3 de junho de 2017

Capítulo 9 - Escapada e evasão

Os pés de Eragon batiam no solo como tambores.
O ritmo originava-se nos calcanhares e subia pelas pernas, atravessava as costelas e percorria a coluna até encerrar-se na base do crânio, onde o impacto repetitivo fazia seus dentes rangerem e exacerbava a dor de cabeça, que parecia piorar a cada quilômetro. A monótona música da corrida a princípio o perturbara, mas logo o envolveu num transe no qual ele não pensava, apenas movia-se. À medida que as botas de Eragon desciam, ele ouvia frágeis brotos de relva estalarem como galhos e esparsos montinhos de lama endurecida pulando do solo quebradiço.
Imaginava que não chovia nesta parte da Alagaësia havia pelo menos um mês. O ar seco dissolvia a umidade de seu hálito, deixando sua garganta sensível. Por mais que bebesse, não conseguia repor a quantidade de água que o sol e o vento lhe roubavam. Este era o motivo da dor de cabeça. Helgrind estava a uma boa distância. Entretanto, seus progressos haviam sido bem menores do que esperava.
Centenas de patrulhas de Galbatorix – contendo não só soldados como também mágicos – infestavam o caminho e frequentemente precisava se esconder para evitá-las. Estavam atrás dele, não havia a menor dúvida. Na noite anterior, mesmo Thorn ele avistara voando baixo a oeste, no horizonte. Na ocasião, colocou-se imediatamente alerta, jogou-se num poço e lá ficou por meia hora até que o dragão desaparecesse bem abaixo da beira do mundo.
Eragon decidira viajar sempre que possível em estradas e trilhas preestabelecidas. Os eventos da última semana o levaram ao limite de sua capacidade física e emocional. Preferia permitir que seu corpo descansasse e se recuperasse em vez de estressar-se avançando sobre sarças, colinas e ao longo de rios lamacentos. O tempo para os exercícios violentos e desesperados voltaria, mas não agora.
Contanto que permanecesse nas estradas, não ousava correr tão rápido quanto era capaz; na verdade seria mais sábio evitar qualquer tipo de corrida. Uma razoável quantidade de vilarejos e construções anexas espalhava-se ao longo da área. Se algum dos habitantes observasse um homem solitário correndo no campo como se estivesse sendo caçado por uma alcateia, o espetáculo certamente despertaria curiosidade e suspeita, e talvez até inspirasse um lavrador assustado a relatar o incidente ao Império. Isso poderia ser fatal para Eragon, cuja principal defesa era o manto do anonimato. Só corria naquele instante porque não encontrara nenhuma criatura viva havia quilômetros, exceto uma cobra tomando sol. Retornar aos Varden era sua preocupação principal, e ele ficava profundamente amargurado por ter de caminhar a duras penas, como um vagabundo qualquer.
Mas, mesmo assim, agradecia a oportunidade de estar só. Não ficava sozinho, verdadeiramente sozinho, desde que achara o ovo de Saphira, na Espinha. Sempre os pensamentos dela grudavam-se aos seus, ou Brom ou Murtagh ou qualquer outra pessoa estava a seu lado.
Além do fardo da companhia constante, Eragon passara todos os meses desde que deixara o vale Palancar envolvido em árduo treinamento, parando apenas para viajar ou participar do tumulto da batalha. Nunca antes pudera se concentrar tão intensamente por tanto tempo ou conviver com tamanha quantidade de preocupação e medo. Então, dava boas-vindas à sua solidão e à paz que ela proporcionava.
A ausência de vozes, incluindo a sua própria, era uma doce cantiga que, por um curto período, o fazia esquecer o medo do futuro. Não sentia vontade alguma de consultar Saphira – embora estivessem muito separados para que suas mentes pudessem se tocar, sua ligação com ela lhe diria se estivesse ferida – ou contatar Arya ou Nasuada e ouvir suas palavras enraivecidas.
Muito melhor, pensou, ouvir as canções dos pássaros esvoaçantes e o suspiro da brisa na relva e nos galhos.


O som do tilintar de arreios, cascos e vozes humanas arrancou Eragon de seu devaneio. Alarmado, parou e olhou ao redor, tentando identificar de que direção vinham os homens que se aproximavam. Um par de gralhas ruidosas alçou voo de uma ravina próxima. O único esconderijo perto de Eragon era uma pequena moita de juníperos. Correu para lá e mergulhou embaixo de um monte de folhas caídas no exato instante em que seis soldados surgiram cavalgando de uma ravina em direção a uma estreita estrada enlameada a poucos metros dali. Normalmente, Eragon teria sentido a presença deles muito antes de estarem tão próximos, mas, desde a aparição distante de Thorn, mantivera sua mente fechada para as adjacências. Os soldados seguraram as rédeas e seguiram caminho pelo meio da estrada, discutindo entre si.
— Estou dizendo, eu vi alguma coisa — gritou um deles. Tinha estatura mediana, bochechas rosadas e barba amarela.
Com o coração martelando, Eragon lutava para manter a respiração lenta e quieta. Tocou a testa para certificar-se de que a faixa de pano que a marrara em sua cabeça ainda cobria suas sobrancelhas empinadas e orelhas pontudas.
Eu queria ainda estar usando minha armadura, pensou.
Para evitar atrair atenções indesejadas, fizera uma trouxa – utilizando folhas mortas e um quadrado de tela que trocara com um funileiro – e colocara a armadura dentro. Agora, não ousava remover e vestir a armadura por medo de ser ouvido pelos soldados.
O soldado com a barba amarela desceu da montaria e caminhou ao longo da estrada, estudando o terreno e os juníperos adiante. Como todos os membros do exército de Galbatorix, o soldado vestia uma túnica vermelha bordada com um fio de ouro contornando uma língua de logo. O fio brilhava à medida que se movia. Sua armadura era simples – um capacete, um escudo em formato de cone e uma cota de couro – indicando que não passava de um soldado de infantaria. Quanto às armas, segurava uma lança em sua mão direita e uma espada longa presa na cintura. Quando o soldado chegou ao esconderijo, Eragon começou a sussurrar um complexo encanto na língua antiga. As palavras vazaram de sua língua numa corrente sem fim até que, por descuido, pronunciou incorretamente uma sequência particularmente difícil de vogais e foi obrigado a recomeçar o encantamento, não sem antes ficar bastante aturdido.
O soldado deu outro passo na direção dele. E outro. No exato instante em que o soldado parou à sua frente, Eragon completou o encanto e sentiu sua força refluir com o efeito da magia. Entretanto, por um instante apenas, não conseguiu deixar de ser notado, porque o soldado exclamou:
— A-rá! — E afastou os galhos, revelando-o.
Eragon não se moveu. O soldado olhou fixamente para ele e franziu o cenho:
— O que... — murmurou, e espetou a lança nos arbustos. Por poucos centímetros não acertou o rosto de Eragon, que enterrou as unhas nas palmas das mãos à medida que o tremor atormentava seus músculos retesados. — Ah, que se dane — disse o soldado, e soltou os galhos que voltaram à posição original escondendo Eragon mais uma vez.
— O que foi? — perguntou outro homem.
— Nada — respondeu o soldado, retornando para seus companheiros.
Ele removeu o capacete e enxugou a testa.
— Meus olhos estão brincando comigo.
— O que aquele maldito Braethan espera da gente? Quase não pudemos piscar os olhos durante esses últimos dois dias.
— É mesmo. O rei deve estar desesperado pra nos obrigar a uma marcha tão forçada... Pra ser franco, preferia não encontrar quem quer que seja que estamos procurando. Não que eu seja medroso, mas qualquer um que consiga encarar Galbatorix escapa facilmente de gente como nós. Deixem Murtagh e seu dragão monstruoso pegar nosso fugitivo misterioso, que tal?
— A menos que estejamos procurando Murtagh — sugeriu um terceiro homem. — Vocês ouviram tão bem quanto eu o que a cria de Morzan disse.
Um desconfortável silêncio tomou conta dos soldados. Então, o que estava no chão retornou à montaria, agarrou as rédeas com a mão esquerda e disse:
— Cala essa matraca, Derwood. Você fala demais.
Com isso, o grupo de seis esporeou os cavalos e seguiu na direção norte da estrada. À medida que o som dos cavalos foi desaparecendo, Eragon encerrou o encanto, esfregou os olhos com os punhos e descansou as mãos sobre os joelhos. Uma gargalhada longa e silenciosa escapou-lhe, e balançou a cabeça, divertindo-se em imaginar o quanto suas dificuldades eram bizarras em comparação com sua criação no vale Palancar. Eu certamente jamais imaginei que isso pudesse acontecer comigo, pensou.
O encantamento que utilizara continha duas partes: a primeira dispunha raios em volta de seu corpo de modo que parecesse invisível e a segunda, por sorte, impedia que outros mágicos detectassem sua magia. Os principais inconvenientes do encanto eram, por um lado, a impossibilidade de esconder pegadas – portanto a pessoa deveria permanecer parada como uma pedra enquanto estivesse em uso – e por outro, o fato da fórmula frequentemente falhar em eliminar inteiramente a sombra da pessoa. Eragon saiu dos arbustos, esticou os braços bem acima da cabeça e então virou-se para a ravina de onde os soldados haviam surgido. Uma única questão o ocupava enquanto ele retomava sua jornada: O que dissera Murtagh?


— Ah!
A ilusão brumosa do sonhar acordado de Eragon desapareceu quando socou o ar com suas mãos. Contorceu-se incrivelmente e rolou para longe de onde estava deitado.
Com muito esforço, conseguiu se levantar arremetendo-se para trás e ergueu os braços na frente do corpo para desviar possíveis golpes. Estava cercado pela escuridão da noite. Acima, as estrelas imparciais continuavam a girar em sua interminável dança estelar. Abaixo, nenhuma criatura se mexia. Tampouco ele podia ouvir qualquer coisa além do suave vento acariciando a relva. Eragon golpeava com sua mente, convencido de que alguém estava prestes a atacá-lo. Caminhou pela vizinhança em todas as direções, mas não encontrou ninguém. Por fim baixou as mãos. Seu peito arfava e sua pele queimava. Estava fedendo a suor.
Em sua mente, uma tempestade explodia: um redemoinho de espadas brilhantes e membros dilacerados. Por um momento, pensou que estivesse em Farthen Dûr combatendo os Urgals, depois na Campina Ardente, trincando espadas com homens parecidos com ele mesmo. Cada local era tão real que podia jurar que alguma estranha magia o havia transportado para o passado através do espaço e do tempo. Viu diante de si os homens e os Urgals que havia chacinado; pareciam tão reais que Eragon imaginava se não começariam a falar. E apesar de não estar mais com as cicatrizes dos ferimentos, seu corpo se lembrava das diversas contusões que sofrera, e estremeceu quando sentiu novamente as espadas e as flechas dilacerando sua pele. Com um uivo bestial, Eragon caiu de joelhos e abraçou-se, balançando para a frente e para trás.
Está tudo bem... está tudo bem. Pressionou a testa contra o chão e colocou-se em posição fetal. Sua respiração queimava sua barriga.
— O que há de errado comigo?
Nenhum dos épicos que Brom recitara em Carvahall mencionara que os heróis antigos eram atormentados por tais visões. Nenhum dos guerreiros que Eragon conhecera entre os Varden parecia perturbado pelo sangue que derramavam. E apesar de Roran admitir não gostar da matança, não acordava no meio da noite gritando.
Sou fraco, pensou Eragon. Um homem não deveria se sentir assim. Um Cavaleiro não deveria se sentir assim. Garrow ou Brom estariam se sentindo bem, eu sei. Eles faziam o que era necessário e ponto final. Sem choro, sem preocupações sem fim ou ranger de dentes... eu sou fraco.
Deu um salto e começou a caminhar em torno de seu ninho na grama, tentando se acalmar. Após meia hora, quando a apreensão ainda martelava seu peito com golpes de ferro e sua pele doía como se assolada por milhares de formigas e ele atentava ao menor ruído, Eragon agarrou sua trouxa e saiu correndo sem destino. Não se importava com o que pudesse encontrar à sua frente na escuridão desconhecida nem com o fato de alguém poder notar sua desabalada e impetuosa corrida. Só desejava escapar de seus pesadelos. Sua mente voltara-se contra ele, e não podia confiar no pensamento racional para se livrar do pânico. Seu único recurso, então, era confiar na antiga sabedoria animal de seu corpo, que lhe ordenava que se movesse.
Se corresse numa boa velocidade, talvez pudesse estabilizar-se por um momento. Talvez a agitação de seus braços, as pancadas de seus pés na lama, a sensação gélida e escorregadia do suor embaixo das axilas e uma miríade de outras sensações pudessem, pelo puro excesso, forçá-lo a esquecer.
Talvez.


Um bando de estorninhos irrompeu no céu da tarde como se fossem peixes no oceano. Eragon estreitou os olhos na sua direção. No vale Palancar, quando os estorninhos voltavam após o inverno, sempre formavam bandos tão grandes que transformavam o dia em noite. Este não era dos maiores, mas ainda assim o fazia lembrar das noites passadas bebendo chá de menta com Garrow e Roran na varanda de casa, observando o movimento constante de uma nuvem negra no céu.
Imerso em lembranças, parou e se sentou sobre uma pedra para amarrar o cadarço das botas. A temperatura mudara; estava frio agora, e a mancha cinzenta na direção do oeste indicava a possibilidade de uma tempestade. A vegetação estava mais rica. Musgos, juncos e espessas porções de grama eram visíveis. Vários quilômetros além, cinco morros destacavam-se em meio a passagem plana. Um grupo de grossos carvalhos adornava o do meio, acima dos enevoados montes de folhagem, Eragon olhou de relance as paredes caídas de uma construção há muito abandonada, obra de alguma casa de um passado longínquo.
Despertado pela curiosidade, decidiu fazer o desjejum nas ruínas, certamente haveria muita caça por lá, e a busca por alimentos lhe daria a desculpa perfeita para explorar um pouco a região antes de seguir viagem.
Uma hora depois, Eragon chegou à base do primeiro morro, onde encontrou restos de uma antiga estrada pavimentada com quadrados de pedra. Seguiu-a até as ruínas, imaginando a estranha construção, já que não lhe parecia nem um pouco com trabalho humano, élfico ou de anão com o qual estivesse familiarizado. As sombras embaixo dos carvalhos deram-lhe um leve calafrio enquanto escalava o morro central. Perto do topo, o chão ficou plano e a mata se abriu.
Adentrou uma grande clareira, onde encontrou uma torre quebrada. A parte de baixo era larga e amparada com vigas, como se fosse o tronco de uma árvore. Então, a estrutura se estreitava e erguia-se na direção do céu por pelo menos vinte metros, terminando em uma linha fina e pontuda. A parte superior da torre estava no chão, destroçada em inúmeros fragmentos.
Eragon foi tomado de excitação. Suspeitava haver encontrado uma posição avançada dos elfos, erguida muito antes da destruição dos Cavaleiros. Nenhuma outra raça teria a habilidade ou a propensão para construir tal estrutura. Então, avistou uma horta do lado oposto da clareira.
Um único homem estava debruçado sobre a fileira de plantas, jogando sementes de ervilha. Seu rosto, voltado para o chão, estava coberto por sombras. Sua barba grisalha era tão longa que ficava empilhada em seu colo como um monte de lã desgrenhada. Sem levantar os olhos, o homem disse:
— Bem, vai me ajudar com essas ervilhas ou não? Vai poder ganhar um prato de comida se colaborar.
Eragon hesitou, sem ter certeza do que fazer. Depois pensou: Por que eu deveria ter medo de um velho eremita? E caminhou em direção à horta.
— Sou Bergan... Bergan, filho de Garrow.
O homem grunhiu:
— Tenga, filho de Ingvar.
A armadura dentro da trouxa de Eragon fez um ruído quando ele a lançou ao chão. Por cerca de uma hora trabalhou em silêncio com Tenga. Sabia que não deveria ficar muito tempo, mas gostou da tarefa. Evitava os pensamentos ruins. Enquanto semeava, permitiu que sua mente se expandisse e tocasse a multiplicidade de criaturas vivas dentro da clareira. Deu boas-vindas à sensação de unidade que compartilhava com elas.
Quando terminaram de remover o último resquício de grama, beldroegas e dentes-de-leão do entorno das ervilhas, Eragon seguiu Tenga até uma estreita porta na frente da torre, através da qual entraram em uma espaçosa cozinha com sala para refeições. No meio do local, uma escada circular subia até o segundo andar. Livros, pergaminhos e roldanas revestidas de couro cobriam quase toda a superfície, incluindo uma boa parte do chão.
Tenga apontou para a pequena pilha de galhos na lareira. Com um estalo, a madeira pegou fogo. Eragon ficou tenso, pronto para se digladiar física e mentalmente com Tenga. O outro homem não pareceu reparar a reação. Apenas continuou a zanzar às pressas pela cozinha atrás de canecas, pratos, facas e diversas sobras para o almoço dos dois enquanto resmungava baixinho para si mesmo.
Com todos os sentidos alerta, Eragon desabou no canto de uma poltrona. Ele não proferiu a língua antiga, pensou ele. Mesmo que tivesse dito o encanto em sua cabeça, ainda assim estaria se arriscando a morrer ou coisa pior ao acender uma mera lareira!
Porque, de acordo com o que Oromis lhe ensinara, as palavras eram os meios pelos quais a pessoa controlava a liberação da magia. Lançar um encantamento sem a estrutura de linguagem controlando a força motriz poderia incorrer no risco de alguma emoção ou pensamento desgarrado distorcer o resultado. Eragon deu uma olhada em torno do recinto em busca de indícios a respeito de seu anfitrião. Localizou um pergaminho aberto onde estavam dispostas colunas de palavras da língua antiga e identificou aquilo como um compêndio de nomes verdadeiros, similar àqueles que ele estudara em Ellesméra. Mágicos desejavam imensamente tais pergaminhos e livros e sacrificariam quase tudo para obtê-los, porque com eles aprenderiam novas palavras para os encantos e também poderiam neles gravar novas palavras descobertas.
Poucos, entretanto, podiam adquirir um compêndio por serem incrivelmente raros. E aqueles que já possuíam algum quase nunca se desfaziam dele por opção. Dessa forma, era pouco comum Tenga possuir tal compêndio, mas para seu espanto, Eragon viu mais seis na sala, além de escritos sobre assuntos que iam de história a matemática, passando por astronomia e botânica.
Uma caneca de cerveja e um prato com pão, queijo e uma fatia de torta de carne fria surgiram na sua frente quando Tenga empurrou os pratos embaixo de seu nariz.
— Obrigado — disse Eragon, aceitando.
Tenga ignorou-o e se sentou de pernas cruzadas perto da lareira. Continuou a resmungar e sussurrar enquanto devorava seu almoço. Após ter raspado o prato e enxugado a última gota da cerveja de ótima qualidade, e também Tenga quase ter terminado seu repasto, Eragon não pôde se conter e perguntou:
— Foram os elfos que construíram essa torre?
Tenga mirou-o fixamente, como se a pergunta colocasse dúvidas sobre a inteligência de Eragon.
— Foram. Os elfos espertinhos que construíram Edur Ithindra.
— O que é que você faz aqui? Você vive sozinho ou...
— Eu procuro uma resposta! — exclamou Tenga. — Uma chave para uma porta ainda fechada, o segredo das árvores e das plantas. Fogo, calor, raio, luz... a maioria não sabe a pergunta e vaga na ignorância. Outros sabem a pergunta, mas temem o que a resposta pode significar. Argh! Por milhares de anos, nós vivemos como selvagens. Selvagens! Acabarei com isso. Anunciarei a era da luz, e todos saudarão meu feito.
— Por obséquio, o que exatamente você procura?
Uma carranca apareceu no rosto de Tenga.
— Você não sabe a pergunta? Pensei que talvez soubesse. Mas, não, eu estava errado. Ainda assim, vejo que compreende minha busca. Você procura uma resposta diferente, mas procura. A mesma tocha que queima em seu coração queima no meu. Quem além de um companheiro peregrino é capaz de agradecer aquilo que devemos sacrificar para encontrar a resposta?
— A resposta para quê?
— Para a pergunta que escolhemos.
Ele é louco, pensou Eragon. Em busca de algo com que pudesse distrair Tenga, seu olhar encontrou uma fileira de pequenos animais de madeira dispostos no peitoril abaixo de uma janela em forma de lágrima.
— Belas peças — elogiou, indicando as estátuas. — Quem as fez?
Ela fez... antes de partir. Ela estava sempre fazendo coisas. — Tenga deu um salto e colocou a ponta de seu indicador esquerdo na primeira das estátuas. — Aqui o esquilo com o rabo ondulado, ele tão vivaz e veloz e tão cheio desse riso zombeteiro. — Seu dedo migrou para a estátua seguinte. — Aqui o porco selvagem, tão mortal com suas presas afiadas... aqui o corvo com...
Tenga não estava prestando atenção quando Eragon se afastou, soltou o trinco da porta e saiu de Edur Ithindra. Com sua trouxa no ombro, deu um trote através dos carvalhos e deixou para trás os cinco morros e o feiticeiro clemente que entre eles residia.


Pelo resto daquele dia e do seguinte, o número de pessoas na estrada aumentou tanto que em um dado momento pareceu a Eragon que um novo grupo estava surgindo a cada instante depois de um morro. A maioria era de refugiados, embora soldados e outros homens também estivessem presentes. Eragon evitava-os sempre que podia e marchava com a cabeça baixa quase todo o tempo. Esse hábito, entretanto, forçou-o a passar a noite no vilarejo de Eastcroft, trinta quilômetros ao norte de Melian. Ele havia pretendido abandonar a estrada bem antes de chegar lá. Desejava encontrar um abrigo ou caverna onde pudesse descansar até a manhã seguinte, mas como não tinha muita familiaridade com o local, calculou mal a distância e deparou com o vilarejo e com uma companhia de três soldados.
Quando os deixou, os menos de trinta minutos que o separavam da segurança dos portões e muros de Eastcroft e o conforto de uma cama macia teriam inspirado até mesmo o mais retardado dos néscios a se perguntar por que estava tentando evitar o vilarejo.
Então, Eragon começou a ensaiar silenciosamente as histórias que preparara para explicar sua viagem. O sol encontrava-se alguns centímetros acima do horizonte quando Eragon avistou Eastcroft pela primeira vez, um vilarejo mediano cercado por uma paliçada alta. Já estava quase escuro quando finalmente chegou ao local e atravessou os portões. Atrás de si, ouviu uma sentinela perguntar aos soldados se havia mais alguma pessoa logo atrás deles na estrada.
— Não que eu tenha percebido.
— Já está mais do que bom pra mim — retrucou a sentinela. — Se houver algum retardatário vai ter de esperar até amanhã pra entrar. — E gritou para outro homem do lado oposto do portão: — Fecha!
Juntos, empurraram as imensas portas de ferro e colocaram quatro barras de carvalho da largura de Eragon.
Eles devem estar esperando um ataque, pensou Eragon, e depois sorriu para sua própria cegueira. Bem, quem é que não espera problemas hoje em dia?
Alguns meses atrás, teria ficado preocupado em cair em alguma cilada em Eastcroft, mas agora estava confiante em poder escalar as fortificações com as próprias mãos e, conseguindo ocultar-se com a ajuda da magia, poderia escapar no meio da noite sem ser percebido. Mas resolveu ficar porque estava cansado. Além do mais, um encanto poderia atrair a atenção de algum mágico nas redondezas, se é que havia algum. Antes de dar mais do que alguns passos na ruela enlameada que dava na praça principal da cidade, um vigia se aproximou dele, encostando um lampião em seu rosto.
— Pare aí! Você nunca esteve antes em Eastcroft, esteve?
— Essa é minha primeira visita — disse Eragon. O vigia atarracado balançou a cabeça. — E você tem família ou amigos aqui para recebê-lo?
— Não.
— O que o traz a Eastcroft, então?
— Nada. Estou viajando para o sul para pegar a família de minha irmã e levá-los de volta a Dras-Leona.
A história de Eragon não pareceu surtir nenhum efeito sobre o vigia. Talvez ele não acredite em mim, especulou ele. Ou talvez tenha ouvido tantos relatos como o meu que nem se importa mais.
— Então vai querer a casa dos viajantes, perto do poço principal. Lá você vai achar comida e cama. E enquanto ficar aqui em Eastcroft, deixe-me avisá-lo, nós não toleramos assassinatos, roubos ou qualquer outra coisa do tipo por aqui. Temos troncos bem fortes e patíbulos resistentes que já tiveram muitos hóspedes. Estou sendo claro?
— Sim, senhor.
— Então vá e tenha boa sorte. Mas espere! Qual é o seu nome, estranho?
— Bergan.
Com isso, o vigia seguiu adiante, retornando à sua ronda noturna. Eragon esperou até que os muros das casas escondessem o lampião que o vigia carregava para caminhar em direção ao mural de avisos localizado à esquerda dos portões. Lá, em meio a diversos cartazes de criminosos, encontravam-se duas folhas de pergaminho com quase um metro de comprimento. Uma delas mostrava Eragon, outra Roran e em ambas aparecia a mesma inscrição: traidores da Coroa. Eragon examinou-os com interesse e ficou impressionado com a recompensa oferecida: um condado a cada um que capturasse algum deles. O desenho de Roran era bem semelhante a ele e até mesmo incluía a barba que cultivara desde que fugira de Carvahall, mas o retrato de Eragon o representava como havia sido antes da Celebração de Juramento ao Sangue, quando ainda parecia totalmente humano. Como as coisas mudaram, pensou.
Seguiu em frente, perambulando pela cidade, até localizar a casa dos viajantes. A sala principal possuía um teto baixo com madeiras manchadas de alcatrão. Velas amarelas forneciam uma luz suave que adensava o ar com camadas de fumaça que se cruzavam. Areia e juncos cobriam o chão, e a mistura estalava debaixo das botas de Eragon. A sua esquerda ficavam mesas e cadeiras e uma grande lareira, na qual um rapazola girava um porco no espeto. Do lado oposto ficava um longo bar, uma fortaleza com pontes levadiças que protegiam os tonéis de cerveja dos mais diversos tipos da horda de homens sedentos que acometiam de todos os lados. Umas sessenta pessoas estavam lá, fazendo com que o local atingisse uma superlotação desconfortável. O bramido da conversação já teria sido suficiente para sobressaltar Eragon após tanto tempo na estrada, mas com sua audição sensível, sentia-se como se estivesse no meio de uma catarata.
Era difícil para ele se concentrar em qualquer das vozes. Assim que pescava uma palavra ou frase, outras já apareciam de imediato, atropelando as anteriores. Em um canto, um trio de menestréis cantava e representava uma versão burlesca de “Doce Aethrid o’Dauth”, o que não melhorava em nada o alarido.
Eragon estremeceu com o portentoso ruído e esgueirou-se através da multidão até chegar ao bar. Queria conversar com a atendente, mas ela estava tão ocupada que somente passados cinco minutos pôde olhar para ele e perguntar:
— Pois não? — Fios de cabelo caíam-lhe pelo rosto suado.
— Você tem um quarto ou algum canto onde eu possa passar a noite?
— Eu não teria como lhe dizer. Você deveria falar diretamente com a proprietária. Ela está lá embaixo — respondeu a moça, e balançou a mão na direção de uma escada soturna.
Enquanto esperava, Eragon recostou-se no bar e estudou as pessoas no recinto. Era uma mistura bastante heterogênea. Metade, imaginava, eram moradores da cidade que vinham beber um trago à noite. Quanto ao resto, a maioria era de homens e mulheres – famílias, quase sempre – que estavam migrando para locais mais seguros. Era fácil para ele identificá-los pelas camisas puídas e calças sujas e pela maneira como se acotovelavam nas cadeiras e olhavam desconfiados para qualquer pessoa que se aproximava. Entretanto, evitavam meticulosamente olhar na direção do último e menor grupo de clientes da casa dos viajantes: soldados de Galbatorix.
Os homens de túnica vermelha falavam mais alto do que qualquer outra pessoa. Riam e berravam e batiam com os punhos sobre a mesa enquanto entornavam cerveja e apalpavam todas as garçonetes suficientemente ingênuas para passar perto deles.
Será que se comportam dessa maneira porque sabem que ninguém ousa se opor a eles e se divertem demonstrando seu poder?, imaginava Eragon. Ou porque eram forçados a se alistar no exército de Galbatorix e procuravam embotar a sensação de vergonha e medo com aquela pândega?
Neste instante, os menestréis começaram a cantar: E então com seu cabelo ao vento a doce Aethrid o’Dauth Correu até o lorde Edel e gritou: “Liberte meu amante, Senão uma bruxa te transforma num bode peludo!” Lorde Edel riu e disse: “Nenhuma bruxa vai me transformar em um bode peludo!”
A multidão se moveu um pouco e possibilitou que Eragon visualizasse uma mesa encostada a uma parede. Nela estava sentada uma mulher solitária, seu rosto escondido num capuz escuro. Quatro homens estavam ao seu redor, fazendeiros grandes e encorpados com pescoços rijos e bochechas vermelhas de álcool. Dois deles estavam encostados na parede, um de cada lado da mulher, agigantando-se sobre ela, enquanto o terceiro estava sentado numa cadeira virada para trás arreganhando os dentes e o quarto estava com o pé esquerdo na borda da mesa e inclinado na direção do joelho. Os homens falavam e gesticulavam de modo deselegante. Embora Eragon não pudesse ouvir ou ver o que a mulher estava dizendo, era óbvio para ele que a resposta estava deixando os fazendeiros enraivecidos, já que franziram os cenhos e estufaram os peitos como se fossem galos de briga. Um deles sacudiu o dedo no rosto dela.
Para Eragon, pareciam homens decentes e trabalhadores que haviam perdido seus modos nas profundezas de suas canecas de cerveja, um erro que testemunhara diversas vezes nos dias de festa em Carvahall. Garrow não nutria muito respeito por homens que sabiam que não conseguiam beber e ainda assim insistiam em constranger-se em público. “É indecoroso!”, dizia ele. “E o pior, se você bebe para esquecer seu fardo na vida e não pelo prazer, deve fazer isso sem perturbar ninguém.”
O homem à esquerda da mulher irrompeu de súbito e enfiou um dos dedos embaixo do capuz dela, como se tentasse empurrá-lo para trás. Em seguida, com tanta rapidez que Eragon quase não conseguiu ver, a mulher ergueu sua mão esquerda, agarrou o pulso do homem, mas logo soltou, voltando para sua posição inicial. Eragon duvidou se alguma outra pessoa no recinto, incluindo o homem que ela tocara, havia notado a ação.
O capuz desabou sobre seu pescoço e Eragon enrijeceu, embasbacado. A mulher era humana, mas parecia Arya. As únicas diferenças entre as duas eram os olhos – redondos e nivelados e não puxados como os de um gato – e as orelhas, que não eram pontudas como as dos elfos. Era tão bonita quanto a Arya que Eragon conhecia, mas de um modo menos exótico e mais familiar.
Sem hesitar, esquadrinhou a mulher com sua mente. Ele tinha de saber quem realmente era. Assim que tocou sua consciência, um golpe mental estourou de volta sobre ele, destruindo sua concentração. Então, nos confins de seu crânio, ele ouviu uma voz ensurdecedora exclamar: Eragon!
Arya? Seus olhos se encontraram por um instante antes da multidão adensar mais uma vez e escondê-la.
Eragon atravessou às pressas a sala até sua mesa, empurrando a massa de corpos à sua frente para achar um caminho. Os fazendeiros olharam de soslaio quando ele emergiu do meio da turba. Um deles disse:
— Você é muito grosseiro se intrometendo assim sem ser convidado. Pode ir saindo, hein!
Com a voz mais diplomática que conseguiu, Eragon disse:
— Cavalheiros, me parece que a moça prefere ficar sozinha. Com certeza vocês não ignorariam a vontade de uma mulher honesta, não é?
— Uma mulher honesta? — disse o homem que estava mais próximo, rindo. — Nenhuma mulher honesta viaja desacompanhada.
— Então me permitam acalmar suas preocupações, já que sou seu irmão e vamos morar com nosso tio em Dras-Leona.
Os quatro homens trocaram olhares inquietos. Três deles começaram a se afastar de Arya, mas o maior plantou-se a alguns centímetros de Eragon e, respirando em seu rosto, disse:
— Não tenho certeza se acredito em você, amigo. Você só está tentando fazer a gente sair pra poder ficar com ela.
Ele não está tão distante da verdade, pensou Eragon. Então, de maneira tão tranquila que apenas aquele homem pôde ouvir, afirmou:
— Eu lhe asseguro que ela é minha irmã. Por favor, cavalheiro, não há nenhuma desavença entre nós. Você vai sair ou não?
— Não, se estou achando que você é um covarde mentiroso.
— Cavalheiro, seja razoável. Não há necessidade desse dissabor. A noite é uma criança e há bebida e música de sobra. Não vamos brigar por causa de um desentendimento tão insignificante que não chega aos nossos pés.
Para alívio de Eragon, o outro homem relaxou após alguns segundos e deu um grunhido cheio de escárnio.
— Eu não lutaria com um guri como você, de qualquer maneira — disse o homem.
Deu as costas e arrastou seu corpanzil até o bar acompanhado dos amigos. Com o olhar fixo na multidão, Eragon deslizou para a mesa e sentou ao lado de Arya.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou, quase sem mover os lábios.
— Procurando você.
Surpreso, olhou para ela, que ergueu uma sobrancelha curvada. Ele voltou a olhar para a aglomeração de pessoas e, fingindo sorrir, perguntou:
— Você está sozinha?
— Não mais... Você alugou uma cama para a noite?
Ele balançou a cabeça.
— Bom. Eu já tenho um quarto. Podemos conversar lá.
Eles se levantaram em uníssono e ele a seguiu até a escada atrás da sala principal. Os degraus gastos rangiam enquanto subiam até o hall no segundo andar. Uma única vela iluminava o lúgubre corredor revestido de madeira. Arya seguiu na frente até a última porta à direita e, de dentro da volumosa manga de seu manto, pegou uma chave de ferro. Destrancou a porta, entrou no quarto, esperou Eragon cruzar a soleira e então fechou e trancou novamente a porta.
Um tênue brilho amarelado vinha da janela próxima a Eragon. A luz era proveniente de um lampião pendurado no outro lado da praça central de Eastcroft. Com ela, ele conseguia perceber a forma de uma lamparina numa mesinha à sua direita.
— Brisingr — sussurrou Eragon, e acendeu o pavio com uma faísca de seu dedo.
Mesmo com a lamparina queimando, o quarto ainda estava escuro. A câmara continha o mesmo madeirame do corredor, e a coloração castanha absorvia grande parte da luz, fazendo com que o local parecesse menor e mais carregado, como se um grande peso pressionasse de tora para dentro. Além da mesinha, a única outra peça de mobiliário era uma cama estreita com um cobertor jogado sobre a colcha. Uma pequena bolsa de suprimentos estava sobre o colchão.
Eragon e Arya olharam um para o outro. Então, ele se levantou e removeu a faixa de pano amarrada na cabeça. Ela soltou o broche que prendia o manto sobre os ombros e colocou a indumentária sobre a cama. Estava usando um vestido verde-musgo, o primeiro vestido que Eragon a vira usar.
Para ele, era uma estranha experiência as aparências de ambos estarem invertidas, de modo que ele estava parecendo um elfo e Arya uma humana. A mudança não diminuía em nada seu apreço por ela, mas o deixava mais confortável em sua presença, já que ela ficava menos diferente dele. Foi Arya quem quebrou o silêncio:
— Saphira disse que você ficou para trás para matar o último Ra’zac e para explorar o resto de Helgrind. É verdade?
— Em parte.
— E qual é toda a verdade?
Eragon sabia que nada menos a satisfaria.
— Prometa-me que você não compartilhará com mais ninguém o que eu lhe direi agora, a menos que eu lhe dê permissão.
— Eu prometo — disse ela na língua antiga.
Assim, contou-lhe sobre como encontrara Sloan, por que decidira não trazê-lo de volta para os Varden, sobre a maldição que lançara sobre o açougueiro e a chance que dera a Sloan para redimir-se – pelo menos parcialmente – e para reconquistar sua visão. Eragon terminou dizendo:
— O que quer que aconteça, Roran e Katrina jamais poderão saber que Sloan ainda está vivo. Se souberem, os problemas nunca terão um fim.
Arya sentou na beirada da cama e, por um bom tempo, mirou a lamparina e sua flama saltitante.
— Você deveria tê-lo matado.
— Talvez, mas não pude.
— O fato de você julgar sua tarefa intragável não lhe dá o direito de furtar-se dela. Você foi covarde.
Eragon reagiu com desprezo à acusação dela.
— Fui? Qualquer um com uma faca poderia ter matado Sloan. O que eu fiz foi muito mais difícil.
— Fisicamente, mas não moralmente.
— Eu não o matei porque pensei que era errado — disse Eragon, franzindo as sobrancelhas, concentrado em procurar as palavras certas para explicar-se. — Eu não estava com medo... isso não. Não depois de ter participado das batalhas... É diferente. Eu mato na guerra. Mas não vou jogar sobre mim a responsabilidade sobre quem deve ou não viver. Não tenho a experiência nem a sabedoria... Todo homem tem um limite do qual não passa, Arya, e eu achei o meu quando olhei Sloan. Mesmo que eu tivesse Galbatorix como meu prisioneiro, não o mataria. Eu o levaria para Nasuada ou para o rei Orrin, e, se eles o condenassem à morte, então eu lhe arrancaria a cabeça com toda a felicidade, mas não antes. Chame isso de fraqueza, se quiser, mas é assim que sou e não pedirei perdão por isso.
— Então você será uma ferramenta soldada pelos outros?
— Eu servirei ao povo da melhor maneira possível. Jamais tive nenhuma aspiração de liderar. Alagaësia não necessita de outro rei tirano.
Arya esfregou as têmporas e disse:
— Por que tudo tem de ser tão complicado com você, Eragon? Não importa aonde vá, sempre parece estar envolvido em situações difíceis. É como se fizesse um esforço para pisar em todas as plantas espinhosas do caminho.
— Sua mãe me disse exatamente a mesma coisa.
— Não me surpreende... Muito bem, deixe assim. Nenhum dos dois está disposto a mudar de opinião, e temos outras preocupações mais urgentes do que discutir a respeito de justiça e moralidade. No futuro, entretanto, seria bom você lembrar quem é e o que significa para as raças da Alagaësia.
— Eu nunca esqueci. — Eragon tez uma pausa, esperando uma resposta, mas Arya resolveu não aceitar o desafio. Ele sentou na beirada da mesa e disse: — Sabe que não precisava ter vindo me procurar. Eu estava bem.
— É claro que eu precisava.
— Como me encontrou?
— Adivinhei a rota que você pegaria em Helgrind. Por sorte, minha aposta me levou a uns sessenta quilômetros a oeste daqui, o que já era suficientemente perto para eu localizá-lo ouvindo os sussurros da terra.
— Não compreendo.
— Um Cavaleiro não anda neste mundo sem ser notado, Eragon. Aqueles que têm ouvidos para ouvir e olhos para ver podem interpretar os sinais com muita facilidade. Os pássaros cantam sua chegada, as bestas da terra observam seu cheiro e até as árvores e a grama lembram seu toque. O laço entre Cavaleiro e dragão é tão poderoso que aqueles que são sensíveis às forças da natureza podem senti-lo.
— Qualquer hora dessas, você vai ter de me ensinar esse truque.
— Não é truque, é apenas a arte de prestar atenção ao que está à sua volta.
— Por que veio a Eastcroft, então? Teria sido mais seguro me encontrar fora do vilarejo.
— As circunstâncias me obrigaram a vir, assim como imagino que também obrigaram você. Você não veio de livre e espontânea vontade, veio?
— Não... — Girou os ombros, fatigado pelo dia de viagem. Tentou repelir o sono, apontou o vestido da elfa e disse: — Você finalmente abandonou sua camisa e a calça comprida?
Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Arya.
— Apenas durante essa viagem. Vivi entre os Varden por mais tempo do que ouso lembrar, mas mesmo assim ainda esqueço como os humanos insistem em separar suas mulheres dos homens. Jamais conseguiria adotar os costumes de vocês, mesmo que não me comportasse inteiramente como uma elfa. Quem diria sim ou não para mim? Minha mãe? Ela estava do outro lado da Alagaësia. — Arya pareceu fazer uma pausa, como se tivesse dito mais do que desejava. Então, continuou: — De qualquer modo, eu tive um inoportuno encontro com um par de pastores de boi logo depois de deixar os Varden, e em seguida roubei esse vestido.
— Cai bem em você.
— Uma das vantagens de ser feiticeira é jamais precisar de alfaiate.
Eragon riu por um momento. Depois perguntou:
— E agora?
— Agora nós descansamos. Amanhã, antes de o sol nascer, nós saímos de Eastcroft e ninguém será o mais esperto.


Naquela noite Eragon dormiu em frente à porta enquanto Arya ficou com a cama. O acordo não foi resultado de deferência ou cortesia da parte dele – embora, de qualquer modo, tivesse insistido em dar a cama para Arya – mas, sim, cautela. Se alguém irrompesse no quarto, acharia estranho uma mulher dormindo no chão.
À medida que as horas vazias se sucediam, Eragon mirava as vigas acima de sua cabeça e rastreava as falhas na madeira, incapaz de acalmar seus pensamentos desenfreados. Tentou todos os métodos que conhecia para relaxar, mas sua mente sempre retornava a Arya, para a surpresa em encontrá-la, para seus comentários a respeito de como ele tratara Sloan e acima de tudo, para o que sentia por ela. O que era exatamente, não unha certeza. Ansiava por estar a seu lado, mas ela rejeitara seus avanços e isso gerou uma mancha de dor e raiva na afeição que sentia por ela. E também frustração, já que apesar de recusar-se a aceitar que sua corte era desprovida de esperança, não conseguia pensar em como proceder.
Uma dor se formou em seu peito ao ouvir a suave respiração de Arya. Era um tormento para ele ficar tão perto e ao mesmo tempo ser tão incapaz de abordá-la. Torceu a borda de sua túnica entre os dedos e desejou que houvesse algo que pudesse fazer em vez de resignar-se àquele destino desagradável. Lutou com suas tempestuosas emoções noite adentro, até que finalmente sucumbiu à exaustão e submergiu no abraço esperado de seu sonhar acordado.
Lá vagou por algumas horas incertas até que as estrelas começaram a perder o brilho e já era hora de os dois deixarem Eastcroft. Juntos, abriram a janela e pularam do parapeito ao chão, três metros abaixo, pouca coisa para alguém com habilidades élficas.
Ao cair, Arya segurou a saia de seu vestido para evitar que formasse um balão. Aterrissaram poucos centímetros um do outro e começaram a correr por entre as casas até a paliçada.
— As pessoas vão imaginar aonde nós fomos — disse Eragon, correndo. — Talvez devêssemos ter esperado e saído como viajantes normais.
— É mais arriscado ficar. Eu paguei o quarto. Isso é tudo o que interessa à dona da estalagem. Ela não quer saber se saímos mais cedo. — Os dois se separaram por alguns segundos ao circundar uma carroça decrépita. Então, Arya acrescentou: — O mais importante é não parar. Se nos demorarmos, certamente o rei nos achará.
Quando chegaram ao muro externo, Arya caminhou ao longo até encontrar um pilar com uma protuberância. Envolveu-a com as mãos e puxou, testando a madeira com seu peso. O pilar oscilou e retiniu, mas ficou firme.
— Você primeiro — disse Arya.
— Por favor, depois de você.
Com um suspiro de impaciência, ela deu uma batidinha no corpete e disse:
— Um vestido é mais fresco do que um par de calças, Eragon.
O rosto dele ficou vermelho assim que entendeu o significado da frase. Levantando os braços acima da cabeça, agarrou firme e começou a escalar a paliçada usando os pés e os joelhos durante a subida. No topo, parou e se equilibrou nas pontas dos pilares pontudos.
— Continue — sussurrou Arya.
— Não até que você suba.
— Não seja tão...
— Vigia! — disse Eragon, e apontou.
Um lampião flutuou na escuridão entre um par de casas. Quando a luz se aproximou, o perfil de um homem com armadura emergiu das sombras. Ele portava uma espada desembainhada em uma das mãos. Silenciosa como um espectro, Arya agarrou o pilar e, usando apenas a força dos braços, puxou-se mão após mão até Eragon. Parecia deslizar para cima, como se por mágica. Quando estava suficientemente próxima, Eragon pegou seu antebraço direito e ergueu-a acima dos pilares restantes, colocando-a perto dele.
Como dois pássaros estranhos, ficaram empoleirados sobre a paliçada, imóveis e ofegantes enquanto o vigia caminhava abaixo, balançando o lampião para um lado e para o outro em busca de intrusos. Não olhe para o chão, suplicou Eragon. E não olhe para o alto. Um instante depois, o vigia embainhou a espada e continuou sua ronda, cantarolando.
Sem dizer uma palavra, Eragon e Arya pularam para o outro lado da paliçada. A armadura dentro da trouxa chocalhou quando ele se chocou com o chão coberto de grama e rolou para dissipar a força do impacto. Levantou-se, inclinou-se e disparou para longe de Eastcroft através da paisagem cinzenta, seguido de perto por Arya.
Corriam ao longo das bacias e leitos secos dos rios costeando as fazendas que cercavam o vilarejo. Algumas vezes, cães indignados surgiam para protestar pela invasão de seus territórios. Eragon tentava acalmá-los com a mente, mas a única forma que encontrou para fazer os cachorros pararem de latir era assegurá-los de que seus terríveis dentes e garras haviam convencido os dois a fugir dali. Satisfeitos com o sucesso, os cachorros voltavam de rabo abanando para os celeiros, alpendres e varandas de onde vigiavam seus feudos. A presunçosa confiança deles divertia Eragon.
Oito quilômetros além de Eastcroft, quando ficou aparente que estavam absolutamente sós e ninguém estava atrás deles, fizeram uma parada perto de um toco de árvore calcinado. Arya ajoelhou-se e pegou um punhado de terra do chão.
— Adurna reisa — disse ela. A partir de um pingo, a água começou a surgir do solo e seguiu até o buraco que ela havia cavado. Arya esperou até que a água preenchesse a cavidade e então disse: — Letta — e o fluxo foi interrompido.
Ela evocou a cristalomancia e o rosto de Nasuada apareceu na superfície da água parada. Arya a saudou.
— Minha lady — disse Eragon, e fez uma mesura.
— Eragon — respondeu ela.
Nasuada parecia cansada, emaciada, como se houvesse sofrido uma longa enfermidade. Uma madeixa soltara-se de seu coque e enrolara-se formando um nó apertado no couro cabeludo, Eragon olhou de relance uma fileira de pesadas bandagens em seu braço quando ela deslizou uma das mãos por cima da cabeça, ajustando o fio de cabelo rebelde.
— Você está a salvo, graças a Gokukara. Nós ficamos muito preocupados.
— Sinto muito tê-la irritado, mas eu tinha meus motivos.
— Você deve explicá-los a mim quando chegar.
— Como desejar — disse ele. — Como se feriu? Alguém a atacou? Por que ninguém da Du Vrangr Gata a curou?
— Eu ordenei que eles me deixassem em paz. E isso eu vou explicar quando você chegar. — Tremendamente intrigado, Eragon assentiu com a cabeça e engoliu suas questões. Para Arya, Nasuada disse: — Estou impressionada. Você o encontrou. Eu não tinha tanta certeza de que conseguiria.
— A sorte sorriu para mim.
— Talvez, mas eu tendo a acreditar que sua habilidade foi tão importante quanto a generosidade da sorte. Quanto tempo até que se juntem a nós?
— Dois, três dias, a menos que encontremos dificuldades imprevistas.
— Bom. Eu os espero, então. De agora em diante, quero que me contatem pelo menos uma vez antes do meio-dia e uma vez antes do anoitecer. Se eu não ouvir noticias, entenderei que foram capturados e enviarei Saphira com uma força de resgate.
— Talvez nem sempre seja possível que tenhamos a privacidade necessária para fazer magia.
— Encontrem um jeito. Eu preciso saber onde os dois estão e se estão a salvo.
Arya pensou por um instante.
— Se eu puder, farei como pede, mas não se precisar colocar Eragon em risco.
— Aceito.
Aproveitando a pausa que se seguiu à conversa, Eragon disse:
— Nasuada, Saphira está por perto? Gostaria de falar com ela... Não nos falamos desde Helgrind.
— Saiu há uma hora para explorar nosso perímetro. Você consegue manter esse encantamento enquanto vejo se já retornou?
— Vá — disse Arya.
Um único passo retirou Nasuada do campo de visão dos dois, deixando para trás uma imagem estática da mesa e das cadeiras de dentro do pavilhão vermelho. Por um bom tempo, Eragon estimou o conteúdo da tenda, mas logo a inquietude tomou conta dele e ele permitiu que seus olhos vagassem da piscina para a nuca de Arya. Seus espessos cabelos negros caíam para um dos lados, expondo uma faixa de pele macia logo acima do colarinho do vestido. Aquilo o deixou petrificado por quase um minuto inteiro. Então, despertou e recostou-se no tronco calcinado.
Surgiu um som de madeira se quebrando e então uma porção de escamas azuis resplandecentes cobriu a piscina quando Saphira enfiou seu corpo pavilhão adentro. Era difícil para Eragon dizer qual parte estava vendo porque era uma bastante pequena. As escamas deslizaram por cima da piscina e ele vislumbrou a parte de trás de uma coxa, um espinho na cauda, a membrana estufada de uma asa dobrada e então a ponta luzente de um dente no instante em que o dragão se virou e se contorceu, tentando achar uma posição na qual pudesse confortavelmente visualizar o espelho que Nasuada usava para as comunicações arcanas. Pelos ruídos assustadores que se originavam atrás de Saphira, Eragon podia muito bem adivinhar que ela estava arrebentando grande parte do mobiliário. Finalmente, assentou-se em um lugar, aproximou a cabeça do espelho – de modo que um grande olho de safira ocupou a totalidade da piscina – e mirou Eragon.
Olharam um para o outro por um minuto inteiro, ambos imóveis. Eragon ficou surpreso do quanto estava aliviado em vê-la. Não se sentira verdadeiramente seguro desde que haviam se separado.
— Senti sua falta — sussurrou ele.
Ela piscou uma vez.
— Nasuada, você ainda está aí?
A resposta abafada flutuou na direção dele de algum ponto à direita de Saphira:
— Sim, estou tentando.
— Você teria a gentileza de transcrever os comentários de Saphira para mim?
— Eu o faria com prazer, mas no momento estou presa entre uma asa e uma estaca e não há nenhum caminho livre até onde eu posso ver. Talvez tenha dificuldades em me ouvir. Se, no entanto, estiver disposto a me acompanhar, eu posso tentar.
— Por favor.
Nasuada ficou quieta por vários batimentos cardíacos, e então, num tom tão parecido com o de Saphira que Eragon quase riu, disse:
— Você está bem?
— Saudável como um boi. E você?
— Comparar a mim mesma com um bovino seria tão ridículo quanto ofensivo, mas estou em forma como sempre, se é isto o que quer saber. Estou feliz por Arya estar com você. É bom ter alguém sensato por perto para tomar conta de você.
— Concordo. Ajuda é sempre bem-vinda quando se está em perigo.
Apesar de Eragon estar grato por poder conversar com Saphira, não obstante o estilo circular, achava a palavra falada um pobre substituto para a livre troca de pensamentos e emoções que eles vivenciavam quando estavam próximos um do outro. Além disso, com Arya e Nasuada tão próximas, ele relutava em tratar de tópicos de natureza mais pessoal, tais como se Saphira o havia perdoado por tê-la forçado a deixá-lo em Helgrind. Ela parecia compartilhar sua relutância já que também evitava introduzir o assunto. Conversaram a respeito de outros acontecimentos inconsequentes e então se despediram.
Antes de sair da piscina, Eragon tocou os dedos nos lábios e pronunciou silenciosamente: Sinto muito.
Uma ranhura apareceu em torno de cada pequena escama que contornava o olho de Saphira à medida que a carne subjacente ficava mais suave. Ela piscou longa e lentamente e ele percebeu que ela entendera a mensagem e que não lhe desejava mal.
Depois que Eragon e Arya deixaram Nasuada, Arya encerrou seu encanto e se levantou. Com as costas da mão, limpou a terra do vestido. Enquanto isso, Eragon estava inquieto, impaciente como jamais estivem antes; naquele momento não queria nada além de correr direto para Saphira e se abraçar a ela na frente de uma fogueira.
— Vamos embora — disse ele, já se movendo.

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