16 de julho de 2017

Capítulo cinco

DE SUA POSIÇÃO SOBRE O muro, Sherlock podia ver toda a extensão do pátio. Não havia ninguém por perto. Um edifício de apenas um andar, sem janelas – que mais parecia um celeiro – dominava o terreno, e a área em torno dele era coberta de mato e terra. Vários sulcos deixados por rodas ligavam as enormes portas de madeira do edifício ao portão. Alguns eram pouco mais que arranhões na terra, enquanto outros eram profundos e ainda continham água das últimas chuvas. Sherlock deduziu que carroças e outros veículos do tipo chegavam ao local com pouca carga, leves, deixando os sulcos superficiais, e partiam transportando algo pesado, o que os fazia afundar mais no solo fofo. Mas o que seria produzido ou estocado naquele galpão? Teria alguma relação com a morte do homem que Matty vira e com o pó amarelo?
Sherlock passou uma perna por cima do muro, preparando-se para descer, mas um som repentino o fez recuar rapidamente. Alguma coisa escura e veloz surgiu das sombras em torno do edifício e movia-se sobre patas muito ágeis. Sherlock viu uma cabeça grande e forte com orelhas pequeninas voltadas para trás, e um corpo coberto de pelos curtos e eriçados. O cachorro não latiu, apenas grunhiu – um som profundo e áspero como o de um serrote cortando madeira dura. Saliva pingava das presas expostas do animal. Ele parou bem embaixo de onde Sherlock estava e ficou olhando para ele atentamente e com a cauda baixa, inquieto em suas patas curtas e parrudas.
Sherlock precisava entrar naquele galpão. Havia um enigma ali dentro, e ele odiava enigmas sem solução. Mas o cachorro parecia faminto e treinado para ser agressivo.
O menino olhou para trás, para o outro lado do muro, por onde tinha subido. Haveria outra entrada? Era pouco provável, e, agora que já o farejara, o cachorro simplesmente o seguiria até lá. Seria possível travar amizade com o animal? Também improvável; ele precisaria descer do muro, e o castigo em caso de fracasso era terrível demais de imaginar. Poderia encontrar uma pedra grande ou um tijolo para jogar no animal, mas isso parecia uma brutalidade desnecessária. Seria possível drogá-lo de alguma maneira? Talvez pudesse voltar ao mercado de Farnham e comprar um pedaço de carne com o pouco dinheiro que tinha, mas e daí?
Estudou o terreno dos dois lados da muralha, procurando algo que pudesse ser útil. Na esquina, onde a muralha encontrava o chão, perto do portão, viu algo que parecia ser um chapéu de pele abandonado. Era o texugo morto que vira mais cedo. Às pressas, ele praticamente saltou do muro, quase caindo, e correu até onde estava o cadáver do animal e o recolheu. O pelo estava seco e sujo, e o corpo não pesava quase nada, como se a centelha de vida que o deixara no momento da morte tivesse de fato alguma massa. Sherlock sentia um repugnante cheiro rançoso. Murmurando um pedido de desculpas, abaixou-se ligeiramente, esticou o braço e lançou o corpo por cima do muro. Os membros duros abriram-se durante o voo, enquanto o animal girava no ar. Ele desapareceu além do muro, e Sherlock ouviu o baque causado pela queda do corpo, quando ele encontrou o chão. Segundos depois, veio o ruído que ele esperava escutar: patas correndo na terra seca e rosnados, enquanto dentes rasgavam a carne do animal morto. O garoto rapidamente voltou a subir no muro e deu uma olhada. O cão segurava o texugo com as patas dianteiras e sacudia-o de um lado para o outro com suas mandíbulas poderosas, arrancando pedaços de carne. Quando Sherlock saltou para o chão, o animal parou subitamente, olhou desconfiado em sua direção, e voltou a atacar o bicho morto. Ou decidira que o garoto era seu amigo, por ter lhe fornecido um brinquedo muito divertido, ou optara por deixá-lo para a sobremesa. Sherlock torcia muito para que a primeira opção fosse a correta.
Sem perder tempo, antes que o cachorro dilacerasse o corpo do texugo e perdesse o interesse pelo animal, Sherlock correu pelo terreno até o celeiro. Havia uma porta lateral em uma das paredes, e ele a entreabriu. Silêncio e escuridão. Empurrou a porta um pouco mais e entrou, fechando-a atrás de si.
Foram necessários alguns instantes até que os olhos de Sherlock se adaptassem à escuridão, mas depois ele viu que o espaço no interior do edifício era iluminado por claraboias. A luz do sol penetrava pelo vidro sujo, criando pilares diagonais luminosos que pareciam sustentar o teto como um andaime ilusório. O lugar cheirava a terra seca e a suor, mas por trás havia outro odor, de algo doce e floral. Havia pilhas de caixas e engradados em vários pontos do espaço interno, e do outro lado do galpão inúmeros homens carregavam essas caixas até uma carroça. O homem que ele seguira por Farnham era um deles. O saco de lona que ele estivera carregando fora largado no chão ali perto. Um cavalo tinha sido atrelado à carroça e comia feno tranquilamente de um bornal amarrado à sua cabeça. Uma segunda carroça estava parada em um canto do galpão, vazia e com os varais apoiados no chão.
Caixas vazias de madeira tinham sido empilhadas grosseiramente em um canto, e Sherlock moveu-se silenciosamente até esconder-se atrás delas. Observou com atenção enquanto os homens colocavam na carroça o que parecia ser o último carregamento: eles reclamavam e esbarravam uns nos outros enquanto levavam, uma a uma, as caixas para o veículo. A julgar pela sujeira nas roupas e pelo suor nos rostos, o grupo devia estar trabalhando daquela maneira havia um bom tempo.
O homem que Sherlock seguira pela cidade ajudou com a última caixa, depois esfregou as mãos e as limpou no colete como se tivesse trabalhado ali o dia todo. Suas mãos deixavam manchas amarelas à medida que o pó – o que quer que fosse – transferia-se para o tecido áspero. Um dos outros homens – um grandalhão de cabeça rapada, com tatuagens que cobriam os braços como mangas até os pulsos e uma lamparina a óleo presa ao cinto – olhou para ele com escárnio.
— Gostou da excursãozinha? — perguntou com interesse debochado.
— Ei, eu também estava trabalhando — respondeu o primeiro.
— Que história é essa sobre a casa de Wint?
O recém-chegado balançou a cabeça.
— O barão tinha razão. Ele tava roubando nossas coisas pra vender. Tinha uma pilha de jaquetas e calças do lado da cama dele.
— Alguém te viu?
— Ninguém. Fiz como um rato.
— Pegou tudo?
O homem moveu a cabeça indicando o saco de lona.
— Recolhi tudo e pus ali dentro.
— Tudo bem, joga na carroça também.
Quando o recém-chegado foi pegar o saco, seu colega grandalhão perguntou:
— Queimou a casa de Wint?
O recém-chegado balançou a cabeça.
— Não achei que precisasse.
O grandalhão deu de ombros.
— Pode explicar isso ao barão quando o vir.
— Ei, Clem, não vamos usar a outra — um homem gritou, apontando a carroça vazia.
O grandalhão se virou para os trabalhadores.
— Deixem aí — disse. — É bem provável que ela tenha sido só uma garantia, o barão não gosta de correr riscos. Cauteloso, esse barão. — E virou-se novamente para o recém-chegado, apontando para as manchas amarelas em seu colete. — Tem um pouco daquela coisa em você. A casa de Wint também deve estar contaminada. O barão vai querer que ela seja queimada, como este lugar aqui. Sumir com todas as evidências.
O recém-chegado olhou para seu colete.
— O que é isto? — perguntou.
O outro riu, emitindo um som que era uma mistura de ronco e tosse.
— Melhor não saber — disse.
O recém-chegado olhou para as próprias mãos. Depois encarou novamente o grandalhão, e seu rosto empalideceu.
— Ei, Clem, isso significa que o que aconteceu com Wint vai acontecer comigo?
Clem balançou a cabeça.
— Não se você lavar tudo direito, como o barão disse para fazer. — Ele olhou para os outros homens, que, agora que todas as caixas já estavam na carroça, conversavam.
— Muito bem, cambada... Hora de ir. Martin e Joe, vocês vão na carroça. Sabem para onde levá-la. Stouffer e Flynn, vocês vão atrás do barão. — Ele olhou para o recém-chegado. — Denny, você e eu vamos dar um jeito aqui. Vamos queimar tudo. O lugar é tão grande, que não temos como saber o que poderíamos deixar pra trás.
O recém-chegado – Denny – olhou em volta pelo galpão.
— Precisamos mesmo? — perguntou com tom de lamúria. — Pense no que podemos fazer com este lugar quando o barão não mais precisar dele. Montar um negócio, talvez, ou abrir a maior taverna da região. Podemos ter garotas cantando, dançando e tal. Acho uma pena queimar tudo assim.
O rosto de Clem contraiu-se numa expressão ameaçadora.
— Se quiser explicar esse seu plano para o barão, fique à vontade. Vou seguir as instruções que recebi.
Denny parecia encolher sob o olhar intenso do outro homem.
— Eu só tava perguntando — ele disse.
Um dos homens perto da carroça ergueu a mão para chamar a atenção de Clem.
— Quando vamos receber? — ele gritou.
— Quando tudo for entregue — Clem grunhiu. — Vamos nos encontrar amanhã na taverna da Molly, todos nós. Vou pegar o dinheiro com o barão, e lá dividimos.
— E como vamos saber que você vai estar lá? — outro homem perguntou, começando a levantar a mão, mas mudando de ideia de repente.
Clem o olhou com desdém.
— O barão está comprando nosso silêncio, não esqueçam. O de vocês e o meu. Se vocês não forem pagos e decidirem contar a alguém sobre o que estávamos fazendo, o barão virá atrás de mim, e isso é algo que não quero que aconteça. Todos serão pagos de acordo com o combinado, certo?
O homem assentiu, convencido.
— Certo.
Sherlock encolheu-se ainda mais atrás da pilha de engradados quando os homens começaram a se dispersar: dois deles subiram na carroça; outros dois abriram o portão de madeira para a passagem do veículo, enquanto Clem supervisionava a operação e Denny ficava à toa, aparentemente perdido. O homem que conduzia a carroça estalou a língua e cutucou o lombo do cavalo com uma vara, e o animal começou a andar, ainda comendo de seu bornal.
Clem caminhou até o grande portão de madeira, e a lamparina presa ao cinto batia contra sua coxa a cada passo. Sem olhar para trás, apontou o polegar para onde Sherlock estava escondido.
— Tranque aquela porta — grunhiu. — Depois venha me encontrar aqui na frente.
Sherlock sentiu o coração dar um pulo no peito quando Denny começou a andar na direção de seu esconderijo. Se ele contornasse a pilha de caixas, certamente o veria, e, se isso acontecesse, Sherlock sabia que não teria muitas chances de sobrevivência. Mudou de posição, preparando-se para correr. Seria capaz de chegar à porta lateral antes que Denny o alcançasse? Não tinha certeza, mas estava ainda menos certo de que houvesse alternativa.
Denny aproximou-se das caixas, acompanhado pelo cheiro de suor e sujeira de suas roupas sujas, e Sherlock olhou rapidamente para Clem, tentando determinar se o grandalhão estava perto o bastante para ajudar Denny a capturá-lo. Clem estava quase no portão principal. Sherlock se abaixou rapidamente e contornou a pilha de caixas. Quando Denny passou, ele voltou para a parte de trás da pilha. Se Clem virasse a cabeça antes de passar pelo portão, veria Sherlock claramente. Mas ele não se virou. Sherlock prendeu a respiração e observou Clem, que já desaparecia lá fora, na luz radiante do sol vespertino. Momentos depois, uma das portas começou a ser fechada; a madeira pesada arrastava a terra do chão e as dobradiças enferrujadas rangiam.
Sherlock olhou por cima das caixas. Denny acabara de verificar se a porta lateral por onde ele entrara estava devidamente fechada e já se preparava para colocar as travas que impediriam que alguém entrasse por ali. Assim que ele fosse embora, Sherlock poderia remover as barras, abrir a porta e fugir.
Denny pegou um cadeado no chão e colocou-o em um orifício da trava superior, passando-o também por um anel de metal preso ao batente da porta. O cadeado foi fechado com um clique definitivo. Denny retirou a chave e guardou-a no bolso, e então se virou, assobiando, e atravessou o galpão.
Sherlock sentia o coração disparado no peito e suas mãos suavam frio. Lançou um breve olhar para trás, para a porta trancada com o cadeado, que parecia sólido. Não poderia sair por ali – pelo menos, não rapidamente, e não sem fazer muito barulho. Teria de esperar até que Denny e Clem fossem embora, e depois mais cinco minutos, para então sair pelo mesmo portão que eles tinham usado.
Denny passou pela saída quando Clem já empurrava a outra porta pelo lado de fora. O retângulo de luz que penetrava no galpão foi ficando mais e mais estreito, e diminuiu até virar uma barra, uma linha, e depois nada. As portas se fecharam com um baque.
E o ânimo de Sherlock encolheu e escureceu como a luz quando ele ouviu o som inconfundível de uma pesada barra de madeira sendo posicionada para travar as portas. Não havia por onde sair!
Por um momento ele podia ouvir os dois homens conversando lá fora, mas não conseguia escutar o que diziam. Levantou-se, preparado para ir até a porta principal e tentar entender as palavras, mas um ruído súbito o fez parar.
Era o som da lamparina de Clem sendo quebrada contra a porta.
Vidro estilhaçado, o líquido se espalhando pela madeira. Um instante de silêncio e, em seguida, um estalo terrível quando as chamas do pavio da lamparina encontraram a madeira ensopada de óleo.
Clem e Denny tinham ateado fogo ao galpão.
O pânico ameaçava dominar Sherlock. Ele queria fugir, mas não sabia para onde, e ficou balançando-se para a frente e para trás, tremendo, sem sair do lugar. Sentiu um gosto metálico na boca, e seu coração batia tão depressa, que ele podia sentir o ritmo nas têmporas e na garganta. Por um minuto, aproximadamente, não conseguiu raciocinar, não conseguiu ligar duas ideias de forma sensata, mas, aos poucos, sufocou o pânico ao repetir para si mesmo que tinha de haver uma saída. Ele só precisava descobrir qual era. Sentiu o coração disparado acalmar-se aos poucos, até voltar ao normal, e o tremor nos braços e nas pernas diminuir lentamente.
O cheiro da fumaça já invadia o galpão. Pequenas chamas começavam a encontrar brechas para penetrar no espaço abafado, passando pelas junções entre as tábuas do portão como se fossem dedos curiosos.
Pense, Sherlock disse a si mesmo. Pense mais que nunca.
Olhou em volta atentamente. A maior parte das caixas fora levada por Clem e pelos outros homens, e Sherlock continuava sem saber o que havia nelas. Os engradados atrás dos quais ele se escondera continuavam empilhados perto da porta lateral, mas estavam vazios.
Ele correu até o outro lado do galpão e jogou-se contra a parede de madeira, usando o ombro. A madeira tremeu com o impacto, mas nada se quebrou nem se entortou. Tentou mais uma vez. Nada. Se ele queria abrir um buraco na parede, precisaria de um machado, um martelo ou alguma outra coisa. Não de um ombro.
Desesperado, Sherlock olhou em volta em busca de alguma ferramenta que pudesse usar para quebrar a parede ou soltar as tábuas, e viu a segunda carroça, que fora deixada para trás. Ela parecia estar em perfeitas condições de funcionamento, e Clem dissera que teria sido usada se houvesse mais caixas para transportar. Sherlock poderia utilizá-la para fugir? Conseguiria ao menos movê-la?
Só havia um jeito de descobrir. Ele correu até o veículo e agarrou uma das varas que servem para atrelar os cavalos às carroças. Levantou-a com facilidade. Tentou puxá-la, mas o veículo não saiu do lugar. Puxou de novo, com mais força, e a carroça moveu-se ligeiramente, mas a segunda vara ainda estava apoiada no chão do galpão, e o esforço de Sherlock só fazia com que ela mergulhasse cada vez mais na terra e travasse o veículo.
Lógica. Use a lógica. Se não conseguia puxar a carroça, talvez pudesse empurrá-la. Sherlock soltou a vara e apoiou todo o peso do corpo contra a frente da carroça, onde se sentaria o condutor. E conseguiu movê-la! A carroça andou alguns centímetros para trás! Ele deu graças a qualquer divindade que o estivesse protegendo, pois a cautela do misterioso barão, quem quer que fosse, conseguiu impressionar de tal forma seus seguidores, que eles não só haviam providenciado uma carroça reserva, como também engraxaram bem seus eixos. Sherlock recuou alguns passos para correr e jogou todo o peso do corpo contra o veículo, batendo o ombro com força na madeira. Era o mesmo ombro que usara contra a parede do galpão, e ele sentiu uma onda de dor espalhar-se por seu braço e pelo pescoço, mas a carroça movimentou-se mais um tanto antes de parar novamente.
A fumaça já envolvia Sherlock, fazendo seus olhos arderem. Ele virou-se e viu as chamas, que subiam pelo portão principal e atingiam o lintel. De acordo com a lógica, o portão estaria enfraquecido pelo fogo e seria o lugar preferível para tentar arrebentar com o peso da carroça, se Sherlock conseguisse empurrá-la com velocidade suficiente e por toda aquela distância, mas ele teria de virá-la naquela direção, e, além disso, as chamas o amedrontavam. Sua única chance realista seria tentar empurrar a carroça contra a parede do outro lado do galpão.
Ignorando a dor que se espalhava pelo ombro, Sherlock apoiou as mãos na frente da carroça e cravou os pés na terra macia do chão, flexionando os joelhos. Seu corpo estava quase na horizontal, e ele empregou toda a sua força – mais do que jamais usara, até mesmo nos jogos de rúgbi no campo em Deepdene; mais do que empregara no ringue de boxe, no ginásio da escola. Por um momento teve a sensação de que seu corpo estava suspenso entre dois objetos inabaláveis, mas logo a carroça começou a mover-se. Uma das rodas encontrou um obstáculo – uma pedra ou um monte de terra – e o veículo quase voltou à posição inicial, mas Sherlock fincou os pés no chão e empurrou até que os músculos gritassem. A roda passou por cima do obstáculo e depois começou a ir para trás com mais e mais facilidade. Sherlock moveu o pé esquerdo, dando um passo bem grande, em seguida moveu o direito. Seus pés pisavam firmemente a terra, e ele aplicava toda a sua energia à carroça, tirando-a do lugar pouco a pouco. Como uma locomotiva, ela ganhava velocidade à medida que se movimentava. Em poucos segundos, o arrastar sofrido tornou-se um andar lento, depois um andar rápido e, finalmente, um trote.
Sherlock sentiu algo estalar em seu ombro, um tendão sendo distendido como a corda de um violino puxada por um dedo. O braço quase pendeu inerte e sem forças, mas, usando toda a sua determinação, manteve as duas mãos em contato com a carroça, e depois de um momento a dor diminuiu. A carroça continuou a deslocar-se. Ele não ousava erguer os olhos para verificar a que distância da parede estava, porque uma mudança em sua posição poderia reduzir a força que estava empregando e o veículo perderia velocidade. Tudo o que fazia era contar passos: um, dois, três, quatro, cinco, seis – cada um mais rápido que o anterior. Já devia estar quase chegando à parede, certo? O calor se espalhava por sua nuca à medida que o fogo se apoderava do portão. Sherlock podia ver a própria sombra projetada pela luz das chamas, tremeluzente e contornada pelo tom vermelho.
De repente, a parte de trás da carroça chocou-se contra a parede. A carroça seguiu movendo-se, produzindo rangidos agudos ao arrebentar as tábuas e arrancar os pregos que as mantinham unidas. Uma rajada de ar fresco soprou no rosto de Sherlock, empurrando a fumaça para trás, mas espalhando o fogo. As rodas de trás da carroça ficaram presas na madeira, mas Sherlock podia ver a luz do dia em torno do veículo. Ele subiu no assento do condutor, passou pela caçamba da carroça e finalmente saltou para o glorioso ar puro e a luz do sol.
Ingênuo, esperava encontrar a população local e os bombeiros da região com baldes e bombas manuais, mas o pátio estava deserto. Até o cachorro desaparecera, provavelmente atrás dos brutamontes. Embora o interior do galpão estivesse muito parecido com uma fornalha, do lado de fora as chamas eram praticamente invisíveis contra o céu radiante, e apenas uma fina coluna de fumaça erguia-se do edifício – pouco mais espessa que a que seria produzida pelo fogão de uma cozinha. Alguém acabaria por notar e iria investigar, mas levaria algum tempo até que isso ocorresse.
O portão principal estava fechado, e Sherlock supôs que Clem e seus comparsas tivessem-no trancado com outro cadeado. Eles demonstraram cautela semelhante em quase tudo o que fizeram. Ignorando o portão, Sherlock olhou pelo muro em busca de um lugar adequado no qual pudesse subir para saltar até o outro lado. O interior da muralha era de tijolos aparentes, e ele não teve dificuldade de escalar.
Parou no alto do muro e olhou para o galpão. O fogo já começava a ultrapassar o telhado, e as vigas queimavam. Ele tinha de sair dali.
Um pouco escalando e um pouco caindo no chão, Sherlock afastou-se mancando do muro. Continuou andando até sentir que os pulmões estavam prestes a explodir e os músculos das pernas imploravam por descanso. Deixando-se cair sentado no chão ao lado de um muro baixo de pedras, cedeu ao cansaço e ao pânico que tivera de controlar até então.
Respirou profundamente e permitiu que o tremor que tentava conter se espalhasse pelo peito, pelos braços e pelas pernas. Depois de um tempo, sentiu que tinha força suficiente para levantar as mãos à altura do rosto. A pele estava ferida e sangrava, e viu espetadas nas palmas dolorosas farpas que ele nem sentira antes. Uma a uma, ele as removeu, deixando as mãos cobertas por gotas de sangue.
Tanto esforço, tanto perigo, e o que descobrira, exatamente? Que, se a morte do homem na casa em Farnham tinha sido um acidente, fora provocada por algum tipo de atividade criminosa. O homem roubara alguma coisa de seus comparsas, e essa coisa causara sua morte. Os criminosos então carregaram uma carroça com as caixas do que sobrara dessa coisa e as transportaram para um destino desconhecido; em seguida atearam fogo ao galpão, com o intuito de encobrir as pistas de suas atividades. E tudo isso fora realizado segundo as instruções de um misterioso “barão”.
Sherlock lembrou a primeira vez em que estivera diante do portão que dava naquele pátio, quando ele e Matty quase foram atropelados pela carruagem. O homem a bordo daquele veículo – o de pele pálida e olhos cor-de-rosa – seria ele o barão? Em caso afirmativo, o que exatamente estaria tramando?
De repente Sherlock percebeu que já estava ficando escuro. O sol quase se pusera por completo, e ele precisava não apenas voltar à mansão Holmes, mas também se limpar e mudar de roupa – e tudo isso antes de a Sra. Eglantine perceber que algo tinha acontecido. Por um momento chegara a pensar que seus problemas naquele dia tivessem terminado, mas então constatara, com desânimo, que ainda tinha um longo caminho a percorrer.

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Boa leitura :)