24 de junho de 2017

Capítulo 76 - Preço em sangue

E
ragon desceu um lance de escadas em direção à entrada do
edifício, e deparou-se com Angela, a herbolária, sentada de
pernas cruzadas no nicho escuro de uma porta. Estava a tricotar
o que parecia ser um chapéu azul e branco. A parte de baixo do
chapéu tinha estranhas runas cujo significado ele não entendia.
Junto dela estava Solembum, com a cabeça apoiada no seu colo e
uma das pesadas patas poisada sobre o joelho direito.
Eragon parou, surpreendido. A última vez que os vira — levou
algum tempo a lembrar-se — tinha sido pouco depois da batalha de
Urû’baen. Depois disso, pareciam ter desaparecido.
— Viva! — disse Angela, sem levantar os olhos.
— Viva! — respondeu Eragon. — O que você está aqui a fazer?
— A tricotar um chapéu.
— Isso já percebi, mas porquê aqui?
— Porque queria ver-te. — As agulhas produziam estalidos
regulares e rápidos e o movimento era tão hipnótico como as
chamas de uma fogueira. — Ouvi dizer que tu, a Saphira, os ovos e
os Eldunarís vão abandonar Alagaësia.
— Tal como previste — retorquiu Eragon, frustrado por ela ter
conseguido descobrir o que deveria ser um segredo bem guardado.
Não era possível que tivesse ouvido a conversa entre ele e
Nasuada — as suas proteções tê-la-iam impedido — e, que ele
soubesse, ninguém lhe falara sobre a existência dos ovos nem dos
Eldunarís.
— Sim, mas não esperava ver-te partir.
— Como descobriste? Foi Arya que te contou?
— Arya? Ah! Seria difícil. Não, tenho os meus próprios métodos
para reunir informação. — Fez uma pausa no tricô e olhou-o, com
uns olhos cintilantes. — Não que os vá partilhar contigo. Afinal de
contas, tenho de ter alguns segredos.
— Bolas.
— Bolas para ti também. Se vais continuar assim, vou ficar sem
saber porque me dei ao trabalho de vir.
— Desculpa, mas estou a sentir-me um pouco... intranquilo. —
Momentos depois, disse: — Porque querias ver-me?
— Queria despedir-me de ti e desejar-te boa sorte na viagem.
— Obrigado.
— Hum. Seja onde for que te instales, tenta não matutar
demasiado e faz por apanhar sol.
— Vou fazer isso. E você e o Solembum? Vão ficar aqui algum
tempo a vigiar Elva? Disseste que o farias.
A herbolária roncou de uma forma muito pouco digna de uma
senhora.
— Ficar? Como posso eu ficar, quando Nasuada parece estar
decidida a espiar todos os feiticeiros do reino?
— Também soubeste disso?
Ela fitou-o.
— E desaprovo. Desaprovo totalmente. Não vou permitir que me
tratem como uma criança que fez uma diabrura. Não, está na altura
do Solembum e eu nos mudarmos para regiões mais aprazíveis:
talvez para as Montanhas Beor ou para Du Weldenvarden.
Eragon hesitou, mas depois disse:
— Gostarias de vir comigo e com a Saphira?
Solembum abriu um olho e estudou-o, antes de o voltar a fechar.
— É muito amável da tua parte — respondeu Angela —, mas acho
que não vamos aceitar. Pelo menos por enquanto. Passar o tempo
a guardar os Eldunarís e a treinar os novos Cavaleiros, parece-me
aborrecido... se bem que criar uma ninhada de dragões seja
certamente excitante. Mas não. Por agora eu e o Solembum vamos
ficar em Alagaësia. Além disso, quero ficar de olho em Elva,
durante os próximos anos, mesmo que não a possa vigiar
pessoalmente.
— Não tens já que te chegue de acontecimentos interessantes?
— Nunca. São o sal da vida. — E ergueu o chapéu meio acabado.
— Gostas?
— É bonito. O azul é bonito, mas o que dizem as runas?
— Raxacori... esquece. Não teria qualquer significado para ti.
Desejo boa viagem a ambos, Eragon. Cuidado com as bichascadelas
e os hamsters. Os hamsters selvagens são criaturas ferozes.
Eragon não pôde deixar de sorrir.
— Também te desejo boa viagem. E a ti também, Solembum.
O menino-gato voltou a abrir um olho.
Boa viagem, Assassino de Reis.
Eragon saiu do edifício e encaminhou-se para a cidade até
chegar à casa onde Jeod e a sua mulher Helen viviam agora. Era
um palácio imponente, com muros altos, um grande jardim e
criados reverentes à entrada. Helen saíra-se incrivelmente bem.
Começando por aprovisionar os Varden — e agora o reino de
Nasuada — com bens de primeira necessidade, conseguira montar
uma empresa maior do que a que Jeod tinha outrora em Teirm.
Eragon encontrou Jeod a lavar-se para a refeição da noite.
Depois de recusar um convite para jantar com eles, Eragon passou
alguns minutos a explicar a Jeod o mesmo que explicara a
Nasuada. A princípio, Jeod ficou surpreendido e um pouco
incomodado, mas acabou por concordar que Eragon e Saphira
teriam de partir com os outros dragões. Eragon convidou também
Jeod a acompanhá-lo, tal como convidara Nasuada e a herbolária.
— Isso é uma grande tentação — disse Jeod —, mas o meu lugar é
aqui. Tenho o meu trabalho e Helen está feliz pela primeira vez
desde há muito tempo. Agora Ilirea é o nosso lar, pelo que nenhum
de nós tenciona pegar na trouxa e mudar-se para outro lado.
Eragon acenou com a cabeça, entendia-o.
— Mas tu... você vais viajar para onde poucos viajaram, a não ser
dragões e Cavaleiros. Diz-me uma coisa: sabes o que há para Este?
Há outro mar?
— Se viajares bem longe.
— E antes disso?
Eragon encolheu os ombros.
— Sobretudo campos desertos, pelo menos, segundo dizem os
Eldunarís. E eu não tenho motivos para acreditar que isso tenha
mudado no último século.
Jeod aproximou-se dele e baixou o tom de voz:
— Uma vez que você está de partida... vou contar-te uma coisa.
Lembras-te quando eu te falei de Arcaena, a ordem dedicada à
preservação do conhecimento, por toda Alagaësia?
Eragon acenou afirmativamente.
— Disseste que o Monge Hesland pertencia a essa ordem.
— Tal como eu. — Ao ver o olhar surpreendido de Eragon, Jeod
fez um gesto de embaraço e passou a mão pelo cabelo. — Juntei-me
a eles há muito tempo atrás, quando era jovem e procurava servir
uma causa. Ao longo dos anos forneci-lhes informações e
manuscritos e, em compensação, eles ajudaram-me. De qualquer
forma, acho que devias saber. Brom foi a outra pessoa a quem
contei.
— Nem mesmo a Helen?
— Nem mesmo a ela... mas adiante. Quando terminar o meu
relato sobre ti e Saphira e a ascensão dos Varden, vou mandá-lo
para o nosso mosteiro na Espinha e este será incluído numa série de
novos capítulos do Domia abr Wyrda. A tua história não será
esquecida, Eragon. Pelo menos isso, posso prometer-te.
Eragon achou aquela revelação estranhamente perturbadora.
— Obrigado — agradeceu ele, apertando o antebraço de Jeod.
— Igualmente, Eragon, Matador de Espectros.
A seguir, Eragon regressou ao palácio onde ele e Saphira viviam
com Roran e Katrina, que o esperavam para cearem juntos.
O tema de conversa ceia foi Arya e Fírnen. Eragon não revelou
que planeava partir até terminarem a refeição e se retirarem os três,
com a bebé, para uma sala com vista para o pátio, onde Saphira
dormitava com Fírnen. Aí ficaram sentados a beber vinho e chá e a
contemplar o sol, à medida que este descia em direção ao horizonte
distante.
Decorrido o tempo necessário, Eragon abordou o assunto.
Como seria de esperar, Katrina e Roran ficaram consternados e
tentaram dissuadi-lo. Eragon passou mais de uma hora a expor-lhes
as suas razões, atendendo a que eles contestavam todos os seus
argumentos, recusando-se a ceder até Eragon responder rigorosa e
detalhadamente às suas objeções.
Finalmente, Roran disse:
— Raios te partam, você és da família, não podes partir!
— Tenho de partir. você sabes isso tão bem como eu. Só não
queres admiti-lo.
Roran bateu com o punho na mesa diante deles e encaminhou-se
para a janela aberta, com os músculos dos maxilares contraídos.
A bebé chorou e Katrina disse:
— Shhh, pronto — batendo-lhe suavemente nas costas.
Eragon reuniu-se a Roran.
— Eu sei que não é o que você queres. Eu também não quero, mas
não tenho alternativa.
— Claro que tens alternativa. você mais do que ninguém tens
alternativa.
— Sim, mas esta é a atitude certa.
Roran roncou e cruzou os braços.
Atrás deles, Katrina disse:
— Se partires não conseguirás ser um tio para Ismira. Será que
ela vai crescer sem nunca te conhecer?
— Não — respondeu Eragon, voltando para junto dela. — Poderei
falar com ela à mesma e tomarei providências para que ela fique
bem protegida. Talvez possa até mandar-lhe presentes, de vez em
quando. — Ajoelhou-se, ergueu o dedo e a bebé agarrou-o,
puxando-lho com uma força precoce.
— Mas não estarás aqui...
— Não... não estarei aqui. — Eragon libertou delicadamente o
dedo da mão de Ismira e voltou para junto de Roran. — Como eu
disse, podiam acompanhar-me.
Os músculos no maxilar de Roran mexeram-se.
— E desistir do Vale de Palancar? — Abanou a cabeça. — Horst e
os outros estão já a preparar-se para regressar. Reconstruiremos
Carvahall. Será a mais bela vila em toda a Espinha. Podias ajudar e
tudo seria como antes.
— Quem me dera.
Lá em baixo, Saphira deixou escapar um gorgolejo gutural,
tocando ao de leve no pescoço de Fírnen, com o focinho. O
dragão verde aconchegou-se mais a ela.
Roran disse num tom grave:
— Não há outra solução, Eragon?
— Que me ocorra a mim ou a Saphira, não.
— Raios... isto não está certo. você não devias ter de ir viver
sozinho para um ermo.
— Não estarei sozinho. Blödhgarm e alguns dos outros Elfos irão
connosco.
Roran fez um gesto impaciente.
— você sabes o que eu quero dizer. — Mordeu o canto do bigode e
apoiou as mãos contra o rebordo de pedra, por baixo da janela.
Eragon conseguia ver os tendões dos seus antebraços grossos a
contraírem-se e a distenderem-se. Depois Roran olhou-o e disse:
— O que vais fazer quando chegares ao sítio para onde vais?
— Procurarei uma colina sobre um penhasco e construirei um
palácio sobre ela: uma palácio suficientemente grande para alojar
todos os dragões e mantê-los em segurança. E você o que vais fazer
depois de reconstruíres a aldeia?
Um ligeiro sorriso surgiu no rosto de Roran.
— Algo semelhante. Com os tributos do vale, tenciono construir
um castelo sobre aquela colina de que sempre falámos. Não um
castelo enorme, atenção, apenas um edificação de pedra com uma
muralha. O suficiente para nos proteger de quaisquer Urgals que
decidam atacar-nos. É provável que demore alguns anos, mas
depois teremos os meios de defesa adequados para nos
protegermos, coisa que não tínhamos quando os Ra’zac
apareceram com os soldados. — Olhou de soslaio para Eragon. —
Também teríamos espaço para um dragão.
— Teriam espaço para dois dragões? — interpelou Eragon,
apontando para Saphira e Fírnen.
— Talvez não... Como encara Saphira a ideia de se separar
dele?
— Não lhe agrada, mas sabe que é necessário.
— Mmm.
A luz âmbar do poente acentuava as linhas do rosto de Roran e
Eragon reparou, com alguma surpresa, que o primo começava a ter
vincos e rugas na testa e em torno dos olhos. Esses sinais de
envelhecimento progressivo davam que pensar. “A vida passa tão
depressa.”
Katrina deitou Ismira no berço e reuniu-se a eles na janela,
poisando a mão sobre o ombro de Roran.
— Vamos sentir a tua falta, Eragon.
— E eu a vossa — disse ele, tocando-lhe na mão. — Mas não
temos de nos despedir já. Gostava que viessem os três connosco a
Ellesméra. Acho que iriam gostar de conhecer a cidade e, assim,
poderíamos passar mais alguns dias juntos.
Roran virou a cabeça para Eragon.
— Não podemos viajar até Du Wldenvarden com Ismira. Ela é
demasiado pequena. Regressar ao Vale de Palancar, por si só, já
vai ser difícil. Pelo que um desvio até Ellesméra, está fora de
questão.
— Nem mesmo no dorso de um dragão? — Eragon soltou uma
gargalhada ao ver a expressão surpreendida de ambos. — Arya e
Fírnen concordaram em levar-vos até Ellesméra enquanto eu e
Saphira vamos buscar os ovos de dragão ao local onde estão
escondidos.
— Quanto tempo levará o voo até Ellesméra? — perguntou Roran,
de sobrancelha franzido.
— Cerca de uma semana. Arya tenciona passar por Tronjheim
para visitar o rei Orik, mas entretanto vocês ficariam quentes e
seguros. Ismira não correria qualquer perigo.
Katrina olhou para Roran. Ele olhou-a e ela disse:
— Seria agradável ver Eragon partir. Além disso, sempre ouvi
dizer que as cidades dos Elfos são lindas...
— Tens a certeza que consegues? — perguntou Roran.
Ela acenou com a cabeça.
— Desde que vás connosco, sim.
Roran silenciou por instantes e depois disse:
— Bom, suponho que Horst e os outros podem ir à frente sem
nós. — Sorriu por baixo da barba e riu baixinho.
— Nunca pensei ver as Montanhas Beor ou ir a uma das cidade
dos Elfos. Porque não? O melhor é fazê-lo enquanto ainda
podemos.
— Ótimo. Então está combinado — disse Katrina com um largo
sorriso. — Vamos a Du Weldenvarden.
— Como regressamos? — perguntou Roran.
— Com Fírnen — disse Eragon. — Estou certo que Arya também
vos poderá ceder guardas para vos escoltarem até ao Vale de
Palancar, se preferirem viajar a cavalo.
Roran fez uma careta.
— Não, a cavalo não. Tão cedo não volto a andar a cavalo.
— Ah não? Nesse caso presumo que já não queiras Snowfire —
disse Eragon, arqueando a sobrancelha, ao dizer o nome do
garanhão que oferecera a Roran.
— você sabes o que eu quero dizer. Gosto de ter Snowfire, mesmo
não precisando dele há algum tempo.
— Hum, hum.
Ficaram à janela durante mais uma hora — o céu tingia-se de
púrpura, depois de negro e as estrelas despontavam — fazendo
planos para a viagem que se avizinhava e a discutir as coisas que
Saphira e Eragon precisariam de levar quando partissem de Du
Weldenvarden para outras terras. Atrás deles, Ismira dormia
tranquilamente no berço, com os pequenos punhos cerrados
debaixo do queixo.
Assim que amanheceu, Eragon utilizou o espelho de prata polida
do seu quarto para contactar Orik, em Tronjheim. Teve de esperar
alguns minutos, mas o rosto de Orik acabou por aparecer. O anão
estava a pentear a barba por entrançar com um pente de marfim.
— Eragon! — exclamou Orik visivelmente feliz. — Como você está? Há
demasiado tempo que não falamos.
Eragon concordou, sentindo-se ligeiramente culpado. Depois
revelou a Orik que decidira partir e porquê. Orik parou de pentear
a barba e escutou-o atentamente, sempre com uma expressão
grave.
Quando Eragon terminou, Orik disse:
— Ficarei triste por ver-te partir, mas concordo, é isso que deves
fazer. Eu também pensei no assunto — estava preocupado com o
local onde os dragões deveriam viver —, mas guardei as minhas
preocupações para mim, pois os dragões têm tanto direito como
nós a esta terra, mesmo que não nos agrade que eles comam as
nossas Feldûnost e queimem as nossas aldeias. Contudo, criá-los
num outro local será o melhor para todos.
— Ainda bem que aprovas — disse Eragon. Depois falou-lhe da
sua ideia em relação aos Urgals, que também envolvia os Anões.
Desta vez, Orik levantou imensas questões e Eragon percebeu que
a proposta lhe levantava dúvidas.
Depois de um longo silêncio durante o qual Orik ficou a olhar
para a barba, o anão disse:
— Se tivesses exigido isto a qualquer um dos grimstnzborithn
antes de mim, eles teriam recusado e se mo tivesses exigido a mim
antes de invadirmos o Império, eu também teria recusado. Mas
agora, depois de termos lutado ao lado dos Urgals e depois de
termos constatado por nós mesmos quão indefesos estávamos
perante Murtagh, Thorn, Galbatorix e aquele monstro do
Shruikan... já não sinto o mesmo. — Fitou Eragon por entre as
fartas sobrancelhas. — É possível que me custe a coroa, mas para
bem de todos os knurlan, aceito — será o melhor para eles, quer se
apercebam disso ou não.
Eragon sentiu-se mais uma vez orgulhoso por ter Orik como
irmão adotivo.
— Obrigado — agradeceu ele.
Orik roncou.
— O meu povo nunca desejou isto, mas eu sinto-me grato.
Quando saberemos?
— Dentro de alguns dias. Uma semana, no máximo.
— Sentiremos alguma coisa?
— Talvez. Vou perguntar a Arya. De qualquer forma, voltarei a
contactar-te, logo que esteja consomado.
— Ótimo. Então, falamos mais tarde. Boa viagem e saúde,
Eragon.
— Que Helzvog zele por ti!
No dia seguinte partiram de Ilirea.
A partida foi discreta, sem festejos, e Eragon sentiu-se grato por
isso. Nasuada, Jörmundur, Jeod e Elva encontraram-se com eles
no exterior do portão sul da cidade. Saphira e Fírnen estavam lado
a lado, a roçarem o focinho um no outro, enquanto Eragon e Arya
inspecionavam as celas. Roran e Katrina chegaram minutos mais
tarde: Katrina com Ismira enfaixada num cobertor e Roran com
dois fardos de cobertores, comida e outras provisões, aos ombros.
Roran entregou os fardos a Arya e ela prendeu-os sobre os
alforges de Fírnen.
Depois Eragon e Saphira despediram-se pela última vez, o que
foi mais difícil para Eragon do que para Saphira. Porém, os seus
olhos não eram os únicos com lágrimas: Nasuada e Jörmundur
também choravam ao abraçá-lo, desejando felicidades a ambos.
Nasuada despediu-se também de Roran, voltando a agradecer-lhe
pela sua ajuda na luta contra o Império.
Finalmente, quando Eragon, Arya, Roran e Katrina estavam
prestes a subir para o dorso dos dragões, uma mulher gritou:
— Esperem aí!
Eragon deteve-se com um pé sobre a pata dianteira direita de
Saphira e olhou para trás, vendo Birgit a caminhar na direção deles,
vinda dos portões da cidade, com as saias cinzentas a ondular e o
seu filho pequeno, Nolfavrell, atrás de si com uma expressão de
impotência. Birgit trazia uma espada desembainhada na mão e um
escudo redondo de madeira na outra.
Eragon sentiu o estômago a afundar-se.
Os guardas de Nasuada avançaram para os intercetar, mas
Roran gritou:
— Deixem-nos passar!
Nasuada fez sinal aos guardas e eles afastaram-se.
Birgit aproximou-se de Roran sem abrandar o passo.
— Birgit, por favor — disse Katrina, em voz baixa, mas a mulher
ignorou-a. Arya olhou-as, sem pestanejar, com a mão na espada.
— Martelo Forte, eu sempre disse que iria exigir a paga pela
morte do meu marido e agora vim exigi-la como é meu legítimo
direito. Lutarás comigo ou pagarás a tua dívida?
Eragon foi para junto de Roran.
— Porque você está a fazer isto, Birgit? Porquê agora? Não podes
perdoar-lhe e dar descanso às velhas mágoas?
Queres que eu a coma? perguntou Saphira.
Por enquanto não.
Birgit ignorou-o e continuou de olhos fixos em Roran.
— Mãe — disse Nolfavrell, puxando-lhe pelas saias, mas ela não
reagiu à súplica.
Nasuada reuniu-se a eles.
— Eu conheço-te — disse ela a Birgit. — Lutaste com os homens
durante a guerra.
— Sim, Majestade.
— Que razão de queixa tens você de Roran? Ele revelou ser um
excelente e valoroso guerreiro, por mais do que uma vez, e eu
ficaria bastante desagradada se o perdesse.
— Foi por culpa dele e da família dele que os soldados mataram
o meu marido. — E olhou para Nasuada por instantes. — Os Ra’zac
comeram-no, Majestade. Comeram-no e sugaram-lhe o tutano dos
ossos. Eu não posso perdoar isso e exigirei ser compensada.
— A culpa não foi de Roran — disse Nasuada. — Isto não é
razoável e eu não o permitirei.
— É sim. disse Eragon, embora odiasse ter de o dizer. — Segundo
os nossos costumes, ela tem o direito de exigir um prémio de
sangue a qualquer pessoa responsável pela morte de Quimby.
— Mas a culpa não foi de Roran! — exclamou Katrina.
— Foi sim — interpelou Roran, num tom grave. — Podia ter-me
virado aos soldados, podia tê-los afastado. Podia ter atacado, mas
não o fiz. Decidi esconder-me e Quimby morreu em consequência
disso. — Olhou de relance para Nasuada. — Isto é um assunto que
tem de ser resolvido entre nós, Majestade. É uma questão de honra
tal como o Teste das Facas Longas o foi para vós.
Nasuada franziu a sobrancelha e olhou para Eragon. Ele acenou
com a cabeça e ela recuou, ainda que relutante.
— Como vai ser, Martelo Forte? — perguntou Birgit.
— Eragon e eu matámos os Ra’zac em Helgrind — disse Roran. —
Isso não chega?
Birgit abanou a cabeça, com uma determinação inabalável.
— Não.
Roran deteve-se, com os músculos do pescoço tensos.
— É mesmo isso que queres, Birgit?
— É.
— Nesse caso, pagarei a minha dívida.
Ao ouvir as palavras de Roran, Katrina gritou e meteu-se entre
ele e Birgit, com a filha nos braços.
— Eu não o vou permitir. Não o terás! Não agora! Não, depois
de tudo o que passámos!
Birgit continuou impassível e não fez qualquer gesto no sentido
de recuar. De igual modo, Roran não mostrou qualquer emoção ao
agarrar Katrina pela cintura, sem esforço aparente, erguendo-a e
afastando-a para o lado.
— Segura-a, se fazes favor — disse ele a Eragon, friamente.
— Roran...
O primo lançou-lhe um olhar inequívoco, virando-se de novo
para Birgit.
Eragon agarrou nos ombros de Katrina para a impedir de se
atirar a Roran e olhou desesperado para Arya. Ele olhou de relance
para a espada e ela abanou a cabeça.
— Larga-me! Larga-me! — gritou Katrina. A bebé começou a
chorar nos seus braços.
Sem desviar o olhar da mulher que tinha diante de si, Roran tirou
o cinto e atirou-o para o chão, juntamente com a adaga e o
martelo, que um dos Varden encontrara nas ruas de Ilirea, pouco
depois da morte de Galbatorix. Depois, abriu a parte da frente da
túnica e descobriu o peito peludo.
— Tira-me as proteções, Eragon — disse ele.
— Eu...
— Tira-as!
— Não, Roran! — gritou Katrina. — Defende-te!
“Está louco”, pensou Eragon, mas não se atreveu a interferir. Se
impedisse Birgit envergonharia Roran e o povo do Vale de
Palancar perderia todo o respeito pelo primo. E Eragon sabia que
Roran preferia morrer a permitir que tal acontecesse.
Ainda assim, Eragon não fazia tenções de permitir que Birgit
matasse Roran. Deixá-la-ia resgatar o seu prémio, mas nada mais.
Falando baixinho na língua antiga — para que ninguém ouvisse as
palavras que estava a usar —, fez o que Roran lhe pediu, mas deu
também três novas proteções ao primo: uma para impedir que lhe
partissem a coluna na zona do pescoço, outra para que não lhe
fraturassem o crânio e outra para lhe proteger os órgãos. Tudo o
resto Eragon tinha a certeza que poderia curar, se necessário,
desde que Birgit não começasse a decepar-lhe membros.
— Está feito — disse ele.
Roran acenou com a cabeça e disse a Birgit:
— Cobra o teu preço e que isto ponha fim ao nosso conflito.
— Não lutas comigo?
— Não.
Birgit olhou-o por instantes, atirou o escudo ao chão, percorreu
os escassos metros que a separavam de Roran, encostou o gume
da espada, ao peito de Roran e disse em voz baixa, de forma a que
apenas Roran a ouvisse — ainda que Eragon e Arya a conseguissem
ouvir, graças à audição apurada:
— Eu amava Quimby. Ele era a minha vida e morreu por tua
causa.
— Lamento — sussurrou Roran.
— Birgit — implorou Katrina —, por favor...
Ninguém se mexia, nem mesmo os dragões, e Eragon deu
consigo a suster a respiração. O choro entrecortado da bebé era o
ruído mais intenso que se ouvia.
Depois Birgit ergueu a espada do peito de Roran e baixou-a
para lhe golpear a mão direita, passando-lhe o gume na palma da
mão. Roran retraiu-se ao sentir a lâmina a cortar-lhe a mão, mas
não se afastou.
Uma linha carmesim surgiu sobre a sua pele e o sangue inundoulhe
a palma da mão, escorrendo e pingando para o chão, onde se
infiltrou na terra pisada e deixou uma mancha negra.
Birgit parou de fazer força na espada, mantendo-a imóvel contra
a palma da mão de Roran, durante mais um instante. Depois recuou
e baixou a espada com o gume sujo de sangue, ao lado do corpo.
Roran fechou os dedos contra a palma da mão, pressionando-a
contra a coxa, com sangue a escorrer-lhe por entre os dedos.
— Cobrei o meu preço — disse Birgit. — A nossa querela
terminou.
Depois virou-se, pegou no escudo e voltou a encaminhar-se
para a cidade, com Nolfavrell a segui-la como um cão.
Eragon largou Katrina , que correu para junto de Roran.
— Meu tolo — disse ela, com uma nota de amargura na voz. —
Meu tolo cabeçudo. Deixa-me ver isso.
— Era a única forma — disse Roran, como se falasse de muito
longe.
Katrina franziu a sobrancelha, com uma expressão dura e tensa,
enquanto examinava o golpe na sua mão.
— Devias curar isto, Eragon.
— Não — disse Roran, com uma inesperada brusquidão e voltou
a fechar a mão. — Não. Quero ficar com esta cicatriz. — Olhou em
redor. — Há por aí uma tira de tecido que possa usar como
ligadura?
Depois de um momento de confusão, Nasuada apontou para um
dos seus guardas e disse:
— Corta a parte de baixo da tua túnica e dá-lha.
— Espera — disse Eragon, quando Roran começou a enrolar a tira
em torno da mão. — Não vou curá-la, mas pelo menos deixa-me
lançar um feitiço para que golpe não infete, está bem?
Roran hesitou, mas depois anuiu esticando a mão a Eragon.
Ele levou apenas alguns segundos a proferir o feitiço.
— Pronto — disse. — Agora não ficará verde e arroxeada, nem irá
inchar como a bexiga de um porco.
Roran roncou e Katrina disse.
— Obrigada, Eragon.
— Bom, vamos embora? — perguntou Arya.
Subiram os cinco para os dragões. Arya ajudou Roran e Katrina
a subirem em segurança para a sela, sobre o dorso de Fírnen, que
fora modificada com correias e alças para transportar mais
passageiros. Assim que se instalaram no dorso do dragão verde,
Arya ergueu a mão:
— Adeus, Nasuada, adeus, Eragon e Saphira! Ficamos à vossa
espera em Ellesméra!
Adeus!, disse Fírnen com a sua voz grave. Depois abriu as asas
e saltou em direção aos céus, batendo as asas rapidamente para
erguer o peso das quatro pessoas que transportava no seu dorso,
com o auxílio dos Eldunarís que Arya levava com ela.
Saphira rugiu alto e Fírnen respondeu-lhe com um ronco
estridente antes de voar como uma seta para Sudeste, em direção
às distantes Montanhas Beor.
Eragon torceu-se na sua sela e acenou a Nasuada, Elva,
Jörmundur e Jeod. Eles acenaram e Jörmundur gritou:
— Boa sorte para ambos.
— Adeus! — gritou Elva.
— Adeus! — gritou Nasuada — Tenham cuidado!
Eragon respondeu de forma semelhante, virando-se de costas
para eles, incapaz de suportar a cena. Saphira agachou-se por
baixo dele e saltou para o ar. E iniciaram a primeira etapa da sua
longa viagem.
Saphira voou em círculos, enquanto ganhava altitude. Lá em
baixo, Eragon viu Nasuada e os outros, reunidos junto das
muralhas da cidade. Elva segurava num pequeno lenço branco que
ondulou ao vento, aquando da passagem de Saphira.


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