24 de junho de 2017

Capítulo 78 - Partida


Passou uma semana: gargalhadas, música e longas conversas
entre as maravilhas de Ellesméra. Eragon levou Roran, Katrina e
Ismira à cabana de Oromis, nos Penedos de Tel’naeír, e Saphira
mostrou-lhes a escultura de pedra lambida que fizera para a
Celebração de Juramento de Sangue. Arya, por seu lado, passou o
dia inteiro a guiá-los pelos inúmeros jardins da cidade, para que
pudessem ver algumas das plantas mais espetaculares que os Elfos
tinham colecionado e criado ao longos dos tempos.
Eragon e Saphira teriam gostado de ficar em Ellesméra durante
mais algumas semanas, mas Blödhgarm contatou-os, informandoos
que tinha chegado ao Lago de Ardwen com os Eldunarís ao seu
cuidado e, embora nenhum o quisesse admitir, sabiam que era
altura de partir.
Ficaram, contudo, mais animados quando Arya e Fírnen
anunciaram que iriam voar com eles, pelo menos até aos limites de
Du Weldenvarden ou talvez até um pouco mais.
Katrina decidiu ficar com Ismira, mas Roran pediu para os
acompanhar na primeira parte da viagem, dizendo:
— Gostava de ver como é o outro lado de Alagaësia e viajar
convosco, é mais rápido do que ter de lá ir a cavalo.
No dia seguinte, ao amanhecer, Eragon despediu-se de Katrina
que chorou o tempo todo, e de Ismira que chuchava no polegar e o
olhava sem perceber nada.
Depois partiram. Saphira e Fírnen voavam lado a lado,
sobrevoando a floresta rumo a Este. Roran ia sentado atrás de
Eragon, agarrado à cintura dele. Cuaroc ia pendurado nas garras
de Saphira e o seu corpo brilhava mais do que qualquer espelho à
luz do sol.
Ao fim de dois dias e meio, avistaram o Lago Ardwen: uma
pálida extensão de água, maior que o Vale de Palancar. Na
margem oeste erguia-se a cidade de Sílthrim, que nem Eragon nem
Saphira tinham visitado antes. Um longo navio branco, com um
único mastro, flutuava, junto ao cais da cidade.
A embarcação tinha a aparência que Eragon imaginara,
reconhecendo-a dos seus sonhos e, ao olhar para ela foi inundado
por uma inexorável sensação de predestinação.
“Isto estava destinado a acontecer”, pensou ele.
Passaram a noite em Sílthrim, que era bastante semelhante a
Ellesméra, embora fosse mais pequena e concentrasse mais
edifícios. Enquanto descansavam, os Elfos carregaram os Eldunarís
no navio, juntamente com comida, ferramentas, panos e outras
provisões. A tripulação era composta por vinte Elfos que queriam
participar na criação dos dragões e no treino dos futuros
Cavaleiros, tal como Blödhgarm e os restantes feiticeiros, à
exceção de Laufin e Uthinar, que partiram nessa altura.
De manhã, Eragon modificou o feitiço que mantinha os ovos
escondidos em cima de Saphira e retirou dois, que entregou aos
Elfos que Arya destacara para os proteger. Um dos ovos seria
entregue aos Anões e o outro aos Urgals, e os dragões no seu
interior iriam certamente escolher um Cavaleiro da raça que lhes
fora designada. Se isso não acontecesse, trocariam de lugar e, se
ainda assim não encontrassem Cavaleiros... bom, Eragon ainda
não sabia exatamente o que fazer nesse caso, mas tinha a certeza
de que Arya arranjaria uma solução. Logo que os ovos chocassem,
ficariam sob as ordens de Arya e de Fírnen até crescerem o
suficiente para se reunirem a Eragon e a Saphira, e ao resto da sua
espécie, a Este.
Depois Eragon, Arya, Roran, Cuaroc, Blödhgarm e os outros
Elfos que viajavam com eles embarcaram no barco que atravessou
o lago, enquanto Saphira e Fírnen voavam em círculos lá no alto.
O barco chamava-se Talíta, o nome de uma estrela avermelhada
que aparecia no firmamento, a Este. A embarcação era estreita e
leve, e precisava apenas de alguns centímetros de água para flutuar.
Movia-se em silêncio e mal precisava que a guiassem, pois parecia
saber exatamente para onde o timoneiro queria ir.
Navegaram através da floresta durante dias, primeiro
atravessando o Lago Ardwen e, mais tarde, descendo o Rio
Gaena, cujo caudal engrossara devido ao degelo da primavera. Ao
passarem através do túnel verde de ramos, pássaros de muitas
espécies diferentes chilreavam e esvoaçavam em torno deles.
Esquilos — vermelhos e negros — repreendiam-nos do topo das
árvores ou observavam-nos empoleirados em ramos, suspensos,
praticamente ao seu alcance.
Eragon passou a maior parte do tempo com Arya ou Roran, e
só raramente voava com Saphira. Esta, por seu lado, passava o
tempo com Fírnen, e Eragon via-os muitas vezes sentados nas
margens com as patas sobrepostas e o focinho poisado lado a lado,
no chão.
Durante o dia, a luz na floresta era dourada e nevoenta e,
durante a noite, as estrelas brilhavam intensamente e o quarto
crescente disponibilizava-lhes luz suficiente para navegarem. O
calor, a névoa e o baloiçar constante de Talíta proporcionavam a
Eragon a sensação de estar meio adormecido, perdido na memória
de um sonho agradável.
Finalmente, a floresta terminou e começaram a aparecer os
campos. Nesse ponto, o Rio Gaena descrevia uma curva para Sul
que os levou até ao Lago Eldor, lado a lado da floresta. O Lago
Eldor era ainda maior que o Lago Ardwen.
Aí o tempo mudou e, de repente, levantou-se uma tempestade.
Grandes vagas fustigavam repetidamente o navio e, para
infelicidade de todos, foram açoitados por uma chuva fria e rajadas
furiosas de vento durante um dia inteiro. Contudo, o vento estava
de feição, permitindo-lhes avançar bastante mais depressa.
Depois do Lago Eldor entraram no Rio Edda e navegaram para
Sul, passando por Ceris, o posto avançado dos Elfos. A seguir,
afastaram-se definitivamente da floresta e o Talíta deslizou pelo rio,
ao longo das planícies.
Depois de emergirem das árvores, Eragon esperava que Arya e
Fírnen partissem, mas nenhum falou em tal assunto e Eragon
preferiu não os inquirir acerca dos seus planos.
A Sul passaram por terras mais desertas. Olhando em redor,
Roran disse:
— É bastante ermo, não é? — Eragon não pôde deixar de
concordar.
Por fim chegaram à povoação mais a este de Alagaësia: um
pequeno aglomerado isolado de edifícios de madeira que dava pelo
nome de Hedarth. Os Anões tinham erigido o local com o único
propósito de negociar com os Elfos, pois não havia nada de valor
na área, salvo as manadas de veados e touros selvagens visíveis à
distância. Os edifícios erguiam-se na junção onde o Âz Ragni
desaguava no Edda, elevando o seu caudal a mais do dobro.
Eragon e Saphira tinham passado em Hedarth uma vez, na
direção oposta, quando viajavam de Farthen Dûr para Ellesméra,
depois da batalha com os Urgals. Por isso Eragon sabia com o que
contar mal avistaram a aldeia.
Ficou, contudo, intrigado ao ver centenas de Anões à sua
espera, na ponta de um cais improvisado, que se estendia até ao
Edda. Mas a sua confusão deu lugar à alegria, quando o grupo
abriu alas e Orik avançou.
Erguendo o seu martelo de guerra, Volund, Orik gritou:
— Achavas que eu permitiria que o meu irmão adotivo partisse
sem me despedir dele convenientemente?
Eragon sorriu e levou as mãos à boca, gritando:
— Nunca!
Os Elfos atracaram o Talitá o tempo suficiente para que todos
desembarcassem, salvo Cuaroc, Blödhgarm e dois outros elfos que
ficaram a guardar os Eldunarís. As águas onde os rios se
encontravam eram demasiado agitadas para o barco manter a
posição, sem roçar contra o cais, por isso os elfos soltaram as
amarras e desceram um pouco mais, à procura de um local mais
calmo para ancorarem.
Eragon ficou perplexo ao ver que os Anões tinham trazido para
Hedarth quatro javalis gigantes das Montanhas Beor. Os Nagran
estavam espetados em árvores mais grossas que a perna de Eragon
e assavam sobre fossos de carvão em brasa.
— Fui eu que matei aquele — disse Orik, orgulhosamente,
apontando para o maior dos javalis.
Juntamente com o resto da comida para o banquete, Orik
trouxera três carroças do melhor hidromel dos Anões,
especialmente destinados a Saphira, e esta ronronou de satisfação
ao ver os barris.
Também tens de provar, disse ela a Fírnen, que resfolgou e
esticou pescoço, curioso, farejando os barris.
Quando a noite caiu e a comida ficou pronta, sentaram-se nas
mesas toscas que os Anões tinham construído naquele dia. Orik
bateu com o martelo no escudo, silenciando a multidão. Depois,
pegou num pedaço de carne, levou-o à boca, mastigou-o e engoliuo.
— Ilf gauhnith! — proclamou ele. Os Anões gritaram
aprovadoramente e deu-se início ao banquete.
No final do serão, quando já todos tinham comido o suficiente —
mesmo os dragões —, Orik bateu palmas e chamou um criado que
trouxe um cofre cheiro de ouro e jóias.
— Um pequeno testemunho da nossa amizade — disse Orik,
entregando-o a Eragon.
Eragon fez uma vénia e agradeceu-lhe.
Depois, Orik aproximou-se de Saphira e piscou-lhe o olho,
presenteando-a com um anel de ouro e prata que poderia usar em
qualquer das garras das patas dianteiras.
— É um anel especial pois não se risca nem se mancha e, desde
que o uses, a tua presa não dará pela tua aproximação.
O presente agradou imenso a Saphira que pediu a Orik que lhe
colocasse o anel na garra do meio, da pata direita, e Eragon
apanhou-a várias vezes a admirar o metal cintilante, durante a noite.
Por insistência de Orik, passaram a noite em Hedarth. Eragon
esperava partir bem cedo, na manhã seguinte, mas quando o céu
começou a clarear, Orik convidou-o para tomar o pequenoalmoço,
juntamente com Arya e Roran. A seguir ficaram a
conversar, depois foram ver as balsas que os Anões tinham usado
para transportar os Nagran das Montanhas Beor até Hedarth e,
quando se aperceberam era quase hora de jantar. E Orik conseguiu
convencê-los a ficar para uma última refeição.
Durante o jantar, tal como no banquete do dia anterior, os
Anões brindaram-nos com canções e música, e a exibição de um
bardo anão, particularmente dotado, atrasou mais a partida do
grupo.
— Fica mais uma noite — insistiu Orik. — Está escuro e já não são
horas de viajar.
Eragon olhou para a lua cheia e sorriu.
— Esqueces-te que não está tão escuro para mim como para ti.
Não, temos de ir. Se nos demorarmos mais, receio que nunca
cheguemos a partir.
— Então vai com a minha bênção, irmão do meu coração. —
Abraçaram-se e Orik trouxe-lhes cavalos — os cavalos que os
Anões mantinham nos estábulos de Hedarth, para os Elfos que
vinham negociar.
Eragon ergueu o braço para se despedir de Orik. Depois,
esporeou o cavalo e partiu a galope de Hedarth, com Roran, Arya
e o resto dos Elfos. E percorreu o trilho de caça, ao longo da
margem sul do Edda, onde o ar estava impregnado do aroma
adocicado dos salgueiros e álamos. Os dragões seguiam-nos pelo
ar, entrelaçando os corpos e rodopiando em torno um do outro,
numa dança brincalhona.
Depois de sair de Hedarth, Eragon puxou as rédeas do cavalo,
tal como os outros, e cavalgaram a um ritmo mais lento e
confortável, conversando calmamente. Eragon não falou sobre nada
de importante com Arya ou Roran, e eles também não, pois não
eram as palavras que importavam, mas o sentimento de
proximidade que partilhavam ao viajarem pela noite. O estado de
espírito parecia-lhes algo de precioso e frágil e, sempre que
falavam, eram mais gentis do que habitualmente, pois sabiam que o
tempo que iriam passar juntos estava a esgotar-se, pelo que
nenhum queria estragá-lo com uma frase impensada.
Depressa chegaram ao topo de uma pequena colina, de onde
avistaram o Talíta, que os esperava do outro lado.
O navio era como Eragon o imaginava. Como tinha de ser.
Sob a luz pálida do luar, a embarcação parecia um cisne, pronto
a levantar voo do rio largo, de águas calmas, para o levar rumo a
uma vastidão desconhecida. Os Elfos baixaram as velas e as
cortinas de tecido emanavam um brilho ténue. Via-se apenas uma
figura ao leme. Tirando isso, o convés estava deserto.
Para lá de Talíta, a planície uniforme e escura estendia-se até um
horizonte distante: uma vastidão intimidante, apenas interrompida
pelo próprio rio, que se estendia pela terra dentro como uma tira de
metal martelado.
Eragon sentiu um aperto na garganta e cobriu a cabeça com o
capuz do manto, como se quisesse esconder-se.
Desceram lentamente a colina, a cavalo, por entre a erva
sussurrante em direção à praia de seixos, junto do navio. Os cascos
dos cavalos produziam um ruído agudo nas pedras.
Ao chegar à praia, Eragon desmontou, tal como os outros. Sem
que ninguém lhes pedisse, os Elfos formaram duas linhas até ao
barco, virando-se de frente uns para os outros, com a base da
lança apoiada no chão, junto dos pés, e ali ficaram imóveis como
estátuas.
Eragon olhou-os e o aperto na garganta aumentou, a ponto de
não conseguir respirar convenientemente.
Chegou o momento, disse Saphira, e ele sabia que ela tinha
razão.
Eragon desamarrou o cofre de ouro e jóias da parte de trás da
sela do seu cavalo e levou-o a Roran.
— É aqui que nos separamos? — perguntou Roran.
Eragon acenou com a cabeça.
— Toma — disse ele, entregando-lhe o cofre. — Quero que fiques
com isto. Poderás dar-lhe melhor uso do que eu. Usa-o para
construíres o teu castelo.
— Está bem — disse Roran, com a voz embargada, colocando o
cofre debaixo do braço esquerdo e abraçando Eragon com o
direito. Ficaram abraçados durante algum tempo. Depois Roran
disse: — Tem cuidado, Irmão.
— você também... Irmão. Cuida de Katrina e Ismira.
— Cuidarei.
Sem saber o que dizer mais, Eragon tocou mais uma vez no
ombro de Roran e virou-se para se reunir a Arya, que o esperava
junto das duas linhas de Elfos.
Olharam um para o outro durante alguns segundos, e Arya disse:
— Eragon. — Ele também tinha colocado o capuz e mal conseguia
ver-lhe o rosto, à luz do luar.
— Arya. — Baixou os olhos para o rio prateado, olhando depois
de novo para ela, e apertou o punho de Brisingr. A emoção era
tanta que até tremia. Não queria partir, mas sabia que tinha de o
fazer. — Fica comigo...
Arya levantou os olhos de repente.
— Não posso.
— ... fica comigo até à primeira curva do rio.
Ela hesitou e depois acenou com a cabeça. Eragon esticou a
mão, Arya deu-lhe o braço e caminharam juntos até ao barco,
parando junto da proa.
Os Elfos seguiram-nos e, logo que todos embarcaram, puxaram
a prancha de embarque para cima. O navio afastou-se da margem
pedregosa, sem vento nem remos, e começou a descer o longo rio
de águas calmas.
Roran ficou sozinho na praia, a vê-los afastarem-se. Depois
atirou a cabeça para trás e soltou um longo grito lamentoso e a
noite ecoou com o som da sua perda.
Eragon ficou ao lado de Arya durante alguns minutos e nenhum
falou ao verem a primeira curva do rio a aproximar-se. Finalmente
Eragon virou-se para ela e tirou-lhe o capuz para poder ver os seus
olhos.
— Arya — disse ele e sussurrou-lhe o seu verdadeiro nome. Um
tremor de reconhecimento percorreu o corpo dela.
Ela sussurrou-lhe o seu verdadeiro nome e também ele
estremeceu ao ouvir a essência do seu ser.
Abriu a boca para voltar a falar, mas Arya antecipou-se,
colocando três dedos sobre os seus lábios. Depois recuou e ergueu
o braço sobre a cabeça.
— Adeus, Eragon, Matador de Espectros — disse ela.
Depois, Fírnen desceu dos céus e arrebatou-a do convés do
barco, fustigando Eragon com as rajadas de vento levantadas pelas
suas asas.
— Adeus — sussurrou Eragon ao vê-la afastar-se com Fírnen, de
regresso ao local onde Roran permanecia, na margem distante.
Eragon permitiu finalmente que as lágrimas deslizassem,
chorando agarrado ao corrimão do barco, enquanto deixava para
trás tudo o que conhecera. Lá em cima, Saphira deixou escapar um
uivo de lamento e a sua dor misturou-se com a dele, chorando o
que jamais poderia vir a ser.
A seu tempo, porém, o coração de Eragon serenou, as suas
lágrimas secaram e ele foi invadido por uma paz, ao olhar para a
planície deserta. Interrogou-se sobre o que poderiam encontrar de
estranho e refletiu na vida que ele e Saphira iriam ter — a sua vida
com os dragões e os Cavaleiros.
Não estamos sozinhos, pequenino, disse Saphira.
Um sorriso iluminou-lhe o rosto.
E o barco continuou a deslizar serenamente ao longo do rio
iluminado pelo luar, rumo a terras sombrias.


3 comentários:

  1. LuaMara dragão Opala29 de junho de 2017 20:20

    nenhum comentário que triiiiiste :(

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  2. LuaMara dragão Opala29 de junho de 2017 20:21

    OK eu comento: eu já li essa série, mas eu nunca deixo de me sentir triste com esse final. Mas, calma gente vai ter continuação sim tá?

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  3. Acabou... E deixou um gostinho de quero mais...

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Boa leitura :)