25 de julho de 2017

Capítulo quatorze

VIRGINIA PRENDEU A RESPIRAÇÃO, COMO se tentasse conter uma onda de náusea. Matty disse uma única palavra que expressava seu choque. Sherlock supunha que ele havia aprendido essa palavra em seus passeios pelo cais.
Sherlock estava fascinado. Era repugnante, sim, mas fascinante também. Quando olhou com mais atenção, ele notou que o rosto de Balthassar era coberto por pequenas cicatrizes triangulares. Seja lá o que fossem as coisas grudadas em seu rosto, ele as usava há algum tempo.
— Não é exatamente a face de um novo país — ele disse, tentando disfarçar seus sentimentos. — Posso entender sua necessidade de usar a máscara.
— Todo procedimento médico tem efeitos colaterais — Balthassar respondeu em voz baixa. — O mercúrio, utilizado para tratar sífilis, leva os homens à loucura. Eu me considero um homem de sorte por sofrer efeitos colaterais meramente cosméticos.
— Mas o que são essas coisas? — Matty sussurrou.
Foi Virginia quem respondeu:
— São sanguessugas — ela disse. — Vivem em córregos e lagos em climas quentes.
— Sanguessugas — repetiu Matty. — E você deixa essas coisas sugarem seu sangue? Você é maluco!
— Pelo menos estou vivo — Balthassar respondeu, sem se perturbar. — Minha família tem uma doença hereditária. Meu pai morreu por isso, assim como o pai dele. O sangue flui lentamente por nossas veias. Sem tratamento, o corpo começa a parar de funcionar, pouco a pouco. — Ele levantou uma das mãos e olhou para o dedo que faltava. — Não restava muito de meu pai quando ele morreu.
— E as sanguessugas ajudam? — Sherlock perguntou, fascinado.
— Elas têm uma substância na saliva que impede a coagulação. É isso que permite que elas se alimentem. Com sanguessugas em número suficiente grudadas em minha pele, todas se alimentando ao mesmo tempo, todas secretando essa substância, a circulação do sangue é mais rápida. O sangue realmente corre pelas veias.
— Mas... elas não sugam seu sangue todo? — Matty perguntou.
Balthassar deu de ombros.
— Um dedal cada, no máximo. Um preço pequeno a pagar por uma boa saúde, e eu não me nego a pagá-lo. O que me lembra... — Ele olhou para o Dr. Berle. — Creio que tem alguma coisa para mim.
Berle tinha uma expressão preocupada no rosto. Ele pegou a caixa que mantinha sobre as pernas e a pôs sobre a mesa, depois soltou o fecho e levantou a tampa. Dessa caixa retirou um recipiente de vidro com tampa de papel impermeável presa por um barbante.
Dentro do recipiente havia algo horrível.
As sanguessugas nas mãos e no rosto de Duke Balthassar – e provavelmente no resto do corpo também – eram pequenas, pouco maiores que o dedo mínimo de Sherlock. A que estava dentro do pote de vidro era do tamanho de um punho fechado, vermelha e brilhante. Estava encolhida no fundo do recipiente, com a pequenina cabeça balançando às cegas no ar, procurando alimento.
Virginia cobriu a boca com a mão e virou o rosto. Os pumas, deitados no chão da varanda, tentaram recuar ainda mais, arrastando-se lentamente. Seus dentes estavam expostos e os olhos expressavam susto e medo, mas o temor que tinham de Balthassar parecia ser maior do que o medo da sanguessuga, e eles não tentaram correr.
— Uma espécie impressionante — disse Balthassar, pegando o pote sobre a mesa. — Quando foi sua última refeição?
— Há um mês, mais ou menos — respondeu Berle. — Foi o que me disseram. — Ele parou e engoliu em seco antes de continuar. — Duke, como médico, como seu médico, preciso dizer que esse... tratamento... não é algo que recomendo. Na verdade, nem estou convencido de que isso funciona. As coisas que está fazendo com seu corpo são... monstruosas!
— Continuo vivo, doutor, e ainda tenho minhas extremidades, exceto dois dedos da mão e alguns do pé — respondeu Balthassar. — Essa é toda a prova de que preciso. — Ele puxou uma ponta do barbante e o laço que mantinha no lugar a tampa de papel impermeável se desfez. — E com esta bela criatura vou poder pensar com mais clareza, e minha força não terá limites.
Ele enfiou a mão no pote e com todo cuidado pegou a sanguessuga. Ela pendia mole de seus dedos. Balthassar afastou do rosto uma mecha de cabelos finos e brancos, depois colocou o parasita atrás da orelha direita.
Os pumas soltaram um miado aterrorizado.
Sherlock viu a criatura mover a cabeça, procurando uma veia, ele supôs, e então se prender à pele de Balthassar. A parte de trás de seu corpo se moveu por um instante, contorcendo-se, e depois também se prendeu com firmeza.
Balthassar fechou os olhos e sorriu satisfeito.
— Isso mesmo — sussurrou. — Isso mesmo, minha belezinha. Alimente-se. Continue se alimentando.
— Quanto... quanto tempo elas ficam no lugar? — perguntou Sherlock.
— Dias — Balthassar respondeu com ar sonhador, ainda com os olhos fechados. — Semanas, em alguns casos. Quando estão satisfeitas, elas se desprendem e hibernam por um ou dois meses enquanto digerem o sangue ainda fluido. Tenho um grande estoque de sanguessugas, a maioria delas da América, da Flórida e do Alabama, mas nenhuma como esta. Ah, não, nenhuma como esta. — Ele sorriu. — Eu sabia que ela existia, nas florestas do Extremo Oriente. Podia sentir sua presença. Ela me chamava, pedia para eu ir buscá-la.
Havia algo em seu tom de voz que fez Sherlock pensar em John Wilkes Booth anunciando que sentia cheiro de fumaça – um tom sonolento, distante da realidade. Estaria o animal secretando mais alguma coisa em sua corrente sanguínea além do anticoagulante, uma espécie de narcótico que impedia a vítima de se importar com a presença de um parasita em seu corpo, uma substância que provocava alucinações agradáveis? Ele guardou a suposição para estudá-la mais tarde – se continuasse vivo. Ainda não tinha nenhuma ideia de como escapariam dali.
Um movimento perto dos pés de Balthassar chamou a atenção de Sherlock. Os pumas se afastavam dele pouco a pouco e olhavam aterrorizados para a gigantesca sanguessuga vermelha, deixando claro que não gostavam dela. Pareciam ter medo.
— Sherman, Grant — Balthassar sussurrou, depois disse uma palavra que Sherlock não conseguiu entender. Os poderosos felinos pararam, mas seus músculos permaneciam tensos.
A sanguessuga vermelha pulsava, Sherlock notou. Pulsava com o sangue de Balthassar, sugado de uma veia atrás da orelha.
— Está perdendo tempo — disse Balthassar. — Tem mais alguma pergunta?
Sherlock tentou desviar sua atenção do parasita.
— Você disse que “o Governo Exilado da Confederação ainda tenta assegurar a liberdade do regime opressor da União para todos os estados que desejarem se separar”, ele repetiu com precisão.
— Isso mesmo.
— Mas como? — Sherlock perguntou.
— Tente imaginar. Eu confirmarei se sua conclusão for acertada. — Quando Sherlock abriu a boca para protestar, Balthassar acrescentou: — Pense nisso como um meio de me dar mais informações. Se você conseguir deduzir a resposta corretamente, considerando o que sabe sobre o Dr. Booth, as autoridades também poderão fazer o mesmo. Prometo, se não conseguir deduzir a resposta, eu explicarei.
Sherlock pensou por um momento. Quanto mais tempo conseguisse manter Balthassar falando, mais poderia adiar o momento da morte de seus amigos. Enquanto isso, talvez pudesse pensar em um jeito de escapar. Talvez Amyus Crowe os encontrasse.
— Então — ele disse —, John Wilkes Booth perdeu a razão. Agora alterna entre episódios de alucinação e violência e precisa passar a maior parte do tempo drogado para que consigam carregá-lo por aí. É obviamente inútil como assassino ou em qualquer outro papel que não seja decorativo. Mas você precisa dele como um incentivo, alguém que possa levar ao centro do palco para incentivar as tropas.
Balthassar assentiu, mas a palavra “tropas” fez uma ideia despertar na cabeça de Sherlock, apesar de só tê-la escolhido como metáfora.
— Você está juntando tropas — ele disse. — Não creio que consiga derrubar o atual governo ou mesmo promover a secessão por meios políticos. Já tentou e fracassou. Está formando um exército, não é? Por isso precisa de Booth: para motivar seus soldados. Para mostrar a eles que há uma ligação direta entre a Guerra entre os Estados e o que está fazendo agora!
Mais uma vez, Balthassar assentiu.
— Prossiga.
— Mas não imagino que consiga formar um exército tão grande para derrotar o Exército da União. Não outra vez. Não depois da última derrota. Então, precisa de um exército para fazer alguma outra coisa. — Sua mente trabalhava depressa. — Mas o quê? Se o exército não vai lutar em solo americano, deve estar se preparando para invadir outro lugar. — Ele pensou nos mapas que vira a bordo do SS Scotia. — México?
Balthassar balançou a cabeça de um lado para o outro.
— O palpite é bom, mas errado. Já tentaram há alguns anos, mas o plano fracassou, por falta de apoio. Além do mais, o México é quente e árido e tem um exército próprio, que resistiria à invasão.
— O quê, então? — A resposta surgiu clara em sua cabeça. — Se tem um exército, precisa de uma fronteira para os soldados atravessarem. E os Estados Unidos só têm duas fronteiras: uma com o México e a outra com o... Canadá?
Balthassar assentiu.
— Muito bem. Sim, formamos um exército, com a força de alguns milhares de soldados, acampados em uma área não muito distante daqui. Eles têm vindo para cá há meses, em grupos de tamanhos variados para não chamar atenção. Com John Wilkes Booth como nossa figura decorativa, ou nosso mascote, se preferir, vamos marchar e tomar o porto de Halifax para impedir que os britânicos se recomponham. Depois vamos cortar as linhas de comunicação entre o leste e o oeste do Canadá tomando Winnipeg. Podemos então atravessar o país e tomar Quebec e a região dos Grandes Lagos. Feito isso, poderemos formar uma nova nação onde confederados de pensamento semelhante se unirão a nós e manterão escravos, como Deus quer.
— Mas por que o Canadá? — Sherlock perguntou.
— A terra é boa para a agricultura, o clima é temperado, pelo menos perto da fronteira com os Estados Unidos, os portos são excelentes para o comércio, não há um exército para resistir ao nosso avanço e, é claro, aquele é um território britânico recentemente confederado. E a Inglaterra se negou a nos apoiar em nossa luta contra a União.
— O governo britânico jamais abrirá mão do Canadá — Sherlock anunciou, pensando em Mycroft.
— Eles nem vão se importar, provavelmente — Balthassar respondeu com desdém. — Pense na logística de deslocar um exército para um território a cinco mil quilômetros de distância para uma única batalha, especialmente se estivermos no comando dos portos. Não, vai haver alguns anos de embate diplomático, é claro, mas o Canadá será nosso.
— E você vai ser o presidente? — Sherlock perguntou. — Um homem com uma máscara de porcelana?
A cabeça de Balthassar virou bruscamente para o lado. As palavras de Sherlock o haviam atingido.
— John Wilkes Booth, talvez — ele respondeu, contrariado. — Com a devida orientação e os medicamentos apropriados, é claro. Ou mesmo o general Robert E. Lee. Não faltam candidatos. Mas eu serei a força por trás do trono.
O movimento repentino perturbou um dos parasitas menores. Ele caiu do rosto de Balthassar sobre a mesa com um plop baixinho. Balthassar olhou para a sanguessuga.
— Velha — disse. — Uma das minhas mais antigas servidoras. Acho que chegou a hora da aposentadoria, minha amiga.
Pegou-a da mesa e jogou-a na boca, engolindo-a como se comesse uma ostra.
Sherlock notou que a sanguessuga havia deixado uma mancha vermelha na toalha sobre a mesa. Ele mantinha os olhos fixos naquela nódoa. Tinha a sensação de que acabaria vomitando se olhasse para algum outro lugar. Qualquer um.
— Devo dizer — Balthassar murmurou com sua voz fraca e fina, recolocando a máscara de porcelana sobre o rosto infestado de parasitas e coberto de cicatrizes — que demonstrou uma capacidade espantosa de prever meus planos a partir de fatos isolados. Ou então meus planos são muito mais evidentes do que eu havia pensado. De qualquer maneira, não posso mais perder tempo. Se você, uma simples criança, conseguiu deduzir minhas intenções, o governo unionista certamente poderá antecipá-las também. Creio que nossa marcha para o Canadá terá que começar nos próximos dias. Muito obrigado pela ajuda.
— E quanto a nós? — Virginia perguntou.
Sherlock sentiu orgulho da firmeza na voz dela.
— Ah, não preciso de vocês agora — Balthassar respondeu. Não havia nenhum sinal de raiva ou ressentimento em sua voz. Não havia nada, nenhuma entonação diferenciada. Ele podia estar discutindo o preço das folhas de chá. — Serão eliminados.
— Como? — quis saber Sherlock.
— Ah! — A máscara de porcelana conferia ainda mais neutralidade à reação de Balthassar. — Confesso que em relação a esse detalhe talvez eu o tenha enganado. Tenho em mente um destino para vocês que vai resolver três problemas distintos, mas que envolve muita dor e grande sofrimento. — Ele fez um gesto para o brutal Rubinek. — Capitão, por favor, leve nossos hóspedes ao novo compartimento. Minhas mais recentes aquisições precisam ser alimentadas. — Olhou novamente para Sherlock. — Meus caçadores de criaturas raras e incomuns garantiram que elas haviam comido antes de serem capturadas — ele contou em um tom sereno —, e levam várias semanas para digerir a refeição, período em que permanecem quase em coma. Mas elas fizeram uma longa viagem de Bornéu até aqui e seu comportamento atual sugere que estão com fome outra vez. — Ele fez uma pausa, e Sherlock suspeitou que o homem sorria por trás da máscara. — Já antevejo as multidões que elas vão atrair quando forem exibidas. Usando-os como alimento, eu me livro de vocês, não preciso me preocupar com os corpos e asseguro a meus animaizinhos uma refeição de boa qualidade que os manterá satisfeitos por um bom tempo. — Ele parou novamente. — Soube que essas criaturas deixam a comida submersa e a guardam embaixo de pedras até ficar... macia. Vai ser divertido assistir ao processo completo.
Antes que Sherlock pudesse dizer alguma coisa, outros dois homens apareceram das sombras atendendo a um gesto de Rubinek. Os três homens seguraram Matty, Virginia e Sherlock pelos ombros, empurrando-os pela varanda com violência.
Sherlock sentiu o desespero invadindo seu peito como uma enxurrada. Apesar de tudo, teriam uma morte cruel e dolorosa. Não sabia quais eram as últimas “aquisições” de Balthassar, mas podia imaginar que não eram animaizinhos inocentes como esquilos ou papagaios. O que quer que fossem, certamente eram grandes e tinham dentes afiados. Mais pumas? Não, esses ele podia encontrar ali mesmo na região. Não precisava ter mandado caçá-los fora do país.
Olhou para Matty enquanto os homens os empurravam pela varanda. Ele parecia amedrontado, mas sorriu rapidamente para Sherlock.
Os três foram empurrados pela escada, para o terreno de terra batida, na direção das jaulas, gaiolas e currais que Sherlock vira pela janela do trem. Eram levados para a área murada mais afastada. O muro parecia ter sido construído recentemente. De um lado havia uma varanda de onde era possível ver o interior daquela área. Uma escada subia até lá, e Sherlock começou a tremer quando viu uma prancha de madeira partindo daquela varanda e acabando bem no meio da área cercada.
Outra escada descia para a escuridão. Sherlock tentou imaginar o que podia haver ali embaixo, mas a especulação foi interrompida quando Rubinek empurrou-o em direção à varanda. Os outros dois conduziam Matty e Virginia logo atrás.
Agora Sherlock conseguia enxergar a área dentro dos muros. De onde estava, aquilo mais parecia um poço. A área interna era rochosa e irregular, com vegetação brotando das frestas entre as pedras e uma poça de água escura ocupando cerca de um terço do espaço. Não havia sinal de nada vivo ali dentro, mas isso não o reconfortava.
Rubinek levou Sherlock para a beira da prancha. Os outros dois homens mantinham Matty e Virginia juntos a alguns passos de distância.
— Vá em frente — ele disse. — Você sabe o que fazer.
— E se eu não for? — perguntou Sherlock.
Rubinek levantou a mão. Ele segurava uma pistola bem pequena, pouco maior que a palma da mão, com dois canos paralelos, um sobre o outro.
— O que espera por você lá embaixo não quer saber se vai chegar vivo ou morto. E, francamente, eu também não me importo — Rubinek anunciou.
Sherlock olhou para trás, para a casa. Esperava que Balthassar os seguisse para assistir à execução da varanda, mas o homem alto e vestido de branco continuava no mesmo lugar de antes. Ele havia aberto um mapa sobre a mesa e o consultava. Era como se já houvesse esquecido Sherlock e seus amigos.
Relutante, o menino caminhou até a extremidade da prancha. Ela oscilava com seu peso. A queda até o fundo do poço devia ser de uns três metros.
— Pule — Rubinek mandou. Agora que o menino estava cumprindo as ordens, ele guardou a pistola no bolso do paletó.
— Vou quebrar as pernas! — Sherlock protestou. — Só tem pedras lá embaixo!
— E daí? — O homem bateu no bolso do paletó. A ameaça era clara.
Sherlock olhou para o espaço delimitado por muros e para Virginia; depois deu dois passos antes de correr para o final da rampa e pular dentro do buraco.
Usando a tábua como alavanca, ele deu impulso para o alto e para a frente, inclinando o corpo para descrever um arco e cair dentro da água. A tentativa foi bem-sucedida, e água espirrou em todas as direções. A poça era, na verdade, uma lagoa e havia sido aquecida pelo sol forte. Sherlock voltou à tona e se aproximou da margem antes que o morador misterioso pudesse pegá-lo. Encharcado, escalou as pedras com rapidez e agilidade e olhou em volta. Ainda não via nada.
Quando olhou para cima, viu Virginia na ponta da prancha, parecendo muito assustada. Matty dava o primeiro passo na rampa, mas tropeçou e caiu na direção do capitão Rubinek, que o empurrou com violência de volta para a prancha de madeira.
Sherlock olhou em volta, atento a qualquer coisa que pudesse tentar se aproximar. Houve um barulho no lago, e outro. Virginia e Matty agora estavam com ele. Assim que os viu emergir, ajudou-os a sair da água e subir nas pedras.
— Que tipo de bicho vive aqui? — Matty perguntou, ofegante.
— Não sei — respondeu Sherlock, olhando em volta, preocupado. Rubinek e seus homens se afastavam. Parecia que ninguém ali estava interessado em assistir à cena que ia acontecer entre aqueles muros.
— Eles não estão nos vigiando — Virginia comentou. — Temos uma chance de escapar.
— Os muros são altos demais para escalar — Matty falou, hesitante.
Sherlock olhou em volta.
— Há pedras soltas espalhadas por aqui. Talvez possamos fazer uma pilha com elas e passar por cima dos muros. — Ele pensou por um momento. — Não, não é uma boa ideia. Eles poderiam nos ver da varanda quando subíssemos no muro. Temos que encontrar um jeito de sair daqui sem que ninguém nos veja.
Um barulho do outro lado do cercado chamou sua atenção. Ele olhou na direção do som e sentiu o coração bater mais depressa. O que estava ali com eles?
Por um momento Sherlock não viu nada, mas em seguida uma cabeça horrível apareceu em uma fresta escura entre duas pedras. Era comprida e estreita, com olhos pequeninos nas laterais. A pele da criatura era de um cinza-esverdeado, e pregas de pele pendiam do maxilar comprido. A boca se abriu e deixou passar uma língua vermelha e bifurcada, que se moveu como um chicote testando o ar. Lá dentro havia uma fileira de dentes do tamanho de dedos mínimos, curvados para trás de forma que a presa capturada por eles jamais pudesse escapar.
Matty prendeu a respiração e Virginia deixou escapar um gemido abafado.
— O que é isso? — Matty sussurrou.
A criatura continuou se movendo. Seu corpo era tão comprido quanto o de Sherlock, metade dele composto por uma cauda longa e musculosa. Ele andava sobre quatro patas que pareciam brotar das laterais do corpo. Os pés terminavam em garras que derrapavam sobre as pedras quando o animal caminhava. A pele cinza-esverdeada era como um saco vazio, pendendo do corpo e balançando flacidamente a cada movimento.
Mesmo de onde estava Sherlock conseguia ver que não havia nenhuma emoção naqueles olhos; só uma inteligência fria e faminta.
— É algum tipo de réptil — ele disse —, mas é muito grande. Nunca vi nada parecido antes.
— Tem o mesmo tamanho que nós — Virginia murmurou. — Achei que podia ser um crocodilo, porque sei que eles existem na Flórida, mas isso é diferente. Crocodilos são lentos e estúpidos, não gostam de ficar fora da água, e essa coisa parece rápida e inteligente e está andando sobre as pedras sem nenhum problema.
Sherlock olhou para os pés da criatura.
— Aquelas garras parecem fortes o bastante para escalar uma árvore — disse. — Não que haja árvores por aqui para escalar.
A criatura caminhou até uma pedra plana e olhou para os três, sacudindo a língua. O animal sabia que havia comida por perto.
Alguma coisa se moveu perto do réptil. Sherlock olhou naquela direção. Uma segunda criatura aparecia do meio das pedras. Era ainda maior que a primeira.
— Olhem! — disse Virginia.
Por um momento, Sherlock pensou que ela havia visto a segunda criatura, mas, quando se virou, ele a viu olhando em outra direção. Seu dedo apontava para um terceiro lagarto que se aproximava deles acompanhando a linha do muro. A cabeça balançava de um lado para o outro e ele os observava.
A primeira criatura que eles viram seguia em outra direção, enquanto a segunda começou a se aproximar deles, seu corpo balançando de um lado para o outro enquanto as garras se prendiam ao chão.
As três criaturas pareciam trabalhar juntas, como cachorros. Elas cercavam Sherlock, Matty e Virginia, impedindo a fuga.
A mente de Sherlock trabalhava depressa. Levando em conta o tamanho das criaturas e seus dentes enormes e afiados, eram carnívoras, com toda certeza, e se movimentavam como se sentissem fome e soubessem que havia comida por perto. Não demonstravam receio ou cautela, como às vezes acontece com os cães. Eram deliberados em seus movimentos. Sherlock tinha a impressão de que nada podia assustar um réptil. O cérebro dessas criaturas não funcionava desse jeito. Eles simplesmente avançariam, continuariam se aproximando, sem se importar com o que Sherlock e os outros fizessem. Ruídos não os deteriam, nem gestos repentinos. Jogar pedras também não ia adiantar nada. Eles eram como calculadoras com dentes.
As criaturas monstruosas se aproximavam, de todos os lados. Sherlock, Matty e Virginia recuavam em direção à parede mais próxima. As opções eram cada vez mais limitadas, reduzidas a praticamente zero por aqueles répteis de olhar pavorosamente inteligente.
— Que cheiro é esse? — perguntou Matty, torcendo o nariz e franzindo o cenho.
Sherlock também sentia um odor diferente: alguma coisa parecida com carne podre. Se esses animais realmente engoliam as vítimas inteiras e passavam semanas digerindo a refeição, o cheiro devia ser deles.
— Sherlock — Virginia falou em um tom controlado —, o que vamos fazer?
— Estou pensando — ele respondeu, e estava mesmo. Pensava rápido como jamais havia pensado em toda a sua vida.
A criatura à direita deles se aproximou, dando mais alguns passos. Matty abaixou-se e pegou uma pedra no chão. Jogou-a contra o animal. A pedra acertou a parede e ricocheteou, mas o lagarto nem se moveu. Não havia medo, precaução, nada. Ele simplesmente não se importava. Depois de alguns segundos ele deu mais dois passos, as pernas se movendo ao lado do corpo.
A criatura à esquerda sibilou, levantando a cabeça como se farejasse o ar. Os outros imitaram o som que ele havia acabado de produzir. Sherlock não saberia dizer se estavam se comunicando uns com os outros ou simplesmente fazendo um barulho cujo propósito era aterrorizar a presa, deixá-la paralisada.
A distância entre eles e os répteis havia se reduzido à metade e diminuía rapidamente a cada pequeno passo dos animais. Sem pressa, sem ataques repentinos, só um processo gradativo e inteligente de acuar a presa, empurrá-la para um canto onde ela pudesse ser comida sem pressa.
E Sherlock não conseguia pensar em um jeito de detê-los.

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