24 de junho de 2017

Capítulo 74 - Fírnen

Chegaram ao local que Arya designara ao início da tarde: uma
curva suave do Rio Ramr, que assinalava o ponto mais a Este.
Eragon esticou-se para olhar por cima do pescoço de
Saphira, tentando ver alguém lá baixo. Tirando uma manada de
touros selvagens, os campos estavam desertos. Ao verem Saphira,
os animais fugiram, levantando colunas de pó. As únicas criaturas
vivas que Eragon sentia eram os touros e outros animais mais
pequenos, dispersos pelos campos.
Desiludido, desviou o olhar para o horizonte, mas não viu
quaisquer sinais de Arya.
Saphira aterrou numa elevação suave, a cinquenta metros das
margens do rio, e sentou-se. Eragon sentou-se junto dela,
encostando as costas ao seu flanco.
Ao cimo da elevação havia um afloramento de pedra macia,
semelhante a ardósia. Enquanto esperavam, Eragon entreteve-se a
desbastar uma lasca de pedra do tamanho de um polegar, até lhe
dar a forma da ponta de uma flecha. A pedra era demasiado macia
pelo que a ponta da flecha serviria apenas para decoração, de
qualquer forma ele apreciou o desafio. Quando se deu por satisfeito
com a sua forma simples, triangular, pô-la de parte e começou a
desbastar um fragmento maior, talhando uma adaga com a lâmina
em forma de folha, semelhante às que os Elfos traziam consigo.
Não tiveram de esperar tanto como inicialmente Eragon
imaginara.
Uma hora depois de chegarem, Saphira levantou a cabeça do
chão e olhou para as planícies, em direção ao Deserto de Hadarac,
que não ficava muito longe. O seu corpo retesou-se contra o corpo
de Eragon e ele sentiu uma estranha emoção dentro dela, como se
algo de importante estivesse para acontecer.
Olha, disse Saphira.
Eragon levantou-se apressadamente, ainda a segurar na adaga
por acabar, e olhou para Este, mas viu apenas erva, terra e algumas
árvores solitárias fustigadas pelo vento, entre eles e o horizonte.
Alargou a área de observação, mas continuou a não ver nada de
interessante.
O que é... ia ele a dizer, mas depois olhou para cima e calou-se.
Bem alto, no firmamento, a Este, viu um ponto cintilante de fogo
verde. O ponto de luz descreveu um arco pelo manto azul dos
céus, aproximando-se rapidamente, brilhante como uma estrela à
noite.
Eragon largou a adaga de pedra, subiu para o dorso de Saphira
e prendeu as pernas à sela. Queria perguntar-lhe o que ela achava
que seria o ponto de luz — para a forçar a verbalizar a sua suspeita
— mas, à semelhança de Saphira, ele não conseguia dizer uma
palavra.
Saphira ficou onde estava, embora abrisse as asas e as erguesse
praticamente dobradas ao meio, preparando-se para levantar voo.
À medida que crescia, a centelha de luz multiplicou-se,
dividindo-se num conjunto de dúzias, centenas, milhares de
pequenos pontos de luz. Minutos depois a sua verdadeira forma
tornou-se visível e eles perceberam que era um dragão.
Saphira não conseguiu esperar mais e saltou da elevação com
um urro estridente, batendo as asas em direção ao solo.
Eragon agarrou-se firmemente ao espinho do pescoço dela, à
sua frente, enquanto Saphira subia num ângulo quase vertical,
desesperada para intercetar o outro dragão, tão depressa quanto
possível. O espírito de ambos alternava entre o júbilo e a cautela
ganha em inúmeros combates travados. Também por cautela,
agradou-lhes o fato de terem o sol por trás.
Saphira continuou a subir até ficar ligeiramente acima do dragão
verde, nivelou o voo e concentrou-se na velocidade.
Já mais perto, Eragon viu que o dragão, embora bem
constituído, tinha ainda a aparência desengonçada de um dragão
jovem. Os seus membros não possuíam ainda o peso e o volume
dos membros de Glaedr ou de Thorn, e era mais pequeno do que
Saphira. A escamas nos flancos e no dorso eram verdes-escuras, e
as do ventre e das almofadas das patas mais claras — quase brancas
no caso das mais pequenas. Encostadas ao corpo, as suas asas
eram cor de azevinho, mas quando a luz se filtrava através delas
exibiam a cor das folhas de carvalho na primavera.
No ponto de união entre o pescoço e o dorso do dragão havia
uma sela muito semelhante à de Saphira e, sobre esta, estava uma
figura que parecia Arya, com longos cabelos a ondular ao vento.
Essa visão encheu o coração de Eragon de alegria e o vazio, sob o
peso do qual trabalhara durante tanto tempo, dissipou-se como a
escuridão da noite antes do nascer do sol.
Quando os dragões se cruzaram, Saphira rugiu e o outro dragão
rugiu também. Depois, viraram e começaram a voar em círculo —
como se se perseguissem um ao outro — Saphira ainda ligeiramente
acima do dragão verde, que não fez qualquer esforço para voar
mais alto do que ela. Se o tivesse feito, Eragon teria receado que o
dragão estivesse a tentar ganhar vantagem sobre Saphira, antes de
atacar.
Eragon sorriu e gritou ao vento. Arya gritou e ergueu o braço.
Depois Eragon tocou-lhe na mente, só para ter a certeza, e
percebeu de imediato que era realmente Arya e que nem ela nem o
dragão tinham más intenções. Momentos depois retirou-se, pois
teria sido indelicado prolongar o contato mental sem o seu
consentimento, e Arya certamente responderia às suas perguntas
quando estivessem em terra.
Saphira e o dragão verde rugiram de novo e este sacudiu
violentamente a cauda, semelhante a um chicote, perseguindo-se
depois um ao outro até alcançarem o Rio Ramr. Saphira assumiu a
dianteira e desceu em espiral, até aterrar na mesma elevação onde
ela e Eragon tinham esperado.
O dragão verde aterrou a trinta metros, agachando-se, enquanto
Arya se libertava da sela.
Eragon arrancou a correias das pernas e saltou para o chão,
batendo com a bainha de Brisingr contra a perna. Correu ao
encontro de Arya e ela ao seu, reunindo-se entre os dois dragões
que os seguiram num passo mais pausado, batendo pesadamente
com as patas no chão.
Ao aproximar-se, Eragon viu que em vez da tira de couro que
Arya habitualmente usava para prender o cabelo, ela trazia um
pequeno aro de ouro sobre a testa com um diamante em forma de
lágrima, ao centro, que parecia brilhar não à luz do sol mas com a
luz que emanava. Presa à cintura tinha uma espada de punho verde,
dentro de uma bainha verde, que ele percebeu ser Támerlein, a
mesma que Fiolr, o elfo nobre, lhe oferecera para substituir
Zar’roc, e que pertencera ao Cavaleiro Arva. O punho contudo
parecia diferente, mais leve e mais gracioso, e a bainha parecia mais
estreita.
Instantes depois, Eragon percebeu o que o diadema significava e
olhou atónito para Arya:
— Tu?
— Eu — respondeu ela, inclinando a cabeça. — Atra esterní ono
thelduin, Eragon.
— Atra du evarínya ono varda, Arya... Dröttning? — Não lhe
tinha passado despercebido que ela o saudara primeiro.
— Dröttning — confirmou ela —, o meu povo decidiu conceder-me
o título de minha mãe e eu decidi aceitar.
Por cima deles, Saphira e o dragão verde aproximaram as
cabeças e farejaram-se. Saphira era mais alta pelo que o dragão
verde teve de esticar o pescoço para a alcançar.
Por muito que Eragon quisesse falar com Arya , não pôde deixar
de olhar para o dragão.
— E ele? — perguntou, apontando para cima.
Arya sorriu e surpreendeu-o ao pegar-lhe na mão, conduzindo-o
em frente. O dragão verde resfolgou e baixou a cabeça, até esta
ficar ligeiramente acima deles, libertanda fumaça e vapor das suas
profundas narinas vermelhas.
— Eragon — disse ela, poisando a mão sobre o focinho quente do
dragão. — Este é Fírnen. Fírnen, este é Eragon.
Eragon fixou um dos olhos brilhantes de Fírnen. As tiras de
músculo, dentro das íris do dragão, eram verde-claras e amarelas
como lâminas tenras de erva.
Prazer em conhecer-te Eragon amigo, Matador de Espectros,
disse Fírnen. A sua voz mental era mais grave do que Eragon
esperava, mais grave até que a de Thorn, Glaedr ou qualquer dos
Eldunarís de Vroengard. O meu Cavaleiro falou-me muito de ti. O
dragão piscou os olhos uma vez, com um pequeno ruído agudo,
semelhante ao de uma concha a bater numa pedra.
Eragon sentia o entusiasmo do dragão na sua vasta mente,
inundada pelo sol e coberta de sombras transparentes.
Eragon foi percorrido por uma sensação de assombro —
assombro pelo fato de tal ter acontecido.
— Também é um prazer conhecer-te, Fírnen-finiarel. Nunca
pensei que viveria para te ver nascer, livre dos feitiços de
Galbatorix.
O dragão cor de esmeralda resfolgou suavemente. Parecia
imponente e cheio de energia, como um veado macho no outono.
Depois voltou a olhar para Saphira. Muito se estava a passar entre
os dois. Eragon conseguiu sentir o fluxo de pensamentos, emoções
e sensações, através de Saphira — a princípio lentos mas depois
foram engrossando até se converterem numa torrente.
Arya sorriu ligeiramente.
— Parece que gostaram um do outro.
— É verdade.
Guiados por um entendimento mútuo, Eragon e Arya saíram
debaixo de Saphira e Fírnen, deixando os dragões a sós. Saphira
não era seu hábito, mas agachada como se estivesse prestes a
atacar um veado, e Fírnen também. A ponta das caudas
estremecia.
Arya parecia estar bem: melhor do que depois de passarem
algum tempo juntos em Ellesméra. Estava feliz, à falta de melhor
palavra.
Ambos observaram os dragões em silêncio, durante algum
tempo. Depois Arya virou-se e disse-lhe:
— Peço desculpa por não te ter contactado mais cedo. Não
deves estar muito satisfeito comigo por te ter ignorado a ti e a
Saphira, durante tanto tempo, e por guardar um segredo como
Fírnen.
— Recebeste a minha carta?
— Recebi. — Para sua surpresa, Arya levou a mão à parte da
frente da túnica e tirou um quadrado puído de pergaminho, que ele
reconheceu segundos depois. — Eu teria respondido, mas Fírnen já
tinha nascido e não queria mentir-te, nem mesmo por omissão.
— Porquê mantê-lo escondido?
— Com tantos servos de Galbatorix ainda à solta, e tão poucos
dragões ainda vivos, não quis que ninguém soubesse da existência
de Fírnen até ele ter o tamanho suficiente para se defender.
— Achas realmente possível que um humano se pudesse infiltrar
em Du Weldenvarden e o matasse?
— Têm acontecido coisas estranhas. Não era um risco que
valesse a pena correr, estando os dragões ainda à beira da
extinção. Se pudesse manteria Fírnen em Du Weldenvarden
durante os próximos dez anos, até ele ser tão grande que ninguém
se atrevesse a atacá-lo. Mas ele queria partir e eu não podia negarlhe
isso. Além disso, chegou o momento de eu me reunir a Nasuada
e a Orik, no meu novo papel.
Eragon sentiu que Fírnen estava a contar e a mostrar a Saphira
como apanhara um veado na floresta dos Elfos pela primeira vez e
sabia que Arya também se apercebera da conversa, pois viu o lábio
dela tremer com a imagem de Fírnen a saltar atrás de uma fêmea de
veado assustada, depois dela tropeçar num ramo.
— E há quanto tempo és rainha?
— Fui coroada um mês depois do meu regresso, mas Vanir não
sabe. Ordenei que lhe ocultassem essa informação bem como ao
nosso embaixador junto dos Anões, para que me pudesse
concentrar na educação de Fírnen, sem ter de me preocupar com
assuntos de estado, que de outra forma me competiria resolver...
Vais gostar de saber: criei-o nos Penedos de Tel’naeír, onde
Oromis vivia com Glaedr. Pareceu-me fazer todo o sentido.
Ficaram ambos em silêncio. Depois Eragon apontou para o
diadema de Arya e para Fírnen, perguntando-lhe:
— Como aconteceu tudo isto?
Ela sorriu:
— Durante o nosso regresso a Ellesméra, reparei que Fírnen
estava a começar a mexer-se dentro da casca, mas não dei
importância ao assunto, pois era frequente Saphira fazer o mesmo.
Contudo, logo que chegámos a Du Weldenvarden e passámos
pelas proteções, ele nasceu. Era quase noite e eu transportava-o
dentro de uma prega da túnica, como costumava fazer com o de
Saphira. Estava a conversar com ele, a falar-lhe acerca do mundo e
a tranquilizá-lo, quando senti o ovo a sacudir-se e... — Estremeceu
e atirou o cabelo para trás, com uma fina camada de lágrimas
brilhantes nos olhos. — O laço é tudo aquilo que eu imaginei.
Quando nos tocámos... Eu sempre quis ser um Cavaleiro do
Dragão para proteger o meu povo e vingar a morte do meu pai às
mãos de Galbatorix e dos Renegados. Mas nunca quis acreditar
que isso poderia vir a acontecer, até ver a primeira racha no ovo de
Fírnen.
— Quando se tocaram, sentiste...
— Sim. — Arya ergueu a mão esquerda e mostrou-lhe uma marca
prateada na palma da mão, igual ao seu gedwëy ignasia. — Era
como... — E fez uma pausa, à procura das palavras certas.
— Era como água gelada. Picava e brilhava — aventou ele.
— Era exatamente isso. — Ela cruzou os braços sem dar por isso,
como se sentisse frio.
— E depois voltaste para Ellesméra — acrescentou Eragon.
Saphira contava a Fírnen sobre quando ela e Eragon tinham nadado
no Lago, ao viajarem para Dras-Leona com Brom.
— E depois voltámos para Ellesméra.
— E foste viver para os Penedos de Tel’naeír. Mas porquê
tornares-te rainha quando já eras Cavaleiro?
— A ideia não foi minha. Däthedr e os outros anciãos da nossa
raça foram à casa dos penedos e pediram-me para aceitar o manto
de minha mãe. Recusei, mas eles voltaram no dia seguinte e no
outro. Regressaram todos os dias, durante uma semana, e sempre
com novos argumentos sobre o motivo por que eu deveria aceitar a
coroa. Até que finalmente me convenceram que seria o melhor para
o meu povo.
— Mas porquê tu? Foi por seres filha de Islanzadí, ou por te teres
tornado Cavaleiro?
— Não foi apenas por Islanzadí ser minha mãe, embora esse
fosse, em parte, o motivo, nem apenas por eu ser um Cavaleiro. As
nossas políticas são muito mais complicadas que as dos humanos
ou as dos Anões, e nunca é fácil escolher um novo monarca, pois
implica obter o consentimento de dúzias de casas e de famílias, bem
como de alguns dos membros mais velhos da nossa raça. E todas
as escolhas que fazem são parte de um jogo subtil que praticamos
entre nós, há milhares de anos... Eles queriam que eu me tornasse
rainha por muitos motivos e nem todos eram óbvios.
Eragon mudou de posição, olhando alternadamente para Saphira
e para Arya, incapaz de se conciliar com a decisão dela.
— Como podes ser Cavaleiro e Rainha ao mesmo tempo? —
perguntou ele. — Os Cavaleiros não devem favorecer qualquer raça
em detrimento das outras. Se o fizéssemos seria impossível aos
restantes povos de Alagaësia confiarem em nós. E, como poderás
ajudar a reconstruir a nossa ordem e a educar a próxima geração
de dragões, se você está ocupada com as tuas responsabilidades em
Ellesméra?
— O mundo já não é o que era — disse ela —, nem os Cavaleiros
poderão manter-se isolados como antigamente. Somos poucos.
Não podemos manter-nos isolados e demorará bastante tempo até
que sejamos em número suficiente para podermos voltar a assumir
o nosso anterior papel. Seja como for, você juraste lealdade a
Nasuada, a Orik e ao Dûrgrimst Ingeitum, mas não a nós, os
älfakyn. Faz todo o sentido que tenhamos também um Cavaleiro e
um dragão.
— você sabes que Saphira e eu lutaríamos pelos Elfos tal como
pelos humanos ou pelos Anões — protestou ele.
— Eu sei, mas os outros não. As aparências contam, Eragon.
Não podes modificar o fato de teres prestado juramento a
Nasuada e de deveres a lealdade ao clã de Orik... O meu povo
sofreu bastante nos últimos cem anos e, embora isso possa não ser
visível aos teus olhos, já não somos o que em tempos fomos. Tal
como os dragões, também nós entrámos em declínio. Nasceram
menos crianças e a nossa energia esmoreceu. Há quem diga que as
nossas mentes já não são tão aguçadas como antes, embora isso
seja difícil de provar.
— O mesmo se aplica aos humanos, pelo menos segundo Glaedr
nos disse — acrescentou Eragon.
Ela acenou com a cabeça.
— Ele tem razão. As nossas raças levarão tempo a recuperar e
muito dependerá do regresso dos dragões. Tal como Nasuada é
necessária para ajudar a orientar a recuperação da tua raça,
também o meu povo precisa de um líder, e eu senti-me na
obrigação de assumir essa tarefa, agora que Islanzadí morreu. —
Tocou no ombro esquerdo onde tinha a tatuagem do hieróglifo do
yawë. — Eu era pouco mais velha do que tu, quando jurei servir o
meu povo. Não posso abandoná-los agora quando mais precisam
de mim.
— Eles precisarão sempre de ti.
— E eu responderei sempre aos seus apelos — respondeu ela. —
Eu e Fírnen jamais ignoraremos os deveres de dragão e Cavaleiro.
Ajudar-vos-emos a patrulhar o território, resolveremos todas as
disputas que pudermos e, seja onde for o melhor local para educar
os dragões, visitá-lo-emos e daremos o nosso apoio tão
frequentemente quanto possível, mesmo que seja no ponto mais
distante da Espinha, a Sul.
As suas palavras perturbaram Eragon, mas ele fez o possível
para o esconder. O que Arya prometera seria impossível se ele e
Saphira fizessem o que tinha ficado decidido durante o voo até lá.
Embora tudo o que Arya dissera ajudasse a confirmar que tinham
escolhido o caminho certo, Eragon receava que Arya e Fírnen não
o pudessem seguir.
Nessa altura Eragon curvou a cabeça, aceitando a decisão de
Arya de se tornar rainha e o seu direito de o fazer.
— Eu sei que não te furtarás às tuas responsabilidades — disse ele.
—Nunca te furtas — continuou. — Não tinha intenção de ser
indelicado ao dizer aquilo, era apenas a constatação de um fato, e
um fato que era motivo de respeito. — E entendo o motivo por que
não nos contactaste durante tanto tempo. Provavelmente eu teria
feito o mesmo.
Ela voltou a sorrir.
— Obrigada.
Ele apontou para a espada.
— Presumo que Rhunön remodelou Tämerlein para se adaptar
melhor a ti.
— Sim e não parou de resmungar o tempo todo. Disse que a
espada era perfeita tal como estava, de qualquer forma estou
bastante satisfeita com as modificações que fez. Agora a espada
equilibra-se perfeitamente na minha mão e parece leve como um
chicote.
Enquanto observavam os dragões, Eragon tentou pensar numa
forma de revelar os seus planos a Arya. Mas antes que o fizesse,
ela disse:
— você e a Saphira têm passado bem?
— Sim.
— O que mais aconteceu de interessante, desde que me
escreveste?
Eragon pensou por instantes e depois fez-lhe um breve relato
dos atentados à vida de Nasuada, das insurreições a Norte e a Sul,
do nascimento da filha de Roran e Katrina, da ascensão de Roran à
nobreza e da lista de tesouros que tinham recuperado do interior da
cidadela. Finalmente, falou-lhe do seu regresso a Carvahall e da
visita ao derradeiro local de repouso de Brom.
Enquanto falava, Saphira e Fírnen começaram a andar à volta
um do outro, sacudindo a ponta das caudas para trás e para diante,
mais rapidamente do que nunca. Tinham ambos as mandíbulas
entreabertas, com os longos dentes brancos à mostra e respiravam
pesadamente pela boca, deixando escapar uns roncos lamentosos
que Eragon nunca ouvira. Quase parecia que se iam atacar, o que o
preocupou, mas não era raiva nem medo que Eragon sentia em
Saphira, era...
Quero testá-lo, disse Saphira, batendo com a cauda no chão e
fazendo Fírnen parar.
Testá-lo? Como? Para quê?
Para saber se ele tem ferro suficiente nos ossos e fogo suficiente
na barriga para acasalar comigo.
Tens a certeza?, perguntou ele, percebendo a sua intenção.
Saphira voltou a bater com a cauda no chão, e Eragon sentiu a
sua certeza e a força do seu desejo.
Sei tudo acerca dele — tudo menos isso. Além disso, disse ela,
com um ar divertido, os dragões não acasalam propriamente para a
vida inteira.
Muito bem... mas tem cuidado.
Mal acabou de falar, Saphira lançou-se a Fírnen, mordendo-o
no flanco esquerdo e deixando-o a sangrar. Fírnen arreganhou os
dentes e saltou para trás. Depois rosnou com um ar hesitante e
recuou diante de Saphira, enquanto esta avançava na direção do
dragão.
Saphira! Eragon virou-se para Arya, com um ar mortificado e
com a intenção de lhe pedir desculpa.
Arya não parecia incomodada. Dirigindo-se a Fírnen e a Eragon,
Arya disse:
Se queres que ela te respeite, tens de lhe morder também.
Arqueou a sobrancelha a Eragon e ele reagiu com um sorriso
sardónico, entendendo-a.
Fírnen olhou de relance para Arya e hesitou, saltando para trás
quando Saphira o tentou morder de novo. Depois rugiu e ergueu as
asas, como se quisesse parecer maior, e atacou Saphira,
enterrando-lhe os dentes na pele e mordendo-a numa pata traseira.
A dor que Saphira sentiu não era dor.
Começaram de novo a andar à volta um do outro, rugindo e
uivando cada vez mais alto. Depois, Fírnen voltou a atacá-la,
aterrando sobre o seu pescoço e empurrando-lhe a cabeça para o
chão onde a prendeu, dando-lhe duas dentadas brincalhonas na
base do crânio.
Saphira não se debateu tão ferozmente como Eragon esperava,
pelo que ele calculou que ela se tivesse deixado apanhar por
Fírnen, pois nem Thorn o tinha conseguido fazer.
— Os rituais de acasalamento dos dragões não são nada
delicados — disse ele a Arya.
— Esperavas palavras e carícias ternas?
— Suponho que não.
Saphira sacudiu o pescoço e afastou Fírnen, recuando
apressadamente. Depois rugiu e rasgou o chão com as garras das
patas dianteiras. Nessa altura Fírnen ergueu a cabeça para o céu,
projetando um jorro ondulante de chamas verdes, com o dobro do
comprimento do seu corpo.
— Ah! — exclamou Arya, encantada.
— O que é?
— É a primeira vez que ele exala fogo!
Saphira exalou também um jato explosivo de chamas — Eragon
sentiu o calor a mais de quinze metros de distância. Depois
agachou-se e lançou-se para o ar, subindo na vertical. Fírnen
seguiu-a, instantes depois.
Eragon e Arya ficaram a ver os dois dragões cintilantes a
erguerem-se nos céus, descrevendo espirais em torno um do outro
e projetando jatos de chamas. Era uma imagem assombrosa: um
quadro selvático, belo e assustador. Eragon percebeu estar a
assistir a um ritual ancestral e elementar, um ritual que era parte
integrante da natureza sem o qual a terra definharia e morreria.
A sua ligação com Saphira enfraquecia à medida que a distância
entre eles aumentava, mas ainda sentia o calor da sua paixão a
escurecer a sua visão periférica, apagando todos os pensamentos
salvo os que eram induzidos pela necessidade instintiva a que todas
as criaturas estavam sujeitas, mesmo os Elfos.
Os dragões foram diminuindo de tamanho até não passarem de
duas estrelas cintilantes na imensidão do céu. Apesar da distância,
Eragon recebia alguns fragmentos de pensamentos e sensações de
Saphira e, embora ele tivesse vivido momentos semelhantes com os
Eldunarís quando estes tinham partilhado as suas memórias, sentiu
as faces e a ponta das orelhas quentes e deu consigo incapaz de
encarar Arya.
Ela também parecia afetada pelas emoções dos dragões,
embora de uma forma diferente, olhando para Saphira e Fírnen
com um ligeiro sorriso e os olhos mais brilhantes do que o habitual
— como se a visão dos dois dragões a enchesse de orgulho e de
felicidade.
Eragon deixou escapar um suspiro, agachou-se e começou a
desenhar na terra com um caule de erva.
— Foi rápido — disse ele.
— Pois foi — anuiu ela.
Ficaram assim durante alguns minutos: ela de pé e ele agachado.
Nada se ouvia em redor a não ser o vento solitário.
Por fim Eragon conseguiu olhar para Arya. Ela estava mais bela
do que nunca, mas, para além disso, viu nela a amiga, a aliada, a
mulher que ajudara a salvá-lo de Durza, que lutara ao seu lado
contra inúmeros inimigos, que fora aprisionada com ele em Dras-
Leona e que, finalmente, matara Shruikan com a Dauthdaert.
Lembrou-se do que ela lhe contara sobre a sua infância em
Ellesméra, sobre a relação difícil que mantinha com a mãe e sobre
as muitas razões que a tinham levado a abandonar Du
Weldenvarden e a prestar serviço como embaixatriz dos Elfos.
Pensou também nas mágoas que sofrera, algumas infligidas pela sua
mãe, outras derivadas do isolamento que sentira entre os humanos
e os Anões e, mais ainda, na altura em que perdera Faolin e
suportara as torturas de Durza, em Gil’ead.
Pensou em todas essas coisas e sentiu-se profundamente ligado
a ela. Sentiu também tristeza e subitamente desejou registar o que
estava a ver.
Enquanto Arya meditava de olhos postos no céu, Eragon olhou
em redor até ver um pedaço da rocha, semelhante a ardósia, saído
da terra. Fazendo o menor barulho possível, desenterrou o pedaço
de pedra com os dedos e sacudiu o pó até esta ficar limpa.
Demorou alguns momentos a recordar-se dos feitiços que uma
vez usara e a modificá-los de forma a poder extrair da terra em seu
redor todas as cores de que necessitava. Depois lançou o feitiço,
proferindo as palavras lentamente.
Uma sensação de movimento, como um redemoinho de água
lamacenta, surgiu à superfície da placa e, depois, apareceram cores
— vermelho, azul, verde e amarelo — sobre a superfície da ardósia,
que começaram a formar linhas e formas, enquanto se misturavam,
formando tonalidades mais subtis. Instantes depois, surgiu uma
imagem de Arya.
Mal terminou, quebrou o feitiço e estudou o retrato mágico.
Ficou satisfeito com o que viu. A imagem parecia ser uma
verdadeira e honesta representação de Arya, ao contrário do
retrato que fizera dela em Ellesméra. A que tinha agora nas mãos
apresentava uma profundidade que a outra não tinha. Não era uma
imagem perfeita em termos de composição, mas Eragon sentia-se
orgulhoso por ter conseguido captar tanto do seu caráter.
Conseguira aglutinar naquela imagem tudo o que conhecia de Arya
tanto a sombra como a luz.
Saboreou o prazer da sua realização durante mais alguns
instantes e, depois, atirou a placa para o lado a fim de a partir no
chão.
— Kausta — disse Arya e a placa descreveu uma curva no ar,
poisando nas suas mãos.
Eragon abriu a boca, com a intenção de se explicar ou pedir
desculpa, mas pensou melhor e silenciou.
Arya ergueu a imagem e estudou-a atentamente. Eragon
observava-a, interrogando-se como ela iria reagir.
Um longo minuto de tensão passou.
Depois Arya baixou a imagem.
Eragon levantou-se e esticou a mão para a placa, mas Arya não
fez qualquer gesto no sentido de a devolver. Parecia perturbada e
ele sentiu o coração a afundar-se no peito. O retrato incomodara-a.
Arya olhou-o nos olhos e disse na língua antiga:
— Eragon, gostaria de te revelar o meu verdadeiro nome, se
estiveres interessado em conhecê-lo.
A oferta dela deixou-o estupefato. Depois, acenou com a
cabeça, emocionado, e disse com grande dificuldade:
— Seria uma honra ouvi-lo.
Arya avançou, encostou-lhe os lábios ao ouvido e disse-lhe o
seu nome num sussurro quase inaudível. Ao dizê-lo, o nome vibrou
no interior da sua mente, acompanhado de uma torrente de
entendimento. Eragon já conhecia parte do nome, mas muitas das
outras partes surpreenderam-no, e certamente fora difícil para Arya
partilhá-las.
Depois Arya recuou e esperou pela sua reação, com uma
expressão diligentemente neutra.
O nome dela levantou-lhe inúmeras questões, mas Eragon sabia
que não era altura de as colocar. Em vez disso deveria tranquilizála,
demonstrando-lhe que não sentia menos consideração por ela
por ter sabido o que soube. E não sentia de fato. No mínimo, o
nome aumentara o respeito que sentia por ela, pois demonstrara-lhe
a verdadeira dimensão do seu altruísmo e da sua devoção ao
dever. Sabia que se reagisse mal ao seu nome — ou mesmo se
dissesse as palavras erradas inadvertidamente— destruiria a amizade
que existia entre eles.
Olhou Arya de frente e disse-lhe, também na língua antiga:
— O teu nome... o teu nome é um bom nome. Devias ter orgulho
de seres quem és. Obrigado por o partilhares comigo. Sinto-me
feliz por poder considerar-te minha amiga e prometo que o teu
nome ficará sempre em segurança comigo... Ouvirás agora o meu?
Ela acenou afirmativamente.
— Ouvirei e prometo recordá-lo e protegê-lo enquanto for teu.
Uma sensação de relevância apossou-se dele. Sabia que o que
estava prestes a fazer era irreversível, algo assustador e
emocionante. Avançou e fez o mesmo que Arya, encostando os
lábios ao ouvido dela e sussurrando o seu nome tão baixo quanto
possível. Todo o seu ser vibrou em reconhecimento das palavras.
Depois recuou, subitamente apreensivo. “Como iria ela julgá-lo?
Bem ou mal? Claro que o iria julgar. Não poderia deixar de o
fazer.”
Arya suspirou longamente e olhou, por instantes, para o céu.
Quando se virou de novo para ele, tinha uma expressão mais
branda.
— Também tens um bom nome, Eragon — disse ela, num tom
grave. — Contudo, não me parece que seja o nome que tinhas
quando partiste do Vale de Palancar.
— Não.
— Nem creio que fosse o nome que tinhas durante a tua estadia
em Ellesméra. — Amadureceste muito desde que nos conhecemos.
— Tive de amadurecer.
Arya acenou com a cabeça.
— Ainda és jovem, mas já não és uma criança.
— Não, de fato já não sou.
Eragon sentia-se mais atraído por ela que nunca. A troca de
nomes criara um laço entre eles. Só não sabia que tipo de laço era
e a sua incerteza deixou-o vulnerável. Ela vira-o com todos os seus
defeitos e não recuara, aceitando-o como era tal como ele a
aceitava a ela. Além disso, vira no seu nome a profundidade dos
seus sentimentos por ela e isso também não a afastara de si.
Ponderou se deveria dizer algo sobre o assunto, de qualquer
modo não podia deixar de o fazer. Por isso, ganhou coragem e
disse:
— Que futuro nos espera, Arya?
Ela hesitou, mas Eragon percebeu que ela entendera claramente
o significado da sua pergunta. Escolhendo cautelosamente as
palavras, Arya disse:
— ... Como sabes, em tempos teria dito “nada”, mas... Volto a
dizer: você ainda és jovem e os humanos mudam frequentemente de
ideias. Daqui a dez anos ou até mesmo cinco, poderás já não sentir
o que agora sentes.
— Os meus sentimentos não se modificarão — disse ele com uma
absoluta convicção.
Ela sondou-lhe o rosto demoradamente, com uma expressão
tensa. Depois Eragon viu algo mudar nos seus olhos e ela disse:
— Se não mudarem... talvez a seu tempo... — Poisou-lhe a mão
no queixo. — Não podes exigir mais de mim, agora. Não quero
cometer um erro contigo, Eragon. És demasiado importante, tanto
para mim, como para o resto de Alagaësia.
Ele tentou sorrir, mas conseguiu apenas fazer uma careta.
— Mas... nós não temos tempo — disse Eragon, com a voz
embargada. Sentia-se nauseado.
Arya franziu a testa e baixou a mão.
— O que queres dizer com isso?
Ele olhou para o chão tentando encontrar a forma de lhe dizer.
Finalmente, disse-o da maneira mais simples que lhe foi possível.
Explicou-lhe a dificuldade que Saphira e ele estavam a ter para
encontrar um local seguro para os ovos e para os Eldunarís e,
depois, falou-lhe do grupo de feiticeiros que Nasuada planeava
formar, para vigiar todos os feiticeiros humanos.
Passou alguns minutos a falar, dizendo por fim:
— Por isso Saphira e eu decidimos que a única coisa que
poderemos fazer é abandonar Alagaësia e criar os dragões noutro
local, longe das pessoas. É o melhor para nós, para os dragões,
para os Cavaleiros e todas as raças de Alagaësia.
— Mas os Eldunarís... — interpelou Arya, chocada.
— Os Eldunarís também não podem ficar. Nunca ficariam em
segurança, nem mesmo em Ellesméra. Desde que fiquem nesta
terra, haverá sempre quem os tente roubar ou usar para servir os
seus próprios desígnios. Não. Precisamos de um local como
Vroengard, um local onde ninguém possa encontrar os dragões
para lhes fazer mal e onde as crias e os dragões selvagens não
possam fazer mal a ninguém. — Eragon tentou voltar a sorrir, mas
desistiu pois era inútil. — Foi por isso que disse que não tínhamos
tempo. Saphira e eu tencionamos partir o mais brevemente possível
e se você ficares... não sei se nos voltaremos a ver.
Arya olhou de novo para a imagem mágica que segurava na
mão, com um ar perturbado.
— Abdicarias da tua coroa para nos acompanhares? — perguntou
ele, embora já soubesse a resposta.
Ela levantou os olhos.
— Abdicarias da guarda dos ovos?
Ele abanou a cabeça:
— Não.
Ficaram em silêncio por instantes, a ouvir o vento.
— Como irás encontrar candidatos a Cavaleiros? — perguntou
ela.
— Deixaremos alguns ovos — contigo, talvez — e, logo que estes
choquem, os dragões e os seus Cavaleiros reunir-se-ão a nós e nós
enviar-te-emos mais ovos.
— Deve haver outra solução que não essa de tu, Saphira e todos
os Eldunarís abandonarem Alagaësia!
— Se houvesse recorreríamos a ela, mas não há.
— E os Eldunarís? E Glaedr e Umaroth? Já falaste com eles
sobre isto? Eles concordam?
— Ainda não falámos com eles, mas eles vão concordar. Estou
certo disso.
— Tens a certeza de que é isso que deves fazer, Eragon? Será
mesmo a única solução? Deixares para trás tudo e todos os que
conheceste, desde sempre?
— É necessário e a nossa partida sempre esteve predestinada.
Angela vaticinou-a quando me leu a sina em Teirm e eu tive
bastante tempo para me habituar à ideia. — Esticou a mão e tocou
na face de Arya. — Por isso volto a perguntar: acompanhas-nos?
Uma fina camada de lágrimas surgiu nos seus olhos e ela apertou
o retrato mágico contra o peito.
— Não posso.
Ele acenou com a cabeça e afastou a mão.
— Nesse caso... seguiremos caminhos separados. — As lágrimas
afloraram-lhe e ele lutou para manter a compostura.
— Mas para já, não — sussurrou ela. — Ainda podemos passar
algum tempo juntos. Vocês não vão partir de imediato.
— Imediatamente, não.
Ficaram lado a lado a olhar para o céu, à espera que Saphira e
Fírnen voltassem. Passado algum tempo, Arya tocou-lhe na mão e
Eragon agarrou-a e, ainda que fosse apenas um pequeno consolo,
ajudou-o a entorpecer a dor no seu coração.

2 comentários:

  1. Shapira não perdeu tempo Kkk

    Será que Arya e Eragon não vão dar nenhum beijo? Mesmo que seja de despedida :/

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    Respostas
    1. LuaMara dragão Opala31 de julho de 2017 14:50

      não... pequeno ódio do C.P por isso.

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Boa leitura :)