3 de junho de 2017

Capítulo 8 - Notícias aladas

Um vazio se abriu então nas lembranças de Nasuada: uma ausência de informações sensoriais tão completa que ela só se deu conta do tempo perdido quando lhe ocorreu que Jörmundur estava sacudindo seu ombro e dizendo alguma coisa em voz alta. Ela levou alguns instantes para decifrar os sons que saíam de sua boca e só então ouviu o que ele dizia:
— ... não pare de olhar para mim, droga! Agora, sim! Não adormeça de novo. Você não conseguirá acordar se voltar a dormir.
— Pode me soltar, Jörmundur — disse ela, conseguindo forçar um sorriso fraco. — Já estou bem.
— E meu tio Undset era um elfo.
— Não era, não?
— Ora, bolas! Você é igual a seu pai: sempre ignorando a cautela quando se trata de sua própria segurança. Pouco me importa que as tribos apodreçam com seus velhos costumes sangrentos. Permita que um curandeiro a trate. Você não está em condições de tomar decisões.
— Foi por isso que esperei até o anoitecer. Veja, o sol já está quase se pondo. Posso repousar durante a noite, e amanhã estarei em condições de lidar com os assuntos que exigirem minha atenção.
Farica apareceu, vindo de um lado, e ficou adejando em torno de Nasuada.
— Ai, a senhora nos deu um pavor daqueles!
— Por sinal, ainda está dando — resmungou Jörmundur.
— Bem, agora estou melhor. — Nasuada se empertigou na cadeira, sem dar atenção ao calor que provinha dos seus antebraços. — Vocês dois podem ir. Vou ficar bem. Jörmundur, mande avisar a Fadawar que ele pode continuar a ser chefe da própria tribo, desde que jure lealdade a mim como sua comandante. É um líder capaz demais para ser desperdiçado. E, Farica, no caminho de volta para sua tenda, faça o favor de dizer a Angela, a herbolária, que preciso dos seus serviços. Ela concordou em preparar alguns tônicos e cataplasmas para mim.
— Não vou deixá-la sozinha nessas condições — declarou Jörmundur.
Farica concordou com ele em silêncio.
— Peço-lhe que me perdoe, minha lady — disse ela —, mas concordo com ele. Não é seguro.
Nasuada olhou de relance para a entrada do pavilhão, para se certificar de que nenhum dos Falcões da Noite estava perto o suficiente para escutar, e então baixou a voz para um sussurro discreto:
— Não estarei sozinha. — As sobrancelhas de Jörmundur subiram de repente, e uma expressão alarmada passou pelo rosto de Farica. — Eu nunca estou só. Vocês entendem?
— A senhora tomou certas... precauções? — perguntou Jörmundur.
— Tomei.
Tanto Farica quanto Jörmundur ficaram inquietos com essa afirmação.
— Nasuada — disse Jörmundur —, sua segurança é responsabilidade minha. Preciso saber que proteção adicional você pode ter e exatamente quem tem acesso à sua pessoa.
— Não — respondeu ela, com delicadeza. Vendo a mágoa e a indignação que apareceram nos olhos de Jörmundur, ela prosseguiu: — Não que eu duvide da sua lealdade, longe disso. É que isso eu preciso ter só para mim. Para minha própria paz de espírito, preciso de uma adaga que ninguém mais veja: uma arma oculta, enfiada na manga da minha roupa, se quiser encarar assim. Considere isso uma falha no meu caráter, mas não se atormente imaginando que minha escolha seja sob qualquer aspecto uma crítica ao seu desempenho no cumprimento do dever.
— Minha lady. — Jörmundur fez uma reverência, formalidade que quase nunca usava com ela.
Nasuada ergueu a mão, indicando sua permissão para que eles saíssem, e Jörmundur e Farica saíram às pressas do pavilhão vermelho. Por um longo minuto, talvez dois, o único som que Nasuada ouviu foi o grito rouco dos abutres, dando voltas acima do acampamento dos Varden. E então, dali detrás dela, veio um leve farfalhar, como o de um camundongo procurando alimento. Virando a cabeça, ela viu Elva sair do esconderijo, surgindo entre dois painéis de tecido para entrar no aposento principal do pavilhão.
Nasuada ficou olhando para a menina.
O crescimento extraordinário de Elva tinha continuado. Quando Nasuada a conheceu, pouco tempo antes, Elva tinha a aparência de três ou quatro anos de idade. Agora parecia mais perto dos seis. Seu vestido simples era preto, com algumas dobras roxas em torno do pescoço e dos ombros. Seu cabelo comprido e liso estava ainda mais escuro: um vazio líquido que escorria pelas costas até a cintura. Seu rosto anguloso estava branco como cera porque ela raramente se dispunha a sair ao ar livre. A marca de dragão na sua testa era prateada. E seus olhos, seus olhos violeta, tinham um ar calejado, cínico – resultado da bênção de Eragon que era uma maldição, pois a forçava tanto a suportar a dor das outras pessoas como a tentar impedi-la. A batalha recente quase a matara, com a agonia combinada de milhares atingindo sua mente, apesar de um membro da Du Vrangr Gata a ter posto num sono artificial por toda a duração do combate, numa tentativa de protegê-la.
Fazia pouco tempo que a menina tinha recomeçado a falar e a se interessar pelo que ocorria à sua volta. Ela limpou a boca de botão de rosa com o dorso da mão.
— Você passou mal? — perguntou Nasuada.
— Já estou acostumada com a dor — disse ela, dando de ombros. — Mas nunca fica mais fácil resistir ao encantamento de Eragon... É difícil eu me impressionar, Nasuada, mas você é uma mulher forte para aguentar tantos cortes.
Muito embora Nasuada a tivesse ouvido várias vezes, a voz de Elva ainda lhe inspirava um calafrio de alarme, pois era a voz amarga e zombeteira de um adulto cansado da vida, não a de uma criança. Nasuada lutou para não dar atenção a esse ponto enquanto respondia.
— Você é mais forte. Eu não precisei passar também pela dor de Fadawar. Obrigada por ficar comigo. Sei o que deve ter lhe custado, e sou grata.
— Grata? Rá! Essa é uma palavra que não tem sentido para mim, lady Caçadora Noturna. — Os lábios pequenos de Elva se contorceram num sorriso deformado. — Você tem alguma comida aqui? Estou morrendo de fome.
— Farica deixou pão e vinho atrás daqueles rolos — disse Nasuada, apontando para o outro lado do pavilhão. Ficou olhando a menina ir até a comida e começar a devorar o pão, enchendo a boca com pedaços grandes. — Pelo menos, você não vai ter de continuar a viver assim muito mais. Logo que Eragon voltar, ele removerá o encantamento.
— Pode ser. — Depois que devorou metade de um pão, Elva parou um pouco. — Eu menti sobre o Desafio das Facas Longas.
— O que você quer dizer?
— Eu previ que você perderia, não que venceria.
— O quê?!
— Se eu tivesse permitido que os acontecimentos seguissem seu curso, sua coragem teria falhado no sétimo corte, e Fadawar estaria sentado onde você está agora. Por isso, eu lhe disse o que você precisava ouvir para sair vitoriosa.
Um calafrio percorreu Nasuada. Se o que Elva estava dizendo era a verdade, ela mais do que nunca era devedora da criança-bruxa. Ainda assim, não gostava de ser manipulada, mesmo que fosse em benefício próprio.
— Entendi. Parece que devo lhe agradecer mais uma vez.
Elva então deu uma risada, um som frágil.
— E você odeia cada instante desses, não? Não importa. Não precisa se preocupar com a possibilidade de me ofender, Nasuada. Somos úteis uma para a outra, só isso.
Nasuada sentiu alívio quando um dos anões de guarda no pavilhão, o capitão daquele turno específico, bateu com o martelo no escudo antes de anunciar:
— A herbolária Angela solicita audiência com lady Caçadora Noturna.
— Audiência concedida — disse Nasuada, erguendo a voz.
Angela entrou no pavilhão, atabalhoadamente, trazendo algumas bolsas e cestas penduradas nos braços. Como sempre, seu cabelo crespo formava uma nuvem de tempestade em torno do seu rosto, que estava crispado de preocupação. Logo atrás dela vinha pisando macio Solembum, o menino-gato, em sua forma animal.
Ele de imediato se desviou para onde Elva estava e começou a se esfregar nas suas pernas, arqueando as costas. Angela depositou sua bagagem no chão e girou os ombros.
— Realmente! — disse ela. — Entre você e Eragon, pareço passar a maior parte do tempo entre os Varden curando pessoas bobas demais para perceberem que precisam evitar ferimentos que os partam em mil pedacinhos. — Enquanto falava, a herbolária baixinha se aproximou de Nasuada e começou a desenrolar as ataduras em torno do seu antebraço direito, estalando a língua em censura. — Normalmente, é nessa hora que a curandeira pergunta à paciente como está, e a paciente mente no nariz dela “Ah, não tão mal assim”, e a curandeira diz “Isso é bom, muito bom. Anime-se e terá uma bela recuperação”. Acho, porém, que é óbvio que você não está preparada para começar a sair correndo por aí, comandando investidas contra o Império. Longe disso.
— Vou me recuperar, não vou? — perguntou Nasuada.
— Você se recuperaria se eu pudesse recorrer à magia para fechar esses ferimentos. Como não posso, fica mais difícil dizer. Vai precisar passar por todas as etapas, como a maioria das pessoas, e torcer para que nenhum desses cortes se infeccione. — Ela fez uma pausa no trabalho e encarou Nasuada. — Você se dá conta de que esses ferimentos vão formar cicatrizes?
— O que será, será.
— Não deixa de ser verdade.
Nasuada sufocou um gemido e olhou para o alto enquanto Angela costurava cada ferimento e depois o cobria com um grosso emplastro úmido de plantas maceradas. Com o canto do olho, ela viu Solembum pular em cima da mesa e se sentar junto de Elva. Estendendo uma pata grande e peluda, o menino-gato fisgou um pedaço de pão do prato de Elva e ficou mordiscando o bocado, com as presas brancas faiscando. As bodas pretas nas suas orelhas enormes tremiam quando ele as girava de um lado para outro, ouvindo guerreiros em trajes de metal que passavam diante do pavilhão vermelho.
— Barzûl — resmungou Angela. — Só homens pensariam em se cortar para determinar quem é o líder da matilha. Idiotas!
Rir doía, mas Nasuada não conseguiu se controlar.
— É mesmo — disse ela, depois do acesso.
Exatamente quando Angela terminou de amarrar a última tira de pano em torno dos braços de Nasuada, o capitão anão do lado de fora do pavilhão gritou “Alto!” e se ouviu um coro de notas trêmulas como as de sinos à medida que os guardas cruzavam as espadas, impedindo a passagem de quem quer que estivesse tentando entrar.
Sem parar para pensar, Nasuada sacou a faca de dez centímetros da bainha costurada por dentro do corpete de sua camisa. Foi difícil para ela segurar bem o cabo, já que seus dedos lhe pareciam grossos e desajeitados, e os músculos dos seus braços estavam lentos para reagir. Era como se os braços estivessem dormentes, com exceção das linhas nítidas, ardidas, marcadas na sua carne.
Também Angela puxou uma adaga de algum canto nas roupas e se posicionou à frente de Nasuada, murmurando uma frase na língua antiga. Saltando para o chão, Solembum se agachou ao lado de Angela. Seu pelo estava todo eriçado, fazendo com que parecesse maior que a maioria dos cães. Rosnava baixo no fundo da garganta.
Elva continuou a comer, parecendo não se deixar perturbar pela comoção. Examinou o pedaço de pão que estava segurando entre o polegar e o indicador, como alguém que inspeciona uma espécie estranha de inseto, e então o mergulhou num copo de vinho e o deixou cair na boca.
— Minha lady! — gritou o homem. — Eragon e Saphira se aproximam velozes, vindo do nordeste!
Nasuada embainhou a faca.
— Ajude-me a me vestir — disse a Angela, levantando-se com esforço da cadeira.
A herbolária segurou o traje aberto diante de Nasuada, que entrou nele. E então Angela delicadamente guiou seus braços para dentro das mangas. Quando estavam no lugar, começou a amarrar as costas do vestido. Elva se juntou a ela. Juntas, logo deixaram Nasuada corretamente trajada.
A líder dos Varden examinou os braços e não viu sinal das ataduras.
— Eu deveria esconder ou expor meus ferimentos? — perguntou ela.
— Depende — respondeu Angela. — Você acha que mostrá-los vai elevar sua posição ou incentivar seus inimigos, se eles supuserem que é fraca e vulnerável? A questão é na realidade bastante filosófica, determinada pela hipótese de se dizer quando se olha para um homem que perdeu um dedão do pé “Coitado, é um inválido” ou “Como ele foi esperto, forte ou sortudo de escapar sem ferimentos mais graves”.
— Você faz as comparações mais estranhas.
— Obrigada.
— O Desafio das Facas Longas é uma prova de força — disse Elva. — Isso é de conhecimento geral entre os Varden e os habitantes de Surda. Você sente orgulho da sua força, Nasuada?
— Cortem as mangas — disse Nasuada. Quando hesitaram, ela prosseguiu: — Vamos. Cortem na altura do cotovelo. Não se importem com o vestido. Mando consertá-lo depois.
Com alguns movimentos hábeis, Angela removeu as partes indicadas por Nasuada, deixando cair em cima da mesa o tecido que sobrou. A líder levantou o queixo.
— Elva, se você pressentir que estou prestes a desmaiar, por favor, avise Angela para que ela me segure. Vamos, então? — As três se juntaram numa formação cerrada, com Nasuada na frente.
Solembum seguiu sozinho.
— A postos! — ordenou o capitão anão quando elas saíram do pavilhão vermelho.
E os seis Falcões da Noite ali presentes se dispuseram em torno do grupo de Nasuada: os humanos e os anões à frente e atrás, e os volumosos Kull, Urgals de no mínimo dois metros e quarenta de altura, um de cada lado.
O crepúsculo abria suas asas douradas e roxas sobre o acampamento dos Varden, emprestando um ar de mistério às fileiras de tendas de lona que se estendiam além do alcance da visão de Nasuada. Sombras cada vez mais escuras prenunciavam a chegada da noite, e inúmeros archotes e fogueiras de sentinela já refulgiam brilhantes no calor do anoitecer.
No leste, o céu estava limpo. Ao sul, uma nuvem longa e baixa de fumaça preta escondia o horizonte e a Campina Ardente, a uma légua e meia de distância. No oeste, uma fileira de laias e choupos assinalava o curso do rio Jiet, no qual estava Asa de Dragão, o navio que Jeod, Roran e os outros moradores do vilarejo de Carvahall tinham pirateado. Mas Nasuada só tinha olhos para o norte, e para a forma cintilante de Saphira, que vinha descendo de lá. A luz do sol poente ainda a iluminava, envolvendo-a num halo azul. Parecia um aglomerado de estrelas caindo do firmamento. A visão era tão majestosa que Nasuada ficou petrificada por um instante, grata pela felicidade de presenciá-la.
Eles estão em segurança!, pensou ela, dando um suspiro de alívio. O guerreiro que havia trazido a notícia da chegada de Saphira – um homem magro com a barba grande, sem aparar – fez uma reverência e apontou.
— Minha lady, como pode ver, eu disse a verdade.
— É. Agiu bem. Seus olhos devem ser extremamente perspicazes para terem avistado Saphira antes. Como você se chama?
— Fletcher, minha lady, filho de Harden.
— Aceite meus agradecimentos, Fletcher. Pode voltar a seu posto agora.
Com mais uma reverência, o homem saiu correndo na direção dos limites do acampamento. Mantendo o olhar fixo em Saphira, Nasuada seguiu por entre as fileiras de tendas na direção da grande clareira designada para Saphira pousar e decolar. Seus guardas e acompanhantes foram junto, mas ela deu pouca atenção a eles, por estar ansiosa pelo encontro com Eragon e Saphira. Tinha passado grande parte dos dias anteriores preocupada com os dois, tanto como líder dos Varden e, de certo modo para sua surpresa, como amiga.
Saphira voava tão rápido quanto qualquer falcão que Nasuada tivesse visto, mas ainda estava a alguns quilômetros do acampamento, e levou quase dez minutos para transpor a distância que faltava. Enquanto isso, uma enorme multidão de guerreiros se reuniu em torno da clareira: humanos, anões e até mesmo um contingente de Urgals de pele cinzenta, liderados por Nar Garzhvog, que chiavam para os homens mais próximos deles. Também ali reunidos estavam o rei Orrin e seus cortesãos, que se posicionaram em frente a Nasuada; Narheim, o embaixador dos anões que havia assumido as funções de Orik desde que este deixara Farthen Dûr; Jörmundur; os outros membros do Conselho de Anciãos; e Arya.
A elfa alta abriu caminho através da multidão na direção de Nasuada. Mesmo com Saphira quase acima deles, tanto os homens como as mulheres desviaram os olhos do céu para assistir ao avanço de Arya, tão impressionante era a imagem que apresentava. Toda vestida de negro, usava malha como um homem, uma espada no quadril e um arco e uma aljava nas costas. Sua pele era da cor de mel claro. Seu rosto era tão anguloso quanto o de um gato. E se movimentava com uma desenvoltura musculosa e sorrateira que denunciava sua perícia com a espada, bem como sua força sobrenatural.
Seu traje excêntrico sempre tinha parecido a Nasuada ligeiramente indecente, por revelar tanto suas formas. Mas ela era forçada a admitir que, mesmo que Arya usasse um vestido esfarrapado, ainda pareceria mais majestosa e imponente que qualquer mortal nascido na nobreza.
Parando diante de Nasuada, Arya fez um gesto com um dedo elegante indicando os ferimentos da líder.
— Como o poeta Earnë disse, expor-se ao perigo em nome do povo e da terra que se ama é o ato mais sublime possível. Conheci todos os líderes dos Varden, e todos eram poderosos, homens e mulheres. Nenhum tanto quanto Ajihad. Nisso, porém, creio que você superou até mesmo a ele.
— Você me honra com sua opinião, Arya, mas receio que, se eu queimar com luz muito forte, serão poucos os que se lembrarão de meu pai como ele merece.
— Os feitos dos filhos são testemunho da criação recebida dos pais. Brilhe como o sol, Nasuada. Pois, quanto mais você brilhar, mais gente haverá para respeitar Ajihad por ensiná-la a arcar com as responsabilidades do comando sendo tão jovem.
Nasuada abaixou a cabeça, levando a sério o conselho de Arya. Depois sorriu.
— Tão jovem? Sou uma mulher adulta, pelas contas dos humanos.
— É verdade — respondeu Arya, com o divertimento refulgindo nos olhos verdes. — Mas, se fôssemos julgar pelos anos e não pela sabedoria, nenhum humano seria considerado adulto entre meu povo. Quer dizer, com exceção de Galbatorix.
— E de mim — acrescentou Angela.
— Ora, vamos — disse Nasuada. — Você não pode ser muito mais velha que eu.
— Rá! Você está confundindo aparência com idade. Deveria compreender melhor tudo isso depois de ter passado tanto tempo perto de Arya.
Antes que pudesse perguntar qual era a idade exata de Angela, Nasuada sentiu um forte puxão nas costas do vestido. Olhando para trás, viu que era Elva que tinha tomado essa liberdade e que a menina estava acenando para ela. Curvando-se, Nasuada grudou um ouvido a Elva.
— Eragon não está em Saphira — murmurou a menina.
Nasuada sentiu um aperto no peito, que prejudicava sua respiração. Olhou para o alto. Saphira descrevia círculos diretamente acima do acampamento, a uma altura de milhares de pés. Suas asas enormes, semelhantes às de um morcego, pareciam negras em contraste com o céu. Nasuada conseguia ver o ventre de Saphira, e as garras brancas encolhidas nas escamas superpostas da barriga, mas não via absolutamente nada de quem pudesse estar montado nela.
— Como você sabe? — perguntou, mantendo a voz baixa.
— Não consigo sentir seu constrangimento, nem seus medos. Quem está lá é Roran; e uma mulher, que eu penso ser Katrina. Mais ninguém.
— Jörmundur! — disse Nasuada, empertigando-se enquanto batia palmas e permitia que sua voz se projetasse.
Jörmundur, que estava a quase doze metros dali, veio correndo, empurrando de qualquer jeito quem estivesse atrapalhando seu avanço. Tinha experiência suficiente para reconhecer uma emergência.
— Minha lady!
— Esvazie o campo! Tire todos daqui antes que Saphira pouse.
— Incluindo Orrin, Narheim e Garzhvog?
— Não — respondeu ela, com uma careta. — Mas não permita que mais ninguém permaneça. Depressa!
Quando Jörmundur começou a dar ordens aos gritos, Arya e Angela vieram se juntar a Nasuada. Pareciam tão alarmadas quanto ela.
— Saphira não estaria tão calma se Eragon estivesse ferido ou morto — disse Arya.
— E onde está ele, então? — perguntou Nasuada. — Em que encrenca foi se meter agora?
Uma comoção estridente encheu a clareira à medida que Jörmundur e seus homens despachavam os espectadores de volta para as tendas, dando golpes a torto e a direito com varas, sempre que os guerreiros relutantes se demoravam ou protestavam. Diversas escaramuças ocorreram, mas os capitães sob as ordens de Jörmundur dominaram rapidamente os culpados, para impedir que a violência fincasse raízes e se espalhasse.
Felizmente, os Urgals, em obediência à palavra de seu chefe, Garzhvog, saíram sem incidentes, embora o próprio Garzhvog viesse na direção de Nasuada, assim como o rei Orrin e o anão Narheim.
Nasuada sentiu o chão tremer sob seus pés quando o Urgal de mais de dois metros e meio de altura se aproximou dela. Ele levantou o queixo ossudo, expondo o pescoço, como era o costume da sua raça.
— O que significa isso, lady Caçadora Noturna? — O formato de seus maxilares e dentes, aliado ao sotaque, tornava difícil que Nasuada o entendesse.
— É, eu bem que gostaria de receber alguma explicação — disse Orrin, com o rosto vermelho.
— Como eu também — disse Narheim.
Ocorreu a Nasuada, enquanto olhava para eles, que essa era provavelmente a primeira vez em milhares de anos que membros de tantas das raças da Alagaësia tinham se reunido em paz. Os únicos que faltavam eram os Ra’zac e suas montarias; e Nasuada sabia que nenhuma criatura sã jamais convidaria aqueles seres imundos a participar de seus conselhos secretos.
— Ela vai fornecer as respostas que vocês querem — disse Nasuada, apontando para Saphira.
Exatamente quando os últimos retardatários deixaram a clareira, uma forte corrente de ar passou veloz por Nasuada quando Saphira se precipitou para o chão, abrindo as asas para reduzir a velocidade antes de tocar o solo com as patas traseiras. Ela se deixou cair de quatro, e um estrondo surdo ressoou pelo acampamento. Soltando-se da sela, Roran e Katrina desmontaram rapidamente.
Nasuada avançou e examinou Katrina. Estava curiosa por ver que tipo de mulher poderia inspirar um homem a empreender feitos tão extraordinários para salvá-la. A jovem diante dela tinha ossos fortes, com a tez pálida de uma pessoa doente, uma juba cor de cobre e um vestido tão rasgado e imundo que era impossível saber qual teria sido sua aparência original. Apesar dos efeitos visíveis do cativeiro, Nasuada percebeu que Katrina era bastante bonita, mas não o que os bardos chamariam de grande beleza. Ela possuía, porém, uma certa força no olhar e na postura que fez Nasuada pensar que, se fosse Roran que tivesse sido capturado, Katrina teria sido igualmente capaz de incitar os moradores de Carvahall, levá-los para o sul, para Surda, lutar na batalha da Campina Ardente e depois prosseguir até Helgrind, tudo pelo seu amado.
Mesmo quando percebeu a presença de Garzhvog, Katrina não se encolheu nem estremeceu, mas permaneceu em pé onde estava, ao lado de Roran.
Roran fez uma reverência para Nasuada e, girando, também para o rei Orrin.
— Minha lady — disse ele, com expressão séria. — Vossa Majestade. Se me permitem, esta é minha noiva, Katrina.
Ela fez uma mesura para os dois.
— Seja bem-vinda aos Varden, Katrina — cumprimentou Nasuada. — Todos nós conhecemos seu nome aqui por causa da extraordinária devoção de Roran. Canções do seu amor por você já se espalham pela terra.
— Seja muito bem-vinda — acrescentou Orrin. — Muito bem-vinda, mesmo.
Nasuada percebeu que o rei tinha olhos só para Katrina, como todos os homens presentes, aí incluídos os anões, e ela teve certeza de que, antes que terminasse a noite, já estariam contando histórias dos encantos de Katrina para seus companheiros de luta.
O que Roran tinha feito por ela a elevava muito acima das mulheres comuns. Fazia dela um objeto de mistério, fascínio e encanto aos olhos dos guerreiros. Que qualquer um se sacrificasse tanto por alguém significava, em razão do preço pago, que aquela pessoa devia ser extraordinariamente preciosa.
Katrina enrubesceu e sorriu.
— Obrigada — disse ela. Junto com seu constrangimento diante de todas essas atenções, um toque de orgulho coloria sua expressão, como se soubesse como Roran era notável e se deliciasse por ser, de todas as mulheres da Alagaësia, a única a ter conquistado seu coração. Ele era seu, e essa era toda a condição ou todo o tesouro que ela desejava.
Uma fisgada de solidão transpassou Nasuada. Eu queria ter o que eles têm, pensou ela. Suas responsabilidades a impediam de nutrir sonhos pueris de romance e casamento – e decerto de filhos – a menos que organizasse um casamento de conveniência para o bem dos Varden. Muitas vezes tinha pensado em fazer isso com Orrin, mas sempre lhe faltava coragem. Ainda assim estava contente com seu quinhão e não invejava a felicidade de Roran e Katrina. Era com sua causa que se importava. Derrotar Galbatorix era muito mais importante que algo tão corriqueiro quanto casamento.
Praticamente todo o mundo se casava, mas quantos tinham a oportunidade de supervisionar o nascimento de uma nova era?
Não estou sendo eu mesma nesta noite, percebeu Nasuada. Meus cortes fizeram meus pensamentos zumbirem como um ninho de abelhas.
Sacudindo-se, ela olhou por cima de Roran e Katrina para Saphira. Nasuada abriu as barreiras que geralmente mantinha em torno da mente para poder ouvir o que Saphira tinha a dizer.
— Onde ele está? — perguntou então.
Com o farfalhar seco de escamas deslizando sobre escamas, Saphira avançou um pouco e abaixou o pescoço para sua cabeça ficar bem em frente de Nasuada, Arya e Angela. O olho esquerdo do dragão cintilava com uma chama azul. Ela fungou duas vezes, e sua língua da cor de carmim a disparou da sua boca. Um bafo quente e úmido fez esvoaçar a gola de renda no vestido de Nasuada.
Nasuada engoliu em seco quando a consciência de Saphira roçou na sua. Saphira parecia diferente de qualquer outro ser que a líder conhecesse: antiga, estranha e tão feroz quanto delicada. Tudo isso, associado à imponente presença física de Saphira, sempre lembrava a Nasuada que, se o dragão quisesse devorá-los, poderia fazê-lo.
Ela acreditava que era impossível alguém se sentir soberbo perto de um dragão.
Sinto cheiro de sangue, disse Saphira. Quem a feriu, Nasuada? Diga os nomes, e eu os rasgarei de cima a baixo e trarei as cabeças para você como troféus.
— Não há nenhuma necessidade de rasgar ninguém. Pelo menos, não por enquanto. Eu mesma brandi a faca. Mas esta não é a hora certa para nos determos nesse assunto. Agora mesmo, tudo o que me importa é o paradeiro de Eragon.
Eragon, disse Saphira, decidiu permanecer no Império.
Por alguns segundos, Nasuada não conseguiu se mexer nem pensar. Depois, uma sensação crescente de fatalidade substituiu sua recusa atordoada em acreditar na revelação de Saphira. Também os outros reagiram de diversos modos, e Nasuada deduziu que Saphira tinha falado com todos eles de uma vez.
— Como... como você pôde permitir que ele ficasse? — perguntou ela.
Pequenas línguas de fogo ondularam nas narinas de Saphira quando ela bufou. Eragon fez sua escolha. Não consegui impedi-lo. Ele insiste em fazer o que acha que é certo, sem se importar com as consequências para si mesmo ou para o resto da Alagaësia... Eu poderia sacudi-lo como um filhote, mas tenho orgulho dele. Não temam. Ele sabe se cuidar. Até o momento, nenhum infortúnio lhe aconteceu. Eu saberia se fosse ferido.
— E por que ele fez essa escolha, Saphira? — quis saber Arya.
Seria mais rápido eu mostrar para vocês do que explicar por palavras. Posso?
Todos manifestaram seu consentimento. Um rio de lembranças de Saphira se derramou em Nasuada. Ela viu o negrume de Helgrind, de cima de uma camada de nuvens. Ouviu Eragon, Roran e Saphira debatendo qual seria o melhor ataque. Viu-os descobrir o covil dos Ra’zac. E vivenciou a luta épica de Saphira com os Lethrblaka. A sucessão de imagens fascinou Nasuada. Tinha nascido no Império, mas não se lembrava de nada de lá. Essa era a primeira vez na vida adulta em que via qualquer coisa além das bordas agrestes dos territórios de Galbatorix. Por último, surgiu Eragon em seu confronto com Saphira. Ela tentou esconder, mas a angústia que sentiu por deixar Eragon ainda era tão forte e penetrante que Nasuada precisou enxugar o rosto com as ataduras dos antebraços. No entanto, os motivos que Eragon deu para ficar – matar o último Ra’zac e explorar o que restava de Helgrind – pareceram insuficientes para Nasuada.
Ela franziu o cenho. Eragon pode ser impulsivo, mas sem a menor dúvida não é tolo o suficiente para pôr em perigo tudo o que pretendemos realizar, apenas para visitar umas cavernas e extrair as últimas gotas amargas da sua vingança. Deve haver outra explicação. Perguntou-se se deveria pressionar Saphira para descobrir a verdade, mas sabia que o dragão não revelaria uma informação dessas por impulso. Talvez ela queira ter uma conversa particular sobre isso, pensou Nasuada.
— Raios! — exclamou o rei Orrin. — Eragon não poderia ter escolhido uma hora pior para seguir sozinho. Que diferença faz um único Ra’zac quando todo o exército de Galbatorix se encontra a poucos quilômetros de nós?... Precisamos trazê-lo de volta.
Angela riu. Estava tricotando uma meia com cinco agulhas de osso, que clicavam e roçavam umas nas outras com um ritmo regular, embora estranho.
— Como? Ele deve viajar durante o dia, e Saphira não ousaria voar para lá e para cá em busca dele com o sol alto, quando qualquer um poderia avistá-la e alertar Galbatorix.
— É, mas ele é nosso Cavaleiro! Não podemos ficar sentados sem fazer nada enquanto ele permanece no meio dos nossos inimigos.
— Concordo — disse Narheim. — Não importa como seja feito, precisamos nos certificar de que volte em segurança. Grimstnzborith Hrothgar acolheu Eragon em sua família e em seu clã. E esse é o meu próprio clã, como vocês sabem. Portanto, devemos a ele a lealdade da nossa justiça e do nosso sangue.
Arya se ajoelhou e, para surpresa de Nasuada, começou a desatar e reatar as partes superiores das botas.
— Saphira, exatamente em que lugar Eragon estava quando você tocou sua mente pela última vez? — perguntou ela, segurando um cadarço entre os dentes.
Na entrada de Helgrind.
— E você faz alguma ideia do caminho que ele pretendia seguir?
Ele mesmo ainda não sabia.
— Então vou precisar procurar por toda parte — disse Arya, pondo-se em pé, de um salto.
Como uma corça, ela pulou para a frente e atravessou a clareira correndo, desaparecendo entre as barracas do outro lado enquanto seguia para o norte veloz e leve como o próprio vento.
— Arya, não! — gritou Nasuada, mas a elfa já havia sumido.
Uma desesperança ameaçou envolver Nasuada, enquanto olhava espantada para onde Arya não estava mais. O centro está se esboroando, pensou.
Segurando as bordas das peças desencontradas de armadura que cobriam seu torso, como se quisesse arrancá-las, Garzhvog se dirigiu a Nasuada.
— Lady Caçadora Noturna, quer que eu vá atrás? Posso não correr tão rápido quanto os pequenos elfos, mas consigo cobrir a mesma distância.
— Não... não, fique aqui. De longe, Arya consegue se passar por humana, mas os soldados o caçariam até abatê-lo no instante em que um lavrador qualquer o visse.
— Estou acostumado a ser caçado.
— Mas não no meio do Império, com centenas de homens de Galbatorix percorrendo os campos. Não, Arya vai precisar se virar sozinha. Tomara que consiga encontrar Eragon e o mantenha em segurança, pois sem ele, estamos condenados ao fracasso.

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Boa leitura :)