23 de junho de 2017

Capítulo 8 - O preço do poder

— Pronto, senhora. Já não precisa mais disto. Já não era sem tempo.
A última tira de linho deslizou do antebraço de Nasuada com um leve farfalhar depois que sua aia, Farica, removeu suas ataduras. Nasuada usava ataduras como aquelas desde o dia em que ela e Fadawar, o senhor de guerra, tinham se enfrentado para testar a sua coragem no Desafio das Facas Longas.
Nasuada olhava para uma longa tapeçaria esfarrapada, salpicada de buracos, enquanto Farica lhe tratava dos braços. Depois ganhou coragem e baixou lentamente os olhos. Desde que vencera o Desafio das Facas Longas, recusava-se a olhar para os ferimentos, pois tinham-lhe parecido de tal forma horrendos, quando estavam ainda frescos, que não suportaria vê-los de novo enquanto não ficassem praticamente curados.
As cicatrizes eram assimétricas: seis na parte interna do antebraço esquerdo, e três no direito. Tinham de sete a dez centímetros de comprimento e eram retas, exceto a última à direita, pois descontrolara-se àquela altura e curvara a faca, gravando uma linha irregular com quase com o dobro do comprimento das outras.
A pele em torno das cicatrizes estava rosada e enrugada, mas as cicatrizes propriamente ditas eram apenas um pouco mais claras que o resto do corpo, o que era uma bênção. Receara que acabassem por ficar esbranquiçadas e brilhantes, o que as tornaria muito mais visíveis. As cicatrizes elevavam-se cerca de seis milímetros acima da superfície do braço, formando saliências rijas de carne, como se lhe tivessem inserido varetas polidas de aço, sob a pele.
Nasuada olhou para as marcas com uma expressão indefinida. O pai ensinara-lhe os costumes do seu povo enquanto crescia, mas passara toda a vida entre os Varden e os anões. Os únicos rituais das tribos nômades que celebrava e, apenas ocasionalmente, estavam associados à religião. Jamais aspirara dominar a Dança dos Tambores, nem participar da cansativa Invocação de Nomes e muito menos derrotar alguém no Desafio das Facas Longas. Contudo, ali estava ela agora, ainda jovem e bela, e já com aquelas nove enormes cicatrizes nos antebraços. É claro que poderia ordenar a um dos magos dos Varden que as removesse, mas isso seria renunciar à sua vitória no Desafio das Facas Longas e as tribos nômades não a reconheceriam como soberana.
Embora lamentasse que os seus braços já não fossem lisos e macios, e já não atraíssem os olhares dos homens, tinha orgulho das cicatrizes. Eram um testemunho da sua coragem e um sinal visível da sua devoção para com os Varden. Qualquer pessoa que olhasse para ela entenderia a excelência do seu caráter e ela concluiu que isso era mais importante do que a aparência.
— O que acha? — perguntou, esticando os braços na direção do rei Orrin, parado na janela aberta do escritório, comtemplando  a cidade.
Orrin virou-se e franziu a sobrancelha, com um olhar encimado pela testa franzida. Trocara a armadura por uma túnica grossa, vermelha, e um manto de arminho.
— Não é agradável de se ver — ele falou, voltando a se concentrar na cidade. — Cubra-se, isso é inapropriado para uma sociedade civilizada.
Nasuada examinou os braços durante mais alguns momentos.
— Não, acho que não vou fazer isso. — Puxou o punho de renda das suas mangas três-quartos para enfireitá-lass, dispensando Farica. Percorreu o suntuoso tapete feito pelos anões que estava ao meio da sala e reuniu-se a Orrin para examinar a cidade devastada pela batalha, e observou satisfeita que só dois focos de fogo ardiam ao longo da muralha ocidental. Depois desviou o olhar para o rei.
Durante o tempo em que os Varden e os surdanos tinham lançado ataque contra o Império, Nasuada vira Orrin tornar-se cada vez mais discreto e o seu entusiasmo e excentricidades iniciais desapareceram, dando lugar a uma aparência sombria. A princípio acolhera de bom grado a mudança, pois sentira que ele estava amadurecendo, mas à medida que a guerra se arrastava, começara a sentir falta das suas discussões acaloradas sobre filosofia natural assim como das suas outras esquisitices. Ao olhar para trás, concluiu que estas lhe animavam frequentemente o dia, mesmo que por vezes as achasse irritantes. Além disso, a mudança tornara-o mais perigoso como rival. Não era difícil imaginá-lo tentando depô-la como líder dos Varden no seu atual estado de espírito.
Eu poderia ser feliz se me casasse com ele?, pensou ela. Orrin não era feio de todo. Tinha um nariz alto e fino, o queixo forte e a boca finamente talhada e expressiva. Ganhara uma boa constituição graças aos anos de treino militar. Era, sem sombra de dúvida, inteligente e, no geral, tinha uma personalidade agradável. Contudo, se ele não fosse o rei de Surda e não constituísse uma ameaça tão grande para a sua posição e para a independência dos Varden, Nasuada sabia que jamais consideraria a hipótese de se casar com ele. Será que daria um bom pai?
Orrin pousou as mãos sobre o estreito peitoril e encostou-se nele, falando depois, sem olhar para ela:
— Você tem que romper o seu pacto com os Urgals.
A declaração apanhou-a desprevenida.
— Por quê?
— Porque está nos prejudicando. Homens que de outro modo se juntariam a nós, estão agora a amaldiçoar-nos por nos aliarmos a monstros e recusam-se a depor as armas quando chegamos às suas casas. A resistência de Galbatorix parece-lhes justa e razoável devido ao nosso acordo com os Urgals. O homem comum não entende porque nos unimos a eles, pois não sabe que o próprio Galbatorix os usou, nem que os ludibriou para que atacassem Tronjheim sob o comando de um Espetro. Não se pode explicar tais sutilezas a um lavrador assustado. Tudo o que ele entende é que as criaturas que temeu e odiou durante toda a vida estão marchando em direção à sua casa, comandadas por um enorme dragão de dentes arreganhados e um Cavaleiro que mais parece um elfo do que um humano.
— Precisamos do apoio dos Urgals — disse Nasuada. — Neste momento temos poucos guerreiros.
— Nós não precisamos tanto deles assim e você sabe que o que digo é verdade; que outro motivo a levaria a impedir os Urgals de participarem ao ataque a Belatona, ou ordernar que não entrassem na cidade? Mantê-los afastados do campo de batalha não é o suficiente, Nasuada. Os rumores da presença deles ainda circulam por toda a região. A única coisa que pode fazer para melhorar a situação é por fim a este plano condenado ao fracasso antes que nos prejudique mais.
— Não posso.
Orrin virou-se bruscamente para ela, o rosto desfigurado pela raiva.
— Homens estão morrendo porque você aceitou a ajuda de Garzhvog. Homens meus, homens seus e homens do Império... todos eles mortos e enterrados. Esta aliança não vale o seu sacrifício e eu juro pela minha vida que não entendo porque continua a defendê-la.
Nasuada não conseguiu aguentar o olhar, pois lembrava-lhe demasiado a culpa e as autorrecriminações que a afligiam tantas vezes quando tentava dormir, por isso fixou o olhar na fumaça que se erguia de uma torre, no extremo da cidade, e disse pausadamente:
— Defendo-a porque espero que o fato de preservarmos a nossa aliança com os Urgals, nos permita salvar mais vidas do que as que perderemos... se derrotarmos Galbatorix...
Orrin deixou escapar uma exclamação de incredulidade.
— Eu sei que isso não é de forma alguma uma certeza — disse ela. — Mas temos que prever essa possibilidade. Se o derrotarmos, será nossa obrigação ajudar a nossa raça a se recuperar deste conflito e a erguer um país novo e forte das cinzas do Império. Parte disso será assegurar que tenhamos finalmente paz, depois de anos de conflito. Não derrotarei Galbatorix para sermos atacados pelos Urgals quando estivermos mais vulneráveis.
— Seja como for, eles poderão nos atacar. Sempre o fizeram.
— Bem, e o que mais nós podemos fazer? — respondeu ela, aborrecida. — Temos de tentar amansá-los. Quanto mais próximos estiverem da nossa causa, menos provável será que se virem contra nós.
— Eu lhe digo o que fazer — rugiu ele. — Bana-os! Quebre o seu pacto com Nar Garzhvog e o mande embora com os seus guerreiros chifrudos. Se ganharmos esta guerra, poderemos negociar um novo tratado com eles e estaremos em posição de impor os termos deste. Ou melhor ainda, mande Eragon e Saphira à Espinha com um batalhão de homens para acabar com eles de uma vez por todas, como os Cavaleiros deviam ter feito séculos atrás.
Nasuada olhou-o incrédula.
— Se eu pusesse fim ao nosso pacto com os Urgals, muito provavelmente eles ficariam tão furiosos que nos atacariam de imediato, e nós não podemos derrotar a eles e ao Império ao mesmo tempo. Nos colocarmos em tal situação seria uma perfeita loucura. Se os elfos, os dragões e os Cavaleiros, com a sua sabedoria, decidiram tolerar os Urgals – embora pudessem tê-los destruído facilmente – deveríamos seguir o seu exemplo. Eles sabiam que era errado matar todos os Urgals e você também deveria saber.
— A sua sabedoria... Bah! Como se a sabedoria lhes valesse de alguma coisa! Muito bem, deixe alguns Urgals vivos, mas mate-os em número suficiente para que não se atrevam a assombrar-nos durante cem anos ou mais!
A dor perceptível na voz e as linhas tensas do rosto dele intrigaram Nasuada de modo que ela examinou-o mais atentamente, tentando perceber o motivo da sua veemência. Alguns instantes depois, surgiu uma explicação aparentemente evidente após alguma reflexão.
— Quem você perdeu? — perguntou ela.
Orrin cerrou o punho, baixando-o lenta e hesitantemente sobre o peitoril da janela, como se quisesse bater nele com toda a força, mas não se atrevesse. Bateu no peitoril mais duas vezes e depois disse:
— Um amigo com quem cresci no castelo Borromeo. Acho que você não o conheceu. Era um dos meus tenentes de cavalaria.
— Como ele morreu?
— Como deve imaginar. Tínhamos acabado de chegar aos estábulos junto do portão oeste, e estávamos ocupando-o para o nosso próprio uso quando um dos cavalariços saiu de uma cocheira e o trespassou, de lado a lado, com uma forquilha. Ao o encurralarmos, ele não parava de gritar disparates acerca dos Urgals, dizendo que jamais se renderia... Mesmo que o imbecil se rendesse, de nada lhe valeria, pois dei cabo dele com as minhas próprias mãos.
— Lamento muito — disse Nasuada.
As joias da coroa de Orrin cintilaram quando ele balançou a cabeça em sinal de reconhecimento.
— Por mais doloroso que isso seja, não pode permitir que a sua dor afete as suas decisões... Eu sei que não é fácil – e como sei! – mas você deve ser mais forte, para o bem de seu povo.
— Ser mais forte — repetiu ele num tom amargo e desdenhoso.
— Sim, nos é exigido muito mais do que à maioria, portanto temos de nos esforçar para ser melhores do que a maioria, se quisermos nos revelar merecedores de tal responsabilidade... Não se esqueça que os Urgals mataram o meu pai. Mas isso não me impediu de forjar com eles uma aliança capaz de ajudar os Varden. Não permito que nada me impeça de fazer o que for melhor para eles e para o nosso exército como um todo, por muito doloroso que seja. — E ergueu os braços mostrando-lhe novamente as cicatrizes.
— É essa a sua resposta? Não vai quebrar a aliança com os Urgals?
— Não.
Orrin aceitou a notícia com uma serenidade que a inquietou. Então ele agarrou-se ao parapeito com ambas as mãos e continuou a examinar a cidade. Tinha quatro grandes anéis a adornar-lhe os dedos, um dos quais exibia o selo real de Surda gravado na face de uma ametista: um veado com uma galhada com ramos de visco entrelaçados entre as patas, em cima de uma harpa e, ao lado, a imagem de uma torre alta, fortificada.
— Pelo menos — disse Nasuada — não encontramos nenhum dos soldados enfeitiçados para não sentirem dor.
— Os mortos que riem, você quer dizer — murmurou Orrin, utilizando o termo que ela sabia que se generalizara entre os Varden. — Sim, nem Murtagh nem Thorn, o que me preocupa.
Nenhum dos dois falou durante algum tempo, mas depois ela disse:
— Como correu a sua experiência ontem à noite, obteve sucesso?
— Estava cansado demais para tentar. Fui me deitar.
— Ah.
Momentos depois, por acordo tácito, ambos se encaminharam para a escrivaninha encostada em uma das paredes. Montanhas de papéis, blocos e pergaminhos cobriam a superfície. Nasuada observou aquele panorama assustador e suspirou. Ainda meia hora atrás a mesa fora limpa pelos seus criados.
Concentrou-se no relatório familiar que estava por cima: uma estimativa do número de prisioneiros que os Varden tinham feito durante o cerco a Belatona, com o nome das personalidades importantes anotados a tinta vermelha. Nasuada e Orrin estavam a discutir os números quando Farica apareceu para remover as ataduras.
— Não sei como resolver esta confusão — confessou ela.
— Poderíamos recrutar guardas entre estes homens. Dessa forma, não teríamos que deixar tantos guerreiros nossos pelo caminho.
Ela pegou no relatório.
— Talvez, mas os homens de que precisamos seriam difíceis de encontrar e os nossos magos já estão sobrecarregados...
— Du Vrangr Gata já descobriu a forma de quebrar um juramento prestado na língua antiga? — Ao vê-la responder que não, perguntou: — Não fizeram nenhum progresso?
— Nenhum que seja prático. Até perguntei aos elfos, mas apesar de longos anos de prática, tiveram tanta sorte como nós nos últimos dias.
— Temos de resolver isto e bem depressa, do contrário poderemos perder a guerra — disse Orrin. — Estava bem diante de nós.
Nasuada massageou as têmporas.
— Eu sei. — Antes de abandonar a proteção dos anões em Farthen Dûr e Tronjheim, ela tentara prever todos os desafios que os Varden poderiam enfrentar logo que lançassem a ofensiva, mas o que enfrentavam agora apanhara-os totalmente de surpresa.
O problema manifestara-se pela primeira vez nas consequências da Batalha das Campina Ardente, quando se tornou evidente que todos os oficiais do exército de Galbatorix, e muitos dos soldados, tinham sido obrigados e jurar lealdade a Galbatorix e ao Império na língua antiga. Nasuada e Orrin depressa concluíram que nunca poderiam confiar nesses homens. Pelo menos enquanto Galbatorix e o Império existissem, e talvez nem mesmo depois destes serem destruídos. Em consequência disso, não podiam permitir que os homens que desertavam se juntassem aos Varden, receando a forma como os seus juramentos os compeliriam a agir.
Naquela altura, Nasuada não ficara muito preocupada com o assunto. Os prisioneiros eram uma realidade em tempo de guerra, e já tomara providências com o rei Orrin para que os prisioneiros fossem reconduzidos para Surda, onde seriam postos para trabalhar na construção de estradas, quebrar pedra, abrir canais e outros trabalhos pesados.
Só quando os Varden tomaram a cidade de Feinster é que Nasuada começou a entender a dimensão real do problema. Os agentes de Galbatorix tinham arrancado juramentos de lealdade não só dos soldados de Feinster, mas também dos nobres, muitos dos oficiais que os serviam e de um conjunto aparentemente aleatório de pessoas comuns por toda a cidade. Nasuada suspeitava que os Varden não tivessem conseguido identificar grande parte dessas pessoas, contudo, todos os que identificaram teriam de ficar trancados a sete chaves, para o caso de tentarem subverter os Varden. Encontrar gente em quem pudessem confiar e que estivesse disposta a trabalhar com os Varden revelara-se, por isso, muito mais difícil do que Nasuada esperara.
Atendendo ao número de pessoas que era necessário encarcerar, ela não tivera outro remédio senão deixar em Feinster o dobro dos guerreiros que era sua intenção disponibilizar. Com tanta gente aprisionada, a cidade ficou virtualmente paralisada, forçando-a desviar mantimentos essenciais do corpo principal do exército dos Varden para que a cidade não morresse de fome. Não lhes seria possível manter essa situação por muito tempo, e esta agora se agravaria, uma vez que tinham tomado Belatona também.
— É uma pena que os anões ainda não tenham chegado — comentou Orrin. — Nós poderíamos contar com sua ajuda.
Nasuada anuiu. Naquele momento havia apenas algumas centenas de anões com os Varden; o restante tinha regressado à Farthen Dûr, para o enterro de Hrothgar, o seu falecido rei, e para esperarem que os chefes dos seus clãs escolhessem o sucessor de Hrothgar; fato que Nasuada amaldiçoara vezes sem contar. Tentara convencer os anões a nomearem um regente durante o período de guerra, mas eles eram teimosos como pedras e tinham insistido em realizar as suas cerimônias ancestrais, embora isso significasse abandonar os Varden no meio da campanha. De qualquer forma, os anões tinham finalmente escolhido o seu novo rei – Orik, o sobrinho de Hrothgar – e tinham já partido das distantes Montanhas Beor para voltarem a se reunir com os Varden.
Naquele preciso momento, marchavam pelas vastas planícies a norte de Surda, em algum lugar entre o lago Tüdosten e o Rio Jiet. Nasuada se perguntava se eles estariam em condições de lutar quando chegassem. Via de regra, os anões eram mais rijos que os humanos, mas há quase dois meses que viajavam a pé e isso poderia esgotar a resistência até da mais robusta das criaturas.
Devem estar cansados de ver sempre a mesma paisagem, pensou.
— Temos muitos prisioneiros. Quando tomarmos Dras-Leona, então... — E balançou a cabeça.
Parecendo animar-se subitamente, Orrin disse:
— E se ignorarmos totalmente Dras-Leona? — Remexeu no monte de papéis em cima da escrivaninha até encontrar um grande mapa da Alagaësia, desenhado pelos anões, que estendeu por cima das folhas de registos administrativos. As pilhas instáveis de papel por baixo deste conferiram ao território uma topografia irregular: picos a oeste de Du Weldenvarden; uma depressão em forma de taça na zona das Montanhas Beor; desfiladeiros e ravinas por todo o deserto de Hadarac; e ondulações ao norte da Espinha, geradas pelos pergaminhos que estavam por baixo. — Olhe! — E traçou uma linha com o dedo desde Belatona até Urû’baen, a capital do Império. — Se marcharmos diretamente até aqui, não passamos sequer perto de Dras-Leona. Seria difícil fazer toda a viagem de uma só vez, mas podíamos fazê-lo.
Nasuada não precisou ponderar sobre a sugestão, pois já tinha considerado essa possibilidade.
— Seria muito arriscado. Galbatorix poderia sempre atacar-nos com os soldados que posicionou em Dras-Leona – que não são poucos, segundo os nossos espiões – e acabaríamos por ter de enfrentar ataques simultâneos de duas direções distintas. Não conheço forma mais rápida de perder uma batalha ou uma guerra. Não. Temos de tomar Dras-Leona.
Orrin aceitou o argumento, curvando ligeiramente a cabeça.
— Nesse caso, precisamos que os nossos homens regressem de Aroughs. Se queremos prosseguir, vamos precisar de todos os guerreiros.
— Eu sei. Pretendo tomar as providências necessárias para que acabe o cerco acabe antes do final da semana.
— Espero que não pense em enviar Eragon.
— Não. Tenho outro plano.
— Ótimo. E, entretanto, o que fazemos com estes prisioneiros?
— O que fizemos antes: guardas, grades e cadeados. Talvez possamos também prender os prisioneiros com feitiços que lhes restrinjam os movimentos, para que não tenhamos de vigiá-los tão atentamente. Não vejo outra solução para além disso, a não ser matar a todos, e eu preferiria... — Tentou imaginar o que não faria para derrotar Galbatorix — e eu preferiria não recorrer a medidas tão... drásticas.
— Sim. — Orrin debruçou-se sobre o mapa, arqueando os ombros como um abutre ao olhar para os rabiscos de tinta debotada que assinalavam o triângulo de Belatona, Dras-Leona e Urû’baen.
E assim ficou até Nasuada dizer:
— Temos mais algum assunto para discutir? Jörmundur aguarda ordens e o Concelho de Anciãos me pediu uma audiência.
— Estou preocupado.
— Com quê?
Orrin manteve a mão em cima do mapa.
— Que esta iniciativa tenha sido mal planejada desde o início... Que as nossas tropas e as tropas dos nossos aliados estejam perigosamente dispersas e que se Galbatorix decidir se reunir pessoalmente ao combate, nos destrua tão facilmente como Saphira destruiria um rebanho de cabras. Toda a nossa estratégia depende da possibilidade de planejarmos um encontro entre Galbatorix, Eragon, Saphira e o maior número de magos que conseguirmos reunir. Apenas uma pequena parte desses magos está presentemente nas nossas fileiras e nós não conseguiremos juntar os restantes num só local antes de chegarmos a Urû’baen e nos reunirmos à Rainha Islanzadí e ao seu exército. Até lá, permaneceremos vulneráveis a ataques. Estamos arriscando muito partindo do princípio de que a arrogância de Galbatorix o manterá sob controle até o encurralarmos em nossa armadilha.
Nasuada tinha as mesmas preocupações. Contudo, parecia-lhe mais importante firmar a confiança de Orrin do que lamentar-se com ele, pois se a sua determinação enfraquecesse, isso interferiria com os seus deveres e minaria o moral dos homens.
— Não estamos totalmente indefesos — disse ela. — Agora já não. Agora temos a Dauthdaert e com ela creio que somos bem capazes de matar Galbatorix e Shruikan, caso estes se aventurem a sair de Urû’baen.
— Talvez.
— Além disso, é inútil nos preocuparmos. Não podemos apressar a chegada dos anões, nem avançar mais depressa até Urû’baen, tão pouco dar meia-volta e fugir. Por isso, eu não me preocuparia muito com a nossa situação. Nos resta fazer um esforço para aceitar com elegância o nosso destino, seja ele qual for. Ou, como alternativa, nos inquietar com as possíveis ações de Galbatorix, e isso eu não vou fazer. Me recuso a dar-lhe esse poder.

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Boa leitura :)