aqui. Fiquei procurando você desde então.
— Certo — disse Sherlock. — Onde estamos?
— A uns cinco quilômetros de Farnham. No sentido contrário ao da mansão Holmes. — Matty passou por uma porta simples e entrou no que parecia ser a ala da criadagem, e de lá seguiu por um corredor de tijolos aparentes que dava em uma porta que se abria para o exterior da casa. Eles saíram para o maravilhoso ar fresco e a radiante luz do sol.
— E você não trouxe as bicicletas?
— Como poderia? — Matty gritou, afrontado. — Eu tava pendurado na parte de trás de uma carroça! Ia ser difícil carregar, né?
— Tem razão. — Sherlock olhou em volta enquanto corriam. Estavam nos fundos da casa. Em vez de um jardim, havia além de uma varanda pavimentada e de uma mureta, o campo cheio de colmeias que ele vira antes. — Então, como vamos sair daqui?
— Achei um estábulo, né? — Matty disse, ainda em um tom ofendido. — Tem cavalos lá!
— Não sei cavalgar!
Atrás deles, três homens com máscaras e roupas negras surgiram por uma porta de vidro que devia dar em uma sala de visitas. Eles dispersaram-se em direções diferentes. Um deles viu Sherlock e Matty e gritou.
Matty olhou bravo para Sherlock.
— Bom, cê não vai ter muito tempo para aprender, parceiro! — disse.
Matty correu na frente, contornando a casa. Havia diante deles um grande celeiro. Os meninos atravessaram o campo aberto, ouvindo o rápido tump-tump-tump dos passos atrás deles. Chegaram ao estábulo e passaram velozmente pela porta aberta.
Lá dentro o ambiente era sombrio, e Sherlock precisou de algum tempo para acostumar a vista. Matty, que já estivera ali antes, seguiu direto para o local onde dois cavalos tinham sido amarrados a pilares de madeira fora de suas baias. Ambos já estavam selados.
— Monte — disse Matty. — Use o lado da baia como degrau.
Os passos do lado de fora do estábulo soavam mais próximos. Agarrando a sela do cavalo menor, Matty pôs o pé no estribo e deu impulso, enquanto Sherlock escalava a lateral de madeira da baia com o pé direito, introduzia o esquerdo no estribo do outro animal, uma grande égua alazã, e tentava copiar o movimento ágil de Matty. Ele acabou subindo na sela mais por sorte que por destreza. A égua olhou calmamente para ele; parecia indiferente ao fato de um estranho de repente subir em seu lombo.
— Vamos! — Matty gritou. Ele segurava as rédeas com uma das mãos e desamarrava seu cavalo com a outra. Sherlock segurou suas rédeas e tentou lembrar o que Virginia dissera sobre cavalgar. Guie o animal com os joelhos, não com as rédeas. Use-as para reduzir a velocidade do cavalo.
Sem olhar para trás, Matty atiçou seu cavalo e passou pela porta do estábulo. Ele parecia presumir que Sherlock simplesmente o seguiria. Sherlock soltou a corda que prendia sua montaria. Uma repentina onda de pânico invadiu-o quando ele percebeu que Virginia explicara como conduzir e como parar, mas não como partir. Hesitante, ele pressionou os dois joelhos contra o corpo da égua. Obediente, o animal começou a andar. Sherlock inclinou-se para a frente sobre a sela, para compensar o movimento de balanço. Apertou os joelhos com mais força e tentou sacudir a rédea uma vez. A égua passou a trotar, e então acelerou para um meio-galope. Por que as pessoas faziam com que cavalgar parecesse tão difícil? Tudo se resumia a uma série de sinais e atitudes!
O cenário fora do estábulo atingiu Sherlock como uma explosão de cor e ação. Matty afastava-se em alta velocidade, perseguido por um grupo de homens mascarados que, a pé, ficavam para trás. Dois homens mascarados estavam em pé na frente de Sherlock, tentando impedi-lo de passar. Um deles brandia um revólver. Ele disparou contra Sherlock, que sentiu alguma coisa quente roçar seu cabelo. Ele instigou a égua a um galope. O animal avançou entre os dois homens, jogando-os no chão. Usando os joelhos, ele fez a égua aumentar a velocidade. Quando alcançou Matty, sentia-se como se voasse perto do chão.
Momentos depois eles aproximavam-se do muro que delimitava a propriedade. Devia ter uns três metros de altura. Os dois meninos guiaram seus cavalos em uma curva, dirigindo-se aos portões principais. Os dois animais pisoteavam o chão, e o som dos cascos mudou quando passaram da terra macia para o calçamento da via de acesso. Sherlock sentiu frustração quando viu que os portões principais da propriedade estavam sendo fechados. Dois lacaios mascarados que empunhavam espingardas estavam diante deles, e miravam nos cavalos. Sherlock e Matty puxaram as rédeas. Com um jorro de pedregulhos, os animais derraparam até parar.
Um dos homens atirou. O estrondo ecoou forte por toda a área. Sherlock viu de relance o chumbo passar por eles em uma nuvem que se expandia, como uma explosão de mosquitos.
Usando os joelhos para guiar a égua e puxando instintivamente as rédeas para o lado esquerdo, para enfatizar seu desejo, Sherlock virou o animal. Matty fez o mesmo. Os meninos retomaram o galope. A casa erguia-se diante deles, sombria e proibitiva.
Sherlock olhou rapidamente para a esquerda e para a direita e viu homens mascarados que surgiam dos dois lados da casa, armados com revólveres, espingardas e ancinhos. A única direção a seguir era em frente, para a entrada principal da casa.
Matty começou a reduzir a velocidade. Ele olhou em volta com insegurança.
Sherlock passou por ele galopando e gritando:
— Siga-me!
Direita e esquerda estavam bloqueadas. A traseira também. Ele quase podia ouvir a voz do irmão, Mycroft, dizendo: “Quando todas as opções são impossíveis, Sherlock, fique com a que sobrar, por mais improvável que pareça.”
A égua, intuindo sua intenção, saltou os poucos degraus da varanda na entrada da casa e seguiu, implacável, para as portas da frente.
Sherlock abaixou-se quando a égua passou pela soleira e seguiu pelo saguão, e sentiu o batente superior roçar seu cabelo. Os cascos do animal patinaram e martelaram no piso de ladrilhos, e o menino quase caiu antes de sua montaria recuperar o equilíbrio. A escuridão do interior do saguão confundiu-o por um instante, mas seus olhos ajustaram-se em segundos e ele impeliu o animal a prosseguir, para além da escada de mármore e rumo aos fundos da casa. Lacaios mascarados saíam por várias portas e recuavam em seguida, apavorados com os dois cavalos, que quase ocupavam todo o espaço. Em vez de seguir para a ala da criadagem, Sherlock guiou a égua para a direita, empurrando uma porta que se abria para o que ele suspeitava ser uma sala de visitas, considerando sua localização e comparando-a com a mansão Holmes. E estava certo.
A sala era espaçosa e clara, com grandes portas duplas de vidro que davam para uma varanda. E, como Sherlock lembrava-se do momento em que fugira da casa, as portas estavam abertas!
Em segundos sua égua galopava pela sala em direção à varanda. O menino ouviu um barulho confuso quando o cavalo de Matty derrubou algumas peças da mobília, e em seguida o som dos cascos sobre o piso da varanda.
Adiante, além do campo com as colmeias, Sherlock viu um portão menor, provavelmente uma entrada de serviço, para receber suprimentos e provisões. Parecia desprotegido. Ele fez sua égua correr para lá, a crina chicoteando seu rosto e a brisa soprando em seus ouvidos. As caixas com as colmeias formavam uma espécie de grade geométrica, que os cavalos atravessaram em linha reta. Nuvens de abelhas levantaram voo atrás deles, mas a égua era rápida demais, então elas ficaram voando em círculos confusos.
O portão dos fundos estava fechado, mas foi necessário apenas um instante para que Sherlock desmontasse e removesse a tranca. Então, virou-se e olhou para o terreno da propriedade, enquanto Matty o alcançava a meio-galope. Homens mascarados e armados reuniam-se do outro lado das colmeias. Era evidente que não queriam correr o risco de entrar naquela área. Um ou dois já moviam as mãos no ar, tentando espantar as abelhas irritadas que começaram a atacar o que estava mais perto delas.
— Acho que deu certo — Matty comentou. — Vamos ficar para assistir?
— Não — Sherlock respondeu.

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Boa leitura :)