1 de julho de 2017

Aloha significa olá e adeus, parte um

CANCELEI OUTRA NOITE de mãe e filha, então minha mãe dá uma passada no meu quarto.
— E então? — ela começa.
— Desculpe por cancelar, mãe. Simplesmente não estou legal.
Ela imediatamente pressiona as costas de uma das mãos na minha testa.
— Mentalmente, não fisicamente — explico. Não consigo tirar a imagem da mão da Garota Misteriosa no ombro do Olly.
Ela assente, mas não tira a mão até se convencer de que eu não estou febril.
— E então? — Desta vez sou eu quem a provoca. Eu realmente quero ficar sozinha.
— Já fui adolescente um dia. E eu era filha única. Eu me sentia muito sozinha. Descobri que ser adolescente pode ser muito doloroso.
É por isso que ela está aqui? Por que ela acha que estou solitária? Por que ela acha que estou sofrendo de algum tipo de angústia adolescente?
— Não estou me sentindo sozinha, mãe — rosno. — Eu sou sozinha. Essas são duas coisas completamente diferentes.
Ela recua, mas não tira o time de campo. Em vez disso, larga o que quer que estivesse segurando até aquele momento e começa a acariciar a minha bochecha até que meus olhos encontram os dela.
— Eu sei, garotinha. — As mãos da minha mãe agora estão novamente atrás das costas. — Talvez esta não seja uma boa hora. Você quer que eu vá embora?
A minha mãe é sempre razoável e compreensiva. É difícil ficar irritada com ela.
— Não, está tudo bem. Desculpe. Pode ficar. — Afasto as pernas para o lado, abrindo espaço para ela. — O que você está segurando?
— Trouxe um presente. Achei que faria com que você se sentisse menos sozinha, mas agora eu não tenho muita certeza.
Ela tira uma fotografia emoldurada de detrás das costas. Meu coração se aperta dentro do peito. É uma velha foto de nós quatro — eu, minha mãe, meu pai e meu irmão — de pé, em uma praia, em algum lugar tropical. O sol está atrás da gente e quem quer que tenha tirado a foto fez uso do flash, pois nossos rostos estão brilhantes, quase fluorescentes contra o céu escuro.
Meu irmão está de mãos dadas com o meu pai e segurando um pequeno coelho de pelúcia com o outro braço. Ele é praticamente uma versão em miniatura da minha mãe, com o mesmo cabelo preto e liso e os olhos escuros. Meu pai está usando um short e uma camisa com a mesma estampa havaiana.
Pateta é a única palavra em que consigo pensar para descrevê-lo. Ainda assim, ele é tão bonito. Um dos braços dele envolve os ombros da minha mãe e ele parece estar puxando-a para mais perto. Ele olha fixamente para a câmera. Se já existiu alguém que conseguiu tudo o que queria, essa pessoa era o meu pai.
Minha mãe está usando um vestido de verão florido, tomara que caia. As mechas de cabelo úmido caem ao redor de seu rosto. Ela não está usando maquiagem nem bijuterias. Na verdade, ela parece uma versão do universo alternativo da mãe que está ao meu lado neste exato momento. Ela parece pertencer mais à praia com aquelas pessoas do que a este quarto, onde fica trancafiada junto comigo.
Ela está me segurando em seus braços e é a única que não olha para a câmera. Em vez disso, ela sorri para mim. Eu sorrio de volta, um sorriso idiota, desdentado, que só os bebês têm.
Eu nunca tinha visto uma foto minha do Lado de Fora antes. Nem sabia que existia algo do tipo.
— Onde é isso? — pergunto.
— Havaí. Maui era o lugar preferido do seu pai. — A voz dela se torna quase um sussurro. — Você tinha só quatro meses, foi antes de descobrirmos sua doença. Um mês antes do acidente.
Aperto a foto junto ao peito. Os olhos da minha mãe estão repletos de lágrimas que não caem.
— Amo você — ela diz. — Mais do que você pode imaginar.
Mas eu sei. Sempre senti o coração dela acelerando para proteger o meu. Ouço canções de ninar na voz dela. Posso sentir seus braços me balançando para que eu pegue no sono e seus beijos nas minhas bochechas pela manhã. E eu a amo também. Não sou capaz de imaginar o mundo do qual ela desistiu por mim.
Não sei o que falar, de maneira que digo que eu também a amo. Não é o suficiente, mas vai ter de servir.
Depois que ela vai embora, fico parada na frente do espelho segurando a fotografia junto ao meu rosto. Olho para mim na foto e para mim no espelho várias e várias vezes.
Uma fotografia é uma espécie de máquina do tempo. Meu rosto desvanece e estou na praia, cercada por amor, pelo ar salgado, pelo calor que está prestes a ceder um pouco e pelas sombras do pôr do sol.
Sinto meus pulmões minúsculos repletos com o máximo de ar que conseguem sugar e prendo a respiração. Eu a tenho segurado desde então.


MAIS TARDE, 21:08
OLLY JÁ ESTÁ ESPERANDO por mim quando vou até a janela. Em letras garrafais ele escreve:


Faço uma mímica para demonstrar a minha total e completa ausência de ciúme.


O GALO AMA O LAGO
ÀS VEZES RELEIO OS MEUS livros preferidos de trás para a frente. Começo com o último capítulo e leio de trás para a frente até chegar ao início. Quando se lê dessa forma, os personagens vão da esperança ao desespero, do autoconhecimento à dúvida. Nas histórias de amor, os casais começam juntos e terminam como estranhos. Os romances de formação se tornam histórias sobre como perder o rumo. Os seus personagens preferidos voltam à vida.
Se a minha vida fosse um livro e eu o lesse de trás para a frente, nada mudaria. Hoje é o mesmo que ontem. Amanhã será o mesmo que hoje. No Livro de Maddy, todos os capítulos seriam o mesmo.
Até Olly aparecer.
Antes dele, minha vida era um palíndromo — a mesma coisa se lida de trás para a frente como “socorram-me, subi no ônibus em Marrocos” ou “o galo ama o lago”. Só que Olly é como uma letra aleatória, um grande X maiúsculo no meio de uma palavra ou frase que acaba com a sequência.
E agora a vida não faz mais sentido. Quase desejo não ter conhecido Olly. Como posso voltar para a minha antiga vida, os dias se estendendo diante de mim infinita e brutalmente iguais? Como eu posso voltar a ser A Garota Que Lê? Não que eu me ressinta da minha vida com os livros. Tudo que sei do mundo aprendi com eles. Entretanto, uma descrição de uma árvore não é uma árvore e uma centena de beijos de papel nunca será capaz de gerar a mesma sensação que os lábios do Olly nos meus me proporcionou.


A PAREDE DE VIDRO
UMA SEMANA DEPOIS, algo me faz pular da cama. Minha cabeça está enevoada de sono, mas meu coração está desperto e bate acelerado. Ele sabe de alguma coisa da qual a cabeça ainda não faz a menor ideia.
Olho para o relógio. 3:01 da manhã. Minhas cortinas estão fechadas, mas posso ver uma luz no quarto do Olly. Eu me arrasto até a janela e afasto o tecido. Até as luzes da varanda estão acesas.
Meu coração acelera ainda mais.
Ah, não. Eles estão brigando de novo?
Uma porta bate. O som é distante, mas inconfundível. Seguro as cortinas com uma das mãos fechadas em punho e espero, torcendo para que Olly apareça. Não tenho de esperar muito porque logo ele cambaleia varanda afora, como se houvesse sido empurrado.
O desejo de ir até ele toma conta de mim como da última vez. Quero ajudá-lo. Preciso ajudá-lo, confortá-lo, protegê-lo.
Ele restaura o equilíbrio com sua velocidade de sempre e se vira para encarar a porta com os punhos fechados. Eu me concentro no ataque que não acontece. Ele permanece na posição de luta, encarando a porta, por um minuto inteiro. Jamais o vi tão imóvel.
Outro minuto se passa e então a mãe dele também vai para a varanda. Ela tenta tocar o braço do Olly, mas ele a afasta e nem mesmo olha para ela. Por fim, ela desiste. Assim que ela desaparece, toda a tensão deixa o corpo dele. Ele aperta os olhos com as palmas das mãos e os ombros começam a tremer. Ele olha para a minha janela. Eu aceno, mas ele não responde. Percebo que Olly não consegue me ver porque as luzes estão apagadas. Corro até o interruptor, mas, quando volto para a janela, ele já foi embora.
Pressiono a testa, as palmas das mãos, os antebraços contra o vidro.
Nunca na minha vida eu quis tanto estar fora da minha pele.


O MUNDO ESCONDIDO
ÀS VEZES O MUNDO SE revela para você. Estou sozinha no solário escurecido. O sol do fim da tarde corta um trapezoide de luz na janela de vidro. Olho para cima e vejo partículas de poeira flutuando, brancas como cristal e luminosas na suspensão da luz.
Há mundos inteiros que existem bem debaixo de nossa percepção sobre eles.


MEIA-VIDA
É ESTRANHO PERCEBER que você deseja morrer. Isso não acontece em um lampejo, em uma epifania repentina. É algo que acontece aos poucos, como o reverso de um balão furado.
A cena do Olly chorando sozinho na varanda não me abandona.
Analiso com cuidado as fotos da escola que ele me enviou. Eu me imagino em cada uma delas. Maddy na biblioteca. Maddy de pé ao lado do armário do Olly esperando para ir para a aula. Maddy como a Garota Que Mais Provavelmente Estará Ali.
Memorizo cada centímetro da minha foto de família, tentando adivinhar seus segredos. Eu me maravilho diante da Maddy que não está doente. Da Maddy bebê, sua vida se desdobrando diante dela como uma possibilidade infinita.
Desde que Olly entrou na minha vida há duas Maddys: aquela que vive através dos livros e não quer morrer e a que vive e suspeita que a morte é um pequeno preço a ser pago por isso. A primeira Maddy está surpresa com o caminho que seus pensamentos estão tomando. A segunda Maddy, aquela da foto no Havaí? Ela é como um deus — imune ao frio, à fome, à doença, aos desastres naturais e àqueles criados pelo homem. Ela é imune ao coração partido.
A segunda Maddy sabe que essa meia-vida pálida não significa viver de fato.

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Boa leitura :)