25 de julho de 2017

Capítulo cinco

MYCROFT E CROWE COMEÇARAM A discutir o horário de embarque e desembarque de vários navios e portos. Sherlock ficou entediado bem depressa. A mente ainda tentava solucionar o problema, encontrar uma resposta que eliminasse a necessidade de Amyus e Virginia Crowe deixarem a Inglaterra.
— Vocês não sabem como os homens são — ele ponderou depois de alguns minutos. — Podem rastreá-los, localizá-los, mas como saberão que os encontraram? Se o que tem as cicatrizes for mantido escondido, os outros serão só três homens no meio de muitos outros passageiros. Não há nada de especial ou singular em nenhum deles, exceto o sotaque, e imagino que o porto de onde parte um navio para a América seja cheio de americanos com sotaque parecido.
— Você pode me contar em detalhes como eles são — sugeriu Crowe. — Já o treinei para olhar as mínimas diferenças que distinguem um rosto de outro: o contorno das orelhas, a raiz do cabelo e o formato dos olhos. Talvez possamos até fazer alguns desenhos com base em sua descrição. Virginia é muito habilidosa com os lápis.
— Não sei se isso vai ser suficiente — Mycroft manifestou-se. — As lembranças de uma testemunha, mesmo alguém observador como meu irmão, podem ser imprecisas, e é comum que a percepção se distorça em situações de forte tensão. Já faz um tempo que me interesso por esse assunto: a maneira como a mente humana é capaz de inventar detalhes e se convencer de que são verdadeiros. Suspeito de que haja muitos inocentes presos nas cadeias da Bretanha por causa desses erros de reconhecimento, e isso acontece frequentemente quando o veredito toma por base a descrição de uma única testemunha. Uma vez informado de que o procurado tem barba, aquele que procura só consegue ver homens com barba. Não, tudo o que Sherlock disser deve ser considerado com parcimônia.
Sherlock quase protestou, quase disse que se lembrava perfeitamente dos quatro homens, mas algo o impediu. Sentia que a discussão começava a favorecê-lo, com Mycroft e Crowe percebendo que o problema era maior do que imaginavam no início, e não queria fazer nada que os levasse a mudar de opinião.
Porém, ao mesmo tempo em que o coração desejava impedir a partida de Amyus e Virginia Crowe, sua cabeça insistia em dizer que isso era importante. Mycroft e Crowe pareciam mais sérios do que jamais os vira. Sherlock não sabia ao certo se entendia todas as possíveis ramificações do que estava acontecendo – como quatro homens, um deles completamente maluco, poderiam afetar a política de toda uma nação? Mas podia perceber que o que estava em jogo ali era muito maior do que seus problemas e dilemas pessoais. Se pudesse ajudar, deveria fazer isso, não importando o quanto lhe custasse.
Essa era uma conclusão estranhamente madura, e ele não gostava das implicações disso.
— Matty também viu os homens — Sherlock falou de repente, quase sem pensar.
— O que quer dizer? — Mycroft perguntou com interesse repentino.
— Estou dizendo que Matty viu o homem que me puxou para dentro da casa, o que pode ser John Wilkes Booth, e depois, quando foi me salvar, viu pelo menos dois dos outros três homens. O que sobra estava inconsciente, nenhum de nós conseguiu vê-lo muito bem. Se querem uma descrição, mas temem que minha memória não seja inteiramente confiável, podemos buscar Matty. Juntos, com certeza forneceremos uma boa descrição, em especial se conversarem com um de cada vez, e não com os dois juntos. Assim, não vamos nos influenciar.
— O garoto tem razão — resmungou Crowe. — Duas cabeças pensam melhor que uma. Talvez eu possa mandar Virginia encontrar o menino. Ela sabe onde fica ancorado o barco em que ele mora. Sim, um desenho baseado nas lembranças de duas testemunhas vai se aproximar mais da verdade do que outro feito a partir do relato de uma só.
Mycroft olhou para Sherlock.
— Entendo que você não queira que o Sr. Crowe e a filha deixem a Inglaterra. Mesmo assim, acaba de nos dar uma sugestão que aumenta a probabilidade de ambos partirem. Está pensando como um homem, não como um menino. Estou orgulhoso de você, Sherlock. E nosso pai também estaria.
Sherlock virou-se para evitar que o irmão visse as lágrimas em seus olhos.
Sem perceber a forte carga emocional do momento entre os dois, Crowe levantou-se da cadeira e caminhou até a porta da casa.
— Ginnie! — gritou depois de abri-la. — Preciso de você! — Ele ficou ali parado por um momento, até ter certeza de que a filha estava a caminho, depois voltou e ficou em pé ao lado da cadeira.
Virginia Crowe apareceu na porta aberta. Ela olhou para Sherlock e sorriu. Como sempre, ele se sentiu fascinado pela quantidade de cores em torno dela – o vermelho do cabelo, o bronzeado da pele, as sardas douradas no nariz e nas bochechas, o tom violeta dos olhos. Ela fazia as outras garotas parecerem desenhos em preto e branco.
— Oi, pai?
— Tenho uma tarefa para você. Quero que vá buscar o menino Arnatt naquele barco onde ele mora. Diga-lhe que preciso fazer algumas perguntas sobre o que aconteceu hoje. Avise que ele não está encrencado, mas explique que preciso de ajuda.
Ela assentiu.
— Quer que eu o traga na garupa de Sandia?
— Assim será mais rápido. O cavalo aguentará o peso sem nenhum problema. O garoto é pequeno.
— Mas corajoso — Sherlock defendeu o amigo.
— Disso não tenho dúvida — Crowe respondeu. Depois olhou para Virginia. — Não perca tempo.
Ela olhou Sherlock mais uma vez como se quisesse perguntar alguma coisa, talvez convidá-lo a ir também, mas virou-se e partiu sem dizer nada. Alguns momentos depois, Sherlock ouviu o relincho do cavalo, o tilintar do metal dos arreios e, finalmente, o retumbar dos cascos batendo no chão, se afastando rapidamente.
Crowe e Mycroft voltaram a discutir formas de atravessar o Atlântico mais depressa do que os americanos. Tudo parecia depender do navio que eles escolheriam e de qual porto zarpariam. Algumas embarcações eram mais velozes que outras. Sherlock ouvia a conversa e compreendeu que alguns navios mais novos não contavam apenas com o vento e as velas para atravessarem o oceano – tinham também com poderosas máquinas a vapor que moviam rodas gigantescas, como as de um moinho de água, com pás de madeira em toda a sua circunferência. O motor fazia girar as rodas, e o movimento das pás na água impelia o navio mesmo sem vento. Havia algum lugar onde a máquina a vapor não podia ir, algum problema que não conseguia resolver? O que viria em seguida? Carroças e carruagens movidas por essas máquinas dominando ruas e estradas, levando pessoas de Londres a Liverpool em poucas horas? E talvez mais longe... O homem um dia poderia chegar à Lua usando máquinas de propulsão a vapor?
Balançando a cabeça para livrá-la desses pensamentos inacreditáveis, ele voltou a ouvir o diálogo entre Mycroft e Amyus Crowe. Os dois adultos discutiam política, viagens e revolução.
A conversa prosseguiu, e Sherlock às vezes a ouvia, às vezes se distraía. Política era algo que ele não conseguia entender, embora, de vez em quando, Crowe fizesse o assunto parecer mais interessante com um exemplo prático, como o número de pessoas que haviam morrido em determinado período ou local, ou como uma cidade específica que fora queimada por inimigos.
Depois de um tempo ele ouviu o som dos cascos batendo na terra, aproximando-se rapidamente. Sherlock correu para a porta, ansioso para rever Virginia e Matty.
Do lado de fora, à luz pálida do entardecer, ele viu Sandia se aproximando. Em cima do cavalo, Virginia e Matty formavam um só contorno e por um instante ele sentiu ciúmes da proximidade dos dois. Mas foi só por um instante.
Porém, quando Sandia aproximou-se, Sherlock compreendeu que o contorno era realmente de uma só pessoa. Virginia. Ela parou o cavalo diante da casa, perto de Sherlock. Seus olhos refletiam apreensão, e os cabelos estavam embaraçados pelo vento.
— Onde está Matty? — Sherlock perguntou.
Ela desmontou e passou por ele correndo, entrando na casa. Sherlock a seguiu.
— Eles levaram Matty! — a menina gritou.
— Como assim? — Mycroft levantou-se repentinamente.
— Fui até o barco e o convenci a vir comigo — ela relatou apressada. — Já estávamos a caminho daqui, na estrada, quando encontramos uma árvore caída, impedindo a passagem. Ela não estava ali antes, eu juro. Pensei em saltar o obstáculo, mas com Matty atrás, tive medo de não conseguir. Então, parei para ver se conseguíamos mover o tronco. Foi quando os dois homens saíram do bosque. Deviam estar escondidos. Um deles bateu na cabeça de Matty. Acho que ele perdeu a consciência, porque parou de lutar. O outro tentou me pegar, segurou meu cabelo, mas mordi a mão dele e aproveitei para correr. Pulei na sela e fugi. Quando olhei para trás, os dois homens carregavam Matty. — Ela estava pálida e nervosa. — Eu o deixei lá! — gritou, como se só nesse momento percebesse o que estava acontecendo. — Devia ter voltado para resgatá-lo ou ter ficado com ele.
— Se não tivesse fugido, eles a teriam capturado também — Crowe respondeu. Ele se aproximou da filha e a abraçou. — Graças a Deus está segura.
— Mas... e Matty? — gritou Sherlock.
— Vamos encontrá-lo — prometeu Mycroft. — É óbvio que...
Antes que conseguisse completar a frase, houve um estrondo de vidros se quebrando e alguma coisa entrou pela janela, aterrissando no chão com um baque. Crowe foi correndo abrir a porta. Sherlock ouviu o galope de um cavalo se afastando. Crowe praguejou com violência. Foi uma explosão com palavras que Sherlock nunca ouvira, embora pudesse deduzir seu significado.
Sherlock se abaixou para pegar o objeto que havia sido arremessado pela janela. Era uma pedra bem grande, quase do tamanho de dois punhos unidos. Em volta havia uma folha de papel presa com um barbante.
Mycroft pegou a pedra das mãos de Sherlock e a pôs sobre a mesa. Rapidamente, pegou uma faca e cortou o fio.
— É melhor preservar os nós — disse a Sherlock sem se virar para encará-lo. — Podem nos dizer coisas interessantes sobre o homem que os fez. Marinheiros, por exemplo, usam toda uma coleção de nós espetaculares que a população em geral desconhece. Se tiver alguns dias de folga, sugiro que aproveite esse tempo para estudar nós.
Deixando o barbante de lado, possivelmente para uma análise posterior, ele removeu o papel da pedra e o alisou sobre a mesa.
— É um aviso — disse a Crowe. — “Estamos com o menino. Pare de nos perseguir. Não tente nos seguir. Se nos deixar em paz, ele será devolvido daqui a três meses, ileso. Se insistirem, ele será devolvido também, mas em pedaços e ao longo de algumas semanas. Estão avisados.”
Crowe amparava Virginia.
— Imaginam que Matty seja meu filho, é claro — ele disse —, porque o viram no cavalo com Ginnie. Mas vão perceber o erro em breve, assim que o ouvirem falar alguma coisa.
— Não necessariamente — respondeu Mycroft. — Eles não sabem há quanto tempo você está na Inglaterra. Na verdade, não devem saber nem que você é americano. Acho que o jovem Matthew está seguro, por enquanto. Muito bem, o que podemos deduzir a partir do bilhete?
— Esqueça o bilhete! Temos que ir atrás deles! — Sherlock gritou.
— O menino tem razão — Crowe resmungou. — Existe um tempo para análise e um tempo para ação. Agora é hora de agir. — Ele se afastou de Virginia com muita delicadeza. — Vocês ficam aqui. Nós vamos atrás deles.
— Eu também vou — Sherlock anunciou com determinação. Quando Crowe abriu a boca para argumentar, ele disse: — Matty é meu amigo, e eu o meti nessa encrenca. Além disso, mais gente pode cobrir um território maior em menos tempo.
Crowe olhou para Mycroft, que deve ter assentido imperceptivelmente, porque o tutor disse:
— Tudo bem, rapaz... Vamos partir agora.
Crowe se dirigiu à porta, e Sherlock o seguiu.
Do lado de fora, Crowe selou um cavalo e preparou outro para Sherlock. Quando o menino montou, o tutor já se afastava a galope.
Sherlock o seguiu galopando também.
O sol descia para o horizonte velado por uma camada de nuvens finas e era possível olhar diretamente para ele, como uma bola de luz vermelha. Crowe continuava galopando. Sherlock se esforçava para acompanhá-lo. O impacto dos cascos no solo reverberava na coluna do garoto, uma vibração constante que dificultava a tarefa de encher completamente os pulmões com ar.
Como Crowe sabia em que direção seguir?, ele se perguntava. Devia ter calculado rapidamente qual era a estrada mais provável para se sair de Farnham em direção à costa. Southampton seria o local óbvio para a partida, se queriam ir para a América. Mas Crowe podia estar enganado – os homens podiam ter planos de embarcar em Liverpool, viajando de trem desde Londres, o que significava que deixariam Farnham por outro local, e agora estariam indo por outra direção. Pela primeira vez Sherlock percebeu que o raciocínio lógico tinha limites, e só muito raramente produzia uma resposta única e definitiva. Era mais frequente que houvesse várias respostas possíveis, o que tornava necessário outro jeito de escolher entre elas. Podia ser intuição ou dedução, mas não era lógica.
Casas iam ficando para trás depressa demais para serem reconhecidas. Ao longe, Sherlock viu uma construção de pedras em uma colina: Castelo Farnham, talvez? O vento assobiava em seus ouvidos e gelava suas orelhas, apesar do calor daquele dia. Tinha a impressão de poder ouvir o eco do retumbar dos cascos de seu cavalo, mas não havia nada que pudesse provocar esse efeito. Sherlock olhou por cima do ombro e descobriu que Virginia os seguia. Ela abriu um sorriso e ele retribuiu. Devia ter imaginado que ela não ficaria longe da ação; Virginia era realmente diferente de todas as garotas que ele conhecia.
Os três percorreram enfileirados a região de pequenos chalés. Pessoas corriam para sair do caminho dos cavalos. Sherlock ouvia as vozes alteradas que eles deixavam para trás. Adiante, a estrada estava vazia até onde podiam vê-la, antes de uma curva acentuada esconder o próximo trecho. Por mais quanto tempo Crowe continuaria cavalgando até perceber que seguiam na direção errada?
Virginia alcançou Sherlock. Os olhos dela brilhavam. Sherlock suspeitava de que ela se divertia, apesar da urgência da missão. Ela amava cavalgar, e aquela era uma chance de se entregar à atividade como jamais fizera antes.
Lá na frente, um tanto além do corpo largo e forte de Amyus Crowe e de seu chapéu branco de aba larga, que continuava em sua cabeça apesar da velocidade do galope, Sherlock de repente avistou uma carruagem. Ela balançava perigosamente enquanto seguia pela estrada aos solavancos, as rodas saindo do chão por alguns instantes em uma curva. Acima, Sherlock teve a impressão de ver a linha fina de um chicote que exigia esforço máximo dos cavalos. Estaria Matty naquela carruagem? O condutor parecia muito empenhado em alcançar mais velocidade. Se não eram os americanos lá dentro, mais alguém estava suficientemente desesperado para deixar Farnham, tão desesperado que arriscava a vida por isso.
Sherlock também exigia mais velocidade do cavalo que correspondia. A distância entre ele e Crowe ia diminuindo, e já era possível enxergar melhor a carruagem. Tinha quatro rodas e era puxada por dois animais; todo o conjunto balançava com força quando as rodas passavam por buracos, saliências e pedras na estrada.
Virginia seguia à esquerda de Sherlock. Seus dentes estavam expostos no que parecia ser um sorriso, mas que o garoto apostava ser na verdade uma expressão de raiva e determinação.
Ele olhou para a direita, para o pai de Virginia. Os olhos dele estavam fixos na carruagem adiante, e havia tamanha força naquele olhar que por um momento Sherlock sentiu medo. Sempre pensara em Amyus Crowe como um cavalheiro para quem a lógica e a observação dos fatos eram mais importantes que tudo, mas Virginia já havia contado que o pai era um caçador de homens na América, e que nem sempre os entregava vivos. Olhar para ele agora era suficiente para acreditar nessa história. Nenhuma força na Terra podia deter um homem com aquele olhar.
O cavalo de Crowe espumava, de tanto que ele exigia do animal. Pequenas gotas eram levadas pelo vento para trás, para longe.
A estrada virava à direita, e a carruagem fez a curva sem diminuir a velocidade. As duas rodas da direita saíram do chão e o veículo quase tombou, mas os ocupantes devem ter jogado o peso para o lado contrário, porque a carruagem de repente se inclinou e as rodas bateram novamente na estrada.
Sherlock, Crowe e Virginia também fizeram a curva, os cavalos inclinados para o canto para não derraparem. À frente, conforme eles ergueram o corpo de novo, Sherlock viu uma carroça carregando feno recém-cortado indo em direção à carruagem. O condutor gesticulava desesperado para fazer a carruagem sair do caminho, mas deve ter percebido que era tarde demais, porque puxou as rédeas e levou a carroça para fora da estrada, caindo em uma vala. A carruagem nem ao menos reduziu a velocidade e não se chocou com a traseira da carroça por centímetros. Momentos depois Sherlock, Crowe e Virginia também passaram galopando pelo local. Sherlock olhou para o lado, para se certificar de que o condutor estava bem. De pé, na frente da carroça, o homem gesticulava furiosamente. Na velocidade em que o trio galopava, logo ele ficou para trás e tornou-se apenas um fragmento de lembrança.
Um movimento na lateral da carruagem chamou a atenção de Sherlock. Um homem se debruçou na janela com uma espécie de bastão nas mãos. Sherlock achou que era um dos homens da casa em Godalming, mas não podia ter certeza. O homem apontava o bastão para trás, na direção da estrada, e uma chama brotou repentinamente da extremidade. Ele estava segurando um rifle!
Sherlock não saberia dizer para onde foi a bala. A carruagem sacudia tanto na escuridão da noite que era impossível ter uma mira precisa, mas isso não queria dizer que o homem não pudesse ter atingido um deles, ou um dos cavalos, acidentalmente.
Outro tiro, e dessa vez Sherlock teve a impressão de ouvir o zumbido da bala passando por ele; um zumbido furioso, como o de uma vespa pronta para atacar.
Crowe tentou fazer o cavalo correr ainda mais e por um momento conseguiu se aproximar da carruagem. Segurava a rédea com uma das mãos, enquanto a outra estava no cinto da calça. Ele sacou a pistola e apontou-a para o homem debruçado na janela. Então atirou, e o coice empurrou seu braço para trás e deslocou seu corpo na sela. O homem com o rifle voltou para dentro da carruagem. Sherlock não conseguia dizer se ele estava ferido ou apenas se escondendo.
Agora eles corriam ao longo de um rio. Uma luz prateada era refletida pela superfície da água.
O homem com o rifle apareceu outra vez, na mesma janela, mas agora olhava para a frente. Ele apontou o rifle e puxou o gatilho. Mais uma vez, a chama alaranjada brotou do cano como uma flor exótica no deserto. Confuso, Sherlock chegou a pensar que ele atirava contra os cavalos que puxavam a carruagem, mas os disparos passaram por cima da cabeça dos animais! Sherlock então percebeu que ele queria assustar os cavalos, fazê-los correr ainda mais. E o truque parecia estar surtindo o efeito desejado. A distância entre o veículo e o trio que o perseguia aumentava rapidamente. Não conseguiriam manter o ritmo por muito tempo, porque os animais ficariam exaustos, mas era evidente que o homem tinha outra coisa em mente.
O atirador desapareceu mais uma vez dentro da carruagem, mas só por um momento. De repente, a porta se abriu e ele se jogou. Havia calculado a manobra com perfeição, porque caiu entre os juncos e o mato à margem do rio. Não era possível vê-lo, mas Sherlock conseguia acompanhar seus movimentos pelas brechas entre as plantas. Além disso, a vegetação alta o atrasava.
Crowe reduziu o galope por um momento, sem saber o que fazer, mas decidiu seguir em frente, indo atrás da carruagem, não do fugitivo. Mas Sherlock viu o homem emergir do meio dos juncos, ensopado e com ferimentos no rosto, provocados pelo choque com as plantas.
Ele segurava o rifle nas mãos. Levantou-o quando Crowe se aproximou, mirou cuidadosamente e disparou.
No mesmo instante em que o clarão brotou do cano da arma, Crowe levantou os braços e caiu do cavalo, para trás. Seu ombro direito chegou ao chão primeiro, e ele rolou pela estrada de terra algumas vezes antes de ficar imóvel, coberto de poeira. A montaria seguiu adiante, mas sem Crowe para manter o galope frenético o animal agora trotava devagar, diminuindo a velocidade até que parou. O cavalo continuava olhando para a carruagem que se afastava, como se tentasse entender o motivo de tanta pressa.
Virginia gritou:
— Pai!
Ela freou o cavalo e pulou da sela, correndo para perto do homem caído na estrada, sem pensar no atirador que acompanhava seus movimentos.
E já levantava o rifle.
Tudo isso aconteceu no espaço de poucos segundos. Sherlock enterrou os calcanhares nos flancos do animal, que se lançou para a frente.
— Abaixe-se! — ele gritou.
Virginia olhou por cima do ombro, viu o cavalo correndo em sua direção e se jogou no chão. Quando ela rolou na terra, Sherlock puxou as rédeas. O cavalo saltou sobre a menina, dando a impressão de voar, apesar da gravidade.
As patas dianteiras tocaram o chão com força, o animal tropeçou e no mesmo instante o segundo tiro soou. Sherlock nem ouviu o disparo. Foi arremessado da sela, passando por cima da cabeça do animal. Sua mente estava tomada por completo pela enormidade do chão que se aproximava depressa. Foi como se o tempo se multiplicasse, e ele se descobriu tentando adivinhar se racharia o crânio ou se quebraria as duas pernas primeiro. Alguma coisa o fez se encolher, aproximar a cabeça do peito e envolvê-la com os braços, puxar os joelhos até o abdome. Ele caiu e rolou pelo chão, sentindo as pedras ferirem suas costelas, as costas e as pernas. O mundo rodava à sua volta, uma sequência interminável de claro, escuro, claro. Ele perdeu o senso de direção. Não sabia mais onde estava.
Depois de uma eternidade, Sherlock parou. Levantando a cabeça com todo o cuidado, tentou descobrir onde havia parado. Tudo estava confuso, nebuloso, e ele tinha a sensação de que parte de seu corpo ainda estava rolando, rolando e rolando, apesar de as pedras sob suas mãos e joelhos comprovarem que estava parado. Seu estômago se retorcia, e ele teve de fazer esforço para não vomitar. Sentia muitos arranhões e cortes pelo corpo todo arderem.
Já distante, a carruagem na qual Matty era mantido prisioneiro desaparecia em uma nuvem de poeira.
Uma sombra caiu sobre ele. Sherlock levantou os olhos. O homem com o rifle estava em pé a seu lado. Não tinha certeza, mas podia ser aquele que ele vira inconsciente na casa, o que havia sido agredido por John Wilkes Booth. Os outros o chamaram de Gilfillan. Sua cabeça tinha um curativo, e seus olhos estavam cheios de ódio.
— Qual é o problema com vocês, garotos? — ele perguntou, levantando o rifle. — Causaram mais confusão para nós na última semana do que todo o Exército da União desde o fim da guerra!
— Devolva meu amigo — Sherlock rosnou, levantando-se depressa.
— Você fala demais para alguém que vai estar morto em um minuto — o homem respondeu sorrindo. — Pegamos o garoto para impedir que você e o homem do chapéu branco viessem atrás de nós, mas parece que não funcionou. Então vou ter que matar todo mundo agora e mandar um telegrama para Ives dizendo que pode matar o garoto, já que não precisamos mais dele. — O homem tirou o dedo do gatilho para mostrar o dorso da mão a Sherlock. Havia sangue, e uma marca vermelha, que pareciam dentes, entre o polegar e o dedo indicador. — Aquela garota me mordeu! — ele anunciou, incrédulo.
— Sim, aposto que isso acontece muito com você — Sherlock respondeu, levando a mão às costas para remover as pedras que haviam ficado grudadas em sua pele depois do tombo. Ele as arremessou contra Gilfillan, atingindo-o no rosto e no olho esquerdo. O homem levou as duas mãos ao rosto soltou o rifle, que quicou duas vezes no chão. Sherlock correu para pegar a arma, mas o homem chutou-a para longe. Sua mão agarrou o cabelo de Sherlock e torceu-o. Sherlock gritou com uma mistura de raiva e dor e atacou o homem com o pé. A bota encontrou a canela de Gilfillan, que soltou seu cabelo. Sherlock olhou em volta tentando encontrar o rifle. Ele e o americano viram a arma ao mesmo tempo e mergulharam juntos na ânsia de pegá-la. Sherlock foi mais rápido, segurando o cano da arma e rolando no chão enquanto o homem praguejava.
Os dois ficaram ali por um momento, sem fôlego. O homem limpou a boca com as costas da mão.
— Você não tem coragem para isso — ele disse. — Vou pegar esse rifle e dobrá-lo em volta de seu pescoço e sufocá-lo até arrancar a vida desse seu corpo magrelo.
Ele deu um passo à frente, e Sherlock levantou o rifle em uma atitude ameaçadora.
— Não... — disse.
O homem continuou se aproximando. Com um sorriso intimidante, ele estendeu as mãos para agarrar Sherlock.

2 comentários:

  1. uhuuu vai lá Sherlock !! Solta as franga!! Não me decepciona! Da uns tiro nesse capeta.

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  2. Nãaaaooo!! Matty!!! Virginia me lembra mto a Hazel de HDO! Amo. Como Hunter, fã de SPN formada em 12 temporadas, to lendo "Crowley" desde o primeiro livro. Não consigo evitar.

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Boa leitura :)