24 de junho de 2017

Capítulo 77 - Promessas, novas e antigas


De Ilirea, Saphira voou até à propriedade não muito distante,
onde Blödhgarm e os Elfos, sob as suas ordens, embalavam os
Eldunarís para transporte. Os Elfos partiriam a cavalo para
Norte, levariam os Eldunarís até Du Weldenvarden, atravessando
depois a vasta floresta até à cidade élfica de Sílthrim, nas margens
do Lago Ardwen. Aí os Elfos e os Eldunarís esperariam que
Eragon e Saphira regressassem de Vroengard e juntos iniciariam a
viagem para fora de Alagaësia, seguindo pela floresta, ao longo do
Rio Gaena, até às planícies, a Este. Todos eles, ou melhor, todos
exceto Laufin e Uthinarë, que tinham decidido ficar em Du
Weldenvarden.
Eragon ficou surpreendido pelo fato dos Elfos terem decidido
acompanhá-los, mas sentira-se grato por isso. Blödhgarm dissera:
— Não podemos abandonar os Eldunarís. Eles precisam da
nossa ajuda, tal como as crias vão precisar assim que nascerem.
Eragon e Saphira passaram uma hora a discutir a melhor forma
de transportar os ovos em segurança, com Blödhgarm. Depois
Eragon reuniu os Eldunarís de Glaedr, Umaroth e de alguns dragões
mais velhos, pois ele e Saphira iriam precisar da sua energia em
Vroengard.
Depois de se separarem dos Elfos, Saphira e Eragon seguiram
para Noroeste, a um ritmo constante e bastante mais pausado do
que na sua primeira viagem a Vroengard.
Enquanto Saphira voava, uma sensação de tristeza apossou-se
de Eragon e, durante algum tempo, ele sentiu-se dominado pelo
desânimo e pela autocomiseração. Saphira também estava triste
pelo fato de se ter separado de Fírnen, mas o dia estava luminoso,
os ventos calmos e o seu estado de espírito depressa melhorou.
Ainda assim, tudo parecia colorido de uma vaga sensação de
perda. Eragon contemplava tudo o que via em terra com um
renovado apreço, por saber que era provável não voltar a ver nada
daquilo.
Saphira voou léguas infindáveis ao longo de campos verdejantes,
assustando com a sua sombra os pássaros e os animais em terra.
Quando a noite caiu, decidiram não prosseguir e pararam,
acampando junto de um regato ao fundo de uma estreita ravina.
Ficaram sentados a ver as estrelas que giravam no firmamento,
falando de como as coisas eram e de como poderiam vir a ser.
No final do dia seguinte chegaram à aldeia de Urgals, situada
junto do lago Fläm, onde Eragon sabia que iriam encontrar Nar
Garzhvog e as Herndall, o conselho de matriarcas que governava o
seu povo.
Apesar dos protestos de Eragon, os Urgals insistiram em
organizar-lhes um enorme banquete, por isso ele passou a noite a
beber com Garzhvog e os seus carneiros. Os Urgals produziam um
vinho de bagas e casca de árvore. Eragon achou-o mais forte que o
hidromel mais potente dos Anões. Saphira apreciou mais do que
ele — a Eragon soube-lhe a cerejas podres — mas, de qualquer
forma, bebeu-o para agradar aos seus anfitriões.
Muitas das fêmeas dos Urgals vieram ter com ele e com Saphira,
curiosas para os conhecerem, na medida em que poucas tinham
participado na luta contra o Império. Eram ligeiramente mais
delgadas que os homens mas igualmente altas, e os seus chifres
eram, em regra, mais curtos e mais delicados, embora não
deixassem de ser gigantescos. As crianças Urgal estavam com elas;
as mais jovens ainda sem chifres e as mais velhas com
protuberâncias escamosas na testa, de dois e doze centímetros de
comprimento. Sem os chifres, eram surpreendentemente parecidas
com os humanos, apesar da cor diferente da pele e dos olhos. Era
óbvio que algumas das crianças eram Kull, pois mesmo as mais
jovens eram muito maiores que os compatriotas e, por vezes, até
maiores que os pais. Tanto quanto lhe era dado a entender, não
havia qualquer padrão que determinasse os progenitores que
geravam os Kull. Os próprios Kull tanto geravam Urgals de
estatura normal como gigantes semelhantes a eles.
Eragon e Saphira passaram o serão inteiro na pândega com
Garzhvog e Eragon mergulhou nas suas divagações enquanto
escutava um bardo Urgal a recitar a história da vitória de Nar
Tulkhqa em Stavarosk — ou pelo menos, assim dizia Garzhvog, pois
a única coisa que Eragon entendia acerca da língua dos Urgals era
que a língua dos Anões parecia vinho adoçado com mel,
comparativamente.
De manhã, Eragon deu consigo com uma dúzia de nódoas
negras em consequência das palmadas e socos amigáveis que
recebera do Kull durante os festejos.
E, com a cabeça e o corpo a latejar, Eragon foi com Saphira e
Garzhvog falar com as Herndall. As doze matriarcas conduziam as
suas audiências numa cabana cheia de fumaça, devido aos ramos de
zimbro e de cedro que queimavam. A cabeça de Saphira mal cabia
na entrada de vime e as suas escamas projetavam estilhaços de luz
azul no interior sombrio da cabana.
As matriarcas tinham uma idade muito avançada, pelo que
algumas já estavam cegas e desdentadas. Usavam túnicas com
desenhos de nós, semelhantes às correias entrançadas, penduradas
no exterior de cada casa, com as armas do clã que as habitava.
Cada uma das Herndall tinha um bastão entalhado com desenhos
que não faziam qualquer sentido para Eragon, mas que ele sabia
terem um significado.
Usando Garzhvog como intérprete, Eragon relatou-lhes a
primeira parte do seu plano para prevenir futuros conflitos entre os
Urgals e as outras raças: que os Urgals organizassem
periodicamente torneios de força, velocidade e agilidade. Nesses
torneios, os jovens Urgals poderiam conquistar a glória de que
precisavam para acasalar e ganhar um lugar no seio da sua
sociedade. Eragon propôs que os torneios fossem abertos a todas
as raças, o que também daria aos Urgals a possibilidade de se
porem à prova perante aqueles que durante tanto tempo tinham
sido seus inimigos.
— O rei Orik e a rainha Nasuada já deram o seu consentimento
em relação a isto — disse Eragon — e Arya, a atual rainha dos Elfos,
também está a ponderar no assunto. Mas estou convencido de que
também ela dará a sua bênção aos torneios.
As Herndall conferenciaram entre si durante alguns minutos e,
depois, a mais velha, uma matriarca de cabelos brancos cujos
chifres estavam quase reduzidos a nada, disse:
— A tua ideia é boa, Espada de Fogo. Temos de falar com os
nossos clãs para decidir qual a melhor ocasião para organizar estes
torneios, mas iremos fazê-los.
Satisfeito, Eragon fez-lhes uma vénia e agradeceu-lhes.
Uma outra matriarca falou então:
— A ideia agrada-nos, Espada de Fogo, mas não nos parece que
isso vá acabar com as guerras entre os nossos povos. O nosso
sangue é quente de mais para o arrefecermos apenas com torneios.
E o dos dragões não é?, perguntou Saphira.
Uma das matriarcas tocou nos chifres:
— Não questionamos a ferocidade da tua espécie, Língua de
Fogo.
— Eu sei que têm sangue quente — mais quente do que a maioria
— disse Eragon. — Por isso tenho uma outra ideia.
As Herndall ouviram em silêncio enquanto ele se explicava,
embora Garzhvog se mexesse, como se estivesse apreensivo, e
tivesse deixado escapar um urro baixo. Quando Eragon terminou,
as Herndall não falaram nem se mexeram durante alguns minutos,
pelo que ele começou a sentir-se desconfortável com o olhar fixo
das que ainda viam.
Depois, o Urgal mais à direita sacudiu o bastão e um par de
anéis de pedra presos a ele chocalharam ruidosamente na cabana
impregnada de fumaça. Falava devagar com uma voz pastosa e
entaramelada, como se tivesse a língua inchada.
— Farias isso por nós, Espada de Fogo?
— Faria — disse Eragon, e voltou a fazer uma vénia.
— Se o fizerem, Espada de Fogo e Língua de Fogo, serão os
melhores amigos que os Urgralgra já tiveram e nós recordaremos o
vosso nome até ao fim dos tempos. Urdi-lo-emos em todas as
nossas thulqna, gravá-lo-emos nas nossas colunas e ensiná-lo-emos
aos nossos jovens, logo que os seus chifres despontem.
— Então aceitam-na? — perguntou Eragon.
— Sim.
Garzhvog fez uma pausa e disse — falando em seu nome, deduziu
Eragon:
— Espada de Fogo, você não sabes a importância que isto tem para
o meu povo. Ficaremos sempre em dívida para contigo.
— Não me devem nada — disse Eragon. — Quero apenas impedir
que entremos em guerra.
Falou com as Herndall durante mais algum tempo para discutir
os detalhes do acordo. Depois ele e Saphira despediram-se e
retomaram a sua viagem para Vroengard.
Quando as cabanas toscas da aldeia desapareceram à distância,
Saphira disse:
Eles serão bons Cavaleiros.
Espero que tenhas razão.
O resto do seu voo até à Ilha de Vroengard decorreu sem
incidentes. Não encontraram tempestades sobre o mar e as únicas
nuvens que se atravessaram no seu caminho eram finas e ralas, não
representando qualquer perigo para eles ou para as gaivotas com
as quais partilhavam o céu.
Saphira aterrou em Vroengard, diante da mesma casa de
nidificação meio destruída, onde tinham ficado durante a sua última
visita. E foi aí que esperou enquanto Eragon se embrenhava na
floresta, por entre as árvores escuras, incrustadas de líquenes, até
encontrar alguns dos pássaros espetro com que se deparara antes
e, depois destes, com um retalho de musgo infestado das larvas
saltadoras, a que Galbatorix chamava larvas carnívoras, segundo
lhe contara Nasuada. Usando o nome dos nomes, Eragon deu a
ambas as espécies um epíteto mais adequado na língua antiga. Aos
pássaros espetro chamou sundavrblaka e às larvas carnívoras
íllgrathr. O segundo nome divertiu-o de uma forma algo sinistra,
pois significava “má fome”.
Satisfeito, Eragon voltou para junto de Saphira e os dois
passaram a noite a descansar e a conversar com Glaedr e com os
outros Eldunarís.
Ao nascer do sol foram ao Rochedo de Kuthian. Proferiram os
seus verdadeiros nomes. As portas gravadas no pináculo coberto
de musgo abriram-se e Eragon, Saphira e os Eldunarís desceram
até ao cofre, lá em baixo. No interior da caverna profunda,
iluminada pela lava que jazia nas entranhas do Monte Erolas,
Cuaroc, o guardião dos ovos, ajudou-os a colocar cada ovo num
cofre separado. Por fim, empilharam os cofres perto do centro da
câmara, juntamente com os cinco Eldunarís que tinham ficado na
caverna, para ajudar a proteger os ovos.
Com a ajuda de Umaroth, Eragon lançou o mesmo feitiço que
lançara uma vez, colocando os ovos e os corações numa bolsa de
espaço, suspensa atrás de Saphira, onde nem ele nem ela lhe
poderiam tocar.
Cuaroc acompanhou-os até ao exterior do cofre. Os pés
metálicos do homem com cabeça de dragão batiam ruidosamente
no chão do túnel, ao subir à superfície, ao lado deles.
Logo que alcançaram o exterior, Saphira agarrou Cuaroc entre
as garras — ele era grande e pesado demais para se sentar
confortavelmente no seu dorso — e levantou voo, erguendo-se
sobre o vale circular, no coração de Vroengard.
Saphira voou sobre o mar escuro e brilhante e, depois, sobre a
Espinha, sobrevoando os picos semelhantes a lâminas de gelo e a
neve, e as fendas entre eles como rios de sombras. Depois fez um
desvio para Norte e atravessou o Vale de Palancar — para que
Eragon e ela pudessem olhar uma última vez para o seu lar de
infância, mesmo que apenas a grande altitude —, sobrevoando
depois a Baía de Fundor, recortada de linhas de ondas com cristas
de espuma, como montanhas rolantes. Seguiu-se Ceunon, com os
seus telhados íngremes, em camadas, e esculturas de cabeças de
dragões — o ponto de referência mais digno de nota — e, pouco
depois, os limites fronteiriços de Du Weldenvarden surgiram, com
os seus pinheiros altos e robustos.
Passaram noites acampados junto de riachos e lagos, com a luz
da fogueira a refletir-se no corpo de metal polido de Cuaroc, e as
rãs e os insetos a entoarem coros em torno deles. À distância,
ouviam-se, por vezes, os uivos de lobos a caçar.
Uma vez em Du Weldenvarden, Saphira voou durante uma hora
em direção ao centro da grande floresta, onde as proteções dos
Elfos a impediram de avançar mais. Depois aterrou e atravessou a
barreira mágica invisível, a pé, com Cuaroc a seu lado, e voltou a
levantar voo.
Léguas e léguas de árvores desfilavam por baixo deles, com
poucas variações a não ser aglomerados de árvores de folhas
caducas — carvalhos, ulmeiros, bétulas e langorosos salgueiros —
que ladeavam, frequentemente, os cursos de água. Passaram por
uma montanha de cujo nome Eragon se havia esquecido, depois
pela cidade élfica de Osilon, percorrendo a seguir hectares
cerrados de pinheiros, cada um com caraterísticas únicas e, no
entanto, praticamente idênticos entre eles.
Já ao fim do dia, com a lua e sol suspensos em horizontes
opostos, Saphira chegou a Ellesméra e planou em direção ao solo,
aterrando entre os edifícios vivos, da maior e mais imponente
cidade dos Elfos.
Arya e Fírnen estavam à espera deles, juntamente com Roran e
Katrina. Quando Saphira se aproximou, Fírnen empinou-se e abriu
as asas, com um rugido rejubilante, que afugentou os pássaros das
árvores, num raio de uma légua. Saphira respondeu-lhe de forma
semelhante, apoiando-se nas patas traseiras e poisando Cuaroc
delicadamente no chão.
Eragon soltou as correias das pernas e deslizou do dorso de
Saphira.
Roran correu ao seu encontro, apertou-lhe o antebraço e bateulhe
nas costas, enquanto Katrina o abraçava do outro lado. Eragon
deu uma gargalhada e disse:
— Parem, deixem-me respirar! Que tal Ellesméra?
— É linda! — disse Katrina, sorrindo.
— Julguei que estivesses a exagerar — disse Roran —, mas é tão
impressionante como havias contado. O palácio onde estamos...
— O Palácio de Tialdarí — acrescentou Katrina.
Roran acenou com a cabeça.
— Isso. O palácio onde estamos deu-me algumas ideias sobre a
reconstrução de Carvahall. Depois temos também Tronjheim e
Farthen Dûr... — Abanou a cabeça e assobiou baixinho.
Eragon voltou a rir-se e começou a percorrer o trilho da floresta,
em direção ao extremo oeste de Ellesméra, deixando-se guiar por
eles. Arya reuniu-se a eles com um porte tão régio como o de sua
mãe.
— Bons olhos te vejam ao luar, Eragon. Bem-vindo de volta.
Ele olhou-a.
— Em boa hora, de fato, Aniquiladora de Espetros.
Ela sorriu ao ouvi-lo usar o epíteto, e o crepúsculo sob as
árvores ondulantes pareceu iluminar-se.
Assim que Eragon lhe removeu a sela, Saphira e Fírnen
levantaram voo — embora Eragon soubesse que Saphira estava
exausta da viagem —, e afastaram-se juntos, em direção aos
Penedos de Tel’naeír. Ao partirem, Eragon ouviu Fírnen dizer:
Apanhei três veados para ti, esta manhã. Estão à tua espera, na
erva, junto da cabana de Oromis.
Cuaroc correu atrás de Saphira, pois os ovos ainda estavam
com ela e era seu dever protegê-los.
Roran e Katrina conduziram Eragon por entre os grandes
troncos da cidade, até uma clareira, ladeada de cornizos e rosasmalva,
onde havia várias mesas postas com um vasto sortido de
comida. Muitos Elfos vestidos com as suas melhores túnicas,
saudaram Eragon com gritos suaves, gargalhadas doces, trechos de
canções e música.
Arya ocupou o seu lugar à cabeceira da mesa do banquete.
Blagden, o corvo branco, aninhado num poleiro esculpido, ali
perto, de vez em quando grasnava e declamava estrofes de poesia.
Eragon sentou-se ao lado de Arya e juntos comeram, beberam e
divertiram-se até altas horas da noite.
Quando o banquete estava quase a chegar ao fim, Eragon
escapou-se por alguns minutos e correu pela floresta escura até à
árvore de Menoa, orientando-se mais pelo olfato e pela audição do
que propriamente pela visão.
Ao sair debaixo dos galhos inclinados dos pinheiros, as estrelas
surgiram no firmamento e ele fez uma pausa para abrandar a
respiração e recompor-se, antes de percorrer o leito de raízes que
rodeavam a árvore de Menoa.
Parou junto da base do gigantesco tronco, colocou um mão
sobre a casca rachada da árvore e tentou alcançar a sua
consciência lenta, que em tempos fora uma mulher elfo, dizendo:
Linnëa... Linnëa... Acorda! Preciso de falar contigo! Esperou,
mas não detetou qualquer resposta por parte da árvore. Era como
se tentasse comunicar com o mar ou com o ar na terra. Linnëa,
tenho de falar contigo!
Um murmúrio de vento percorreu a sua mente e ele sentiu um
pensamento ténue e distante:
O que é, Cavaleiro?...
Linnëa, a última vez que estive aqui, disse que te daria o que
quisesses em troca do aço brilhante que tinhas debaixo das tuas
raízes. Estou prestes a abandonar Alagaësia e, por isso, vim
cumprir a minha promessa, antes de partir. O que queres que eu te
dê, Linnëa?
A árvore de Menoa não respondeu, mas agitou ligeiramente os
ramos. Eragon ouviu o tamborilar das agulhas a caírem sobre as
raízes, por toda a clareira, e a consciência da árvore pareceu
emanar uma boa disposição.
Vai... sussurrou a voz e a árvore retirou-se da mente de Eragon.
Eragon ficou onde estava durante mais alguns minutos e chamou
pelo o seu nome, mas a árvore recusou-se a responder-lhe. Por fim
ele afastou-se, sentindo que o assunto continuava por resolver,
embora fosse óbvio que a árvore de Menoa não pensava da
mesma forma.
Eragon passou os três dias seguintes a ler livros e pergaminhos —
muitos dos quais provinham da biblioteca de Galbatorix e que Vanir
tinha enviado para Ellesméra a pedido de Eragon. À noite, ceava
com Roran, Katrina e Arya, mas de resto mantinha-se isolado, sem
ver Saphira, pois ela continuava nos Penedos de Tel’naeír com
Fírnen e não demonstrava grande interesse por mais nada. À noite,
os rugidos e os gritos dos dragões ecoavam pela floresta,
distraindo-o dos seus estudos e fazendo-o sorrir, ao tocar nos
pensamentos de Saphira. Sentia a falta da sua companhia, mas
sabia que lhe restava pouco tempo para estar com Fírnen e não
invejava a sua felicidade.
No quarto dia, depois de recolher toda a informação possível
das suas leituras, foi ter com Arya e expôs o seu plano, tanto a ela
como aos seus conselheiros. Passou grande parte do dia a tentar
convencê-los de que o que tinha em mente era necessário e que,
além isso, iria resultar.
Logo que os convenceu, foram comer. Quando o crepúsculo
começou a invadir a terra, Eragon, Saphira, Fírnen, Arya, trinta dos
feiticeiros elfos mais velhos e mais engenhosos, Glaedr e os outros
Eldunarís que Eragon e Saphira tinham trazido, e duas Guardiãs,
duas mulheres elfo chamadas Iduna e Nëya, que eram a
encarnação viva do pacto entre os dragões e os Cavaleiros,
reuniram-se na clareira em torno da árvore de Menoa.
As Feitoras despiram as túnicas e — de acordo com os antigos
rituais — Eragon e os outros começaram a cantar. Enquanto
cantavam, Iduna e Nëya dançavam, movendo-se juntas, e o dragão
que tinham tatuado pareceu converter-se numa só criatura,
unificada.
No auge do cântico, o dragão cintilou, abriu as mandíbulas,
esticou as asas e saltou para diante, afastando-se dos Elfos e
erguendo-se sobre a clareira até apenas a sua cauda continuar a
tocar nas Guardiãs, de corpos entrelaçados.
Eragon chamou a criatura cintilante e, quando captou a sua
atenção, explicou-lhe o que queria, perguntando se os dragões
concordavam.
Faz o que entenderes, Assassino de Reis, disse a criatura
espetral. Se contribuir para assegurar a paz em Alagaësia, não nos
opomos.
Depois Eragon leu de um dos livros dos Cavaleiros, proferindo
mentalmente o nome da língua antiga. Os Elfos e os dragões
presentes emprestaram-lhe a força dos seus corpos e a sua energia
percorreu-o como o redemoinho de uma enorme tempestade. Com
ela, Eragon atirou o feitiço que passara dias a aperfeiçoar e que não
era lançado há centenas de anos: um encantamento comparável à
magia ancestral, que fluía nas profundezas da terra e nos ossos das
montanhas. Com ela, Eragon ousou fazer o que tinha sido feito
apenas uma vez.
E assim forjou um novo pacto entre os dragões e os cavaleiros.
Não se limitou a vincular os Elfos e os humanos aos dragões,
mas também os Anões e os Urgals, de forma que qualquer um
pudesse vir a ser Cavaleiro.
Ao proferir as últimas palavras do poderoso encantamento, para
o selar, um tremor percorreu o ar e a terra. Era como se tudo em
seu redor — ou mesmo no mundo inteiro — tivesse mudado
ligeiramente. Tanto ele como Saphira e os outros dragões ficaram
exaustos com o feitiço, mas ao concluí-lo, Eragon foi inundado por
uma sensação de júbilo, percebendo que tinha concretizado um
bem maior, talvez o maior de toda a sua vida.
Arya insistiu em organizar um outro banquete para assinalar a
ocasião e, embora estivesse exausto, Eragon participou de bom
grado, feliz por estar na companhia dela, de Roran, Katrina e
Ismira.
Contudo, a meio do banquete, sentiu-se subitamente cansado de
comida e música, e pediu licença para se retirar de onde estava
sentado com Arya.
Você está bem?, perguntou Saphira, olhando do local onde se
encontrava, junto de Fírnen.
Ele sorriu-lhe da clareira.
Preciso apenas de algum sossego. Volto já. Depois afastou-se e
caminhou por entre os pinheiros, enchendo os pulmões com o ar
fresco da noite.
A trinta metros do local onde estavam as mesas, Eragon viu um
elfo magro, de ombros altos, sentado contra uma enorme raiz, de
costas viradas para a celebração que decorria ali perto. Eragon
modificou o seu percurso para evitar perturbá-lo, mas, ao fazê-lo,
teve um vislumbre do rosto do elfo.
Não era um elfo, mas sim Sloan, o talhante.
Eragon deteve-se, pois não estava à espera. Com tudo o que se
passara, esquecera-se que Sloan — o pai de Katrina — estava em
Ellesméra. Hesitou por instantes, ponderando e depois aproximouse
silenciosamente.
Tal como da última vez que o vira, Sloan usava uma fina tira de
pano preto, amarrada à volta da cabeça, para cobrir as órbitas
vazias onde anteriormente eram os seus olhos. As lágrimas
escorriam por baixo do pano e tinha a testa franzida e os punhos
cerrados.
O talhante ouviu Eragon a aproximar-se; voltando a cabeça na
direção dele, disse:
— Quem anda aí? És tu, Adarë? Já te disse que não preciso de
ajuda! — Falava num tom amargo e zangado, mas havia também
uma nota de mágoa nas suas palavras, algo que Eragon nunca
sentira nele.
— Sou eu, Eragon — disse.
Sloan fungou, como se lhe tivessem tocado com um ferro em
brasa:
— Tu! Vieste regozijar-te com o meu sofrimento?
— Não, claro que não — respondeu Eragon, horrorizado com a
ideia. E agachou-se a alguns metros dele.
— Perdoa-me por não acreditar em ti. Normalmente não é fácil
perceber se você está a ajudar ou a fazer mal às pessoas.
— Isso depende do ponto de vista.
Sloan revirou o lábio superior.
— Aí está uma resposta de elfo, mais evasiva que nunca.
Atrás deles, os Elfos iniciaram uma outra canção acompanhada
de lira e de flauta. Uma explosão de gargalhadas ecoou da festa,
em direção a Eragon e a Sloan.
O talhante olhou por cima do ombro, apontando com o queixo
nessa direção:
— Consigo ouvi-la. — E as lágrimas voltaram a escorrer-lhe pelo
rosto. — Consigo ouvi-la, mas não posso vê-la e o teu maldito
feitiço não permitirá que eu fale com ela.
Eragon ficou em silêncio, sem saber o que dizer.
Sloan encostou a cabeça à raiz e a saliência que tinha na
garganta moveu-se.
— Os elfos disseram-me que a criança, Ismira, é forte e saudável.
— É. É o bebé mais forte e mais barulhento que conheço. Será
uma bela mulher.
— Isso é bom.
— Como tens passado os teus dias? Continuas a esculpir?
— Os Elfos não te mantêm informado acerca das minhas
atividades?
Enquanto Eragon decidia o que responder — não queria que ele
soubesse que o visitara uma vez antes —, o talhante disse:
— Bem me parecia. Como achas que passo os meus dias? Desde
que saí de Helgrind que vivo na escuridão, sem nada com que
ocupar as mãos, enquanto os Elfos me atormentam sobre isto e
aquilo, sem me darem um momento de paz!
Ouviram-se de novo gargalhadas. Entre elas, Eragon conseguia
distinguir o som da voz de Katrina.
Um esgar feroz desfigurou o rosto de Sloan.
— E tinhas de a trazer a Ellesméra. Exilar-me não era o suficiente
para ti, pois não? Não. Tinhas de me torturar com a evidência de
que a minha única filha e a minha neta estão aqui e que eu jamais
conseguirei vê-las, muito menos falar com elas. — Sloan arreganhou
os dentes, prestes a atacar Eragon. — Um estupor sem coração, é o
que você és.
— Tenho demasiados corações — disse Eragon, embora soubesse
que o talhante não o iria entender.
— Bah!
Eragon hesitou. Parecia-lhe menos cruel permitir que Sloan
acreditasse que a sua intenção era magoá-lo do que dizer-lhe que a
sua dor era apenas o resultado do seu desvelo.
O talhante desviou a cabeça e o seu rosto voltou a inundar-se de
lágrimas.
— Vai-te embora! — disse ele. — Deixa-me em paz e nunca mais
voltes a incomodar-me, Eragon, de contrário juro-te que um de nós
morrerá.
Eragon remexeu nas agulhas do chão e levantou-se, olhando
para Sloan. Não queria ir-se embora. O que ele fizera a Sloan, ao
trazer Katrina a Ellesméra, parecia-lhe errado e cruel. Sentiu-se
atormentado pela culpa e isso tornava-se mais intenso a cada
segundo que passava. Até que tomou uma decisão e voltou a
recuperar a serenidade.
Falando praticamente em surdina, usou o nome da língua antiga
para modificar os feitiços que lançara em Sloan. Levou mais de um
minuto a fazê-lo e, quando estava prestes a concluir os
encantamentos, Sloan rosnou entredentes:
— Para com esses malditos murmúrios, Eragon, e desaparece.
Deixa-me paz, raios! Deixa-me!
Mas Eragon não se foi embora e lançou um novo feitiço.
Recorrendo aos conhecimentos dos Eldunarís e dos Cavaleiros,
muitos dos quais faziam parelha com os dragões mais velhos,
recitou um feitiço que alimentava, estimulava e recuperava o que em
tempos existira. Era uma tarefa difícil, mas Eragon tornou-se mais
hábil e conseguiu o que pretendia.
Enquanto Eragon cantava, Sloan tremeu e começou a praguejar,
coçando as faces e a testa com ambas as mãos, como se estivesse
com um ataque de comichão.
— Raios te partam! O que me você está a fazer?
Eragon concluiu o encantamento e voltou a agachar-se,
removendo delicadamente a tira de pano da cabeça de Sloan. Este
bufou, ao senti-la a soltar-se, erguendo os braços para impedir
Eragon de o fazer, mas foi demasiado lento e as suas mãos
agarraram apenas o ar.
— Queres roubar-me também a dignidade? — disse Sloan, com
ódio na voz.
— Não — respondeu Eragon —, quero devolver-ta. Abre os olhos!
O talhante hesitou.
— Não posso. Você está a tentar enganar-me.
— Já alguma vez fiz isso? Abre os olhos e olha para a tua filha e
para a tua neta.
Sloan estremeceu e depois as suas pápebras abriram-se muito
lentamente, revelando uns olhos brilhantes, em vez das órbitas
vazias. Agora, os novos olhos de Sloan eram muito diferentes, eram
azuis como o céu do meio-dia e assombrosamente brilhantes.
Sloan piscou os olhos e as pupilas contraíram-se, enquanto se
adaptavam à luz ténue no interior da floresta. Depois endireitou-se
e torceu-se para espreitar por cima da raiz, e observar as
festividades que decorriam entre as árvores, mais adiante. O brilho
das lanternas sem chamas dos Elfos iluminou-lhe o rosto com uma
luz quente, parecendo inundá-lo de vida e de alegria. A
transformação que se operou no seu rosto era incrível. Eragon
sentiu as lágrimas nos olhos, quando observou o velho.
Sloan continuou a olhar por cima da raiz, como um viajante
sequioso ao ver um grande rio, dizendo num tom rouco:
— Ela está linda. São ambas tão bonitas. — Ouviu-se mais uma
explosão de gargalhadas. — Parece feliz e o Roran também.
— A partir de agora podes olhá-los, se quiseres — disse Eragon.
— Mas os feitiços que ainda tens não te permitirão que fales com
eles, que te mostres ou os contactes, seja de que maneira for, e se
o fizeres eu saberei.
— Compreendo — murmurou Sloan. Depois virou-se e os seus
olhos fixaram-se em Eragon, com uma intensidade inquietante.
Moveu os maxilares durante alguns segundos como se estivesse a
mastigar alguma coisa e depois disse:
— Obrigado.
Eragon acenou com a cabeça e levantou-se.
— Adeus, Sloan. Não me voltarás a ver, prometo.
— Adeus, Eragon — disse o talhante, torcendo-se para olhar uma
vez mais para a luz do banquete dos Elfos.


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Boa leitura :)