24 de junho de 2017

Capítulo 70 - Um mar de urtigas

Escuridão e silêncio dentro dessa escuridão.
Eragon sentiu o corpo a deslizar até parar e depois... nada.
Conseguia respirar mas o ar parecia viciado, sem vida, e
sempre que tentava mexer-se a pressão sobre o feitiço aumentava.
Tocou nas mentes de todos os que estavam consigo para se
certificar de que conseguira salvá-los a todos. Elva estava
inconsciente e Murtagh praticamente inconsciente, mas ambos
estavam vivos, tal como os outros.
Era a primeira vez que Eragon entrava em contato com a mente
de Thorn, mas ao fazê-lo, o dragão vermelho pareceu retrair-se.
Os seus pensamentos pareciam mais sombrios e distorcidos que os
de Saphira, mas havia nele uma força e uma nobreza que
impressionou Eragon.
Não podemos manter este feitiço durante muito mais tempo,
disse Umaroth, num tom de voz tenso.
Têm de o manter, disse Eragon. Se não o fizerem, morreremos.
Passaram-se mais alguns segundos.
Inesperadamente uma luz inundou os olhos de Eragon e uma
explosão assaltou-lhe os ouvidos.
Ele encolheu-se e pestanejou enquanto os seus olhos se
adaptavam à luz.
Através do ar carregado de fumaça, viu uma enorme cratera
cintilante, no lugar onde Galbatorix estivera. A pedra incandescente
pulsava como carne viva, varrida à superfície por correntes de ar.
O teto também brilhava e a imagem assustou-o. Era como se
estivessem dentro de um gigantesco caldeirão.
Um travo a ferro pairava no ar.
As paredes da sala estavam rachadas e as colunas, os entalhes e
as lanternas tinham sido pulverizados. Na parte de trás da sala
estava o cadáver de Shruikan, cuja carne fora, em grande parte,
arrancada dos ossos enegrecidos pela fuligem. A explosão
estilhaçara as paredes de pedra, na parte da frente da sala, bem
como as outras para lá destas, ao longo de mais de cem metros,
expondo um verdadeiro labirinto de túneis e salas. As belas portas
douradas que protegiam a entrada para a câmara tinham sido
arrancadas das dobradiças e Eragon julgou ver a luz do dia, do
lado oposto do corredor de quatrocentos metros que conduzia ao
exterior.
Ao levantar-se, percebeu que a sua proteção continuava a
drenar energia dos dragões, mas de uma forma menos rápida.
Um pedaço de pedra, do tamanho de uma casa, caiu do teto e
aterrou ao lado da cabeça de Shruikan, onde se estilhaçou numa
dúzia de fragmentos. Em redor, as rachas nas paredes continuavam
a alastrar, produzindo rangidos sinistros por toda a parte.
Arya aproximou-se das duas crianças, agarrou o rapaz pela
cintura e subiu para o dorso de Saphira com ele. Lá de cima,
apontou para a menina e disse a Eragon:
— Atira-ma!
Eragon perdeu um instante a embainhar Brisingr, agarrando
depois na menina e atirando-a a Arya, que a agarrou de braços
esticados.
Ele virou-se e passou de lado por Elva, aproximando-se
apressadamente de Nasuada.
— Jierda! — disse ele, colocando a mão sobre as grilhetas que a
prendiam ao bloco de pedra cinzenta. O feitiço pareceu não
produzir qualquer efeito, por isso ele quebrou-o de imediato, antes
que lhe consumisse demasiada energia.
Nasuada fez um ruído insistente e Eragon tirou-lhe o pano com
nós que ela tinha na boca.
— Tens de encontrar a chave! — disse ela. — O carcereiro de
Galbatorix tem-na com ele.
— Jamais o conseguiremos encontrar a tempo! — Eragon voltou a
desembainhar Brisingr e golpeou a corrente ligada à grilheta que lhe
prendia a mão esquerda. A espada ricocheteou nos elos, com uma
reverberação áspera, sem sequer arranhar o metal baço. Golpeoua
uma segunda vez, mas a espada parecia não afetar minimamente a
corrente.
Outro pedaço de pedra caiu do teto, batendo ruidosamente no
chão.
Uma mão agarrou-lhe o braço. Ele virou-se e viu Murtagh atrás
de si, apertando o ferimento no estômago com o braço.
— Desvia-te! — rugiu ele e Eragon assim o fez. Murtagh proferiu o
nome de todos os nomes, tal como fizera antes, dizendo depois a
palavra jierda. E as grilhetas de ferro abriram-se, caindo dos
membros de Nasuada.
Murtagh agarrou-lhe no pulso e guiou-a na direção de Thorn.
Depois do primeiro passo, Nasuada deslizou para baixo do seu
braço, deixando que Murtagh apoiasse o peso do corpo sobre os
seus ombros.
Eragon abriu a boca, fechando-a de seguida. Guardaria as
perguntas para mais tarde.
— Espera! — gritou Arya, saltando de cima de Saphira e correndo
na direção de Murtagh. — Onde está o ovo e os Eldunarís? Não os
podemos deixar aqui!
Murtagh franziu a sobrancelha e Eragon sentiu a informação fluir
entre ele e Arya.
Arya virou-se, com o cabelo queimado a esvoaçar, e correu
para uma entrada do lado oposto da sala.
— É demasiado perigoso! — gritou-lhe Eragon. — Este sítio está a
cair! Arya!
Vai, disse ela. Leva as crianças para um local seguro. Vai! Não
tens muito tempo!
Eragon praguejou. “Ao menos poderia ter levado Glaedr com
ela.” Voltou a embainhar Brisingr e curvou-se, pegando em Elva,
que começava a mexer-se.
— O que se passa? — perguntou ela a Eragon enquanto este a
levava para o dorso de Saphira, para trás das outras duas crianças.
— Vamos embora — disse ele. — Segura-te!
Saphira estava já em movimento. Contornou a cratera,
coxeando um pouco da pata ferida e Thorn seguiu-a de perto, com
Murtagh e Nasuada no dorso.
— Cuidado! — gritou Eragon, ao ver um pedaço do teto cintilante
a soltar-se, mesmo por cima deles.
Saphira desviou-se de repente para a esquerda e o pedaço
aguçado de pedra aterrou junto dela, projetando lascas cor de
palha em todas as direções. Uma delas atingiu Eragon no flanco,
alojando-se na sua cota de malha. Ele tirou-a e lançou-a fora. Tinha
fumo a ondular dos dedos das luvas e cheirou-lhe a cabedal
queimado. Caíram mais pedaços de pedra noutros pontos da sala.
Quando Saphira chegou à entrada do corredor, Eragon torceuse
e olhou para Murtagh que vinha atrás.
— E as armadilhas? — gritou ele.
Murtagh abanou a cabeça e fez-lhes sinal para que
prosseguissem.
Grande parte do chão, ao longo do corredor, estava coberto de
grandes quantidades de pedras partidas, o que atrasou os dragões.
Eragon conseguia ver as salas e os túneis esventrados pela
explosão, atafulhados de entulho. Dentro deles ardiam mesas,
cadeiras e outras peças de mobiliário. Viam-se membros de mortos
e moribundos, torcidos em ângulos estranhos, que saíam debaixo
das pedras tombadas e, de vez em quando, um rosto ou uma nuca.
Eragon procurou Blödhgarm e os outros feiticeiros, mas não viu
qualquer sinal deles, mortos ou vivos.
Mais à frente, no corredor, centenas de pessoas — tanto
soldados como criados — saíam pelas entradas contíguas, correndo
para a entrada do corredor, agora escancarada. Muitos deles
tinham os membros partidos, queimaduras, arranhões e outros
ferimentos. Os sobreviventes desviaram-se para dar passagem a
Saphira e a Thorn mas, tirando isso, não deram atenção aos
dragões.
Saphira estava quase ao fundo do corredor, quando ouviram um
estrondo atroador atrás deles. Eragon olhou e viu que a sala do
trono se desmoronara, soterrando o chão da câmara sob um
amontoado de pedras de quinze metros de altura.
“Arya!”, pensou Eragon. Tentou encontrá-la com a sua mente,
mas não conseguiu. Ou tinham demasiados destroços entre si, ou
um dos feitiços associados ao penhasco minado estava a bloquear
a comunicação. Ou então — e essa era a hipótese que menos lhe
agradava — Arya estava morta. Ela não se encontrava na sala
quando esta se desmoronara, disso ele tinha a certeza. Mas será
que conseguiria ela encontrar o caminho de volta, agora que a sala
do trono estava obstruída?
Ao saírem da cidadela, o ar clareou e Eragon conseguiu ver a
destruição que a explosão semeara por Urû’baen. Tinha arrancado
o telhado de ardósia de muitos dos edifícios mais próximos e
incendiado as vigas por baixo. Inúmeros fogos salpicavam o resto
da cidade. Colunas e filamentos de fumaça erguiam-se no ar até
colidirem com o teto da saliência, por cima da cidade, onde se
acumulavam, fluindo pela superfície inclinada da pedra, como água
no leito de um riacho. No extremo sudoeste da cidade, a fumaça
apanhou a luz da manhã que se escoava de um dos lados da
saliência, brilhando com a cor vermelha-alaranjada de uma opala
de fogo.
O povo de Urû’baen fugia das suas casas, percorrendo as ruas
em direção ao buraco na muralha exterior. Os soldados e os
criados da cidadela apressaram o passo para se reunirem a eles,
dando um amplo espaço de manobra a Saphira e a Thorn,
enquanto atravessavam o pátio em frente da fortaleza. Eragon não
lhes deu grande atenção. Desde que se comportassem
pacificamente, pouco lhe importava o que fizessem.
Saphira parou a meio do pátio quadrangular e Eragon
transportou Elva e as duas crianças sem nome para o chão.
— Sabem onde estão os vossos pais? — perguntou ele,
ajoelhando-se junto dos irmãos.
Eles acenaram com a cabeça e o rapaz apontou para uma
grande casa, do lado esquerdo do pátio.
— É ali que vivem?
O rapaz voltou a acenar com a cabeça.
— Então, vão — disse Eragon, empurrando-os delicadamente. E
as crianças correram de imediato pelo pátio, em direção ao edifício.
As portas da casa abriram-se, de repente, e um homem careca,
com uma espada, saiu para o exterior, envolvendo-os a ambos nos
braços. Olhou de relance para Eragon, apressando-se a guiar as
crianças para dentro.
Esta foi fácil, disse Eragon a Saphira.
Galbatorix deve ter mandado os seus homens procurar as crias
que estivessem mais à mão, respondeu ela, pois não lhe demos
tempo para muito mais.
Suponho que não.
Thorn estava a alguns metros de Saphira. Nasuada ajudou
Murtagh a desmontar e este encostou-se à barriga de Thorn.
Depois, Eragon ouviu-o a recitar feitiços de cura.
Eragon tratou também dos ferimentos de Saphira, ignorando os
seus, pois os dela eram mais graves. O golpe na pata dianteira,
esquerda, era mais largo do que as suas duas mãos juntas, e ela já
tinha uma poça de sangue em torno da pata.
Dentes ou garras?, perguntou ele, ao examinar o ferimento.
Garras, disse ela.
Eragon usou a energia de Saphira, bem como a de Glaedr para
lhe curar o ferimento. Quando terminou, concentrou-se nos seus
ferimentos, começando pela dor ardente que sentia ao longo do
flanco, onde Murtagh o trespassara.
Mesmo enquanto trabalhava, ficou de olho em Murtagh, e viu-o
sarar o seu ferimento no ventre, a asa partida de Thorn e os outros
golpes do dragão. Nasuada ficou sempre junto dele, com a mão no
seu ombro. Eragon vira-o recuperar Zar’roc, à saída da sala do
trono.
Eragon concentrou-se depois em Elva, que estava ali perto.
Parecia dorida, mas não viu sangue.
— Você está ferida? — perguntou ele.
Ela franziu a testa e abanou a cabeça.
— Não, mas muitos deles estão — respondeu-lhe, apontando para
as pessoas que fugiam da cidadela.
— Mmm. — Eragon voltou a olhar de relance para Murtagh. Ele e
Nasuada estavam agora de pé, e falavam um com o outro.
Nasuada franziu a sobrancelha.
Depois Murtagh esticou o braço, agarrou-lhe na gola da túnica e
puxou-a para o lado, rasgando-lhe o tecido.
Eragon já tinha desembainhado Brisingr até meio, quando viu a
teia de vergões por baixo da clavícula de Nasuada. Aquela visão
atingiu-o como um soco, recordando-lhe os ferimentos de Arya,
quando ele e Murtagh a tinham resgatado de Gil’ead.
Nasuada acenou e baixou a cabeça.
Murtagh começou de novo a falar, desta vez na língua antiga.
Colocou as mãos sobre as diferentes partes do corpo de Nasuada,
tocando-lhe delicadamente — hesitante, até —, e a sua expressão de
alívio foi o suficiente para Eragon perceber as dores que ela sentia.
Eragon observou-os durante mais uns instantes e foi percorrido
por uma súbita vaga de emoção. Os seus joelhos fraquejaram e ele
sentou-se sobre a pata direita de Saphira. Esta baixou a cabeça,
tocando-lhe ao de leve no ombro, com o focinho, e ele encostou a
cabeça.
Conseguimos, disse ela, em voz baixa.
Conseguimos, disse ele, nem acreditando nas próprias palavras.
Eragon sentiu que Saphira estava a pensar na morte de Shruikan.
Por muito perigoso que o dragão fosse, ela não podia deixar de
chorar a morte de um dos últimos membros da sua raça.
Eragon agarrou-se às suas escamas. Sentia-se leve, quase
estonteado, como se fosse flutuar para longe da superfície terrestre.
E agora?...
Agora reconstruímos, disse Glaedr, cujas emoções eram uma
curiosa mistura de satisfação, mágoa e cansaço. Portaste-te bem,
Eragon. Ninguém se lembraria de atacar Galbatorix como você o
fizeste.
Eu só queria que ele entendesse, murmurou ele, num tom
fatigado. Se Glaedr o ouviu, decidiu não responder.
O traidor está finalmente morto, alardeou Umaroth.
Parecia impossível que Galbatorix já não existisse. Ao pensar no
assunto, algo pareceu desbloquear-se na sua mente e Eragon
recordou tudo o que acontecera no Cofre das Almas, como se
nunca o tivesse esquecido.
Sentiu um formigueiro a percorrer-lhe o corpo.
Saphira...
Eu sei, disse ela, com um entusiasmo crescente. Os ovos!
Eragon sorriu. Ovos! Ovos de dragão! A sua raça já não iria
mergulhar no vazio. Iriam sobreviver, florescer e recuperar a antiga
glória, anterior à queda dos Cavaleiros.
Depois, Eragon foi assaltado por uma horrível suspeita.
Fizeram-nos esquecer mais alguma coisa?, perguntou ele a
Umaroth.
Se o fizemos, como poderíamos saber?, respondeu o dragão
branco.
— Olha! — gritou Elva, apontando.
Eragon virou-se e viu Arya a sair das entranhas sombrias da
cidadela. Blödhgarm e os outros feiticeiros estavam com ela,
contundidos e arranhados, mas vivos. Arya trazia nos braços um
baú de madeira com fechos de ouro. Uma longa fila de caixas
metálicas — cada uma do tamanho de uma carroça — flutuavam atrás
dos elfos, a alguns centímetros do chão.
Exultante, Eragon levantou-se num salto e correu para eles.
— Estão vivos! — disse, surpreendendo Blödhgarm, ao agarrar-se
ao elfo coberto de pelo, e abraçou-o.
Blödhgarm fitou-o por instantes, com os seus olhos amarelos, e
depois sorriu, mostrando os caninos.
— Estamos vivos, Matador de Espectros.
— Isso são os... Eldunarís? — perguntou Eragon, proferindo a
palavra num tom suave.
Arya acenou afirmativamente.
— Estavam no tesouro de Galbatorix. Teremos de lá voltar um
dia, pois há muitas coisas maravilhosas escondidas.
— Como estão eles? Os Eldunarís, quero dizer.
— Confusos. Levarão anos a recuperar, se o conseguirem.
— E isso é... — Eragon apontou para o baú que ela trazia. Arya
olhou em redor, certificando-se de que ninguém estava
suficientemente perto para ver, e levantou a tampa à altura de um
dedo. Lá dentro, aninhado em veludo, Eragon viu um belo ovo de
dragão, verde, com uma teia de veios brancos.
A alegria estampada no rosto de Arya iluminou o coração de
Eragon. Ele sorriu e acenou aos outros Elfos. Quando todos se
reuniram em torno dele, Eragon sussurrou na língua antiga, falandolhes
acerca dos ovos que estavam em Vroengard.
Eles não gritaram nem riram, mas os seus olhos brilharam e
todos vibraram de excitação. Ainda a sorrir, Eragon saltou sobre os
calcanhares, encantado com a reação deles.
Depois Saphira disse:
Eragon!
Ao mesmo tempo Arya franziu a sobrancelha e interpelou:
— Onde estão Thorn e Murtagh?
Eragon desviou o olhar e viu Nasuada sozinha no pátio. Junto
dela estava um par de alforges que Eragon não se lembrava de ver
em Thorn. O vento varreu o pátio e ele ouviu o som de asas, mas
nem Murtagh nem Thorn estavam visíveis.
Eragon projetou os seus pensamentos para o local onde achava
que eles poderiam estar e sentiu-os de imediato, pois as suas
mentes não se encontravam escondidas. No entanto, recusaram-se
a falar com ele ou a ouvi-lo.
— Raios —murmurou Eragon, correndo na direção de Nasuada.
Ela tinha lágrimas nas faces e parecia prestes a perder a
compostura.
— Onde vão eles?
— Vão-se embora. — O seu queixo tremeu. Depois respirou
fundo, expirou e endireitou-se.
Praguejando de novo, Eragon curvou-se e abriu os alforges.
Dentro deles havia vários Eldunarís pequenos, em caixas
acolchoadas.
— Arya! Blödhgarm! — gritou ele, apontado para os alforges, e os
dois elfos acenaram com a cabeça.
Eragon correu para junto de Saphira. Não teve de se explicar
pois ela entendeu-o. Enquanto subia para o seu dorso, Saphira
abriu as asas, e logo que ele se instalou na sela, levantou voo.
Ouviram-se vivas pela cidade, quando os Varden a viram.
Saphira batia as asas velozmente, seguindo o rasto almiscarado
de Thorn. Este conduziu-a para Sul, para fora da sombra da
saliência, descrevendo depois uma curva ascendente. Contornou o
grande afloramento de pedra e seguiu para Norte, em direção ao
Rio Ramr.
Durante vários quilômetros o rasto seguia a direito e sempre
nivelado. Mas, quando estavam prestes a sobrevoar o amplo rio,
ladeado de árvores, o rasto começou a descer.
Eragon estudou o solo mais adiante e viu um lampejo vermelho,
junto do sopé de uma pequena colina, do outro lado do rio.
Para ali, disse ele a Saphira, mas ela já tinha avistado Thorn.
Saphira desceu em espiral e aterrou suavemente no topo da
colina, onde tinha a vantagem da altura. O ar perto da água era
fresco e húmido, arrastando consigo o cheiro a musgo, lama e
seiva. Entre a colina e o rio havia um mar de urtigas. A abundância
de plantas era tão cerrada que a única forma de passar através
delas seria abrindo um trilho. As folhas escuras e serrilhadas
roçavam umas nas outras, produzindo um sussurro suave que se
misturava com o ruído da água a correr no rio.
No limiar das urtigas estava Thorn. Murtagh estava junto dele a
ajustar a correia da sela.
Eragon desprendeu Brisingr do cinto e aproximou-se
cautelosamente.
Murtagh disse sem se virar:
— Vieste deter-nos?
— Depende. Para onde vão?
— Não sei. Talvez para Norte... algures para longe das pessoas.
— Podias ficar.
Murtagh deixou escapar uma gargalhada amarga.
— você sabes que não. Só daria problemas a Nasuada. Além
disso, os Anões jamais iriam concordar. Depois de eu matar
Hrothgar, nunca. — E olhou Eragon por cima do ombro. —
Galbatorix costumava chamar-me Assassino de Reis. Agora
também você és um Assassino de Reis.
— Parece que é de família.
— Nesse caso, é melhor ficares de olho em Roran... Arya é uma
Assassina de Dragões. Matar um dragão não deve ser nada fácil
para ela... sendo um elfo. Devias falar com ela para teres a certeza
de que está bem.
Eragon ficou impressionado com a perceção de Murtagh.
— Falarei.
— Pronto — disse Murtagh, dando um puxão à correia. Depois
virou-se para encarar Eragon, que reparou que ele segurava
Zar’roc junto ao corpo, desembainhada e pronta a usar.
— Volto a perguntar, vieste deter-nos?
— Não.
Murtagh sorriu ligeiramente e embainhou Zar’roc.
— Ótimo. Não gostaria de ter de lutar contigo de novo.
— Como conseguiste libertar-te de Galbatorix? Foi o teu
verdadeiro nome, não foi?
Murtagh anuiu.
— Como te disse, eu já não sou... nós já não somos o que
éramos — e tocou no flanco de Thorn. — Só que demorámos um
pouco a entendê-lo.
— E Nasuada.
Murtagh franziu a sobrancelha e desviou o olhar, fixando-o em
frente sobre o mar de urtigas. Eragon reuniu-se a ele e Murtagh
disse em voz baixa:
— Lembras-te da última vez que estivemos neste rio?
— Seria difícil de esquecer. Ainda consigo ouvir os cavalos a
relinchar.
— Tu, Saphira, Arya e eu, todos juntos, confiantes de que nada
nos poderia deter...
Num recanto remoto da sua mente, Eragon conseguia sentir
Saphira e Thorn a falarem um com o outro. Saphira iria certamente
contar-lhe o que se passara, mais tarde.
— O que vais fazer? — perguntou ele a Murtagh.
— Sentar-me e pensar. Talvez construa um castelo. Tenho tempo
para isso.
— Não tens de partir. Eu sei que seria ... difícil, mas tens família
aqui: tens-me a mim e a Roran. Ele também é teu primo...
Pertences tanto a Carvahall e ao Vale de Palancar como a
Urû’baen. Talvez até mais.
Murtagh abanou a cabeça e continuou a olhar em frente, para lá
das urtigas.
— Não iria resultar. Thorn e eu precisamos de passar algum
tempo sozinhos, precisamos de tempo para sarar. Se ficássemos,
iríamos estar demasiado ocupados para tirarmos as nossas próprias
conclusões.
— Mantermo-nos ocupados e em boa companhia costuma ser
uma boa cura para as doenças da alma.
— Não para o que Galbatorix nos fez... Além disso seria
doloroso ficar perto de Nasuada, agora. Tanto para ela como para
mim. Não, tenho de partir.
— Quanto tempo achas que ficarás ausente?
— Até o mundo não nos parecer tão odioso e já não sentirmos
vontade de destruir montanhas e de encher o mar de sangue.
Eragon não tinha resposta. Ficaram ambos a olhar para uma
parte do rio atrás, com uma fiada de bétulas baixas. O vento que
soprava em direção a Oeste agitou mais as urtigas.
Depois Eragon disse:
— Quando já não quiseres estar sozinho, vem à nossa procura.
Serás sempre bem-vindo à nossa lareira, seja lá onde for.
— Viremos, prometo. — E para sua surpresa, Eragon viu um
brilho nos olhos de Murtagh, que desapareceu, um instante depois.
— Nunca pensei que o conseguisses... mas estou feliz pelo fato
de o teres feito, sabes?
— Tive sorte. E jamais teria sido possível sem a tua ajuda.
— Ainda assim... descobriste os Eldunarís nos alforges?
Eragon acenou afirmativamente.
— Ótimo.
Contamos-lhes?, perguntou Eragon a Saphira, na esperança que
ela concordasse.
Ela ponderou por uns instantes.
Sim, mas não digas onde. você contas-lhe a ele e eu conto a
Thorn.
Como queiras. Depois, dirigindo-se a Murtagh, Eragon disse:
— Há uma coisa que acho que devias saber.
Murtagh olhou-o de soslaio.
— O ovo que Galbatorix tinha... não é o único em Alagaësia. Há
mais escondidos no mesmo sítio onde encontrámos os Eldunarís
que trouxemos connosco.
Murtagh virou-se para ele, visivelmente incrédulo. Thorn, por
seu turno, arqueou o pescoço, deixando escapar um urro de alegria
que assustou um bando de andorinhas que estava nos ramos de
uma árvore, ali perto.
— Quantos?
— Centenas.
Por instantes Murtagh mostrou-se incapaz de falar, mas depois
disse:
— O que vais fazer com eles?
— Eu? Acho que Saphira e os Eldunarís devem ter alguma coisa
a dizer sobre isso. Provavelmente, encontrar um lugar seguro para
os ovos chocarem e recomeçar a reunir os Cavaleiros.
— És você e Saphira que os vão treinar?
Eragon encolheu os ombros.
— Tenho a certeza de que os Elfos ajudarão. você também os
poderias treinar, se te reunires a nós.
Murtagh inclinou a cabeça para trás e respirou fundo.
— Os dragões vão regressar e os Cavaleiros também — disse,
rindo baixinho. — O mundo está prestes a mudar.
— Já mudou.
— Sim. você e Saphira tornar-se-ão os novos líderes dos
Cavaleiros, enquanto Thorn e eu viveremos em ambiente selvagem.
— Eragon tentou dizer algo para o consolar, mas Murtagh impediu-o
com um olhar. — Não. As coisas estão como deveriam estar. você e
Saphira serão melhores professores do que nós.
— Não tenho tantas certezas disso.
— Mmm... Promete-me um coisa.
— O quê?
— Quando os ensinares... ensina-os a não terem medo. O medo
é bom em pequenas doses. Mas, quando este nos massacra
constantemente, impede-nos de ser quem somos e de fazer o que
sabemos que está certo.
— Tentarei.
Eragon reparou que Saphira e Thorn já não estavam a falar. O
dragão vermelho mudou de posição e contornou-a até poder olhar
para Eragon. Depois disse através da mente, num tom
surpreendentemente musical:
Obrigado por não teres matado o meu Cavaleiro, Eragon, irmão
de Murtagh.
— Sim, obrigado — disse Murtagh, secamente.
— Ainda bem que não tive de o fazer — disse Eragon, fitando o
olho cintilante, cor de sangue, de Thorn.
O dragão resfolgou e, depois, curvou-se, tocou no alto da
cabeça de Eragon, roçando ao de leve as escamas pelo elmo.
Que apanhes sempre vento e sol de feição.
— Igualmente.
Uma profunda sensação de raiva, mágoa e ambivalência invadiu
a sua mente. Eragon sentiu a consciência de Glaedr envolvê-lo a ele
e, aparentemente, a Murtagh e Thorn, pois estes ficaram tensos,
como se previssem uma querela. Eragon esquecera-se que Glaedr
estava presente e os estava a ouvir, tal como os outros Eldunarís
escondidos na bolsa de espaço invisível.
Quem me dera poder agradecer-te pelo mesmo, disse Glaedr,
num tom mais amargo que a galha de um carvalho. Mataste o meu
corpo e o meu Cavaleiro. A afirmação era franca e simples, o que a
tornava ainda mais terrível.
Murtagh disse algo em pensamento, mas Eragon não soube o
que era, pois tinha sido dirigido unicamente a Glaedr, e ele apenas
acedia às reações de Glaedr.
Não, não posso, disse o dragão dourado. Contudo, entendo que
foi Galbatorix que te levou a fazê-lo e que foi ele que conduziu o
teu braço, Murtagh... Não posso perdoar, mas Galbatorix está
morto e o meu desejo de vingança morreu com ele. O teu caminho
sempre foi duro, desde que nasceste, mas hoje demonstraste que
as tuas desventuras não te vergaram. Viraste-te contra Galbatorix,
quando isso te poderia ter valido apenas dor, e ao fazê-lo
permitiste que Eragon o matasse. Hoje, você e Thorn provaram
merecer em pleno o título de Shur’tugal, embora nunca recebessem
a instrução nem a orientação necessárias. Isso é... admirável.
Murtagh curvou ligeiramente a cabeça e Thorn disse:
Obrigado, Ebrithil, e Eragon ouviu. O fato de Thorn usar o
título honorífico de ebrithil, pareceu assustar Murtagh, pois este
olhou para o dragão e abriu a boca como se quisesse dizer algo.
Depois Umaroth acrescentou:
Sabemos de todas as dificuldades que passaram, pois
observámo-vos à distância, tal como observámos Eragon e
Saphira. E há muitas coisas que vos poderemos ensinar logo que
estejam preparados, mas até lá, saibam o seguinte: nas vossas
viagens, evitem os túmulos de Anghelm, onde jaz o corpo do único
rei Urgal, Kulharvek. Evitem as ruínas de Vroengard e de El-harím.
Acautelem-se com as profundezas e não caminhem por locais onde
o solo é negro e frágil, e o ar cheira a enxofre, pois o Mal está à
espreita nesses locais. Se seguirem este conselho, não encontrarão
perigos que não estejam ao vosso alcance enfrentar, a menos que
sejam alvo de um grande infortúnio.
Murtagh e Thorn agradeceram a Umaroth. Depois Murtagh
olhou na direção de Urû’baen e disse:
— É melhor irmos andando. — Voltou a olhar para Eragon. —
Consegues agora lembrar-te do nome da língua antiga, ou a magia
de Galbatorix ainda te está a confundir?
— Quase que consigo, mas... — Eragon abanou a cabeça,
frustrado.
Depois Murtagh proferiu o nome dos nomes duas vezes:
primeiro para remover o feitiço do esquecimento que Galbatorix
lançara sobre Eragon e depois, uma vez mais, para que Eragon e
Saphira ficassem a sabê-lo.
— Não o partilharia com mais ninguém — disse ele. — Se todos os
feiticeiros soubessem o nome da língua antiga, esta deixaria de ter
qualquer valor.
Eragon concordou, acenando com a cabeça.
Depois Murtagh estendeu a mão e Eragon agarrou-lhe o
antebraço. Ficaram assim por instantes, a olhar um para o outro.
— Tem cuidado — disse Eragon.
— você também... Irmão.
Eragon hesitou e voltou a acenar com a cabeça:
— Irmão.
Murtagh verificou mais uma vez as correias dos arreios de Thorn
antes de trepar para a sela. Quando Thorn abriu as asas e começou
a afastar-se, Murtagh gritou:
— Protege bem Nasuada. Galbatorix tinha muitos servos, mais do
que me revelou, e nem todos estavam ligados a ele apenas por
magia. Eles procurarão vingar-se da morte do seu amo. Mantém-te
vigilante. Há alguns, entre eles, que são ainda mais perigosos que os
Ra’zac!
Depois ergueu um braço para se despedir e Eragon fez o
mesmo. Thorn deu três longas passadas para fora do mar de urtigas
e levantou voo, deixando um rasto de sulcos na terra macia.
O cintilante dragão vermelho voou uma, duas, três vezes em
círculo sobre eles e depois virou para Norte, batendo as asas a um
ritmo lento e constante.
Eragon reuniu-se a Saphira, no topo da pequena colina, e juntos
ficaram a ver Thorn e Murtagh a afastarem-se, diminuindo à
distância até se reduzirem a um ponto brilhante, perto do horizonte.
Uma sensação de tristeza invadiu-os. Eragon ocupou o seu lugar
no dorso de Saphira e os dois partiram da colina de regresso a
Urû’baen.

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