24 de junho de 2017

Capítulo 71 - Herdeiro do Império

E
ragon subiu lentamente os degraus gastos da torre verde. O sol
estava prestes a pôr-se. Ele conseguia ver os edifícios raiados
de sombras de Urû’baen e os campos nevoentos fora da
cidade, através das janelas, na parede curva. E, à medida que subia
em espiral, distinguia o volume escuro da colina de pedra que se
erguia atrás.
A torre era alta e Eragon estava cansado. Teria preferido voar
com Saphira até ao topo. Fora um dia longo e a única coisa que
desejava, naquele momento, era sentar-se com Saphira a beber
uma caneca de chá quente, enquanto via a luz desaparecer do céu.
Mas, como sempre, ainda havia trabalho a fazer.
Viu Saphira apenas duas vezes, desde que tinham regressado à
cidadela, depois de se separarem de Murtagh e Thorn. Saphira
passara a tarde a ajudar os Varden a matar ou a capturar os
soldados que restavam e, mais tarde, a reunir em acampamentos as
famílias que tinham fugido das suas casas e se tinham dispersado
pelos campos enquanto esperavam para ver se a saliência se partia
e caía.
Os Elfos explicaram a Eragon que não caíra graças aos feitiços
que tinham sido introduzidos na pedra em eras passadas — quando
Urû’baen era ainda Ilirea — e também porque as dimensões da
saliência lhe permitiram suportar a força da explosão sem danos
significativos.
A própria colina ajudara a conter os resíduos nefastos da
explosão, embora muitos se tivessem escapado através da entrada
da cidadela. A maior parte daqueles que estavam no interior ou
perto da cidadela precisava de ser curado com magia, caso
contrário não tardariam a adoecer e a morrer. Muitos já tinham
adoecido e Eragon tentara salvar o maior número possível de
pessoas, juntamente com os Elfos. A energia dos Eldunarís
ajudara-o a curar muitos dos Varden e bastantes habitantes da
cidade.
Naquele preciso momento, os Elfos e os Anões muravam a
parte da frente da cidadela para evitar mais contaminações. Isto
depois de passarem revista ao edifício, à procura de sobreviventes
que ainda eram em grande número: soldados, criados e centenas de
prisioneiros que estavam nas masmorras, por baixo. O grande
depósito de tesouros no interior da cidadela, incluindo o recheio da
vasta biblioteca de Galbatorix, teria de ser resgatado mais tarde, o
que não seria uma tarefa fácil, pois as paredes de muitas das salas
tinham ruído e muitas outras, embora ainda estivessem de pé,
encontravam-se de tal forma danificadas que seriam um perigo para
quem se aventurasse a aproximar-se delas. Além disso, seria
necessário recorrer à magia para conter o veneno que se infiltrara
no ar, na pedra e em todos os objetos no interior do vasto labirinto
da fortaleza, e mais ainda para purificar todas as peças que
decidissem trazer cá para fora.
Logo que barricassem a cidadela, os Elfos expurgariam a cidade
e os campos em redor dos resíduos nefastos que os cobriam, para
que a área se tornasse de novo segura para viver, e Eragon sabia
que também os teria de ajudar nisso.
Antes de se reunir aos esforços para curar e erguer proteções
em torno da cidade e de todos os que estavam no interior ou nas
imediações de Urû’baen, passara mais de uma hora a usar o nome
da língua antiga para descobrir e desmantelar os inúmeros feitiços
que Galbatorix lançara nos edifícios e no povo da cidade. Alguns
dos encantamentos pareciam benignos — como, por exemplo, um
feitiço cujo único propósito era, aparentemente, evitar que as
dobradiças de uma porta rangessem e que drenava a sua energia de
uma peça de cristal, do tamanho de um ovo, montada na parte da
frente da porta. Mas Eragon não se atrevia a deixar nenhum dos
feitiços de Galbatorix intactos, por muito inofensivos que
parecessem, muito menos os feitiços lançados sobre os homens e
as mulheres que tinha ao seu serviço. Os mais comuns eram os
juramentos de lealdade, mas havia também proteções e
encantamentos para lhes conceder aptidões fora do normal e outros
feitiços mais misteriosos.
Ao libertar nobres e plebeus da sua escravidão, Eragon ouvia,
de vez em quando, um grito de angústia como se lhe tivesse
roubado algo de precioso.
O momento em que despojara os Eldunarís escravizados por
Galbatorix das restrições que o rei lhes impusera fora especialmente
crítico, pois os dragões começaram imediatamente a atacar e a
assaltar as mentes das pessoas que estavam na cidade sem fazerem
distinção entre amigos e inimigos. Uma atmosfera de pavor
alastrava por Urû’baen nessas alturas, e toda a gente — incluindo os
Elfos — se encolhia e empalidecia de pavor.
Depois disso, Blödhgarm e os dez feiticeiros que lhe restavam
prenderam a caravana de caixas de metal, que continham os
Eldunarís, a dois cavalos, conduzindo-as para fora de Urû’baen,
onde os pensamentos dos dragões já não produziam um efeito tão
intenso. Glaedr insistira em acompanhar os dragões enlouquecidos,
bem como alguns dos Eldunarís de Vroengard. Foi essa a segunda
vez que Eragon viu Saphira, depois do seu regresso, ao retificar o
feitiço que escondia Umaroth e os que o acompanhavam para que
os cinco Eldunarís pudessem serem distribuídos e entregues à
guarda de Blödhgarm. Glaedr e os cinco Eldunarís eram de opinião
que conseguiriam acalmar e comunicar com os dragões que
Galbatorix atormentara durante tanto tempo. Eragon não tinha
tantas certezas, embora esperasse que eles estivessem certos.
Enquanto os Elfos e os Eldunarí saíam da cidade, Arya
contactara-o, colocando-lhe uma série de perguntas, do lado de
fora do portão destruído, onde estava em conferência com os
capitães do exército da sua mãe. No breve lapso de tempo em que
as suas mentes se tocaram, ele sentiu a sua desolação pela morte
de Islanzadí e também a mágoa e a raiva que redemoinhavam por
baixo da sua dor, apercebendo-se de que as suas emoções
estavam prestes a dominá-la, bem como do esforço que fazia para
as conter. Tentou consolá-la o melhor que pôde, mas os seus
esforços pareciam insignificantes comparados com a perda.
Nessa altura, tal como agora, e desde que Murtagh partira,
Eragon fora atacado por uma sensação de vazio. Esperara sentir-se
rejubilante por terem matado Galbatorix e, embora estivesse
satisfeito — verdadeiramente satisfeito — pelo fato de o rei ter
desaparecido, já não sabia o que fazer. Alcançara o seu objetivo,
escalara a montanha impossível de alcançar e, agora, sem esse
propósito para o guiar e motivar, sentia-se perdido. O que iriam ele
e Saphira fazer das suas vidas? O que lhes poderia dar sentido? A
seu tempo, sabia que ambos iriam criar a próxima geração de
dragões e Cavaleiros, mas tal perspetiva parecia demasiado
distante para ser real.
Sentiu-se nauseado e esmagado ao ponderar nessas questões.
Tentou pensar noutra coisa, mas as perguntas continuavam a
massacrá-lo, algures no limiar da sua mente e a sensação de vazio
continuava.
Talvez a ideia de Murtagh e Thorn fosse a correta.
As escadas da torre verde pareciam não acabar. Continuou a
subir em espiral, até que as pessoas na rua se começassem a
assemelhar a formigas, e a barriga das pernas e a parte de trás dos
calcanhares lhe começassem a arder, devido ao movimento
repetitivo. Viu ninhos de andorinhas nas estreitas janelas e, por
baixo de uma, avistou uma pilha de pequenos esqueletos:
desperdícios de um falcão ou de uma águia.
Quando chegou ao fim da escada em caracol— uma grande porta
ogival, escurecida pelo tempo — fez uma pausa para reunir ideias e
permitir que a sua respiração abrandasse. Depois subiu os últimos
metros, ergueu a tranca e empurrou a porta que dava acesso à
grande câmara redonda, no topo da torre de vigia élfica.
Estavam seis pessoas à sua espera, juntamente com Saphira:
Arya e Däthedr, o elfo nobre de cabelo prateado, o rei Orrin,
Nasuada, o rei Orik e Grimrr Meia-pata, o rei dos meninos-gatos.
Todos aguardavam de pé — à exceção de Orrin que estava sentado
—, reunidos em círculo, a alguma distância uns dos outros. Saphira
estava do lado oposto da escada, diante da janela virada a sul, que
lhe permitira aterrar no interior da torre. A luz do sol poente
projetava-se em diagonal ao longo da sala, iluminando os entalhes
élficos nas paredes e o intrincado padrão de pedras coloridas no
chão lascado.
Todos pareciam tensos e desconfortáveis, à exceção de Saphira
e Grimrr. Eragon viu evidências da dor e perturbação nos olhos e
na linha rígida do pescoço dourado de Arya. “Quem lhe dera poder
fazer algo para lhe aliviar a dor.” Orrin estava sentado numa cadeira
funda, amparando o peito ligado com a mão esquerda, com um
copo de vinho na mão direita. Os seus gestos eram
exageradamente lentos, como se receasse magoar-se. Mas os seus
olhos estavam brilhantes e límpidos, por isso Eragon deduziu que
seria o ferimento e não a bebida que o estava a tornar cauteloso.
Däthedr batia ao de leve no pomo da sua espada e Orik estava de
mãos dobradas sobre a base do cabo de Volund — que apoiara
verticalmente no chão, diante de si — de olhos postos na barba.
Nasuada tinha os braços cruzados como se sentisse frio e Grimrr
Meia-pata, à direita, olhava para lá de uma janela aparentemente
alheado dos outros.
Quando Eragon abriu a porta, todos o olharam e um sorriso
espalhou-se pelo rosto de Orik:
— Eragon! — exclamou ele. Ergueu Volund sobre o ombro e
aproximou-se, agarrando-o pelo antebraço. — Eu sabia que
conseguirias matá-lo! Bravo! Hoje à noite iremos festejar,
combinado? Que as fogueiras brilhem alto e as nossas vozes se
façam ouvir até que os céus ecoem com o som das nossas
celebrações.
Eragon sorriu e acenou com cabeça. Orik bateu-lhe mais uma
vez no braço e regressou ao seu lugar, enquanto Eragon
atravessava a sala para junto de Saphira.
Pequenino, disse ela, roçando-lhe o focinho pelo ombro.
Ele esticou o braço e tocou-lhe no focinho rijo e escamoso,
consolando-se com a sua proximidade. Depois projetou um fio de
pensamento na direção dos Eldunarís que Saphira tinha ainda
consigo. Tal como ele, também eles estavam esgotados com os
acontecimentos do dia. Eragon percebeu que eles preferiam
observar e escutar a participar ativamente na discussão que estava
prestes a desenrolar-se.
Os Eldunarís cumprimentaram-no e Umaroth disse:
Eragon, mas depois ficou em silêncio.
Ninguém na sala parecia disposto a falar primeiro. Eragon ouviu
um cavalo a relinchar lá em baixo, na cidade. Perto da cidadela
ouvia-se o ruído de picaretas e cinzéis. O rei Orrin mexeu-se
desconfortavelmente na cadeira e bebeu um gole de vinho. Grimrr
coçou a orelha pontiaguda e farejou o ar, como se o provasse.
Finalmente, Däthedr quebrou o silêncio:
— Temos de tomar uma decisão — disse ele.
— Isso já nós sabemos, elfo — resmungou Orik.
— Deixa-o falar — disse Orrin, gesticulando com o seu cálice
adornado de jóias. — Eu gostaria de ouvir as suas ideias acerca da
forma como deveremos prosseguir. — Um sorriso amargo, algo
desdenhoso, surgiu-lhe no rosto e ele inclinou a cabeça na direção
de Däthedr como se estivesse a dar-lhe permissão para falar.
Däthedr retribuiu com um aceno de cabeça. Se ficara ofendido
com o tom do rei não o mostrou.
— É impossível esconder que Galbatorix morreu. As novas da
nossa vitória estão a espalhar-se pelo reino, neste preciso
momento, e, no final da semana grande parte de Alagaësia estará a
par da morte de Galbatorix.
— Tal como deveria ser — disse Nasuada. Trocara a túnica que
os carcereiros lhe tinham dado por um vestido vermelho escuro que
tornava ainda mais evidente o peso que perdera durante o seu
cativeiro, pois parecia pender-lhe dos ombros e destacava-lhe a
cintura agora terrivelmente fina. Mas, apesar da sua aparência
frágil, Nasuada parecia ter recuperado parte da força. Depois de
Eragon e Saphira regressarem à cidadela, Nasuada estivera à beira
de um colapso, por exaustão física e mental. Assim que Jörmundur
a vira, levara-a apressadamente para o acampamento, onde tinha
ficado em isolamento o resto do dia. Eragon não conseguira
consultá-la antes da reunião, por isso não sabia ao certo a sua
opinião sobre o assunto para a discussão do qual se tinham
reunido. Poderia contactá-la mentalmente, se necessário, embora
esperasse evitá-lo pois não queria perturbar a sua privacidade. Não
naquele momento, não depois de tudo o que se passara.
— Tal como deveria ser — disse Däthedr, num tom forte e claro,
sob o teto abobadado da elevada câmara circular. — Contudo, à
medida que as pessoas forem sabendo da queda de Galbatorix, a
primeira questão que se irão colocar é quem terá assumido o seu
lugar — disse Däthedr, fitando os rostos em redor. — Temos de lhes
dar uma resposta agora, antes que a inquietação se comece a
instalar. A nossa rainha morreu e vós, Orrin, estais ferido. Os
rumores vão multiplicar-se, tenho a certeza. É importante acabar
com eles antes que causem problemas. Adiar seria desastroso. Não
podemos permitir que cada nobre com algumas tropas acredite que
pode subir ao trono como monarca do seu insignificante território.
Se isso acontecer, o império desintegrar-se-á numa centena de
reinos diferentes e nenhum de nós deseja que isso aconteça. Temos
de escolher um sucessor — escolhê-lo e nomeá-lo —, por muito
difícil que isso seja.
Grimrr disse sem se virar:
— Não se pode liderar um bando, quando se é fraco.
O rei Orrin voltou a sorrir, mas os seus olhos estavam inquietos.
— E que papel tencionam desempenhar nesse processo, Arya,
Lorde Däthedr, rei Orik e rei Meia-pata? Agradecemos a vossa
amizade e a vossa ajuda, mas somos nós, humanos, que temos de
tomar essa decisão, não vocês. Nós governamo-nos a nós próprios
e não permitimos que outros escolham os nossos reis.
Nasuada esfregou os braços cruzados e, para surpresa de
Eragon, disse:
— Concordo. Isto é algo que temos de resolver sozinhos. —
Olhou para o outro lado da sala, fitando Arya e Däthedr. —
Certamente que compreenderão. Não nos permitiriam que vos
disséssemos quem deveriam nomear como vosso novo rei ou
rainha. — Olhou para Orik. — Nem os clãs nos teriam permitido
escolher o sucessor de Hrothgar.
— Não — anuiu Orik. — Certamente que não.
— É claro que a decisão é vossa — disse Däthedr. — Jamais
ousaríamos impor-vos o que tem de ser feito. Mas será que como
vossos amigos e aliados não conquistámos o direito de dar a nossa
opinião num assunto de peso como este, que nos afetará a todos?
Seja o que for que decidam terá certamente implicações de grande
envergadura. Seria sensato perceberem isso antes de fazerem a
vossa escolha.
Eragon compreendeu muito bem. Era uma ameaça. Däthedr
queria dizer que, se eles tomassem uma decisão que desagradasse
aos Elfos, isso teria desagradáveis consequências. Eragon resistiu
ao impulso de franzir a sobrancelha. Estava muita coisa em jogo e
qualquer erro poderia acabar por originar problemas durante
décadas.
— Isso parece-me... razoável — disse Nasuada, olhando de
relance para o rei Orrin.
Orrin olhou para o seu cálice e inclinou-o em círculo, girando o
líquido no seu interior.
— E como pensas aconselhar-nos a escolher, Lorde Däthedr, diz
lá. Estou bastante curioso.
O elfo fez uma pausa. O seu cabelo prateado emanava um brilho
difuso em torno da cabeça, sob a luz quente e baixa do poente.
— Quem quer que use a coroa terá de possuir a perícia e a
experiência necessárias para reinar eficazmente desde o início. Não
há tempo para instruir alguém acerca dos métodos de liderança,
tão-pouco estamos em condições de nos sujeitar aos erros de um
iniciado. Além disso, essa pessoa terá de ser moralmente capaz de
assumir um cargo tão importante. Ele ou ela terão de ser uma
escolha aceitável para os Varden e, em menor escala, para o povo
do Império. Se possível, essa pessoa deveria ser alguém que nós e
os outros aliados considerem agradável.
— As tuas exigências limitam bastante as nossas opções — disse o
rei Orrin.
— Apenas com o propósito de promover uma boa liderança. Ou
será que tens outras ideias acerca do assunto?
— Vejo várias opções que ignoraram ou descartaram, talvez pelo
fato de as considerarem desagradáveis. Mas não tem importância,
continua.
Däthedr franziu os olhos, mas continuou a falar num tom suave.
— A escolha mais óbvia — e a que o povo do Império
provavelmente espera — recai sobre a pessoa que matou
Galbatorix, ou seja, Eragon.
O ar na câmara tornou-se estaladiço como se fosse de vidro.
Todos olharam para Eragon, mesmo Saphira e o menino-gato e
ele sentiu que Umaroth e os outros Eldunarís também o estavam a
observar. Olhou para as pessoas em seu redor sem medo ou
irritação pelo fato de estar a ser alvo de escrutínio. Sondou o
rosto de Nasuada, tentando adivinhar algo nele, mas além da
solenidade da sua expressão não distinguiu nada que lhe indicasse o
que ela estava a pensar ou a sentir.
Inquietou-o perceber que Däthedr tinha razão: ele poderia
tornar-se rei.
Por momentos, Eragon decidiu considerar essa possibilidade.
Ninguém o poderia impedir de alcançar o trono, ninguém exceto
Elva e talvez Murtagh — mas, agora, ele sabia como contrariar as
aptidões de Elva e Murtagh já lá não estava para o desafiar.
Saphira não se iria opor a ele, fosse qual fosse a sua decisão, ele
sabia-o, e embora não conseguisse decifrar a expressão de
Nasuada, teve a estranha sensação de que ela se disporia, pela
primeira vez na vida, a abdicar, permitindo-lhe assumir o comando.
O que queres tu?, perguntou Saphira.
Eragon ponderou.
Quero ser... útil. O poder e o domínio sobre os outros — o que
Galbatorix buscava — não têm grande interesse para mim. De
qualquer forma, há outras responsabilidades a assumir.
Desviando a sua atenção para os que observavam, ele disse:
— Não. Não estaria certo.
O rei Orrin pigarreou e bebeu mais um gole de vinho. Arya,
Däthedr e Nasuada, por seu turno, pareceram descontrair-se,
mesmo que ligeiramente. Os Eldunarís pareciam também satisfeitos
com a sua decisão, embora não o verbalizassem.
— Fico feliz por te ouvir dizê-lo — comentou Däthedr. — Sem
dúvida que darias um bom governante, mas não creio que fosse
vantajoso para a tua raça, nem para as outras raças de Alagaësia,
que um outro Cavaleiro do Dragão assumisse a coroa.
Depois Arya fez sinal a Däthedr. O elfo de cabelo prateado
recuou um pouco e Arya disse:
— Roran seria uma outra escolha óbvia.
— Roran? — interpelou Eragon, incrédulo.
Arya fitou-o com um olhar solene. Os seus olhos brilhantes e
ferozes eram como esmeraldas lapidadas num padrão raiado, sob a
luz transversal.
— Foram as suas ações que permitiram aos Varden tomar
Urû’baen. Ele é o herói de Aroughs e de muitas outras batalhas. Os
Varden e o resto do Império segui-lo-iam sem hesitar.
— Ele é indelicado, sofre de excesso de confiança e não tem a
experiência necessária — disse Orrin. Depois olhou para Eragon
com uma expressão ligeiramente culpada. — Mas é um bom
guerreiro.
Arya piscou os olhos como uma coruja.
— Creio que não vos seria difícil concluir que a sua indelicadeza
depende de com quem lida... Majestade. Tendes, contudo, razão;
Roran não tem a experiência necessária, o que nos reduz a duas
opções: Nasuada ou vós, rei Orrin.
O rei Orrin voltou a mexer-se na cadeira funda e franziu mais a
testa, no entanto, a expressão de Nasuada não se alterou.
— Presumo que queiras reclamar o teu direito ao trono — disse
Orrin a Nasuada.
Ela levantou o queixo:
— Sim — disse num tom calmo e brando como água.
— Então estamos num impasse porque eu também quero. E não
tenciono ceder. — Orrin girou o pé do cálice entre os dedos. — A
única forma de resolvermos este assunto sem derramamento de
sangue é renunciares a esse direito. Se insistires em reclamá-lo,
acabarás por destruir tudo o que ganhámos hoje, e o caos que se
seguirá será da tua exclusiva responsabilidade.
— Seríeis capaz de vos virar contra os vossos aliados apenas
para recusardes o trono a Nasuada? — perguntou Arya. Talvez
Orrin não o entendesse, mas Eragon percebeu o significado da
postura dura e fria de Arya: prontidão para atacar e matar a
qualquer momento.
— Não — respondeu Orrin. — Virar-me-ia contra os Varden para
conquistar o trono. É diferente.
— Porquê? — perguntou Nasuada.
— Porquê? — A pergunta pareceu indignar Orrin. — O meu povo
alojou, alimentou e equipou os Varden. Os meus soldados
combateram e morreram ao lado dos vossos guerreiros.
Arriscámos muito mais do que os Varden, enquanto país. Os
Varden não têm lar. Se Galbatorix tivesse derrotado Eragon e os
dragões, vocês poderiam fugir e esconder-se, mas nós só podemos
ir para Surda. Galbatorix ter-nos-ia atacado como um raio vindo
das alturas, espalhando a destruição por toda a região. Nós
apostámos tudo — as nossas famílias, as nossas casas, as nossas
riquezas e a nossa liberdade. Depois de tudo isso, depois de todos
esses sacrifícios, achas que nos contentaríamos em regressar aos
campos com uma festa na cabeça e os vossos reais
agradecimentos? Bah! Mais depressa rastejaria. Regámos o chão
com o nosso sangue daqui até às Planícies Flamejantes e agora
teremos a nossa recompensa. — Cerrou o punho. — Agora
reclamaremos o nosso quinhão.
As palavras de Orrin não pareceram incomodar Nasuada, na
verdade ela mostrou-se pensativa, até mesmo compreensiva.
Certamente que ela não vai dar a este rafeiro raivoso o que ele
pretende, comentou Saphira.
Espera para ver, disse Eragon. Ainda é capaz de nos trocar as
voltas.
Arya disse:
— Estava a contar que vocês os dois chegassem a um acordo
amigável e...
— Claro — ripostou o rei Orrin —, e eu também o espero. —
Desviou o olhar para Nasuada. — Mas receio bem que a
determinação obstinada de Nasuada não lhe permita ver que, neste
caso, deveria ceder.
Arya prosseguiu:
— ... e, como Däthedr disse, não nos passaria pela cabeça
interferir com a vossa raça na escolha do vosso próximo
governante.
— Eu lembro-me — disse Orrin, com um sorriso sardónico.
— Contudo — continuou Arya —, como aliados oficiais dos
Varden, devo dizer-vos que encaramos qualquer ataque a eles
dirigido como se fosse dirigido a nós, e reagiremos em
conformidade.
Orrin franziu o rosto como se tivesse mordido algo amargo.
— O mesmo se aplica a nós, Anões — disse Orik, num tom
áspero como pedras a roçarem umas nas outras nas entranhas da
terra.
Grimrr Meia-pata ergueu a mão mutilada, examinando as unhas
semelhantes a garras nos três dedos que lhe restavam.
— Não nos interessa quem seja nomeado rei ou rainha, desde
que nos garantam o lugar que nos prometeram junto ao trono.
Ainda assim, foi com Nasuada que o negociámos, e é Nasuada que
continuaremos a apoiar até que deixe de ser o líder do bando dos
Varden.
— Ah, ha! — exclamou o rei Orrin, inclinando-se para a frente
com a mão apoiada no joelho. — Mas ela já não é líder dos Varden.
Eragon é o atual líder!
Todos os olhares se viraram de novo para Eragon. Ele torceu o
nariz e disse:
— Julgava que tinha ficado claro que devolvi a minha autoridade a
Nasuada, no momento em que ela ficou livre. Se assim não foi,
quero deixar bem claro que o líder dos Varden é Nasuada e não eu
e, na minha opinião, deveria ser ela a herdar o trono.
— Tinhas de dizer isso — disse o rei Orrin com um sorriso
escarninho. — Juraste-lhe lealdade. É claro que achas que devia ser
ela a herdar o trono. Não passas de um servo leal a erguer-se em
defesa do seu amo, e as tuas opiniões valem tanto como as
opiniões dos meus próprios servos.
— Não! — reagiu Eragon. — Você está enganado. Se eu achasse que tu
ou qualquer outra pessoa poderia ser melhor líder, admiti-lo-ia!
Sim, jurei lealdade a Nasuada, mas isso não me impede de dizer a
verdade quando a reconheço.
— Talvez, mas a tua lealdade para com ela afeta o teu
discernimento.
— Da mesma forma que a tua lealdade a Surda afeta o teu —
ripostou Orik.
O rei Orrin franziu a sobrancelha.
— Porque será que se viram sempre contra mim? — perguntou
ele, enfaticamente, olhando para Eragon, Arya e Orik. — Porque é
que ficam sempre do lado dela em todas as disputas? — O vinho
saltou pela borda do copo, quando ele apontou para Nasuada. —
Porque é que ela merece o vosso respeito e eu e o povo de Surda
não? Favorecem sempre Nasuada e os Varden e, antes dela, era
Ajihad. Se o meu pai fosse vivo...
— Se o vosso pai, o rei Larkin, fosse vivo — disse Arya — não
estaria aí sentado a lamentar-se pela forma como os outros o veem,
faria alguma coisa em relação a isso.
— Calma — disse Nasuada antes que Orrin ripostasse. — Não há
necessidade de se insultarem... Orrin as tuas preocupações são
pertinentes. Tens razão o povo de Surda contribuiu muito para a
nossa causa. Admito com toda a sinceridade que sem a vossa
ajuda jamais teríamos conseguido atacar o Império como
atacámos. Pelo que merecem uma recompensa pelo que
arriscaram, gastaram e perderam no decurso desta guerra.
O rei Orrin acenou com a cabeça, mostrando-se satisfeito.
— Então cedes?
— Não — disse Nasuada, mais calma do que nunca. — Isso não.
Mas tenho uma contra-proposta que talvez satisfaça os teus
interesses. — Orrin fez um ruído inconformado, mas não
interrompeu. — A minha proposta é a seguinte: grande parte do
território que conquistámos, tornar-se-á parte de Surda. Aroughs,
Feinster e Melian serão tuas, bem como as ilhas, a Sul, logo que
estejam sob o nosso domínio. Com esta aquisição, Surda ficará
quase com o dobro do tamanho.
— E o que pretendes em troca? — perguntou Orrin, arqueando a
sobrancelha.
— Em troca, pretendo que jures lealdade ao trono de Urû’baen e
a quem se sentar nele.
Orrin fez um esgar.
— E você tornar-te-ias Rainha Suprema do Império.
— Estes dois reinos — o Império e Surda — têm de se unir se
quisermos evitar futuras hostilidades. Continuarias a governar Surda
como entendesses, exceto num aspecto: os feiticeiros de ambos os
países ficariam sujeitos a determinadas restrições, cuja natureza
decidirei mais tarde. Para além dessas regulamentações, Surda
contribuiria inerentemente para a defesa de ambos os territórios. Se
algum dos nossos países fosse atacado, o outro garantir-lhe-ia
auxílio sob a forma de homens e material.
O rei Orrin poisou o cálice direito sobre o colo e olhou para ele.
— Volto a perguntar: porque haverias de ser você a subir ao trono e
não eu? A minha família governa Surda desde que Lady Matelda
ganhou a batalha de Cithrí, fundando dessa forma Surda e a Casa
de Langfeld. A nossa linhagem remonta a Thanebrand e ao próprio
rei Giver. Enfrentámos e combatemos o Império durante um século.
Foi o nosso ouro, as nossas armas e as nossas armaduras que
permitiram que os Varden existissem e que vos sustentaram ao
longo dos anos. Sem o nosso apoio, ter-vos-ia sido impossível
resistir a Galbatorix. Nem os Anões nem os Elfos poderiam
fornecer-vos tudo o que precisavam, à distância que estavam, por
isso volto a perguntar: porque haveria de te caber a ti esta
recompensa e não a mim, Nasuada?
— Porque acredito que serei uma boa rainha — respondeu
Nasuada. — E porque acredito ser o melhor para o nosso povo e
para toda a Alagaësia, à semelhança de tudo o que fiz enquanto
líder dos Varden.
— Tens-te muito em conta.
— A falsa modéstia nunca foi digna de admiração, muito menos
entre aqueles que comandam. Não demonstrei largamente a minha
capacidade de liderança? Se não fosse eu, os Varden estariam
encolhidos no interior de Farthen Dûr, à espera que um sinal divino
lhes revelasse o momento certo para atacar Galbatorix. Fui eu que
conduzi os Varden de Farthen Dûr até Surda e que fiz deles um
exército poderoso. Com a tua ajuda, sim, mas fui eu que os conduzi
e fui eu que assegurei a ajuda dos Anões, dos Elfos e dos Urgals.
Terias conseguido fazer tanto? Seja quem for que reinar em
Urû’baen, terá de lidar com todas as raças do reino e não apenas
com a nossa. E isso foi o que eu fiz e farei, repito. — Depois
Nasuada continuou num tom mais suave, embora mantivesse uma
expressão mais firme do que nunca. — Porque queres isto, Orrin?
Ficarias mais feliz?
— Não é uma questão de felicidade — rosnou ele.
— Em parte é. Queres realmente governar todo o Império, para
além de Surda? Quem conquistar o trono terá uma pesada tarefa à
sua frente. Há um país para reconstruir: tratados para negociar,
cidades por conquistar, nobres e feiticeiros para dominar.
Levaremos uma vida inteira para começar a reparar a destruição
que Galbatorix semeou. Queres realmente assumir essa
responsabilidade? Parece-me que preferirias que a tua vida fosse
como em tempos. — Nasuada desviou o olhar para o cálice e
depois voltou a olhar para ele. — Se aceitares a minha oferta,
poderás voltar para Alberon e retomar as tuas experiências em
Filosofia Natural. Não gostarias de o fazer? Surda será maior e
mais rica, e você terás a possibilidade de te dedicares aos teus
interesses.
— Nem sempre podemos fazer o que queremos. Às vezes temos
de fazer o que está certo e não o que queremos — disse o rei Orrin.
— Certo, mas...
— Além disso, se eu fosse rei em Urû’baen, conseguiria dedicarme
aos meus interesses tão facilmente como em Alberon. —
Nasuada franziu a sobrancelha, mas antes que conseguisse falar, Orrin
continuou: — você não entendes... — disse ele, franzindo a sobrancelha e
bebendo mais um gole de vinho.
Então explica-nos, disse Saphira, cuja impaciência era notória, a
avaliar pela cor dos seus pensamentos.
Orrin resfolgou, esvaziou o cálice e atirou-o contra a porta das
escadas, amolgando o ouro do copo. Algumas jóias saltaram dos
entalhes, rodopiando tremulamente pelo chão.
— Não posso — rugiu ele —, nem me vou dar ao trabalho de
tentar. — E olhou furioso à volta da sala. — Nenhum de vocês iria
entender. Estão demasiado apegados à vossa própria importância
para verem. Como poderiam ver se nunca viveram aquilo que eu
vivi? — E voltou afundar-se na cadeira. Os seus olhos pareciam dois
pedaços de carvão sob as saliências da testa. Depois, dirigindo-se
a Nasuada disse: — Você está determinada? Não abdicas do teu direito?
Ela abanou a cabeça.
— E se eu decidir reclamar o meu direito ao trono?
— Nesse caso, entraremos em conflito.
— E vocês os três vão tomar o partido dela? — perguntou Orrin,
olhando sucessivamente para Arya, Orik e Grimmr.
— Se os Varden forem atacados, nós lutaremos a seu lado —
respondeu Orik.
— Tal como nós — acrescentou Arya.
O rei Orrin sorriu, mais como se arreganhasse os dentes.
— Não vos passaria pela cabeça dizer quem deveríamos escolher
como líder, não é verdade?
— Claro que não — disse Orik, revelando os dentes brancos por
entre a barba, num sorriso perigoso.
Depois, Orrin voltou a centrar-se em Nasuada.
— Quero Belatona em conjunto com as outras cidades que
mencionaste.
Nasuada ponderou por instantes:
— Com Feinster e Aroughs, ganhas duas cidades portuárias, três
se contares com Eoam na Ilha de Beirland. Dou-te Furnost em vez
disso e ficarás com o Lago Tüdosten, tal como eu ficarei com o
Lago Leona.
— O Leona é mais valioso que o Tüdosten, pois garante o acesso
às montanhas e à costa norte — fez notar Orrin.
— Sim, mas você já tens acesso ao Lago Leona por Dauth e pelo
Rio Jiet.
O rei Orrin olhou para o chão e ficou em silêncio. Lá fora, o sol
mergulhou no horizonte, iluminando algumas nuvens pequenas. O
céu começou a escurecer e surgiram as primeiras estrelas: ténues
pontos de luz numa vastidão arroxeada. Levantou-se uma brisa
ligeira e, ao ouvi-la roçar nas paredes da torre, Eragon distinguiu
também o restolhar das urtigas serrilhadas.
Quanto mais esperavam mais provável lhe parecia que Orrin
recusasse a oferta de Nasuada, ou que ali ficasse sentado em
silêncio durante toda a noite.
Entretanto o rei mudou de posição e levantou os olhos:
— Muito bem — disse ele em voz baixa. — Desde que respeites os
termos do nosso acordo, eu não te desafiarei para suceder a
Galbatorix... Majestade.
Eragon foi percorrido por um arrepio ao ouvir Orrin proferir
aquelas palavras.
Nasuada avançou até ao centro da sala aberta, com uma
expressão sombria. Depois, Orik bateu com a base do cabo de
Volund contra o chão e proclamou:
— O rei está morto, viva a Rainha!
— O rei está morto, viva a Rainha! — gritaram Eragon, Arya,
Däthedr e Grimrr. O menino-gato esticou os lábios, revelando os
caninos e Saphira deixou escapar um ronco agudo e triunfante, que
ecoou pelo teto angular e pela cidade coberta de pó, lá ao fundo.
Um sentimento de aprovação emanou dos Eldunarís.
Nasuada estava hirta, com uma expressão orgulhosa e as
lágrimas a cintilarem-lhe, sob a luz mortiça.
— Obrigada — disse ela, demorando o olhar em cada um deles.
Ainda assim, os seus pensamentos pareciam estar num outro lugar e
em torno dela havia uma aura de tristeza, na qual Eragon
desconfiou só ele ter reparado.
A escuridão cobriu a paisagem, onde apenas o topo da torre
brilhava como um farol solitário, muitos metros acima da cidade.

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