1 de julho de 2017

Adeus

Querida mãe,
A primeira coisa é que eu amo você. Você já sabe disso, mas posso não ter a chance de dizer isso de novo.
Então, eu amo você eu amo você eu amo você.
Você é inteligente, forte, gentil e altruísta. Eu não poderia desejar uma mãe melhor. Você não vai entender o que vou dizer. Não sei nem se eu mesma entendo.
Por sua causa eu estou viva, mãe, e sou tão, mas tão grata por isso. Por sua causa eu sobrevivi até agora e tive a chance de conhecer minha pequena parte do mundo. Porém, isso não é o suficiente. Não é sua culpa. Esta é uma vida impossível.
Não estou fazendo isso por causa do Olly. Ou talvez esteja. Eu não sei. Não sei como explicar. É por causa do Olly e ao mesmo tempo não é. É como se eu não conseguisse mais ver o mundo da velha maneira. Encontrei essa nova parte de mim mesma quando o conheci e essa nova parte não sabe como ficar parada apenas observando.
Lembra de quando lemos “O Pequeno Príncipe” juntas pela primeira vez? Fiquei tão irritada por ele morrer no final. Eu não conseguia entender como ele pôde escolher a morte só para voltar para a sua rosa.
Acho que agora eu entendo. Ele não escolheu morrer. A rosa era a vida dele. Sem ela, ele não poderia estar realmente vivo.
Eu não sei, mãe. Não sei o que estou fazendo, só sei que preciso fazer isso. Às vezes eu queria que as coisas pudessem voltar a ser como antes, antes de eu conhecer qualquer coisa. Mas isso não é possível.
Sinto muito. Me perdoe. Amo você.
Maddy


OS CINCO SENTIDOS
AUDIÇÃO
O teclado do alarme tenta anunciar a minha fuga emitindo um longo bipe toda vez que eu aperto um número. Só posso torcer para que o som seja tão inesperado e o quarto da minha mãe seja longe o suficiente da porta para que ela não ouça.
A porta se destranca com um suspiro.
Estou do Lado de Fora.
O mundo está tão silencioso que ruge.

TATO
A maçaneta da porta da frente é fria e lisa ao toque, quase escorregadia. É fácil soltá-la e é isso que eu faço.

VISÃO
São quatro da manhã e está muito escuro para ver os detalhes. Meus olhos percebem apenas a forma geral das coisas, silhuetas confusas contra o céu noturno. Árvores grandes, árvores menores, degraus, jardim, o caminho de pedra que leva ao portão com uma cerca de madeira de cada um dos lados. Portão, portão, portão.

OLFATO
Estou no jardim do Olly. O ar está repleto de odores intensos — flores, terra, meu medo crescente.
Eu os armazeno em meus pulmões. Taco uma pedrinha na janela dele, desejando que Olly saia.

PALADAR
Olly está diante de mim, atordoado. Não digo nada. Pressiono meus lábios contra os dele. E pela primeira vez ele congela, indeciso e obstinado, mas então logo muda de atitude. Pegando-me de surpresa, ele puxa meu corpo com toda a força contra o dele. Uma de suas mãos está no meu cabelo e a outra envolve a minha cintura.
O gosto do Olly é exatamente como eu me lembrava.


OUTROS MUNDOS
RECUPERAMOS NOSSOS sentidos.
Bem, o Olly recuperou os dele. Ele me afastou e agarrou os meus ombros com ambas as mãos.
— O que você está fazendo aqui? Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa? A sua mãe está legal?
Sou toda bravata.
— Estou bem. Minha mãe está bem. Estou fugindo.
— Não estou entendendo.
Respiro fundo, mas congelo no meio do caminho.
O ar da noite é frio, úmido, pesado e completamente diferente de qualquer ar que já respirei. Tento desrespirar, expulsar o ar dos pulmões. Meus lábios formigam e me sinto tonta. Isso é só medo ou será alguma outra coisa?
— Maddy, Maddy — ele sussurra no meu ouvido. — O que você fez?
Não consigo responder. Minha garganta está bloqueada como se eu tivesse engolido uma pedra.
— Tente não respirar — diz ele, enquanto começa a me guiar de volta para a minha casa.
Deixo que ele me puxe por um segundo, talvez dois, mas então paro.
— O que é? Você não consegue andar? Quer que eu te carregue?
Faço que não com a cabeça e afasto as minhas mãos das dele.
Respiro uma lufada de ar.
— Eu disse que estou fugindo.
Ele faz um som como um rosnado.
— Do que você está falando? Esse é um último desejo?
— É o oposto disso — respondo. — Você vai me ajudar?
— Com o quê?
— Não tenho carro. Não sei dirigir. Não conheço nada do mundo.
Ele faz outro som que fica no meio do caminho entre um rosnado e uma gargalhada. Queria poder ver os olhos dele no escuro.
Alguma coisa bate. Uma porta? Pego a mão dele e nos esgueiramos junto à parede da casa.
— O que foi isso?
— Jesus. Uma porta. Na minha casa.
Pressiono ainda mais o corpo junto à parede, tentando desaparecer. Dou uma espiada em um dos caminhos que levam até a minha casa, esperando totalmente ver a minha mãe por ali, mas não há nem sinal dela.
Fecho os olhos.
— Leve-me para o telhado.
— Maddy...
— Vou explicar tudo.
Todo o meu plano depende da ajuda dele. Nem mesmo considero a possibilidade do Olly recusar.
Ficamos em silêncio durante o tempo de uma respiração. Depois o de duas. E então três. Olly pega uma das minhas mãos e me guia ao redor da casa dele até o lado mais afastado da minha. Há uma escada alta que leva até o telhado.
— Você tem medo de altura? — ele pergunta.
— Não sei. — Começo a subir.
Eu me abaixo para me esconder assim que chegamos ao telhado, mas Olly me diz que não há necessidade disso.
— A maioria das pessoas, de qualquer forma, nem olha aqui para cima — ele explica.
Meu coração leva alguns minutos para voltar ao ritmo normal.
Olly se dobra para entrar com sua graça tão incomum de sempre. Estou feliz por vê-lo em ação.
— E agora? — ele pergunta depois de um tempo.
Olho ao redor. Sempre quis saber o que ele fazia aqui em cima. O telhado é triangular, separado em diferentes partes, mas estamos sentados na parte reta nos fundos. Distingo algumas formas: uma pequena mesa de madeira com uma caneca em cima dela, uma luminária e alguns papéis amassados.
Talvez ele escreva aqui, componha poesia ruim. Quintilha humorística.
— Essa luminária funciona? — pergunto.
Ele a liga sem falar nada e a lâmpada espalha um círculo difuso de luz ao nosso redor. Já estou quase com medo de olhar para ele.
Os papéis amassados sobre a mesa são guardanapos de fast-food. Então quer dizer que não há nenhuma poesia secreta. Ao lado da mesa, uma grande lona cinzenta e empoeirada cobre alguma coisa, ou algumas coisas. O chão está tomado por ferramentas espalhadas — chaves inglesas, alicates de vários tamanhos, martelos e algumas outras que não reconheço. Tem até mesmo um maçarico.
Finalmente olho para Olly.
Seus cotovelos estão apoiados nos joelhos e ele contempla o céu que começa a clarear.
— O que você faz aqui? — insisto.
— Isso provavelmente não importa agora. — A voz do Olly é dura e ele não olha para mim. Não há nenhum sinal do garoto que beijei tão desesperadamente alguns minutos antes. O medo que ele sente de eu estar em perigo sufoca qualquer outro sentimento.
Às vezes você faz as coisas pelos motivos certos e outras pelos errados. Há ainda aquelas vezes em que é impossível saber a diferença.
— Tenho tomado comprimidos — digo.
Ele mal está se movendo, mas quando digo isso Olly fica completamente parado.
— Que comprimidos?
— Eles são experimentais, não são aprovados pelo Ministério da Saúde. Eu os encomendei pela internet. Vieram do Canadá. — A mentira sai fácil, não requer nenhum esforço.
— Pela internet? Como você sabe que são seguros?
— Fiz um monte de pesquisa.
— Mas ainda assim não tem como você ter certeza...
— Não sou imprudente. — Olho bem nos olhos dele. Essas mentiras são para a própria proteção de Olly. Ele já parece aliviado. Eu sigo em frente. — Eles devem me dar alguns dias aqui fora. Não contei para a minha mãe porque ela não ia querer correr o risco, mas eu...
— Porque é arriscado. Você acabou de falar que o Ministério da Saúde...
— Eles são seguros o suficiente por alguns dias. — Meu tom não apresenta a menor dúvida. Eu espero, torço para que ele engula a minha mentira.
— Jesus. — Ele esconde o rosto com as mãos. Quando olho para cima, um Olly menos obstinado me encara de volta. Sua voz se torna mais suave. — Você deveria ter me dito isso cinco minutos atrás.
Faço o meu melhor para deixar o clima mais leve.
— Estávamos nos beijando! E depois você ficou irritado comigo. — Fico vermelha por falar do beijo e graças à facilidade com que minto. — Eu ia contar para você. Estou contando. Acabei de fazer isso.
Ele é esperto demais para cair nessa, mas quer que as minhas palavras sejam verdade. Ele quer que isso seja verdade, mais até do que seu próprio desejo de saber a verdade. O sorriso que se abre no rosto dele é cauteloso, mas tão bonito que não consigo desviar o olhar. Eu mentiria para ele novamente só para ver esse sorriso.
— Agora — digo —, o que tem debaixo daquela coisa?
Ele me passa uma das pontas da lona e eu a puxo.


No início, não tenho certeza do que estou olhando. É como ler uma coleção aparentemente aleatória de palavras antes da frase se tornar clara.
— É bonito — elogio.
— É um sistema solar mecânico.
— É isso que você tem feito aqui? Criado um universo?
Ele dá de ombros.
Uma leve brisa sopra pela janela e os planetas começam a rodar devagar. Nós dois contemplamos seu movimento sem falar nada.
— Você tem certeza disso? — A dúvida rasteja pela voz dele.
— Por favor, me ajude, Olly. Por favor. — Aponto para o sistema solar mecânico. — Também preciso de uma fuga, só por um tempinho.
Ele assente.
— Aonde você quer ir?

4 comentários:

  1. SERIO ....SEM MASCARAÇÃO , EU TO COM MEDO , MUITO MEDO...MEDO DO QUE PODE ACONTECER COM ESSA GAROTA º__º

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  2. Isso vai dar merda...
    Mas é melhor morrer tentando do que viver sempre na incerteza. Ou talvez não 😵

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  3. omg, gente to amando esse livro! <3<#<3<#

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  4. aiaiaiaiai como Isso vai terminar?

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Boa leitura :)