1 de julho de 2017

Aloha significa olá e adeus, parte dois



JÁ FELIZ
— MADS, FALA SÉRIO. Não podemos ir para o Havaí.
— Por que não? Tenho as passagens de avião. Reservei um hotel para a gente.
Estamos sentados dentro do carro do Olly, que está parado na entrada da garagem. Ele coloca a chave na ignição, mas não liga o motor.
— Você está brincando? — Ele examina o meu rosto em busca de qualquer evidência de que tudo isso não passa de uma brincadeira da minha parte. Como não encontra nenhum indício, começa a balançar a cabeça devagar.
— O Havaí fica a quase quinhentos quilômetros de distância.
— Por isso vamos de avião.
Ele ignora minha tentativa de deixar o clima mais leve.
— Você está falando sério? Quando você fez isso? Como? Por quê?
— Mais uma pergunta e vamos ter uma sessão de cinco perguntas. Como a que fazemos das nossas coisas preferidas.
Ele se inclina para a frente e pressiona a cabeça contra o volante.
— Noite passada com um cartão de crédito porque eu quero ver o mundo.
— Você tem um cartão de crédito?
— Fiz um cartão algumas semanas atrás. Andar com uma mulher mais velha tem as suas vantagens.
Ele afasta a testa do volante, mas ainda olha fixo para a frente, sem olhar para mim.
— E se alguma coisa acontecer com você?
— Não vai acontecer nada.
— Mas e se acontecer?
— Eu tenho os comprimidos, Olly. Eles vão funcionar.
Ele fecha os olhos bem apertados e coloca uma das mãos sobre a chave.
— Você sabe que já tem muito mundo para conhecer por aqui mesmo, no sul da Califórnia.
— Mas aqui não tem humuhumunukunukuapua’a.
Um pequeno sorriso se forma nos cantos dos lábios dele. Preciso fazer com que se espalhe por todo o rosto do Olly.
Ele se vira para mim.
— Do que você está falando?
— O humuhumunukunukuapua’a.
— O que é um humu-sei-lá-o-quê?
— O peixe oficial do estado do Havaí.
O sorriso cresce.
— É claro que é. — Ele vira a chave na ignição. Seus olhos vagam pela fachada da casa e o sorriso desaparece, ainda que apenas por um momento.
— Por quanto tempo?
— Duas noites.
— Tudo bem. — Ele pega uma das minhas mãos e dá nela um beijo rápido. — Vamos ver esse peixe.
O humor do Olly melhora, tornando-se mais leve de alguma forma à medida que nos afastamos da casa dele. Essa viagem lhe dá a desculpa perfeita para escapar do fardo de sua família por um tempo. Ele também tem um velho amigo da época de Nova York, Zach, que vive em Maui.
— Você vai adorá-lo — ele me diz.
— Vou adorar tudo.
Nosso voo só sai às sete da manhã e há um desvio que quero fazer.
Estar no carro dele é como estar dentro de uma bolha muito barulhenta e veloz. Ele se recusa a abrir as janelas. Em vez disso, aperta um botão no painel para prevenir a circulação de ar. O som dos pneus no asfalto é como um assovio baixo e constante nos meus ouvidos. Luto contra o desejo de tapá-los.
Olly fala que não está indo muito depressa, mas para mim estamos colidindo com o espaço. Já li que passageiros em trens de alta velocidade dizem que o mundo do lado de fora parece estar borrado. Sei que não estamos nem perto disso, mas, ainda assim, a paisagem se move muito depressa para que os meus olhos lentos consigam captá-la. Mal consigo ter um relance das casas nos morros marrons a distância. Placas no alto com símbolos e caracteres crípticos passam por mim antes que eu possa decifrá-los. Os adesivos de para-lama e as placas dos outros carros aparecem e somem em um piscar de olhos.
Apesar de eu entender a física da coisa, acho estranho o meu corpo estar se movendo apesar de eu estar parada dentro do carro. Bem, não estou exatamente imóvel. Sou empurrada para trás no meu assento sempre que Olly acelera e dou uma guinada para trás sempre que ele freia.
Uma vez ou outra vamos devagar o suficiente para que eu veja as pessoas nos outros carros. Passamos por uma mulher que balança a cabeça e dá tapinhas no volante. Só depois que a ultrapassamos me dou conta de que ela está provavelmente dançando. Duas crianças no banco de trás de outro carro mostram a língua para mim e caem na gargalhada. Não faço nada porque não tenho certeza de qual é a regra de etiqueta para esse tipo de situação.
Aos poucos, assumimos uma velocidade mais humana quando deixamos a autopista.
— Onde nós estamos? — pergunto.
— Ela mora em Koreatown.
Eu me sinto tonta por tentar olhar para tudo ao mesmo tempo. Há placas extremamente iluminadas e letreiros luminosos escritos apenas em coreano. Já que não entendo a língua, as placas parecem obras de arte com formas belas e misteriosas. É claro que elas querem dizer coisas tão mundanas quanto RestauranteFarmácia ou Aberto 24 Horas.
É cedo, mas ainda assim há muita gente na rua fazendo várias coisas: andando, conversando, sentadas ou de pé, correndo ou andando de bicicleta. Quase não acredito que elas são de fato reais.
Elas são simplesmente como as minifiguras que eu coloco nas minhas maquetes de arquitetura, que aqui dão a Koreatown um vigor de vida.
Ou talvez seja eu que, no fim das contas, não seja nem um pouco real.
Seguimos por mais alguns minutos. Finalmente estacionamos diante de um condomínio de prédios de dois andares com um chafariz no pátio central.
Ele desata o cinto de segurança, mas não faz nenhum movimento no intuito de sair do carro.
— Nada pode acontecer com você — ele diz.
Estico um dos braços e pego a mão dele.
— Obrigada. — Isso é tudo que consigo pensar em falar. Quero lhe contar que é por causa dele que estou aqui fora. Que o amor faz com que o mundo se abra.
Eu era feliz antes de conhecê-lo. Mas agora estou viva e isso não é a mesma coisa.


INFECTADA
CARLA BERRA E COBRE o rosto quando me vê pela primeira vez.
— Você é um fantasma? — Ela me pega pelos ombros, me aperta contra seu colo, me sacode de um lado para o outro e então me aperta de novo. Não tenho mais nenhum ar nos pulmões quando ela termina.
— O que você está fazendo aqui? Você não pode estar aqui — ela diz, ainda me apertando.
— Também estou feliz em vê-la — eu falo.
Ela se afasta, balança a cabeça como se eu fosse algum tipo de milagre e me agarra mais um pouco.
— Ah, minha menina. Como eu senti sua falta. — Ela esconde o rosto com as mãos.
— Também senti saudade. Desculpe pelo...
— Pare. Você não tem nada que se desculpar.
— Você perdeu o emprego por minha causa.
Ela dá de ombros.
— Já arrumei outro. Além do mais, é de você que eu sinto falta.
— Também sinto sua falta.
— Sua mãe fez o que tinha de ser feito.
Não quero falar sobre a minha mãe, por isso olho ao redor em busca do Olly, que está de pé, afastado de nós.
— Você lembra do Olly — digo.
— Como eu poderia esquecer aquele rosto? E aquele corpo — Carla fala definitivamente alto demais para que ele escute. Ela marcha até ele e lhe dá um abraço apenas um pouco mais contido do que aquele que acabou de me dar.
— Você está tomando conta da nossa menina? — Ela se afasta e dá uns tapinhas um pouco fortes demais nas bochechas dele.
Olly as esfrega.
— Estou fazendo o meu melhor. Não sei se você sabe, mas ela pode ser um pouco teimosa.
Carla olha para mim e para Olly alternadamente por um longo segundo, percebendo a tensão entre nós.
Ainda estamos de pé na porta.
— Entrem, entrem — convida Carla.
— Não esperávamos que você fosse estar acordada assim tão cedo — digo enquanto entramos.
— Você para de dormir quando fica velha. Vocês verão isso.
Eu queria retrucar que nunca vou ficar velha! Mas, em vez disso, pergunto:
— A Rosa está em casa?
— Lá em cima, dormindo. Você quer que eu a acorde?
— Não temos tempo. Eu só queria ver você.
Ela pega o meu rosto nas mãos novamente e me examina, desta vez com olhos de enfermeira.
— Devo ter perdido um monte de coisas. O que você está fazendo aqui? Como você está se sentindo?
Olly se aproxima um pouco mais no intuito de ouvir a minha resposta. Cruzo os braços sobre a barriga.
— Estou ótima — afirmo com uma empolgação excessiva.
— Conte a ela sobre os comprimidos — diz Olly.
— Que comprimidos? — Carla quer saber, olhando apenas para mim.
— Conseguimos uns comprimidos. Uma droga experimental.
— Eu sei que a sua mãe não deixa você tomar nada experimental.
— Consegui esse remédio sozinha. A minha mãe nem sabe.
Ela assente, sem parecer convencida.
— Onde?
Digo a mesma coisa que contei para Olly, mas ela não acredita em mim. Nem por um segundo. Ela cobre a boca com uma das mãos e seus olhos se arregalam como os de um personagem de desenho animado.
Coloco tudo o que sinto nos meus olhos e imploro para que ela não diga nada. Por favor, Carla. Por favor, entenda. Por favor, não me exponha. Você disse que a vida é um dom.
Ela desvia o olhar e traça pequenos círculos em um buraco no decote de sua camiseta.
— Vocês devem estar com fome. Vou preparar um café da manhã.
Ela nos encaminha até um sofá amarelo que parece ser excessivamente macio antes de desaparecer na cozinha.
— Não era bem assim que eu imaginava a casa dela — comento com Olly assim que Carla sai da sala. Não quero que ele faça perguntas sobre os comprimidos.
Nenhum de nós dois se senta. Eu me afasto um ou dois passos dele. As paredes são pintadas de cores primárias. Bibelôs e fotos cobrem quase todas as superfícies.
— Ela pareceu ok com essa história das pílulas — Olly finalmente declara. Ele se aproxima, mas eu fico tensa. Tenho medo de que ele sinta a mentira ao tocar a minha pele.
Vago pela sala olhando para as fotos de gerações de mulheres. Todas elas se parecem com a Carla. Há um retrato enorme dela segurando a Rosa quando era bebê pendurada sobre o sofá. Algo nessa foto me faz lembrar minha mãe. É a forma com que ela olha para Rosa não apenas com amor, mas também com uma espécie de ferocidade, como se fosse capaz de fazer qualquer coisa para protegê-la.
Jamais serei capaz de retribuir tudo o que ela fez por mim.
Para o café, Carla faz chilaquiles — tortilhas de milho com molho e queijo, e crema mexicana, que é um negócio parecido com crème fraîche. É novo e delicioso, mas eu só como um pedacinho porque estou muito nervosa para comer.
— Então, Carla, na sua opinião profissional, você realmente acha que esses comprimidos estão funcionando? — Olly pergunta. A voz dele é tomada pelo otimismo.
— Talvez — ela diz, mas logo balança a cabeça e completa: — Não quero dar nenhuma falsa esperança.
— Diga-me — peço. Preciso perguntar a ela por que ainda não passei mal, mas não consigo. Sou prisioneira de minhas próprias mentiras.
— Podem ser os comprimidos que estão atrasando sua doença. Mesmo sem eles, pode ser que você ainda não tenha entrado em contato com nenhum dos seus gatilhos.
— Ou pode ser que os comprimidos estejam funcionando — diz Olly. Ele está mais do que esperançoso. Até onde sabe, esses comprimidos são um milagre.
Carla acaricia as mãos do Olly do outro lado da mesa.
— Você é um bom menino.
Ela evita olhar para mim, recolhe nossos pratos vazios e volta para a cozinha.
Eu a sigo. A vergonha torna meus passos mais lentos.
— Obrigada.
Ela seca as mãos em uma toalha.
— Eu a entendo. Entendo por que você veio até aqui.
— Eu posso morrer, Carla.
Ela molha um pano de prato e seca uma mancha inexistente na bancada.
— Deixei o México no meio da noite sem nada. Não pensei se eu ia sobreviver. Um monte de gente acaba morrendo, mas eu fui assim mesmo. Deixei para trás minha mãe, meu pai, minha irmã e meu irmão. — Ela molha mais uma vez o pano de prato e continua: — Eles tentaram me deter. Disseram que essa fuga não valia a minha vida, mas eu disse que aquela era a minha vida e cabia a mim decidir o que valia a pena. Falei que eu iria mesmo assim, ou para morrer, ou para ter uma vida melhor. — Ela molha o pano mais uma vez e o torce bem apertado. — Vou te dizer, quando deixei a minha casa naquela noite, jamais havia me sentido tão livre. Mesmo hoje, depois de todo esse tempo em que já estou aqui, nunca me senti tão livre como naquela noite.
— E você se arrepende?
— Claro que eu me arrependo. Um monte de coisa ruim aconteceu durante a viagem. E, quando os meus pais morreram, não pude voltar para o funeral. Rosa não sabe nada sobre suas origens. — Ela suspira. — Você não está viva se não tiver arrependimentos.
Do que eu vou me arrepender? Duas visões giram na minha mente: minha mãe sozinha no meu quarto branco imaginando para onde foram todos que ela amava. Minha mãe sozinha em um campo verdejante olhando para a minha lápide e as do meu pai e do meu irmão. Minha mãe morrendo sozinha naquela casa.
Carla toca um dos meus braços e faço um esforço para que todas essas imagens sumam mais do que depressa da minha cabeça. Não aguento pensar nessas coisas. Se eu pensar nelas, não conseguirei viver.
— Talvez eu não passe mal — sussurro.
— É, pode ser que isso não aconteça — ela diz e a esperança se espalha pelo meu corpo como um vírus.


FALO C/ VC + TARDE



FAQ DO PASSAGEIRO DE AVIÃO DE PRIMEIRA VIAGEM
P: Qual é a melhor maneira de aliviar as dores de ouvido causadas pelas mudanças de pressão na cabine?
R: Chiclete. E, também, beijos.
P: Qual é o melhor assento: janela, centro ou corredor?
R: Janela, com toda a certeza. É uma bela visão do mundo a que se tem a 32 mil pés de altura. Tenha consciência de que pegar o lugar na janela significa que o seu companheiro de viagem pode acabar tagarelando em níveis espetacularmente entediantes. Beijá-lo (o seu companheiro de viagem, não o tédio) é também bastante eficaz nessa situação.
P: Quantas vezes por hora o ar da cabine é renovado?
R: Vinte.
P: Quantas pessoas o cobertor da companhia aérea pode cobrir de forma confortável?
R: Duas. Lembre-se de erguer o braço do assento entre vocês e se aconchegar o mais próximo possível do companheiro de viagem para o máximo de cobertura.
P: Como é possível que os seres humanos tenham inventado algo tão impressionante como o avião e algo tão horrível como a bomba nuclear?
R: Os seres humanos são misteriosos e paradoxais.
P: Teremos turbulências?
R: Sim. Um pouco de turbulência pode acontecer na vida de qualquer pessoa.


A ESTEIRA
— ACHO QUE ESTEIRAS de bagagem são uma metáfora perfeita para a vida — Olly comenta de cima de uma delas, que está parada.
Nenhum de nós dois despachou nenhuma bagagem. Tudo que carrego é uma pequena mochila com o essencial: escova de dentes, uma calcinha limpa, o guia de viagem Lonely Earth Maui O Pequeno Príncipe. É claro que eu tinha de ter levado esse livro comigo. Vou lê-lo mais uma vez para ver como o sentido da história mudou para mim.
— Quando você chegou a essa conclusão? — pergunto.
— Agora mesmo. — Ele está em um humor excêntrico, criando um monte de teorias, esperando apenas que eu peça para ele explicar aquela ideia.
— Quer pensar mais um pouco a respeito antes de me regalar com o desenvolvimento da sua teoria?
Ele faz que não com a cabeça e pula bem na minha frente.
— Gostaria de começar a regalar você agora. Por favor.
Faço um gesto magnânimo para que ele continue.
— Você nasce. Você é jogado nessa geringonça chamada vida que simplesmente não para de girar.
— Nessa sua teoria as pessoas são as bagagens?
— Sim.
— Prossiga.
— Às vezes você cai prematuramente. Às vezes você é tão danificado pelas outras malas que caem na sua cabeça que não funciona mais direito. Às vezes você se perde ou é esquecido e fica rodando para todo o sempre.
— E aquelas que são pegas?
— Elas vão viver vidas monótonas trancafiadas num armário em algum lugar.
Abro a boca algumas vezes, sem ter certeza de por onde começar.
Ele encara isso como um sinal de concordância.
— Viu? É perfeito. — Os olhos dele sorriem para mim.
— Perfeito. — Eu me refiro a ele e não à teoria. Entrelaço meus dedos com os dele e olho ao redor. — É como você se lembra? — Olly já esteve ali com sua família em férias quando tinha dez anos.
— Não me lembro de muita coisa, na verdade. Lembro do meu pai dizendo que não os mataria se gastassem um pouco de dinheiro para criar uma primeira impressão um pouco melhor.
O terminal é pontilhado por pessoas que dão as boas-vindas aos turistas — havaianas em vestidos longos com estampas floridas segurando placas de boas-vindas e colares feitos com orquídeas brancas e roxas ao redor dos pulsos. O ar não tem cheiro de oceano. Em vez disso, tem um odor industrial, de combustível de avião e produtos de limpeza. É um cheiro que eu poderia vir a amar, já que ele significa que estou viajando. Ao nosso redor, a intensidade do odor aumenta e diminui, pontuada por um coro de alohas entoado tanto pelo pessoal das boas-vindas quanto por familiares de passageiros. Minha primeira impressão não é nada má. Fico imaginando como o pai do Olly passou todo esse tempo vivendo nesse mundo sem saber o que é mais precioso.
— Na sua teoria da bagagem, a sua mãe é uma das malas que foram danificadas?
Ele faz que sim com a cabeça.
— E a sua irmã? Ela é uma das que se perderam e ficam rodando e rodando para sempre?
Ele faz que sim novamente.
— E você?
— O mesmo que a minha irmã.
— E o seu pai?
— Ele é a esteira.
Balanço a cabeça.
— Não. — Eu pego a mão dele. — Ele não tem nada, Olly.
Eu o deixei envergonhado. Ele tira a mão da minha, se afasta um pouco e estuda o terminal.
— Você, minha querida, precisa de um colar de flores. — Ele faz um gesto para uma das havaianas que ainda não encontrou o seu grupo de turistas.
— Não preciso não — retruco.
— Ah, mas você precisa sim — ele insiste. — Espere aqui. — Olly vai até a garota. No início, ela faz que não com a cabeça, mas Olly persiste, como se não fosse desistir. Alguns segundos depois, os dois estão olhando para mim. Aceno para provar que sou legal e amigável, o tipo de pessoa para quem ela gostaria de dar um colar de flores.
Ela cede. Olly retorna triunfante. Ergo uma das mãos para pegar o colar, mas em vez disso ele o coloca no meu pescoço.
— Você sabe que originalmente os colares de flores são dados apenas para a nobreza — digo, repetindo o que li no meu guia. Ele ergue o meu cabelo e acaricia a parte de trás do meu pescoço antes de soltar o colar.
— E quem não sabe disso, princesa?
Passo os dedos sobre o colar, sentindo como se as flores pudessem transferir sua beleza para mim.
— Mahalo nui loa — digo. — Quer dizer “muito obrigada”.
— Você leu todas as palavras do guia, não é?
Faço que sim com a cabeça.
— Eu adoraria ter uma mala — comento. — Eu a envolveria com plástico quando viajasse. Colaria adesivos de todos os lugares a que já fui. E, quando eu a visse na esteira, eu a agarraria com ambas as mãos e ficaria muito feliz em pegá-la porque aí eu teria certeza de que a minha aventura realmente começou.
Ele olha para mim, um ateu confrontando-se não com a evidência, mas pelo menos com a possibilidade da existência de Deus. Ele me envolve em seus braços e, quando estamos embrulhados um no outro, seu rosto se enterra no meu cabelo e meu rosto está pressionado contra o seu peito, nem mesmo a luz do sol passa entre os nossos corpos.
— Não morra — ele diz.
— Não morrerei — devolvo.


DICIONÁRIO DA MADELINE
pro.mes.sa s.f. pl. -s 1A mentira que você deseja manter. [2015, Whittier]


AQUI AGORA
DE ACORDO COM O guia, Maui tem o formato de uma cabeça. Nosso táxi nos levará pelo pescoço e pela mandíbula, o queixo, a boca e o nariz até o final da testa. Reservei um hotel em Ka’anapali, que, geograficamente falando, é o crânio, bem acima do início do cabelo.
Viramos em uma esquina e de repente o oceano está lá, junto à estrada à nossa esquerda. Não deve estar a mais de cem metros de distância.
A vasta imensidão do mar é chocante. Ele vai até o fim do mundo.
— Não acredito que eu perdi isso tudo — digo. — Perdi todo esse mundo imenso.
Ele balança a cabeça.
— Uma coisa de cada vez, Maddy. Estamos aqui agora.
Olho novamente para os olhos cor de oceano do Olly e me afogo, cercada por água de todos os lados. Há tanta coisa para ver e é difícil saber no que prestar atenção. O mundo é grande demais e não há muito tempo para vê-lo.
Mais uma vez, ele lê a minha mente.
— Quer parar para dar uma olhada?
— Sim, por favor.
Ele pergunta ao motorista se estaria tudo bem se déssemos uma parada e ele responde que não há o menor problema. Ele conhece um bom lugar para isso, uma praia com uma área para piqueniques.
Saio do carro antes que o motorista desligue o motor. A água está a apenas uma caminhada curta ladeira abaixo e então é só cruzar a areia.
Olly segue a uma certa distância de mim.
O oceano.
Ele é maior, mais azul e mais turbulento do que eu imaginava. O vento ergue o meu cabelo, esfrega areia e sal contra a minha pele, invade meu nariz. Espero até descer a ladeira para tirar os sapatos. Enrolo as barras do jeans até onde sou capaz. A areia é quente, seca e solta. Os meus pés abrem caminho entre ela e os grãos escorregam entre os meus dedos.
À medida que me aproximo da água, a areia muda. Agora ela gruda nos meus dedos, cobrindo-os como uma segunda pele. Na beira da água, ela muda mais uma vez e me causa a sensação de veludo líquido. Meus pés deixam marcas nessa mistura macia.
Por fim, meus pés estão na água, em suas ondas, e depois meus tornozelos, minhas panturrilhas.
Não paro de me mover até que a água esteja nos meus joelhos e encharque meu jeans.
— Tome cuidado — Olly grita de algum lugar atrás de mim.
Não tenho certeza do que isso significa neste contexto. Devo ser cuidadosa porque posso me afogar? Devo ser cuidadosa porque posso ficar doente? Devo ser cuidadosa porque, se eu me tornar parte deste mundo, ele também fará parte de mim?
Porque não há como negar isso agora. Eu estou no mundo.
E, também, o mundo está em mim.


DICIONÁRIO DA MADELINE
o.ce.a.no s.m. pl. -s 1. A parte infinita de si mesmo que nunca conheceu, mas sempre suspeitou de que estava ali. [2015, Whittier]


RECOMPENSA SE ENCONTRADO
NOSSO HOTEL FICA bem em frente à praia e podemos sentir o cheiro do oceano do pequeno lobby ao ar livre. Somos recebidos com mais alohas e colares de flores. Olly me dá o dele, assim tenho três camadas ao redor do pescoço. Um carregador de malas vestido com uma camiseta havaiana amarela e branca se oferece para carregar nossa bagagem inexistente. Olly faz um ruído sobre o fato de nossa bagagem só chegar mais tarde e me conduz para longe dele antes que possa perguntar mais alguma coisa.
Cutuco Olly diante do balcão de check-in e lhe passo nossos documentos.
— Bem-vindos a Maui, sr. e sra. Whittier — diz a mulher do outro lado do balcão. Ele não corrige o erro, simplesmente me puxa para mais perto e me dá um sonoro estalinho nos lábios.
— Muito mahalo — diz ele, abrindo um imenso sorriso.
— Vocês vão ficar com a gente por... duas noites.
Olly olha para mim em busca de confirmação e eu faço que sim com a cabeça. Ela digita algumas coisas e nos diz que, apesar de ainda ser cedo, nosso quarto já está pronto. Ela me dá a chave e o mapa do lugar e nos informa sobre o bufê de café da manhã que está incluído na diária.
— Aproveitem sua lua de mel! — Ela nos dá uma piscadinha e nos libera.
O quarto é pequeno, muito pequeno, e decorado de forma muito parecida com o lobby, com móveis de teca e grandes quadros retratando flores tropicais. Nossa varanda — chamada de lanai — dá para um pequeno jardim e para o estacionamento.
Do centro do quarto, giro 360 graus para ver o que é considerado necessário em uma moradia temporária — televisão, uma pequena geladeira, um armário enorme, uma escrivaninha e uma cadeira. Viro mais 360 graus para descobrir o que falta.
— Olly, onde estão as nossas camas? Onde vamos dormir?
Ele parece momentaneamente confuso até que vê algo.
— Ah, você está se referindo a isso? — Ele entra no que parecia ser um imenso armário, pega os dois puxadores mais altos e os puxa para revelar uma cama. — Voilà — ele diz. — O modelo ideal para os dias modernos, a eficiência da economia de espaço. O ápice do estilo e do conforto, da conveniência e da praticidade. Eu lhe apresento a cama Murphy.
— Quem é Murphy? — pergunto, ainda surpresa com o fato de uma cama poder sair de uma parede.
— O inventor dessa cama. — Ele me dá uma piscadinha.
Com a cama aberta, o quarto parece ainda menor. Nós dois a observamos por mais tempo que o necessário. Olly volta a olhar para mim. Já estou vermelha antes de ele começar a falar.
— Tem só uma cama. — A voz é neutra, diferente de seus olhos. A expressão no rosto dele faz com que eu fique ainda mais vermelha.
— Então... — falamos ao mesmo tempo. Caímos na risada, risadas inibidas no início e depois rimos de nós mesmos por nos sentirmos tão sem graça.
— Onde está o guia? — ele pergunta, finalmente quebrando o contato visual e procurando o livro pelo quarto. Ele pega a minha mochila e enfia uma das mãos dentro dela, mas acaba tirando O Pequeno Príncipe de lá de dentro.
— Vejo que você trouxe apenas o essencial — ele implica comigo, jogando o livro para cima. Ele sobe na cama e começa a pular em cima dela. As molas da Murphy começam a protestar em alto e bom som. — Esse não é o seu livro favorito de todos os tempos? — Ele vira o livro nas mãos. — Lemos O Pequeno Príncipe no primeiro ano. Tenho certeza de que não entendi nada.
— Você devia tentar de novo. O significado muda cada vez que você o lê.
Ele olha para mim.
— E quantas vezes você...
— Algumas.
— Mais ou menos de vinte?
— Tudo bem, mais do que algumas.
Ele sorri e abre a capa dianteira.
— Propriedade de Madeline Whittier. — Ele vira a página e continua a ler. — Uma visita comigo (Madeline) a um sebo. Mergulho com snorkel comigo (Madeline) na ilha de Molokini, para observar o peixe oficial do Havaí.
Ele para de ler em voz alta, mas continua a fazê-lo em silêncio.
— Quando você escreveu isso? — ele quer saber.
Começo a subir na cama, mas paro quando o quarto balança um pouco. Tento novamente e outra onda de vertigem faz com que eu perca o equilíbrio.
Eu me viro e sento, evitando olhar para ele. Meu coração se aperta tão dolorosamente no peito que fico sem ar.
Olly logo de imediato está ao meu lado.
— Mad, o que foi? O que há de errado?
Ah, não. Não tão cedo. Não estou pronta.
— Estou tonta — explico. — E o meu estômago...
— Precisamos ir ao hospital?
Meu estômago ruge, um som alto e longo que se repete.
Olho para ele.
— Acho que eu estou...
— Com fome — completamos ao mesmo tempo.
Fome.
É isso o que estou sentindo. Não estou passando mal, estou apenas com fome.
— Estou faminta — digo. Nas últimas 24 horas dei apenas uma mordida no chilaquiles e comi um punhado de fatias de maçã da Enfermeira do Inferno.
Olly começa a rir tanto que acaba indo parar na ponta da cama.
— Fiquei preocupado com que alguma coisa no ar fosse matar você. — Ele pressiona as costas das mãos sobre os olhos. — Em vez disso, você ia morrer era de fome.
Na verdade, jamais senti fome antes. Na maior parte dos dias, eu sempre fazia três refeições e dois lanches exatamente nos mesmos horários. Carla acreditava muito na comida. Barriga vazia, cabeça vazia, ela costumava dizer.
Eu me deito e começo a rir com ele.
Sinto novamente um aperto no coração, mas o ignoro.


LEMBRANÇA DAS COISAS DO PRESENTE
EU ME SINTO MUITO melhor depois que comemos alguma coisa. Precisamos de roupas de banho e, de acordo com o Olly, suvenires, então paramos em uma loja chamada providencialmente de Loja de Suvenires e Mercadinho de Maui. Não acredito já ter visto tantas coisas juntas. Eu me sinto soterrada por elas. Pilhas e mais pilhas de camisetas e chapéus com as inscrições “Maui”, “Aloha” e algumas variações disso. Displays com vestidos floridos pendurados de praticamente todas as cores. Mostruários e mais mostruários de lembrancinhas: chaveiros, copos de licorímãs de geladeira. Um mostruário é dedicado apenas a chaveiros em forma de prancha de surfe com nomes escritos com estêncil dispostos em ordem alfabética. Procuro por Oliver ou Madeline, ou Olly ou Maddy, mas não encontro nada.
Olly aparece atrás de mim e envolve minha cintura com um dos braços. Estou diante de uma parede repleta de calendários com fotos de surfistas sem camisa. Eles até que são bem atraentes.
— Estou com ciúmes — ele murmura na minha orelha. Solto uma gargalhada e acaricio o braço dele.
— Você deveria mesmo sentir ciúmes. — Pego um dos calendários.
— Fala sério que você vai...
— É para a Carla — explico.
— Claro, claro.
— O que você pegou? — Apoio a cabeça no peito dele.
— Um colar de conchas para a minha mãe. Um cinzeiro em formato de abacaxi para a Kara.
— Por que as pessoas compram todas essas coisas?
Ele me aperta um pouco mais forte.
— Não tem muito mistério. Essas coisas só querem dizer que nos lembramos de lembrar das pessoas.
Eu me viro nos braços dele, lembrando do quão depressa este se tornou meu lugar preferido no mundo. Familiar e estranho, confortável e arrepiante, tudo isso ao mesmo tempo.
— Vou levar este negócio aqui para a Carla. — Ergo o calendário. — E macadâmias cobertas de chocolate. E vou levar um desses vestidos para mim.
— E para a sua mãe?
Que tipo de lembrança se deve levar para a mãe que a amou durante toda a vida, que desistiu do mundo por você? A quem você nunca mais verá de novo? Nada vai servir, não de verdade.
Penso na velha fotografia que ela me mostrou, aquela em que todos nós estávamos no Havaí. Não tenho nenhuma memória daquele momento, nenhuma memória de estar naquela praia com ela, meu pai e meu irmão, mas ela se lembra. Ela tem memórias de mim, da vida que eu jamais tive.
Eu me afasto do Olly e vago pela loja. Aos dezoito anos, outros adolescentes costumam já ter se separado dos pais. Eles deixam sua casa, seguem com sua vida, criam suas próprias memórias. Mas não eu. Minha mãe e eu compartilhamos o mesmo espaço confinado e respiramos o mesmo ar filtrado por tanto tempo que é estranho estar sem ela. É estranho criar lembranças das quais ela não faz parte.
O que ela vai fazer se eu não voltar para casa? Ela reunirá todas as lembranças de mim? Ela as tirará do fundo do armário, olhará para elas e as reviverá repetidas vezes?
Quero lhe dar algo que resuma essa época, o tempo que passei sem ela. Algo que a faça lembrar de mim. Encontro um mostruário com cartões postais vintage e conto a verdade para ela.




O MAIÔ
É POSSÍVEL QUE EU devesse ter provado o maiô antes de comprá-lo. Não que ele não tenha servido. O problema é que serviu certinho. Sério que as pessoas esperam que eu apareça em público vestindo uma coisa assim tão pequena?
Estou no banheiro olhando do meu corpo verdadeiro para o que está refletido no espelho. O maiô é de um cor-de-rosa vivo com listras. O rosa é tão aceso que chega até a colorir as minhas bochechas. Estou corada, como uma garota de praia com as bochechas rosadas que sempre pertenceu ao sol.
A umidade tornou meu cabelo mais cheio que o normal. Eu o prendi em uma longa trança para domá-lo. Olho novamente no espelho. A única forma de esconder este maiô é vestir a maior quantidade de roupa possível ao mesmo tempo. Examino meu corpo novamente. Realmente não há como negar que tenho seios, pernas e todo o resto. Todas as partes do meu corpo parecem estar no lugar certo, assim como parecem ter as proporções corretas. Eu me viro um pouquinho para ver se o meu traseiro está coberto, e ele está, mas apenas na medida exata. O que eu veria no espelho se fosse uma garota normal? Será que eu acharia que estou muito gorda ou muito magra? Será que eu não gostaria dos meus quadris, da minha cintura, do meu rosto? Será que eu teria problemas de imagem corporal? No momento, meu único problema é que eu trocaria com a maior felicidade este corpo por um outro que funcionasse direito.
Olly bate à porta.
— Você resolveu mergulhar aí dentro mesmo?
Algum dia terei de sair deste banheiro, mas estou muito nervosa. Será que Olly vai achar que estou com tudo no lugar?
— Na verdade, estou praticando pesca submarina. — Minha voz treme apenas de leve.
— Fantástico. Vamos ter sushi para o...
Abro a porta depressa, como quem arranca um Band-Aid de uma vez só.
Olly simplesmente para de falar. Seus olhos vão lentamente do meu rosto até os dedinhos dos meus pés e voltam ainda mais devagar até o meu rosto novamente.
— Você está de maiô — ele diz. Seus olhos estão cravados no intervalo de pele entre o meu pescoço e o meu peito.
— Estou. — Olho bem nos olhos dele e o que eu vejo me faz sentir como se eu estivesse pelada.
Meu coração acelera e respiro fundo para tentar acalmá-lo, mas não funciona.
Olly passa as mãos pelos meus braços, ao mesmo tempo me puxando lentamente para mais perto dele. Ele encosta a testa na minha quando finalmente já estamos próximos o suficiente. Seus olhos têm uma chama azul.
Ele parece um homem faminto, como se pudesse me devorar inteira.
— Esse maiô — ele começa.
— É pequeno — concluo.


GUIA PARA OS PEIXES DE RECIFE HAVAIANOS



PULO
SURPREENDO OLLY entrando na água logo de imediato. Ele diz que eu sou como um bebê que mergulha de cabeça nas coisas por não ter conhecimento suficiente para sentir medo. Como um bebê, mostro a língua para ele e sigo meu caminho, com um colete salva-vidas e tudo, em direção à água.
Estamos em Black Rock, que tem esse nome por causa de um penhasco formado por pedras vulcânicas que corre até a praia e sobe até o céu. Debaixo d’água, as pedras formam um crescente que acalma as ondas e forma arrecifes perfeitos para mergulhos com snorkel. Nosso guia da empresa Diversão ao Sol nos diz que esta praia também é popular entre mergulhadores de penhasco.
A água é fria, salgada e deliciosa. Chego até a achar que posso ter sido uma sereia na minha vida anterior. Uma sereia astronauta arquiteta. Os pés de pato e o colete salva-vidas me mantêm na superfície e levo apenas um minuto para me acostumar a respirar com a máscara. Ouvir o magnífico som da minha própria respiração é algo pacífico e que me causa uma estranha euforia. A cada respiração me asseguro de que estou mais do que viva. Estou vivendo.
Logo vemos um humuhumunukunukuapua’a. Na verdade, vemos um monte deles. Acho que ele é considerado o peixe oficial do estado do Havaí devido à sua abundância. A maioria dos peixes está agrupada ao redor do arrecife. Nunca vi cores tão intensas, não apenas azul, amarelo e vermelho, mas os azuis mais profundos, os amarelos mais vivos e os vermelhos mais vibrantes que já existiram.
Além do coral, os raios de sol formam colunas de luz retangulares na água. Cardumes de peixes nadam em disparada para dentro e para fora, agindo como se fossem um só corpo.
De mãos dadas, nadamos para mais longe e vemos arraias que mais parecem pássaros gigantes de barriga branca deslizando pela água. Vemos duas enormes tartarugas marinhas que parecem estar voando em vez de nadando. Racionalmente, sei que elas não podem nos fazer mal. Mas esses animais são tão grandes e pertencem tão obviamente a este mundo aquático — do qual não faço parte — que paro de me mover para evitar atrair sua atenção.
Eu podia ficar ali o dia todo, mas Olly por fim me puxa de volta para a praia. Ele não quer que nós — ou seja, eu — nos queimemos no sol do meio-dia.
De volta à praia, nos secamos debaixo da sombra de uma árvore. Sinto os olhos do Olly em mim quando ele acha que não estou prestando atenção, porém fazemos parte de uma sociedade de admiração mútua — também o observo em segredo, tomada pelo desejo. Ele está usando apenas uma sunga, de forma que finalmente posso ver os músculos lisos e definidos de seus ombros, peito e abdômen. Quero memorizar a paisagem do corpo dele com as minhas mãos. Sinto um calafrio e enrolo a toalha ao redor do meu corpo. Olly não entende o motivo que me faz tremer, por isso se aproxima e coloca mais uma toalha ao redor dos meus ombros. A pele dele cheira a oceano e mais alguma outra coisa, algo indefinível que faz com que ele seja o Olly. Eu me choco ao sentir um impulso de encostar minha língua em seu peito, sentir o gosto de sol e sal da sua pele. Desvio os olhos do tórax do Olly e olho para o rosto dele. Ele evita os meus olhos e aperta a toalha ao meu redor de forma que nenhum centímetro da minha pele fique à mostra e se afasta um pouco de mim.
Tenho a sensação de que ele está se segurando.
E é claro que eu não quero que ele faça isso.
Ele olha para o topo do penhasco de onde algumas pessoas, a maioria delas adolescentes, estão pulando no mar.
— Quer pular de uma grande rocha? — ele pergunta com os olhos brilhando.
— Não sei nadar — eu lhe lembro.
— Um pouco de afogamento nunca matou ninguém — disse o garoto que um dia me garantiu que o mar era inclemente e impiedoso.
Ele pega a minha mão e corremos juntos até o penhasco. De perto, a pedra parece uma esponja negra e dura. A rocha é afiada contra os meus pés e levo um tempo para encontrar fendas onde apoiá-los, mas finalmente chegamos ao topo.
Olly está ávido para pular. Nem mesmo se detém para admirar a vista.
— Juntos? — ele pergunta, olhando para a água resplandecente lá embaixo.
— Da próxima vez, quem sabe — digo.
Ele balança a cabeça afirmativamente.
— Vou primeiro. Não vou deixar você se afogar. — Ele dá um pulo para cima e outro para a frente e dá um salto mortal antes de dardejar para a água. Alguns segundos depois, volta à superfície e acena para mim. Eu aceno de volta, fecho os olhos e avalio a minha situação, porque pular de um penhasco parece ser aquele momento crucial em que uma avaliação precisa ser feita. Entretanto, estranhamente, descubro que eu não quero pensar tanto assim. Como Olly, apenas desejo pular.
Procuro pelo rosto dele na água e o encontro esperando por mim. Considerando o que o futuro pode guardar, pular deste penhasco não parece ser assim tão assustador.


GUIA PARA MERGULHAR DO PENHASCO


ZACH
DE VOLTA AO HOTEL, Olly liga para seu amigo, Zach, do telefone do nosso quarto. Meia hora depois, ele está na nossa porta.
Zach tem uma pele escura, ocre, dreadlocks imensos e um sorriso muito maior que seu próprio rosto. Ele imediatamente começa a tocar numa guitarra imaginária uma música que eu não conheço.
Olly sorri de orelha a orelha. Zach balança a cabeça de forma dramática enquanto “toca” e seu cabelo acompanha o ritmo da “música”.
— Zach! — Olly o puxa para um abraço. Eles dão tapinhas sonoros nas costas um do outro.
— Agora é Zacharias.
— Desde quando? — quer saber Olly.
— Desde que decidi me tornar um deus do rock. É Zacharias como...
— Messias — eu entro na conversa, entendendo a piada.
— Exatamente! A sua namorada é mais esperta que você.
Fico vermelha e olho para o lado para ver Olly corar também.
— Bem, isso foi fofo. — Zach solta uma gargalhada e dedilha as cordas da guitarra imaginária.
Sua risada me lembra a da Carla: desinibida, um pouco alta demais e repleta de alegria. Neste momento sinto desesperadamente a falta dela.
Olly se vira para mim.
— Maddy, esse é o Zach.
— Zacharias.
— Cara, eu não vou chamar você assim. Zach, essa é a Maddy.
Zach pega uma das minhas mãos e lhe dá um beijo rápido.
— É fantástico conhecer você, Maddy. Ouvi muito a seu respeito, mas não achei que você fosse, tipo assim, real.
— Está certo. — Examino minha mão onde ele a beijou. — Em alguns dias eu não serei mesmo de verdade.
Zach ri mais uma vez alto demais e eu me flagro gargalhando junto com ele.
— Maravilhoso — Olly nos corta. — Vamos em frente. Tem um loco moco com o nome da Maddy nele nos esperando.
Um loco moco é uma montanha de arroz debaixo de um hambúrguer, que fica embaixo do molho, que, por sua vez, fica embaixo de dois ovos fritos. Sentamos em uma mesa do lado de fora, com o oceano a apenas alguns metros de distância.
— Este lugar é o melhor — diz Zach. — É onde os locais comem.
— Você já contou para os seus pais? — Olly pergunta no intervalo entre duas mordidas.
— Sobre a parada de ser um astro de rock ou a parada de ser gay?
— Ambas.
— Não.
— Você vai se sentir melhor quando sair do armário.
— Sem dúvida, mas o nível de dificuldade é meio alto.
Zach olha para mim.
— Meus pais acreditam em três coisas: família, educação e trabalho duro. Por “família”, eles entendem um homem, uma mulher, duas crianças e um cachorro. Por “educação” eles querem dizer curso universitário de quatro anos, e “trabalho duro” significa nada que envolva arte. Ou esperança. Ou o sonho de se tornar um astro de rock.
Ele olha novamente para Olly e seus olhos castanhos estão mais sérios do que antes.
— Como vou contar a eles que seu primogênito quer se tornar um Freddie Mercury afroamericano?
— Eles devem suspeitar — arrisco. — Pelo menos da parte de você querer se tornar um astro de rock. Seu cabelo tem quatro tons diferentes de vermelho.
— Eles acham que é só uma fase.
— Talvez você pudesse escrever uma música para eles.
Ele tem um acesso de riso.
— Gostei de você.
— Gostei de você também — devolvo. — Você pode chamar a música de “Essa maçã caiu mesmo bem longe da árvore”.
— Não tenho nem mesmo certeza se sou uma maçã — diz Zach, ainda rindo.
— Vocês são engraçados — Olly comenta quase sorrindo, porém está obviamente preocupado. — Cara, me empresta o seu telefone — ele pede ao Zach.
Zach lhe passa o celular e Olly de imediato começa a digitar.
— E aí, o que está rolando com você? O papai ainda é um babaca?
— Você achou que ele podia mudar? — Olly não ergue os olhos do telefone.
— Acho que não. — A voz do Zach fica trêmula. O quanto ele sabe sobre a família do Olly? O pai dele é muito pior que um babaca.
— E você, Madeline? O que há de errado com os seus pais?
— Somos apenas a minha mãe e eu.
— Ainda assim. Deve haver alguma coisa de errado com ela.
Minha mãe, minha mãe. Eu nem ao menos pensei nela. Ela deve estar louca de preocupação.
— Bem, acho que todo mundo tem alguma coisa de errado, não é mesmo? Mas a minha mãe é inteligente e forte. E ela sempre me coloca em primeiro lugar.
Sei que os surpreendi porque nenhum dos dois fala nada.
Olly tira os olhos do telefone e se vira para mim.
— Você precisa dizer para a sua mãe que você está bem, Mad.
Ele me passa o telefone e vai para o banheiro.

De: Madeline F. Whittier
Para: usuariogenerico033@gmail.com
Assunto: (sem assunto)
Você está com a minha filha? Ela está bem?
De: Madeline F. Whittier
Para: usuariogenerico033@gmail.com
Assunto: (sem assunto)
Sei que ela está com você. Você não entende o quanto ela está doente. Traga-a para casa.
De: Madeline F. Whittier
Para: usuariogenerico033@gmail.com
Assunto: (sem assunto)
Por favor, me diga onde vocês estão. Ela pode ficar seriamente doente a qualquer minuto.
De: Madeline F. Whittier
Para: usuariogenerico033@gmail.com
Assunto: (sem assunto)
Sei onde vocês estão e vou embarcar no próximo voo. Estarei aí de manhã. Por favor, mantenha a Madeline a salvo.

Paro de ler, aninho o telefone junto ao peito e fecho os olhos. Sinto culpa, ressentimento e pânico, tudo ao mesmo tempo. Ver minha mãe assim tão preocupada me faz querer ir até ela assegurar-lhe que estou bem. Essa parte de mim quer que ela me proteja.
Mas outra parte, a parte nova, não está pronta para desistir do mundo que estou começando a conhecer. Fico chateada por ela ter acessado meus e-mails pessoais. Fico chateada por eu e Olly termos ainda menos tempo do que eu imaginava.
Meus olhos permanecem fechados por tempo demais porque Zach finalmente pergunta se estou bem.
Abro os olhos, tomo um gole de suco de abacaxi, fazendo que sim com o canudo na boca.
— Não, sério. Você está mesmo se sentindo bem? O Olly me contou que...
— Ele lhe contou que eu estou doente.
— É.
— Estou bem — respondo, me dando conta de que isso é a mais pura verdade. Eu me sinto bem.
Eu me sinto mais do que bem.
Olho de novo para o telefone. Preciso dizer alguma coisa.

De: usuariogenerico033@gmail.com
Para: Madeline F. Whittier
Assunto: (sem assunto)
Por favor, não se preocupe, mãe. E, por favor, não venha para cá. Estou realmente bem e essa também é a minha vida. Vejo você em breve.

Aperto “enviar” e devolvo o telefone para o Zach. Ele o coloca no bolso e olha para mim.
— Estão você comprou mesmo esses comprimidos pela internet? — ele pergunta.
Ainda estou tão abalada com os e-mails da minha mãe e preocupada com a possibilidade de Olly e eu não termos tempo suficiente um para o outro que não estou preparada para ouvir minha mentira saindo dos lábios do Zach. Faço exatamente o que não se deve fazer quando se está mentindo para alguém: eu evito os olhos dele. Fico impaciente e coro.
Abro a boca para explicar, mas não sai nada.
Ele já adivinhou a verdade quando o encaro.
— Você vai contar para o Olly? — pergunto.
— Não. Tenho mentido sobre mim por tanto tempo que eu sei como é.
Uma onda de alívio atravessa o meu corpo.
— Obrigada.
Ele simplesmente assente.
— O que aconteceria se você contasse para os seus pais? — pergunto.
Ele responde sem pestanejar:
— Eles fariam com que eu escolhesse e eu não os escolheria. Do jeito que está, todo mundo ganha.
Ele se reclina na cadeira e dedilha a guitarra imaginária.
— Peço mil desculpas aos Rolling Stones, mas o meu primeiro disco vai se chamar Entre o rock and roll e um lugar difícil. O que você acha?
Solto uma gargalhada.
— É horrível.
Ele fica sério novamente.
— Talvez crescer signifique desapontar as pessoas que você ama.
Isso não é uma pergunta, mas, de qualquer forma, eu não teria mesmo uma resposta.
Viro a cabeça e observo Olly retornar até onde estamos.
— Tudo bem? — ele indaga antes de beijar a minha testa, depois o meu nariz e, por último, os lábios.
Decido não contar a ele sobre a visita iminente da minha mãe. Vamos simplesmente aproveitar o máximo possível o tempo que temos.
— Nunca me senti melhor na minha vida — digo. Sou grata por pelo menos não ter de mentir a respeito disso.


A CAMA MURPHY
JÁ É FINAL DE TARDE quando voltamos ao hotel. Olly acende todas as luzes, liga o ventilador de teto e mergulha na cama com uma cambalhota.
Ele deita de um dos lados e eu faço o mesmo do outro.
— Este lado é meu — ele diz, o que significa o lado esquerdo perto da porta. — Eu durmo na esquerda. É bom que você saiba disso. Para referências futuras. — Ele se senta e pressiona o cobertor com a palma das mãos. — Sabe o que eu falei mais cedo sobre as camas Murphy serem o suprassumo do conforto? Vou ter de retirar o que disse.
— Você está nervoso? — pergunto sem pensar. Acendo o abajur no lado direto da cama.
— Não — Olly responde rápido demais. Ele rola o corpo, as pernas caem para um dos lados da cama até o chão, onde fica de pé, parado.
Eu me sento do meu lado da cama e dou um pulinho experimental. O colchão guincha debaixo de mim.
— Por que você dorme do lado esquerdo quando está sozinho? — pergunto. Eu me movo na cama e volto a me deitar. Ele está certo. Este colchão é terrivelmente desconfortável.
— Talvez seja graças à antecipação — ele diz.
— De quê?
Ele não responde, de modo que eu rolo novamente para espiá-lo. Olly está deitado de costas, com um dos braços jogado sobre os olhos.
— Companhia — ele fala.
Eu viro a minha cabeça, corando.
— Você faz o tipo romântico incorrigível.
— Claro, claro.
Escorregamos rumo ao silêncio. Acima de nós, o ventilador faz um zumbido suave, espalhando um ar morno pelo quarto. Através das portas posso ouvir o som dos elevadores, que imita um sininho, e os murmúrios baixos das vozes das pessoas que passam pelo corredor.
Alguns dias antes, um único dia no mundo exterior parecia ser suficiente, mas, agora que tive um, quero mais. Não tenho certeza se para sempre será suficiente.
— Sim — Olly declara depois de um tempo. — Estou nervoso.
— Por quê?
Ele inspira e não o escuto soltar o ar.
— Nunca senti por ninguém o que eu sinto por você. — Ele não pronuncia essas palavras em voz baixa. Na verdade, ele as diz até mesmo alto demais e em um fluxo acelerado como se as palavras já desejassem há um longo tempo ser liberadas.
Eu me sento apoiada nos cotovelos, me deito de novo e por fim me levanto mais uma vez. Será que estamos falando de amor?
— Também nunca me senti assim antes — eu sussurro.
— Mas é diferente para você. — Sinto a frustração na voz dele.
— Por quê? Como?
— É a sua primeira vez para tudo, Maddy, mas não para mim.
Eu não entendo. Só porque é a primeira vez, não quer dizer que é menos verdadeiro, não é? Até mesmo o universo tem um início.
Ele fica em silêncio. Quanto mais eu penso no que ele disse, mais irritada fico. Porém, logo me dou conta de que ele não está desdenhando nem diminuindo os meus sentimentos. Olly está apenas com medo. Dada minha falta de escolhas, e se eu o tivesse escolhido porque ele foi simplesmente quem apareceu?
Ele respira fundo.
— Na minha cabeça, eu sei que já estive apaixonado antes, mas não senti nada. Estar apaixonado por você é melhor do que a primeira vez. Sinto como se fosse a primeira vez, a última vez e a única vez, tudo ao mesmo tempo.
— Olly, eu juro que conheço meu próprio coração. É uma das poucas coisas que não são completamente novas para mim.
Ele sobe novamente na cama e estende um dos braços. Eu me aninho nele e coloco a cabeça no recanto entre o seu pescoço e o ombro.
— Amo você, Maddy.
— Amo você, Olly. Eu já o amava antes de conhecê-lo.
Caímos no sono aninhados um no outro sem pronunciar nem uma única palavra, simplesmente deixando que o mundo faça algum barulho para nós por um tempo porque, neste momento, nenhuma palavra do mundo importa.

9 comentários:

  1. Eles ja tem esse afeto todo em tao pouco tempo. Mas esse relacionamento deles eh tao fofoo. Foi rapido mas foi real <3

    ResponderExcluir
  2. EU ESTOU MORTA FEAT ENTERRADA DE AMORES POR ESSE LIVRO

    ResponderExcluir
  3. awwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwn <3<3 shippo muito esses dois cara. que capitulo louco! melhor PARTE VEI, Oli dizendo que ama a maddy vei, e que nunca sentiu isso por ninguém vei.. AAAAAAAAAAAA
    ''— Amo você, Maddy.
    — Amo você, Olly. Eu já o amava antes de conhecê-lo.''

    ResponderExcluir
  4. -Sim. Estou nervoso.
    -Por quê?
    -Nunca senti por ninguém o que eu sinto por você.
    Ooowwwnnnn

    ResponderExcluir
  5. -Sim. Estou nervoso.
    -Por quê?
    -Nunca senti por ninguém o que eu sinto por você.
    Ooowwwnnnn

    ResponderExcluir
  6. "Sinto como se fosse a primeira vez, a última vez e a única vez, tudo ao mesmo tempo."
    Sei muito bem como é sentir isso. ♥

    ResponderExcluir
  7. quantos anos o Olly tem ?

    ResponderExcluir
  8. Cada página nova, cada capitúlo novo, estou mais apaixonada pelo o livro.
    Cada página nova, cada capitúlo novo, estou mais apaixonada pelo o Olly.
    Isa Online

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)